A babá gótica

Adriana Igrejas · Apêndice

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A babá gótica

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A BABÁ GÓTICA

 

ADRIANA IGREJAS

Publicação Independente, com autorização da Editora de

“A babá gótica”, Evolução Publicações

Direitos reservados

E-book disponível na Amazon, 2017

Sumário

1. A Bela Babá

2. Bruxa?

3. A Jovem Lucinda

4. Preconceito

5. Preocupações de Mãe

6. O Jovem Lourenço

7. A Babá Fica

8. Quem Era a Babá

9. Bancando o Detetive

10. A Menina Lisânia

11. Muitas Perguntas

12. Desespero

13. A Ida ao Zoológico

14. Química Explosiva

15. O Fantasma

16. Crime e Castigo

17. Pato Novo não dá Mergulho Fundo 18. Desvendando Mistérios

19. Ciúmes e Revelações 20. Duas Semanas

21. Fim de Jogo

22. O segredo de Lucinda

23. A revelação do Fantasma

24. Não Acabou

25. Elementar, meu caro Perez

26. Enfim, a paz

27. Crianças Sabem de Tudo

28. Epílogo

CAPÍTULO I

 

A BELA BABÁ

 

avisos de sua mãe para que não o fizesse. E gritou Ana Beatriz abriu a porta, apesar de todos os

assustada com o que viu. Lá, parada diante da

menina, estava uma mulher que correspondia à

descrição de uma bruxa de filme de terror – toda de

preto, com maquiagem pesada (sombra e batom

pretos nos lábios), piercings no nariz e correntes

pesadas em sua cintura.

− Mamãe! – gritou a menina de cinco anos

quase chorando.

A mãe apressou-se em chegar até lá. Devia ser a babá excêntrica com quem relutantemente

aceitara conversar, depois de receber os maiores

elogios de duas conhecidas: “Ela assusta pela

aparência. Mas não se deixe levar por isso e você

não vai se arrepender”.

Analice não se assustou menos que a filha,

apesar de já ter sido avisada pelas amigas da

aparência mórbida que a babá apresentava. Mas

controlou suas emoções conturbadas sobre a

primeira impressão da moça, que a compelia a

despachá-la de imediato. Disfarçou sua surpresa,

tentando manter no semblante sua calma habitual,

quando por dentro gritava que aquilo era um

absurdo. Como poderia submeter sua doce filhinha

àquela imagem de pesadelo dia após dia? Onde

estava com a cabeça? Não era como se estivesse

desesperada por uma babá. Certo, certo, as últimas

três foram um desastre!

A primeira era tão mal educada, que após uma semana, Ana Bia tinha enriquecido seu vocabulário

com vários palavrões. A segunda era incapaz de se

lembrar de dar os remédios de alergia à menina. E a

terceira, ah, a terceira tinha problema de rotacismo.

Sim, aquela troca do l por r em encontros

consonantais que nunca sabemos se é devido à falta

de estudo e por convívio com uma comunidade

igualmente carente de correção linguística ou se é

um problema de língua presa. Mesmo fazendo tudo

para não ter o preconceito linguístico, Analice

simplesmente não conseguia achar normal a filha

falando expricar, ingrês, Framengo e por aí vai.

É complicado, mas tinha entendido o quanto

um adulto pode influenciar uma criança ainda em

tenra idade. Isso a assustava muito. Queria muito

poder ficar em casa com Ana Beatriz, como havia

feito nos últimos cinco anos. Largara tudo para

ficar com ela. Mas agora que tinha feito trinta anos,

tinha medo de que, se recusasse a oferta de emprego excelente que tivera, estivesse jogando

fora sua última chance de retornar ao mercado de

trabalho e à sua carreira. Analice era analista de

sistemas, era muito boa e sabia disso. Tanto que

quando pediu demissão para ficar em casa com a

filha, sua empresa lhe fez uma proposta para

trabalhar em casa com o mesmo salário e, um

possível aumento. Ela aceitou, é claro. Mas não

funcionou. Não podia prever o quanto as funções

de mãe eram exigentes e ela simplesmente não

conseguia cumprir os prazos. Acabou se demitindo

de vez.

A decisão foi tomada em conjunto com

Humberto, seu esposo, que como todo homem,

ainda que moderno, tinha a fantasia de ser o

provedor único do lar e ter uma esposa que só

ficasse em casa, ainda que seu primeiro casamento

tivesse sido assim e não tivesse dado certo. Talvez

por ter se casado tão cedo... Ficou casado por dez anos e sua primeira esposa e perfeita dona de casa o

entediava. Há dois anos ela teve um câncer e

faleceu. Seu filho então passou a morar com ele e a

nova esposa, Analice, e a irmãzinha Ana Beatriz.

Analice tinha uma boa relação com o enteado,

Lourenço, agora com dezenove anos. Longe de ser

aquele adolescente revoltado e malcriado que ela

esperava de tanto ver filmes de madrastas, o rapaz

sempre foi educado, gentil com ela, estudioso e

prestativo. Sempre ajudou a tomar conta da

irmãzinha, que ele adorava. Brincava com ela,

contava histórias. Não só Ana Beatriz gostava de

brincar com o meio irmão, mas também ele se

divertia. Mas agora, no segundo ano de medicina,

não tinha mais tempo para nada e muito mal

voltava para casa nos finais de semana. Algumas

vezes preferia ficar no alojamento da universidade

para estudar também nos fins de semana.

Ela realmente precisava de uma babá digna de confiança, que pudesse chegar bem cedo e ficar até

tarde. Que pudesse vir também nos finais de

semana, vez ou outra. Ela queria demais, sabia. As

amigas lhe disseram que aquela ali faria tudo isso.

No entanto, custava-lhe acreditar. Que menina da

idade dela aceitaria ficar sem alguns finais de

semana, depois de ter trabalhado tanto durante a

semana? Observou-lhe os olhos de um azul

profundo. A pele branca e os olhos claros pareciam

contrastar com os cabelos, pretíssimos. Aquela com

certeza não era sua cor natural de cabelo.

Tirando as esquisitices, a menina tinha um rosto

bonito e não parecia nada com o tipo de moças que

costumavam se candidatar a babá. Ao contrário de

países como os EUA em que adolescentes de classe

média exercem essa função, no Brasil, as babás são

normalmente muito pobres mesmo, trabalham

quando jovens, para ajudar a família e, quando

mais velhas, para sustentar uma.

− Oi. Eu sou a Lucinda! A babá!

− É! Quer dizer, oi! Entra, entra...

A moça entrou sem nenhum embaraço. Cabeça

erguida, andar firme. Nenhum vestígio da

humildade e olhar cabisbaixo que costuma

acompanhar os trejeitos das amas, nem sinal da

admiração que elas costumavam registrar ao

verificar um apartamento luxuoso. Parecia à

vontade no ambiente. Mas foi educada e esperou

pelo convite para se sentar.

Analice pediu à filha que fosse brincar no

quarto enquanto ela conversava com a moça. A

menina obedeceu correndo. Ainda estava assustada

pela aparência de Lucinda. Analice também não se

sentia exatamente confortável.

− Então, é... Você foi muito bem recomendada.

− Obrigada − disse sorrindo.

− A Tânia e a Débora me disseram que você

não se importa em chegar cedo ou sair tarde, nem de trabalhar no final de semana.

− É isso mesmo. Posso ser uma babá de tempo

integral se a senhora quiser, precisar...

− Não que eu não ache ótimo, lógico que eu

pagaria pelas horas extras... Mas, eu fico me

perguntando..., por quê? Você tem dezenove anos,

não é? Não tem uma vida social, um namorado,

um...?

− Não mesmo – respondeu de forma sucinta e

seca para em seguida abrir um sorriso e falar mais

serenamente. – No momento estou só me

dedicando a este trabalho.

− Ao trabalho de babá? – indagou incrédula.

− É.

− Por quê? – A pergunta escapou mesmo ela

sentindo que a moça não queria entrar em detalhes

sobre sua vida pessoal. – Desculpa. Mas não posso

deixar de perguntar. Minhas amigas me falaram

alguma coisa sobre você querer estudar psicologia infantil.

– Isso! Eu quero ir para a faculdade ano que

vem e... cursar psicologia. Quero me especializar

em psicologia infantil, por isso decidi trabalhar

como babá durante esses dois anos.

– Antes de ir para a faculdade – concluiu

Analice ainda incrédula. Que tipo de jovem

pensaria em uma experiência prática antes de uma

teórica?

– É... Por isso só fico seis meses em cada

emprego. Assim em dois anos vou poder ter

observado quatro crianças diferentes. Sua menina é

minha última.

– É essa parte de minha filha ser uma cobaia é

que eu não gosto.

Lucinda refletiu por um instante. Aquela parte

sempre era difícil.

– Não vou tratar sua filha como cobaia. Ela é

uma criança. Vou tratá-la como criança. Vamos brincar, nos divertir, conversar. Vou cuidar dela

como a senhora recomendar. Vou dar minha total

atenção a ela.

– E ficar só seis meses... – Analice pensava em

todos os contras.

– Aposto que a senhora teve babás que duraram

menos. Nunca se sabe o quanto vão ficar, não é?

– É, mas e se a criança se apega?

– A criança tem que se apegar aos pais. A babá

é só uma figura amiga, como a professora da

escola. A cada ano elas têm uma nova. Além disso,

vou fazer o mesmo que fiz com suas amigas: antes

de sair, vou ajudar a arranjar uma babá perfeita

para ficar por um bom tempo.

Analice parecia convencida, mas ainda receosa.

A babá era, no mínimo, um pouco arrogante. Já se

achava doutora em psicologia infantil? A super

Nanny? Como ela podia achar que seria melhor

juíza de babás que a mãe da criança? Tinha muitas dúvidas e medos. Mas o que mais a incomodava

parecia não querer sossegar sem uma explicação,

apesar de as amigas terem lhe recomendado não

tocar no assunto.

– Me desculpe. Eu sei que posso até ofender

você, mas... Olhe, me desculpe mesmo... Mas você

sempre se veste assim?

Lucinda sabia que ela iria perguntar. Elas

sempre perguntavam. Simplesmente não

conseguiam não fazê-lo. Suas emoções eram um

misto de mágoa e compreensão.

– Sempre – disse sorrindo e já esperando pela

outra pergunta que ela sabia que viria.

– Por quê?

Lucinda respirou fundo. Não podia contar toda

a verdade.

– O jeito de eu me vestir é uma maneira de me

expressar. É minha identidade, meu gosto... É

muito pessoal. E uma das poucas condições que coloco para esse trabalho. Não reclamo do salário

que a senhora quiser me pagar, trabalho todas as

horas extras que precisar e nem faço questão de

receber por elas. Só preciso que respeitem meu

jeito de ser e vestir.

Analice ficou pensativa: “Aquela menina tinha

realmente dezenove anos? Era tão firme e madura...

Mas aquela aparência...”

– E o que você é exatamente? Gótica, emo,

roqueira...?

– Roqueira, gótica, um pouco de Emo... nada

específico. Sou apenas eu!

Resposta estranha. Se era para se expressar, por

que não tinha o perfil definido? Algo não batia.

Analice estava muito preocupada. À sua mente veio

uma imagem muito tenebrosa da babá colocando

sua filhinha em um altar de sacrifícios com velas

vermelhas acesas ao redor. Tinha escutado histórias

sobre satanismo e paganismo, bruxaria... Que droga! Ela não acreditava naquelas coisas! Mas, e

se a babá acreditasse e fizesse? ...Bobagem! Suas

três melhores amigas a adoravam e suas crianças

estavam inteiras e bem!

– Sei. Tudo bem. É, desculpe. Sei que não

devemos julgar as pessoas pelas aparências, mas

você deve entender que para cuidar dos filhos da

gente... É meio estranho, né?

Analice sabia que era loucura. Sabia que o

marido teria um ataque, o enteado, todo certinho e

bom moço, teria um ataque, Ana Beatriz teria um

ataque! Ah, as vizinhas iam ter o que falar! Ah,

logo ela que sempre se preocupou com aparências...

– Tudo bem. Vai depender da Bia. Se ela se

acostumar com você, tudo bem. Vamos acertar os

detalhes.

CAPÍTULO 2

 

BRUXA?

 

no chão com várias bonecas espalhadas. Ela Ana Beatriz brincava em seu quarto, sentada

segurava uma em cada mão e mexia com elas para

simular movimentos de uma pessoa enquanto fazia

alternadamente as vozes das bonecas:

– Eu não tenho medo de bruxas! Bruxas não

existem!

– Existem sim!

– Só na televisão! Sua boba!

– Existem sim. Eu vi uma!

– Só na televisão e nos livros...

– Ela está lá com a mamãe... toda de preto...

“sustadôla”!

– Ela é uma bruxa?

Nesse momento Ana Beatriz registrou a

presença da babá que observara a conversa de suas

bonecas. Abraçou as duas bonecas com força e deu

um pulo para trás. Estava com medo.

– Oi – disse Lucinda sorrindo. – Não tenha

medo! Não vou machucar você.

Analice tinha concordado, meio a contragosto,

com que Lucinda falasse a sós com a menina.

– Meu nome é Lucinda. Você é Ana Beatriz,

né?

A menina moveu apenas a cabeça

afirmativamente, sem tirar os olhos da babá e ainda

agarrada às bonecas.

– Eu queria ser sua amiga. A sua mãe disse que

você é muito legal.

– O que você fez com a minha mãe? – sussurrou ainda com medo.

– Nada. Nós conversamos. Ela me deixou vir

aqui falar a sós com você.

– Você é uma bruxa?

Lucinda riu e entendeu melhor o conflito da

menina.

– Na verdade... – começou cautelosa, enquanto

se sentava no chão para ficar perto da menina – eu

sou sim – disse temerosa para ver Ana Beatriz

arregalar os olhos. – Mas não se preocupe, estou

sem meus poderes.

– Por quê? – A curiosidade venceu o medo.

– Estou de castigo. Você já ficou de castigo?

– Já. Mas só quando faço coisa feia e a mamãe

briga.

– Pois é. Eu fiz coisa feia. Eu fui uma bruxa

muito má, mas aí... eu fui castigada e agora estou

tentando ser uma bruxa boa. Você podia me ajudar

a ser boa?

A menina relaxou e quase sorriu. Torceu seu

narizinho.

– Acho que você podia trocar de roupa para

parecer boazinha...

– Ah, não! Você não sabe? ...Bruxas más se

vestem de muitas cores. Quando eu era má, eu

vestia muito cor-de-rosa.

– É mesmo? – registrou com surpresa genuína e

infantil.

– É sim. Você não pode saber quem é bruxa ou

princesa pela roupa. As bruxas más se disfarçam...

E as boas também... Eu agora visto preto, cinza e

estas coisas – mostrou as correntes. – Assim, as

bruxas más não vão me achar e me levar para o

caminho do mal de novo.

– Puxa! Mas a Cinderela veste aquele vestido

azul brilhante... A bruxa da Branca de Neve veste

capa preta!

– É, mas a madrasta da Cinderela não veste roupa preta! Como a gente sabe que ela é má?

– É mesmo! – concluiu a menina como se

aquilo fosse uma grande revelação.

– E se a bruxa má se disfarçasse de Cinderela e

fizesse a Cinderela se vestir de bruxa? Como você

ia saber quem é quem?

Lucinda viu que talvez tivesse ido longe

demais. A garotinha parecia confusa, muito

confusa. Mas, de repente, ela se levantou de um

salto com o entendimento infantil levado ao

máximo.

– Entendi! É como o Shrek! Ele é feio e

“sustador”, mas é bonzinho! E o príncipe

Encantado no Shrek é mau!

– Isso mesmo!

– Então, como vou saber quem é bom e quem é

mau? – choramingou.

– Pelas coisas que as pessoas fazem.

Observando...

– Hum... – assentiu pensativa. – Papai diz que a

gente pode ver coisas das pessoas olhando nos

olhos. Também ajuda?

– Ajuda! Se a gente souber olhar...

– Posso olhar nos seus olhos?

Lucinda consentiu e ficou de quatro, de frente

para Ana Beatriz. A garota olhou bem nos olhos

dela e ficou encantada pelo azul profundo.

– Você tem olhos lindos! Acho que podemos

ser amigas!

– Ótimo! Mas então você tem que guardar

segredo, não pode contar a ninguém que eu sou

uma bruxa!

– Claro, claro. Ninguém ia acreditar mesmo!

 

* * *

 

Analice mal acreditou quando Lucinda

apareceu de mãos dadas a Ana Beatriz à porta da sala, as duas rindo juntas como velhas amigas que

acabam de se reencontrar. Ela teve que admitir que,

tirando as roupas e um pouco de sua introspecção,

Lucinda não tinha nada de sombrio. Seus olhos

eram vívidos e esperançosos e ela exalava bondade,

apesar de parecer carregar uma tristeza pessoal.

Mas quem era ela para analisar tanto assim uma

pessoa? Era analista de sistemas. Analisava

máquinas. Não pessoas. Nunca se importara em

explorar o que os olhos das outras babás diziam.

Bem, talvez porque não dissessem nada. Eram meio

ocas. Só se via um vazio... Credo! Pensando agora,

como pôde deixar sua filha com pessoas de olhar

vazio? Que loucura! Estava pensando demais!

Sim, daria uma chance a Lucinda, a babá

esquisita. Só precisava preparar o terreno. Acertou-

se tudo para ela começar na segunda. À noite

contaria a Humberto.

* * *

 

Por mais que tivesse pensado em formas de

entrar no assunto, achou melhor uma abordagem

casual, como se fosse a coisa mais natural do

mundo a pessoa vestir preto e usar correntes. Então,

naquela noite, durante o jantar, ela simplesmente

anunciou:

– Contratei uma nova babá.

– Graças a Deus! – Tanto a voz quanto o

suspiro de alívio e descontração que se seguiram

mostraram que Humberto tinha realmente se

preocupado com o assunto. – A gente não tinha

mesmo mais como pedir favor a parente ou vizinho,

nem contar com a Danúzia! Nem perder dia de

trabalho, nem eu nem você! Que bom! Ótimo

mesmo! – concluiu com um sorriso de satisfação,

passando até a comer com mais apetite.

– Pois é. Ela veio hoje aqui e acertamos.

– Se você gostou, pra mim está ótimo!

– A Bia também gostou!

– Achei ela “sus-ta-dô-la”! Parece uma bruxa!

– comentou Bia com inocência, chamando a

atenção do casal, deixando Analice em uma

situação difícil e fazendo com que Humberto

levantasse uma das sobrancelhas em sinal de

preocupação. – Mas aí eu vi os olhos dela... Ela é

boazinha. Está disfarçada. As bruxas más hoje em

dia se vestem de rosa... – falou serenamente

esquecendo por completo o segredo que Lucinda

lhe pedira.

Marido e mulher se entreolharam e Analice não

soube a que atribuir o comentário da menina.

– Você gosta dela, Bia? – perguntou o pai.

– Ela é... – iniciou a menina.

– Ela é diferente! – completou a mãe com medo

do que a filha diria.

– Ela tem olhos bonitos – disse Bia animada – e está disfarçada de bruxa.

O desespero de Analice só aumentou. Teria que

contar logo, de uma vez. Despejar:

– Ela usa roupas pretas e correntes.

– O quê?

– É o que acabei de dizer. Ela é tipo... roqueira.

– Tá de brincadeira? – Humberto agora parecia

furioso.

– Não! Mas ela foi muito bem indicada e...

– Essa é a tal que suas amigas falaram que é

ótima? – perguntou com total descrença.

– É sim!

– Uma dessas malucas de cabelo colorido? –

Ele era puro escárnio.

– Preto. – Analice apaziguou. – Alguns

piercings, mas eu não vi nenhuma tatuagem! – O

tom da mãe era exageradamente condescendente.

– Nossa! Que alívio! – Ele borbulhava ironia. –

Ah, tá! É só uma maluca que se veste igual bruxa, cheia de correntes e piercings e...

– Maquiagem pesada – acrescentou ciente de

que agora não devia mais poupá-lo de nada.

– Mas ela é uma princesa! – defendeu Bia. – Tá

disfarçada... – sussurrou com a mão em concha na

lateral da boca como quem conta um segredo. –

Bem, ou uma bruxa boa... uma fada! As bruxas

boas são fadas, né, mãe?

– É, acho que são.

Humberto olhava para a filha e a esposa com

cara de pouquíssimos amigos.

– Conversamos depois, no quarto, Analice!

Analice entendeu que ele não queria mais

discutir o assunto na frente da menina.

Como sempre já era muito tarde quando

conseguiram colocar Ana Bia para dormir. A

menina era um doce, mas fazia de tudo para não ir

para a cama. A conversa do casal que se seguiu foi

tensa e demorada. Analice não soube bem como, mas acabou convencendo o marido. Não tinha nada

a seu favor a não ser a indicação das amigas e uma

sensação boa que os olhos de céu da moça

transmitiam. Provavelmente ele se deixou

convencer por puro desespero. Eles precisavam

trabalhar e concordaram desde o início em não

colocá-la em creche o dia inteiro. Queriam alguém

que lhe desse atenção. E assim, Humberto

concordou.

CAPÍTULO 3

 

A JOVEM LUCINDA

 

Lucinda vestia um short e uma camiseta larga.

Estava estirada sobre a cama, que tinha uma

armação de madeira antiga e um colchão tão velho

que tinha depressão em alguns pontos, o que o

tornava bastante desconfortável. Tinha um livro em

mãos: Princesa de gelo de Thayane Gaspar. Tinha

feito uma pausa na leitura para refletir sobre o

comportamento depressivo da protagonista. Queria

muito entender aquilo. Porque aquele tipo de

comportamento suicida e intimista era o mesmo

dela. Aquela garota. Aquela garota: Lisânia. Só

que ela não teve um [1] Lacrov para salvá-la. Lisânia

morreu.

A mente de Lucinda visitou lugares de um

passado próximo enquanto seus olhos vagavam

perdidos pela pequenez e mediocridade do quarto

que era seu lar há um ano e meio. As mesmas

paredes brancas, agora mais encardidas e

descascadas. Uma única lâmpada no teto sem

nenhum lustre ou ornamento, apenas a lâmpada e o

bocal. Um pequeno guarda-roupas de madeira

aglomerada, caindo aos pedaços e uma cômoda de

madeira velha que tinha um leve odor de mofo.

Cada móvel tinha estilo, material e tonalidade

diferentes, o que evidenciava que o quarto era

apenas mobiliado, não decorado. Mas nada disso

incomodava Lucinda, que já se acostumara há

muito com o cubículo espartano. Nem televisão

tinha.

Sentou-se na cama e pôs os pés no assoalho frio

de lajotas quando escutou uma batida à porta.

Buscou com os pés os chinelos e os calçou. Consultou as horas no celular de modelo simples

que mantinha embaixo da cama, na ausência de

uma mesa de cabeceira, para fazer as vezes de

despertador. Já passava das 22h. Quem poderia ser?

Não a senhoria, já havia pagado o aluguel...

Abriu a porta com receio. Não havia nenhum

olho mágico, nem janela de onde checar quem era o

visitante. Era seu pai.

– Lucinda.

– Oi, pai. O que está fazendo aqui?

– É aqui que você mora, né?

– É.

– Posso entrar?

Em vez de responder, ela cedeu-lhe espaço para

passar. Ele entrou e com três passos havia coberto

todo o comprimento do quarto. Ficou

desconfortável ali. Olhando aflito para um cenário

de pobreza ao qual não estava acostumado.

– Senta aí na cama, pai. Não tem outro lugar.

Sim, ele já havia reparado. Conformado,

sentou-se e sentiu-se grande demais para aquele

espaço sufocante. Ele parecia cansado e mais velho,

com menos cabelo. Lucinda sentiu pena dele.

– Então é aqui que você vive – concluiu o óbvio

como uma evidente tentativa de iniciar uma

conversa.

– É.

Ela continuava de pé. Não sabia o que esperar

da visita do pai, mas a julgar pela última vez em

que se falaram, um ano e meio atrás, não podia

esperar que ele a tratasse com carinho.

– Por quê? – A voz dele demonstrava dor e isso

tocou Lucinda. Ela esperava agressão, ironia,

desprezo, mas não dor.

– Você sabe, pai!

– Não, eu não sei – disse endurecendo a voz.

– Eu expliquei tudo na última vez que

falamos...

– Você me contou uma história fantástica sobre

fantasmas! – Ali estava a agressividade de volta.

– Não, pai. Acho que você não entendeu...

– Então, não tem nenhum fantasma!

– É complicado. Olha, eu não quero ter que

repetir tudo. Se você não entendeu...

– Tudo bem. Deixa pra lá. Volta comigo pra

casa! – O olhar dele mostrava uma súplica

verdadeira que derrubou os muros que Lucinda

sustentava.

– Pai! – Ela queria muito dizer sim. Mas querer

nem sempre era poder. – Não posso!

– Por quê?

– Você sabe por quê.

Ele se levantou e olhou em volta, mas vendo

que não havia espaço para sua agitação, sentou-se

de novo.

– Lucinda! Você está vivendo em um cortiço!

Você sabia que aqui vivem meninas de profissão duvidosa?

Lucinda olhou para ele em desdém. É claro que

ela sabia quem morava ali. Estava ali há um ano e

meio!

– Quase tive uma discussão com sua senhoria!

Tive que jurar que era seu pai. Ela achou que eu era

seu cliente! Disse que não permite que as meninas

recebam clientes aqui! Você vive num antro de

prostitutas! Me diz uma coisa: ela não sabe que

você é babá..., ou sou eu que não sei que você é

prostituta?

Aquele, sim, era o Seu Josué que ela conhecia.

Irritadiço e desconfiado. Juiz de tudo e de todos.

– Pai! Como pode pensar isso de mim?

– Então posso ficar tranquilo?

– Não me conhece?

– Conheço! Mas não vejo você há um ano e

meio. E a educação que lhe dei não incluía a sua

transformação em um morcego e nem em uma babá...

Ele olhou para ela e reparou, então, que ela

estava sem aquela maquiagem horrorosa e sem

piercings, e as roupas que usava eram claras. Só o

cabelo continuava com um corte louco e preto

azeviche. Mesmo assim queria abraçá-la.

Lucinda cruzou os braços e esperou. Não ia

responder àquilo.

– Você não vai voltar para casa?

Ela negou com a cabeça.

– Agora não! Só no final do ano. Para o Natal!

– tentou sorrir. – Dois anos. Eu lhe disse que eram

dois anos.

– Sei. E então vou ter minha filha de volta? –

Agora ele suplicava de novo.

– Vai! – Ela sorriu e ao mesmo tempo em que

ele se levantou, ela foi em sua direção. E se

abraçaram. Mas ela sabia que a filha que ele teria

de volta não seria mais a mesma.

Ambos mantiveram lágrimas suspensas.

Quando se olharam havia uma promessa e um até

lá no ar.

– Promete que vai fazer o vestibular de novo?

– Claro. Já estava nos meus planos. Ano que

vem vou para a universidade.

– Ótimo. Precisa de dinheiro?

– Não, pai. Obrigada. Eu trabalho, lembra?

– Tá.

Ele lhe deu um beijo e saiu. Ela o acompanhou

até o portão da vila de casas e quartos.

Se seu pai a tivesse procurado há um ano, ela

teria fraquejado. O começo foi muito difícil. Mas

agora, o que era tormento se tornara suportável, e o

que era incômodo se tornara um prazer; a pessoa

que ela era não existia mais. Só mais seis meses.

Aprendera tanto em um ano e meio! O que mais

aprenderia nos seis meses restantes? Ela tinha uma

missão e ia cumprir. Depois? Não sabia.

CAPÍTULO 4

 

PRECONCEITO

 

Às sete e meia da manhã da segunda-feira, já no escritório, Analice

tentava desesperadamente ligar para casa. Tinha

deixado Ana Beatriz com Lucinda e tinha deixado

tudo anotado: a rotina da escola e cursos, a rotina

caseira, as refeições, remédios e vitaminas, os

telefones de contato no trabalho, os celulares, tudo.

Lucinda estranhamente lhe passou muita segurança

e ela não estava ligando porque estivesse

preocupada com Ana Beatriz. Estava preocupada

sim era com Danúzia, a empregada doméstica da casa que chegaria até as oito e não sabia nada sobre

Lucinda. Tentara ligar para o celular dela

inutilmente durante todo o final de semana. Mas só

dava caixa postal e ela não tinha outro número para

contato. Sua última esperança era falar com ela em

sua casa mesmo, logo que chegasse. Mas pela

segunda vez foi Lucinda quem atendeu. Acabou

deixando por conta da babá, que garantiu que se

apresentaria e que não haveria problema algum.

Felizmente ela não estava lá para escutar o grito

que Danúzia deu quando entrou na cozinha e

encontrou Lucinda preparando um Nescau. A pobre

se encostou no armário da cozinha para não cair e

pôs a mão no peito.

– Jesus! Ó, pai! Ó, pai! O que é isso?

Lucinda não se abalou e até achou um pouco

engraçado. Conteve-se para não rir.

– Calma. Eu sou Lucinda...

– Luci... Lúcifer! É o que você é! – gritou, enquanto de acuada e apavorada se armava de sua

fé intolerante, retirando uma Bíblia de capa preta da

bolsa que ainda trazia a tiracolo, assustando

Lucinda, que por um segundo pensou que poderia

ser uma arma.

A mulher segurou a Bíblia contra o peito como

um escudo e começou seu ataque verbal:

– Lúcifer!

– Não! Lu-cin-da!

– Lúcifer! Filho de Belzebu! Sai desta casa! Sai

daqui, criatura imunda! Besta dos infernos!

Lucinda não contava com que a empregada

fosse religiosa do tipo fanática. Talvez por isso,

dona Analice estivesse tão preocupada...

– Olhe, se acalma e para de gritar, senão vai

acordar a menina.

– Ai, Jesus! Meu Deus! Você fez mal à

menina?

A mulher estava alterada, mas ainda com medo, indecisa entre atacar ou se defender. Lucinda sabia

que tinha exagerado na maquiagem. Foi por medo

de aliviar demais. Não podia perder a identidade

para agradar ninguém. Mas o escândalo da mulher

estava começando a irritá-la.

Ela se aproximou com cuidado e pôs a mão

sobre a Bíblia da mulher, que arregalou os olhos de

pasmo. Manteve sua mão ali.

– Viu? Posso tocar a Bíblia. Não sou a besta.

Não vim dos infernos e meu nome não é Lúcifer, e

sim, Lucinda. – Sua voz era calma, mas firme.

Quase didática. – Se eu fosse o filho de Satã, minha

mão estaria queimando agora, né?

A mulher concordou com a cabeça enquanto

Lucinda se afastava.

– Eu sou a nova babá. Dona Analice me

contratou.

– Jesus! E por que você está vestida de bruxa?

De membro de seita satânica?

– Só estou usando uma blusa preta, um jeans

preto rasgado e algumas correntes e piercings.

– Isso é símbolo do demônio! – disse apontando

para o cordão que a moça usava.

– Não, não é. É só uma estrela de cinco

pontas...

– Não é o que a minha religião diz. Essa

maquiagem, cabelo, essas roupas de cor das

trevas...

– Trevas? – Agora Lucinda não conseguia

segurar a ironia. – Preto é cor das trevas? Então

você também é serva das trevas, porque não sei se

alguém já te disse, mas você é negra, mulher!

– Isso é racismo!

– Não, não sou eu quem está dizendo que negra

é cor ruim. Você é que está dizendo que preto é

coisa das trevas... Você é que está de racismo

comigo!

– Mas você é branca!

– É preconceito do mesmo jeito! Com as

minhas roupas! Você está me julgando e me

condenando! Você gosta quando te discriminam

por ser preta? Como acha que me sinto? Não

julgueis para não serdes julgados! Não é isso que

diz na Bíblia?

Lucinda pôde ver que a mulher estava um

bocado confusa. Em minutos ela a fizera pensar

mais que em meses, supôs. Todos os paradigmas

religiosos e sociais que ela possuía foram

questionados e postos em xeque. Seus arquétipos

hermeticamente fechados em uma caixa escrito

“não abra” estavam sendo sufocados diante

daquela lógica esmagadora.

– Mas, não é de Deus... – Ela ainda relutava

repetindo frases feitas de sua moral cristã. – Não

agrada ao Senhor...

– Por quê, Danúzia? É Danúzia, não é? Por que

Deus iria se importar se eu me visto assim, se o filho dele ajudou leprosos e até uma prostituta? Ele

não discriminava... – falou a filha de um ateu, que

não sabia até aquele momento que sabia tanto da

Bíblia.

Danúzia não largava a Bíblia e parecia cada vez

mais confusa.

– Mas se você acredita na palavra, por que não

segue?

– E se eu fosse Jesus disfarçado? Ia me atirar

pedras? Me crucificar? – Agora ela pôde ver que

tinha exagerado. Ia deixar a mulher louquinha. Era

melhor aliviar. – Tudo bem. Olha, eu sou apenas a

babá. Eu sou esquisita e uso essas roupas

esquisitas. Mas sou inofensiva. Não faço o mal... –

Pelo menos no momento ela não fazia mal a

ninguém. – Quem sabe nós podemos até ser

amigas? – concluiu estendendo a mão para ela

apertar.

Danúzia estendeu a mão e apertou a da outra com cara de nojo.

– Vou ficar de olho em você. Se vier com

artimanha do demo...

– Sem artimanha. Sem demo, prometo –

concluiu divertida.

CAPÍTULO 5

 

PREOCUPAÇÕES DE

 

MÃE

 

sua terceira criança. A primeira tinha sido difícil, Não era a primeira vez de Lucinda como babá. Era

mas ela conseguira fazer um bom trabalho. E se

tinha aprendido uma coisa naquela profissão era

que cada criança era diferente. Aqueles seres

minúsculos com cheirinho de talco, de pele fresca e

macia, com carinha de anjos tinham cada qual uma

personalidade distinta. Eram microcosmos de

inocência, vontades, manhas e idiossincrasias.

Nenhuma criança era igual a outra, mesmo que

fossem irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma

mãe, com a mesma educação, frequentando a

mesma escola... e ainda tão pequenos... O que os

fazia ser diferentes em meio a um mundo de

coincidências e fatores comuns, se eram ainda tão

novinhos? O que construía suas personalidades? De

onde eles traziam aquilo? Nasciam assim? Como?

Era genético? Era o espírito que já trazia

experiências? Porque certamente não eram só fruto

do meio.

Ana Beatriz era uma garotinha linda e doce que

ainda acreditava em princesas e bruxas ou, preferia

acreditar. Crianças gostam de ser crianças pelo

maior tempo possível e, quanto mais se isolam em

um mundo de fantasia, afastadas da realidade, mais

tempo conseguem preservar seus mundinhos de

inocência e contos de fada.

Pelo que Lucinda conversou com a mãe da menina, Ana Beatriz às vezes era manhosa e

teimosa. Tinha acessos de choro quando

repreendida ou quando via algo que considerava

triste. Era muito sensível. Lucinda sabia que tinha

se arriscado um pouco ao revelar à menina sua

identidade de bruxa má convertida em bruxa boa.

Crianças daquela idade não guardavam segredos.

Mas ela precisava acalmar a mãe, ganhando a

confiança da filha. De qualquer forma, ninguém

acreditava em crianças pequenas ainda mais se o

assunto fosse bruxas...

Ana Beatriz tinha uma rotina a ser seguida. Ela

estudava à tarde, Pré-escola II. Então, tinha que

estar pronta para a escola, de banho tomado e

almoçada às 12h30min – hora em que deveriam

sair de casa. Isso significava começar todo o

processo: banho, almoço, preparação do lanche a

ser levado e arrumação da mochila às 10h30min.

Às quartas e sextas, ela tinha balé das 9h às 10h e às terças e quintas, natação no mesmo horário. Isso

significava acordá-la cedo, arrumá-la e levá-la para

as aulas e ficar lá durante aquela horinha junto de

mães e outras babás e enfrentar os olhares

estranhos que lhe lançariam com certeza e trazê-la

de volta em meia hora para começar a arrumação

para a escola. Tudo era relativamente perto: escola,

clube, escola de balé. Então tudo o que ela tinha de

fazer era andar até lá com a menina e as bolsas.

À tarde tinha folga, pois a menina estava na

escola. Mas de qualquer forma, estaria presa o dia

todo, nem valia a pena voltar para “casa”, pois

perdia muito tempo no transporte e este, no

trânsito. Muito trabalho para ficar duas horinhas em

seu “muquifo”. Aproveitaria melhor seu tempo no

quarto de empregada, que Danúzia não utilizava,

estudando. Iria prestar vestibular naquele ano,

precisava estudar. Antes das cinco, precisava estar

à porta da escola para buscar Ana Beatriz. Então, levá-la até a casa, dar banho, mudar roupa e dar o

jantar. A essa hora, Danúzia já teria ido embora − a

empregada limpava, lavava, passava, arrumava e

cozinhava. Nada mais. Entrava pontualmente às

oito horas e saía pontualissimamente às cinco da

tarde. A menina era de total responsabilidade de

Lucinda.

Após o jantar, brincavam, conversavam e

assistiam a desenhos na tevê ou a DVDs. Por volta

das oito, Analice chegava para colocar a filha na

cama e contar-lhe uma história, dar-lhe um pouco

de “tempo de qualidade”, fazer seu papel de mãe e,

ainda assim carregar a culpa que irremediavelmente

as boas mães modernas que têm uma carreira

carregam − o dilema que começou no século XX e

estende-se pelo século XXI: como ser mãe e

trabalhar fora ao mesmo tempo? Como não

prejudicar nenhum dos lados? Ela se punia e sofria.

Tão doloroso quanto ficar em casa como mãe de tempo integral amargando não exercer uma carreira

para a qual estudou e se preparou, era também ter

essa carreira de volta e se sentir culpada por isso,

por deixar sua filha o dia todo com uma estranha. E

bota estranha nisso!

Analice passou os dias daquela semana aos

sobressaltos, extremamente preocupada e receosa.

Dava muitos telefonemas por dia para Danúzia e

para a própria Lucinda. Pedia para falar com a

filha. A cada telefonema tranquilizava-se. A voz de

Lucinda parecia a de um anjo, o que a fazia se

sentir tola por se alarmar tanto. A voz da filha era

sempre alegre e bem-disposta e Danúzia meio a

contragosto admitia que a moça medonha se

comportava direitinho. Lógico que Danúzia a

deixou desesperada no primeiro dia, ao esperá-la

depois de seu horário, só para se queixar:

− Dona Analice! Que moça esquisita é essa que

a senhora arrumou para babá!

− Danúzia, ela foi muito bem recomendada.

− Pelo cão, né? Coisa do demônio! Toda de

preto! Cara cheia de pintura preta! Cheia das

correntes do inferno! Até a unha é preta!

Analice teve que respirar fundo. Já havia

verificado que a filha estava bem, sorridente e que

adorava a babá recém-contratada. Lucinda já lhe

relatara o estranhamento das mães e de outras

babás na escola, mas tudo estava resolvido. A moça

era eficiente e organizada.

− Ela causou algum problema?

− Não – respondeu de má vontade. – Mas...

− Ela destratou você?

− Não, mas...

− Ela foi mal educada, grossa...? Fez alguma

coisa de errado?

− Não, mas...

− Então, não estou entendendo...

− Dona Analice! Não viu o jeito que ela se veste? Aquele cabelo!

− Isso é preconceito, Danúzia!

− Ah, agora a senhora vai “vim” com a mesma

história da Lúcifer...

− Lúcifer! Para com isso, Danúzia! O nome

dela é Lucinda.

− Aquilo não é de Deus! – afirmou catedrática

apontando o dedo com o braço esticado para a

direção em que ficava o quarto de empregada onde

Lucinda estava naquele momento, preparando-se

para ir embora.

− É minha filha. Minha responsabilidade. Você

tá me deixando nervosa. Eu estou vigiando ela, tá?

Estou de olho. Se ela fizer alguma coisa errada...

Danúzia teve que se calar. Depois que ela se

foi, Analice foi até o quarto da filha para encontrá-

la às gargalhadas com a babá. As duas inventavam

vozes e frases engraçadas para cada uma das

bonecas da menina. Analice sorriu e sentiu-se mal, porque não conseguia arrancar tantas gargalhadas

da filha com tanta facilidade e frequentemente não

tinha paciência para aquele tipo de brincadeira.

Após despedir-se da babá, voltou ao quarto e

tentou compensar como pôde. Fez cócegas na filha,

perguntou sobre o dia, contou uma historinha. E a

historinha passou a ser o momento do dia com a

filha, sempre que chegava do trabalho.

O pai chegava um pouco depois e depositava

um beijo na face da menina já adormecida ou

quase. Para ele foi mais fácil aceitar a babá. Não

falava nada. Só levantava uma sobrancelha a cada

vez que a moça era mencionada. Com aquele gesto,

parecia querer dizer à esposa: “Isso é

responsabilidade sua, se algo der errado, você é

responsável...

E assim foi-se a primeira semana. Danúzia

ainda olhava atravessada para Lucinda, mas parecia

menos hostil. Tudo estava dando certo. Ana Beatriz parecia nem sentir a falta da mãe, o que deixava

Analice com ciúmes terríveis, mas feliz por ter

acertado com a babá a despeito de sua aparência

bizarra.

Agora só faltava Lourenço. Se ele chegasse

cedo da faculdade na sexta-feira, encontrar-se-ia

com a moça antes que ela pudesse explicar. Teve

que telefonar para ele. Mas Lourenço era quem

menos lhe causaria problemas. Era jovem, mais

próximo da modernidade. Certamente não acharia

nada de mais uma babá gótica... Além disso, era um

rapaz tão bom, amigável... Ela realmente não devia

se preocupar. Mesmo assim, ligou para ele. Mas

como era comum, quando ele estava em aulas, não

atendeu o celular. Acabou deixando uma

mensagem de texto: A babá é gótica. Por favor,

não estranhe. E esperou que fosse o suficiente.

Lucinda estava feliz. Seu pesadelo não a

incomodou a semana toda. Ana Beatriz era um docinho de menina e ela se afeiçoou a ela muito

rapidamente. A menina era carinhosa e alegre.

Gostava muito dos pais e do meio irmão. Falava

deste último, Lourenço, como se ele fosse alguma

espécie de herói. Enço sabe fazer isso, Enço sabe

fazer aquilo... Enço diz que... Meu irmão vai ser

médico... Lucinda achava muito meigo que a

menina tivesse tanto orgulho do irmão.

No segundo dia, ela quis lhe mostrar o quarto

dele.

− Não, querida. Não é certo entrar no quarto

dele quando ele não está.

− Por quê? Eu faço isso o tempo todo. Ele

deixa.

− E por que você faz isso? Mexe nas coisas

dele?

− Não! Quer dizer, mexo. Só nos “bibi... bibi”...

nos brinquedinhos que ele tem no móvel!

− Bibelôs?

− Ele tem carrinhos iguais aos de verdade e um

globo e uma luneta e um relógio! Você tem que

ver!

− Você é a irmã dele. Pode entrar. Eu não.

− Ah, por favoooooor! – choramingou.

− Não e ponto final.

Já na sexta-feira, por volta das três da tarde é

que Analice recebeu a resposta à sua mensagem:

Como assim gótica? Ele ligara também, mas ela

estava em uma reunião e não pôde atender. Quando

ligasse de volta já seria tarde, ele já teria chegado a

casa.

CAPÍTULO 6

 

O JOVEM LOURENÇO

 

empregada quando ouviu a movimentação no Lucinda estava estudando no quartinho de

apartamento. Alguém entrara e estava falando com

Danúzia. A voz era grave e ela sabia que devia ser

o rapaz – Lourenço, o irmão de Ana Beatriz. Ficou

indecisa sobre se deveria ir até lá se apresentar ou

se seria melhor não se meter onde não foi chamada.

Estava curiosa para conhecer o moço, mas dominou

sua curiosidade e continuou a olhar para as páginas

do livro de História, embora agora não conseguisse

sair do mesmo parágrafo. Sua atenção estava dispersa.

Não demorou muito, no entanto, e Danúzia veio

chamá-la. Lourenço queria conhecê-la. Largou o

livro em cima da cama e ajeitou suas roupas.

Estava toda de preto – camiseta com estampa de

uma banda de rock, calças justas, muitas correntes.

A maquiagem estava caprichada, bem dark.

Respirou fundo esperando que o rapaz gostasse de

rock e tivesse sido avisado sobre... ela.

Quando apareceu na sala, ele estava dedilhando

sobre o tampo de vidro da mesa. Era um rapaz

robusto, de estatura média, bem moreno – concluiu

que a mãe dele devia ser morena, já que o Senhor

Humberto era branco. O tipo lembrou Lucinda dos

indianos. Tinha olhos cor de mel. Era um rapaz

muito bonito.

Ele se virou quando notou sua presença. Ele

não disse nada, mas ela percebeu o choque em seus

olhos. Ele não era um jovem descolado como ela torceu para que fosse. Vestia uma camiseta básica,

jeans e tênis All Star pretos. Usava um relógio

preto digital. Nada mais. Era um rapaz bem

simples. Nenhuma tatuagem visível, nada de brinco

nem orelha furada, nem piercing. Era quase um

mauricinho. Que ótimo! Se ele tivesse pelo menos

um piercing, poderia contar com alguma simpatia

ou compreensão. Mas ele parecia um Senhor

Certinho. Torceu para que as aparências a

estivessem enganando. Estudante de medicina...

Seria inteligente e de mente aberta?

− Boa tarde. É Lourenço, né? – resolveu tomar

a iniciativa, já que ele permanecia calado e olhava

para ela muito sério e com o que pareceu ser um ar

de reprovação.

− É. – A voz parecia igualmente aborrecida,

mais grave e grossa do que esperava dele por sua

aparência e rosto suaves. – E você é a babá gótica.

− Sou.

Mais silêncio incômodo.

Lourenço estava furioso. Que figura macabra

era aquela? O que Analice tinha na cabeça para

contratar a babá da família Adams? E onde seu pai

estava com a cabeça para concordar com uma babá

mórbida de filme de terror? Não podia nem queria

imaginar sua doce irmãzinha nas mãos daquela

pirada horrorosa que estava ali. Ela poderia ser

satanista, maluca, psicopata, desequilibrada,

drogada. Na melhor das hipóteses era uma roqueira

maluca, promíscua e maconheira.

Estava indignado. A única coisa que suavizava

a aparência lúgubre da moça eram aqueles olhos

azuis incríveis. Olhos de feiticeira! É, bem podia

ser uma dessas bruxas modernas metidas em cultos

ritualísticos em que fazem oferenda de crianças...

Só de pensar naquilo quis pegar a esquisitinha pelo

pescoço e sacudi-la.

− Quantos anos você tem?

− Dezenove.

− Faz o que da vida? – O tom era inquisidor.

Lucinda sentiu-se muito mal. Foi bem ruim

com Danúzia, mas ela era uma mulher simplória.

Ela não podia ficar ofendida. Tinha que entender,

ser compreensiva. Mas que desculpa podia dar para

aquele ali? Jovem e inteligente. Era puro

preconceito. Ah, claro, ela entendia bem o

preconceito... só era difícil tolerá-lo.

− Sou babá − respondeu rápida e secamente.

Não ia ser simpática com quem estava sendo rude.

− Sei − falou cruzando os braços sobre o peito,

revelando músculos nos quais Lucinda ainda não

tinha prestado atenção. − Por que resolveu ser

babá?

Ela suspirou. Teria que dar muitas explicações.

− Gosto de crianças e pretendo estudar

psicologia infantil.

− E aí resolveu experimentar com crianças inocentes. É algum teste para ver quantas crianças

você consegue traumatizar?

− O que você tá dizendo?

− Obviamente você não tem o perfil para ser

babá. Está mais para babá de filme de terror. Qual é

a sua, hein? Tá aqui pra dar algum golpe?

Sequestrar minha irmã?

Lucinda sentiu seu rosto queimar de

humilhação. Provavelmente estaria vermelha agora.

Estava sendo duramente atacada. Sua vontade era

reagir, agredir de volta. Teve que usar todo o seu

autocontrole para conter-se, lembrando-se de que

aquele era o filho de seus empregadores. Queria

gritar com ele, mas seria apenas seca. Passara já por

muitas situações constrangedoras por conta de seu

novo visual, mas nenhuma a deixara tão magoada

antes. Inexplicavelmente aquele rapaz a estava

machucando muito. Talvez por ser irmão da Ana

Bia, criaturinha que ela já amava veementemente.

− Você está me ofendendo. Não fiz nada para

ser tratada assim – começou tentando dominar a

vontade de chorar.

− Você usa drogas? – continuou seu

interrogatório policial sem nenhuma consideração

aos sentimentos dela, nem mesmo vendo que ela

parecia que ia chorar.

− Não! – gritou ofendida – Nunca usei drogas!

Não uso! Não sou burra! Drogas é coisa pra gente

burra! – disse aos gritos, bendizendo o fato de

Danúzia já ter ido embora, caso contrário ela

correria para lá para verificar seu vexame e o

escândalo que estava fazendo aquela conversa

exaltada.

Lourenço se assustou com a reação explosiva

dela. Os minutos de choque dele deram a ela o

tempo para prosseguir com sua indignada defesa:

− Tomar substâncias que comprovadamente

fazem mal a uma pessoa é burrice. E é suicídio! Fazer mal a si mesmo é suicidar-se aos poucos.

Suicídio é um crime tão hediondo quanto

assassinato! E as consequências... Oh, Deus!

− A consequência é a morte – externou um

pensamento cético de quem não entendia aonde ela

queria chegar. Não podia crer que fosse religiosa.

− Quem dera fosse simples assim! Não

importa! O que importa é que não sou uma

drogada!

− Certo. Não sei se acredito. Mas se não

conseguir fazer a Analice dispensar você, vou ficar

de olho. Posso pedir testes, analisar sua urina...

− Caramba! Você nem me conhece! Está me

hostilizando! Fazendo campanha contra mim,

baseado em quê? Só na minha aparência?

− É. Essa aparência – falou gesticulando na

direção dela – é inaceitável para alguém que toma

conta de uma criança!

− Por quê?

− Não é apropriado! Do mesmo jeito que não é

apropriado trabalhar em um escritório de bermuda e

chinelo! Não é preconceito! É bom-senso.

Ele argumentava bem, ela pensou. Tinha

desarmado sua reclamação sobre preconceito.

Agora ela seria apenas alguém sem noção que não

sabe se vestir apropriadamente para o trabalho.

− Vista uma roupa decente, tire essa pintura

horrível! Aí você vai parecer gente. Aí, pode

parecer alguém normal o bastante para tomar conta

de uma criança!

− Não vou mudar meu estilo só porque você

quer!

− Então não vai tomar conta da minha irmã!

− Eu já tomei conta da sua irmã! A semana

inteira!

− Só porque não pediram minha opinião!

− Então não é você que decide!

Eles estavam discutindo. Eles estavam discutindo pra valer! Lucinda estava totalmente

alterada. Mas o mais incrível é que se sentia viva.

Gritar com alguém podia ser um poderoso meio de

catarse. Por sua vez, Lourenço sentia-se desafiado e

aquilo era estimulante de uma maneira absurda.

− Mas vou opinar. E se depender de mim, este é

seu último dia aqui.

− Boa sorte! Mas acho que sua mãe precisa

muito de uma babá e não vai arrumar outra para

segunda...

− Ela não é minha mãe! É minha madrasta. E

isso veremos!

− Você não pensa na sua irmã?

− Eu só estou pensando na minha irmã.

− Devia considerar a opinião dela. Eu gosto

dela e ela gosta de mim.

− Você manipulou ela! É uma criança. Ou você

enfeitiçou ela? Me diz: você é bruxa?

− Acreditaria se dissesse que sou?

− Claro que não. Mas aí saberia que é uma

dessas malucas que acendem velas e incenso e

matam galinhas...

− O que você acha que sou de verdade?

Lourenço demorou um pouco para responder.

Respirou fundo e analisou a moça dos pés à cabeça.

Surpreendeu-se ao verificar que ela tinha curvas

atraentes e recriminou-se mentalmente por achar

qualquer coisa atraente na menina que devia

causar-lhe apenas repulsa. Parou o olhar no rosto

dela e novamente flagrou-se achando-a atraente.

Decadentemente atraente, mas ainda assim...

Estacionou seu escrutínio nos olhos da moça, que

sustentou o olhar. Encararam-se assim por alguns

segundos, antes que Lourenço pudesse voltar a si,

lembrar-se da pergunta que ela lhe havia feito, para

poder enfim respondê-la:

− Acho que é uma “rebeldezinha” sem causa,

que se veste assim para escandalizar seus pais e todo mundo, porque ainda não encontrou sua

própria identidade! Se diz roqueira, ou gótica só

para aparecer! Ou você é do tipo gótica que vai

para cemitérios à noite? É necrófila?

− Não vou responder a isso – disse enojada.

− Por que não?

− Porque essa conversa já foi longe demais. Eu

não tenho que ficar ouvindo ofensa. E já está na

hora de buscar a Ana Bia.

− Você? Você tem a coragem de mostrar essa

cara horrível na porta da escola? Matar minha irmã

de vergonha?

− Ela tem cinco anos. Não tem vergonha, ela

não entende preconceitos. Ainda.

− É, a Analice deixou uma criança inocente na

sua mão.

− Chega! Não aguento mais! – bufou levando

as duas mãos à cabeça, num gesto de desespero. Ele

a estava levando ao seu limite. – Vou ter o maior prazer em me demitir ou aceitar a demissão se seus

pais quiserem, mas agora eu vou cumprir com o

meu papel! – disse exaltada.

Lourenço estava chocado. Com ela. E com ele

próprio, porque nunca antes havia se comportado

tão mal e tratado alguém de forma tão rude ou

hostil. O que estava havendo com ele? Afinal a

moça já estava trabalhando lá há uma semana e

Analice confiou nela. E tudo aquilo...

Não, ele não era moderno nem de mente aberta

como supôs. Sim, era preconceituoso se isso

significava não gostar daquele visual. Condenava

totalmente qualquer esquisitice daquele tipo.

Sempre achara ridículas as garotas assim. Gostava

das meninas de rosto limpo ou com maquiagem

suave, roupas normais, delicadas... Ignorava

totalmente as meninas metidas a aberração.

Infelizmente não podia ignorar aquela ali.

Ainda em estupor, viu-a sair do apartamento com uma pequena bolsa preta de pano. Com muita

raiva, foi atrás dela. Seguiu-a de perto. Ela notou, é

claro, mas o ignorou. Caminharam em silêncio. Os

dois de cara feia, quase lado a lado, trocando

olhares furiosos.

Logo que chegaram à escola, Lourenço

confirmou suas suspeitas ao constatar os olhares de

pais e babás na saída da escola. Alguns soltavam

risadinhas e cochichavam. Pegou-se pensando

como alguém se dispunha a passar por aquilo... Era

tão mais fácil ser comum... Devia ser horrível

suportar todos aqueles olhares, inclusive o dele.

Por quê?

Ana Bia interrompeu esse último pensamento

ao vir sorridente e saltitante em meio à algazarra de

meninos e meninas de sua turminha. A professora,

logo que viu Lucinda, liberou-a com um sorriso

azedo de quem não queria julgar, mas julgava.

Lourenço não entendeu por que aquilo o irritou. A última coisa que queria era ser solidário ou sentir

pena da aberração. Mas Ana Beatriz abraçou-a tão

carinhosamente que ele titubeou. E a esquisita foi

muito carinhosa com ela também. Pegou-lhe a

mochila e a lancheira e a menina pôs-se a tagarelar

sobre seu dia até que o viu. Aí deu um gritinho de

alegria e foi abraçá-lo.

− Maninho Enço!

Lucinda achou muito engraçado um cara

daquele tamanho ser chamado de maninho!

O rosto dele logo se iluminou e com um belo

sorriso entregou-se ao abraço da irmã. Ganhou e

deu beijos e a colocou em seus ombros. Assim foi

carregando-a enquanto Lucinda os acompanhava

levando as bolsas. Enquanto ela falava do

trabalhinho de pintura que fizera na escola estava

tudo bem. Mas ele não gostou quando ela quis

incluir a babá na conversa.

− Enço, você gostou da minha babá?

E agora?

Ele ficou em silêncio. Depois tentou mudar de

assunto:

− Que tal um sorvete?

− Ebaaaa! – A menina comemorou muito

alegre.

Como para qualquer criança, sorvete era uma

palavra mágica e o salvou de ter de responder. Mas

enquanto tomavam o sorvete sentados a uma

mesinha de uma lanchonete no caminho de casa,

nova situação incômoda se instalou:

− Lucinda é a melhor babá do mundo! – A

menina soltou sem mais nem menos.

− Nossa! Jura? – Ele falou olhando para a

moça, para atingi-la em cheio, sem nenhuma

preocupação em esconder o sarcasmo, pois sabia a

irmã não entenderia.

Lucinda, quieta desde que saíram da escola,

olhou para ele sem raiva agora, apenas triste.

− Ela é “sustadôla” só na primeira vez. Mas

depois que conhece ela... Ela é boazinha... Uma

fada...

− Uma fada... – Ele repetiu esbanjando escárnio

e fuzilando Lucinda com os olhos. Ela teve vontade

de jogar seu sorvete na cara dele.

− Não sou uma fada – zangou em tom

brincalhão com a menina, tentando ignorar o rapaz.

− É sim. Eu sei!

Nenhum dos dois teve ânimo para discutir com

a criança. Antes de se retirarem da lanchonete, a

pequena pediu para ir ao banheiro e Lucinda a

levou. As duas desapareceram num corredor que

levava aos sanitários e Lourenço ficou pensativo.

Não queria ceder, mas realmente as duas pareciam

se entender muito bem. Mas algo o fez reagir a essa

complacência e manter viva a chama de sua

oposição à babá funesta. Talvez orgulho, talvez

sensatez. Ele não sabia.

Ficou desconcertado ao ouvir as risadas. Das

duas! A esquisita ria às gargalhadas junto com sua

irmãzinha. E era muito estranho ver a moça rir. Ela

parecia... parecia... o quê? Humana! Bonita? De

onde vieram essas palavras? E do que elas riam?

− Qual a graça? – perguntou logo que se

aproximaram.

Ainda com dificuldade para falar devido aos

risos, Lucinda explicou, já que a menina só

compreendera para si própria, não para explicar:

− Eu entrei no banheiro com a Ana Bia para

ajudar, sabe? Aí... – parou para tomar fôlego, pois

ainda estava rindo – aí, ela disse que tinha uma

câmera no banheiro. E eu fiquei desesperada! Eu

também usei o banheiro, antes dela... – Novos risos

– Imagina! Uma câmera filmando a gente no

banheiro! Um absurdo! E eu perguntei a ela por que

ela estava dizendo aquilo, onde estava a câmera,

pois eu não consegui ver nenhuma...

− Alta observação! – completou a menina entre

risinhos.

− É − continuou Lucinda, tão envolvida com o

episódio que até se esqueceu da hostilidade do

rapaz. – Ela disse que colocaram uma câmera no

banheiro para ver se a gente só ia usar duas folhas

de papel para secar as mãos...

Lourenço olhava para a babá com as

sobrancelhas levantadas em um gesto interrogativo,

como se ela fosse louca ou coisa assim.

− Ana Bia está se alfabetizando na escola, mas

como é muito esperta, já lê muita coisa. Ela leu

“use apenas duas folhas para secar as mãos – alta

observação”; em vez de ler o que está escrito:

ALTA ABSORÇÃO! – concluiu com novos

risinhos.

Por mais que Lourenço quisesse ser mau com

ela, acabou achando graça da situação quando

finalmente entendeu e não conseguiu conter um sorriso.

− Ela achou que alta observação significava

uma câmera escondida – concluiu a gótica ainda

tendo dificuldades para cessar o riso.

Caminharam de volta para casa envolvidos em

bom humor. Lourenço deixou de lado a carranca

que fazia para Lucinda e se concentrou em ser

brincalhão com a irmã. Já de volta ao apartamento,

Lucinda continuou ignorando o olhar de supervisão

do jovem Lourenço enquanto ela cuidava da

menina, que falava com um e com outro enquanto

eles falavam com ela, mas não um com o outro. Ela

pareceu perceber.

− Vocês estão estranhos... – comentou.

− Não. É que eu não conhecia a sua babá... A

gente não se conhece direito ainda... é só isso –

tentou justificar.

− Não é isso... – A menina continuou pensativa.

− É isso mesmo – confirmou Lucinda.

Durante o jantar eles continuaram a olhar um

nos olhos do outro, como inimigos a medir forças e

em desafio. Ana Beatriz continuou cismada e

olhava de um para o outro.

− Já sei! – gritou a menina de uma vez,

assustando os dois jovens. − E viveram felizes para

sempre!

− Hein? – indagou Lourenço.

− É assim que vai terminar a história. – Ela

respondeu.

− Ah, que bonitinho! A babá te contou uma

história?

− Um monte! Mas tô falando de vocês!

− Hein? – Foi a vez de Lucinda intrigar-se.

− Lucinda e Lourenço... Começa assim...

olhando esquisito um pro outro, mas vai terminar

com “E viveram felizes para sempre”.

− Tá maluca, maninha? – Agora ele parecia

bem irritado enquanto Lucinda arregalava os olhos e corava tanto que ficou vermelha e seus olhos

azuis brilharam intensamente. – A babá tá lendo

conto de fadas demais pra você! – disse com um

riso forçado.

− Né, não! Lucinda é uma fada disfarçada. Ela

pode ser princesa também... e você pode ser o

príncipe.

Lourenço estava no limite. Lucinda,

envergonhada ao extremo, levantou-se com seu

prato e deixou a sala em direção à cozinha. Queria

fugir e sumir dali.

Longe da presença incômoda e do escrutínio

daqueles olhos azuis, Lourenço se sentiu mais à

vontade para conversar com a irmã.

− Querida, ela é só a babá. E eu não sou

príncipe.

− Mas você gostou dela... ficou olhando pra

ela!

− Não, nada disso! Fiquei olhando porque ela veste roupas esquisitas... Toda avacalhada!

− Vacalhada? – disse a menina em meio a suas

gargalhadas infantis, achando muita graça naquela

palavra. – Vacalhada é um monte de vaca?

Lourenço não pôde deixar de rir da dedução

vocabular inocente.

− Não, Bia... Avacalhada quer dizer que é

ridícula – disse para em seguida meio que se

arrepender, pois ela poderia ter escutado da cozinha

ou a irmã podia falar para ela. Mas por que ele

deveria se importar? Ele mesmo já não tinha dito

coisas igualmente horríveis na cara dela?

− Ela é bruxa... – cochichou a menina.

Aquilo o alarmou. Apesar de serem palavras de

uma criança que falava em princesas e finais

felizes.

− É? Ela te disse?

− É. Shiu... É segredo. Ela é uma bruxa boa

disfarçada de bruxa má.

− Isso é você que tá dizendo, né?

− Não. Ela me contou.

− O quê?

− Que é bruxa, né?

Lourenço não sabia o que pensar daquilo.

Afinal Ana Bia tinha apenas cinco anos.

− Bruxas não existem! – Ele quis argumentar.

− Tá – falou despreocupadamente. – Tudo bem.

Adultos não entendem.

Lourenço ficou intrigado.

Meia hora depois, enquanto a irmã assistia a

desenhos na tevê, ele foi procurar a babá

novamente. Foi encontrá-la no quarto da irmã,

verificando o material escolar. Ela folheava os

cadernos à procura de dever de casa. Assustou-se

um pouco ao vê-lo e parou o que estava fazendo.

− Você pode ir embora. Eu estou aqui. Não

precisa esperar Analice chegar.

− Mas este foi o combinado.

− Mas sou irmão dela e estou aqui.

Ela cruzou os braços em postura de protesto.

− Ótimo. Mas eu combinei que seria

responsável por ela até os pais chegarem e é isso

que vou fazer.

Lourenço soltou uma meia risada forçada

enquanto bufava. Tudo naquela garota o...

incomodava? Tinha alguma coisa ali... E quando

ela o desafiava com aqueles olhos azuis... Dava

vontade de... Dava vontade de quê? Nunca garota

alguma o desafiara com os olhos como ela. E ele a

conhecia há apenas algumas horas.

Sim, ela parecia responsável. Sim, a despeito de

sua aparência bisonha e roupas tenebrosas,

maquiagem decadente, ela era boa com Ana

Beatriz, ou parecia ser. E seus olhos azuis o

confundiam. Mas ele estaria atento. Resolveu que

não iria discutir com ela novamente antes de falar

com sua madrasta. Então apenas deu meia volta e saiu do quarto da irmã.

CAPÍTULO 7

 

A BABÁ FICA

 

− Analice, eu nunca pensei que fosse

chegar esse dia.

− Que dia, querido?

− O dia em que eu tivesse que discordar de

você. Nós sempre nos demos bem... Nunca te

considerei como uma madrasta ou substituta de

mãe, mas sempre como uma amiga.

− Enço, você está me assustando! O que é que

foi?

Analice chegara há uma hora. Humberto, um

pouco depois. Lourenço continuou por um tempo brincando com a irmã, dando um tempo para que a

babá se fosse e para a madrasta tomar um banho e

jantar.

Logo, logo ela percebeu que ele estava inquieto

e olhava muito para ela. Ela lhe perguntou o que

era e ele lhe disse que precisavam conversar assim

que Ana Beatriz dormisse. Aquele tinha sido o

início da conversa. Humberto tinha se abstido da

mesma. Quando o filho lhe perguntou por quê, ele

simplesmente respondeu: Você se acostuma com

ela. É gente fina. Feia, mas gente fina.

A falta de preocupação do pai deixou-o ainda

mais irritado. E feia? Sua aparência e roupas sim!

Mas os olhos azuis lhe diziam que havia uma

garota bonita debaixo de toda aquela maquiagem.

− Essa babá! Você tem que dispensar! – Ele

finalmente revelou a Analice, que soltou um

suspiro.

Logo Lourenço? Se nem Humberto implicava mais com ela! Danúzia fazia cara feia, mas ficava

na dela. Lourenço não tinha gostado da babá! Tá.

Ninguém tinha gostado. Pelo menos, não de cara.

Ela se sentou e apontou o sofá para que ele se

sentasse também.

− Lourenço, eu sei que ela tem essa coisa

gótica. Mas é muito boa e foi bem recomendada.

− Por quem? Pelo anjo da morte?

Analice se assustou. Lourenço jamais fora

sarcástico com ela.

− Lourenço! Você também? Tá parecendo a

Danúzia!

− Analice, eu não estou te entendendo. Como

você escolhe uma pirralha rebelde cheia de

correntes para cuidar da Bia?

− Pirralha? Ela tem a sua idade! Você é

pirralho?

− Para uma babá é!

− E você vai se formar um médico pirralho, então!

− Quer parar de falar de mim? Nós estamos

falando da babá!

− Tudo bem. Já entendi. Você não gostou dela.

− Não mesmo!

− Mas ela é ótima! E a Ana Bia gosta dela. Se

você me arrumar uma babá melhor é só avisar.

Você não se lembra de quantas tentamos?

− Por que a Danúzia não pode cuidar dela?

Você pagaria uma pessoa em vez de duas!

− Já tentamos isso. Não lembra? Danúzia é

ótima com a limpeza, para cuidar das roupas, mas

não tem jeito com crianças... Além disso, Danúzia é

semianalfabeta, não tem condição de ajudar Ana

Bia nos trabalhinhos de casa. Não deu conta de

levar a Ana Bia para balé, natação, escola e ainda

cozinhar, lavar, passar e cuidar da casa. E ela tem

que sair às cinco da tarde, porque seu filho trabalha

à noite e ela precisa chegar logo em casa, porque não pode deixar sua mãe que é idosa e doente

sozinha. Pensei que você soubesse disso. Lucinda

não se importa em sair daqui às sete, oito ou nove

da noite...

− Eu podia faltar a algumas aulas na faculdade

até você achar alguém...

− Não vou achar, Lourenço... Tá difícil. Ela faz

tudo direitinho... É só a aparência.

− E essa história de ela ser bruxa?

− Ah! Não acredito! – disse rindo. – Por favor,

Enço! A Bia tem cinco anos! Ela também tem

amigos imaginários, acredita em princesas e

príncipes e quando eu a pus para dormir ela estava

me falando sobre você e a babá felizes para

sempre... De onde ela tirou essa ideia?

− Sei lá! Absurdo!

− É absurdo! Assim como a história da babá ser

bruxa.

− É diferente.