A Borboleta Tatuada

Philip Pullman · Capítulo 2 de 2 · parte 2/4

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A Borboleta Tatuada

Capítulo Três · Na segunda-feira seguinte, Barry Miller pediu a…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Chris levantou-se, o coração batendo acelerado, e a seguiu pelas portas-janelas até a pequena sala de visitas. Ela se virou ligeiramente. Ele a segurou pelo pulso, a carne nua sob seus dedos, e então eles caíram nos braços um do outro, se beijando com tanta voracidade que fez doer-lhes os lábios.

Depois de um minuto eles se separaram, sem fôlego, e cada um viu um brilho urgente nos olhos do outro. Sem dizer uma palavra, deram-se as mãos e se encaminharam para a escada.

No quarto dele, sentaram-se na cama desfeita. Ele disse:

— Levante-se um segundo. — E tirou fora todas as cobertas, de modo que a cama ficou vazia, uma superfície branca, limpa. Deitaram-se juntos. Ela era tão esguia e leve, que seu corpo mal fazia qualquer impressão na cama. Chris sentia o perfume de seu cabelo, doce, como se tivesse acabado de lavá-lo. Jenny levantou o olhar para ele por um breve momento, depois seus olhos se desviaram e ela se remexeu chegando para baixo, de modo que sua cabeça ficou no travesseiro ao lado do cotovelo dele. O movimento fez com que sua saia curta, florida, subisse, franzindo-se nas coxas. Ela não fez nenhum movimento para puxá-la para baixo.

Chris inclinou-se para beijá-la. Ela moveu ligeiramente a cabeça para tornar isso mais fácil, e eles descobriram suas bocas se tocando — de início, roçando delicadamente de um lado para o outro, para cima e para baixo, com a parte externa dos lábios, ambos se refreando. Então, quando ele baixou a boca na direção do queixo de Jenny, ela deixou o lábio inferior acompanhá-la e ele se descobriu beijando o interior sedoso e úmido, e o tocou com sua língua, como um peixe pequenino e delicado.

Chris sentiu a língua ser tocada pela dela em resposta, seus lábios mordiscaram-na com a maior ternura; e então eles estavam comendo, bebendo, lambendo, engolindo, explorando o interior da boca um do outro com uma liberdade perfeita.

A mão dele ainda estava sobre o braço dela. Chris deslizou-a delicadamente e acariciou-lhe o seio: a coisa mais macia do mundo, uma nuvem, um pensamento. E lá estava o mamilo sob a palma de sua mão, através da camiseta de algodão, de alguma forma inocente, em sua firmeza pequenina, e ele o acariciou com as pontas dos dedos. Era como um pequeno animal encostando o focinho nele, curioso e dono de si, e ele se viu sorrindo de encantamento.

As mãos dela também estavam se movendo sobre seu corpo: as costelas, a coxa, o estômago nu. Mais uma vez eles se beijaram e depois mais outra, agora com mais força. Ele apertou todo o comprimento de seu corpo contra o dela, e sentiu, feliz da vida, uma pressão igual respondendo à sua.

Então ela se soltou dele e sentou-se. Com um movimento rápido, puxou a camiseta pela cabeça e levantou-se para tirar a saia e as calcinhas. Ele prendeu o fôlego ao ver os seios pequeninos arredondados, de bicos rosados, a curva delicada, muito suave da barriga sedosa, o brilho lustroso, perolado, da coxa e da nádega, o tufo elegante e franco de pêlos negros.

E então ele viu uma coisa que antes estivera escondida: uma pequenina e perfeita borboleta azul, tatuada no alto do seio esquerdo.

— Você não... não foi o Ollie —

— Céus, não! — exclamou ela, com um pequeno soluço. — Eu não deixaria que ele chegasse perto de mim, não se preocupe. Esta borboleta é trabalho de profissional.

— É linda, adorei — disse ele.

A borboleta — ela — seu corpo — sua expressão, ruborizada, excitada, confiante — era tudo tão lindo quanto tinha sido a noite do baile... aquele momento extraordinário em que ela havia surgido da escuridão à beira do lago, precisando da ajuda dele.

Todos os resquícios de timidez e de dúvida tinham desaparecido e poucos segundos depois ele também estava despido. Imediatamente seus corpos se colaram, abraçando-se apertado, as pernas nuas se enroscando, mãos pressionando as costas um do outro.

Ela se afastou e sentou-se, a respiração ofegante.

— Espere — disse e enfiou a mão na bolsa de lona que deixara cair ao lado da cama.

— Eu tenho — disse ele.

— Está tudo bem.

Ela se levantou segurando alguma coisa no punho cerrado. Ele se levantou de joelhos, na cama, para ficar de frente para ela e, agora que ambos haviam se levantado, as mãos dele estavam livres para descer acariciando-lhe os flancos, passando sobre a curva ligeira dos quadris esguios, e segurar em concha as nádegas sedosas. Chris beijou e beijou, uma vez depois da outra, as faces, o pescoço e os ombros de Jenny; e ela segurou-lhe a cabeça e a apertou contra os seios, e ele os beijou e beijou, inebriado de amor, até que ela caiu novamente na cama e eles ficaram deitados.

— Só um segundo — sussurrou ela, virando-se para o lado. Jenny abriu a mão e rasgou a pequena embalagem que segurava. Era uma camisinha.

Ele disse:

— Eu também comprei uma —

— Não faz mal, psiu...

Jenny ficou de joelhos e, com uma lentidão provocadora, colocou-a nele. Por um segundo fugidio, Chris sentiu-se triste: ela já havia feito aquilo antes; não era tudo tão novo para ela como era para ele. Então ela deitou-se de novo e ele começou a acariciar-lhe as costelas, as coxas, a elevação frágil do osso dos quadris, a ondulação macia dos pêlos encaracolados, e então, com a ponta dos dedos, sentiu a beira do que, ao tato, parecia uma outra boca, uma boca secreta, tão úmida e aberta quanto a que ele estava beijando.

— Chris... — sussurrou ela, mas foi mais como um suspiro.

Chris sentiu a respiração de Jenny em seu pescoço, os lábios de Jenny em sua orelha. Então, com um movimento rápido, delicado, ela moveu o corpo para que ficasse mais fácil para ele, e Chris deslizou para dentro dela com a mesma suavidade de um nadador entrando na água; e depois disso ele quase não teve mais consciência do que era o corpo dela e do que era o dele, da manhã e da noite, do conhecimento secreto dela e de sua própria inocência.

 

Parte Dois

 

Capítulo Sete

Jenny sentiu algo bem diferente. Quando eles fizeram amor, para ela aquilo parecera desajeitado e rápido demais, e também, um pouco triste, mas haveria tempo para aprender, e ficou comovida com a ternura dele por ela. Jenny ficou com Chris durante o dia de sábado, passou a noite com ele, e tudo parecia estar bem; mas, enquanto dormia nos braços de Chris no domingo de manhã cedinho, aconteceu uma coisa que se interpôs entre eles como o cravar de uma espada.

As autoridades policiais de Oxford, havia algum tempo, vinham observando com preocupação o volume do tráfico de drogas na cidade e tinham decidido aproveitar a obscuridade do amanhecer para efetuar uma batida, em uma incursão contra todo mundo que acreditavam que pudesse estar envolvido. Isso incluía o grupo que morava na casa invadida. Na verdade, os policiais estavam enganados. Embora Derek e Ollie fumassem maconha de vez em quando, eles nunca vendiam drogas; e a própria Jenny nunca mais havia tocado em drogas, desde seu episódio com Tansy. Mas isso não teria feito nenhuma diferença. Ela teria sido presa com Derek e Ollie e centenas de outros, só que, é claro, ela não estava lá.

Jenny não soube de nada a respeito da batida até sair de Rose Hill, no domingo à noitinha, para voltar para casa.

Quando dobrou a esquina de sua rua, percebeu imediatamente que alguma coisa estava errada. Uma grande folha de compensado fora pregada vedando a porta, e as janelas do andar térreo também estavam fechadas com tábuas. Não havia nenhum sentido em sequer tentar entrar; ela sabia exatamente o que acontecera.

Também não havia sentido em ir procurar a polícia e pedir suas coisas de volta, suas roupas e os poucos objetos pessoais que havia acumulado. Aquilo significaria apenas ser envolvida nos problemas de Derek e Ollie e, por mais que gostasse dos dois, não tinha nenhuma confiança na polícia. Acreditava que eles certamente diriam que também haviam encontrado drogas no quarto dela; era inevitável.

O pouco dinheiro que tinha e as roupas de que precisava para uso imediato estavam com ela, na mochila. A coisa natural a fazer teria sido ligar para Chris e contar a ele o que acontecera, mas havia um motivo simples e ridículo pelo qual não podia agir assim, durante todo o tempo que passaram juntos, que na verdade não havia sido muito longo, não ficara sabendo qual era o sobrenome dele nem seu endereço. Assim, não tinha como descobrir o número de seu telefone.

Ela poderia ter ido à Oxford Entertainment Systems e tê-lo encontrado lá, mas tudo o que sabia sobre a firma em que ele trabalhava era que ficava em algum lugar na zona leste de Oxford; não tinha idéia de como se chamava, nem do que Chris realmente fazia lá. Uma outra coisa que ela poderia ter feito seria voltar à casa de Rose Hill e perguntar ao pai de Chris, que àquela altura já deveria ter voltado, qual era o endereço ou o número do telefone do filho. Mas não conseguiu se obrigar a fazer isso. Apesar de tudo o que Chris tinha dito a respeito dele, um pai era um pai, e ela se sentia constrangida demais para falar com ele, depois do que estivera fazendo em sua casa. Nunca se passava um dia — na verdade, raramente uma hora se passava — sem que seu próprio pai aparecesse para assombrar algum recanto de seus pensamentos.

De modo que ela não falou com Chris. Em vez disso, foi para o apartamento alugado de uma amiga que às vezes trabalhava no mesmo café e dormiu no chão. Não demoraria muito a encontrar Chris, pensou.

Assim que acabou o trabalho, na tarde de segunda-feira, Chris pegou a bicicleta e foi correndo pela Cowley Road para a casa de Jenny. O dia estava quente e ele parou para comprar dois picolés, pensando em levar um para ela. Quando viu a chapa de madeira pregada na porta, parou como se tivesse levado um soco no coração.

Ficou parado, montado na bicicleta, o sol quente batendo em suas costas e então se lembrou dos picolés derretendo na sacola de papel. De maneira automática rasgou a embalagem de um deles, para não desperdiçá-lo, e ficou ali, olhando idiotamente para a madeira lisa, para as janelas cobertas.

Um pouco mais abaixo na rua, a porta de um carro se abriu e um policial em mangas de camisa saltou. Chris nem reparou quando o homem apareceu a seu lado, a expressão de seu rosto invisível sob o boné de pala e os óculos escuros.

— Está procurando alguém? — perguntou o homem.

Chris estava com a boca cheia de sorvete. Teve consciência do sorvete derretendo, escorrendo pelo palito e sobre seus dedos, e sentiu-se em posição de desvantagem.

— Estava — respondeu depois de engolir. — Que aconteceu?

— Por quem estava procurando?

Então Chris se lembrou de que Jenny e os outros haviam invadido e ocupado a casa, que a casa não era legalmente deles. Se dissesse alguma coisa a respeito dela, poderia trazer-lhe problemas.

— Uma pessoa conhecida — respondeu.

— Como se chama essa pessoa?

— Por quê? Quero dizer, o que está acontecendo? O que houve aqui?

— Essa pessoa morava aqui?

— Morava. Mas —

— Como se chama essa pessoa?

O sorvete finalmente se soltou do palito e caiu sobre a calçada, espirrando uma ou duas gotas no sapato bem engraxado do policial.

— Olhe, o que está acontecendo? — perguntou Chris ansiosamente. — Por que não me diz o que aconteceu? Eles estão bem? Houve um acidente ou alguma coisa assim?

O policial pareceu avaliá-lo por um instante. Então tirou os óculos escuros e disse:

— Olhe, meu filho, não estou querendo lhe criar dificuldades. Ele era um bom amigo seu, este sujeito?

Chris pensou rapidamente. Parecia que alguma coisa ruim tinha acontecido — mas não com Jenny, caso contrário, o policial teria dito ela, amiga.

— Não, era apenas um conhecido. O nome dele é Derek.

— Bem, seu amigo foi preso ontem e acusado de vender drogas. Foi para isso que você veio aqui?

— Para quê? Drogas? — Chris estava boquiaberto de espanto. — Eu? É claro que não!

— Não, naturalmente — retrucou o policial, puxando um bloco de notas. — Pode me dar seu nome e endereço?

— Para quê?

— Para o caso de seu amigo precisar de sua ajuda. Caso nós precisemos entrar em contato com você.

Como a maioria das pessoas de sua idade, Chris tivera pouco contato com a polícia, mas tinha medo e desconfiava de policiais. Naquele ano mesmo, estava um dia voltando tarde para casa de bicicleta, com seu amigo Carl, e dois policiais em um carro tinham feito com que parassem e lhes dessem seus nomes e endereços, insistindo em examinar as bicicletas para verificar se estavam devidamente identificadas com seus códigos postais. Chris lembrava-se de ter se sentido assustado e impotente, apesar de não ter feito nada de errado, e agora sentia a mesma coisa. Simplesmente não lhe ocorreu dar um nome e um endereço falsos; e se tivesse feito isso, imaginava que a verdade teria sido descoberta e que só tornaria as coisas piores. Assim, com raiva e ressentido, deu seu nome e endereço verdadeiros. O policial anotou-os.

— E os outros que moravam aqui? — perguntou Chris.

— Outros? Que outros?

— Os amigos de Derek.

— Quem são eles?

— O senhor quer que eu lhe dê os nomes, certo? Assim, vai poder procurar por eles?

O policial olhou-o com firmeza.

— Se estiverem envolvidos, e se você souber alguma coisa a respeito deles, e esconder isso da polícia, então também estará envolvido, camaradinha.

— Eu acabei de lhe dizer a droga do meu nome e não é camaradinha.

— Isso é verdade — concordou o policial. — E é muito bom que eu saiba que você está dizendo a verdade, Chris. Eu sempre percebo quando as pessoas mentem. Pois muito bem, as pessoas que estavam morando aqui, fossem lá quem fossem, estavam fazendo isso ilegalmente. Para resumir, tinham invadido a casa. Eles haviam sido notificados de que deveriam sair, de modo que estavam sujeitos a ser presos por invasão de propriedade privada. Até onde você quer ajudar seus amigos?

O significado era claro: eu não vou lhe contar nada, mas quanto mais nós conversarmos, mais você vai me dizer. Chris sentiu o rosto ficar vermelho de raiva. Não poder perguntar nada a respeito de Jenny sem incriminá-la.

— Onde estão eles agora? — perguntou.

— Na delegacia de St. Aldate, imagino.

Chris virou-se para ir embora. Jogou o saco de papel com o sorvete de Jenny na lata de lixo mais próxima e saiu pedalando com a cabeça latejando.

Assim que chegou em casa, e sua mãe saiu para o jardim, de modo que pudesse fazê-lo sem ser ouvido, telefonou para a delegacia.

— Alô. Estou tentando localizar uma pessoa... ela está desaparecida...

Ele teve de dar seu nome e seu endereço. Como tivera tempo para pensar, deu um nome e endereço falsos.

— E quem é a pessoa desaparecida?

— O nome dela é Jenny. Humm... sei que parece idiotice. Sinto muito, mas não sei o sobrenome dela.

— Onde ela mora? Ele hesitou.

— Em algum lugar na zona leste de Oxford. Perto da Cowley Road. Não tenho certeza de onde exatamente. Ela tem 17 anos, é magra e tem cabelo curto e escuro. Ah, é branca, tem sotaque de Yorkshire.

— Há quanto tempo está desaparecida?

— Há cerca de... 24 horas.

— E qual é seu relacionamento com ela? Quero dizer, você trabalha com ela? Ela é sua amiga, ou o quê?

— É uma amiga.

— Namorada?

— Bem, é.

— Você não sabe onde ela mora, não sabe qual é o sobrenome dela... Que foi que houve, ela não apareceu para um encontro ou coisa assim?

Chris sentiu-se tolo e desanimado.

— É, uma coisa parecida.

— Ela é de Yorkshire, você disse? Será que ela não poderia ter voltado para casa?

— Bem, imagino que poderia.

— Então, por que não tenta encontrá-la por lá? Não temos muitos detalhes para nos ajudar a procurar, não acha?

— Não, mas... acho que ela pode ter sido presa, é só isso.

— Quando?

— Ontem.

— Onde, aqui em Oxford?

— É. É possível.

— Espere apenas um minuto.

O telefone ficou silencioso. Pouco tempo depois, a voz falou de novo.

— Ninguém com essa descrição foi preso aqui, isso é tudo o que posso lhe dizer. Se importaria em me dizer o que — Chris parou de ouvir. Desligou o telefone.

 

Capítulo Oito

Naquela noite, Mike Fairfax estava participando de uma reunião em algum lugar, de modo que Chris e sua mãe jantaram juntos sozinhos. Em vez de comer na mesa grande na cozinha, como costumavam fazer quando Mike estava em casa, comeram uma pizza com o prato no colo, enquanto assistiam à televisão. Chris sentiu-se satisfeito por não terem que encarar uns aos outros e conversar. Havia apenas uma coisa ocupando sua mente e ele não queria conversar a respeito daquilo.

Sua mãe era uma mulher bonita, atraente, de 40 anos, cujos cabelos escuros e pele morena levavam algumas pessoas a pensar que era do Oriente Médio, apesar de não ser. Ela trabalhava como professora de arte em uma escola particular e, de tempos em tempos, dedicava-se quase seriamente à cerâmica, à tecelagem ou a algum outro tipo de trabalho artesanal, e fazia grandes progressos, com bons trabalhos, antes de perder o interesse. Tinha medo de ser menos interessante, menos talentosa e atraente que o pai de Chris, e provavelmente estava certa. Ela suspeitava que Chris gostava mais da companhia dele do que da dela, e também estava certa nisso. No fim das contas, ela era uma mulher infeliz e só Mike Fairfax a impedira de se tornar amarga; mas agora, apaixonada por ele, ela irradiava um brilho de contentamento que até Chris percebia.

Naquela noite, enquanto estavam juntos na desordem confortável da sala de visitas, ela sentiu que negligenciara o seu filho nos últimos tempos, e se deu conta de que não haviam sequer planejado uma temporada de férias para aquele ano. Com todas as mudanças que haviam ocorrido, aquilo simplesmente fora esquecido.

— Acabei de pensar nisso! — exclamou ela. — Não planejamos coisa alguma.

— Que tipo de coisa?

— Umas férias. Eu deveria ter pensado... Simplesmente me esqueci. Que besteira minha.

— Não faz mal. De qualquer maneira não quero ir para fora.

— Ah, deixe disso, não seja um desmancha-prazer. Nós sempre vamos para fora.

— Com papai, sim, íamos.

— Bem, as coisas estão diferentes. Mas ainda devemos tirar umas férias.

— Tudo está diferente. E, depois, Barry Miller precisa de mim em tempo integral. Já me disse isso.

— Como assim, para sempre? É apenas um emprego de férias. Ele está proibindo você de viajar ou coisa parecida?

— Não há nenhum lugar para onde eu queira ir. E, de todo modo...

Ele não sabia como dizer aquilo. Contudo, ela adivinhou o que estava querendo dizer e, numa rara demonstração de confiança, disse:

— De todo modo, o quê?

— Bem, o que estou querendo dizer é, quem seria?

— Como assim quem seria?

— Bem, eu e você, ou o quê? Você está falando de Mike vir junto também?

— Por que não?

— Não há nenhum motivo por que não. Estou apenas perguntando, ele também iria conosco?

— Eu não sei, Chris. Não perguntei a ele. Acabei de pensar nisso neste minuto. Apenas lembrei que não tínhamos planejado sair para umas férias e achei que talvez pudesse lhe agradar viajar, ir para algum lugar no exterior, é só isso.

Ele deu de ombros.

— Bem, normalmente... eu não sei mamãe. É apenas que não tinha contado com isso.

— Bem, você não gostaria de ir?

— Não, na verdade, não. Se você está perguntando o que eu quero, pois bem, o que eu quero é ficar aqui e trabalhar para Barry Miller. Não quero ir para lugar nenhum.

Estavam ambos de olhos cravados na televisão, em vez de olhar um para o outro, embora nenhum dos dois pudesse dizer a respeito de que era o programa. Ela tomou um gole cuidadoso de seu vinho.

— Faria diferença se Mike não fosse? — perguntou.

— Não.

Houve mais uma pausa. Então Chris perguntou:

— Por que você e Mike não fazem uma viagem sozinhos?

— O quê? Ah, deixe de bobagem.

— Por que isso seria bobagem?

— Não vou deixar você sozinho.

— Eu sei me virar. Eu me virei muito bem na casa de papai. E me virei bem aqui, também, antes que você conhecesse Mike.

— Eu sei, querido. Eu sei que você sabe. Não é isso. Mas eu não poderia ir para fora e deixar você sozinho, de jeito nenhum. Simplesmente não consigo compreender por que você quer passar o verão inteiro trabalhando naquele emprego chato em Cowley.

— Porque eu gosto de Barry Miller, é por isso. E não é chato. E se você vai começar a torcer isso para dizer que sou eu quem estou impedindo você de tirar uns dias de férias, não estou, OK? Eu sei cuidar bem de mim mesmo e gosto de cuidar de mim mesmo, então se você e Mike quiserem ir para algum lugar, acho isso ótimo. Acho que tudo bem, que não é nenhum problema. Tratem de ir.

A última coisa que Chris queria fazer durante o resto daquela noite era ficar em casa, assistindo à televisão. Inquieto e infeliz, desesperado para ver Jenny novamente e tê-la em segurança em seus braços, para conversar e para beijar a borboleta tatuada, ele saiu de casa, assim que acabou de encher a máquina de lavar louça, fazendo rondas em sua bicicleta, no calor agradável das ruas na noite quente, examinando cada rosto, e sem encontrá-la em lugar algum. Só depois que escureceu completamente foi que, com relutância, voltou para casa.

A garota no chão de cujo quarto Jenny passou a noite de domingo deixara seu antigo emprego, indo trabalhar em um café que se tornara muito procurado pelo tipo de pessoas que gostavam de serem vistas bebendo cervejas estrangeiras, que estavam na moda, e ouvindo a última palavra em termos de música ao vivo, que naquele verão era jazz. O café vendia calzones, pizzas e batatas assadas em travessas de ferro fundido, saladas em tigelas de madeira, e os funcionários da casa pareciam ser ainda mais agressivamente esnobes que os clientes.

Eles precisavam de mais uma garçonete e, como o dinheiro de Jenny tinha acabado, sua amiga sugeriu que viesse com ela e conhecesse o gerente. Ele se chamava Tommy Sanchez. Era um homem de trinta ou trinta e poucos anos, forte e de voz rouca; os cabelos escuros compridos, puxados para trás e presos em um rabo-de-cavalo. Tinha as mesmas origens de classe alta que seus funcionários e clientes. Jenny não era o tipo de garota que ele normalmente contratava, mas ofereceu-lhe um emprego, para começar naquela segunda-feira à noite. Ela sabia que dera sorte de encontrar trabalho tão depressa; não tinha escolha senão aceitar.

Jenny estava começando a se dar conta, cada vez mais, do efeito que exercia sobre certos tipos de homens. Eles em geral eram muito mais velhos que ela, com idade suficiente para ser seu pai, e pareciam detectar alguma qualidade nela que os excitava. E então, deixavam de ser homens e tornavam-se algo semelhante a tigres ou lobos — de olhar muito brilhante, de boca cruel, interessados não em gentileza ou em amizade ou amor, mas em consumi-la, destruí-la, desfazê-la em pedaços. Por outro lado, os rapazes e homens de quem ela gostava e em quem confiava ou eram do tipo cujos interesses estavam em outras coisas, como Derek e Ollie, ou daqueles que ainda traziam em si uma espécie de inocência, como Chris. Ela nunca havia conhecido ninguém como ele. Não era nenhum covarde, nenhum fracote, também não era ignorante ou infantil; mas havia algo de limpo e singelo nele, como se fosse um habitante de coração puro vindo de alguma cultura impoluta que ficasse muito, muito distante. Não houvera nada que ela quisesse fazer mais, durante o tempo que tinham passado juntos em Rose Hill, que contar a Chris sobre seu pai e como ele havia infernizado e destruído sua infância. Mas, ao mesmo tempo, Jenny sabia que aquilo o chocaria; temia que ele passasse a vê-la como ela própria via a si mesma: corrompida, venenosa, suja.

E quando conheceu Tommy Sanchez, reconheceu nele, imediatamente, aquele tipo que já conhecia e tomou a decisão de se manter tão longe dele quanto fosse possível. E de passar todo seu tempo livre procurando por Chris.

Enquanto isso, Chris procurava por ela. A cidade de Oxford não é grande o suficiente para alguém se perder nela, e teria sido possível que eles se encontrassem por acaso, mas uma sorte infeliz os manteve separados.

Para começar, Jenny trabalhava no café a noite inteira, que era a maior parte do tempo de que Chris dispunha para procurar por ela, já que durante a manhã e a tarde ele normalmente estava no depósito ou fora, no furgão. Em segundo lugar, se ela estivesse trabalhando em qualquer outro bar, ele poderia ter entrado para tomar um café ou comer alguma coisa, e tê-la encontrado assim. Mas no ano anterior, quando o lugar fora inaugurado, Chris fora lá em busca de um trabalho para o verão e Tommy Sanchez tinha sido tão desagradável, que ele havia jurado nunca mais voltar lá. E, finalmente, Jenny tivera que se mudar. Não podia dormir no chão do quarto de sua amiga para sempre, e lugares para morar em Oxford, propriamente dita, eram quase impossíveis de encontrar. Agora que tinha um emprego fixo, podia pelo menos pagar o aluguel de um quarto, ainda que não ficasse na cidade. Encontrou um pequeno apartamento de um só cômodo para alugar em Kidlington, um trajeto não muito longo de ônibus em direção ao norte, no mesmo vilarejo em que Barry Miller morava. Assim, a maior parte do tempo Jenny nem estava em Oxford.

Os caminhos deles de fato se cruzaram. Numa ocasião, estiveram a poucos metros um do outro; mas a rua estava lotada de turistas e eles simplesmente passaram um pelo outro, sem se ver. E uma vez, no final da tarde, enquanto Jenny estava no microônibus quente, descendo pela Banbury Road a caminho do trabalho, viu Chris pedalando na direção oposta — de rosto sério, concentrado e retraído. Ela pediu ao motorista que parasse e saltou do ônibus imediatamente, mas Chris já estava longe demais para ouvi-la gritar seu nome e não olhou para trás.

Finalmente, engolindo seus receios, dizendo a si mesma para não ser idiota, Jenny foi até Rose Hill e tocou a campainha da casa do pai de Chris. Afinal, tudo o que tinha de fazer era perguntar qual era o endereço dele.

Mas não havia ninguém lá, e uma placa de uma corretora de imóveis, no jardim da frente, anunciava Vendida. O pai de Chris e Diane tinham se mudado para o chalé perto de Long Hanborough e, desocupada, a casa de Rose Hill fora rapidamente vendida. A campainha havia ressoado no corredor vazio e ninguém tinha respondido, e Jenny fora embora sentindo-se derrotada e infeliz.

 

Capítulo Nove

Cerca de dez dias depois de ter visto Jenny pela última vez, Chris estava sentado no armazém, fazendo uma vistoria em algumas luzes de palco que tinham acabado de ser devolvidas de um aluguel, quando Barry Miller entrou. Os dois estavam sozinhos; Dave e Tony estavam fora, fazendo um serviço em algum lugar. Barry sentou-se na bancada perto de Chris e pegou um interruptor, brincando com ele distraído. Parecia preocupado.

— Como está o chalé? — perguntou Chris.

— Ah, vai bem. Mas aquele negócio do infravermelho ainda não chegou. Acho que eu devia dar uma ligada para eles. Escute, você já fez algum trabalho de emboço?

— Nunca.

— Serviço de marcenaria? Carpintaria?

— Bem, um pouco. Sei como serrar direito, em linha reta, colocar parafusos e pregos, fazer juntas simples... De que tipo de coisa está falando?

— Do chalé. As paredes, sabe, têm apenas revestimento de concreto. Pois bem, quero colocar batentes e rodapés, uma moldura de caibros de madeira ao longo do interior para pregar nela as placas de emboço. E colocar as chapas de isolamento térmico atrás delas. Dar um acabamento direito, deixar o lugar aconchegante.

— Eu poderia fazer isso.

— E talvez uma divisória com um batente numa das extremidades, com uma porta.

— Certo — comentou Chris. — É fácil.

— O quê, saberia fazer isso sozinho?

— Bem, não pode ser assim tão difícil, não acha? Trabalhar com madeira é fácil. Colocar as placas de emboço, provavelmente, também deve ser. Eu não saberia fazer uma cobertura de emboço de verdade; nem tentaria. Mas gosto de trabalhar com madeira. Sim, eu poderia fazer isso.

— E o que acha de um forro para o teto?

— Estou tentando me lembrar de como era o telhado... É de ferro corrugado, não é?

— É, ferro corrugado sobre grandes vigas de madeira. Inclinado, sabe. Mas estava pensando em botar um teto falso, só para ficar com uma aparência mais limpa. Nada de muito elegante. Talvez telhas de poliestireno.

— Mas precisaria primeiro de uma armação de treliça. Acho que para isso eu precisaria de ajuda. Não dá para segurar uma coisa acima da cabeça e trabalhar nela.

— Talvez pudéssemos fazer isso juntos. Mas se quiser fazer as paredes, pagarei bem, vai valer a pena.

— Então tudo bem — respondeu Chris. — Você já sabe que materiais vai querer? Quero dizer de que tamanho e em que quantidade? Se não souber, teremos que ir lá tirar as medidas, fazer os cálculos. E com relação ao encanamento? Você estava pensando a respeito disso da última vez.

— Ah, vou cuidar disso numa outra hora. Não há pressa para isso. Não, escute, o importante é não falar a respeito daquele lugar com ninguém. Nem mesmo com Sue ou Sean.

— Não. Pode deixar.

— Porque, sabe, não estou exagerando, poderia ser um bocado perigoso.

— Afinal, qual é o problema? — perguntou Chris. — Dessa família que está atrás de você... O que acusam você de ter feito?

Ele achava que tinha o direito de perguntar, uma vez que estava sendo envolvido na construção do chalé. Barry olhou ao redor cuidadosamente e baixou a voz quando respondeu.

— Eu mencionei a Irlanda, não foi? Irlanda do Nortei Belfast. Eu trabalhava lá... não sei quanto mais posso lhe contar, mas dane-se a Lei de Segredos de Estado, a história inteira cheira mal. Eu estava trabalhando para o exército, certo? Era técnico especial de operações. Ligado ao SAS. Não estava no exército, mas prestando serviços. Era tudo extra-oficial, sabe, eles podiam negar. Caso alguma coisa desse errado, nós não existíamos, esse tipo de coisa. Trabalhávamos com desativação de bombas, vigilância, qualquer coisa de eletrônica.

"De qualquer maneira, o problema é que havia esse grupo paramilitar. Uma família chamada Carson. Protestantes. A maior parte do tempo nós trabalhávamos contra o outro lado, o IRA; mas os desse bando eram uns malucos, francamente. Matadores. Assassinos. Recebemos uma informação de que estavam procurando um especialista em explosivos, um sujeito de Londres. Ele era um especialista em explosivos industriais e era meio corrupto, sabe. Fazia qualquer coisa, vendia qualquer coisa. Mas ele sabia como conseguir e como usar Semtex, que os Carsons nunca tinham usado antes, era novidade para eles. Não queriam correr o risco de se mandar pelos ares.

"Pois bem, o que eles planejaram — os sujeitos no comando da nossa unidade —, eles planejaram interceptar o tal homem de Londres, porque como os Carsons nunca tinham visto a cara dele, sabe, não sabiam como ele era. Então manteriam o sujeito de verdade fora de circulação e arranjariam alguém para substituí-lo. Sabe como é, fingir que era ele, ir lá e se encontrar com os Carsons e apanhá-los com a mão na massa. De modo que pediram voluntários, e eu fiz isso."

Chris ouviu meio dominado pela incredulidade. Era o tipo de história que você via em filmes de suspense de televisão. E, no entanto, coisas daquele tipo, de fato, aconteciam, e Barry estava contando de uma maneira lenta, relutante, constrangida que tornava muito difícil não acreditar.

— E então o que aconteceu? — perguntou Chris.

— Bem, eu fingi ser o perito em explosivos, o que foi bastante fácil. Eu conhecia toda a parte técnica. E montei uma armadilha para apanhá-los. Gravador, câmera de vídeo escondida, tudo. O problema foi que houve um combate. Houve uma emboscada. O RUC, sabe, a unidade da polícia, eles não tinham sido bem informados e entraram por acaso na história e, antes que soubéssemos o que estava acontecendo, havia balas voando para todos os lados. Um dos Carsons, Frank, foi preso. Pegou 20 anos. Um outro, seu irmão Billy, levou um tiro e morreu. A maior parte do grupo foi capturada e apanhamos Frank e os outros através de gravações, de modo que pode-se dizer que foi um sucesso.

"Mas havia um terceiro irmão, Eddie, o mais moço. Ele não estava diretamente envolvido. Não tinham nada contra ele. Estava limpo. Só que ele era o pior do bando. Era frio, compreende, inteligente... Ele era um pensador. E vingança... que inferno, as pessoas falam da máfia, isso não é nada perto dos irlandeses. Protestantes, católicos são todos igualmente ruins. De modo que Eddie Carson está atrás de vingança. E o problema é que ele sabia que tinha sido eu o responsável pela morte de Billy e por Frank ter apanhado 20 anos de cadeia. Para Eddie, eu já estava morto.

"Assim, não havia nada a fazer. Depois que sua cobertura vai para o espaço, acabou, é melhor você tirar o time de campo. Eles me deram algum dinheiro, novos documentos; eu mudei meu sobrenome..."

Ele pareceu bastante envergonhado ao dizer isso, como se fosse covardia.

— Como assim, quer dizer que seu nome de verdade não é Miller? — perguntou Chris.

— Não. Sean não sabe, e não tenho certeza de que algum dia vá contar a ele. Meu sobrenome verdadeiro é Springer. Ou pelo menos era. Legalmente é Miller, mas, você sabe como é... De maneira que a história toda é essa. Era disso que eu estava falando.

Chris não tinha como julgar em que medida a história era verdadeira, exceto por seu próprio conhecimento do mundo e este (como Jenny havia percebido) era bastante limitado. Mas gostava de Barry e queria acreditar nele, de modo que deixou de lado todas as dúvidas que se apresentaram e tentou imaginar o Barry que conhecia na companhia de homens do SAS e de terroristas. Só mais tarde a história começou a parecer fraca e improvável, à medida que Chris encontrou as perguntas óbvias a fazer, mas não podia voltar a tocar no assunto. Aquilo fazia com que Barry parecesse, de alguma forma, um homem inferior. Sem dúvida, por vezes era preciso se rebaixar e fazer todo tipo de coisas para capturar terroristas, mas fazê-los cair numa armadilha como aquela... não seria isso uma espécie de traição? E se ele havia traído alguém uma vez, não poderia trair de novo?

No dia seguinte, Chris teve de sair com Dave para levar um equipamento para um grupo de teatro que ia se apresentar no Oxford Union. Este era um grande prédio vitoriano situado no centro da cidade; era onde se realizavam os famosos debates da sociedade Oxford Union, onde estudantes universitários, desejosos de fazer carreira na política, encontravam-se, trocavam idéias com ministros do governo e davam seus primeiros passos na estrada que levava ao Parlamento. Chris nunca estivera dentro dele antes, mas Dave conhecia o lugar.

— Eu falei aqui uma vez — disse ele, enquanto descarregavam as armações de luz no gramado.

— Falou? Que está querendo dizer?

— Em um debate. Acho que nós perdemos.

— Você? É mesmo? Quando?

— Quando eu ainda era estudante. Acho que Lady Antonia Fraser estava no grupo adversário. Não consigo me lembrar. Estava nervoso demais.

Chris olhou para ele com outros olhos. Dave era magro, mas musculoso, usava roupas velhas e surradas, com cabelos castanhos imensos de compridos e uma barba rala, e se movia envolto numa perpétua atmosfera de vaga serenidade, como um hippie.

— Puxa — comentou Chris —, nunca pensei em você fazendo isso.

— Bem, na verdade, em termos de conversa, não é motivo para grandes comoções, de modo que não se dê ao trabalho de voltar a tocar no assunto. É só que me lembrei disso, por vir aqui.

O grupo de teatro estaria apresentando duas peças na temporada de verão e estavam justo no momento de trocar de uma para a outra, por isso, precisavam dos novos equipamentos. Chris e Dave os carregaram para dentro, entregaram ao diretor e estavam prontos para levar embora as peças que não eram mais necessárias, quando Chris ouviu uma voz que reconheceu.

Os comentários de timbre confiante e arrogante vinham de um pouco mais adiante, dobrando o largo corredor. Era a voz do rapaz que estivera na beira do lago, o que se chamava Piers.

Imediatamente Chris sentiu sua pele se arrepiar. Foi uma reação química; não pôde controlá-la. A descarga de adrenalina inundou seu corpo inteiro com fúria. A lembrança daqueles breves minutos à beira do lago e sua paixão por Jenny subitamente se incendiaram, e ele se esqueceu de Dave e do trabalho que estavam fazendo e correu para a curva do corredor antes que Piers pudesse desaparecer.

Piers, vestido com elegância em trajes de verão, estava falando com um homem idoso e com uma garota de mais ou menos 19 anos. Dizia:

— Bem, sim, é claro, normalmente eu faria. Na verdade, eu estava a caminho de Cannes, mas essas pessoas desagradáveis apareceram, uns primos de Anna ou coisa assim e —

Chris o interrompeu.

— Você é Piers?

Piers se virou, uma expressão de desprezo e espanto se revelando em seu rosto bonito.

— Sim, este é meu nome, quem é você?

— Onde está Jenny?

— Como disse?

— Você sabe onde está Jenny?

— Eu não sei de que você está falando. — Piers deu-lhe as costas, voltando-se com um sorriso para a garota, que sorriu de volta com nervosismo.

— Jenny! — repetiu Chris. — Onde está ela?

Piers pegou a garota pelo braço e começou a se afastar, como se Chris fosse algo de embaraçoso como um mendigo ou um bêbado vadio. Com um franzir de cenho de desaprovação para Chris, o homem idoso os seguiu descendo o corredor. Chris sentiu sua raiva se espalhar como fogo sobre gasolina, abarcando também o prédio, as paredes revestidas de carvalho, os retratos de famosos ex-presidentes, o mundo inteiro que Piers representava. Correu atrás deles e agarrou Piers pelo braço, fazendo-o se virar.

— Responda! Você sabe onde está Jenny. Sabe exatamente de que estou falando, agora diga, onde está ela?

A guisa de resposta, Piers deu-lhe um tapa na cara.

Houve um momento de silêncio no corredor. Dave tinha vindo ver o que estava acontecendo; uma porta havia se aberto, e dois rostos olhavam para fora; o homem idoso e a garota estavam imóveis. O estalo do tabefe pareceu pairar no ar como um tiro.

Então Chris se arremessou contra Piers, dominado pela maior fúria que jamais havia conhecido. Piers era mais alto e mais pesado do que ele, e havia lutado boxe no colégio. Em uma luta devidamente supervisionada, ele teria derrubado e nocauteado Chris em menos de um minuto. Mas nenhum dos adversários que já enfrentara investira contra ele com o desejo de matar. Chris o fez, e uma parte horrorizada de sua mente estava consciente disso, mas não teve a força necessária para contê-lo; estava completamente descontrolado. Ele foi golpeado com violência, mais de uma vez, mas não sentiu os golpes. Chocou-se contra Piers, empurrando-o para trás e contra a parede e então o golpeou sem parar até deixá-lo caído no chão; estava totalmente livre de qualquer inibição. Tudo o que ouvia era a voz de tom arrastado, carregada de desdém, à beira do lago; tudo o que ele via era o franzir arrogante do lábio de Piers; tudo o que sentia era a vergonha por aquele tapa na cara. E o tempo todo uma imagem de Jenny, apavorada, se escondendo... ele golpeou o homem maior como um tigre e, se pudesse, o teria matado.

Mas Dave estava lá, puxando-o para trás, e o diretor de teatro e mais alguém vieram ajudar. A garota estava ajoelhada ao lado de Piers e o homem idoso protestava furioso...

Chris ficou atordoado. A raiva ainda estava lá, mas agora conseguia ver mais claramente e estava ouvindo fragmentos de conversa.

— ...não sei de que ele estava falando —

— ...como um cachorro louco —

— ...brigando por causa de uma garota —

— ...este sujeito bateu nele primeiro, eu vi —

— ...alguma coisa quebrada?

— Saiam daqui! Andem logo! Caiam fora e não voltem! Enquanto Dave dirigia levando-os embora, parecendo preocupado, Chris, tremendo no banco do passageiro, começou a se dar conta do que havia feito e a sentir os estragos que os golpes de Piers haviam causado; seu lábio estava cortado, um dente estava mole e seu corpo inteiro estava dolorido.

— Puxa vida — exclamou Dave. — Pensei que você fosse calmo e de boa paz. Nunca teria imaginado aquele tipo de fúria explosiva. Foi mesmo um bocado impressionante. O que causa isso, a fase da lua ou coisa assim? Você costuma ter esse tipo de ataque regularmente?

— Nunca fiz isso antes — respondeu Chris, cuidadosamente, tentando não deixar sua voz tremer.

— Você me fez lembrar de Barry por um minuto. Já viu o Barry ter um ataque de raiva?

— Não. — Sacudir a cabeça era doloroso; ele falou com a boca semicerrada.

— Ele perdeu a cabeça com o Tony, umas semanas atrás, quando comprou aquele barracão na margem do canal...

Dave fez uma pausa para manobrar no espaço entre um ônibus parado para embarcar passageiros e um caminhão vindo na direção oposta. Apesar da vergonha, do que restava da fúria e da dor de cabeça latejante, aquilo chamou a atenção de Chris. Como Dave sabia da existência do barracão se era para ser mantido em segredo?

— Por quê? — perguntou.

— Ah, Tony estava caçoando dele. Ficava se referindo ao barracão como o cantinho de encontros de Barry. Afinal Barry acabou se aborrecendo, perdeu a cabeça e atirou uma lanterna nele. Tony se desviou bem no minuto exato, eu juro. Foi um daqueles refletores grandes... teria arrancado fora a cabeça dele. Se espatifou em mil pedaços. Ele detesta brincadeiras sobre as namoradas dele, o velho Barry.

— Que namoradas? Pensei que ele fosse feliz no casamento!

— Bem, pode até ser que seja, mas, mesmo assim, dá umas voltinhas por aí, com a Sandra, para começar. Participa dos ritos de Vênus nos fundos da loja. Você nunca reparou? Preste atenção que você vai entender do que estou falando.

Chris ficou em silêncio, enojado do fundo do coração. Todo mundo e tudo em toda parte para onde ele olhasse era podre, corrupto, envenenado até o miolo.

 

Capítulo Dez

Jenny estava sozinha. Por vezes passavam-se dias sem que ela falasse com ninguém exceto os clientes do bar e as outras garçonetes. Tommy Sanchez, em geral, conseguia arranjar um ou dois minutos para falar com ela a sós, e ela sorria e respondia educadamente, depois escapulia para tirar uma mesa ou anotar uma comanda antes que ele conseguisse tocar nela.

Continuava a procurar por Chris, mas cada vez com menos convicção. Não tinha certeza de que o amasse, como ele dissera que a amava; não acreditava que merecesse amar ninguém. Quanto ao fim de semana deles em Rose Hill, tudo que lhe restava era uma percepção, uma impressão que ela jamais conhecera desperta na vida real e para a qual não possuía nome. Na verdade, era bondade; era a sensação de ser lambida e banhada por uma bondade tão fresca quanto o ar na primavera. Mas, como todos os sentimentos que conhecemos em sonhos, já havia começado a se apagar. Tudo estava se apagando. A liberdade inebriante daqueles primeiros dias longe de casa, quando soubera que nunca mais veria seu pai novamente; os meses estranhos, desarticulados, que passara com Tansy, que pelo menos haviam sido loucos, divertidos; o tempo com Piers, o champanhe, as festas — todos eles agora estavam secos e mortos, como folhas de um outro ano.

De modo que ela procurava por Chris, mas de maneira fatalista, quase convencida de que nunca mais voltaria a vê-lo.

A casa onde estava morando pertencia a uma mulher chamada Gill Petrie. Gill tinha uns trinta e poucos anos, dois filhos com menos de dez, e era viúva; seu marido morrera em um acidente de motocicleta dois anos antes. Para ela, não era fácil sair; não podia participar de círculos de babysitters porque não conseguia deixar seus próprios filhos juntos com os filhos dos outros. Assim, não demorou muito para que Jenny se oferecesse para cuidar das crianças em suas noites livres e Gill começou a sair um pouco.

Certo dia, ela perguntou a Jenny:

— Você poderia ficar de babá amanhã? Na verdade, não é para mim, é para uma amiga.

Jenny concordou. Não tinha mais nada para fazer e pelo menos estaria ganhando uma ou duas libras, em vez de gastar seu tempo circulando compulsivamente de ônibus sem nenhum resultado.

Ela apareceu no endereço que Gill lhe deu às sete horas da noite seguinte. Era uma casa moderna, elegante, como milhares de outras, e a família também era como milhares de outras: a esposa bonitinha, ligeiramente ansiosa, o marido bem-humorado, enérgico, o filho pequeno e tímido. Era o aniversário de casamento deles, explicou a esposa. Iam sair para jantar e não chegariam tarde. Havia um lanche preparado e café; podia assistir à televisão e usar o telefone.

Jenny ficou meio confusa com a ansiedade da mulher. Havia uma sombra naquela casa, como se alguém estivesse doente, e ela não conseguia situá-la. Jenny passou algum tempo conversando com Sean, o menino — ou melhor, procurando deixá-lo à vontade e ouvindo o que dizia. Não tinha muita experiência com crianças, mas o achou encantador.

Os filhos de Gill ainda eram muito pequenos, mas com Sean, depois que ele superou sua timidez, conseguiu ter uma conversa de verdade.

Era fascinado por ciência. Tinha um grande mapa celeste na parede de seu quarto e contou tudo a ela sobre a teoria do bigbange. como o universo havia nascido. Ela olhou pelo microscópio dele e viu a perna de uma mosca. Disse a ele que não, não acreditava em objetos voadores não-identificados, e ele lhe falou sobre várias teorias diferentes a respeito deles. Sean perguntou se ela jogava xadrez e ela disse que não, que não conhecia as regras.

— Vou ensinar a você — disse ele. — É complicado no início, mas logo você pega o jeito.

— Está na hora de você ir para a cama — disse ela. — Eu prometi à sua mãe.

— Bem, será que posso lhe mostrar quando estiver na cama?

— Só se você estiver na cama dentro de menos de dez minutos, a partir de agora.

Ele estava, de modo que ela sentou na beira da cama — não de má vontade — e Sean arrumou as peças no tabuleiro entre eles, com o edredom dobrado, e começou a explicar. Ela ouviu sem se concentrar muito, fazendo perguntas de vez em quando para que ele soubesse que ela ainda estava acompanhando; mas a maior parte de sua atenção estava absorvida pelo entusiasmo inocente dele, sua fé na maravilha das coisas, sua natureza intocada.

Depois que explicou os movimentos, ele perguntou:

— Vamos jogar uma partida agora?

— Não, puxa vida, já é muito tarde. Além disso, estou com fome, quero tomar meu chá. E pelo que prometi à sua mãe, você já deveria estar na cama há muito tempo.

— Então você joga comigo da próxima vez?

— Tudo bem, prometo que jogo.

— Posso ler um pouco?

— Quinze minutos.

Ela observou enquanto ele varria as peças para dentro da caixa, punha o tabuleiro no chão ao lado da cama e estendia a mão para pegar um livro na prateleira acima de sua cabeça. Então — ela não conseguiu resistir — o abraçou e o beijou. Sean se submeteu a isso educadamente. Ele cheirava a leite, pasta de dente, inocência. Ela o beijou de novo, sem conseguir se conter, como alguém apaixonado, e viu os olhos dele se arregalarem de surpresa. Jenny se afastou dele imediatamente.

— Boa-noite, Sean.

Ele disse boa-noite e ela saiu do quarto, tremendo de vergonha e anseio. Sabia o que queria. Queria pegar o rostinho daquele menino e apertá-lo contra o peito. Queria beijá-lo de novo uma centena de vezes. Desolada pelo ódio que sentia de si mesma, ficou sentada na beira do sofá sob os últimos raios do sol do fim da tarde e perguntou a si mesma que profundidade teria a corrupção que seu pai incutira nela. Não era nada melhor do que ele; nunca mais deveria cuidar de crianças. Deveria ir embora e viver completamente sozinha; ela não merecia viver.

Quando escureceu, Jenny foi para a pequena e agradável cozinha, fez café e desanimadamente pegou um biscoito. Na verdade, não estava com vontade de comê-lo. Estava se decidindo se devia guardá-lo de volta ou não quando o telefone tocou.

— Alô? — atendeu.

— Alô — disse uma voz de homem. — É da casa de Barry Springer?

Jenny teve de pensar antes de se lembrar do sobrenome deles.

— Não — respondeu. — Aqui é da casa do Sr. e da Sra. Miller.

— Você não tem certeza? Ouvi você hesitar.

— Não, eu tenho certeza. O senhor provavelmente discou o número errado.

— Então quem está falando? A Sra. Springer?

— Como disse?

— Com quem estou falando?

— Sou a babá.

— Ah, compreendo. Então ele saiu.

— Bem, não é o mesmo nome —

— Diga a ele que Carson está começando a esquentar. Consegue se lembrar disso?

— Mas quem vou dizer que ligou? E o nome dele não é —

— Ele saberá. Não se esqueça.

Sem nenhum motivo, Jenny sentiu seu corpo inteiro ficar gelado. Serviu-se de café e o levou para a sala, onde sentou-se e assistiu a um filme de James Bond sem se mexer até o carro parar diante da casa e ouvir a chave girar na fechadura.

— Olá — disse a Sra. Miller. — Correu tudo bem? Sean foi para a cama na hora?

Jenny levantou-se e foi até a cozinha com ela.

— Foi tudo ótimo. Ele me ensinou a jogar xadrez.

— Sean está sempre procurando alguém para jogar xadrez com ele. Gostaria de uma xícara de chá? Sempre gosto de tomar um chá depois de comer, e eles só tinham café no restaurante aonde fomos.

Ela encheu a chaleira e tirou três canecas, movendo-se com animação, à vontade e feliz em sua cozinha.

— Vocês jantaram bem?

— Ah, sim, foi uma delícia... comida italiana. Gosto de comida italiana; é minha favorita. Amanhã estaremos cheirando a alho. Onde você trabalha, querida?

Ela sabia que Jenny era garçonete. Jenny lhe falou sobre o café de Tommy Sanchez.

— Mas não creio que vá trabalhar lá por muito tempo — comentou Jenny. — Não quero ser garçonete para sempre.

Barry entrou, esfregando as mãos.

— Sean está dormindo profundamente — comentou. — O que você fez com ele, hein?

Jenny olhou para ele com ansiedade, mas Barry tinha apenas falado por falar. Ele pegou o biscoito que ela havia desistido de comer e o colocou inteiro na boca.

— Seu guloso — disse sua esposa. — Você acabou de comer um enorme prato no jantar.

— É, estava bom. Nós voltaremos lá.

Ele piscou para Jenny. Ela sorriu de volta. Era fácil gostar de Barry. Enquanto estavam na sala tomando o chá, Sue perguntou:

— O que vai fazer quando deixar de trabalhar no café?

— Não sei. Tenho um amigo que diz que eu deveria estudar. Fazer os exames. Ir para uma faculdade. Mas não sei o que estudar.

— Ah, você deveria fazer isso — exclamou Sue. — Deveria mesmo. Eu nunca fiz nada desse tipo até recentemente e agora estou num curso para me formar pela Universidade Aberta. É fantástico! Nunca pensei, sabe, uma pessoa como eu... Mas você adquire uma porção de novas perspectivas.

Continuar: parte 3 de 4