A Borboleta Tatuada

Philip Pullman · Capítulo 2 de 2 · parte 3/4

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A Borboleta Tatuada

Capítulo Três · Na segunda-feira seguinte, Barry Miller pediu a…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Sim. Posso imaginar. Eu só...

— Você gosta de crianças? — perguntou Barry.

— Na verdade, nunca lidei muito com crianças. Mas gostei muito de conversar com Sean esta noite. Ele é uma gracinha de menino, sinceramente.

— Ele é o melhor do mundo — declarou Barry orgulhoso.

— Você poderia estudar para ser professora — sugeriu Sue. — Estou pensando em fazer isso quando terminar meu curso. No momento, estou numa turma de secretariado, mas tenho certeza de que poderia lecionar.

Jenny nunca havia pensado em professores como sendo qualquer coisa diferente de pessoas estranhas, fracassadas, mal-humoradas e hostis. A idéia de aquela mulher bonita, agradável e sensata ser uma professora fez com que, por um momento, ela visse todo tipo de possibilidades. O mundo parecia ser um lugar aberto e amistoso.

Depois que acabaram de tomar o chá, Barry ofereceu-se para levá-la de carro até em casa. Ela disse que não, que era apenas uma caminhada de dez minutos, mas ele insistiu. Não gostava da idéia de garotas andando sozinhas à noite.

No carro, ele perguntou:

— Está tudo bem?

— Como assim?

— Bem, desculpe-me se estiver me metendo, mas você parecia estar tão infeliz quando nós chegamos.

— Ah! — Ela não sabia como responder. — Bem... não, acho que sou assim mesmo. Está tudo bem.

— Você estava com uma cara trágica. Esta é a palavra correta. Será que poderá cuidar de Sean novamente?

— Claro. Se vocês quiserem. Sempre que eu estiver livre.

— E olhe, se estiver com algum problema ou alguma coisa em que possamos ajudar, não espere, sabe o que estou dizendo? Eu não sou de fazer cerimônia. E Sue também não. Ela é uma pessoa maravilhosa. Pode perguntar a qualquer um. Não consegue ficar na fila do ônibus sem que logo alguma velhinha venha lhe contar todos os seus problemas. Todas as crianças na escola costumam vir conversar com ela em vez de falar com os professores. Você pode vir conversar com ela sempre que quiser.

— Obrigada — disse Jenny enquanto eles paravam defronte à casa de Gill Petrie. — Obrigada pela carona.

— Foi um prazer.

Ele acenou pela janela aberta enquanto se afastava e ela se lembrou de que não havia lhe contado sobre o curioso telefonema do homem que não quis deixar o nome. Levando tudo em conta, havia sido uma noite estranha.

 

Capítulo Onze

Estava se tornando claro para Chris as coisas que eram boas e as coisas contra as quais tinha de lutar porque eram más. A perda de Jenny e a briga com Piers, o que Dave lhe contara a respeito de Barry — tudo apontava para a conclusão de que a mentira e a traição eram o pior dos males, e que a sinceridade e a fidelidade o bem supremo. Se você fizesse uma promessa, devia cumpri-la. Se quebrasse uma promessa, você não merecia viver. Sentir isso fazia com que Chris se sentisse forte: forte, mas desolado, porque em sua mente ele havia prometido ser fiel a Jenny, e ela estava perdida. Mesmo assim, com a força vinha a confiança de que a encontraria de novo. O que era correto venceria. Teria de vencer.

Sua mãe, que estava demasiado concentrada em seu amor por Mike Fairfax para reparar no lábio ferido de Chris depois da briga com Piers, não deixou de reparar nesse seu novo estado de espírito, nesse absolutismo inflexível, sombrio. Certa noite, falou a respeito disso, quando sentaram-se para jantar.

— O que deu em você? — perguntou ela. — Você era tão tolerante.

— É o estado de espírito dos tempos em que vivemos — comentou Mike. Ele tirara os óculos e seus olhos pareciam gentis e úmidos.

— Não tem nada a ver com os tempos em que vivemos, nem com coisa nenhuma — declarou Chris. — E o que você está querendo dizer?

— É o Zeitgeist. O espírito de nossa época. Fundamentalismo.

— Ora, mas ele não é assim tão mau... — a mãe de Chris começou a argumentar.

— Se alguma coisa é fundamentalmente verdadeira, é igualmente verdadeira não importa em que época — disse Chris. — É besteira dizer que as pessoas sentem uma coisa apenas porque todo mundo sente. Seria o mesmo que dizer que você poderia fazer um plebiscito sobre a força da gravidade. Se alguma coisa é verdade, é verdade.

— Bem, isso, por si só, é uma posição fundamentalista — declarou Mike. — Um liberal diria que existem outros tipos de verdade, além dessa. Liberais diriam que o que é verdade é o que funciona, e que se um determinado tipo de crença faz com que você se sinta bem, então ela é verdadeira para você. E uma outra crença seria verdadeira para uma outra pessoa.

— Bem, eles estariam enganados — contestou Chris. — Isso é a mesma coisa que dizer que nada é verdade. É a mesma coisa que dizer que tudo é uma mentira.

— Mas o mundo é assim, Chris.

— Não é! E uma crença não tem nada a ver com fazer você se sentir bem. Há coisas em que você tem que acreditar mesmo se fazem com que se sinta péssimo.

— Bem, que seja como mais lhe agradar — retrucou Mike sorrindo. — Sentir-se péssimo mas íntegro, justificado, é apenas uma outra maneira de sentir-se bem.

— Você sempre faz isso! — Chris se enfureceu, perdeu a cabeça e bateu a mão espalmada sobre a mesa, levantando-se tão bruscamente, que a cadeira foi atirada para trás. Sua mãe disse "Chris", e estendeu a mão, e Mike olhou para ele com uma expressão de desculpas, arrependido, mas Chris se afastou, cego de raiva.

— Vocês sempre, todos vocês, gente como vocês, vivem falando dessa baboseira de se sentir bem, como se fosse a coisa mais importante do mundo; como se a verdade não tivesse importância, nem a justiça, nem a honra; como se fossem apenas palavras para fazer com que vocês se sintam bem... de modo que possam mentir, trapacear, enganar suas famílias. Nada disso importa desde que no final vocês se sintam bem...

— Chris! — ralhou sua mãe. — Pelo amor de Deus! Ele parou e olhou para ela. Foi um olhar de desprezo de gelar o sangue. Então fez meia-volta e saiu.

— Mas o que deu nele? — Mike falou — Foi alguma coisa que eu disse?

— Espero que você não esteja certo — respondeu a mãe de Chris. — A respeito do fundamentalismo. Eu não suportaria se ele se metesse com esse tipo de coisa.

Eles concluíram que aquele desespero repentino e a explosão de raiva descontrolada eram coisas da adolescência, e sentiram-se satisfeitos por serem racionais e maduros, capazes de manter suas paixões sob controle. Mas apesar disso, no fundo do coração de Mike havia uma pontinha de inveja; e quanto à mãe de Chris, só depois de ter ido para a cama com Mike foi que ela conseguiu tirar dos pensamentos a expressão que vira no rosto de seu filho, tão fria e imperativa quanto uma espada.

Alguns dias depois de Jenny ter trabalhado como babysitter para os Millers, Tommy Sanchez a chamou em seu escritório.

Eram sete horas da noite de mais um dia de calor. Jenny sentiu o coração se apertar de medo; imaginava o que iria acontecer. Entrou devagar, enquanto Tommy Sanchez, de jeans, tênis e uma camiseta listrada, abria uma garrafa de cerveja mexicana e a passava para ela antes de abrir outra para si mesmo.

— Sente-se — convidou ele, instalado em sua cadeira giratória antiga de capitão. Ela puxou a outra cadeira e se sentou, como uma secretária pronta para tomar notas. As paredes do escritório eram cobertas de pôsteres e fotografias; discos de jazz e cassetes estavam espalhados sobre a escrivaninha; havia um computador e uma máquina de fax numa prateleira atrás dele e uma enorme jukebox automática Wurlitzer tornava impossível abrir a porta totalmente. Sentindo-se atordoada e impotente, Jenny olhou pela janela que dava para o gramado de um velho cemitério, há muito tempo fora de uso, que ficava nos fundos da capela vizinha.

— Como vão as coisas com você? — perguntou Tommy.

— Tudo bem, obrigada.

— Nenhum problema?

— Não. Tudo ótimo.

— Porque eu me preocupo com você, Jenny. Ela baixou o olhar e não disse nada.

— Beba sua cerveja, senão vai ficar quente. Obedientemente ela inclinou a garrafa e tomou um gole do líquido gelado, borbulhante. Sentindo que deveria dizer alguma coisa, perguntou:

— Por que se preocupa comigo?

— Porque me parece tão jovem — respondeu Tommy. — Você parece que precisa de proteção.

— Não, não preciso. Não preciso de nada.

— Exceto de um emprego.

As palavras pairaram no ar por um momento, e então ele se inclinou para a frente sobre a escrivaninha.

— Jenny, tome um drinque comigo hoje à noite, antes de ir para casa. Onde você mora?

— Em Kidlington. Mas —

— Como volta para casa? De ônibus, ou coisa assim?

— No último ônibus. Saio justo a tempo de apanhá-lo.

— Eu levo você em casa. Vou lhe dar uma carona. Deixe-me fazer isso. Aceite.

Ela sentia-se imensamente cansada, exausta até a alma.

— Por que não diz logo o que quer? — perguntou ela.

— Acabei de dizer. Gostaria de ver você depois que fecharmos, tomar um drinque, depois levo você em casa. É isso.

— É só isso? Mais nada?

— Palavra de honra.

— Não estou a fim — retrucou ela. — Eu não acredito em você. Na verdade, imagino que devesse. Imagino que devesse aceitar sua palavra de honra. Não sei por que eu não —

Ele levantou a mão. Era tão forte e seguro de si, com suas feições toscas, cinzeladas, os grandes olhos escuros. Ela se calou.

— Chega, está bem? — disse ele. — Estou arrependido de ter feito o convite.

Não vou lhe dar motivos para fazer reclamações sobre assédio sexual. Não faço assédio a ninguém. Não preciso disso. Se você não quer vir tomar um drinque amistosamente, tudo bem; é só dizer que não, eu compreendo. A verdade é que gosto de você. É uma garota simpática, atraente, silenciosa, que me deixa curioso. Gostaria de conhecer você melhor, OK?

Ela ficou sentada de olhos baixos e não disse nada.

— Eu não preciso correr atrás de minhas garçonetes, Jenny. Realmente, não se trata disso.

Ela levantou a cabeça, abriu a boca para falar e então deu de ombros.

— Você parece que está passando por um mau pedaço — comentou ele. — Gostaria de ajudar. É só isso.

— Que está querendo dizer com eu pareço que estou passando por um mau pedaço? Que aparência é essa que eu tenho?

— A cara triste e séria. Infeliz. Desinteressada pelas coisas.

— Desinteressada pelo trabalho.

— As palavras são suas, minha cara.

— Então isto é uma ameaça.

— De jeito nenhum!

— O que você está dizendo é que, se eu não... fizer o que você quer, vai me despedir.

— Pelo amor de Deus!

— Não é isso que está dizendo?

— Claro que não!

O rosto dele estava contraído de raiva. Ela o viu fazer um esforço e sorrir.

— Olhe — disse ele —, vamos recomeçar do princípio, OK? Começamos mal desta vez. Vamos fazer de conta que você acabou de entrar. As coisas estão tranqüilas, não há nada para fazer lá fora durante uma meia hora, mais ou menos. Nós nos sentamos e tomamos uma cerveja. Como vão as coisas com você, Jenny?

— Tudo bem, obrigada — respondeu ela.

— Já conseguiu um lugar para morar? -Já.

— Ah, que bom. Porque estava dormindo no chão do quarto de Dorothy, não é?

— Só por alguns dias.

— Mas fica muito longe, não fica? Kidlington?

— Não demora muito de ônibus.

— Quanto custa a passagem?

— Uma libra e cinqüenta, ida e volta.

— Puxa, mas isso é muito dinheiro. Nossa, são nove libras por semana!

Ela deu de ombros.

— Você deveria encontrar um lugar mais perto — disse ele.

— Então custaria muito mais caro.

— Conheço um lugar onde você poderia morar.

Ela olhou para ele insegura, sem saber se estava fazendo uma brincadeira ou falando a verdade, mas parecia sincero.

— Eu tenho um apartamento em Gloucester Green — explicou ele. — O novo bairro residencial. Tenho dois quartos; você poderia ficar com o segundo quarto.

Agora havia o brilho de um sorriso nos olhos dele, uma espécie de sorriso de uma insolência natural, e ela não podia negar seu charme. Teve que apertar os lábios para se impedir de sorrir também.

— Veja só, estou sendo muito franco, não estou? — disse ele. — Gostaria de conhecer você melhor. Não faz sentido ser tímido com relação a isso. Não vou importunar você, mas você também não pode esperar que eu pare de tentar. Você tem namorado?

Ela não disse nada.

— É claro que tem — prosseguiu ele. — Meia dúzia. Vamos deixá-los para lá. Eu terei você, Jenny. Eu quero você.

— Você sempre consegue o que quer?

— Não, e é isso que torna as coisas divertidas. A gente nunca sabe o que vai conseguir. De todo modo, pense no assunto.

— Pensar em quê?

— No meu segundo quarto. Estou falando sério. É verdade. Você poderia vir vê-lo esta noite, se mudar para lá no fim de semana. Por que não faz isso? Reflita um pouco a respeito disso. Não me dê uma resposta agora. Conversaremos mais tarde.

Ele se levantou e abriu a porta para ela. Jenny voltou para a frente do café e trabalhou por cerca de uma hora, passivamente, sem pensar no que havia acontecido, deixando que as idéias se ordenassem por si mesmas em sua mente, até ter certeza do que tinha de fazer.

Ao final da noite, ela foi procurar Tommy.

— Sabe aquilo que me disse hoje mais cedo?

— Você mudou de idéia?

Eles estavam parados no pequeno corredor, escuro e quente, entre o escritório e a cozinha. Havia pessoas circulando, mas estavam ocupadas, e era fácil falar com intimidade sem ser ouvido.

— Escute — disse ela e, obedientemente, ele se inclinou chegando mais perto. Ela ficava maravilhada com a facilidade com que aqueles seres perigosos obedeciam às ordens que recebiam. — A dona da casa onde alugo o quarto, ela vai querer uma semana de aviso prévio pelo quarto, sabe como é, vai cobrar uma semana de aluguel. Eu não poderia simplesmente ir embora sem pagar a ela; não seria justo. Mas não tenho mais nenhum dinheiro do salário desta semana. Se você puder me pagar o que ganhei até hoje, eu vou poder pagar a ela agora e vou me sentir melhor a respeito disso. E então...

Ela levantou o olhar para ele, depois tornou a baixar os olhos. Tinha funcionado. Ele puxou um maço de notas do bolso e entregou a ela o dinheiro a que tinha direito e mais uma nota de dez libras.

— Nenhum problema — disse ele. — Que tal aquele drinque?

— Agora não. Amanhã. Não estou me sentindo muito bem no momento. Mas obrigada.

Representando até a alma, ela tocou de leve no pulso dele e sorriu, antes de se virar para ir embora. Ele não desconfiou de nada.

Se a intenção dela tivesse sido aplicar-lhe um golpe e tomar-lhe uma grande quantia de dinheiro, teria sido igualmente fácil. É claro que Jenny não estava aplicando golpe algum, mas sabia que se simplesmente dissesse que estava indo embora, não receberia o salário que lhe era devido. Da forma como fizera, teria de ir embora sem receber a parte que lhe cabia das gorjetas; mas as dez libras adicionais compensavam isso.

Contudo, agora tinha dinheiro suficiente para viver uma semana mais ou menos. Mais uma vez, tinha pela frente toda a rotina melancólica de procurar empregos e, se não conseguisse encontrar nada, teria de sair da casa de Gill Petrie e voltar para a miséria de passar a noite em abrigos públicos e mendigar.

Ela quase havia abandonado a esperança de encontrar Chris.

Mas, quando ia saltando do ônibus em Kidlington, certa tarde, com os pés doídos de ir de lojas, que não queriam seus serviços, para escritórios que já tinham preenchido suas vagas e hotéis que queriam alguém com experiência, um carro estacionou a seu lado e uma voz chamou:

— Ei, Jenny!

Era Barry Miller, o pai de Sean. Ela disse oi, como vai, e ele abriu a porta.

— Quer uma carona até em casa? — perguntou.

— Mas é logo ali, depois da esquina.

— Não faz mal, entre.

Ele era tão diferente de Tommy Sanchez, tão alegre e franco e tão diferente das caras infelizes que lhe disseram não a tarde inteira, que ela se sentiu melhor só por estar em sua companhia.

— Está cansada? — perguntou Barry.

— Está tão quente. Estive procurando emprego.

— Não teve sorte?

— Não consegui nada.

— Gostaria de ter alguma coisa para lhe oferecer.

— Não, pode deixar, vou acabar encontrando alguma coisa. Ah! Eu deveria ter-lhe contado naquela noite! Houve um telefonema...

Jenny contou a ele tudo de que conseguiu se lembrar. O efeito foi surpreendente e assustador. Barry era bronzeado e tinha uma expressão alegre, mas a cor fugiu de seu rosto e ele pareceu envelhecer dez anos em um instante. Encostou o carro no acostamento da estrada e a fez tentar se lembrar de tudo.

— Mas o que significa tudo isso? — perguntou ela.

— Você não comentou nada com Sue, comentou?

— Não, acabei de me lembrar agora. Sinto muito, deveria ter falado antes.

— Deus do céu, só espero que ele não tenha andado metendo medo em Sue...

Ele tamborilou com os dedos no volante, olhando fixamente pelo pára-brisa, sem ver o que estava à sua frente. Então disse:

— Escute, você tem meia hora? Quero lhe mostrar uma coisa.

— Tenho. Tudo bem. Mas o que está acontecendo?

— Tem um homem querendo me matar — respondeu Barry, engrenando o carro.

Ele fez meia-volta, como se fosse seguir de novo em direção a Oxford, mas virou e seguiu por um caminho diferente antes de entrarem na cidade. Jenny ficou sentada com as últimas palavras de Barry ecoando em sua mente. Será que podia acreditar em algo tão melodramático? Mas era evidente que ele acreditava.

— Quem é esse homem? — perguntou ela.

— O nome dele é Carson. Só Deus sabe como ele descobriu onde estou. Olha só, andei metido com essa família da zona sul de Londres, Carson e seus dois irmãos. Bem, estou dizendo metido, mas, na verdade, não tinha nada a ver com eles. Eram uns bandidos, realmente não prestavam. Drogas, garotas, clubes... eram os reis da cocada preta. Tinham esquemas de venda de proteção... sabe como é, você paga 100 libras por semana ou nós destruímos sua loja. E destruíam mesmo. E eles mataram... Havia um outro bando rival, no mínimo, não era uma gangue de verdade, não como a máfia ou coisa parecida, mas eles estavam brigando entre si para ver quem iria controlar os esquemas, sabe? No final, os Carsons pegaram os dois sujeitos no comando da oposição e levaram para uma garagem, um lugarzinho escondido, todo fechado, e amarraram os dois. Então cortaram a garganta deles e os penduraram como se fossem animais em um açougue. Os homens só foram encontrados depois de uma semana... É claro, isso era um aviso, um recado, sabe? Você coopera conosco ou vai acabar sangrando até a morte pendurado num gancho.

Barry se calou para se concentrar no tráfego em um grande cruzamento perto do motel. Jenny olhou para ele e o viu de rosto sério, pálido, tenso.

O carro entrou no fluxo do tráfego e ele prosseguiu:

— Eu tinha um negócio por lá. De material elétrico. Principalmente trabalho para empreiteiros, mas tinha uma pequena loja. Eu tinha planos; pretendia aumentar o negócio a varejo. Conhecia o mercado, sabia o que as pessoas queriam. Tinha tudo planejado.

"E então eles vieram me procurar querendo dinheiro. Sabe, pague ou vamos destruir sua loja. E eu disse não. Não estava querendo me fazer de herói nem nada; apenas disse não, de jeito nenhum, não ia aceitar aquilo. Eu sabia que haveria problemas, mas você não pode deixar pessoas assim dominarem sua vida. E dois ou três dos comerciantes da vizinhança ficaram sabendo e se aliaram comigo. Nós protegeríamos uns aos outros. Acertamos que sempre haveria um de nós de vigia, e tínhamos walkie-talkies para falar uns com os outros, bastões de beisebol para usar como arma... Engraçado, nunca nos ocorreu procurar a polícia. No lugar de onde eu venho, não se faz isso. Você resolve as coisas sozinho.

"E uma noite, os Carsons vieram. Trouxeram coquetéis molotov e iam destruir as lojas. Ficaram um bocado surpreendidos quando aparecemos atacando com nossos bastões de beisebol... sabe como é, a gente estava morrendo de medo, é claro, entende? Aqueles homens eram assassinos. Todos nós sabíamos quem tinha feito aquele serviço de cortar gargantas na garagem; todo mundo sabia. Mas só se pode pressionar as pessoas até um determinado ponto... Nós tínhamos chegado ao nosso limite. Estávamos reagindo, lutando pelo que era nosso.

"Só que não tínhamos contado que um daqueles malditos idiotas dos Carsons tivesse uma arma. E ele entrou em pânico e baleou meu companheiro, o paquistanês da quitanda ao lado. Claro que alguém ouviu e ligou para a polícia e antes que eles pudessem fugir — porque nós ainda estávamos brigando, sabe? — apareceram as sirenes tocando, as luzes piscando, e o coitado do Mohammed estendido morto no meio-fio, os Carsons estavam cercados... Deus do céu, mesmo ali na hora eu não conseguia acreditar naquilo; parecia até um filme ou coisa assim."

Eles estavam descendo em direção a Wolvercote. Não era uma área de Oxford que Jenny conhecesse, e ela ficou confusa quando Barry fez uma curva e embicou o carro para uma trilha estreita entre as árvores.

— Para onde estamos indo? — perguntou.

— Para o meu chalé. Estaremos lá dentro de um minuto. Onde é mesmo que eu estava?... Ah, a briga, isso mesmo, o tiroteio. Bem, foi isso que realmente acabou com o poder dos Carsons. Sabe como é, foram apanhados em flagrante, de arma na mão e tudo o mais... Nós fomos presos, o grupo todo, e a história foi revelada no tribunal. Não havia nada de que eles pudessem nos acusar; estávamos apenas nos defendendo. Os dois Carsons mais velhos foram condenados à prisão perpétua. Por causa da história da garganta cortada, eles foram condenados por isso também. Mas o irmão mais moço, Eddie, nunca foi acusado de coisa alguma. Ele se mantinha limpo. Nunca esteve envolvido nos esquemas de extorsão, nem nos atos de violência, nada. Mas era o pior do grupo.

"E... pois bem, ele sabia que eu tinha organizado tudo, a resistência. E eu sabia que viria me procurar em busca de vingança. E teria ficado por lá, encarado ele, mas depois pensei em Sue e Sean... A polícia disse que não podia nos proteger. Significaria nos dar proteção 24 horas por dia e eles não tinham pessoal disponível para isso. De qualquer maneira, ele era esperto demais para fazer uma ameaça direta."

O carro parou debaixo das árvores. Havia uma clareira mais adiante à direita, onde ficavam vários casebres, parecendo um campo de mineração no interior americano.

Barry abriu a porta e saltou.

— Venha dar uma olhada — convidou. — Fica bem aqui.

Ela o seguiu pela clareira cheia de sombras, que era rajada de raios de sol, mas de longe muito mais fresca do que as ruas quentes por onde estivera andando durante o dia inteiro. Ele parou diante da porta do galpão que parecia mais sólido e o destrancou, abrindo a porta com um floreio.

— Quer beber alguma coisa? — perguntou Barry. — Tenho Coca-cola ultragelada, que tal?

Era uma casinha bem ajeitada. Jenny esperava encontrar alguma coisa precária e suja, mas o assoalho estava coberto por um piso de vinil limpo, as paredes revestidas com placas de gesso e parte do espaço tinha sido separada com uma divisória como uma cozinha, com uma pia de aço inoxidável, um forno de microondas e uma geladeira. A divisória ainda não havia recebido o revestimento de placas de gesso e saltava aos olhos como uma grade nua de madeira áspera; fora isso, o trabalho de construção estava todo feito. O chalé também estava mobiliado: havia uma cama, com colchão e um edre-dom, uma mesa com duas cadeiras, uma cômoda com gavetas, um aparelho de televisão portátil sobre uma prateleira baixa. Tudo tinha um aspecto reluzente, ainda não usado. Sobre a mesa estava um canivete suíço e um conjunto de barra e argolas de plástico para cortinas, ainda na embalagem.

— Para que vai servir? — perguntou ela. — Você vai morar aqui?

Ele estendeu-lhe uma lata de Coca-cola, coberta por uma fina camada de gelo.

— É bem jeitoso, não é? Não, não é para morar. É para parecer que se mora aqui.

A expressão no rosto dele, enquanto levava a lata aos lábios, era de prazer infantil por sua própria esperteza.

— Você vai ter que explicar — disse ela.

— É uma armadilha, compreende? O que vou fazer é atrair Carson até aqui, deixar que ele pense que estou escondido aqui. Fazer com que pareça que tem gente morando aqui. De modo que ele virá me procurar, só que não vou estar aqui. Tudo bem, ele vai pensar. Vou esperar por ele. Eu sei como a cabeça dele funciona, compreende? Ele adoraria isso. Adoraria ficar sentado aqui dentro, durante horas, só esperando no escuro e então, quando eu chegasse e acendesse a luz, ele diria "Alô, Barry, seu canalha", e bam, bam, bam, meteria algumas balas em mim. Ele adoraria isso.

"Só que o que realmente vai acontecer é que o lugar vai estar cercado pela polícia, e eles vão apanhá-lo com a arma na mão, e assim será ponto final para ele, vai se ferrar. O que você acha? Não é um plano inteligente?"

Este plano, mais uma fantasia inventada de improviso, é claro, e bem diferente do que havia contado a Chris, parecia implausível para Jenny. A idéia de dúzias de policiais se esgueirando em meio aos arbustos era o suficiente para fazer seus lábios tremerem de vontade de rir, mas controlou-se e bebericou a Coca-cola. Contudo, havia claramente alguma coisa por trás daquilo tudo; o telefonema tinha sido real, também tinha sido real a maneira como ele empalidecera quando lhe falara a respeito. Não se podia fingir coisas desse tipo.

— Bem, é sim — respondeu ela, se dando conta de que Barry estava esperando por uma resposta. — Quando é que você acha que ele vai aparecer?

— Não por algum tempo ainda. Aquele telefonema... Ele disse mais alguma coisa?

— Não. Só o que eu lhe contei.

— Não importa. Eu sei quem era. Bem, Carson poderia descobrir como encontrar a firma, mas não saberá como encontrar isto aqui até eu estar pronto para recebê-lo. A armadilha tem que ser bem montada... Escute, você não disse que estava procurando emprego?

— Isso mesmo.

— Quer ganhar algumas libras?

— Quero!

— Que tal fazer o trabalho de acabamento deste lugar? Não o revestimento com as placas de emboço; vou cuidar disso. Mas não tenho tempo para fazer a pintura, botar as cortinas, esse tipo de coisa. Está vendo, é preciso colocar as barras para as cortinas acima das janelas. É muito fácil, é só aparafusá-las, é tudo de madeira. E as placas de revestimento precisam levar um papel de parede. Você alguma vez já colocou papel de parede?

— Não — respondeu ela, sorrindo da idéia. — Mas provavelmente saberia dar uma pintura sem problema.

— Pintar... é, por que não? Usar um daqueles tons de tinta brancos suaves, sabe como é, com um pouco de amarelo ou de creme. É, isso ficaria bom. Que tal lhe parece cuidar disso?

— Legal. Tudo bem. Não tenho mais nada para fazer.

— Pode começar amanhã?

— Claro. A qualquer hora.

— Então está combinado. Maravilha. Vai ser perfeito. Vou arranjar uma chave extra para você e cuido de comprar as tintas, os pincéis e o resto amanhã de manhã cedo. Vai ser um belo trabalho...

Eles acertaram quanto tempo provavelmente demoraria e quanto ele pagaria, depois acabaram de tomar os refrigerantes e se prepararam para ir embora. O anoitecer estava bonito; o forte calor que fizera durante o dia estava começando a amainar, e a clareira defronte ao chalé estava rajada de tons fortes de verde, marrom e dourado, à medida que o sol descia e penetrava inclinado em meio às árvores mais jovens na margem do canal. Ao saírem do chalé, enquanto Barry trancava a porta, Jenny teve um pressentimento de absurda felicidade, como se estivesse vendo o final de uma comédia romântica: ela estaria trabalhando no chalé, de pincel na mão e, por alguma extraordinária coincidência, alguma absurda reviravolta da trama, a porta se abriria e lá estaria Chris. E tudo acabaria bem.

Em vez disso, aconteceu uma outra coisa. O canivete suíço que Jenny viu sobre a mesa era de Chris, e, tendo se lembrado que o havia deixado no chalé, ele estava a caminho de lá para buscá-lo. No exato momento em que Jenny e Barry saíram do chalé, Chris entrou na clareira e os viu. Seu estado de espírito estava mais furioso e selvagem do que jamais esteve. Ele estava pronto para acreditar no pior de todo mundo e de tudo, e naquele momento pensou ter visto exatamente isso: um homem mais velho, transbordando de satisfação, orgulhando-se do prazer de uma conquista sexual. E Jenny... se parecia ser uma vítima ou uma parceira voluntária, ele não sabia dizer, porque sua visão de repente se despedaçou com lágrimas infantis.

Ele fez meia-volta e foi embora antes que eles o vissem.

 

Parte Três

 

Capítulo Doze

Naquela noite, deitado na cama sem conseguir dormir, Chris disse a si mesmo uma vez após a outra que não deveria ter ido embora — que aquilo era covardia, que era desonesto, que deveria tê-los confrontado e falado francamente. Era terrível sentir que muito pouco tempo atrás ele o teria feito sem hesitação, do mesmo modo que havia enfrentado Piers. Mas naquela ocasião estivera enganado, e a falta de sorte o deixara ressabiado.

Assim, sua mente dividiu-se contra ele. Chris ao mesmo tempo se desprezava e tinha pena de si mesmo, se condenava e se desculpava, e foi uma noite tenebrosa. No final, decidiu que já que seu instinto para confrontos diretos e honestos de maneira inexplicável o havia traído e falhado, ele teria de ser franco e honesto por força de vontade e confrontar Barry quando chegasse a manhã. À medida que o céu clareava tornando-se cinza ao redor das cortinas, e os passarinhos no jardim começavam seu coro impiedoso, Chris finalmente acabou pegando num sono exausto.

Tanto sua mãe quanto Mike Fairfax repararam em sua aparência abatida na hora do café, mas nenhum dos dois teve coragem de mencionar o assunto até ele sair de casa. Então ela comentou com Mike que seu filho parecia ter sido condenado à morte.

Mike deu uma breve risada e observou:

— Isso é estranho. Eu estava pensando numa coisa parecida, mas não exatamente isso. Pensei que ele parecia um aprendiz de carrasco em sua primeira manhã de trabalho.

Ela fez uma careta.

— Isso é meio sinistro.

— O que está havendo com ele? Você sabe?

— Ele não diz nada. Será que é a adolescência?

— Provavelmente. Apesar de tudo, não é nenhuma doença mortal, até onde sei. Talvez ele esteja apaixonado.

Chris ainda não tinha resolvido o que iria dizer, mas não queria esperar, de modo que, em vez de ir para o depósito, passou primeiro na loja na Cowley Road. Mas o furgão não estava lá e Barry também não. Sandra, arrumando a loja para abrir, não sabia onde ele estava.

— Mas ele normalmente vem à loja hoje, não vem? — perguntou Chris.

— Ah, sim. Normalmente, ele também chega cedo, antes de mim. Na verdade, tem que chegar antes das nove e meia, porque um representante vai passar aqui.

Sandra era uma mulher agradável, meio gordinha, de seus vinte e poucos anos, com cabelos vermelhos e sardas. Desde que ouvira o que Dave dissera a respeito dela e de Barry, Chris passara a olhar para Sandra com alguma curiosidade, mas sem perceber que houvesse entre ela e o patrão algo além do entusiasmo amigável e enérgico que Barry inspirava em muita gente.

— Então... ele provavelmente está no depósito. Tudo bem. Escute, Sandra, você viu uma garota circulando por aqui com ele, mais ou menos da minha idade, magra de cabelos curtos e escuros?

Ela sacudiu a cabeça.

— Quem é ela?

— Uma garota chamada Jenny. Eu a conheci numa festa e depois perdi o contato com ela, e pensei tê-la visto com ele ontem.

— Por que não pergunta a ele?

— Eu ia perguntar... Bem, provavelmente verei o Barry mais tarde. Obrigado.

— Até logo — respondeu Sandra, placidamente enchendo a gaveta da caixa registradora.

Enquanto pedalava pela Cowley Road, Chris refletiu que se fosse verdade que Sandra estivesse tendo um caso com Barry, ela teria parecido mais enciumada quando ele lhe falara sobre Jenny; mas aquilo não a havia afetado de jeito algum. Talvez pensasse que Jenny fosse jovem demais para ter importância. Ou talvez não houvesse nada entre ela e Barry. Ou talvez ela fosse apenas naturalmente calma. Ou talvez estivesse fervendo de ciúme vingativo e soubesse esconder isso muito bem. O problema com o estado de espírito em que ele se encontrava era que não lhe permitia confiar em nada nem em ninguém. Vivia sob o jugo da suspeita, da desconfiança, de acreditar que as pessoas fossem capazes do pior... era horrível.

O depósito era um prédio em um pátio numa rua transversal onde uma série de pequenos negócios haviam se estabelecido; havia um engenheiro de sistemas de aquecimento central, por exemplo, um restaurador de móveis e um homem que fazia radiadores para carros antigos. Chris àquela altura conhecia bem a rua; conhecia vários dos trabalhadores de vista e reconhecia os veículos que geralmente estavam estacionados por lá.

De modo que o Mercedes branco que estava estacionado do outro lado da rua em frente ao depósito de Barry chamava atenção por ser incomum por ali. Havia alguém dentro dele e, quando Chris reduziu a velocidade para entrar no pátio, o homem o chamou.

— Por favor!

Chris parou e virou a bicicleta para pedalar de volta ao carro.

— Pois não?

O homem parecia ter trinta e tantos anos, mais ou menos a mesma idade que Barry. Vestia um terno escuro com uma gravata listrada e usava óculos.

— Você conhece um homem chamado Barry Miller? — perguntou.

— Eu trabalho para ele.

— Saberia dizer se por acaso ele está aqui?

— Bem, deveria estar... — Chris olhou para o pátio. O furgão grande estava lá e viu Tony destrancando a porta do depósito, mas o furgão menor de Barry não estava em seu lugar habitual, junto à janela do escritório. — Não, ele não parece estar por aqui hoje.

— Ele tem uma loja em algum lugar, não é?

— Tem, na Cowley Road. Mas também não está lá. Acabei de vir da loja.

O homem parecia um vendedor de seguros, pensou Chris, mas, se fosse mesmo, não estaria dirigindo um Mercedes; ou então poderia ser um banqueiro, mas se fosse não estaria visitando a Oxford Entertainment Systems. Ele tinha uma expressão amável, de estudioso, de modo que poderia ser um professor ou um advogado, talvez, só que a voz dele não parecia se encaixar, não combinava com essa imagem, tinha um duro e forte sotaque londrino. Chris não conseguia situá-lo de jeito algum. Será que era um corretor de imóveis que queria mandar organizar uma festa luxuosa em sua nova casa de campo? Um homem de negócios que queria comprar a firma de Barry Miller?

— Humm... — O homem tamborilou com os dedos no volante. — Escute, você precisa ir para o trabalho agora? Será que tem um ou dois minutos para uma conversa?

— Bem, sim, eu já deveria estar lá. Deixe só eu ir avisar a eles que cheguei, OK?

— É claro. Sem problema.

Chris pôs a bicicleta no lugar habitual, dentro do depósito e deu um alô para Tony.

— Você viu Barry hoje de manhã? — perguntou Tony.

— Não. Tem um sujeito —

— Qual, o do Mercedes? Ele esteve aqui ontem.

— Ele quer falar comigo um minuto.

— Tudo bem. Não tem pressa. Quando você tiver acabado, veja só, as lanternas da discoteca do casamento voltaram; estão todas imundas. Não sei o que andaram fazendo, provavelmente espirrando champanhe nelas, não me espantaria com isso. Poderia lavar todas e checar as lâmpadas? Anote se alguma estiver quebrada e cobraremos deles.

Era um tipo de trabalho normal; Chris imaginava que lhe tomaria mais ou menos meia hora. Tornou a sair e foi até o Mercedes branco. O motorista fez sinal para que desse a volta até o lado do passageiro e se inclinou para abrir a porta. Chris hesitou.

— Tenho um trabalho para fazer — disse.

— Não vai demorar. Mas não quero conversar aqui. Vou lhe dizer o motivo dentro de um minuto.

Chris entrou e o motorista deu partida no carro e começou a se afastar. O motor era mortalmente silencioso. O carro era tão bem projetado, que Chris teve a sensação de estar completamente excluído do resto do mundo, enquanto seguiram pelas ruas ensolaradas dentro do isolamento do ar-condicionado.

O homem foi dirigindo pela Cowley Road por algum tempo, entrou numa rua transversal e estacionou defronte a uma fileira de casas meio afastadas.

— Mas a respeito de que é tudo isso? — perguntou Chris. — Se quer falar com Barry, ele provavelmente agora está na loja. Ele tem que estar lá às nove e meia porque tem hora marcada com um representante.

— Agradeço-lhe por tirar esse tempo de sua hora de trabalho. Você não vai ser prejudicado por isso, vai? Vão descontar alguma coisa de seu pagamento?

— Não, não é isso, mas o que eu queria dizer é que tenho trabalho para fazer, sabe como é?

— É claro que sim, compreendo. Não vou tomar muito de seu tempo. Agora me diga, conhece bem Barry Miller?

— Bem, trabalho para ele há algumas semanas.

— Mas não é um emprego permanente, é? Quero dizer, você ainda é estudante, não é?

— Bem, sou, estou cursando o sixth form.* É trabalho de férias.

* Curso preparatório que habilita o estudante para o ensino superior ou profissionalizante no Reino Unido [N. do E.].

— Você se importaria de me dizer seu nome?

Chris hesitou. Aquilo tudo era estranho e desorienta-dor. O homem percebeu sua dúvida.

— É melhor eu lhe dizer qual é meu interesse. Deveria ter feito isso logo, para começar, desculpe-me. Meu nome é Fletcher. Eu sou um policial, inspetor detetive. E você é?

— Chris Marshall.

— Certo. Chris. Pois bem, isso tudo é muito constrangedor. Seu patrão, Barry Miller, poderia ou não, não sei dizer, me ajudar em uma investigação que estou fazendo a respeito de um caso ligeiramente complicado. Estou temeroso de abordá-lo diretamente, porque é provável que ele compreenda mal a natureza da investigação... Entende o que estou querendo dizer?

— Ele vai pensar que está atrás dele?

— Isso mesmo.

— É sobre o tal caso irlandês?

— É. Olhe, você quer voltar para seu trabalho e eu não quero lhe criar problemas. Vou levar você de volta para Iá agora, mas poderia me dar meia hora ou coisa assim na hora de seu almoço? A que horas é seu almoço?

— A uma hora, geralmente.

— O que você faz, traz uma marmita?

— Trago.

— Você se importaria se tivéssemos uma conversa?

— Bem... desde que... está certo, sim, tudo bem.

— Ótimo. Maravilhoso. Agora, pelo que me lembro, há um estacionamento ao lado da próxima rua, atrás do supermercado. Você leva o seu almoço e eu me encontro com você lá, digamos, por volta de uma e cinco, uma e dez?

— OK. Olhe, eu deveria estar —

— Claro. Vou levar você de volta agora mesmo.

O carro partiu com um aumento de aceleração, rápido e suave, sem nenhum ruído, dentro dele o ar estava fresco, nas ruas lá fora, havia silêncio, e Chris pensou: você realmente estava isolado do mundo em um carro como aquele. Não era como uma bicicleta, em que você fazia parte da rua, unido aos sons e movimentos de todo mundo ao seu redor. No Mercedes branco, você era diferente.

Barry não apareceu no depósito a manhã inteira, mas também eles não estavam esperando que aparecesse. Tony não parecia nem um pouco interessado no Sr. Fletcher e Chris não fez nenhum comentário. Havia muito trabalho; depois que limpou as lanternas de discoteca que tinham voltado do casamento e substituiu as lâmpadas quebradas, Chris guardou-as empilhadas em ordem e depois checou a prancheta que ficava do lado de fora da porta do escritório, onde se penduravam os formulários de pedidos esperando para serem atendidos. De vez em quando, o telefone tocava. Eles tinham um sistema democrático: quem estivesse mais perto atendia.

Quando o telefone tocou às 11 horas, aquela pessoa era Chris. Dave e Tony tinham saído para fazer uma entrega, de modo que não tinha jeito, ele estava sozinho. Entrou no pequeno escritório quente e atendeu o telefone.

— Alô, Oxford Entertainment Systems.

— Chris. Tudo bem? Aqui é Barry. Escute, Dave está por aí?

— Não, os dois estão em Marston, aquele trabalho no pub.

— Ah, certo. Olhe, você pode pedir a Dave, quando ele voltar, para dar uma passada na Lasky's e comprar uma lata de cinco litros de tinta. Acho que tem uma cor chamada "branco botão-de-ouro" ou coisa parecida.

— Botões-de-ouro são amarelos.

— Sim, eu sei, mas você entendeu o que estou querendo dizer. Branco com um leve tom amarelo. E um par de pincéis. Anotou isso?

— Lata de cinco litros, dois pincéis —

— E que traga isso quando vier aqui para a loja. Diga a ele para assinar a saída.

— Tudo bem.

— Ah, e escute... Há mais alguém por aí?

Chris percebeu o tom conspirador e se apanhou olhando ao redor de si, embora soubesse que estava sozinho.

— Não — respondeu. — Só eu.

— Olhe, você sabe aquele negócio que lhe contei? O negócio irlandês?

— Sim, eu me lembro.

— Bem, recebi um aviso. Está chegando a hora. Car-son descobriu que estou em Oxford, mas ainda não sabe onde, por enquanto. A qualquer momento, vou mandar Sue e Sean passarem uns dias com a mãe dela e então vou ficar clandestino. Estou contando com você, Chris. Não tem mais ninguém que saiba do chalé.

Não muita gente, pensou Chris com amargura.

— Certo, tudo bem — respondeu.

— A gente depois combina algum tipo de sistema. Para trocar mensagens, sabe? Talvez, walkie-talkie. Só até eu me livrar de Carson. Mas eu tive uma idéia maravilhosa... Olhe, tenho que desligar. Não se esqueça da tinta. E escute, Chris, quando tudo isso estiver acabado, tenho uns planos incríveis. O trabalho de carpintaria que você fez lá no chalé ficou beleza, fantástico. Aquilo me deu uma idéia, certo, para cenários, olhe, eu lhe conto isso mais tarde. Tome cuidado, OK? Trate de ficar de olhos bem abertos.

— Está bem, pode deixar.

— Ótimo trabalho — disse Barry e desligou.

Chris pôs o telefone no gancho lentamente. Ele tinha feito a mesma coisa de novo; tinha se esquivado de perguntar a Barry sobre Jenny. É verdade que Barry mal lhe dera uma chance, mas cada um tinha que criar suas próprias chances, não ficar esperando por elas.

Da próxima vez, pensou.

O Mercedes branco estava parado no único retalho de sombra no estacionamento. Fletcher acenou para Chris pela janela aberta.

— Estou satisfeito por você ter podido vir — disse ele, desligando o noticiário do rádio. — Sente-se.

Chris sentou no banco do passageiro da frente, deixando a porta aberta a seu lado. Fletcher estava comendo um sanduíche e bebendo água mineral de uma pequena garrafa. Ele ofereceu uma outra, fechada, a Chris, que aceitou.

— Você provavelmente está curioso — começou Fletcher —, perguntando-se, já que sou um policial, por que este carro não é um carro da polícia, por que não estou de uniforme, por que essa coisa toda é tão pouco ortodoxa. Bem, depois de ter pensado cuidadosamente a respeito do assunto, vou lhe contar. Na verdade, você pode até já ter imaginado. Já ouviu falar sobre o Setor de Operações Especiais?

— É o que lida com política, não é? — perguntou Chris.

— Questões de segurança de maneira geral. Especialmente no que diz respeito a terrorismo.

Chris tentou compreender o que tudo aquilo significava para ele. Não confiava em homens da polícia, não achava que eles estivessem do seu lado; e, quanto ao fato de se era normal ou não que um policial do misterioso Setor de Operações Especiais falasse a respeito de seu serviço daquela maneira, não tinha nenhuma idéia. Perguntou a si mesmo se deveria pedir alguma prova; eles não tinham que ter algum tipo de distintivo de identidade? Mas, de qualquer maneira, Chris não teria sabido como era, menos ainda dizer se era falsificado. Tinha que se deixar guiar por sua intuição. Ele confiava ou não naquele homem?

Virou-se para olhar Fletcher bem nos olhos. O homem o observava pacientemente. Como era difícil interpretar as aparências! Não eram como palavras; não se podia dizer que olhos cinzentos significassem honestidade, que lábios finos significassem maldade, ou que óculos significassem respeitabilidade. O rosto de Fletcher olhava de volta para Chris e aquele rosto não transmitia absolutamente nada para ele. Era como se o homem estivesse usando algum tipo de máscara, incrivelmente detalhada, de um acabamento imaculado.

A máscara sorriu. Chris virou o rosto e desembrulhou o pão com presunto que havia preparado para o almoço.

— Você disse alguma coisa sobre a Irlanda — comentou Fletcher. — Barry Miller lhe contou alguma coisa sobre a Irlanda. O que foi?

— Estou tentando me lembrar — respondeu Chris. Aquela era uma das posições mais difíceis em que ele jamais estivera. Será que Barry tinha feito alguma coisa errada? E se tivesse, seria correto contar isso a Fletcher? Talvez fosse a raiva de Chris por causa de Jenny que o fazia ter vontade de fazê-lo, e não seu entendimento do que era correto. Por outro lado, Fletcher poderia não estar pretendendo prender Barry e sim buscar sua ajuda. Que diabo ele deveria fazer?

Fletcher deve ter percebido suas dúvidas. Ele tamborilou de leve com os dedos no volante, como se tivesse tomado uma decisão.

— Olhe, Chris, você conhece Barry Miller. Ele é seu patrão; talvez seja seu amigo. Você está preocupado em falar comigo porque isso poderia significar traí-lo de alguma maneira. Estou certo?

— Está.

— Bem, compreendo isso perfeitamente. Isso depõe a seu favor. Na verdade, também depõe a favor dele. Você poderia apenas concordar em responder às perguntas que eu lhe fizer? Apenas as que lhe agradarem. Qualquer pergunta que não queira responder, por mim está tudo bem. E em troca, você pode me perguntar o que quiser, e eu lhe darei uma resposta honesta. Se houver alguma coisa que eu não possa lhe contar por motivos de segurança, a Lei de Segredos de Estado, deixarei isso claro. Que tal lhe parece?

— Tudo bem. OK. Isso é justo.

— Ótimo. Você sabe onde ele mora? Chris hesitou.

— Sei, em Kidlington.

— Sabe qual é o endereço dele?

— Eu estive lá, mas não me lembro.

— OK. Agora, esse negócio da Irlanda. Você se lembra do que ele lhe contou?

— Sabe me dizer qual é o nome verdadeiro dele? — perguntou Chris.

— Bem, Miller é o nome verdadeiro dele, porque ele o trocou por certidão unilateral. Mas antes disso ele se chamava Springer.

Chris sentiu algo estranho, como se um canto de sua paisagem mental tivesse desabado numa pequena avalanche e se apoiado sobre uma massa de pedras caídas, alterando a forma das coisas de maneira ligeira, mas significativa. Aquilo significava que Fletcher estava dizendo a verdade.

— Pois é, foi isso o que ele me disse — observou. — A respeito da Irlanda... Ele me contou que tinha servido ao exército lá, em Belfast. Não explicou muito claramente. Meio que sugeriu que tinha sido no SAS, foi o que concluí. Trabalho clandestino, esse tipo de coisa. Tinha ajudado a desmantelar um grupo paramilitar, uma das famílias ainda estava atrás dele, um homem chamado Carson... Protestante. Isso foi uma das coisas que eu não entendi. Pensei que os ingleses e os protestantes estivessem mais ou menos do mesmo lado.

— Não. Não é tão simples quanto parece.

— Bem, é claro que não. Eu já tinha percebido isso. De todo modo, o problema é que esse sujeito, o tal do Carson, ainda está atrás dele, foi por isso que Barry trocou de nome.

— Ah. Ele não contou mais nada em particular a respeito da Irlanda?

— Não. Apenas fez um monte de insinuações. Por quê? O que ele estava fazendo lá?

Fletcher coçou a cabeça.

— Receio que ele tenha lhe contado um monte de mentiras — retrucou ele. — Para começar, ele não tinha nenhuma ligação com o exército, quanto mais com o SAS. Em segundo lugar, ele estava jogando para o outro lado.

— Que outro lado, o IRA? Barry?

— Bem, é nesse ponto que começamos a tocar nas coisas secretas. Não sei se você já ouviu falar numa organização chamada INLA? O Exército Nacional de Libertação Irlandês?

— Sim, já ouvi falar deles. São um grupo mais extremista que o IRA.

— É isso mesmo.

— E está me dizendo que o Barry fazia parte desse grupo?

— Não estou dizendo isso...

Chris ficou em silêncio por alguns segundos.

— Por que está me contando isso? — perguntou ele. — Está planejando prendê-lo ou coisa parecida? Não consigo mesmo entender o que está querendo. Ele não é difícil de encontrar. Quero dizer, pelo amor de Deus, ele agora está lá na loja se quiser prendê-lo... Mas eu não consigo acreditar. Barry Miller? Ele não é uma pessoa assim. Isso é loucura. O que é isso?...

Fletcher balançou a cabeça lentamente. Parecia cansado, sábio, compreensivo.

— Foi assim que eles conseguiram ter sucesso — declarou ele. — Conquistando e se aproveitando da confiança de pessoas que não conheciam a verdade a respeito deles. Não culpo você por ter sido enganado. Ele é um mestre renomado. Mas, agora, pense bem. Ele sempre lhe contou a verdade? Você sabe com certeza que Barry merece 100 por cento de confiança? Não há sempre alguma coisa, uma ponta de dúvida em sua mente a respeito dele?

Chris não disse nada. Baixou o olhar para o carpete do carro.

— Eu conheci a mulher e o filho dele — falou meio desesperado. — Eles são gente direita. O Barry é um homem bom. Se o visse em casa...

— É difícil compreender — disse Fletcher com delicadeza —, mas existem algumas pessoas que são capazes de viver duas vidas separadas. Nunca vi a família dele, mas tenho certeza de que você está certo a respeito deles. E estaria disposto a apostar que eles sabem tão pouco quanto você sobre a outra parte da vida dele. Sua esposa poderia fazer perguntas de vez em quando, mas ele lhe contaria um monte de mentiras. Ou então ela não quer perguntar; prefere guardar suas preocupações para si mesma.

Ele bebeu mais água da garrafa. Uma outra pequena avalanche aconteceu na mente de Chris; porque quase a primeira coisa em que havia reparado a respeito de Sue, depois de pensar em como ela era uma pessoa agradável, fora no ligeiro ar de ansiedade disfarçada que nunca desaparecia por completo. Era exatamente como Fletcher havia descrito.

Fletcher baixou a garrafa, fechando bem a rosca.

— Olhe — disse ele —, vou confiar em você. Acho que deveria fazer você assinar a Lei de Segredos de Estado ou algo parecido, mas você é um rapaz inteligente. Barry Springer, ou Miller, ou Daly, sim, ele também é chamado de Daly, Michael Daly, é, ou era, um notório alcagüete, um informante da polícia. Ele foi integrante do INLA durante algum tempo, depois se entregou. Deu ao Serviço Especial um monte de informações sobre seus antigos companheiros. Ele era um especialista em explosivos. Naquela época, eles costumavam usar muito carros-bomba. Hoje em dia, com Semtex, já ouviu falar de Semtex?, que é muito mais potente, não se precisa mais de uma quantidade tão grande para causar uma explosão letal. Mas aqueles explosivos eles costumavam fazer com fertilizante, bem, uma bomba de 450 quilos não era nada incomum. Isso faria o volume somado de cinco adultos pesados. Não se pode deixar isso numa sacola de papel; daí os carros-bomba, compreende? O seu amigo Miller, contudo, era um mago com explosivos e equipamento eletrônico. Era capaz de criar uma explosão até a partir de um saquinho de açúcar.

Continuar: parte 4 de 4