A babá gótica

Adriana Igrejas · Capítulo 5 de 7

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A babá gótica

Capítulo 7

garganta perispiritual[7], mas ela já se manifestou

através de outro médium e pôde falar claramente.

Ela me contou tudinho. De como a senhora falou

que queria que ela pulasse, que morresse logo! E de

como chutou a cadeira!

− Vai embora daqui! Eu não quero falar com

você! Não quero ouvir essas mentiras!

− Eu até posso ir embora, mas ela não vai. Ela

vai ficar aí do seu lado... Ela quer que você

confesse e peça perdão a ela. Ela está pronta para

perdoar, desde que você tenha se arrependido...

− Joga esse papo de charlatanice pra outro! Não

caio nessas histórias de folclore!

− Então a senhora nunca a viu nos sonhos?

Delvina abalou-se novamente. De novo aquela

história?

− Eu não vou confessar nada.

− Não acha melhor alguns anos na cadeia que

incontáveis eras nas trevas – em lugares sombrios –, após a morte?

Delvina impressionou-se com aquelas palavras.

Se ela tivesse dito inferno, não a assustaria, estava

acostumada com a palavra e não tinha nenhuma fé

nela. Mas lugares sombrios soou como algo real e

aterrador.

− Vim apelar pelo seu bom senso e pelo seu

bem-estar espiritual.

− Só estou ouvindo historinha... – concluiu com

um sorriso cínico.

− Desculpe, Lisânia. Sinto muito mesmo. Ela

não tem esse nível de consciência ainda.

− Que convincente! – debochou Delvina,

insinuando que aquilo era apenas um teatro para

impressioná-la.

Noemi deixou a sala, mas em seguida o

delegado entrou.

− Acabei de informar o seu advogado, por

telefone, que sua pena seria menor se você confessasse. Mas, quando o juiz vir a gravação, não

vai ser necessário. E a pena vai ser a máxima.

− Eu quero ver a gravação. E meu advogado

também. Cadê ele?

− Ele está em audiência fora do Estado e só

pode estar aqui amanhã, após chegar de viagem.

− Ótimo. Já terminamos?

− Já.

* * *

 

Noemi esperava por Perez. Depois que ele

mandou Delvina novamente para a cela, foi ao

encontro da médium.

− E então? – Ele perguntou.

− A mulher é ruim de doer. Ela não tem

sentimento... Coitada da Lisânia! Enquanto

Lucinda e Regis se torturam há dois anos, ela

parece que não tem nenhum problema com o que

fez..., e que foi ainda pior.

− Então não vai confessar?

− Vai! O advogado não vem até amanhã. O

senhor conseguiu isso, não é verdade? Então, ela

terá uma longa noite pela frente... Certamente

Lisânia vai atormentá-la a noite toda.

 

* * *

 

Os gritos de Delvina naquela noite apavoraram

até os presos mais insensíveis. Dor lancinante,

visão de horrores inimagináveis e amostras de

sofrimento da alma deformaram o rosto da mulher,

que dormindo, exprimia na face o espectro da

morte. Acordou às quatro da manhã com um grito

agudo em meio à pior parte de seu pesadelo. Ao

acordar, entre o sono e a realidade, ainda viu

Lisânia em sua cela, apenas por alguns segundos,

mas segundos medonhos. Ela tremia e entrou em

um estado de pânico. Gritou pelo delegado. Queria falar com ele.

− Pelo amor de Deus! Seu delegado! Eu quero

falar! Pelo amor de Deus! Preciso que ela me deixe

em paz! Eu falo! Eu confesso!

Aos gritos dela, juntaram-se os de outros presos

que já haviam sido bastante incomodados durante a

madrugada, exigindo também que tirassem aquela

mulher dali.

Quando terminou o relato, Perez, que já havia

visto de tudo naquela vida, estava chocado.

Histórias de mães que matam seus filhos sempre o

deixavam inconsolável. A figura materna deveria

ser cem por cento confiável. Tinha que ser um

sustentáculo para os filhos, não a causa para seus

sofrimentos. Era nesses momentos que sentia o

quanto sua profissão era dura. Ouviu as palavras da

mulher sem saber se sentia raiva ou pena daquela

criatura desprezível:

− ... ela me ameaçando de novo! De se matar!

Eu não aguentava mais. Aquele teatrinho! Só fazia

coisas erradas! Envolvida com os tóxicos... e

aquele imbecil do Regis. Os dois deixavam minha

casa imunda e fedida. Aí eu a vi ali em cima da

cadeira, com o laço pronto no pescoço. Tinha feito

aquilo só para ficar de novo com aquele draminha,

chantagem emocional, falando... “Ah, eu vou me

matar... Olha, presta atenção em mim... Vou me

matar...” E eu pensei: ela estava ali. Era só um

empurrãozinho e pronto. Tava fácil. Ela

praticamente estava me implorando para fazer

aquilo! Era o melhor pra ela... Ela queria morrer...

Eu só precisei... só precisei... empurrar a cadeira. E

pronto. Ela começou a se debater... Foi rápido. Eu

fiquei olhando. Precisava ter certeza que ela tinha

morrido. Eu esperei. Aí, voltei para o trabalho. Eu

sabia que Regis viria, porque ela tinha ligado pra lá

e ela tinha dito pra ele que ia se matar. Então ele ia

achar o corpo. Para todos os efeitos eu só tinha saído do trabalho para almoçar.

Delvina achava que teria uma pena menor por

ter confessado, mas a frieza das palavras em seu

depoimento não ajudaram muito naquele sentido.

− Delegado, agora que confessei, quando o juiz

for ver o vídeo, não vai aumentar minha pena, né?

− Vídeo? – Perez perguntou cinicamente.

− É, a gravação da Lisânia, do momento de sua

morte.

Perez riu e soltou um muxoxo.

− Aquele vídeo que estava pausado quando

você chegou?

− É! A prova!

− Acho que tivemos sorte de você ter

confessado, porque não tinha prova nenhuma.

Aquele era um vídeo de Lisânia e Regis falando

besteiras para a câmera e mostrando seus piercings

novos.

− Seus filhos da...

− Olha, dona Delvina! Não vai querer

acrescentar desacato... Ora, um vídeo que gravava

justo o momento da morte dela? Ia ser muita sorte!

Coincidência de filme... Então, obrigado por ter

confessado – tripudiou sarcasticamente.

Perez não pôde evitar o prazer que teve ao ver a

cara de indignação da mulher. Ela tinha sido

enganada! E bem enganada! Os pesadelos a teriam

feito confessar se não acreditasse na existência de

uma prova? Talvez não..., – Ele se questionava. No

fim, ela confessou e era aquilo que importava. O

plano tinha sido perfeito. Era uma história e tanto e

que infelizmente teria que guardar para ele, pois

ninguém acreditaria e traria descrédito para ele

como delegado. Mas o fato é que, de nem acreditar

nem desacreditar, passara a acreditar...

Perez a mandou para a cela de novo. Daí para

frente seria fácil. E sua comichão estava satisfeita.

Ficou com vontade de ligar para sua amiga Catarina e lhe contar sobre aquele caso pra lá de

estranho, com um toque de sobrenatural. Ela tinha

tido uma experiência de pós-morte quando levou

um tiro, não seria difícil para ela acreditar na

história...

Voltou à sua sala e lá estavam reunidos Noemi,

Lucinda e Lourenço. Eles tinham o ar de

expectativa e Perez logo satisfez a curiosidade e

ansiedade de todos.

− Ela confessou!

Os suspiros e gemidos de alívio dominaram o

ambiente.

− Graças a Deus – falou Noemi em tom de

oração.

− Ela ficou injuriada quando soube que não

havia gravação – informou o delegado.

− Ideia brilhante de Lucinda... – comentou

Lourenço.

− Fiquei pensando como seria bom se houvesse uma gravação... como no filme Sexto sentido... Mas

já que não tinha gravação... Nada como um blefe...

− Parabéns, mocinha. Sua ideia deu muito certo

– falou o delegado apertando a mão de Lucinda.

− Elementar, meu caro Perez! – brincou

Lucinda em meio a um sorriso que despertou

muitos outros.

– E ela ter ido até o Regis e vocês usando uma

arma, foi ótimo para contar tudo contra ela. E vocês

foram muito corajosos, arriscaram suas vidas. O tal

Regis também.

− É, mas acho que o Regis dispensa os

agradecimentos. Ele vai preferir não ver a gente

nunca mais – concluiu Lourenço.

− Tá, então, obrigado vocês e Dona Noemi.

− Obrigada você, delegado. Nem todo mundo

me dá crédito. Nunca imaginei que um delegado

pudesse ter a mente tão aberta – agradeceu Noemi.

Conversaram por mais um tempo, fazendo vários comentários sobre o caso até se despedirem

de vez. Antes de irem, o delegado tinha mais uma

pergunta para Noemi:

− A menina morta? Ela vai ficar do lado da mãe

ainda ou vai com vocês?

− Ela está aqui. E está feliz por conseguir um

pouco da justiça terrena para a mãe, mas triste,

porque ela nem se mostrou arrependida. Dona

Delvina ainda tem muito que aprender e ainda vai

sofrer muito aqui e depois. Mas Lisânia vai

conosco. Vamos ajudá-la a fazer sua viagem.

 

* * *

Quando o advogado de Delvina chegou, na

parte da tarde, e soube que ela havia dado o

depoimento formal e assinado sua confissão, viu

que não poderia fazer mais que pleitear uma pena

menor, alegando insanidade temporária.

CAPÍTULO 26

 

ENFIM, A PAZ

 

casa de Noemi para se despedirem de Lisânia. Mais Naquela noite, Lourenço e Lucinda foram à

leve e sentindo-se melhor, Noemi disse que Lisânia

já não mais apresentava a aparência de sua morte

com as marcas do enforcamento no pescoço. Com

isso, ela conseguiria falar com ela sem ajuda de

outro médium como interlocutor para a sua

comunicação verbal.

Acenderam a luz azul e iniciaram as orações, pedindo ajuda de bons espíritos para conduzir

Lisânia a um lugar onde ela pudesse encontrar a

paz e evoluir. Lisânia rezava também. Noemi sabia

que ela conseguiria perdoar sua mãe, porque fora

capaz de se perdoar, que é o mais difícil. Entendera

que sua mãe era uma pobre alma ignorante que

ainda teria que resgatar muitas dívidas que

contraíra. Restava uma certa mágoa, mas o perdão

havia sido concedido. O ato de perdoá-la havia

purificado Lisânia de tal forma, que ela não voltaria

mais ao vale dos suicidas.

Noemi registrou a presença de outro espírito no

ambiente. Tratava-se do espírito protetor de

Lisânia, o mesmo que a fizera sair do cemitério

para evitar o sofrimento de ver seu corpo se

decompondo. A figura era de uma mulher. Ela

estava envolta em luz e vestia branco. Tinha um

semblante sereno e inspirava confiança. Ela falou a

Noemi através de pensamentos informando-a de que estava ali para levar Lisânia embora. Havia um

lugar onde ela teria certa paz. Ainda estava longe

de ser um céu, mas, perto da Terra ou dos lugares

por onde ela caminhou, era um paraíso. Noemi

sorriu feliz pela sensação de missão cumprida e a

satisfação que isso lhe trazia.

Lisânia entendeu que era hora de partir. Que

estava livre e era hora de também libertar Lucinda.

Pediu a Noemi que servisse de mediadora em sua

conversa.

− Lucinda, Lisânia está livre para ir. Sua

protetora – anjo de guarda – está aqui para levá-la.

Quando perdoou, ela se libertou das amarras do

ódio que a prendiam a vocês. Ela quer que eu

transmita suas palavras a você.

− Está bem – concordou.

− Ela diz que perdoa você e pede que a perdoe

pelo que lhe fez passar, mas que, agora, sabe que

sua ação maléfica só foi permitida porque traria benefícios para você, apesar de no início não saber

disso.

− Lisânia, eu não tenho que te perdoar por

nada. Eu só tenho a agradecer. Eu pude mudar

ainda em vida e ainda jovem... Se você soubesse o

quanto eu era infeliz quando era má... Mas agora,

graças a você, estou bem. Eu só tenho a lhe

agradecer. Lisânia, muito obrigada – disse com

lágrimas nos olhos. – Eu aprendi tanto nesses dois

anos... Eu era fútil e materialista. Eu era rasa e

egoísta. Mas eu me regenerei e foi graças a você.

Obrigada, obrigada, obrigada... – falou em meio ao

choro cedendo às lágrimas e recebendo a mão de

Lourenço como consolo.

− Ela diz que também mudou e se livrou do

ódio que carregava e que a fazia tão doente e

infeliz. Só não se sente tão culpada do que fez,

porque, inconscientemente, acabou fazendo um

bem para você e para Regis.

− Obrigada, Lisânia. Se não fosse por você, eu

também não teria me tornado boa com crianças, e

descoberto uma vocação tão contrária ao que eu

pensava ser. E não teria conhecido este rapaz aqui,

que, mesmo sabendo de tudo, continua do meu lado

e está segurando a minha mão agora.

− Ela pediu desculpas por não deixar vocês dois

ficarem juntos até agora. Disse que era necessário.

Precisava da ajuda de vocês e não podia arriscar.

Mas disse que isso deixou vocês mais

apaixonados... Ela está brincando agora.

Lourenço e Lucinda sorriram nervosamente e

entreolharam-se meio embaraçados.

− Estamos liberados agora? – perguntou

Lourenço.

− Estão! Ela disse que estão livres. Ela não vai

mais estar aqui. Disse que vai rezar por vocês.

− Obrigada, Lisânia. Vá em paz. Obrigada por

me perdoar por tudo que lhe fiz – finalizou Lucinda.

− Obrigado – agradeceu também Lourenço.

− Lourenço, ela está dizendo que foi muito bom

você ter estado ao lado de Lucinda, foi fundamental

sua presença e apoio. Graças a isso, Lucinda pôde

se sentir segura e merecedora de sua redenção.

Conseguiu se manter firme. Ela até teve a ideia

brilhante que fez com que Delvina confessasse.

− Minha garota... – falou Lourenço, olhando

para Lucinda com um sorriso de orgulho

− Fiz o que o meu coração me mandou fazer. –

declarou a ex-babá gótica, sorrindo de volta para

Lourenço e depois para Noemi.

− Está na hora. Ela está despedindo, dizendo

adeus a todos nós. – Interveio Noemi.

− Adeus, Lisânia – disse Lucinda.

− Adeus – falou Lourenço.

− Vá em paz! – completou Noemi, que ficou

em silêncio por alguns instantes e depois anunciou:

− Ela se foi.

CAPÍTULO 27

 

 

CRIANÇAS SABEM DE

 

TUDO

 

Quando deixaram a casa de Noemi, depois de longos agradecimentos

também à prestimosa médium, Lourenço e Lucinda

saíram de mãos dadas sentindo-se leves como

plumas.

A sensação de flutuar era tão intensa que por

vezes parecia que eles é que tinham ido para o

paraíso. Olhavam-se como cúmplices e trocavam

sorrisos.

Pararam na calçada e olharam para o céu. Ele estava bonito e estrelado. A lua brilhava imensa e

cheia. A noite estava quente como era comum em

dezembro. Lourenço permitiu-se então olhar para o

vestido florido que Lucinda vestia. Segurou-a pela

mão, forçando-a a ficar de frente para ele a certa

distância para que ele pudesse observá-la.

− Você está tão linda.

− Obrigada.

− Mas você sempre foi linda. De cabelo preto,

de qualquer jeito...

− Também te acho um gato.

− Queria te pedir uma coisa.

− Claro.

Ele a segurou pelas duas mãos solenemente e

olhou-a longamente antes.

− Quer ser minha namorada?

Lucinda sorriu. Mal podia crer em sua boa

sorte. Será que ela merecia? Será que sua

regeneração lhe dava esse direito? Como não aproveitar aquela dádiva? Sim, queria. Queria

sorver aquela ventura. Seu coração batia forte de

emoção e ela inspirou profundamente, sentindo a

felicidade penetrar-lhe a alma através de todos os

seus poros.

− Quero. Quero tanto, Lourenço! Na verdade, já

me sentia sua namorada...

Lourenço ouviu o que queria. Era o que faltava

para ele poder tomar aquela mulher nos braços.

Envolveu-a e beijou-a nos lábios suavemente.

Depois suas bocas se abriram e famintas

deliciaram-se em se reencontrar depois de tanto

tempo. O beijo durou alguns minutos e carícias

simultâneas naturalmente se desenvolveram. Mãos

nos cabelos, corpos colados. O lugar não lhes

permitia continuar e encerraram o primeiro beijo

que selou o início oficial de seu namoro.

Caminharam de mãos dadas até o carro.

− Antes de levá-la em casa, vamos passar na minha. Quero comunicar à minha família o nosso

namoro.

− Isso vai ser bem estranho...

− Por quê? Você não é mais a babá.

− Eu sei. Vai ser bom, porque ainda vou poder

ver Ana Beatriz.

− E vai passar o Natal conosco.

− E meu pai?

− A gente combina! Passa a ceia da véspera ou

o almoço do dia vinte e cinco. Um deles conosco e

o outro com seu pai. Mas seu pai também é bem-

vindo se quiser.

− Isso parece promissor...

− Depois vou levar você em casa e pedir você

em namoro ao seu pai.

− Ainda se usa isso?

− Acho que não. Mas nosso namoro vai ser bem

sério... Então, acho que é apropriado.

− Não sei se meu pai aguenta... – disse brincando.

Entraram no carro e conversaram

animadamente até o prédio de Lourenço. Ainda era

cedo e a família estava na sala com a tevê ligada.

Quando entraram, Analice e Humberto

surpreenderam-se com o visual novo de Lucinda.

Por alguns instantes nem a reconheceram. Como

Lourenço estava em casa de férias e a nova babá

estava se saindo bem, Lucinda não havia esperado

por eles na segunda, nem nesse dia, antes de terem

ido para a casa de Noemi.

− Lucinda! – exclamou Ana Beatriz correndo

para abraçá-la.

A ex-babá pegou a menina no colo num abraço

apertado e deu-lhe beijos carinhosos. Apesar de

terem estado juntas à tarde, era como se

antecipassem a saudade que haveria quando a fase

de adaptação da nova babá terminasse.

Quando a pôs no chão ela fez uma carinha de curiosa e ao mesmo tempo de sabichona, como se

soubesse exatamente o que iria acontecer ali

naquele instante.

− Veio de visita? – perguntou Humberto.

− Mais ou menos – respondeu Lourenço.

− O que vocês andam aprontando? – perguntou

Analice enquanto abaixava radicalmente o som da

tevê.

− Pai, Analice, Bia... Lucinda agora é minha

namorada. Estamos oficialmente namorando a

partir de hoje.

− Bingo! – comemorou Humberto. – Você me

deve dez reais, Analice.

− Ah, Humberto!

− Eu falei! Ainda nesta semana!

− Vocês fizeram uma aposta? – perguntou

Lourenço num tom entre o divertido e o indignado,

acabando por rir.

− Seu pai falou que vocês iam ficar juntos ainda esta semana. Eu achei que ainda ia demorar um

pouco mais... Droga!

− Enço e Lucinda estão? – perguntou Ana

Beatriz.

− É, meu amorzinho – respondeu Lucinda

abaixando-se um pouco para falar mais ao nível do

tamanho da menina.

− Namorando? – Ela insistiu em esclarecer.

− É, maninha – confirmou Lourenço.

− Que lindo! Eu sabia! Eu disse... Lucinda é a

princesa! Olha, Enço! Ela não tá mais disfarçada de

bruxa! E você é o príncipe! Feliiiiiiiiizes para

SEMPRE!

− Maninha, eu tenho que admitir: você acertou

na mosca!

EPÍLOGO

 

O Natal daquele ano foi de muita alegria para

todos.

Seu Josué Antunes passou a noite do dia vinte e

quatro com sua filha. Apesar de não ter religião,

gostava do clima fantasioso daquela época natalina,

e, também, da parte dos presentes. Achava

simpática a figura do Papai Noel. Pai e filha

montaram uma árvore e enfeitaram a casa pela

primeira vez desde o falecimento da esposa/mãe.

No dia seguinte, Lucinda foi almoçar com a

família de Lourenço. Ainda era cedo para unir as

duas famílias, talvez nos próximos anos... Os

jovens namorados trocaram presentes e promessas.

O ano vindouro prometia ser um desafio.

Ambos na faculdade – ver-se-iam apenas aos finais de semana. Seria difícil controlar a saudade, mas já

haviam combinado enviar muitas mensagens de

texto e se comunicar pelas redes sociais – agora

Lucinda podia ter um “perfil” −, telefonemas todos

os dias na hora do almoço e à noite. Aos fins de

semana sairiam juntos, viajariam, teriam todos os

encontros românticos que suas imaginações lhes

permitissem planejar. Vez ou outra fariam um

programa com Seu Josué ou com a família de

Lourenço, especialmente com Ana Beatriz. E,

sempre que possível, serviriam como voluntários

nos abrigos onde Noemi ajudava. Não podiam se

esquecer do lado socioespiritual e, nada como a

caridade para cuidar dessa parte.

Faziam já planos para quando se formassem.

Lourenço brincava, dizendo que ia se juntar ao

programa Médicos Sem Fronteiras e Lucinda dizia

que o deixaria ir para a África somente se ela

pudesse ser Psicóloga sem fronteiras e ir junto.

De qualquer forma, Lourenço queria que

Lucinda nunca o deixasse esquecer de que ser

médico é um sacerdócio, uma missão, uma maneira

de servir ao próximo, nunca apenas um trabalho

remunerado.

Sabia agora que tudo tinha consequências numa

outra vida e não desejava contrair nenhuma dívida

daquele tipo. Ele não aceitava a ideia de ganhar

sem trabalhar – como alguns clínicos que batiam o

ponto e não cumpriam com seu dever, deixando

pessoas morrerem nas filas de espera. Não entendia

o fato de existirem médicos que negligenciavam os

pacientes e agiam como se fossem deuses,

desrespeitando a vida humana.

Da mesma forma, ele a lembraria sempre do

que realmente era importante. A lição que Lisânia

lhes ensinara nunca poderia ser esquecida ou

perdida.

Quanto mais conviviam, mais se sentiam definitivamente ligados. Intuíam que seu amor

transcendia a algo além do mundo material – o

espiritual –, e pensavam um no outro cada vez mais

com a certeza da felicidade duradoura. Mas não

havia pressa e o futuro pertencia a Deus.

O companheirismo e amizade também

passaram a ser pontos chave em seu

relacionamento. Uma briguinha ou outra também

fazia parte, mas nada que uma boa conversa não

resolvesse e um longo abraço e alguns beijos

molhados não curassem.

Enfim, estavam bem e tinham a certeza de ficar

bem. E ainda tinham todo o mês de janeiro para

curtirem juntos. Fariam uma viagem de uma

semana para um belo lugar banhado pelo litoral,

onde houvesse praias lindíssimas e o verde do mar

fosse absoluto. Sozinhos, planejavam se amar com

toda a intensidade da paixão guardada por meses.

− Ilha de Fernando de Noronha?

− Porto Seguro?

− Fortaleza?

− Natal?

Tentavam se decidir, enquanto olhavam

folhetos de viagem. A dúvida era apenas o lugar.

− Já sei! – exclamou Lucinda. – Tive uma ideia.

Vamos jogar todos pro alto e agarrar um! Quem

sabe algum fantasminha camarada que esteja por

aqui nos ajude a escolher a melhor opção,

colocando o folheto certo em nossas mãos?

− Gostei. Mas só se for enquanto beijo você...

− Com assi...?

Lucinda nem terminou a pergunta. Com os

folhetos na mão, ele a enlaçou em seus braços e

beijou-a apaixonadamente enquanto jogava os

folhetos para o alto. Deixou uma de suas mãos

estendida por sobre o ombro dela e agarrou um dos

folhetos que caía.

O beijo estava bom e não se animavam a terminá-lo. Quando finalmente o fizeram, Lourenço

segurou o folheto e anunciou:

− Aqui está. Neste final de férias, vamos viajar

e ficar num hotel em...

 

FIM

Querido leitor(a),

 

Gostou? Se gostou de A babá gótica, é provável

que curta a minha escrita então. Peço assim, que

faça uma avaliação do livro na página do mesmo na

Amazon. Isso me ajuda muito e a outros leitores a

descobrirem a obra. Todos que fizerem avaliação

de qualquer livro meu receberão um kit de

marcadores (não é sorteio). Basta fazer a avaliação

e enviar um e-mail para adrianaigrejas@oi.com.br

Também gostaria de convidá-lo(la) a ler as

minhas outras obras na Amazon.

Já disponíveis:

 

Viagem de férias (conto continuativo de “A

babá gótica”)

Lucinda, a ex babá gótica e Lourenço, seu

namorado, saem para sua esperada viagem de

férias. Eles tiraram seu destino num sorteio e o

resultado foi inesperado... Durante essas férias o

casal vai ter a sua primeira vez e encontrar mais

uma aventura de arrepiar os cabelos do braço!

A fórmula da vida – A escolha de Catarina

(romance policial com ação, aventura, drama,

humor e uma história de amor redentora) – 584

páginas

 

SINOPSE: Romance, da mesma autora de A

babá gótica.

O pai de Catarina criou uma fórmula muito

cobiçada. Por causa dela ele é assassinado e a menina se vê órfã, traumatizada pelo medo que a violência sofrida causou e nas mãos de um padrinho, que não a ama e nem liga para ela. Por isso, ela precisa aprender a se defender sozinha. Aprende a lutar, vira pitgirl, justiceira e se envolve em muitas confusões até que é acusada novamente de um crime e precisa fugir e trocar de identidade. Tudo estaria ótimo em sua nova vida, se ela não tivesse se apaixonado ou pudesse continuar mentindo para quem ama...

Um apartamento com vista para o mar e outras

histórias (contos – histórias de diferentes gêneros, entre eles: amor, humor, drama, sobrenatural, mistério) 90 páginas.

 

SINOPSE: No conto que encabeça a

coletânea Um apartamento com vista para o mar

temos como narrador o Cupido, ou a

personificação do amor, que tem a difícil missão de fazer com que dois jovens fiquem juntos e sejam felizes para sempre, apesar de todos os problemas. Em A mulher e o canário, uma esposa reprimida faz uma reflexão sobre sua falta de liberdade em analogia com o canário na gaiola e decide romper a prisão psicológica em que vive. Em A parte perfeita, um homem abandona sua namorada ao sonhar com uma mulher que ele julga perfeita e começa uma busca por achar essa mulher. Em A fita azul, Bruna é a neta que vai tentar alegrar um pouco a vida de sua avó doente utilizando informações que acha no caderno de memórias da anciã. Em Para os filhos deste solo, não és, mãe, gentil o narrador-personagem se sensibiliza ao presenciar uma mendiga cantando o hino nacional. Em A cara do Rio de Janeiro, Dona Nilsa é uma professora que se empolga com o trabalho de um aluno, que aparentemente é brilhante. Coisa de homem relata uma divertida discussão de um casal provocada por um convite inusitado de um amigo do casal. Em Anímico encontramos um rapaz ainda muito jovem embevecido por constatar que encontrou o amor de sua vida ainda tão cedo, antes do esperado. Moça de escritório narra a tentativa de Ana, moça humilde, de mudar de vida apenas mudando a forma de se vestir. E no último conto Amor em Flores e Folhas os jovens médicos, Dagoberto e Gisela, têm uma nova chance de viverem seu amor proibido ao serem levados para a misteriosa cidade de Folhas, onde devem cumprir uma missão.

 

Quatro contos de amor (contos – quatro histórias

de amor – publicação exclusiva em e-book pela Amazon) 57 páginas

 

SINOPSE: Quatro histórias de amor surpreendentes e apaixonantes da mesma autora de "A babá gótica": A culpa é das mentiras - a mentira pode atrapalhar um romance?; De verdade - Tudo o que ela queria era um namorado de mentirinha, mas ele queria tudo "de verdade"; Desembrulhando no Natal - Ela teria que escolher entre uma grande oportunidade e seu amor bem na época do Natal...; Queijadinha de assadeira - uma história baseada em uma receita, um prato doce que primeiro os separou e depois os uniu.

 

Caipira, eu? Histórias “reais” contadas por meu pai (contos biográficos – publicação exclusiva pela Amazon) 22 páginas

 

SINOPSE: Histórias que meu pai me contava quando eu era criança sobre a infância e adolescência dele numa fazenda em Miracema, interior do Rio de Janeiro, na década de 1940. Portanto as histórias são "reais". As aspas são porque algumas narrativas que meu pai contava como sendo verdadeiras, desde criança eu sabia que eram exageradas e fantasiosas, como a história de uma abóbora gigante, ou de ter visto Saci Pererê. Como elas são uma das melhores memórias que tenho dele e que me divertiram muito em meus anos verdes, resolvi registrar tudo como uma homenagem e forma de dividir com meus leitores um pouco do que me influenciou na minha carreira de contadora de histórias.

Divirta-se! Um grande abraço!

Adriana Igrejas