A Casa Torta

Agatha Christie · Capítulo 12 de 21

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A Casa Torta

Capítulo 15 · Seu Quarto Está pronto — disse Sophia.…

SEU QUARTO ESTÁ pronto — disse Sophia. Ela estava ao meu lado, olhando para o

jardim. Este parecia desolado e cinzento, com as árvores quase desnudas balançando-se ao vento.

Sophia pareceu ler meus pensamentos ao

dizer:

—Parece tão desolado...

Enquanto olhávamos, uma figura, e logo

depois, uma outra, apareceram através da sebe de teixos indo para o jardim de pedras. Ambas pareciam irreais na luz que se apagava.

Brenda Leonides era a primeira. Ela estava

envolta num casaco cinzento de chinchila e havia um certo ar felino e furtivo em seus movimentos. No crepúsculo ela flutuava com uma graça sobrenatural.

Vi seu rosto ao passar pela janela. Havia um

meio sorriso nele, aquele mesmo meio sorriso que eu já notara lá em cima. Alguns minutos depois, Laurence Brown, parecendo ainda mais magro e encolhido, também desapareceu no crepúsculo. Só posso descrever assim a cena. Eles não pareciam duas pessoas andando normalmente, duas pessoas que tivessem saído para dar uma volta. Havia algo irreal sobre eles, como se fossem dois fantasmas.

Fiquei pensando no estalido que ouvira, se

fora o pé de Brenda ou o de Laurence.

Por uma associação natural de idéias, eu

perguntei:

—Onde está Josephine? —Provavelmente com Eustace na sala de

aulas — franziu o rosto. — Eu estou preocupada com Eustace, Charles.

—Por quê?

—Ele anda tão amuado e estranho. Ficou

tão diferente depois que teve a paralisia. Não consigo imaginar o que anda pela cabeça dele. Às vezes parece que nos odeia a todos.

—Provavelmente ele ultrapassará isto tudo. É

apenas uma fase.

—Sim, eu creio que seja. Mas eu me

preocupo muito, Charles.

—Por que, meu coração? —Na verdade, eu acho que papai e mamãe

nunca se preocupam. Eles não se comportam como um pai e uma mãe.

—Talvez isso seja melhor para vocês todos.

Mais crianças sofrem com o zelo excessivo do que o contrário.

—É verdade. Sabe, eu nunca pensei nisso até

voltar do exterior mas eles são um casal esquisito. Papai vivendo propositadamente num mundo obscuro de trilhas históricas e mamãe sempre se divertindo e vivendo suas cenas. Aquela bo-bagem de hoje à tarde foi idéia de mamãe. Ela queria representar uma cena de uma reunião familiar. Ela se aborrece aqui e fica tentando criar um drama.

Por um momento eu tive a fantástica visão

da mãe de Sophia envenenando o velho sogro de maneira suave, apenas para observar um drama em primeira mão e com ela representando o papel principal.

Um pensamento engraçado! Eu o deixei de

lado — mas fiquei um tanto encabulado.

—Mamãe — continuou Sophia — precisa de

que se tome conta dela o tempo inteiro. A gente nunca imagina o que ela pretende fazer.

—Esqueça sua família, Sophia — disse eu

com firmeza.

—Eu adoraria isso mas no momento é muito

difícil. Eu estava feliz no Cairo porque os esquecera a todos.

Eu me lembrava de que Sophia nunca

mencionara seu lar ou seus parentes.

—É por isso que você nunca falava deles? —

perguntei. — Porque você tinha vontade de esquecê-los?

—Eu creio que sim. Nós vivemos sempre,

todos nós, sempre agarrados uns com os outros. Nós... nós gostamos demais uns dos outros. Não somos como essas famílias que se odeiam até a morte. Deve ser horrível mas quase que é pior vivermos sempre presos por sentimentos de afeição.

Ela acrescentou:

—Eu acho que é por isso que eu lhe disse

que nós vivíamos todos juntos numa Casa Torta. Eu não quis dizer torta num sentido de desonestidade. Eu creio que quis dizer é que todos nós não conseguimos crescer e nos tornarmos independentes, responsáveis, íntegros. Nós somos um pouquinho tortos e enrolados.

Eu vi Edith de Haviland esmagando uma

erva daninha no caminho enquanto Sophia acrescentava:

—Como a jitirana...

E de repente, Magda estava conosco —

escancarando a porta, dando gritinhos:

—Meus queridos, por que vocês não

acendem as luzes? Está quase escuro.

E ela apertou os comutadores e as luzes se

acenderam nas paredes e nas mesas, e ela, Sophia e eu puxamos as pesadas cortinas cor-de-rosa e ficamos naquele interior perfumado de flores, e Magda, espichando-se num sofá, falou:

—Que cena incrível, não foi? Como Eustace

estava contrariado! Ele me disse que achou aquilo positivamente indecente! Como esses meninos são engraçados!

Ela suspirou.

—Roger é um amor. Eu adoro quando ele

passa a mão pelos cabelos e começa a chutar as coisas. Não foi um encanto a Edith ter-lhe oferecido a sua parte da herança? Ela estava mesmo disposta a fazer isso, sabem? Não foi apenas um gesto. Mas foi terrivelmente estúpido. Imagine se Philip quisesse fazer a mesma coisa! É claro que Edith faria qualquer coisa pela família! Há algo quase patético no amor de uma solteirona pelos filhos de sua irmã. Qualquer dia desses eu vou querer representar um papel de uma dessas devotadas tias solteironas. Indiscreta, obstinada e devotada.

—Deve ter sido muito duro paria ela

quando sua irmã morreu — disse eu, recusando-me a permitir que a conversa fosse desviada para outro dos papéis das peças de Magda. — Isto é, se ela detestava tanto o velho Leonides.

Magda interrompeu-me.

—Detestava-o? Quem lhe disse isso? Tolice.

Ela estava apaixonada por ele.

—Mamãe! — disse Sophia. —Nem tente contradizer-me, Sophia.

Naturalmente que na sua idade vocês pensam que o amor é somente o de dois jovens bonitões ao luar.

—Ela me disse — disse eu — que sempre o

detestara.

—Provavelmente sim, quando veio para cá.

Ela estava zangada com sua irmã por ter-se casado com ele. Eu diria que havia uma espécie de antagonismo... mas ela estava apaixonada mesmo por ele! Queridos, eu sei do que estou falando! É claro que, como irmã da falecida esposa e tudo o mais, ele não podia casar-se com ela, e eu diria também que ele nunca pensou nisso... e provavelmente ela também não. Ela era bastante feliz tomando conta das crianças e brigando com ele. Mas ela não gostou quando ele se casou com Brenda. Não gostou nem um pouquinho!

—Você e papai também não gostaram —

disse Sophia.

—Não, é lógico que não gostamos! Naturalmente! Mas Edith foi quem mais detestou. Querida, o jeito que eu a vi olhar para Brenda!

—Vamos, mamãe — disse Sophia. Magda dirigiu-lhe um olhar afetuoso e meio

de culpa, um olhar de criança mimada e maliciosa.

Ela continuou a falar, sem perceber que

mudara completamente de assunto:

—Eu resolvi que Josephine precisa ir para

uma escola.

—Josephine? Para uma escola? —Sim. Para a Suíça. Vou cuidar disso

amanhã. Acho que realmente nós devemos tratar do assunto imediatamente. E péssimo para ela estar presenciando estes momentos horríveis. Está-se tornando muito mórbida. O de que ela precisa são outras crianças de sua idade. Vida escolar. Eu sempre pensei assim.

—Vovô não queria que ela fosse para a

escola — disse Sophia lentamente. — Ele era muito contra isto.

—O nosso velhinho querido queria que

todos ficassem sob suas vistas. Muitas pessoas idosas são assim egoístas. Uma criança deve viver entre outras crianças. E a Suíça é tão saudável, com os esportes de inverno, o ar puro, e tantas coisas mais, comida muito melhor do que a daqui!

—Não será difícil ir para a Suíça agora com

as restrições cambiais? — perguntei.

—Tolice, Charles. Há uma espécie de acordo

educacional... uma troca com uma criança suíça... há várias formas. Rudolf Alstir está em Lausanne. Eu vou telegrafar para ele amanhã para arranjar tudo. Nós poderemos enviá-la já no próximo fim da semana!

Magda desamassou uma almofada, sorriu

para nós, foi até a porta, ficou parada um instante olhando para trás de uma maneira encantadora e disse:

—São somente os jovens que importam. E dito por ela, isto foi uma deixa adorável. —Eles sempre vêm em primeiro lugar. E,

queridos, lembrem-se das flores, das gencianas azuis, dos narcisos...

—Em novembro? — perguntou Sophia, mas

Magda já saíra.

Sophia deu um suspiro exasperado. —Realmente! — disse ela. — Mamãe deixa a

gente desesperada! Ela tem essas manias repentinas, envia centenas de telegramas e tudo tem de ser arranjado na última hora. Por que é que Josephine tem de ser mandada para a Suíça assim a toque de caixa?

—Ela tem uma certa razão nesta idéia de

escola. Eu acho que crianças da idade dela farão muito bem a Josephine.

—Vovô não pensava assim — disse Sophia

obstinada.

Eu fiquei ligeiramente irritado. —Minha cara Sophia, você acha que um

velho de mais de oitenta anos seja o melhor juiz para o bem-estar de uma criança?

—Ele era o melhor juiz para cada um daqui

desta casa.

—Melhor que sua tia Edith? —Não, talvez não. Ela era a favor da idéia

da escola. Eu admito que Josephine se tornou uma criança difícil... ela tem o hábito horrível de viver espionando. Mas eu acho que é porque ela gosta de bancar o detetive.

Teria sido apenas pelo bem-estar de

Josephine que Magda tomara aquela decisão repentina? Eu fiquei imaginando. Josephine era surpreendentemente bem informada a respeito dos fatos acontecidos antes do assassinato e que não eram da sua conta. Uma saudável vida escolar, com uma boa quantidade de jogos, certamente lhe faria muito bem. Mas eu me pus a imaginar por que a decisão urgente e repentina de Magda — a Suíça ficava tão longe...