A Casa Torta
Capítulo 3 · Eu Sempre demonstrara um certo interesse
pelas atividades policiais de meu pai, mas não estava preparado para a possibilidade de um interesse direto e pessoal nelas.
Ainda não vira o Velho. Não estava em casa
quando cheguei, e depois de um banho, de fazer a barba e trocar de roupa, eu saíra para me encontrar com Sophia. Quando voltei, Glover me disse que ele estava em seu gabinete.
Estava sentado à escrivaninha, a testa franzida
sobre um monte de papéis. Pôs-se imediatamente de pé quando entrei.
—Charles! Sim senhor! Sim senhor! Faz tanto
tempo!
Nosso encontro, após cinco anos de guerra,
teria desapontado a um francês. Mas na verdade, toda a emoção do reencontro fora acentuada. O Velho e eu nos queríamos bem e nos com-preendíamos perfeitamente.
—Tenho uísque — disse ele. — Peça quando
quiser. Desculpe eu estar ausente quando você chegou aqui. Encontro-me enterrado até as orelhas em trabalho. O diabo de um caso que mal começou ainda.
Recostei-me na cadeira e acendi um cigarro. —Aristide Leonides? — perguntei. As sobrancelhas dele baixaram sobre os
olhos. Atirou-me um olhar rápido, avaliador. Sua voz era polida e dura como o aço.
—O que o faz pensar assim, Charles? —Estou certo, então? —Como veio a saber? —Informações recebidas. O Velho esperou.
—Minhas informações — eu disse — vieram
da própria casa.
—Vamos, Charles, desembuche. —Você pode não gostar. Conheci Sophia
Leonides no Cairo. Apaixonei-me por ela. Vou casar-me com ela. Encontrei-a esta noite e jantamos juntos.
—Jantou com ela? Em Londres? Eu só queria
saber como conseguiu. A família teve ordens... polidamente, é claro, de não sair.
—Isso mesmo. Ela escorregou pelo cano da
janela do banheiro.
Os lábios do Velho contraíram-se por um
instante num sorriso.
—Ela parece ser uma jovem de certos recursos.
—Mas a sua força policial é bem eficiente —
eu disse. — Um tipo simpático, com ar de recruta, seguiu-a ao Mario’s. Devo constar dos relatórios que você recebeu. Um metro e setenta e oito, cabelos castanhos, olhos castanhos, terno azul es-curo de listrinhas etc...
O Velho olhou-me com dureza. —Isto é... sério?
—Sim. É sério, papai. Houve um momento de silêncio. —Você se importa? — perguntei. —Não me teria importado... uma semana
atrás. A família é bem estabelecida... a moça terá dinheiro... e eu conheço você. Sei que não perde a cabeça facilmente. De qualquer modo...
—Sim, papai?
—Pode dar tudo certo, se... —Se o quê?
Se a pessoa certa o matou.
Era a segunda vez naquela noite que eu ouvia
aquela frase. Comecei a me interessar.
—Mas quem é a pessoa certa? Ele me dirigiu um olhar penetrante. —O que é que você sabe do caso? —Nada.
—Nada? — pareceu surpreso. — A moça não contou?
—Não. Ela disse que era melhor eu ver
tudo... de um ponto de vista próprio.
—Eu gostaria de saber a razão disto. —Não é óbvio?
—Não, Charles. Não creio que seja. Andou pela sala, a testa franzida. Acendera
um charuto e o charuto se apagara. Isso mostrava como ele estava inquieto.
—O que sabe você da família? — perguntou
de supetão.
—Bolas! Sei que havia o velho e uma porção
de filhos e netos e cunhados. As ramificações não ficaram claras na minha cabeça — fiz uma pausa e depois disse: — Seria melhor você me dar uma idéia, papai.
—Sim — disse e sentou-se. — Muito bem,
então... começarei do princípio... com Aristide Leonides. Ele chegou à Inglaterra quando tinha vinte e quatro anos.
—Um grego de Smyrna. —Também sabia disto? —Sim, mas é tudo quanto sei. A porta abriu-se e Glover entrou para dizer
que o Inspetor-Chefe Taverner estava ali.
—Ele está encarregado do caso — disse meu pai. — Convém mandá-lo entrar. Andou investigando a família. Sabe mais a respeito do que eu.
Perguntei se a polícia local convocara a
Scotland Yard.
—A jurisdição é nossa. Swinly Dean está na
Grande Londres.
Fiz um aceno quando o Inspetor-Chefe
Taverner entrou na sala. Conhecia Taverner de muitos anos atrás. Ele me cumprimentou com cordialidade e congratulou-se com a minha volta.
—Estou pondo Charles dentro do quadro —
disse o Velho. — Corrija-me se eu errar, Taverner. Leonides chegou a Londres em 1884. Instalou um pequeno restaurante no Soho. Deu certo. Ele partiu para outro. Em breve possuía sete ou oito. Todos rendiam dinheiro imediatamente.
—Jamais cometeu um erro em tudo quanto
se meteu — disse o Inspetor Taverner.
—Tinha um instinto natural — disse meu
pai. — Por fim, estava por trás de quase todos os famosos restaurantes de Londres. Entrou então no negócio de fornecimento para clubes e hotéis, em grande escala.
—Também andou metido em muitos outros
negócios — disse Taverner. — Comércio de roupas usadas, lojas de jóias baratas, um monte de coisas. Naturalmente — acrescentou, pensativo — ele sempre foi um espertalhão.
—Quer dizer que era desonesto? Taverner sacudiu negativamente a cabeça. —Não, não chego a tanto. Esperto, sim...
mas não trapaceiro. Nunca fez nada fora da lei. Mas era o tipo de sujeito que pensava em todas as formas de tangenciar a lei. Embolsou uma fortuna dessa maneira na última guerra, embora fosse um velho. Nada do que fez era ilegal, mas sempre que se envolvia numa coisa, precisava-se regularizar uma lei a respeito, se entende o que eu quero dizer. E quando a lei chegava, ele já havia passado a outra atividade.
—Não parece um caráter dos mais atraentes
— comentei.
—É engraçado, mas ele era simpático. Tinha
personalidade. Sentia-se a personalidade do homem. Afora isso, nada mais possuía digno de nota. Um gnomo... um Sujeitinho horroroso mas magnético. As mulheres sempre caíram por ele.
—Fez um casamento surpreendente — disse
meu pai. — Desposou a filha de um nobre rural, um M.F.H1
Ergui as sobrancelhas.
—Dinheiro?
O Velho abanou a cabeça.
—Não, foi um caso de amor. Ela o
conheceu durante as compras para o banquete do casamento de uma amiga e se apaixonou. Seus pais deram o contra mas ela estava determinada a tê-lo. Já disse, o homem tinha mesmo charme... algo exótico e dinâmico que a atraiu. E ela andava entediada com os cavalheiros de sua própria classe.
—E o casamento foi feliz? —Muito feliz, por estranho que pareça.
Naturalmente seus respectivos amigos não se misturaram (naquela época o dinheiro não sobrepujava ainda as distinções de classes), mas isto não impediu de serem felizes nem pareceu aborrecê-los. Viviam sem amigos. Ele construiu uma casa suntuosa em Swinly Dean, moraram ali e tiveram oito filhos.
—Na verdade, uma autêntica crônica familiar. —O velho Leonides foi muito esperto ao
escolher Swinly Dean. O lugar mal começava a
1 Master of Foxhounds — Mestre de Caça à Raposa (N. do T.). entrar na moda. O segundo e o terceiro campos de golfe ainda não tinham sido construídos. Havia por lá uma mistura de Velhos Habitantes Tradicionais, apaixonados pelos seus jardins, de que muito se orgulhavam e que simpatizaram com a Sra. Leonides, e os ricaços da cidade que desejavam entrar em contato com Leonides; assim, o casal pôde escolher seus amigos. Foram perfeitamente felizes, acredito, até que ela morreu de pneumonia em 1905.
—Deixando-o com oito filhos? —Um morreu na infância. Dois foram
mortos na Primeira Guerra. Uma filha casou-se e foi viver na Austrália, onde faleceu. Uma filha solteira morreu num acidente de automóvel. Outra, faleceu há um ou dois anos. Ainda há dois vivos — o filho mais velho, Roger, que é casado mas não tem descendência, e Philip, que desposou uma atriz famosa e tem três filhos — sua Sophia, Eustace e Josephine.
—E vivem todos nessa... como é mesmo?...
Três Oitões?
—Sim. A casa de Roger Leonides foi
bombardeada no começo da guerra. Philip e sua família passaram a morar lá em 1938. E há uma tia mais idosa, Miss de Haviland, irmã da primeira Sra. Leonides. Ela aparentemente sempre detestou o cunhado, mas quando a irmã morreu julgou do seu dever aceitar o convite para morar com ele e cuidar das crianças.
—É uma pessoa que cumpre à risca seus
deveres — disse o Inspetor Taverner. — Mas não costuma mudar de opinião acerca dos outros. Sempre desaprovou Leonides e seus métodos...
—Bem — disse eu, — a casa parece bem
movimentada. Na sua opinião, quem o assassinou?
Taverner sacudiu a cabeça.
—É cedo — disse, — muito cedo para se saber. —Vamos Taverner — animei-o. — Aposto
como você já sabe quem foi. Não estamos no tribunal, homem!
—Não — disse Taverner, abatido. — E
talvez lá não cheguemos.
—Quer dizer que talvez ele não tenha sido
assassinado?
—Não é isto. Ele foi assassinado, sim.
Envenenado. Mas você sabe como são esses casos de envenenamento. Muito difícil recolher a prova. Coisa muito complicada. Todas as possibilidades parecem apontar numa direção...
—É isto que eu tentava dizer. Você já tem
tudo arrumado na cabeça, não tem?
—Trata-se de uma probabilidade muito forte. Uma dessas coisas óbvias. O palco perfeito. Mas eu não sei ainda, creia. É complicado.
Olhei esperançoso para o Velho. Ele disse devagar:
—Em casos de homicídio, como você sabe,
Charles, o óbvio é geralmente a solução correta. O velho Leonides casou-se outra vez, há dez anos.
—Aos setenta e cinco? —Sim, com uma moça de vinte e quatro anos. Assobiei.
—Que espécie de moça? —Uma moça empregada numa casa de chá.
Respeitável, em todos os sentidos... de boa aparência, com um jeitinho anêmico, apático.
—E ela é a possibilidade forte? —É o que eu digo — falou Taverner. — Ela
tem apenas trinta e quatro anos, agora... uma idade perigosa. Gosta de vida fácil. E há um rapaz na casa. Professor dos netos. Não esteve na guerra. Caso de coração fraco, ou coisa que o valha. São íntimos, unha-e-carne.
Olhei-o pensativamente. Tratava-se sem
dúvida de um velho quadro familiar. A mistura de sempre. E a segunda Sra. Leonides era, conforme meu pai acentuara, muito respeitável. Em nome da respeitabilidade muitos crimes tinham sido come-tidos.
—Com que foi? — perguntei. — Arsênico? —Não. Ainda não recebemos o laudo do
perito mas o médico acha que é eserina.
—Um pouco incomum, não é? Deve ser fácil
descobrir o comprador.
—Não neste caso. Pertencia à vítima. Um
colírio.
—Leonides sofria de diabete — disse meu
pai. — Tomava injeções regulares de insulina. A insulina vem em frasquinhos com tampa de borracha. Uma agulha hipodérmica é enfiada no tampão de borracha e a injeção preparada.
Adivinhei o que se seguiria.
—E não havia insulina no frasco, e sim eserina? —Exato.
—E quem lhe aplicou a injeção? — perguntei. —A esposa.
Compreendi então o que Sophia quisera
dizer ao mencionar a “pessoa certa”.
Perguntei:
—A família dá-se bem com a segunda Sra.
Leonides?
—Não. Ao contrário, acho que mal se falam. Tudo parecia mais claro, cada vez mais
claro. Todavia o Inspetor Taverner também dava mostras claras de insatisfação.
—Por que não está satisfeito? — perguntei-lhe. —Se ela cometeu o crime, Sr. Charles, teria
sido muito fácil pôr no lugar depois um frasco autêntico de insulina. De fato, se é a culpada, não posso imaginar por que cargas d’água não agiu assim.
—Sim, parece lógico. Havia muita insulina
ao alcance?
—Ah, uma porção de frascos cheios e
vazios. E se ela houvesse recorrido à insulina, haveria uma possibilidade em dez de o médico identificar o veneno. Sabe-se muito pouco das aparências post-mortem de um envenenamento por eserina. Mas como veio a se examinar a insulina (para o caso de ter sido administrada uma dose errada, ou algo no gênero), não se tardou a constatar que não era insulina.
—Neste caso, parece — disse eu,
pensativamente, — que a Sra. Leonides ou foi muito estúpida... ou talvez muito esperta.
—Quer dizer...
—Que ela pode ter contado com a sua
conclusão de que ninguém poderia ser tão estúpido a este ponto... como ela parece ter sido. Quais são as alternativas? Há outros... suspeitos?
O Velho respondeu calmamente: —Praticamente qualquer pessoa da casa
poderia ter cometido o crime. Havia sempre um bom estoque de insulina... pelo menos, para uns quinze dias. Um dos vidros podia ter sido falsificado e devolvido ao lugar, na certeza de que viria a ser usado no devido tempo.
—E alguém tinha, mais ou menos, acesso
aos frascos?
—Não estavam trancados. Eram guardados
numa prateleira especial do armário de remédios, no banheiro do Sr. Leonides. Todos da casa entravam e saíam dali livremente.
—Qualquer motivo em especial? Meu pai suspirou.
—Meu caro Charles, Aristide Leonides era
fabulosamente rico! Gastava muito dinheiro com a família, é verdade, mas talvez alguém tenha querido mais.
—Mas quem deveria querer mais seria a
atual viúva.
O admirador dela tem dinheiro?
—Não. É pobre como um rato de igreja. Alguma coisa estalou na minha cabeça.
Lembrei-me da citação de Sophia. De repente recordei o verso inteiro da canção de ninar:
Era uma vez um homem torto que andou por uma
estrada torta
E achou uma moeda torta junto a uma porteira torta Ele tinha um gato torto que caçou um rato torto E viveram todos juntos numa casinha torta.
Eu disse para Taverner:
—Qual a impressão que ela causa... a Sra.
Leonides? Que pensa dela?
Ele respondeu vagarosamente: —Difícil dizer... muito difícil mesmo. Ela
não é fácil. Muito quieta... de modo que não se sabe em que pensa. Mas gosta de vida mansa, isso eu chegaria a jurar. Faz-me lembrar um gato, um grande gato preguiçoso, ronronando... Não que eu tenha alguma coisa contra os gatos. Gatos são gatos...
Suspirou.
— O que queremos — disse — são provas. Sim, pensei, todos nós queremos provas de que
a Sra. Leonides envenenou o marido. Sophia quer, eu quero, e o Inspetor-Chefe Taverner também quer.
Então, tudo seria formidável! Mas Sophia não tinha certeza, eu não tinha
certeza e creio que o Inspetor-Chefe Taverner tampouco tinha certeza...
Capítulo 4
NO DIA SEGUINTE fui a Três Oitões com
Taverner.
Minha posição era das mais curiosas. Melhor
dizendo, muito pouco ortodoxa. Mas o Velho nunca primou em ser ortodoxo.
De certo modo eu tinha uma qualificação.
Trabalhara com a Divisão de Espionagem da Yard, durante os primeiros dias da guerra.
Naturalmente isto agora era bastante
diferente — mas minhas atuações anteriores conferiam-me, de certa forma, uma posição oficial.
Meu pai dissera:
—Se quisermos mesmo resolver este caso,
temos de introduzir um amador. Precisamos saber tudo a respeito do pessoal da casa. Temos de conhecê-los por dentro... não por fora. Você é o homem capaz de encarregar-se disto.
Não gostei. Atirei a ponta de cigarro na
lareira enquanto dizia:
—Sou um espião da polícia? É isso? Tenho
de extrair informações confidenciais de Sophia, a quem amo e que também me ama e confia em mim, segundo creio?
O Velho tornou-se irritado. Respondeu com
voz cortante:
—Pelo amor de Deus, não veja as coisas por
este prisma! Para começar, você não acredita que sua moça assassinou o avô, acredita?
—Claro que não. A idéia é inteiramente
absurda!
—Muito bem... também não pensamos nisto.
Ela esteve ausente alguns anos, sempre manteve boas relações com ele. Recebe uma pensão generosa e ele ficaria encantado, eu diria, se chegasse a saber do compromisso de vocês. Sem dúvida da ria uma linda festa de casamento. Não suspeitamos dela. Por que iríamos suspeitar? Mas fique certo de uma coisa: se o crime não se esclarecer, a moça não vai querer casar-se com você. A julgar pelo que me disse, eu tenho certeza disto. E veja bem, que este é o tipo de crime que talvez não se esclareça nunca. Estamos propensos a crer que a esposa e o jovem admirador agiram de parceria — mas provar isto são outros quinhentos. Nem sequer existe um caso para se levar avante uma investigação. E a menos que obtenhamos provas evidentes contra ela, sempre perdurará uma dúvida vexatória. Você percebe, não é?
Sim, eu percebia.
O Velho prosseguiu calmamente: —Por que não dizer-lhe, então? —Quer dizer... perguntar a Sophia se eu... —
parei.
—Sim, sim... — o Velho acenava
vigorosamente a cabeça. — Não lhe estou pedindo para entrar sub-repticiamente, sem contar à moça o que pretende. Veja o que ela tem a dizer a respeito.
E assim, lá fui eu no dia seguinte, com o
Inspetor Taverner e o detetive Sargento Lamb para Swinly Dean.
Um pouco depois dos campos de golfe,
viramos em uma entrada onde eu imaginei que antes da guerra deveria ter havido um imponente portão duplo. Patriotismo ou uma requisição forçada haviam levado as grades dos portões. Subimos uma longa alameda em curva, cercada de rododendros e chegamos a um pátio encascalhado, em frente da casa.
Era incrível! Imaginei por que teriam
chamado a casa de Três Oitões. Onze Oitões seria mais apropriado! E coisa curiosa, a casa dava a impressão estranha de ser mesmo torta e eu imaginei o porquê. Tinha o tipo mesmo de um cha-lé, mas era um chalé de proporções desmedidas. Como se olhássemos para uma casa de campo através de uma lente de aumento. As vigas oblíquas, os oitões, os frontões... tratava-se de uma casinha torta que crescera como cogumelo em uma noite!
Entretanto eu percebi a intenção. Era a idéia
que um grego — gerente de restaurante — fazia da Inglaterra. Destinava-se a ser uma residência típica inglesa, mas fora construída com as proporções de um castelo. Fiquei pensando o que a primeira Sra. Leonides achara da casa. Sem dúvida ela não fora consultada nem vira a planta. Provavelmente a casa fora uma pequena surpresa de seu exótico marido. Imaginei se ela dera de ombros ou sorrira.
Aparentemente ela vivera ali muito feliz. —Um tanto apavorante, não é? — disse o
Inspetor Taverner. — Naturalmente o velho empenhou-se a fundo. Transformou-a em três casas distintas a bem dizer, com cozinhas e tudo o mais. Dentro, tudo é da melhor categoria, mobiliada como um hotel de luxo.
Sophia apareceu à porta da frente. Estava
sem chapéu e usava uma blusa verde e uma saia de tweed.
Quase caiu para trás quando me viu. —Você! — exclamou. —Sophia — disse eu, — preciso falar com você. Onde podemos ir?
Por um instante ela hesitou mas depois
voltou-se e disse:
—Venha.
Passamos pelo gramado. Tinha-se uma bela
vista do primeiro campo de golfe de Swinly Dean, que se distanciava até um bosque de pinheiros numa colina, e além dele, até perder-se no campo enevoado.
Sophia conduziu-me a um jardim com
canteiros de pedras, um pouco abandonado, onde havia um banco de madeira rústico, bastante desconfortável, e ali nos sentamos.
—E então? — perguntou.
A voz não era encorajadora.
Falei da missão que me fora atribuída — contei
tudo.
Ela ouviu muito atenta. Seu rosto não deixou
transparecer o que estava pensando, mas quando parei afinal, suspirou. Foi um suspiro profundo.
—Seu pai — disse — é um homem esperto. —O Velho tem suas opiniões. Eu acho que é
uma idéia detestável, mas...
Ela me interrompeu.
— Não, nada disso. A idéia está longe de ser
detestável. É a única coisa que pode dar certo. Seu pai, Charles, sabe exatamente o que se passa na minha cabeça. Muito melhor do que você.
Com uma veemência súbita e quase
desesperadora, entrelaçou uma mão na outra.
—Tenho de saber a verdade. Preciso saber. —Por nossa causa? Mas, querida... —Não apenas por nossa causa, Charles.
Preciso saber em benefício de minha própria paz de espírito. Olhe, Charles, não lhe disse ontem à noite... mas a verdade é que... eu estou com medo.
—Medo?
—Sim. Medo... medo... medo. A polícia
pensa, seu pai pensa, todo mundo pensa que foi Brenda.
—As probabilidades... —Sim, é claro que as probabilidades são
inúmeras. É possível. Mas quando eu digo “Brenda provavelmente o matou” torno-me consciente de que isso não passa de um desejo. Porque eu realmente não acredito.
—Não acredita? — perguntei devagar. —Não sei. Você tomou conhecimento do
caso lá fora, como eu queria. Agora, eu o mostrarei de dentro para fora. Eu simplesmente não creio que Brenda seja a espécie de pessoa... o tipo de pessoa capaz de fazer algo que lhe traga qualquer perigo. Ela é muito cuidadosa consigo mesma.
—E que me diz do rapaz? Laurence Brown. —Laurence é um coelho assustado. Não tem
tutano.
—Nunca se sabe. —Sim, realmente nunca se sabe ao certo, não
é mesmo? As pessoas são capazes de surpresas terríveis. Forma-se uma impressão acerca de alguém e ela às vezes resulta totalmente errada. Nem sempre... mas às vezes, acontece. De qualquer modo, Brenda — ela sacudiu a cabeça — sempre agiu com tanta uniformidade! E o que chamaria o tipo indicado para um harém. Gosta de ficar sentada, comer balas, usar roupas e jóias bonitas, ler novelas baratas e ir ao cinema. Sei que é esquisito o que vou dizer, levando-se em conta que ele tinha oitenta e cinco anos, mas creio que realmente o Avô a impressionava. Ele tinha força, sabe? Acho que podia fazer com que uma mulher se sentisse... bem, como uma rainha... a favorita do sultão! Penso... aliás sempre pensei... que ele fez Brenda sentir-se uma pessoa muito romântica. Sempre foi um sábio com as mulheres. Trata-se de uma espécie de arte... e não se perde o jeito para isto, apesar da idade.
Deixei o problema de Brenda por um
instante e aferrei-me a uma frase de Sophia que me preocupara.
—Por que você disse que tinha medo? Sophia estremeceu ligeiramente e apertou as
mãos.
—Porque é a verdade — respondeu em voz
baixa. — E muito importante, Charles, que eu o faça compreender isto. Olhe, somos uma família muito estranha... Há muita crueldade em nós... várias formas de crueldade. Isso é o que mais me aflige. As diversas formas de crueldade.
Ela deve ter percebido a incompreensão em
meu rosto. Prosseguiu falando com empenho:
—Vou tentar ser clara. O Avô, por exemplo.
Uma vez, quando nos falava de sua meninice em Smyrna, mencionou, de modo casual, que apunhalara dois homens. Houve alguma rixa, motivada sem dúvida por um insulto imperdoável... não sei bem... mas a coisa aconteceu com tanta naturalidade. Ele esquecera praticamente o incidente. Mas era uma coisa tão es-tranha para ser contada mesmo casualmente na Inglaterra!
Concordei com um aceno de cabeça. —Este é um dos tipos de crueldade a que me referi — continuou Sophia. — Agora, minha avó. Mal me lembro dela, mas ouvi muita coisa a seu respeito. Creio que ela possuía a impiedade que deriva da total falta de imaginação. Todos es-ses ancestrais caçadores de raposas... e os velhos generais do tipo “só matando!”. Cheios de retidão e arrogância, sem um pingo de medo em assumir responsabilidades em questões de vida e de morte.
—Isso não parece um tanto forçado? —Sim, acho que sim... mas senti um pouco
de medo dessas coisas. Das pessoas cheias de retidão, porém cruéis ao mesmo tempo. Depois, temos a minha mãe... uma atriz. Uma pessoa adorável, mas despida de qualquer senso de proporções. Uma dessas egoístas inconscientes que só conseguem enxergar os problemas na medida em que estes as afetam. Às vezes é de assustar, sabe? Temos Clemency, a mulher do tio Roger. Ela é cientista... vive empenhada em qualquer descoberta muito importante. Também é uma pessoa impiedosa, de uma forma impessoal, a sangue-frio. O oposto do tio Roger. Este é a pessoa mais bondosa e amável do mundo mas possui um temperamento terrível. Quando o sangue lhe ferve, não sabe o que faz. E há ainda meu pai...
Ela fez uma longa pausa.
—Meu pai — disse lentamente — é quase
excessivamente bem controlado. Nunca se sabe em que pensa. Jamais demonstra uma emoção. Provavelmente trata-se de uma auto defesa inconsciente contra as orgias emotivas de minha mãe, mas às vezes isto também me preocupa um pouco.
—Minha querida — disse eu, — você está-se
preocupando sem necessidade. Acabará por concluir que todos, talvez, sejam capazes de cometer um assassinato.
—Creio que isto é exato. Até eu. —Você não!
—Sim, Charles, não me transforme em
exceção. Acho que eu poderia matar alguém... — ficou calada um momento e depois acrescentou: — Mas se o fizesse, teria de ser por um motivo que realmente valesse a pena!
Ri. Não pude evitá-lo. E Sophia também riu. —Talvez eu seja uma tola — confessou —
mas temos de descobrir a verdade sobre a morte do Avô. É absolutamente necessário. Se ao menos fosse Brenda...
Senti, de súbito, uma certa pena de Brenda
Leonides.
Capítulo 5
NA ALAMEDA surgiu em nossa direção
uma figura alta, caminhando com vivacidade. Trazia um gasto chapéu de feltro, uma saia informe e um suéter pesadão.
—A tia Edith — disse Sophia. A figura parou uma ou duas vezes,
inclinando-se para as flores, depois avançou para nós. Levantei-me.
—Este é Charles Hayward, tia Edith. Minha
tia, Srta. de Haviland.
Edith de Haviland era uma mulher de cerca
de setenta anos. Tinha uma cabeleira grisalha e revolta, o rosto enrugado e um olhar agudo e penetrante.
— Como vai? Já ouvi falar a seu respeito.
Voltou do Oriente. E seu pai, como vai?
Um tanto surpreso, eu respondi que ele ia bem. —Eu o conheci quando era ainda garoto —
disse Edith de Haviland. — Conheci também sua mãe. Você se parece muito com ela. Veio para nos ajudar... ou tem outro motivo?
—Eu espero ser de alguma ajuda — disse
meio encabulado.
Ela fez que sim com a cabeça. — Nós estamos mesmo precisando de ajuda.
A casa está enxameando de policiais. Aparecem quando menos se espera. Não fui com a cara de alguns. Um rapaz que freqüentou uma escola decente não devia entrar para a polícia. Outro dia vi o filho de Moyra Kinoul dirigindo o trânsito lá em Marble Arch. A gente fica sem saber onde está.
Virou-se para Sophia:
—Nannie está chamando você, Sophia. Peixe. —Ora! — disse Sophia. — Eu vou telefonar
para resolver.
Dirigiu-se rapidamente para a casa. Edith
de Haviland voltou-se e seguiu-a lentamente. Eu a acompanhei.
—Não sei o que nós faríamos sem as
Nannies — disse ela. — Quase todos têm uma velha Nannie em casa. Elas sempre voltam, lavam, passam, cozinham e arrumam a casa. São fiéis. Esta nossa fui eu mesma quem escolheu... há muitos anos.
Ela se abaixou e arrancou com raiva um
matinho no meio de um canteiro.
—É detestável esta jitirana! A pior das
pragas. Abafa e se enrola nas plantas e não se pode arrancá-la direito. Espalha-se por todos os lados!
Com o calcanhar ela esmoeu violentamente
no chão o raminho verde.
—Este negócio está cheirando mal, Charles
Hayward — disse e olhou na direção da casa. — O que a polícia está pensando do caso? Acho que eu não devia perguntar isto. Parece tão estranho pensar que Aristide foi envenenado. Parece estranho até pensar que ele morreu. Eu não gostava dele... — nem um pingo! Mas não consigo acostumar-me com a sua morte... Faz a casa parecer tão... vazia.
Eu não disse nada. Durante a sua breve
fala, Edith de Haviland parecia recordar o passado.
— Estive pensando hoje de manhã... eu
moro aqui há tanto tempo. Mais de quarenta anos. Vim para cá quando minha irmã morreu. Ele pediu. Sete crianças... e a mais nova apenas com um ano de idade... Não podia deixar que elas fos-sem educadas por um gringo ordinário, podia? Foi um casamento inadmissível, é claro. Eu sempre imaginei que Márcia tivesse sido enfeitiçada. Um Sujeitinho vulgar e horroroso! Ele me deu carta branca... isto eu tenho de reconhecer. Enfermeiras, governantas, escolas. E uma alimentação sadia e simples para as crianças... não aqueles pratos apimentados de arroz que ele costumava comer.
—E desde então a senhora está aqui? —Sim. É estranho de certa forma... Eu creio
que podia ter ido embora depois que as crianças cresceram e se casaram... Acho que na verdade eu me deixei interessar pelo jardim. E depois foi Philip. Se um homem se casa com uma atriz não deve esperar uma vida caseira. Não sei por que as atrizes têm filhos. Assim que os bebês nascem elas saem correndo para representar em Edimburgo ou em outro lugar ainda mais distante. Philip fez a coisa mais sensata que pôde: mudou-se para cá com seus livros.
—O que é que Philip Leonides faz? —Escreve livros. Nunca soube por quê.
Ninguém quer saber de lê-los. São todos sobre obscuros detalhes históricos. Você nunca ouviu falar sobre eles, ouviu?
Eu tive que admitir que não. —Dinheiro demais, é isto o que ele tem —
continuou ela. — A maior parte das pessoas devia deixar de ser excêntrica e trabalhar para ganhar a vida.
—Ele recebe dinheiro pelos livros? —É claro que não. Parece que é uma
grande autoridade em certos períodos históricos e tudo o mais. Mas não tem necessidade de vender seus livros. Aristide garantiu-lhe uma renda de cem mil libras... algo assim louco! Para evitar os im-postos de herança Aristide tornou-os todos independentes financeiramente. Roger dirige a Associação dos Fornecedores. Sophia tem uma belíssima renda. O dinheiro das crianças está depositado em nome delas.
—Então nenhum deles tinha um interesse
direto em sua morte?
Ela me lançou um olhar estranho. —E lógico que todos tinham. Todos
ganharão mais dinheiro. Mas teriam conseguido mais dinheiro se quisessem. Bastava pedir.
—A senhora tem idéia de quem o teria
envenenado, Srta. de Haviland?
Ela respondeu categórica:
—Não, eu não tenho idéia. E isto me
aborrece muito! É desagradável pensar que temos um Borgia solto pela casa. Eu suponho que a polícia vai jogar a culpa em cima da pobre Brenda.
—A senhora acha que eles estarão certos se
fizerem isto?
—Também não posso dizer nada. Ela
sempre me pareceu uma moça tola e vulgar... muito convencional. Não seria a minha idéia de uma envenenadora. Entretanto, é uma mulher jovem, de vinte e quatro anos que se casa com um velho de quase oitenta — está na cara que ela fez isto por dinheiro. Se as coisas corressem normalmente ela esperava tornar-se uma viúva rica muito em breve. Mas Aristide era um velho excep-cionalmente forte. A diabete dele não estava piorando. Pelo jeito, ele ia viver cem anos. Vai ver que ela cansou de esperar.
—Neste caso... — eu comecei mas calei-me. —Neste caso — disse ela vivamente, — tudo
está mais ou menos certo. Uma publicidade desagradável, é claro. Mas afinal de contas ela não faz parte da família.
—A senhora não tem outras idéias? —Que outras idéias eu poderia ter? Eu fiquei pensando. Calculava que por baixo
daquele chapéu de feltro surrado havia mais do que eu imaginava.
Por trás daquele discurso feito aos arrancos,
havia — calculei eu — um cérebro muito vivo trabalhando. Por um breve instante eu cheguei mesmo a imaginar se não fora a própria Edith de Haviland quem envenenara Aristide Leonides...
Não me pareceu uma idéia assim tão
absurda; No fundo de meus pensamentos eu ainda via a maneira vingativa como ela esmagara o raminho de jitirana no chão com o calcanhar.
Lembrei-me da palavra que Sophia
empregara. Crueldade.
Dei uma olhada de esguelha para Edith de
Haviland.
Se houvesse uma razão que valesse a pena!...
Mas no parecer de Edith de Haviland qual seria a razão que valeria a pena?
Para saber disso eu precisava conhecê-la
melhor.