A Borboleta Tatuada

Philip Pullman · Capítulo 2 de 2 · parte 4/4

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A Borboleta Tatuada

Capítulo Três · Na segunda-feira seguinte, Barry Miller pediu a…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

A cabeça de Chris estava zunindo. Ele se lembrou das palavras de Barry no baile, na noite em que havia conhecido Jenny: Não é preciso muita pólvora para fazer um estrondo gigantesco... Quase sem perceber o que estava fazendo, saltou pela porta aberta e começou a andar para baixo e para cima ao lado do carro, apertando a cabeça com os punhos cerrados. Não, era demais; era impossível que Fletcher o estivesse enganando.

Ele parou e inclinou-se para olhar para o homem dentro do carro. Fletcher o estava encarando com aquela mesma expressão de sofrimento relutante e cansado. E Chris teve certeza de que era tudo verdade, cada palavra.

De coração pesado como se fosse chumbo, tornou a entrar no carro. Tirou a tampa da garrafa de água mineral e a levou aos lábios. A água borbulhou de maneira desagradável em sua boca, e ele só engoliu um pouco.

— Está certo — declarou. — Desculpe-me. Isto foi um choque.

— É claro — respondeu Fletcher. — Vou continuar. Sabemos que Miller foi diretamente responsável por pelo menos 11 mortes. Principalmente de soldados e de policiais. Também acreditamos que ele tenha mandado pelos ares uma família inteira: pai, mãe e duas crianças pequenas. Esse é o tipo de homem que ele é. Matar não é problema para ele.

"Agora, a questão é, conforme eu já disse, que se tornou um agente duplo. Em troca de imunidade na ação penal, ele nos passou uma boa quantidade de valiosas informações, não posso negar. Uma unidade inteira de membros atuantes do INLA foi capturada e... ah, uma montanha de informações. E existe um tipo de acerto padrão: em troca disso, Springer ou Daly recebeu uma nova identidade, documentos, dinheiro e veio para cá para começar uma nova vida como Barry Miller. Na verdade, não foi muito difícil para ele. Como foi criado em Londres, não fala com sotaque irlandês, não é? Eu não sei como você se sente com relação a pessoas desse tipo ficarem livres de punição. Este mundo é um mundo sujo, Chris. Imagino que se precise de gente suja para... Bem, de todo modo, é isso."

Ele suspirou.

— Quem é esse tal de Carson? — perguntou Chris. — Barry vive falando a respeito dele.

— É o irmão do homem cuja família foi morta. Mas ele não é importante; é apenas um homem descontrolado. Mas as ameaças dele são conversa fiada. Miller não corre nenhum perigo por causa de Carson. Não, o motivo por que estou aqui não tem nada a ver com tudo isso. Nós descobrimos, não posso lhe contar como, mas descobrimos que Miller, na verdade, nunca virou casaca. Ah, as informações que nos passou eram muito boas, nenhum problema quanto a isso; ele realmente cumpriu a sua parte. Mas estavam fazendo um jogo mais complicado. Miller e o INLA estavam planejando o tempo todo colocá-lo exatamente onde ele está agora. Eles têm um novo plano de campanha preparado: alvos fáceis no sul da Inglaterra, casas de políticos, de oficiais superiores do exército, de servidores civis, policiais e suas famílias. Isso já começou. Você provavelmente já ouviu alguma coisa a respeito disso nos jornais. E aqui está ele, com acesso a equipamento eletrônico, uma cobertura perfeita, bem no coração da Inglaterra.

Não, pensou Chris. Não, de jeito nenhum, isto não é absolutamente verdade, é impossível. Barry estava vendendo maquiagem e alugando equipamento de iluminação de palco, não estava fazendo bombas; ele não era perverso; era apenas um mentiroso. E isto era um sonho.

Ele olhou para o sanduíche de presunto em que só dera uma mordida. Não estava mais com nenhuma vontade de comer aquilo; guardou o sanduíche de volta na lancheira de plástico e fechou a tampa. Fletcher enfiou a mão num saco de papel a seu lado.

— Quer uma maçã? — perguntou.

Uma maçã seria mais fácil de engolir, pensou Chris. Ele aceitou com um meneio de cabeça.

— Por que está me contando tudo isso?

— Porque eu quero sua ajuda.

— Minha ajuda? Para fazer o quê?

— Chris, sei que ele tem um esconderijo em algum lugar. E sei que você tem ajudado Barry num trabalho de construção.

— Como sabe disso?

— Ah, muito bem. Você se lembra de nosso acordo; eu não posso lhe contar como sei disso. Questão de segurança. Sinto muito.

— Questão de segurança? O que significa isso? Aparelhos de escuta ou coisa parecida?

— Sinto muito. Não posso dizer.

O rosto de Chris se contorceu num espasmo de repulsa. Aquela história inteira era repugnante. Um fedor moral parecia estar enchendo o carro, apesar das portas abertas e do purificador de ar. Fletcher pareceu perceber o que ele estava pensando.

— Você acredita em democracia, Chris. Eu sei disso.

— Acredito. E é por isso que acho esta história toda tão... nojenta. O que ele está fazendo, sim, é claro; mas o que você está fazendo também. Será que não consegue ver isso?

— Hum-hum. — Fletcher assentiu silenciosamente, tirou a tampa da garrafa, depois a colocou de volta sem ter bebido. — Sim, compreendo. Mas a democracia tem um preço. Não vem sem um custo. O preço da democracia para — ele agitou a mão indicando o resto da cidade —, para todo mundo lá fora é que algumas pessoas, muito poucas, têm que trabalhar de maneira não democrática. Você compreende, Barry Miller não quer a democracia, de modo que ele tenta subvertê-la. Não estou falando só de apresentar argumentos contra a democracia. Não nos incomodamos nem um pouco com discussões políticas; isto é o que significa democracia. Mas Barry Springer, Barry Miller, Michael Daly, este não é absolutamente o jogo dele. Ele está jogando um jogo muito diferente, em que você não se apresenta e pede votos, você anda às escondidas no escuro e deixa bombas para matar pessoas. Pessoas inocentes. Mulheres e crianças. Ele já fez isso, Chris. Está planejando fazer de novo.

Chris não disse nada. Ficou imóvel, sentindo-se nauseado, sabendo que Fletcher o estava observando. O homem prosseguiu:

— De modo que há muito pouco sentido em pessoas como eu, pessoas fazendo este tipo de trabalho, saírem por aí fazendo-o de maneira democrática, pedindo votos. Ele não pede votos antes de colocar uma bomba em algum lugar. Faça um X no quadrado se você quiser que eu mate esta mãe e duas crianças... E não adianta nós lutarmos limpo enquanto essa gente está lutando sujo, porque isso significaria que perderíamos. Todo mundo perderia. E em minha opinião, isso é inconcebível. É por isso que sou um policial, compreende, Chris, e é por isso que me orgulho de trabalhar para o Setor de Operações Especiais. Porque ao lutarmos em segredo, a guerra suja, ao fazermos as coisas não democráticas, mantemos essa infecção controlada. Tornamos o mundo seguro para a democracia. Será que isso faz algum sentido?

Mesmo assim Chris não disse nada, continuou em silêncio; mas dessa vez era porque queria ouvir mais. Ele assentiu.

— Não, não é fácil, esse tipo de trabalho — declarou Fletcher. — Não é limpo. Você não pode esperar se sentir bem por tê-lo feito. Mas nós nos sentimos mal por todas aquelas pessoas que estão lá fora, as pessoas inocentes. Não somos inocentes, nós sabemos. Não sei se você é religioso. O Jardim do Éden, você conhece essa história? Da árvore do conhecimento do bem e do mal. Se lembra disso? Antes de você comer o fruto, você é inocente, qualquer coisa que você faça é inocente, porque você não tem conhecimento. Então você come. E nunca mais será inocente. Agora você tem o conhecimento. E isso é doloroso; é uma coisa terrível. Eu sei o que estou lhe pedindo, Chris. Estou lhe pedindo que traia um homem que você pensava que fosse seu amigo. Estou lhe pedindo que prove o fruto.

"Mas vou lhe dizer uma coisa. Perder essa inocência é o primeiro passo no caminho para adquirir o verdadeiro conhecimento. Para a sabedoria, se preferir. Não se pode ter sabedoria enquanto não se perder essa inocência... Essas pessoas lá fora são inocentes, porque não sabem. São como crianças, como ovelhas. Nenhuma ovelha pode fazer mal, porque ela é inocente, certo? Mas nenhuma ovelha pode fazer bem, tampouco. Se você não souber o que é, não pode fazê-lo. De modo que é paradoxal, não é? Você não pode fazer o bem a menos que deixe de ser inocente. Todo o verdadeiro bem no mundo é feito por pessoas que comeram o fruto daquela árvore. E descobriram que era amargo e doloroso, exatamente como você está descobrindo que é amargo e doloroso trair Barry Miller.

"Bem, é isso aí, Chris. Não posso explicar mais claramente do que já expliquei. Chegamos ao fundamento mais básico. Eu não obrigarei você a nada; não o farei fazer nada que realmente não queira fazer. Não tome sua decisão agora. Pense no assunto. A que horas você sai do trabalho?"

— Às cinco, cinco e meia, depende do que há para fazer. — A voz de Chris soou distante até para si mesmo.

— OK. Ótimo. Não me dê uma resposta agora. Pode vir se encontrar comigo de novo quando sair do trabalho?

Chris assentiu. Então disse:

— Não. Vou lhe dizer agora. Tem um pedaço de papel? Fletcher se inclinou para o lado, tirou um bloco de notas do porta-luvas e abriu em uma página em branco. Estendeu o bloco para Chris junto com uma caneta.

Havia um sentimento de náusea e excitação na boca do estômago de Chris enquanto, cuidadosamente, desenhava um esboço de mapa do entroncamento na Woodstock Road, a estrada que seguia para Wolvercote, o canal, a trilha de terra batida atravessando a floresta. Ele fez o desenho devagar, com calma; era importante que ficasse bem-feito. Então virou a página e desenhou o grupo de casebres.

— Isto é ótimo — exclamou Fletcher. — Maravilhoso. A próxima pergunta é, quando ele vai estar lá? Se eu soubesse que ele iria estar lá numa determinada ocasião, poderia tomar as providências para que fosse preso. Poderíamos cercar o local. Ele vai estar armado. Será muito melhor fazer isso lá do que em algum lugar na cidade ou na casa dele, onde pode usar a mulher e o filho como reféns... Alguma idéia de quando é provável que ele vá estar neste lugar?

Havia um rugido nos ouvidos de Chris.

— Posso convencê-lo a ir lá esta noite — respondeu. — Eu ia acabar um serviço para ele. Posso ligar para Barry, combinar com ele de ir até lá.

— Brilhante — declarou Fletcher. — Magnífico. Mas por favor, Chris, você não deve ir lá. Vai ser perigoso. Diga a ele que vá se encontrar com você lá, deixe-me pensar, quanto tempo vai levar para organizar as coisas? Às dez horas tudo já deverá estar em ordem. Isso é tarde demais? Quero dizer, vai parecer estranho para ele? Sabe como é, vai ficar desconfiado?

— Eu creio que não. Vou dizer a ele que vou acabar o serviço às dez horas e se ele poderia vir e dar uma checada. Ele pode dizer que não, que é tarde demais, ou pode ser que esteja ocupado. Ou pode simplesmente não querer ir. Não posso obrigá-lo a ir.

— É claro que não. Não se preocupe com isso. De todo modo combine assim, como disse, com ele. Mas você não vá até Iá. Deixe que ele caia na armadilha. OK?

Chris assentiu. Ele não conseguia falar.

— Que horas são agora? É melhor não se atrasar na volta para o trabalho; eles vão querer saber onde você andou.

Com as mãos curiosamente leves e estranhas, Chris pôs a maçã comida pela metade na lancheira e colocou a garrafa de água mineral de Fletcher no chão acarpetado do carro. Sentia-se privilegiado e cheio de medo. Como se Fletcher fosse o guardião de algum grande segredo, como um sacerdote em um templo, e ele estivesse sendo iniciado nos mistérios. Era o sentimento cuja margem havia tocado quando discutira com Mike Fairfax — aquele conceito de verdades absolutas, de grandes poderes com nomes como honra e justiça. Sentiu um grande jorro de gratidão brotar brilhando em seu coração.

— Tudo bem — disse para Fletcher. — Vou fazer isso.

— Onde está Barry? — perguntou a Tony uma hora depois.

— Ele não vai aparecer?

— Vai passar o dia na loja. Algum problema com as contas. Provavelmente andou deixando de pagar os impostos.

Chris foi até o escritório e telefonou para a loja.

— Alô, Barry? É o Chris.

— Oi, Chris, qual é o problema?

— Nenhum problema. Só estou ligando por causa do chalé. Falta só uma parte do revestimento de gesso para acabar o serviço. Pensei em fazer isso esta noite.

— Ótimo. Você fez um excelente trabalho, Chris.

— Escute, Barry, você acha que poderia aparecer para dar uma olhada mais tarde? Por volta das dez?

— Por quê?

— Porque quero lhe mostrar uma idéia que tive. Vai estar pronta por volta dessa hora.

— Na verdade, vou sair esta noite. Vou jogar squash em Abingdon, depois tenho que me encontrar com um sujeito... Não, espere um pouco, pensando melhor, tudo bem.

Já terei acabado a essa hora. Passo por lá quando estiver indo para casa. OK?

— Ótimo. Vejo você mais tarde.

— Obrigado, Chris. Você está fazendo um bom trabalho.

 

Capítulo Treze

Chris estava enganado quando pensara que Jenny não o tinha visto ao sair do chalé com Barry. Ela o vira, mas tinha sido como ver um fantasma. Ele parecera estar lá apenas por uma fração de segundo e a surpresa fora tão grande, acontecendo logo depois que ela pensara nele, que mal conseguia respirar; mas tinha sido o suficiente para que ela percebesse a raiva, o ressentimento e a perplexidade na expressão do rosto dele antes que se afastasse. Um momento antes, aquele sentimento súbito de felicidade inexplicada, como uma bênção; e agora, como uma maldição, aquela aparição.

Jenny não dissera nada a respeito daquilo para Barry. Ele estava imerso em suas próprias preocupações. Além disso, pensou ela, estava alegre e satisfeito demais para compreender.

Na manhã seguinte, ele a levou para o chalé, como tinham combinado, parando para comprar mais barras de plástico para as cortinas, o suficiente para todas as janelas e algumas cortinas prontas. Mais tarde, durante o dia, disse Barry, ele traria a tinta. Ela descobriu que gostava do silêncio da floresta; ficara receosa de que fosse achá-lo opressivo, mas sentia-se segura entre as árvores ensolaradas, cercada pela vida secreta e inocente de passarinhos e insetos. Na hora do almoço (uma lata de cerveja tirada da geladeira, um saco de batatas fritas, uma barra de chocolate), ela seguiu pelo caminho que descia até o canal e ficou extremamente surpreendida ao ver não apenas uma garça, que reconheceu, mas também um pequeno animal marrom nadando ao longo da margem e embicando de focinho dentro de um túnel. Havia um mundo inteiro ali. Que estranho ter demorado tanto para perceber isso!

Naquela tarde, Barry voltou com a tinta e os pincéis, e ela começou a pintar as placas do revestimento de gesso. Ele estava certo ao dizer que iria precisar de várias mãos; a tinta desaparecia imediatamente na superfície porosa. Apesar disso, secava depressa.

Quando ele veio buscá-la para levá-la em casa, disse:

— Aquele último pedaço do revestimento de gesso vai estar colocado amanhã. Ah, antes que eu me esqueça, será que você está livre esta noite para ficar de babá?

— Tudo bem — respondeu ela. — Não tenho nada para fazer.

— Sue tem uma aula à noite. Normalmente, estou em casa, mas tenho que ir a Abingdon encontrar um sujeito para falar a respeito de um cenário. Eles estão montando uma peça por lá e já alugaram uma parte de nosso equipamento, e tive uma idéia sobre um trabalho muito maior. Existe um mercado fantástico, Jenny. Uma procura inacreditável. Não só para peças e coisas assim, mas também grupos de teatro. Podemos ajudar as pessoas a pensar grande em todo tipo de coisas, sabe, festas, casamento, discotecas... Por que não fazer uma festa na lua, hein? Ou uma discoteca no Grande Canal de Veneza? O céu é o limite! Cenários prontos pintados, iluminação, decoração de ambiente, tudo. Nada desse negócio de dançar apenas com uma luz estroboscópica ou uma bola espelhada; vamos dar asas à imaginação! Poderíamos ter uma grande variedade de escolhas, tudo pronto só para montar! E... tendas, lamparinas, efeitos especiais, tudo o que você quisesse...

Enquanto a levava para casa, Barry desenvolveu e explicou melhor a idéia, até parecer que o mundo inteiro estava implorando que ele o cobrisse de lona e fantasia, enquanto sem fazer esforço ele ficava cada vez mais rico, à medida que sua imaginação ia brotando.

Barry já tinha saído, quando Jenny chegou à sua casa para ficar com Sean. Ele estava no banho e Jenny sentou-se na cozinha para conversar com Sue.

— Barry estava me falando sobre sua idéia de criação de cenários — comentou ela.

Sue revirou os olhos para o alto.

— Você pode imaginar alguém pagando uma fortuna para se casar numa imitação da Praça Vermelha ou do Grande Cânion? — perguntou ela. — Eu não sei, às vezes acho que ele é meio maluco.

— Talvez não para se casar, mas poderia ser divertido numa festa — argumentou Jenny. — Depende de quanto vai custar. Mas imagino que haja um bocado de gente com dinheiro. — Ela estava pensando em Piers e em seus amigos, embora, de alguma forma, não conseguisse imaginar aquele tipo de gente pagando por aquele tipo de coisa.

— Bem — concordou Sue. — Ele parece estar indo bem, quero dizer, financeiramente, sabe, com a firma. Pensei que fosse ser um negócio arriscado quando viemos para cá, mas ele parece sempre conseguir ganhar dinheiro. Na verdade, acho que não posso reclamar.

— Quem me dera ter uma sorte dessas.

— Pois é. — Sue deu uma risada. — É verdade.

— Aonde você vai esta noite? Caso eu precise, sabe como é...

— Ah. Hoje tem uma aula noturna. Eu não deveria ir, na verdade, deveria me concentrar nos trabalhos da Universidade Aberta, mas esse curso de certa maneira complementa. O número está na lista no bloco ao lado do telefone.

— A respeito de que é a aula?

— Mulheres novelistas do século XIX. Sinceramente, Jenny, eu me sinto como a personagem do filme O despertar de Rita, estou aprendendo tanta coisa; a cada dia que passa, o mundo fica maior.

— Eles têm cursos sobre animais e pássaros, insetos e coisas desse tipo?

— Devem ter. Tome, este é o programa dos cursos. — Ela pegou um livrinho numa prateleira em cima da geladeira.

— E qualquer pessoa pode fazer?

— Qualquer pessoa. E há tanta coisa para aprender! Bem, deixa eu subir para tirar Sean desse banho.

Enquanto Sue estava no segundo andar, Jenny folheou o livrinho. Era verdade: havia uma enorme quantidade de coisas que se podia aprender, se você realmente quisesse, e você podia escolher o que quisesse... Ela se lembrou de Chris animando-a a fazer os exames, o supletivo e ir para a universidade. Afinal, talvez houvesse um meio.

— Como está indo o trabalho no barracão? — perguntou Sue, entrando para apanhar seus livros antes de sair. — Ah, eu sei a respeito disso, não fique surpreendida, embora não deva e ainda não tenha visto o lugar, por isso nem sei onde fica. Mas você conhece Barry, ele não consegue guardar um segredo.

— Ah, está... eu estive pintando... Tem uma parte da parede que ainda falta levar o acabamento. — Será que Sue sabia a respeito do homem, o tal Carson, ou não? Será que pensava que o chalé fosse apenas um barracão na floresta? Jenny ficou insegura, sem saber o que dizer, de modo que mal ouviu o que Sue disse em seguida.

— Barry disse que o Chris vai acabar de fazer isso esta noite. Disse que vai até lá para dar uma olhada mais tarde, por isso, acho que devo chegar em casa antes dele. O Sean está se aprontando para ir para a cama. Ele leva horas, não sei como consegue demorar tanto. Então está tudo bem com você? Quer tomar alguma coisa? Café, leite —

— Desculpe — interrompeu Jenny. — Você disse Chris?

— Chris, sim, um bom garoto. Ele está trabalhando para Barry durante as férias.

— Ele é... — Jenny mal conseguia falar. — Ele é alto, com cabelos crespos, meio louros, mas mais para o escuro?

— É. E é tímido. Bonito. Você conhece o Chris?

— Conheço. Acho que conheço. Se for o mesmo que estou pensando. Eu o conheci e... e depois perdemos o contato, porque eu não sabia qual era o sobrenome dele, nem onde morava e tive que sair do lugar onde eu estava... Ah, meu Deus, mal consigo acreditar.

Sue a olhava com curiosidade ou compaixão, ou como se estivesse contente por ela; mas Jenny sabia que Sue estava preocupada com a aula, de modo que se levantou e empurrou as chaves para a mão dela.

— Ande, trate de ir, senão vai se atrasar!

— Jenny, o que foi? Você está chorando —

— Não estou! Juro!

— Bem, então diga o que foi, querida?

— É só que eu pensei que nunca mais iria voltar a vê-lo e de repente... — Ela deu de ombros, sorrindo, esfregando os olhos. — Eu tinha imaginado. Eu de certa forma sabia... mas não pensei que realmente... Ah, pode ir, estou bem. Você vai se atrasar; não perca a sua aula.

Relutante, intrigada, Sue abriu a porta para sair, mas então se lembrou de outra coisa.

— Ah, eu sei lá, a vida é tão complicada. Escute, se o telefone tocar, deixe tocar, não atenda. Barry comprou uma secretária eletrônica. Apenas deixe a máquina atender. Eu nem sei, é uma daquelas coisas de homens e seus brinquedos... Vejo você mais tarde.

Jenny acenou se despedindo da porta, enquanto o ônibus amarelo virava na curva. Então tornou a entrar na casa, fechou a porta e, batendo palmas, deu um pulinho involuntário de felicidade. Mas quase que imediatamente a expressão no rosto de Chris voltou à sua memória. Ele a tinha visto sair do chalé com Barry. Não poderia ter pensado... Jenny corou até a raiz dos cabelos.

Apesar disso, ele estaria trabalhando lá naquela mesma noite. E Barry saberia qual era o endereço dele. Ela poderia entrar em contato com ele. Poderia explicar tudo. Ficaria tudo bem.

Sean chamou do andar de cima. Jenny tentou clarear a cabeça para a partida de xadrez que ele, com certeza, pediria para jogar, e se levantou. Ela não conseguia parar de sorrir.

Chris não conseguia parar de tremer. Quando chegara em casa, sua mãe lhe perguntou se estava se sentindo bem, será que estava ficando resfriado? Deu uma resposta rápida e brusca qualquer e 30 segundos depois não conseguia mais se lembrar do que tinha dito a ela. Mike Fairfax lia o jornal sentado à mesa da cozinha, com uma expressão contrariada. De repente, Chris não conseguiu mais suportar ficar em casa.

— Eu vou sair — anunciou. — Vou visitar o papai.

Ele disse isso porque sabia que os abalaria. Na verdade, não queria ver ninguém. Verificou os pneus da bicicleta e saiu para dar uma volta pela ciclovia, pedalando depressa, de cabeça baixa, até chegar a Hinksey Hill, no sul, onde saiu da pista e subiu até seus músculos queimarem e seus pulmões doerem. Mas a colina não era grande o suficiente. Ele precisava de montanhas. Pedalou mais um quilômetro e meio, em direção a Boars Hill, descendo pelo outro lado, depois fez meia-volta e pedalou duro subindo a encosta mais uma vez. Subiu e desceu pedalando, seis vezes no total, até a dor em seus músculos ficar realmente desconfortável; e então ele se atirou na longa descida da Hinksey Hill, o longo percurso em curva para baixo entre as árvores, com visões de relance da cidade sob a luz do sol do anoitecer, e saiu para o grande entroncamento que unia a estrada principal para Abingdon e o sul. Não tocou nos freios nem uma vez, mas não era imprudência — era desespero.

E nada aconteceu. O tráfego estava tranqüilo. A bicicleta seguiu sem precisar de impulso na saída do entroncamento, gradualmente perdendo velocidade, até parar junto da loja da Volkswagen ao lado do Park-and-Ride. A noite estava calma e quente; parecia não pertencer a Oxford e sim a algum outro lugar mais ao sul, no Mediterrâneo, e a uma outra época.

Chris desejou que estivesse naquele outro lugar ou em qualquer outro lugar onde as coisas fossem mais simples.

Enquanto pedalava cansadamente em direção à cidade, se deu conta de que não tinha pensado nem uma vez em Jenny desde a hora do almoço. Talvez isso fosse parte do preço a respeito do qual Fletcher havia falado.

Estava começando a escurecer quando ele chegou ao centro da cidade, pouco depois das nove horas. O lugar enxameava de estudantes estrangeiros, circulando entre os pubs e as lanchonetes, ou simplesmente andando a esmo em grupos entediados, fumando, olhando fixamente para as coisas. Chris pedalou devagar pela Broad Street, passando pelas vitrines acesas das livrarias e pela massa sombria de pedras da biblioteca Bodleian na esquina, e virou à esquerda, na direção de casa.

Mas alguém chamou seu nome do pub do outro lado da rua. Havia gente sentada na calçada e de pé do lado de fora, com seus copos de cerveja; havia uma montanha de gente lá dentro, visível pela janela bem iluminada. Quem era?

— Chris! — Era Dave, chamando da porta de entrada.

Chris desmontou da bicicleta e atravessou a rua andando com ela ao lado. Dave estava com um grupo de meia dúzia de amigos, e com a mesma expressão que eles: alegre e ligeiramente bêbada.

— E aí, tudo bem? — disse Chris, satisfeito por ter um motivo para não ir para casa.

— Venha tomar alguma coisa. O que você vai querer?

Chris ainda não tinha idade para tomar bebidas alcoólicas em pubs, mas aparentava ter. Ele aceitou uma caneca de chope e sentou-se com eles, ligeiramente curioso para ver como eram os amigos de alguém que ele conhecia do trabalho. Não conversara muito com Dave desde o dia da briga com Piers; não tiveram chance. Mas gostava dele, e era bastante agradável sentar ali na calçada ainda quente, com música vindo do pub às suas costas e o bando de rapazes e moças por toda parte ao redor.

Uma das garotas perguntou a ele:

— Foi você que brigou na Oxford Union?

Chris ficou satisfeito por estar escurecendo, porque a pergunta o fez corar.

— É, fui eu. Acho que sim. Por acaso está escrito na minha testa, ou coisa parecida?

— Não! Dave nos contou. Incrível. Molly, escute. Ele é o cara daquela briga, você lembra?

— Ah, já sei! — respondeu outra garota, olhando para Chris como se ele fosse uma celebridade. — Caramba!

Chris olhou para Dave, que levantou o copo, sorrindo.

— Hoje em Oxford Union, amanhã em Las Vegas — comentou.

— Com quem estava brigando? — perguntou a primeira garota. — E por que foi a briga?

— Foi pura Riria animal — disse Dave, antes que Chris pudesse responder. — Não houve nenhum motivo. O temperamento deste rapaz, senhoras e senhores, é selvagem e indomado. Ele tem os instintos da pantera combinados com a força do macaco antropóide gigante. Se não for provocado, é a docilidade em pessoa; mas se você transgredir a lei da selva, ele saltará em cima de você num piscar de olhos, rugindo, uma massa de músculos de aço —

— Ah, Dave, pare com isso — disse a segunda garota. — Só porque você é molenga demais para se meter numa briga...

— Eu sou o empresário dele! Não sou nenhum molenga! Tenho um charuto realmente bem grande, veja, está em algum lugar...

Enquanto os outros riam de Dave, a primeira garota disse em voz baixa:

— Desculpe, não tive a intenção de deixar você envergonhado.

Ela era bonitinha. Ele bem que teria gostado de conversar com ela, mas o tempo para isso havia passado.

— Não tem problema — respondeu. — Imagino que, realmente, tenha sido engraçado. Apenas cometi um erro.

— Como assim, você pensou que estivesse brigando com outra pessoa?

— Mais ou menos isso. Eu mesmo já esqueci. Não tenho o hábito de andar por aí me metendo em brigas.

— Acho que eu nunca vi uma briga — comentou ela. — Não uma briga de verdade. Não estou falando de lutas de boxe.

— Não havia brigas na sua escola?

— Freqüentei uma escola só para moças muito, mas muito metida a besta. Não tínhamos permissão para brigar. Papai não teria pago a conta colossal, se voltássemos para casa cobertas de machucados, de olho preto e coisas assim. O máximo que podíamos fazer era cortar umas às outras em pedacinhos com sarcasmo afiado como gilete.

— É um dom útil — comentou Chris. — Eu nunca consigo pensar na coisa certa a dizer até cerca de uma semana depois.

— Por isso, usa os punhos. Olha, não dê atenção a Dave. Ele está bêbado.

O próprio Dave disse a mesma coisa 20 minutos depois, quando Chris levantou a cabeça e deu com ele parado a mais ou menos uns 30 centímetros dele.

— Olhe, Christopher — disse, falando cuidadosa e claramente. — Quero me desculpar por ter discutido seus problemas pessoais com esse bando infeliz de esbanjadores e matracas tagarelas. Mas é que estou completamente bêbado. Hoje é meu aniversário. Não tinha te contado? Não são muitas pessoas que conseguem dizer "esbanjadores" e "matracas tagarelas" no dia de seu aniversário. Quero dizer, quando estão bêbadas. Então eu... o que era mesmo que eu estava dizendo?

— Você estava falando de mim e daquela briga idiota. Mas olhe, esqueça isso, pelo amor de Deus.

— É claro. Já está esquecido. O que está esquecido? Eu não sei, eu já esqueci.

— Está certo, olhe, eu tenho que ir. Obrigado pela cerveja. Feliz aniversário.

— Ah, não vá, não vá embora. Você se divertiu com o homem no carro, o do Mercedes branco? Como é mesmo o nome dele? Carson.

Tudo parou naquele instante. Por um ou dois segundos houve um silêncio absoluto. Então Chris sentiu seus joelhos se dobrarem e se agarrou em Dave para se apoiar.

— O que você disse? — ele se ouviu sussurrar. — O nome dele... qual era?

— Carson — respondeu Dave. — Ele estava rondando por lá ontem, procurando por Barry. Disse que era contador. Pensei que estivesse atrás dele por causa de impostos ou coisa parecida. De brincadeira, disse a ele que Barry devia estar em seu esconderijo. Então ele disse: "Onde fica esse esconderijo? Eu vou até lá fazer uma surpresa para ele." Eu disse que não sabia. Falei pra perguntar a você. "Chris é o garoto que você quer", disse a ele. "O Chris vai saber lhe dizer..."

Chris não conseguiu ouvir mais nada. Sentia-se como se estivesse sendo queimado numa fogueira: o rugido das chamas, uma terrível fraqueza nas pernas... Que horas eram? Abrindo caminho à força, ele entrou para olhar o relógio na parede, em meio à fumaça de cigarro. O relógio marcava nove e meia. E Fletcher — Carson — dissera às dez, faça com que Barry esteja lá às dez. Chris nunca se sentira tão impotente.

A primeira garota, cujo nome ele ainda não sabia, perguntou:

— Você está bem? Que foi que houve?

— Tenho que encontrar um telefone. Tem um telefone aqui neste lugar? Ah, meu Deus, estou sem nenhum dinheiro —

— Eu tenho um cartão telefônico — respondeu ela. — Use o meu emprestado, se precisar. Venha, vou ajudar você; não parece muito em condições de...

Os dois estavam bem juntos no bar lotado, cheio de fumaça, cercados por rapazes e moças que gritavam para se fazer ouvir. Dave e o resto de seus amigos estavam lá fora. Chris tentou se controlar.

— Escute, você pode fazer uma coisa para mim? Será que pode dar um telefonema? Acabei de ouvir o Dave dizer uma coisa, e vou ter que avisar uma pessoa. Você pode dar este telefonema?

— Posso, claro. É só me dizer...

Ela pegou um lápis na bolsa, Chris escreveu o número.

— Não sei quem vai estar lá. Provavelmente vai ser a mulher dele. Não tem importância, diga apenas que Carson está a caminho do chalé agora, neste momento, e para ele, pelo amor de Deus, ficar longe do chalé. Entendeu isso?

— Pelo amor de Deus fique longe do chalé, porque Carson está a caminho de lá agora, neste momento.

— É isso mesmo, certo —

— Ei, espere! Para quem estou ligando? Qual é o nome dele?

— Miller. Barry Miller. Tenho de correr...

Enquanto ele ia saindo, abrindo caminho com dificuldade em meio à multidão na calçada, a garota o observou confusa e virou-se para ir procurar um telefone.

Jenny tinha jogado xadrez com Sean e perdido. Ela lhe contou sobre o pequeno animal que vira no rio e Sean lhe dissera que provavelmente era um rato silvestre ou rato d'água; Sean até encontrara uma fotografia de um em sua enciclopédia. E, enquanto ele aproveitava seus últimos dez minutos de tempo de leitura, ela levou o volume para a cozinha para folheá-lo, enquanto tomava um café.

O tempo todo, subjacente a tudo que ela fazia e pensava e sentia, estava a consciência de que Chris estava lá no chalé, que estava lá agora, naquele momento, e que dali a pouco Sue estaria em casa e ela poderia pegar emprestada a bicicleta de Sue e ir para lá antes que Barry voltasse, e encontrar Chris e tudo estaria consertado.

O sentimento era tão forte, a perspectiva de felicidade tão certa, que dessa vez ela não hesitou em abraçar Sean e beijá-lo quando lhe deu boa-noite. Era apenas afeto, carinho. Agora não havia mal algum em ter afeto por alguém.

Enquanto punha a água fervendo na xícara de café, o telefone tocou. Levantou-se de um salto e correu para o corredor, até que se lembrou de que Sue lhe dissera para não atender. Jenny alcançou o telefone no instante em que a secretária eletrônica atendeu. Ouviu quando a fita cassete começou a girar com um clique e a voz de uma garota falou.

— Ah, meu Deus, eu detesto essas máquinas. Escute, tenho um recado para uma pessoa chamada Barry Miller, OK, só um instante...

Havia muito barulho no lugar onde ela estava. Parecia que a pessoa no telefone estava numa festa. Ela prosseguiu:

— Desculpe. Tinha uma pessoa me atrapalhando. O recado é: Carson está a caminho do chalé agora, neste instante. Não vá para lá, pelo amor de Deus. Acho que era isso. Desculpe, mas não sei o nome dele, do rapaz que me pediu para telefonar. Ele estava com pressa. OK? É isso. Tchau.

O telefone foi desligado do outro lado e depois de alguns segundos a fita cassete parou de girar.

Uma parte da cabeça de Jenny estava pensando: então é assim que uma secretária eletrônica funciona. A outra parte estava tomada pela imagem horrorosa de um corpo pendurado em um gancho com a garganta cortada: o destino grotesco de gente metida com gangues na história que Barry lhe contara: a morte que Carson reservava a seus rivais.

E Chris estava lá no chalé.

— Ah, Deus — ela disse baixinho, olhando para o alto da escada, para a luz acesa no patamar e a porta entreaberta do quarto de Sean. Não podia deixá-lo sozinho; a tarefa de cuidar dele lhe havia sido confiada. Mas, certamente, dentro de pouco tempo Sue estaria de volta, e enquanto isso...

Ela se obrigou a sair do corredor e correu para a cozinha. Será que deveria deixar um bilhete? Demoraria tempo demais. Na pequena garagem estreita, ao lado de um carrinho de mão, de uma grande caixa de ferramentas Black & Decker e de um amontoado de brinquedos de Sean, estava a bicicleta de Sue. Menos de um minuto depois de o telefone ter tocado pela primeira vez, Jenny estava seguindo a toda velocidade pela estrada para Oxford, de pé na bicicleta, pedalando o mais depressa que podia.

A medida que chegava mais perto de sua própria casa, Chris reduziu a velocidade. O que ele estava fazendo? Para onde estava indo? Havia sido enganado, fora fácil e completamente enganado por alguém que sabia exatamente quais os argumentos que ele ouviria. Chris nunca imaginara que pudesse ser tão estúpido, tão ingênuo. Mas o que iria fazer a respeito disso?

Ele parou e levou a bicicleta para a calçada, empurrando-a enquanto tentava botar ordem na terrível confusão em que estavam seus pensamentos.

Primeiro, até que ponto achava que a história de Barry era verdadeira? Será que era realmente provável que Carson, ou Fletcher, fosse matá-lo? Impossível responder. Ouvira os dois; um deles devia estar mentindo. Mas por acaso Fletcher, ou Carson, tinha cara de ser assassino? Ou por acaso Barry tinha cara de ser terrorista? Tudo parecia igualmente irreal, improvável e indigno de confiança.

E segundo, insistentemente: O que ele iria fazer a respeito daquilo? Correr para lá na bicicleta... e então fazer o quê? Será que não deveria chamar a polícia?

Estava na esquina de sua rua. A apenas 90 metros de distância estava sua casa, sua mãe e Mike; e embora Mike fosse um fraco, ele não era um idiota. Chris nunca havia precisado tanto de um bom conselho de alguém.

Deixou a bicicleta ao lado da porta dos fundos e entrou. A cozinha estava às escuras, mas a televisão estava ligada na sala. Ele parou por um instante no corredor, inseguro, e então voltou para o telefone na cozinha. Pelo menos poderia ligar para a casa de Barry e se certificar de que a garota tivesse dado o recado.

O telefone tocou duas vezes e então veio o clique de uma secretária eletrônica. O coração dele se contraiu.

— Alô. Aqui é Barry Miller falando. Não estou em casa no momento, mas por favor —

Então a mensagem foi interrompida. Uma voz de mulher, aflita, atendeu:

— Alô? Quem fala? É Barry?

Ele não sabia quem estava falando, porque a mulher parecia tao apavorada, mas então reconheceu a voz de Sue.

— Não, sou eu, o Chris. Escute, o Barry —

— Onde você está? Onde está Barry? O que está acontecendo?

— Ela telefonou e deu o meu recado? A garota?

— Sim... sobre Carson. Ah, meu Deus, eu acabei de chegar em casa e Jenny não está aqui. Ela deve ter —

— Jenny?

— Ela estava cuidando de Sean —

— Mas que diabo, Jenny?

— Ela deve ter ouvido o recado e... ah, meu Deus, Barry deve ter contado a ela sobre Carson, e ela sabia que você estava no chalé. É para lá que ela —

— Mas não estou lá! Eu não fui para lá! Acabei de descobrir isso sobre Carson e... Mas que está querendo dizer com essa história a respeito de Jenny?

— Ela estava aqui. Ela não sabia nada a respeito de você, que você trabalhava para Barry. Ficou tão contente quando lhe contei, ela pensou que você estivesse no chalé esta noite terminando o trabalho naquela parede, porque foi isso o que Barry me disse e, quando contei a ela, ficou como uma criança com um presente de Natal. Você precisava ver, ela ficou tão feliz que começou a chorar, coitada da menina. Ah, meu Deus, ela deve ter ouvido o recado na fita e foi para lá avisar você! Ah, Deus nos ajude! Pensei que tudo isso estivesse acabado, Chris. Aquele canalha daquele Carson e seus irmãos, eu queria que todos eles estivessem ardendo no quinto dos infernos... E onde está Barry? Ele vai chegar lá dentro de dez minutos. O que eu posso fazer?

Chris se pegou dizendo:

— Ligue para a polícia. Eu vou procurar o Barry. Avisar para ele não ir.

Sue estava chorando, mas Chris não podia consolá-la. Jenny estava lá. Não era verdade que estivesse andando com Barry. E Carson estava a caminho do chalé.

Chris correu para a porta dos fundos no instante em que sua mãe entrou na cozinha.

— Chris! O que está havendo? Por que todo esse pânico?

Ele tentou falar, mas se viu incapaz, então deu de ombros e saiu correndo para a bicicleta, montou nela voando e começou a pedalar como um demônio.

Cinco minutos depois, ele estava na entrada para a trilha na floresta. O terreno era ruim demais para continuar pedalando, de modo que escondeu a bicicleta nos arbustos e continuou a pé.

Depois de alguns metros, a trilha dobrava para a esquerda e o clarão da luz do poste na estrada mais atrás logo foi engolido pelas sombras. Agora, apenas a lua brilhava. Chris meio que andou, meio que correu pela trilha esburacada, cheia de sulcos, levantando nuvens de poeira da superfície seca. O emaranhado confuso das sombras, o prateado inconstante e o negro traiçoeiro trouxeram a presença de Jenny com mais intensidade do que qualquer outra coisa desde que eles tinham se visto pela última vez; era exatamente como a luz entre as árvores à beira do lago na noite em que tinham se conhecido.

Ele parou para recuperar o fôlego; os músculos, depois do duro percurso que havia feito antes naquela noite, estavam protestando.

— Jenny — disse baixinho. — Jenny!

Em algum lugar ali perto, um pássaro cantava na escuridão, trinados e gorjeios de uma riqueza imortal. Chris pensou que Jenny talvez pudesse estar perto o bastante para ouvi-lo também. Se ele gritasse...

Respirou fundo, mas prendeu o ar, quando alguma coisa lhe apertou o coração.

O mais extraordinário dos sons estava vindo de trás dele, na trilha, uma espécie de ruído, de rosnado baixo, triturante, como se feito por algum animal medonho.

Ele se virou, agarrando-se ao tronco de árvore mais próximo e o viu.

Era claro e imenso. Como uma lesma cega, vinha abrindo seu caminho à força pela trilha, esmagando as pedras, empurrando para os lados urtigas e partindo galhos, a pele lisa, branca e horrenda. Chris quase desmaiou de medo. Só depois que passou foi que ele viu direito o que era: o Mercedes branco com os faróis apagados, o motor mal ronronando. Ele sentiu a náusea do pânico terrível ceder lugar à vergonha, então, de novo a um pânico ainda maior. E então o carro havia passado e saído de vista, e aquele abominável triturar de pneus sobre pedras soltas que tudo devorava já se tornara apagado.

Ele correu adiante, atrás do carro. A clareira não estava longe. Se gritasse, ela o ouviria, mas estava com medo, estava tão dominado pelo medo, que mal conseguia respirar. Ele pensou: Carson não vai matá-la; ele verá que é uma garota e não fará nada com ela. Assim que ele vir quem é...

Chris viu o reluzir pálido do carro em meio às árvores mais adiante. Estava parado na beira da clareira, todas as luzes ainda apagadas e, quando se aproximou mais do carro, viu que a porta do motorista estava aberta. Não havia ninguém dentro. Tudo estava mergulhado na escuridão, inclusive o chalé.

A luz!

O sistema maluco e complicado de Barry — eles ainda não tinham instalado o detector infravermelho e ela poderia não ter conseguido encontrar o interruptor —

De repente ele gritou: — Jenny! — com toda a força de seu corpo e, no mesmo momento, houve a explosão do disparo de uma arma, apavorante, assustadoramente alto.

Chris estava agarrando a porta do carro. Um vulto saiu do chalé escuro e se encaminhou diretamente para ele. Parecia trazer consigo ondas de pura perversidade, como o ar frio que flui da porta aberta de um congelador. O coração de Chris se acovardou; ele se ouviu choramingar. Fletcher — Carson — parou diante do capô do carro e acendeu um fósforo. A pequena chama, mantida na altura de seu peito, iluminava-lhe o rosto como um fogo infernal. A expressão dele não era humana. Chris recuou, se encolhendo, de puro terror mudo.

— Eu avisei a você que ficasse longe daqui, Chris — sussurrou Carson. — Isto não é lugar para uma pessoa inocente. Isto é o fundo do inferno. Ninguém destrói meus irmãos. Isso é imperdoável, é imperdoável fazer isso com uma família. Especialmente com a minha. Você compreende, eu sou um demônio. Eu sou um assassino. Eu sou o anjo da morte.

Seus olhos impenetráveis examinaram a alma de Chris até que o fósforo se apagou. Então ele entrou no carro e, sem nenhuma pressa, deu partida no motor. Deu marcha a ré e manobrou para entrar na trilha estreita antes de seguir silenciosamente de volta para a escuridão.

O luar banhava a clareira. As janelas do chalé estavam cobertas por cortinas e a porta estava aberta. Chris, quase desmaiando de medo, estava consciente apenas de uma espécie de grandioso horror. As colunas retorcidas das árvores, a pesada ramagem das copas acima e, sobretudo, o silêncio daquela porta aberta lhe impunham um enorme temor. Carson estivera certo ao sussurrar. Chris sentia que, se ao menos conseguisse permanecer imóvel e em silêncio, poderia manter o que houvesse de realmente pior a distância. Mal ousava respirar.

Então, não de Wolvercote, mas da direção oposta, ele ouviu o som de um motor diferente e viu faróis bruxuleando em meio às árvores. Ele não havia se dado conta de que existia um outro caminho pela floresta. Chris queria puxar a escuridão ao seu redor, se embrulhar nela e se esconder, mas era tarde demais, pois o furgão havia chegado à clareira e parado. A luz dos faróis batendo nas árvores era forte e terrível.

Barry Miller, vestindo uma camisa pólo e calções brancos, os cabelos desalinhados, saltou e gritou alegremente:

— Tudo bem, Chris! Você tinha desistido, não é? Eu me atrasei no pub. Olhe, escute, eu tenho uma surpresa para você. Nós vamos... O que foi? Que foi que aconteceu?

No clarão intenso dos faróis o chalé parecia mais assustador do que qualquer outra coisa no mundo. Com um grito, Chris correu trôpego para aquela medonha porta aberta.

Ele a alcançou pouco antes de Barry, entrou tateando, abaixou-se ao lado do relógio de eletricidade em busca do interruptor. Quando a luz se acendeu brilhante, teve que cobrir os olhos porque ficou claro demais e havia tanto sangue.

Jenny estava deitada na cama. Ela tinha se coberto com o edredom, e apenas seus pés estavam visíveis, um cruzado debaixo do outro. Ela estava deitada de lado virada para a parede. Não tinha morrido imediatamente, apesar do número de balas que a haviam acertado, porque tivera tempo de escrever alguma coisa na parede recém-pintada com um dedo molhado em seu próprio sangue. A palavra escrita estava borrada e trêmula, mas era inconfundível: Papai.

— Ele nunca... — sussurrou Barry. — Carson? Mas por que...

— A luz — disse Chris, com a voz de uma outra pessoa. — Ela não sabia onde ficava o interruptor. No escuro, ele não tinha como saber —

— Ah, Deus do céu.

— Vá chamar a polícia — disse Chris.

Barry engoliu em seco, assentiu, se virou, então disse:

— Ela está... Você tem certeza de que ela...

— Polícia, médico, chame todo mundo. Apenas ligue para a emergência.

— Está certo. Está certo.

Chris esperou, agarrado à porta, até que os faróis do furgão desapareceram em meio às árvores. Então apagou a luz com a mão trêmula e sentou-se na cama ao lado de Jenny. Ele tinha tanta coisa para dizer a ela, mas o horror o dominou e se afastou dela, da borboleta tatuada, daquele corpo querido que ele amara tanto. E que havia traído.

Então ele soube o que tinha de fazer a seguir. A náusea se apoderou dele e quase vomitou; um suor frio banhou seu rosto, mas Chris se controlou. Não havia escolha. Ele tinha que fazer uma reparação. Sobre a mesa estava o canivete do exército suíço. O gume da lâmina afiada estava muito claro em sua mente e o peso dele em sua mão, e a retidão, a correção do que ele tinha de fazer. Abriu o canivete e o levantou duas vezes, mas a cada vez a coragem lhe faltou e a náusea em sua garganta se transformou em soluços, de modo que quando eles chegaram e o encontraram ali, pensaram que estivesse chorando por Jenny.

Capítulo Catorze

Carson nunca foi encontrado. Dois dias depois da morte de Jenny, a polícia descobriu o Mercedes branco em um estacionamento do Aeroporto de Heathrow. Se ele deixara o país, não foi usando seu próprio nome e poderia ter ido para qualquer lugar do mundo.

Inevitavelmente, a verdade sobre o dinheiro roubado veio à tona. Não restava mais quase nada dele. Barry usara uma parte para comprar o negócio, e a maior parte do que sobrara, para subsidiá-lo, uma vez que a Oxford Entertainment Systems vinha sistematicamente dando prejuízo. A inquietude de Sue havia sido bem fundamentada. Ela havia acreditado em Barry quando ele lhe dissera que não sabia onde o dinheiro tinha ido parar, que os Carsons deveriam tê-lo escondido durante todo aquele tempo. O choque de descobrir que seu marido era um mentiroso e um ladrão, e que a vida deles fora um castelo construído na areia, tinha sido difícil de suportar. Barry foi condenado a seis anos de prisão. Sue e Sean deixaram a casa em Kidlington; Chris não sabia para onde tinham ido, porque nunca mais voltou a vê-los.

Durante as semanas e meses que se seguiram, a vida de Chris ficou congelada numa tundra de vergonha. Em sua solidão, ele com freqüência pensava sobre o que Carson lhe dissera enquanto estavam sentados no Mercedes branco, a respeito da inocência, a respeito do bem e do mal. Era muito estranho. Carson apelara à parte mais nobre de seus sentimentos, não à parte mais vil, e, embora a sabedoria do que ele dissera viesse da língua de um mentiroso, ainda era a mais verdadeira sabedoria que Chris jamais ouvira. Ele sabia que viveria com ela por muito tempo, talvez por sua vida inteira, até que se tornasse uma parte de seu próprio ser. Ele talvez nunca mais encontrasse nada de mais verdadeiro.

Chris também tinha adquirido um outro tipo de sabedoria. Naquele momento no chalé, vira o que poucas pessoas algum dia vêem: os limites de sua própria natureza. Ao contrário de todo mundo ao seu redor, ele sabia precisamente o quanto era tolo, com que facilidade se deixava enganar; sabia precisamente em que medida tinha medo da dor; quanto era desprezível; e que em um momento como aquele podia chorar por si mesmo, mas não por Jenny. Um conhecimento desse tipo era raro. Deixava uma marca em você. Seria difícil alguém voltar a enganá-lo.

Quanto a Jenny, houve um inquérito sobre as circunstâncias de sua morte. Os pais dela foram localizados e Chris os observou enquanto assistiam à audiência, sentados atordoados no tribunal, os rostos atormentados, envelhecidos e esgotados. Ninguém conseguia compreender a importância da palavra que a filha deles havia escrito na parede, e o oficial responsável pela investigação, penalizado, não insistiu na questão. Será que ela tentara dizer que seu pai a matara? Teria ela confundido Carson com seu pai? Será que estivera tentando deixar uma mensagem para o pai? Era impossível saber.

Mas Chris tinha sua própria opinião. A idéia ocorreu-lhe quando viu o pai de Jenny cobrir o rosto no tribunal. Naquele momento Chris sentiu as lágrimas subirem-lhe aos olhos e soube que finalmente estava chorando por Jenny; e compreendeu o significado da mensagem que ela tentara deixar. Ela amara seu pai e o quisera presente ali, em seus derradeiros momentos; estava pedindo ajuda. Chris compreendia. Sentiu-se grato por ela ter conseguido fazer aquilo; ele provavelmente teria feito o mesmo; era assim que uma família deveria ser. E aquilo foi um conforto para ele.

Você terminou A Borboleta Tatuada

Philip Pullman

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