A babá gótica
Capítulo 6
como babá. Mas ainda não era suficiente. Eu
deveria sentir na pele tudo que ela sentiu como
gótica: o preconceito nos olhares, nos cochichos e
nas risadinhas dos outros. E aí eu me transformei:
de Barbie para boneca Monster High[6].
− E por que só seis meses com cada criança?
− Para me punir! Isso não foi estabelecido no
início. A primeira vez em que trabalhei como babá,
no início do ano passado, foi bem torturante para
mim. Eu realmente não gostava muito de crianças,
mas meu sentimento de culpa me fez aceitar a pena
com resignação. Larguei tudo, isso me custou uma
briga com meu pai, que não entendia meus
motivos, nem eu pude contar tudo a ele, porque ele
não acreditaria nem aceitaria. Eu não podia
estudar em universidade, nem me divertir, nem
namorar, nem sair com amigos. Eu fui condenada
a uma cela de solidão e trabalho forçado sob a pele gótica e suas consequências durante dois
anos.
Foi bem difícil conseguir o primeiro trabalho e
você deve entender bem por quê. Eu me vestindo
como uma esquisita e sem experiência nenhuma.
Foi Noemi que me conseguiu o trabalho, para uma
conhecida dela. Noemi sempre foi boa com
crianças, ela já tem dois netos. Ela me ajudou
dando dicas e ensinando coisas. Para minha
surpresa, em pouco tempo vi que não odiava mais
crianças, ao contrário, me afeiçoei muito àquele
menino. O que era para ser um tormento virou um
trabalho agradável, que me dava prazer, a
sensação de ser útil e estar colaborando para a
educação daquela criaturinha tão linda. Eu não
estava sofrendo tanto como era para ser. Lisânia
não gostou. Aí veio a regra de só ficar seis meses.
Assim, ela me fazia sofrer toda vez que tinha que
abandonar a criança a quem havia me apegado.
− Muito cruel da parte dela.
− Mas novamente, Noemi me ajudou. Ela me
ajudava a escolher uma nova babá para a criança,
para que pelo menos esta não sofresse... Babás
maravilhosas.
− Como?
− Eu podia dizer que é porque ela tem uma
experiência incrível com crianças, mas, o que
realmente tem ajudado é que ela consegue perceber
a espiritualidade das pessoas pelas auras.
− Ah. Por que eu não estou surpreso com isso?
− Pois é.
− Então ela escolhe pessoas com auras
resplandecentes?
− Mais ou menos isso.
− Você sofreu muito? Quero dizer, como
gótica?
− Não acho que tenha sido sofrimento.
Sofrimento era o que eu tinha antes e nem sabia. Como gótica eu me esclareci. Tive a real percepção
do quanto as pessoas se iludem pelas aparências,
como discriminam, como estão presas ao exterior,
como são cegas, preconceituosas. É tudo uma
ilusão. Passei a valorizar mais as ações do que as
aparências. Só pelos atos, pela atitude é que
conhecemos as pessoas. E sob o meu disfarce, eu
observava melhor.
– Você...
– Se eu me magoava? Se era humilhada? Claro!
Mas não foi isso que fiz com Lisânia e Regis? E
como foi libertador poder pagar dessa forma!
Lourenço, meu sofrimento nem se compara ao de
Lisânia! Antes e depois de morrer! Pois ela ainda
sofre tanto! Nem de perto se compara ao que eu iria
sofrer se morresse primeiro para depois tomar
consciência! Porque do outro lado, não tem
enganação! Não tem como fugir do que se fez! Não
tem aparência falsa! É tudo real e se você é um monstro por dentro, a aparência que você vai ter é a
de um monstro!
− Isso é assustador!
− Não é?! – Ela riu tristemente.
− Então Lisânia realmente cometeu suicídio?
− Claro, Lourenço, todos sabem disso!
− Mas, o delegado tinha suas dúvidas...
Cheguei até Regis através dele.
− Sério? Mas ela se enforcou!
− Ele afirma que dá a impressão de que alguém
empurrou a cadeira e não que ela pulou da cadeira.
− É mesmo? Isso é muito estranho, Lourenço...
− As informações que a Noemi tem do além são
de que ela é ou não é suicida?
− Com certeza ela é suicida. Estava no vale
dos...
− Eu sei. Eu estive lá. No sonho.
− Então?
− Isso põe um fim a qualquer dúvida.
Lucinda sentia-se cheia de esperanças e leve
por ter contado tudo a Lourenço. Mesmo que ele
nem quisesse mais olhar para ela, ainda assim teria
valido a pena.
− Acho que minha última provação foi me
apaixonar. Um toque de sofrimento extra para a
minha pena.
− Não é só você que sofre com isso – disse,
fazendo com que ela abaixasse o olhar
constrangida.
− E então?
− O quê?
− Como se sente em relação a mim agora que
sabe de tudo?
− Não sei. É estranho. Preciso de um tempo.
Não tô com vontade de te beijar agora, se é que me
entende. Mas isso vai passar, porque sei de uma
coisa: não me apaixonei pela garota que você foi há
dois anos. Me apaixonei por quem você é agora. E com certeza não foi pela sua aparência! – disse com
bom humor, despertando um sorriso em Lucinda. −
Não consigo enxergar aquela megera egoísta e
materialista em você. Você é doce e meiga. Você
trabalha bastante, é dedicada, estudiosa, tem muito
jeito com crianças e minha irmã ama você. Você é
paciente e prestativa. Nunca reclama de nada.
Parece estar à disposição para servir o tempo todo.
Não trata este emprego como um emprego, nem
como punição. Trata como... como um... como uma
missão de amor. Foi isso que vi em você.
− Então ainda vai comigo hoje à noite? –
perguntou entre lágrimas.
− Vou. Vamos até o final com isso. No mínimo,
seremos amigos.
− Tá – levantou-se da cama esperançosa.
− Só mais uma coisa.
− O quê?
− A história de estudar Psicologia infantil era mentira, né? Você nem gostava de crianças. Você
está fazendo vestibular para quê?
− Era uma mentira, que se tornou verdade.
Achei minha vocação nesses empregos que eram
para serem uma punição, mas que acabaram sendo
minha redenção. É lógico que vou estudar
Psicologia e vou me especializar em crianças.
Porque eu amo crianças! Na verdade, eu amo as
pessoas! Porque nós temos que amar as pessoas,
Lourenço! Essa é a lei! Eu aprendi – concluiu
emocionada.
Ele olhou para ela sem dizer nada. E sabia
naquele instante que a perdoaria por quem quer que
ela tivesse sido no passado. Porque seu olhar tinha
sido de admiração.
CAPÍTULO 23
A REVELAÇÃO DO
FANTASMA
Chegaram à casa de Noemi quinze minutos antes do horário. Lourenço estava muito ansioso e
apreensivo. Nunca tivera nenhuma experiência com
o sobrenatural antes, a não ser por aquele sonho
bizarro. Sabia que não a veria. Só Noemi podia
fazê-lo. Mesmo assim, sentia uma estranha
excitação, algo entre o medo e a curiosidade.
Noemi os recebeu sorridente e tranquila em sua sala. Havia mais um homem e uma mulher com ela.
Ela explicou que para ter clareza no que Lisânia
dissesse, precisava de uma corrente, ou seja, mais
de um médium desenvolvido. O homem e a mulher
foram apresentados a Lourenço, Lucinda já os
conhecia. Sentaram a uma mesa simples, forrada
por uma toalha branca. Ela apagou as luzes e
deixou apenas a luz azul. Iniciaram com uma
oração e leitura de um trecho do evangelho.
Permaneceram em oração e Noemi então chamou
por Lisânia.
− Chamamos aqui nossa irmã Lisânia, que tanto
tem sofrido, para que possamos ajudá-la.
Lourenço abriu um olho só e espiou nesse
momento. Sua curiosidade era quase científica e
parte dele continuava cética.
Em poucos segundos, o homem começou a
gemer.
− É você, Lisânia? – perguntou Noemi.
− Sim, sou eu – O homem falou de uma
maneira delicada, bem diferente de antes quando se
apresentara. Lourenço entendeu que ele falava por
Lisânia e se impressionou bastante. Os pelos de
seus braços se arrepiaram por inteiro.
− Obrigada, eu precisava falar. – O homem
continuou com voz suave.
Eles fizeram uma série de perguntas para terem
certeza de que se tratava do espírito de Lisânia.
Conforme Noemi explicou depois a Lourenço,
muitos espíritos inferiores se divertem se passando
por quem não são. É sempre necessário estar atento
e se certificar.
− Lisânia? Você já se perdoou, irmã? Pelo
abuso de seu corpo físico? Pelo seu suicídio? Já
compreendeu seu erro?
− Você sabe que sim, Noemi. Eu... Não quero
voltar pra lá... – falou num gemido, chorando.
− O vale dos suicidas?
− Sim!
– Você ainda é arrastada para lá, quando não
está perto de nós?
− Sim. Mas eu rezo, como você me ensinou e
peço ajuda. Tem uma moça que diz que é minha
bisavó, ela me ajuda. Ela diz que logo vou poder ir
com ela para um lugar melhor. Estou menos presa
lá. Já não me sinto como os que estão lá se
sentem...
− Lisânia, hoje completam dois anos terrenos
de quando você exigiu de Lucinda uma penitência,
lembra?
− Lembro.
− Então, ela está há dois anos trabalhando com
crianças como babá, como uma pessoa humilde,
ganhando seu próprio sustento, não teve roda de
amigos, nem namorado, nem nenhum tipo de
divertimento fútil. Ela se vestiu como você em
vida, conforme você exigiu, para passar por todos os constrangimentos que você passou. Fez tudo que
você pediu.
− Ela vacilou duas vezes... Com ele – falou
apontando para Lourenço que arregalou os olhos e
afastou o corpo da mesa numa atitude defensiva
instintiva.
− Sabemos disso. Mas foram momentos de
fraqueza, porque eles estão apaixonados. – As
palavras de Noemi fizeram Lourenço e Lucinda
ruborizarem. − Não quiseram afrontar você. E eles
se desculparam, não é? Você ainda odeia Lucinda?
− Não. Não posso mais odiar ninguém, senão
nunca vou parar de sofrer. Não odeio mais Lucinda,
porque ela não é mais a garota que eu odiei. E
castigando ela, porque eu estava com raiva, acabei
fazendo bem para ela. Foi só por isso que me
deixavam sair daquele lugar horrível. Eu pensava
que estavam me deixando me vingar... – disse em
meio a um riso choroso. – Mas só estavam me deixando salvar Lucinda e Regis.
− Como você salvou Regis?
− Ele ficou perturbado por me ver em seus
sonhos e perceber minha presença e procurou ajuda
em uma igreja. A igreja fez bem pra ele. Ele largou
o vício. Continuei perto dele, porque ainda queria
me vingar, fui até a igreja dele. Mas lá eles não me
entenderam. Mas eram boas pessoas e ajudaram ele
do jeito que podiam. Fez bem pra ele... Acabei
ficando com pena dele em vez de raiva... Ele
sempre foi fraco, como eu...
− Você perdoou Regis?
− Agora perdoo.
− Isso é ótimo, Lisânia. E perdoa Lucinda?
− Perdoo.
− E perdoa sua mãe, por não ter sido boa mãe
com você? Por ter errado tantas vezes em sua
educação, sua negligência?
− Eu quero perdoar...
− E o que te impede?
− Não sei... Sinto que... Tem uma coisa que eu
não consigo me lembrar... De quando eu era viva...
é com a minha mãe. Falta uma coisa para eu
perdoar, mas não sei o quê.
− Não seria da época que você era muito
pequena, bebê? Por isso não lembraria?
− Não... é uma coisa mais recente... eu só não
consigo lembrar...
O médium então fez um gesto com as mãos. O
mesmo que Regis havia descrito para Lourenço e
que Lucinda já conhecia tão bem de seus pesadelos
com a ex-colega de escola. Lisânia o fazia em seus
sonhos e Lucinda nunca entendera o porquê, mas
naquele instante, ele tornava-se bem claro para ela.
A jovem babá teve a compreensão exata de que
quando sua ex-colega juntava as palmas das mãos
para cima, estava querendo lhe dizer que havia algo
de que não se lembrava... E que era algo importante que revelaria o mistério de sua morte.
− Não pode perdoar incondicionalmente? Sem
saber o que é?
− Não! Preciso lembrar. Você me ajuda a
lembrar?
Noemi pensou por um minuto. Aquilo parecia
um desafio. Se era um caso de memória seletiva,
devia ser algo muito ruim, muito traumático. O que
a mãe da menina podia ter feito de tão grave assim
com ela? Maus tratos? Abuso físico e psicológico?
− Claro. Vamos te ajudar. Vamos fazer uma
oração para Jesus e nossos guias iluminados nos
ajudarem.
Assim, fizeram um minuto de oração. Logo
Noemi retomou a palavra:
− Lisânia, vou tentar ajudar você a lembrar, tá?
Mas me diga uma coisa: você disse que pensava
que se vingava, mas estava salvando Lucinda e
Regis. E sua mãe? Também estava salvando ela?
− Eu estive nos sonhos dela também. Mas não
consegui fazer nada para ela. Mas ela não era má,
era? Ela só não foi uma boa mãe...
− Preciso que você me esclareça e procure se
lembrar, tá? Por que ela não era uma boa mãe? Ela
batia em você?
− Batia.
− O quanto?
− Muito.
− Quando?
− Sempre.
− Desde quando?
− Desde sempre.
− Parou quando você cresceu? Ela não te batia
no seu último ano de vida, né?
− Batia. Mas Regis me protegia. Aí ela gritava.
Gritava muito.
− Ela bebia?
− Às vezes.
− Seu padrasto era mau com você também?
− Os dois eram.
− O que ele fazia?
− Coisas ruins.
− Que coisas ruins? – insistiu Noemi.
− Coisas muito ruins, tá? – Ela choramingou
como quem implora para não lembrar nem dizer.
− Aquilo que você não se lembra e que sua mãe
fez era uma dessas coisas ruins?
− Não. Foi diferente.
− Você era bebê? Pequena?
− Não! É recente.
− Antes ou depois do que Lucinda fez?
− Depois.
− No dia que você morreu?
− É... – falou com a entonação de quem se
apercebe de algo.
− Foi antes de você se enforcar?
− É, eu acho.
− Ela foi ao seu quarto, viu a corda?
− É, viu.
− Tentou fazer você não pular?
− Não lembro...
− Tente se lembrar.
Lucinda, apesar de já acostumada com a
situação, poucas vezes vira Lisânia se manifestar
falando através de outro médium que não fosse
Noemi e sempre falava pouco. Eram mais
grunhidos, gemidos, choro e reclamações. Agora
ela parecia mais lúcida. Estava serena e focada. E
Lucinda já sentia o que iriam descobrir. Se não
tivesse sido proibida pela médium de interferir
naquele caso, talvez já tivesse dito o que
intuitivamente já sabia. Adivinhara, deduzira, como
se aquele gesto em seus sonhos, naquele momento,
tivesse magicamente revelando que o que a menina
morta não lembrava era justamente o momento de
sua morte...
Lourenço via tudo em que ele acreditava ou não
acreditava entrarem em choque e em xeque. Sua
concepção de vida nunca mais seria a mesma.
O médium fez uma expressão pensativa e
dolorosa, estranhamente feminina para aquele
sujeito robusto e barbudo.
− De manhã ela tinha brigado comigo de novo.
Disse que eu era um peso, um atraso na vida dela.
Que ela não conseguia namorado porque eu estava
lá atrapalhando. Porque quando eles viam a filha
aberração que eu era, metiam o pé.
− Foi por isso que você quis se matar? Achou
que assim deixaria sua mãe livre?
− É... Eu queria acabar com todo aquele
sofrimento! Eu não aguentava mais aquela tortura
dela me dizendo que eu não prestava, que não valia
o prato de comida que comia, que ela gastava muito
dinheiro comigo e todas aquelas coisas que ela
sempre dizia...
− Como arrumou a corda com aquele nó
corrediço?
− Eu comprei pela Internet. O nó já vinha
pronto... É incrível o que se pode comprar pela
Internet! Eu tinha todo um kit de suicídio. Até
veneno eu tinha...
− E escolheu se enforcar?
− Eu só queria que a dor fosse embora... Ela só
ia embora com as drogas, mas durava pouco... Eu
queria definitivo... Se eu soubesse o que sei agora...
Que não adianta nada! A dor vem com a gente e
piora! É horrível ser suicida aqui! É pior que gótico
aí! Preparei tudo.
− E?
− Eu já havia tentado antes e não consegui.
Sempre tinha medo na última hora. Eu liguei pro
Regis e disse que ia me matar. Eu disse que era por
causa dele! Mas não era! Queria que ele se sentisse
culpado. Ele e a Lucinda me fizeram sofrer, mas nem se comparava ao que minha mãe me fazia
sofrer todo dia...
− E quando sua mãe...?
A fisionomia do médium começou a se
transfigurar num misto de surpresa e pavor − Meu
Deus! Eu estou me lembrando agora... Eu vou
contar o que aconteceu...
Lucinda tinha uma boa ideia do que tinha
acontecido! Ficou aflita e em expectativa. Sabia
que suas suspeitas se confirmariam.
O médium entrou numa espécie de transe mais
profundo enquanto Lisânia ia se lembrando e
contando o que realmente acontecera antes de sua
morte.
* * *
– Eu não suportava mais! Queria morrer!
Peguei o kit de enforcado que tinha esse nome mesmo, por mais estranho que pareça. Pensava
apenas se minha morte poderia, pelo menos,
despertar alguma culpa naquela mulher que se
dizia minha mãe. Ajeitei tudo. Deu um certo
trabalho. Enquanto me preparava, esqueci um
pouco o que estava fazendo. Era como se fosse uma
atividade normal, uma tarefa. Quando ficou
pronto, fiquei olhando pra aquilo e quase desisti.
Quase...
Escrevi um bilhete primeiro – o tradicional
bilhete suicida. Disse que odiava todos e tudo. Que
o mundo era um lugar horrível e eu estava cansada
de tudo! Assinei e deixei sobre a cama. Aí liguei
para minha mãe. Disse que ia me matar. Que
ninguém ia me impedir. E então me dei conta de
que eu queria era que alguém me impedisse, que
dissesse que eu era importante, que não viveria
sem mim. Ou Regis ou minha mãe. Por isso liguei
para os dois. Será que alguém ligava para mim? Alguém tentaria me deter?
Coloquei a cadeira na posição. Subi e coloquei
o laço no pescoço. Apertei um pouco. Mas aí fiquei
parada lá uma meia hora sem a coragem de pular
da cadeira. Teve um momento em que eu me
desequilibrei e achei que poderia acabar morrendo
por acidente. Teria sido bom? Fiquei aliviada
quando me equilibrei e por não ter caído. Que
espécie de suicida fica aliviado quando não morre?
E lá fiquei. Aí, escutei um barulho. Era ela. Então
eu pensei: Caramba, ela largou o trabalho e correu
para me salvar! Será que ela se importa pelo
menos um pouquinho?
Deus! Eu me lembro de tudo agora! Por que
não lembrava antes, Noemi? Ela entrou no quarto
e olhou para mim. Eu lembro que fiquei assustada
do jeito que ela me olhou. Pensei que ela entraria e
gritaria para eu parar e sair dali. Mas não. Ela
ficou só me olhando e eu me assustei. Ela pegou o bilhete na cama e leu. Aí, ela perguntou:
− Você vai se matar? – Ela perguntou não com
preocupação real, mas irônica e cinicamente,
deixando claro que não acreditava. Eu fiquei com
muita raiva e mágoa.
− Vou! Vou me matar por sua causa!
− Não vai nada! Você não tem coragem! É só
papo fiado! Vou me matar, blá, blá, blá! Não tem
competência nem pra isso! Cortou os pulsos? Nem
acertou a veia direito! Tomou remédios? Nem
tomou uma dose fatal! Você não quer se matar
coisa nenhuma! Quer que a gente fique com
peninha de você! E eu fico largando tudo e
correndo para ver a sua ceninha! Tudo cena, meu
amor! Quer se matar? Então vai, pula!
− Você não liga, né? – Eu gritei desesperada e
magoada.
− Eu cansei! Cansei! Pula logo que eu tenho
mais o que fazer!
− Então não sei se vou pular! Não quero te dar
esse gostinho!
− Eu é que não aguento mais!
E foi aí que ela...
Ela chutou a cadeira com raiva e eu caí. Senti o
nó me enforcando. Ela ficou me olhando um tempo.
Depois saiu. Eu fui sufocando, sufocando... Aí ficou
tudo escuro.
Quando acordei, eu estava perdida entre dois
mundos. Ora eu estava perto de Lucinda, Regis ou
minha mãe e ora estava naquele lugar horrível
para suicidas. Fui ao meu enterro. Um outro
espírito como eu me disse para eu seguir Lucinda.
Pensei que seria para me vingar... Agora entendo...
Foi para me tirar dali também. É muito ruim ficar
vendo nosso cadáver se decompor. Já ouvi que
alguns ficam lá e passam por isso.
* * *
− Lisânia?! Lisânia?! – chamava Noemi,
escutando o médium que a representava chorando
baixinho.
− Oi? – ela atendeu. – Desculpe. Eu me
lembrei... É muito ruim.
Todos na mesa estavam chocados, menos
Lucinda. De certa forma ela já sabia. Lourenço era
talvez o menos surpreso dentre os outros, pois a
conversa com o delegado Perez já havia suscitado
aquela hipótese.
− Então você não se suicidou efetivamente. Sua
mãe matou você. Foi assassinato.
− Não importa muito para a minha situação. De
qualquer forma fui como suicida. Eu tomava drogas
e isso é um tipo de suicídio. Eu tentei algumas
vezes e tinha essa ideia de me matar e isso também
é ser suicida.
− Sim, mas é menos consciente. Por isso você pôde fazer o que fez. Acho então que não consegue
perdoar sua mãe?
O médium inspirou e expirou pesadamente.
− Vou perdoar. Se eu não perdoar, quem se
prejudica sou eu. Ela é uma pobre coitada. Uma
alma infeliz e tenho até medo de imaginar o lugar
para onde ela vai quando morrer. Mas quero
justiça.
− Mas você sabe, Lisânia, que sempre há justiça
aí do outro lado.
− Eu sei. Mas a justiça que eu queria, era que
soubessem que eu não me matei, pelo menos não
daquele jeito. Eu queria que Regis soubesse...
Queria que a justiça daí também descobrisse...
− Vai ser difícil provar. Não podemos usar o
testemunho de uma morta como prova. Embora
isso já tenha sido feito na história da justiça no
Brasil... Mas não somos médiuns de renome.
− Eu entendo.
− Vamos orar para que você possa perdoar sua
mãe. Consegue se perdoar, Lisânia?
− Isso é o mais difícil. Mas agora que sei que
não tirei minha própria vida do jeito que pensei,
consigo me perdoar. Vou melhorar.
− E Lucinda? Está liberada? Agora ela é livre
para se vestir como quiser, trabalhar ou estudar,
fazer o que quiser?
− Sim. Mas, não vou liberar o namoro com esse
jovem.
Na mesa todos se assustaram e se entreolharam.
Lucinda e Lourenço queriam muito falar, meter-se
na conversa, mas haviam sido avisados que só
Noemi falaria com ela. Tinha que ser assim.
− Por que não, Lisânia? Ela cumpriu...
− Não essa parte. Eles desrespeitaram duas
vezes.
− Você tem que perdoar, Lisânia.
− Eu perdoo. Só não libero. Ainda. Porque eu
preciso deles dois. Preciso que me façam um favor.
CAPÍTULO
24
NÃO ACABOU
Seu Josué Antunes estava chegando de mais uma viagem de negócios. Quando chegou à portaria do prédio, viu
que o porteiro tinha cara de novidade. Mas bastou
olhar para o sofá da recepção para saber o que era.
Lucinda, sua filha. Ela estava lá e ao que tudo
indicava esperava por ele. Trazia suas coisas, o que
indicava que ela estava voltando para casa.
Quando o viu se levantou e esperou. Ele se aproximou cauteloso e muitíssimo emocionado.
Pensara que talvez, ela não voltasse mais. Ele sabia
que não era o melhor dos pais, que depois da morte
da esposa não tinha sido forte o suficiente pelos
dois. Sabia que Lucinda tinha esperado mais dele
do que ele realmente pôde dar. Mas estava disposto
a tentar, a melhorar. Ela tinha se tornado uma
adolescente rebelde e egoísta, mas sabia que tinha
culpa nisso.
E agora lá estava ela. Os cabelos pretos, mais
crescidos e fora do corte louco e repicado,
começavam a parecer bem normais. O cabelo louro
natural da menina começava a aparecer nas raízes.
As roupas eram as mesmas, mas sem as correntes,
piercings, maquiagem e unhas pretas, ela parecia
bem normal. Ela sorriu timidamente e ele se rendeu
à emoção do momento, avançando o que faltava em
sua direção para abraçá-la fortemente. Derramou
duas lágrimas. Lucinda também chorou e o porteiro estava quase se rendendo também. Ao se
desprenderem do abraço, tiveram um olhar de
camaradagem antes de iniciarem o contato verbal.
− Você voltou, filha? Pra ficar?
− Voltei, pai. Daqui só saio se precisar morar
em alojamento de faculdade ou quando me casar.
− Que bom! Eu fico muito feliz! Vamos subir!
Eu te ajudo – disse pegando a maior parte da
bagagem da menina deixando muito pouco para ela
carregar.
Lucinda não contou ao pai sobre fantasmas nem
nada desse tipo. Ele continuava a ser um ateu
convicto e não acreditaria facilmente. Decidiu que
tentaria espiritualizá-lo aos poucos, com o convívio
e com conversas e mais conversas, sem pressa.
Apenas disse a ele que era uma fase que ela
precisou viver para aprender. E terminou essa frase
com um beijo terno na bochecha vermelha do pai, que ficou encantado. Ela voltava a ser não a
adolescente que era antes da fase gótica, mas a
menina boa que era quando a mãe era viva, só que
mais esperta, madura e inteligente.
Lucinda encontrou seu quarto do jeito que
deixou.
− Eu não mudei nada, filha. Você podia voltar a
qualquer momento, então eu... Bem, tá tudo aí. E se
precisar de qualquer coisa nova... Você largou o
emprego, né? Vai aceitar o dinheiro do seu velho
pai?
− Vou, pai. Vou precisar do senhor para poder
estudar ano que vem na faculdade. Quero me
dedicar bastante.
− Claro, claro! Você não precisava trabalhar.
− Eu sei disso... Quero só estudar por um
tempo... Depois vou estagiar.
− É claro, minha filha!
Lucinda abriu o armário e seus olhos percorreram seu antigo guarda-roupa. Podia
aproveitar muita coisa, mas algumas peças
simplesmente não faziam mais o seu estilo. Seu
novo estilo não seria nem uma coisa nem outra.
Nem perua adolescente nem roqueira gótica. Queria
misturar. Queria vestidos claros e românticos.
Queria jeans e tênis coloridos, saias compridas,
blusas delicadas e vestidos com estampas florais.
− Pai, ainda vou lá por uns dias até a nova babá
se adaptar, tá?
− Tudo bem, filha! Desde que você volte para
casa...
− É aqui que eu moro agora. Sem querer
abusar, vou querer mesmo um pouco do seu
dinheiro. Tenho algum, mas queria dar uma
renovada no meu visual. Nas roupas e no cabelo...
− É só dizer quanto.
* * *
Ana Beatriz reclamou muito de ter uma nova
babá, mas Lucinda conversou tanto com ela, que a
menina aceitou a mudança, principalmente porque
Lucinda garantiu que estaria lá nos primeiros dias,
até ela se acostumar. Além disso, Lourenço estava
de férias e estaria em casa também. Era uma época
perfeita para uma adaptação.
A nova babá se chamava Lígia, tinha trinta e
cinco anos e dois filhos adolescentes. Começara a
trabalhar como babá depois que os filhos ficaram
autossuficientes, porque simplesmente adorava
crianças e sentia falta do convívio com uma. Claro
que também para completar o orçamento apertado
da família. Era simpática e sorridente e apesar da
origem humilde, era bem eloquente.
Ana Beatriz simpatizou com ela de imediato.
Lucinda chegou pouco depois da nova babá
naquela manhã de segunda-feira. Lourenço foi atender a campainha, ansioso depois de não vê-la
desde o sábado de manhã, quando a levara de carro
até a casa de seu pai com todas as suas coisas. Ao
abrir a porta se surpreendeu. Lucinda vestia jeans,
mas uma blusa branca com letras coloridas. Sua
única maquiagem era um batom cor-de-rosa e seus
cabelos estavam bem penteados e de uma
tonalidade escura de louro. Os olhos azuis se
sobressaíam ainda mais. Então aquela era Lucinda?
− Nossa! Que transformação!
− Esta sou eu! De verdade! – falou dando uma
voltinha. – O que acha?
− Como fez seu cabelo...?
− Estava ficando de duas cores, então descolori
de vez e tentei o tom mais próximo do natural.
Acho que ficou bom. Mas se disser que estava
melhor antes, corro e compro uma tinta preta.
Ele riu divertido e pegou um dos fios do cabelo
dela em seus dedos.
− Você está linda – disse, triste por não poder
ainda demonstrar com gestos o que sentia.
− Obrigada. Que bom que gostou. É um alívio.
− Então, quando vamos fazer aquilo?
− Bem, hoje preciso ficar com a nova babá até
seus pais chegarem... Vamos sair assim que eles
chegarem. Vai ter que ser à noite. Vamos fazer
hoje!
− Mal posso esperar.
* * *
Nove da noite.
− Pronta? – perguntou Lourenço quando
Lucinda afivelava o cinto de segurança de seu
assento no carro.
− Pronta. Vamos fazer aquilo.
* * *
Naquela manhã de segunda-feira, quando Regis
recebera o telefonema do delegado Perez, não sabia
o que pensar. Mas ele queria apenas que ele
recebesse visitas à noite. Visitas que ele não
desejava. Porém, não era boa ideia recusar algo a
um delegado, ainda mais um que suspeitara dele
quando sua namorada se suicidou. Prometeu
colaborar em tudo que pudesse. Mesmo assim,
odiava ter que falar com aquela garota de novo.
Às nove e meia sua campainha tocou e ele
gritou para a mãe que atenderia. Que era para ele.
Pelo olho mágico confirmou que era seu passado
batendo à porta. Abriu-a sem ânimo.
− Boa noite − falou Lourenço primeiro,
tomando a dianteira e entrando no apartamento sem
esperar ser convidado.
− Oi, Regis – cumprimentou Lucinda, seguindo Lourenço de cabeça baixa, sentindo-se esmagada
pelo peso da vergonha que sentia só de lembrar
como tinha se comportado com aquele rapaz no
passado.
Regis não disse nada, apenas os seguiu e
conduziu aos seus aposentos, muito contrariado.
* * *
Terça-feira, quinze de dezembro.
Lourenço e Lucinda deixaram Ana Beatriz, que
também já estava em férias escolares, com a nova
babá por algumas horas e foram até a delegacia.
Perez os aguardava.
− Bom dia delegado – cumprimentou Lourenço.
− Bom dia, Lourenço.
− Lucinda, como vai? – Ela cumprimentou
timidamente. Havia falado com esse delegado por
ocasião da morte de Lisânia e não tinha sido muito agradável, pois ele a tratara como suspeita de
assassinato ou pelo menos como culpada pelo
suicídio da menina. Não que tivesse mágoa, tinha
era vergonha, pois ela merecia todas as suspeitas.
− Olha, a minha comichão está me matando!
Temos que resolver logo isso! Sentem-se.
* * *
Dona Delvina, mãe de Lisânia, morava em um
apartamento simples e antigo em Copacabana.
Vivia da pensão do falecido marido. Não tinha tão
boas condições financeiras como a família de
Lucinda ou de Regis, o que fez com que Lourenço
suspeitasse que devia ter sido bem mais difícil para
ela manter Lisânia na escola onde estudou.
Chegaram ao prédio por volta das dezoito horas.
Delvina também recebera um telefonema do delegado que trabalhara no caso do suicídio de sua
filha. Foi bem estranho receber aquele telefonema e
mais estranho ainda o pedido que lhe fez para
receber aquela menina que ela odiava e um outro
rapaz que nem sabia quem era. O delegado só lhe
disse que seria muito importante para esclarecer a
morte de sua filha. Mas para ela não havia nada
para ser esclarecido. Fora um suicídio e aquela
gente tinha que aceitar aquilo.
Muito contrafeita abriu a porta para aquele
casal contrastante: uma menina branca de cabelos
claros e um rapaz moreno de cabelos escuros.
Deixou-os sentar em seu sofá, mas não lhes
ofereceu nada, nem água. Sentou-se no outro sofá e
encarou os dois com olhos malfazejos.
− O que vocês querem comigo?
− É um assunto delicado, dona Delvina –
começou Lourenço. – A senhora já conhece a
Lucinda. Eu vim apenas para acompanhá-la, já que a senhora guarda uma certa mágoa dela.
− Essa menina matou a minha filha!
− Na verdade, dona Delvina, sua filha acha que
foram três pessoas as responsáveis pela morte dela:
essa menina aqui, Regis e a senhora.
− Eu? Vocês tão malucos? E Lisânia não acha
nada porque tá morta!
− Pois é. Aí é que está o problema. Ela não está
totalmente morta – falou Lourenço de forma
espirituosa, de certa forma se divertindo com
aquilo.
− Como assim não está totalmente morta?
− Dona Delvina, a senhora sonha com ela? –
arriscou Lucinda.
Delvina ficou lívida e sentiu uma brisa soprar
em seu rosto. Por instinto olhou para a janela, mas
ela estava fechada. O pavor a dominou e sentiu
todos os pelos de seu braço arrepiarem-se.
− Vocês sentiram isso? – Ela perguntou assustada.
− É, eu meio que sinto também a presença dela.
Regis também. Ela está em nossos sonhos e fica
atrás da gente o tempo todo. A senhora pode não
acreditar, mas ela é um fantasma – afirmou
Lucinda.
− Isso é impossível – falou mais para si mesma
que para eles. Tremia naquele momento.
− Ela tem me perturbado há muito tempo e a
Regis também. Acho que a senhora sabe do que eu
tô falando. Quando pelo canto do olho você tem a
certeza que tem alguém ali, mas quando se vira não
tem ninguém. Sentir a presença de uma pessoa
mesmo quando está sozinha... Chega a ouvir passos
quando anda em uma rua pouco movimentada à
noite, mas aí se vira e não tem ninguém. Às vezes
chega a ver o vulto ou ouvir uma voz bem distante,
mas sempre diz pra si mesma que é sua
imaginação, que é da sua cabeça. Chega até a ouvir o seu nome...
− Isso é um monte de bobagem! Só acredito
vendo.
− Ver a senhora não vai. São poucas pessoas
que tem esse dom. Mas sentimos do jeito que falei.
E tem pessoas que conseguem falar pelos mortos. E
uma dessas pessoas disse que ela quer que o
assassino confesse.
− Assassino? Que assassino?
− Sua filha foi assassinada, dona Delvina. Ela
não se enforcou sozinha – afirmou Lucinda
catedraticamente, mostrando toda certeza que ela
tinha desde antes de a própria Lisânia confirmar o
que ocorreu.
− Que absurdo! Vocês são loucos! – falou
muito nervosa levantando-se do sofá. Mas aí ouviu
um sussurro perto de seu ouvido que era como um
sopro, um barulho feito pelo vento, mas que soou
claramente como: confesse!
− Ela disse que não vai ter paz até o assassino
confessar ou ser pego – completou Lourenço – e
nem vai deixar essa pessoa em paz.
− E o que o delegado tem a ver com isso?
Delegado agora acredita em história de fantasma?
− É o seguinte – iniciou Lucinda retomando a
palavra −, parece que há uma prova do assassinato
de sua filha. Ela tinha uma câmera escondida no
quarto, que usava para seu diário em vídeo. E ela
estava ligada no momento em que ela morreu.
Ao ouvir aquelas palavras, Delvina arregalou os
olhos e ficou em choque.
− Regis está com a gravação porque ele sabia
da câmera e pegou para ter as últimas palavras de
sua namorada como recordação. Ele achou o corpo
e depois que chamou a polícia e ligou pra senhora,
ele pegou a câmera. Mas ele não teve coragem de
assistir, porque seria muito doloroso. Mas agora
Lisânia fez uma comunicação com o mundo dos vivos e pediu para eu, a senhora e Regis nos reunir
e assistirmos ao vídeo. Ela quer revelar o assassino
e é um de nós. Quer que ele se arrependa e
confesse.
− Isso é loucura! Se é um de nós, só pode ser o
Regis! Porque você não me chamaria se fosse você.
− Vamos fazer isso amanhã de manhã, na casa
do Regis.
− Que coisa idiota! Se ele é o assassino, vai
matar a gente!
− O delegado Perez vai chegar logo que puder.
Ele vai chegar um pouco depois...
− E pode ser tarde!
− A senhora vai?
− Isso é uma palhaçada. Fantasmas não existem
e não deve ter nada nessa gravação.
− Então não há nada a temer – concluiu
Lucinda, com um pequeno sorriso de satisfação,
sentindo-se uma peça chave naquele jogo que tinha
como objetivo fazer justiça.
CAPÍTULO 25
ELEMENTAR, MEU CARO
PEREZ
Quando Regis recebeu Delvina no apartamento, Lucinda e Lourenço
também já estavam lá, para total surpresa dela, que
chegara uma hora antes, achando que encontraria o
rapaz sozinho.
− Puxa! A senhora chegou cedo mesmo! Mas
parece que todo mundo chegou!
A mulher ficou desnorteada. O que ia fazer
agora? Em vez de um só, havia três no apartamento. O vídeo pausado já estava com o
rosto de Lisânia congelado. Ela puxou uma arma de
dentro da bolsa e a apontou para uns e outros,
exigindo que se posicionassem todos juntos.
− Então, tá! Eu não quero a imagem da minha
filha denegrida assim. Eu não fiz nada e isso tudo é
uma palhaçada. Para ninguém se machucar, vamos
acabar com essa brincadeira agora. Regis, tira isso
aí e me dá a gravação – Ela ordenou se fazendo
valer da autoridade da arma.
− Calma aí, dona Delvina. Abaixa essa arma –
suplicou Regis.
− Tira logo isso daí e me entrega.
Regis obedeceu. Lucinda e Lourenço tinham as
mãos ao alto e se entreolhavam.
Quando de posse do cartão onde estava gravado
o vídeo, ela olhou ao redor e ainda muito nervosa e
com voz alterada voltou-se novamente para Regis:
− Isso tem cópia? Tem alguma cópia? Vai, responde!
− Tem – respondeu ao mesmo tempo em que
pegou um DVD sobre a estante onde estava a tevê e
entregou a ela. Neste mesmo instante, bruscamente
adentraram o apartamento Perez e mais quatro
policiais empunhando armas e vestindo coletes.
− Parada! Polícia! Jogue a arma no chão. Dona
Delvina, coloca a arma no chão e as mãos na
cabeça!
Acuada e assustada, ela colocou a arma no
chão, mas tentou ocultar o cartão e o CD no bolso
da calça. Os policiais agiram rápido e a renderam e
revistaram, pegando as gravações quase que
imediatamente após ela as ter tentado esconder,
pegaram a arma e a algemaram.
Quando ela se recuperou do susto e colocou os
pensamentos em ordem, começou a questionar a
prisão:
− Eu tô sendo presa por quê? Eu não fiz nada!
− Por porte de arma e assalto a mão armada.
− Como assim? Que assalto?
− Exigir objeto por meio de força é assalto,
roubo a mão armada. Mas a senhora é suspeita do
assassinato de sua filha, Lisânia, o que essas
gravações devem provar – discursou Perez.
A mulher baixou a cabeça e se deixou ser
conduzida, sendo levada embora. Antes de sair,
Perez trocou olhares de cumplicidade com
Lourenço e Lucinda.
Aquilo era só o início. Eles tinham planejado
tudo. Regis foi uma parte um tanto difícil.
Convencê-lo a fazer parte daquele teatro perigoso
fora trabalho árduo. Disseram-lhe somente que
tinham a prova, mas que precisavam da prisão em
flagrante. No entanto, o perigo da empreitada o
assustava e somente a promessa, mesmo que
quimérica de que isso daria paz a Lisânia e que ela
não o atormentaria mais nos sonhos, foi capaz de persuadir o rapaz.
Por segurança, um carro de polícia com
policiais a paisano pernoitou em frente ao prédio
onde Regis morava, caso Delvina resolvesse ir até
lá dar fim à suposta gravação. Perez havia armado
um esquema. E ela realmente chegou antes da
hora. Os policiais da viatura comunicaram
imediatamente, por rádio, o fato ao delegado, que já
estava no prédio – havia chegado cedo. Entrou em
seguida no apartamento de Regis. Felizmente, tudo
estava acontecendo como ele previra.
* * *
Delvina não queria falar sem o advogado. Mas
não estava só naquela cela. Lisânia estava lá,
soprando-lhe pensamentos o tempo todo: Confesse!
Eu não vou te deixar em paz enquanto não
confessar...
Ela foi chamada à sala de interrogatório de
novo. Mas não era para falar com Perez. Ela tinha
uma visita: Noemi.
− Oi, Delvina.
− Quem é você?
− Meu nome é Noemi. Nós já nos vimos.
− Já?
− No enterro de Lisânia... Quando a senhora
gritou com Lucinda, acusando ela de ter matado sua
filha... o que é bem estranho, considerando que foi
a senhora que matou...
− Isso é mentira.
− A senhora sabe que tem uma gravação.
− Eu não vi a gravação, não sei se prova
alguma coisa.
− Mas eu sei o que está lá. Lisânia me contou.
− Ah, tá!
− Eu a vejo! Sou médium... Não consigo ouvi-
la bem, pois o fato de ter sido enforcada afeta sua