A Casa Torta

Agatha Christie · Capítulo 17 de 21

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A Casa Torta

Capítulo 23 · Eu Não Via Meu pai já há alguns dias.

Encontrei-o ocupado com outros problemas diferentes do caso Leonides, e saí à procura de Taverner.

Taverner estava aproveitando um tempinho

livre e aceitou meu convite para sairmos e tomarmos uma bebida. Eu dei-lhe os parabéns por ter desvendado o caso e ele aceitou-os, mas sua maneira estava longe de ser triunfante.

—Bem, tudo acabou — disse ele. — Nós

conseguimos um processo. Ninguém pode negar que nós conseguimos um processo.

—Você acha que eles vão ser condenados? —Impossível dizer. A evidência é

circunstancial... é quase sempre nos crimes de morte... não pode deixar de ser. Tudo depende muito da impressão que eles causem ao júri.

—Até onde vão as cartas? —A primeira vista, Charles, elas são terríveis.

Há referências à vida futura, juntos, quando o marido dela estiver morto. Frases como — “não será por muito tempo agora”. Veja bem, que o advogado de defesa vai tentar virar isso ao contrário — que o marido era tão idoso que é claro que realmente eles esperavam que ele morresse. Não há nenhuma menção ao envenenamento... assim por escrito... mas há algumas passagens que poderiam ter este sentido. Depende do juiz que conseguirmos. Se for o velho Carberry eles estão fritos. Ele é sempre muito cheio de história contra os amores ilícitos. Suponho que eles vão pegar Eagles ou Humphrey Kerr para a defesa. Humphrey é magnífico para esses casos mas ele gosta de um galante passado de guerras ou algo no gênero para ajudá-lo. Um objetor de consciência vai aleijar o seu estilo. A questão é: será que o júri vai gostar deles? A gente nunca sabe o que eles têm na cabeça. Sabe, Charles, aqueles dois não são dois tipos simpáticos. Ela é uma mulher bonita, que se casou com um homem muito velho por seu dinheiro e Brown é um objetor de consciência neurótico. O crime é tão familiar... tão de acordo com o padrão, que a gente não pode mesmo acreditar que eles não o tenham cometido. É claro, eles podem resolver que foi ele quem fez tudo e que ela não sabia de nada... ou por outro lado, que foi ela quem fez tudo e que ele é que não sabia de nada... ou que talvez os dois tenham agido juntos.

—E o que é que você acha? — perguntei.

Ele me olhou com uma cara sem expressão. —Eu não acho nada. Eu entreguei os fatos

para o Promotor Público e foi decidido que havia lugar para um processo. Foi tudo. Eu cumpri meu dever e estou por fora. Agora você já sabe, Charles.

Mas eu não sabia. Via não sei por que razão

que Taverner não estava satisfeito.

Foi somente uns três dias depois que eu me

abri com meu pai. Ele próprio nunca comentara o caso comigo. Havia uma certa barreira entre nós — e eu pensava que sabia a razão. Mas eu precisava quebrar a barreira.

—Nós precisamos rever esse caso — disse eu.

— Taverner não está convencido de que foram aqueles dois que fizeram isso... e o senhor também não está satisfeito.

Meu pai balançou a cabeça. Disse o mesmo

que Taverner já me dissera:

—Não está mais em nossas mãos. Há um

processo a responder. Quanto a isto não há mais dúvida.

—Mas o senhor não acha, nem Taverner,

que eles sejam os culpados, não é?

—Isto cabe ao júri decidir. —Pelo amor de Deus — disse eu, — não me

enrole com essa terminologia técnica. O que o senhor pensa... ambos... pessoalmente?

—A minha opinião pessoal não é melhor do

que a sua, Charles.

—É, sim. O senhor tem mais experiência. —Então eu serei honesto com você. Eu

simplesmente... não sei!

—Eles podem ser os culpados? —Oh, sim.

—Mas o senhor não tem certeza de que sejam? Meu pai deu de ombros.

—Como se pode ter certeza? —Não se esquive às minhas perguntas, papai.

O senhor teve certeza em outras vezes, não teve? Certeza absoluta? Nenhuma dúvida em sua mente?

—Algumas vezes, sim. Nem sempre. —Eu pediria a Deus que tivesse certeza desta

vez.

—Eu também.

Ficamos em silêncio. Eu estava pensando

naquelas duas figuras flutuando pelo jardim na hora do crepúsculo. Sozinhos, perseguidos e amedrontados. Eles tiveram medo desde o início. Isso não mostraria uma consciência culpada?

Mas eu mesmo me respondi: Não

necessariamente. Ambos, Brenda e Laurence, tinham medo da vida — não tinham confiança em si próprios, em suas habilidades para evitar o perigo e a derrota, e só viam — claramente demais — o exemplo de seus amores ilícitos que possivelmente os envolveria a qualquer momento.

Meu pai falou e sua voz era grave e gentil: —Vamos, Charles — disse ele, — encaremos

os fatos. Você ainda tem na cabeça que é um dos membros da família Leonides o verdadeiro culpado, não é?

—Não de verdade. Eu apenas imagino... —Você pensa assim. Pode estar errado, mas

você pensa assim.

—Sim — eu disse. —Porquê?

—Porque... — fiquei pensando sobre isto,

tentando ver as coisas com clareza, pondo minhas idéias em dia... — Porque... (sim, era isto!) porque eles mesmos pensam assim!

—Eles mesmos pensam? Isso é interessante.

Isso é muito interessante. Você quer dizer que eles suspeitam uns dos outros, ou que talvez mesmo saibam quem foi que fez aquilo?

—Eu não tenho certeza — disse eu. — Tudo

está muito enevoado e confuso. Eu penso... assim por alto... que eles estão tentando esconder a verdade de si próprios.

Meu pai fez que sim com a cabeça. —Roger não — disse eu. — Roger acredita

piamente que foi Brenda e de todo o coração ele quer que ela seja enforcada. É... é um alívio estar-se perto de Roger porque ele é sincero e positivo, e não tem nada por detrás de seus pensamentos.

—Mas os outros são cheios de justificativas,

cheios de dedos... pedem-me demais que eu garanta a Brenda a melhor defesa... que todas as vantagens possíveis lhe sejam dadas... por quê?

Meu pai respondeu:

—Porque eles não acreditam realmente, no

fundo de seus corações, que ela seja a culpada... Sim, parece lógico.

Então ele falou calmamente:

—Quem poderia ter sido? Você falou com

todos eles? Qual é o melhor palpite?

—Eu não sei — disse eu. — E isso está-me

deixando maluco. Nenhum deles preenche as “características de um assassino”; entretanto, eu sinto... eu sinto mesmo... que um deles é um assassino.

—Sophia?

—Não! Por Deus do Céu! Não! —A possibilidade está em sua mente, Charles...

sim, está, não queira negar. E potencialmente mais ainda porque você não quer dar o braço a torcer. E sobre os outros? Philip?

—Somente pelo mais fantástico dos motivos. —Motivos podem ser fantásticos... ou

absurdamente insignificantes. Qual é o motivo dele?

—Ele tem um ciúme terrível de Roger...

sempre teve, a vida inteira. A preferência de seu pai por Roger deixou Philip fora de si. Roger estava próximo à falência, e então o velho soube de tudo. Ele prometeu reerguer Roger novamente. Suponhamos que Philip tenha ouvido isso. Se o velho morresse naquela noite não havia ajuda para Roger. Roger seria derrotado de vez. Oh! Eu sei que é um absurdo...

—Oh, não, não é. É fora do normal mas

acontece. É humano. E Magda?

—Ela é muito infantil. Ela... ela não percebe

a dimensão de nada. Mas eu não pensaria duas vezes que ela estivesse envolvida se ela não tivesse querido enviar Josephine a toda pressa para a Suíça. Eu não pude deixar de sentir que esteja com medo de alguma coisa que Josephine possa saber ou dizer...

—E foi então que Josephine levou a pancada

na cabeça?

—Bem, mas não podia ter sido sua mãe!

—Por que não?

—Mas papai, uma mãe não poderia... —Charles, Charles, você nunca lê os

noticiários policiais? Sempre e sempre a mãe toma uma antipatia por um de seus filhos. Somente um... ela pode ser dedicada aos outros. Há sempre uma associação, alguma razão, mas geralmente é difícil de se saber. Mas quando existe, é uma aversão irracional e é muito forte.

—Ela chamava Josephine de bruxinha — eu

admiti a contragosto.

—E a menina se importava? —Que eu saiba, não. —Então quem mais podia ser? Roger? —Roger não matou o pai. Eu tenho certeza

disso.

—Então afastemos Roger. Sua mulher... como

é mesmo o nome dela?... Clemency?

—Sim — disse eu. — Se ela matou o velho

Leonides foi por uma razão muito estranha.

Contei a ele as minhas conversas com

Clemency. Disse que podia ser possível que em sua paixão por afastar Roger da Inglaterra ela poderia ter deliberadamente envenenado o velho.

—Ela persuadiu Roger a ir-se embora sem

falar a seu pai. Depois o velho descobriu tudo. Ele ia reconstituir a Associação de Fornecedores. Todas as esperanças e os planos de Clemency frustraram-se. E ela gosta desesperadamente de Roger... é quase uma idolatria.

—Você está repetindo o que Edith de

Haviland disse!

—Sim. E Edith é em outra que eu penso.

Ela pode ter feito isso. Mas eu não sei por quê. Eu só posso acreditar que, se ela tiver uma razão boa e suficiente, pode querer fazer justiça com suas próprias mãos. Ela é desse tipo de pessoa.

—E ela também estava ansiosa que Brenda

tivesse uma defesa adequada?

—Sim. Eu creio que isto pode ser a sua

consciência. Mas eu não penso, nem por um instante, que se ela fosse a culpada pretendesse que eles sejam acusados de seu crime.

—Provavelmente não. Mas ela teria atingido

Josephine?

—Não — disse eu devagar. — Não creio. E

isto me faz lembrar uma coisa que Josephine me disse e que não me sai da cabeça, mas que eu não consigo lembrar o que é. É um lapso em minha memória. Mas é alguma coisa que não se encaixa bem na história. Se ao menos eu pudesse me lem-brar...

—Deixe pra lá. Vai lembrar-se depois. Mais

alguma coisa ou mais alguém em sua cabeça?

—Sim — disse eu. — Mais uma coisa. O

senhor sabe algo sobre paralisia infantil? Sobre seus efeitos sobre o caráter, eu quero dizer?

—Eustace?

—Sim. Quanto mais eu penso nele, mais me

parece provável que ele se encaixe no papel. Ele não gostava e tinha ressentimentos contra o avô. É esquisito e rabugento. Não é normal.

—É o único da família que eu veria

liquidando Josephine sem piedade se ela soubesse de alguma coisa sobre ele... e é bem possível que ela saiba. Aquela menina sabe de tudo. Ela escreve as coisas num livrinho...

Parei.

—Deus do Céu! — exclamei. — Como eu fui

bobo!

—O que foi que houve? —Eu sei agora o que é que estava errado.

Nós calculamos, Taverner e eu, que a destruição no quarto de Josephine, a busca frenética, fosse por aquelas cartas. Pensei que ela tivesse passado a mão nelas e as tivesse escondido no pátio das cisternas. Mas quando ela estava falando comigo outro dia, ela me disse claramente que foi Laurence quem as escondera lá. Ela o viu saindo e foi bisbilhotar e achou as cartas. Então, é claro que as leu. Imagine se não ia ler! Mas ela as deixou onde estavam.

—Então?

—Não está vendo? Não poderiam ter sido as

cartas que alguém estava procurando no quarto de Josephine. Só pode ter sido outra coisa.

—E essa outra coisa... —Era o livrinho preto onde ela escreve suas

“descobertas de detetive”. Era isto que alguém estava procurando! Eu penso também que quem fez aquilo não o encontrou. Acho que Josephine ainda o tem. Mas se for assim...

Eu comecei a me levantar.

—Se for assim — disse meu pai — ela ainda

não está a salvo. Era isto o que você ia dizer?

—Sim. Ela não estará livre de perigo

enquanto não for mesmo mandada para a Suíça. Estão planejando enviá-la para lá, o senhor sabe.

—Ela quer ir?

Considerei isto.

—Eu creio que não. —Então provavelmente ela ainda não foi —

disse meu pai secamente. — Mas eu acho que você tem razão quanto ao perigo. É melhor ir para lá.

—Eustace? — perguntei em desespero. —

Clemency?

Meu pai disse gentilmente:

—Para mim os fatos apontam claramente

numa única direção... Eu não sei como é que você ainda não percebeu. Eu...

Glover abriu a porta.

—Desculpe, Sr. Charles, é o telefone. A Srta.

Leonides está chamando de Swinly. É urgente.

Parecia uma repetição horrível. Josephine se

teria transformado em vítima outra vez? E será que desta vez o criminoso não se enganara?...

Corri para o telefone.

—Sophia? É Charles falando. A voz de Sophia chegou com uma entonação

de desespero.

—Charles, ainda não está tudo acabado. O

criminoso ainda está aqui.

—O que é que você quer dizer? O que foi

que aconteceu? Foi... Josephine?

—Não é Josephine. É Nannie. —Nannie?

—Sim, foi uma xícara de chocolate... o

chocolate de Josephine, que ela não bebeu. Ela deixou em cima da mesa. Nannie achou que era uma pena desperdiçá-lo. Então, tomou-o.

—Pobre Nannie. Ela está muito mal? A voz de Sophia sumiu.

—Oh, Charles, ela está morta.