A Casa Torta
Capítulo 16 · O Velho Dissera
—Deixe-os falar.
Enquanto eu fazia a barba na manhã seguinte,
fiquei considerando até onde isso me ajudara.
Edith de Haviland falara comigo — ela me
procurara especialmente para isso. Clemency falara comigo (ou fora eu que falara com ela?). Magda num certo sentido falara comigo, isto é, eu fizera parte da audiência para uma de suas represen-tações. Sophia naturalmente falara comigo. Até mesmo Nannie falara comigo. Teria eu ficado mais sabido depois de ter falado com todos eles? Teria havido alguma frase ou palavra significantes? Mais, teria havido alguma evidência de uma vaidade anormal em que meu pai tanto confiara? Eu não podia ver nada ainda.
A única pessoa que não mostrara
absolutamente nenhum desejo de falar comigo, sobre coisa nenhuma, fora Philip. Isso não seria de certa maneira anormal? Ele já devia saber agora que eu queria casar-me com a filha dele. E, no entanto, continuava a proceder como se eu não estivesse na casa. Provavelmente ele se ressentia com a minha presença ali. Edith de Haviland desculpara-se por ele. Ela dissera que era apenas “uma maneira de ser”. Demonstrara estar preocupada com Philip. Por quê?
Considerei o pai de Sophia. Ele era em todos
os sentidos um indivíduo reprimido. Fora uma criança infeliz e invejosa. Fora forçado a se retrair. Refugiara-se no mundo dos livros — num passado histórico. Aquela frieza e reserva estudadas podiam esconder um bom bocado de seus sentimentos apaixonados. A falta de motivos financeiros com a morte de seu pai era inconvincente — eu não teria pensado nem por um minuto que Philip Leonides pudesse ter matado o pai porque quisesse ter mais dinheiro do que já tinha. Mas poderia ter havido uma outra razão psicológica profunda que o fizesse desejar a morte do pai. Philip voltara a morar em casa do pai, e mais tarde, devido aos bombardeios, Roger também voltara — e Philip fora obrigado a ver, dia após dia, que Roger ainda era o favorito do pai... As coisas podem ter corrido de tal maneira na sua mente torturada que o único alívio possível seria a morte do pai? E, supondo que esta morte incriminasse o seu irmão mais velho? Roger estava precisando de dinheiro — à beira da falência. Não sabendo nada sobre a úl-tima entrevista entre Roger e o pai e a oferta deste último para ajudá-lo, Philip não poderia ter pensado que os motivos seriam bastante poderosos e que Roger seria imediatamente o suspeito? Estariam as faculdades mentais de Philip tão con-turbadas que o levassem ao homicídio?
Cortei o queixo com a gilete e soltei um
palavrão.
Que diabos eu estava tentando fazer?
Tentando culpar o pai de Sophia pelo crime? Não era das coisas mais simpáticas de minha parte. Pelo menos não era o que Sophia esperava que eu fizesse...
Ou... talvez fosse? Havia algo, sempre
houvera algo o tempo todo, por trás do apelo de Sophia. Se houvesse a mais remota suspeita de que seu pai fosse o assassino, então ela jamais concordaria em se casar comigo — no caso da suspeita ser verdadeira. E, uma vez que ela era Sophia, arguta e corajosa, ela queria a verdade, já que a incerteza seria uma barreira eterna e perpétua entre nós. Não tinha ela mesmo dito a mim: “Prove-me que esta coisa pavorosa que eu estou imaginando não é verdadeira — mas se for mesmo a verdade, então me prove que é verdade — para que eu possa saber o pior e encará-lo!”?
Será que Edith de Haviland sabia, ou
suspeitava, que Philip era o culpado? O que é que ela tinha querido dizer com aquela “quase idolatria”?
E o que é que Clemency tinha querido dizer
com aquele olhar estranho que me lançara quando lhe perguntei se ela suspeitava de alguém e ela me respondera: “Laurence e Brenda são os mais prováveis suspeitos, não são?”
A família inteira queria que fossem Brenda e
Laurence, tinha a esperança que fossem Brenda e Laurence, mas na realidade não acreditava que fossem Brenda e Laurence...
E, é lógico, a família inteira podia estar
errada, e talvez os criminosos fossem mesmo Laurence e Brenda.
Ou talvez fosse Laurence, e não Brenda... Esta seria uma solução muito melhor. Eu acabei de dar umas palmadinhas no
queixo cortado e desci para o café, determinado a ter uma entrevista com Laurence Brown, o mais cedo possível.
Foi somente depois de beber a minha
segunda xícara de café que me ocorreu que a Casa Torta estava também me atingindo. Eu, também, queria encontrar não a solução certa mas a solução que melhor me convinha.
Depois do café fui até o vestíbulo e subi as
escadas. Sophia me dissera que eu encontraria Laurence dando aulas a Eustace e Josephine na sala de aulas.
Lá em cima eu hesitei um instante em frente à
porta de Brenda. Deveria tocar ou bater, ou entrar diretamente? Decidi tratar a casa como um todo integral e não como a parte privada de Brenda.
Abri a porta e entrei. Tudo estava silencioso,
parecia não haver ninguém. A minha esquerda, a porta que dava para a grande sala de estar estava fechada. À direita, duas portas abertas mostravam um quarto de dormir e um banheiro. O banheiro eu sabia que era o que ficava ao lado do quarto de Aristide Leonides, onde a eserina e a insulina eram guardadas. A polícia já terminara de examiná-lo. Empurrei a porta entreaberta e entrei. Percebi como teria sido fácil para qualquer pessoa da casa (ou para falar com franqueza também para alguém de fora), chegar até o banheiro sem ser visto.
Fiquei um pouco no banheiro examinando-o.
Era suntuosamente decorado com azulejos brilhantes e uma banheira embutida no chão. De um lado havia vários aparelhos elétricos: uma caçarola elétrica e uma grelha por baixo de uma cha-leira também elétrica, uma pequena frigideira, uma torradeira tudo o que o criado de quarto de um senhor de idade pudesse precisar. Na parede, um pequeno armário esmaltado. Eu o abri. Dentro estavam objetos médicos, dois vidros de remédios, um copinho para lavar os olhos, um conta-gotas e alguns vidrinhos rotulados. Aspirinas, bórax em pó, iodo, esparadrapo etc... Numa prateleira separada estava o estoque de insulina, duas agulhas hipodérmicas e um vidro de éter. Numa terceira prateleira estava um frasco marcado: “Pílulas uma ou duas à noite conforme a receita”. Nesta prateleira sem dúvida estivera o vidro de colírio. Tudo era simples, bem arranjado, fácil para qualquer pessoa pegar o que desejasse. Igualmente fácil para o crime.
Eu podia ter feito o que quisesse com os
vidros e depois sair de mansinho outra vez e ninguém nunca saberia que eu estivera ali. Tudo isso, é claro, não era novo para mim, mas me deixou ver o quanto era difícil a tarefa da polícia.
Somente do culpado, ou dos culpados, a gente
poderia conseguir algo.
“Sacuda-os — Taverner me dissera. — Faça
com que tenham medo. Faça-os crer que nós sabemos de alguma coisa. Mantenha-os sempre em primeiro plano. Mais cedo ou mais tarde, se continuarmos assim, nosso criminoso vai cansar de ficar calado e vai tentar ser ainda mais esperto... e então... nós o pegaremos...”
Bem, até agora o criminoso ainda não reagira
a esse tratamento.
Saí do banheiro. Ainda não havia ninguém à
vista. Fui até o corredor. Passei pela sala de jantar que ficava à esquerda e pelo quarto e o banheiro de Brenda, à direita. Neste último, uma das empregadas ia e vinha de um lado para outro. A porta da sala de jantar estava fechada. De uma outra peça mais de trás, eu ouvi a voz de Edith de Haviland falando ao telefone com o inevitável peixeiro. Um lanço de escada em espiral levava ao andar de cima. Subi. Ali estavam o quarto de dormir e a salinha de estar de Edith, eu sabia, mais dois banheiros e o quarto de Laurence Brown. Mais além ainda, um outro lanço curto de escadas descia para uma sala muito grande construída sobre a área de serviço e que era usada como sala de aula.
Parei do lado de fora da porta. Podia-se ouvir
a voz de Laurence Brown, um pouco alterada, vinda lá de dentro.
Acho que o hábito de escutar atrás das
portas de Josephine era contagioso. Sem sentir nenhuma vergonha eu me abaixei até a altura da fechadura e escutei.
Era uma aula de história que estava em
curso, e o período em questão era o Diretório francês.
Enquanto ouvia, o espanto fez-me arregalar
os olhos. Foi uma surpresa considerável para mim descobrir que Laurence Brown era um magnífico professor.
Não sei por que isso me surpreendeu tanto.
Apesar de tudo, Aristide Leonides sempre fora um excelente juiz de homens. Apesar de toda a aparência desprezível, Laurence tinha o dom supremo de despertar o entusiasmo e a imaginação de seus alunos. O drama de Thermidor, o decreto que considerou Robespierre fora da lei, a magnificência de Barras, a lábia de Fouché e Napoleão, um tenentezinho da artilharia que morria de fome — todos estavam ali, vivos e reais.
De repente Laurence parou, fez uma
pergunta a Eustace e a Josephine, fez com que eles se pusessem no lugar de uma e de outras figuras do drama. Se bem que ele não obtivesse muito resultado com Josephine, cuja voz soava como se ela estivesse resfriada, Eustace parecia muito diferente de seu jeito normal Ele mostrava muita cabeça e inteligência e aquele arguto sentido histórico que sem dúvida herdara de seu pai.
Ouvi então as cadeiras sendo empurradas
para trás e arranhando o assoalho. Recuei alguns degraus e estava apenas chegando quando a porta se abriu.
Eustace e Josephine saíram.
—Alô — disse eu.
Eustace pareceu surpreso ao me ver. —Você está procurando alguém? — perguntou
polidamente.
Josephine, sem ligar para mim, foi-se embora. —Eu só queria ver a sala de aula — disse
meio sem jeito.
—Você já a viu outro dia, não viu? É mesmo
uma sala para criancinhas. Antigamente servia de quarto de brinquedos. Ainda tem uma porção de brinquedos espalhados pelos cantos.
Ele segurou a porta aberta para mim e eu
entrei.
Laurence Brown estava de pé ao lado da
mesa. Olhou-me, corou, murmurou algo em resposta ao meu bom-dia e saiu apressado.
—Você o deixou amedrontado — disse
Eustace. — Ele se amedronta com facilidade.
—Você gosta dele, Eustace?
—Oh! Ele é legal. Mas é meio burro, é claro. —Mas não é um mau professor? —Não, para falar com franqueza, ele é
mesmo muito interessante. E sabe um bocado de coisas. Faz a gente ver as coisas por um ângulo diferente. Eu nunca soube que Henrique VIII tinha escrito poesias... para Anne Boleyn, é lógico... poesia muito bacana.
Nós conversamos mais um pouco sobre
outros assuntos como o Velho Marinheiro, de Chaucer, as questões políticas por detrás das Cruzadas, a maneira de encarar a vida na época medieval e, para Eustace, a surpresa de saber que Oliver Cromwell proibira a celebração do Natal. Por trás do ar desdenhoso e quase desagradável de Eustace, eu percebi que havia uma mente curiosa e inteligente.
Logo eu também comecei a perceber a razão
de seu mau humor. Sua doença não fora apenas uma dura prova, fora igualmente uma frustração e um passo atrás em sua vida, logo no momento em que ele começava a gozá-la.
—Eu estaria no 11°, no ano que vem — e
então eu iria para a universidade. É muito chato ter de estudar em casa e estudar com uma criança horrorosa como Josephine. Imagine, ela só tem doze anos.
—Eu sei, mas vocês não estudam a mesma
coisa, não é?
—Não, é claro que ela não estuda matemática
avançada... ou latim. Mas você não gostaria de dividir um professor com uma menina, não é?
Tentei aplacar seu orgulho masculino ferido,
fazendo-o ver que Josephine era uma menina bastante inteligente para a sua idade.
—Você acha? Eu a acho muito errada. É
louca por histórias de detetives e vive enfiando o nariz em todo canto e escrevendo coisas num livrinho preto e pretendendo que está descobrindo tudo. É uma menina boba, é isto que ela é — disse Eustace muito altivo.
—E de qualquer jeito — acrescentou ele —
meninas não podem ser detetives. Eu já disse a ela. Acho que mamãe está muito certa e quanto mais cedo mandarem Josephine para a Suíça melhor será.
—Você não vai sentir falta dela? —Sentir falta de uma menina daquela
idade? — disse Eustace desdenhoso. — É claro que não. Meu Deus, esta casa é o máximo! Mamãe sempre andando para cima e para baixo lá por Londres e chateando uns autores bobocas a reescreverem as peças para ela, e fazendo confusões incríveis absolutamente por nada. E papai fechado com os livros dele, às vezes nem escutando o que a gente fala com ele. Eu não sei por que é que eu tenho de carregar este fardo de ter todos estes parentes... E tio Roger... tão sincero que faz até a gente estremecer... Tia Clemency é legal, não aborrece ninguém, mas às vezes eu penso que ela é um pouquinho maluca. Tia Edith também não é das piores mas é muito velha. As coisas melhoraram um pouco depois que Sophia voltou... se bem que ela saiba ser muito severa às vezes. Mas é uma família estranha, você não acha? Ter uma madrasta-avó tão moça que podia ser sua tia ou mesmo sua irmã mais velha? Eu quero dizer, isto faz a gente se sentir meio besta!
Eu compreendi os seus sentimentos.
Lembrava-me (muito vagamente) de minha própria supersensitividade na idade de Eustace. O horror que eu tinha de parecer diferente ou de que meus parentes fossem diferentes do normal.
—E sobre seu avô? — eu perguntei. — Você
gostava dele?
Uma expressão curiosa passou pelo rosto de
Eustace.
—Vovô — disse ele — era definitivamente
anti-social!
—Em que sentido? —Ele não pensava em nada a não ser em
ganhar dinheiro. Laurence diz que isto é completamente errado. E ele era também um grande individualista. Tudo isso tende a acabar, você não acha?
—Bem — eu disse bruscamente, — ele acabou. —Uma boa coisa, na verdade — disse
Eustace. — Eu não quero parecer desumano, mas você não pode mais gozar a vida naquela idade!
—E ele não gozava? —Não poderia. E de qualquer forma, já era
mesmo tempo de ele ir embora. Ele... — Eustace interrompeu-se quando Laurence voltou à sala de aula.
Laurence pôs-se a remexer nalguns livros,
mas eu calculei que ele nos estivesse observando pelo rabo do olho.
Olhou para seu relógio de pulso e disse: —Por favor, esteja de volta às onze horas em
ponto, Eustace. Nós perdemos muito tempo ultimamente.
—Sim, senhor.
Eustace dirigiu-se para a porta e saiu
assobiando.
Laurence Brown deu outra olhada furtiva para o meu lado. Passou a língua nos lábios uma ou duas vezes. Eu estava convencido de que ele voltara à sala de aula exclusivamente para falar comigo.
Com efeito, depois de um arrumar e
desarrumar de livros absolutamente inútil e um pretenso pretexto de achar um livro que estava faltando, ele falou:
—Ahn... Como é que eles estão indo? —Eles?
—A polícia.
Torceu o nariz. Um rato numa ratoeira, eu
pensei, um rato na ratoeira.
—Eles não me fazem muitas confidências —
disse eu.
—Oh, eu pensei que seu pai fosse o
Comissário Assistente.
—Ele é, mas naturalmente não revela os
segredos oficiais.
Fiz uma voz propositadamente pomposa. —Então você não sabe como... o quê... se...
— sua voz sumiu. — Eles não vão deter ninguém, vão?
—Que eu saiba não. Mas, é como eu digo,
talvez eu não saiba.
Faça-os ficar com medo, o Inspetor Taverner dissera. Faça-os ficar apavorados. Bem, Laurence Brown estava apavorado mesmo.
Começou a falar depressa e com nervosismo. —Você não sabe como é... a tensão... sem
saber como, isto é, eles entram e saem... Fazendo perguntas... perguntas que aparentemente não têm nada a ver com o caso...
Parou. Esperei. Ele queria falar, muito bem,
eu devia deixá-lo falar.
—Você estava aqui outro dia quando o
Inspetor-Chefe fez aquela sugestão monstruosa? Sobre a Sra. Leonides e eu? Foi monstruoso. Faz a gente se sentir tão indefeso. Não podemos impedir que as pessoas pensem coisas assim de nós! E tudo era maldosamente falso! Apenas porque ela é... era... tantos anos mais nova que seu marido. Há pessoas que têm a mente suja... a mente muito suja... Eu sinto... eu não posso deixar de sentir... que tudo isto é uma conspiração.
—Uma conspiração? Que coisa interessante! Interessante era, mas não no sentido que ele
interpretou.
—A família, você sabe, a família do Sr.
Leonides nunca teve simpatia por mim. Eles sempre se mantiveram afastados. Eu sempre senti que me desprezavam.
As mãos dele começaram a tremer. —Só porque eles sempre foram ricos... e
poderosos — olhou para mim. — O que eu era para eles? Apenas um professor. Apenas um objetar de consciência fracassado. E minhas objeções eram de consciência. Eram mesmo!
Eu não disse nada.
—Muito bem! — ele explodiu. — O que é que
tem se eu era... um covarde? Eu tive medo de fazer confusão. Tive medo de que, quando fosse obrigado a puxar o gatilho... eu não fosse capaz de fazê-lo. Como eu podia ter certeza de que era um nazista que eu ia matar? Podia ser algum rapaz decente... algum rapaz do campo... que não tivesse pendores políticos, apenas chamado para servir à sua pátria? Eu acho que a guerra é um erro, você compreende? Eu penso que é um erro!
Eu continuei em silêncio. Achei que meu
silêncio era mais útil que se eu argumentasse ou concordasse com ele. Laurence Brown estava discutindo consigo mesmo, e revelava uma boa parte de si próprio.
—Todos sempre riram de mim — sua voz
estremeceu. — Parece que eu tenho um quê para me fazer ridículo. Não é realmente uma falta de coragem... mas eu sempre faço as coisas erradas. Entrei numa casa que estava pegando fogo para salvar uma mulher que estava presa lá dentro. Mas eu me perdi logo na entrada e a fumaça me fez perder os sentidos, e eu dei um trabalhão aos bombeiros para me acharem. Eu os ouvi dizer: “Por que esse cabeça oca não deixa o trabalho para nós?” Não adianta eu tentar, todos são contra mim. Quem quer que tenha morto o Sr. Leonides arranjou para que eu fosse o suspeito. Alguém o matou só para me desgraçar.
—E sobre a Sra. Leonides? — perguntei. Ele corou. Tornou-se um pouco menos rato e
um pouco mais homem.
—A Sra. Leonides é um anjo — disse ele —
um anjo. Sua doçura, sua bondade para o idoso marido eram maravilhosas. Pensar nela em conexão com o veneno é ridículo... ridículo! E aquele cabeça dura daquele inspetor não é capaz de ver isto!
—Ele tem uma opinião preconcebida — disse
eu — pelo número de casos em seus arquivos onde maridos idosos foram envenenados por doces e jovens esposas.
—Um insuportável imbecil! — disse raivoso
Laurence Brown.
Ele foi até a estante do canto e começou a remexer nos livros. Eu calculei que não conseguiria mais nada dele. Saí lentamente da sala.
Ao passar pelo corredor, uma porta à minha
esquerda abriu-se e Josephine quase caiu em cima de mim. Sua entrada fora tão precipitada quanto a entrada de um demônio numa pantomima arcaica.
O rosto e as mãos estavam imundos e uma
enorme teia de aranha flutuava presa à sua orelha esquerda.
—Onde você estava, Josephine? Olhei através da porta entreaberta. Uns dois
degraus conduziam a um pátio retangular onde se viam vários tanques grandes.
—Na sala das cisternas.
—Por que você estava na sala das cisternas? Josephine respondeu de maneira muito
concisa:
—Descobrindo coisas. —E que diabo de coisas existem na sala das
cisternas para serem descobertas?
A isto, Josephine apenas replicou: —Eu preciso lavar-me. —Eu diria que está precisando muito. Josephine sumiu pela porta do banheiro
mais próximo. De lá de dentro olhou para mim e disse:
—Eu acho que está na hora do próximo
assassinato, você não acha?
—O que é que você quer dizer... o próximo
assassinato?
—Bem, nos livros há sempre um segundo
assassinato mais ou menos nessa hora. Alguém que sabe de alguma coisa é eliminado antes que possa contar o que sabe.
—Você lê histórias de detetives demais,
Josephine. Na vida real não é assim. E, se alguém nesta casa sabe de alguma coisa, a última coisa que fará será falar sobre isto.
A resposta que Josephine deu foi meio
confusa devido ao jato d’água da torneira.
— Às vezes é algo que eles não sabem que
sabem.
Eu pisquei os olhos ao tentar compreender o
significado do que ela dissera. E então, deixando Josephine entregue às suas abluções, eu desci para o andar de baixo.
No instante em que eu estava saindo da porta
da escadaria, Brenda apareceu num suave rumor pela porta da sala de visitas.
Ela chegou perto de mim e pousou a mão
em meu braço, me olhando no rosto.
—E então? — perguntou.
Era a mesma procura de informações que
Laurence demonstrara, apenas a pergunta fora formulada de outra forma. E sua única palavra fora mais efetiva.
Eu balancei a cabeça.
—Nada.
Ela deu um suspiro profundo. —Eu estou com tanto medo, Charles — disse
ela. — Eu estou com tanto medo...
O seu medo era mesmo real. Ela me
contagiou naquele espaço apertado. Eu queria tranqüilizá-la, ajudá-la. Uma vez mais eu sentia aquele sentimento pungente de sabê-la terrivel-mente sozinha naquele ambiente hostil.
Ela poderia igualmente ter gritado: “Quem
está a meu lado?”
E qual teria sido a resposta? Laurence
Brown? E quem era, afinal de contas, Laurence Brown? Não era um ponto de apoio num momento de tormenta. O lado mais fraco da corda. Eu me lembrava dos dois passeando no jardim na noite anterior.
Queria ajudá-la. Queria ajudá-la com todas
as minhas forças. Mas não havia muita coisa que eu pudesse fazer ou dizer. E eu tinha no fundo de minha consciência um senti--mento de culpa, como se os olhos desdenhosos de Sophia me estivessem espreitando. Eu me lembrava da voz de Sophia di-zendo: “Então ela conquistou você”.
E Sophia não via, nem queria ver o lado de
Brenda na história. Sozinha, suspeita do crime, sem ninguém para ficar a seu lado.
—O inquérito é amanhã. O que... o que vai
acontecer?
Neste ponto eu podia ajudá-la. —Nada — eu garanti. — Você não precisa
preocupar-se com isto. Será adiado para a polícia continuar com as investigações. Mas isto vai certamente deixar a imprensa alerta. Que eu saiba, até agora não saiu nada nos jornais que deixasse entrever que a morte não foi natural. Os Leonides ainda têm um bocado de influência. Mas um inquérito adiado... bem, aí a farra vai começar.
(Que coisas esquisitas que a gente diz! A
farra! Por que é que eu tinha de escolher esta palavra?)
—Será que... será que vai ser muito ruim? —Eu não daria nenhuma entrevista se fosse
você. Sabe, Brenda, você devia arranjar um advogado...
Ela recuou num gesto de horror. —Não... não é o que você está pensando.
Mas alguém que zele pelos seus interesses e a aconselhe como deve proceder, o que deve dizer e fazer e o que não deve dizer ou fazer. — Você sabe — eu acrescentei — você está sempre muito só.
Sua mão apertou meu braço com mais força. —Sim — disse ela. — Você compreendeu isto.
Você me tem ajudado, Charles, você me tem ajudado muito...
Eu desci as escadas com um sentimento de
calor, de alegria... Foi então que vi Sophia parada em frente à porta principal. Sua voz era fria e bastante seca.
—Há quanto tempo você sumiu — disse ela.
— Ligaram para você de Londres. Seu pai quer falar-lhe.
—Lá na Yard?
—Sim.
—Não imagino o que eles queiram comigo.
Não disseram nada?
Sophia balançou a cabeça negativamente.
Seus olhos estavam ansiosos. Puxei-a para mim.
—Não se preocupe, querida. Eu voltarei logo.
Capítulo 17
HAVIA UMA FORTE tensão na atmosfera
do escritório de meu pai. O Velho estava sentado à sua escrivaninha. O Inspetor Taverner encostado ao batente da janela. Na cadeira destinada aos visitantes estava sentado o Sr. Gaitskill, que parecia contrariado.
—... uma extraordinária falta de confiança —
ele estava dizendo acidamente.
—É claro, é claro — meu pai falou
apaziguador. — Ah, alô, Charles, você veio depressa. Aconteceu um fato bastante surpreendente.
—Imprecedente — disse Gaitskill. Alguma coisa havia visivelmente contrariado
o pequeno advogado em seu íntimo. Por trás dele, o Inspetor Taverner fez uma careta para mim.
—Se eu recapitulasse? — perguntou meu pai.
— O Sr. Gaitskill recebeu uma comunicação assaz surpreendente esta manhã, Charles. De um Sr. Agrodopolous, proprietário do restaurante Delphos. É um senhor muito idoso, grego de nascimento, e quando era moço foi ajudado e prestigiado por Aristide Leonides. Ele permaneceu sempre muito agradecido a seu amigo e benfeitor e, ao que parece, Leonides depositava muita confiança nele.
—Eu nunca pude imaginar que Leonides
fosse assim tão desconfiado e de natureza tão secretiva — disse Gaitskill.
—É claro, ele já estava muito avançado nos
anos... praticamente caduco, pode-se dizer.
—A nacionalidade conta — disse meu pai
gentilmente.
—Sabe, Gaitskill, quando se fica muito
idoso o seu pensamento se volta para os dias de sua juventude e para os amigos de sua juventude.
—Mas os negócios de Leonides estão em
minhas mãos há mais de quarenta anos — disse Gaitskill. — Quarenta e três anos e seis meses, para ser exato.
Taverner fez outra careta.
—O que foi que aconteceu? — perguntei. Gaitskill ia abrindo a boca mas meu pai
adiantou-se.
—O Sr. Agrodopolous declarou nesta
comunicação que estava obedecendo a certas instruções que lhe haviam sido dadas por seu amigo Aristide Leonides. Resumindo, há cerca de um ano, o Sr. Leonides confiou-lhe um envelope selado que ele, Sr. Agrodopolous, deveria entregar ao Sr. Gaitskill imediatamente após a morte do Sr. Leonides. No caso de o Sr. Agrodopolous morrer primeiro, seu filho, um afilhado do Sr. Leonides, deveria executar as mesmas instruções. O Sr. Agrodopolous desculpou-se pela demora mas explicou que ele estivera doente com pneumonia e só soube da morte de seu velho amigo ontem à tarde.
—Tudo isto é muito antiprofissional — disse
Gaitskill.
—Quando o Sr. Gaitskill abriu o envelope
selado e tomou conhecimento de seu conteúdo, ele decidiu que era seu dever...
—Devido às circunstâncias — explicou
Gaitskill.
—Trazer ao nosso conhecimento os
documentos. Eles consistem em um testamento, devidamente assinado com testemunhas, e uma carta explicativa.
—Então afinal o testamento apareceu? —
perguntei.
O Sr. Gaitskill ficou rubro.
—Não é o mesmo testamento — berrou ele. —
Não foi este o documento que eu preparei a pedido do Sr. Leonides. Este foi escrito com suas próprias mãos, uma coisa muito perigosa para qualquer leigo fazer. Ao que parece, a intenção do Sr. Leonides era fazer-me de bobo.
O Inspetor Taverner tentou acalmar um
pouquinho a amargura reinante.
—Ele era um senhor muito idoso, Sr.
Gaitskill — disse. — Eles ficam meio gagás quando ficam velhos, o senhor sabe... não chegam a caducar de todo, mas ficam um pouquinho excêntricos.
Gaitskill fungou.
—O Sr. Gaitskill nos telefonou — disse meu pai
— e nos fez tomar conhecimento dos termos principais do testamento e eu lhe pedi que viesse até aqui e trouxesse os documentos com ele. Eu também telefonei a você, Charles.
Não imaginei por que era que me tinham
telefonado. Parecia-me bastante estranho este procedimento de meu pai e de Taverner. Eu ficaria sabendo mais tarde do testamento, e não era mesmo da minha conta saber o que o velho Leonides tinha feito de seu dinheiro.
—É um testamento diferente? — perguntei.
— Eu quero dizer, ele dispôs de sua fortuna de outra forma?
—Muito diferente — disse Gaitskill. Meu pai estava olhando para mim. O
Inspetor Taverner estava tendo muito cuidado para não olhar para mim. Não sei por que, mas eu comecei a me sentir ligeiramente encabulado...
Algo estava-se passando no pensamento
deles — e era algo que eu não tinha a mínima idéia do que podia ser.
Olhei inquisitivamente para Gaitskill. —Não é da minha conta — disse eu — mas... Ele me respondeu:
—As disposições testamentárias do Sr.
Leonides não são, é lógico, secretas — disse ele. — Eu achei que era meu dever apresentar os fatos às autoridades policiais primeiro e deixar que me guiassem para o meu procedimento seguinte. Eu creio — fez uma pausa — que há um... certo entendimento eu diria... entre o senhor e a Srta. Sophia Leonides?
—Eu espero casar-me com ela — disse eu —
porém ela não deseja um noivado neste momento.
—Muito adequado — disse Gaitskill. Eu não concordava com ele. Mas não era este
o momento para discutirmos isto.
—Por este testamento — continuou Gaitskill, —
datado de 29 de novembro do ano passado, o Sr. Leonides, após um dote para sua esposa de cento e cinqüenta mil libras, deixa a sua fortuna inteira, real e pessoal, para sua neta Sophia Katherine Leonides, exclusivamente.
Eu quase me engasguei. Fosse o que fosse que
eu estava esperando, não era absolutamente isto.
—Ele deixou tudo para Sophia! — exclamei. —
Que coisa extraordinária! Alguma razão?
—Ele explicou suas razões com muita
clareza na carta anexa — disse meu pai e pegou uma folha de papel que estava à sua frente na escrivaninha. — O senhor não tem nenhuma objeção que Charles leia isto, Sr. Gaitskill?
—Eu me pus em suas mãos — disse
Gaitskill com frieza. — A carta pelo menos oferece uma explicação... e possivelmente (se bem que eu tenha minhas dúvidas quanto a isto) uma desculpa para a extraordinária conduta do Sr. Leonides.
O Velho me entregou a carta. Estava escrita
numa letrinha intricada com uma tinta muito preta. O talhe da letra demonstrava caráter e individualidade, não era absolutamente a letra de um velho — exceto talvez pelo desenho caprichoso das letras, característico dos tempos antigos, quando a escrita era algo dificilmente adquirido e devidamente valorizado. Dizia:
Caro Gaitskill:
Você vai ficar surpreso ao receber esta carta, e
provavelmente ofendido. Mas eu tenho minhas próprias razões em proceder de uma forma que para você talvez pareça desnecessariamente secreta. Eu sempre fui uma pessoa que acredita na individualidade. Numa família (isto eu observei durante a minha infância e nunca esqueci), há sempre um caráter mais forte e geralmente cabe a esta pessoa zelar e ter a responsabilidade de tomar conta da família. Na minha família eu fui esta pessoa. Vim para Londres, ali me estabeleci, sustentei minha mãe e meus avós idosos em Smyrna, livrei um de meus irmãos das garras da lei, assegurei a liberdade de minha irmã salvando-a de um casamento infeliz e muitas coisas assim. Deus foi generoso comigo concedendo-me uma vida longa e eu pude zelar e cuidar de meus filhos e dos filhos de meus filhos. Muitos me foram levados pela morte, os outros, e eu sou feliz ao dizê-lo, estão sob o meu teto. Quando eu morrer, a responsabilidade que eu tenho deverá recair em outra pessoa. Refleti muito pensando em dividir minha fortuna igualmente entre todos os meus entes queridos — mas fazendo isso eu não estaria sendo justo com todos. Os homens nascem diferentes uns dos outros. Para compensar a desigualdade natural da Natureza, nós precisamos endireitar a balança. Em outras palavras, alguém deveria ser o meu sucessor, deveria tomar sobre os ombros o cargo de responsabilidade pelo resto da família. Depois de uma observação cuidadosa, eu cheguei à conclusão de que nenhum de meus filhos poderia arcar com esta responsabilidade. Meu muito querido filho Roger não tem nenhum sentido de negócios, e se bem que seja de uma natureza muito amável é impulsivo demais para poder julgar os outros. Meu filho Philip é muito inseguro de si mesmo e não é capaz de fazer nada a não ser se encolher perante a vida. Eustace, meu neto, ainda é muito jovem e eu não creio que tenha as qualidades de percepção e julgamento necessárias. Ele é indolente e facilmente influenciável pelas idéias da primeira pessoa que encontra. Apenas minha neta Sophia me parece ter as qualidades positivas requeridas. Ela tem cabeça, julgamento, coragem, a mente livre de preconceitos e, penso eu, generosidade de espírito. A ela, eu confio o bem-estar da família — e o bem-estar de minha querida cunhada Edith de Haviland, pela devoção de toda a vida à minha família e a qual eu agradeço de todo o coração. Isto explica o documento anexo. O que será difícil de explicar — ou seja, difícil de explicar a você — é o ardil que eu empreguei. Achei que não devia levantar nenhuma especulação sobre a disposição de minha fortuna, e não tenho a intenção de deixar que minha família saiba que Sophia será a minha herdeira. Uma vez que meus dois filhos já têm consideráveis fortunas pessoais à sua disposição, eu não creio que as minhas, disposições testamentárias os coloque numa posição humilhante.
Para abafar a curiosidade e a suspeita, eu lhe pedi
que me preparasse um testamento. Este testamento eu leria para toda a família reunida. Poria este testamento sobre a minha mesa, colocaria uma folha de papel sobre ele, e pediria que fossem chamados dois empregados. Quando eles chegassem, eu escorregaria a folha de papel sobre o documento, assinaria meu nome e pediria a eles que assinassem também. Não tenho necessidade de acrescentar que o testamento que eu e eles havíamos assinado seria o testamento que eu agora anexo a esta carta e não o que você preparara e que eu lera em voz alta.
Eu sei que não espero que você vá compreender o
que me levou a executar tal coisa. Eu lhe pedirei apenas que me perdoe por deixá-lo às escuras. Um velho homem gosta de guardar seus pequenos segredos.
Obrigado, meu velho amigo, pela assiduidade que
você sempre dedicou aos meus negócios. Transmita a Sophia o meu amor. Peça-lhe que vele pelo bem da família e proteja-a de todos os males.
Seu amigo sincero,
Aristide Leonides
Li este estranho documento com imenso interesse.
—Extraordinário! — exclamei. —Extremamente extraordinário — disse
Gaitskill, levantando-se. — Eu repito, penso que meu velho amigo Leonides devia ter confiado em mim.
—Não, Gaitskill — disse meu pai. — Ele era
um enrolado nato. Gostava, eu diria, de fazer as coisas sempre meio fora da lei.
—Isto mesmo, senhor — disse o Inspetor
Taverner. — Se havia alguém enrolado neste mundo, era ele — acrescentou com convicção.
Gaitskill saiu altivamente sem se acalmar. Ele
fora ferido no mais profundo âmago de seus sentimentos profissionais.
—Ele foi ferido fundo — disse Taverner. — É
uma firma muito respeitável, a Gaitskill, Callum & Gaitskill. Com eles não se fazem trapaças. Quando o velho Leonides fazia uma transação duvidosa, ele nunca a fazia através da Gaitskill, Callum & Gaitskill. Ele tinha uma meia dúzia de firmas de advocacia diferentes que atuavam para ele. Oh, como ele era enrolado!
—E nunca o provou tanto como quando fez
este testamento — disse meu pai.
—Nós fomos uns tolos — disse Taverner. — Pensando melhor, a única pessoa que podia ter feito algum truque com o testamento era o próprio velho. Apenas a idéia não nos ocorreu nunca!
Eu me lembrei do sorriso superior de
Josephine ao dizer:
—A polícia não é burra?
Mas Josephine não estivera presente no
momento da assinatura do testamento. E mesmo que ela estivesse do lado de fora da porta escutando (o que eu estava certo a acreditar) ela dificilmente poderia adivinhar o que seu avô estava fazendo. O que é que ela sabia que a fizera dizer que a polícia era estúpida? Ou novamente talvez ela se estivesse mostrando?
Surpreso pelo silêncio que havia na sala,
levantei os olhos rapidamente — ambos, meu pai e Taverner, me observavam. Não sei o que havia neles que me obrigou a deixar escapar um desafio:
—Sophia não sabia de nada sobre isto!
Absolutamente de nada!
—Não? — disse meu pai. Eu não soube se ele estava concordando ou
se perguntara algo.
—Ela ficará absolutamente estarrecida! —Será?
—Estarrecida!
Houve uma pausa. Então, numa
dissonância repentina o telefone da mesa de meu pai soou.
—Sim? — Ele ergueu o receptor, escutou e
disse: — Pode ligar.
Olhou para mim.
—É a sua jovem — disse ele. — Ela quer
falar conosco. É urgente.
Eu peguei o aparelho de suas mãos. —Sophia?
—Charles? É você? É... Josephine! — a voz
dela estremeceu ligeiramente.
—O que houve com Josephine? —Ela foi ferida na cabeça. Concussão. Ela...
ela está muito mal... Eles dizem que talvez ela não recobre a consciência...
Eu me virei para os dois.
—Josephine foi posta a nocaute — eu disse. Meu pai pegou o aparelho de minha mão.
Disse secamente para mim:
—Eu lhe disse para ficar de olho naquela
criança...
Capítulo 18
SEM PERDA DE TEMPO, Taverner e eu
estávamos correndo num veloz carro da polícia em direção a Swinly Dean. Eu me lembrei de Josephine, saindo do pátio das cisternas e seu comentário frívolo de que “estava na hora do segundo crime”. A pobre criança não tinha idéia de que seria ela a vítima do “segundo crime”.
Eu aceitei plenamente a reprimenda que meu
pai tacitamente me deu. É claro que eu devia ter ficado de olho em Josephine. Apesar de nem eu nem Taverner termos a mínima pista quanto ao envenenador do Sr. Leonides, era bastante possível que Josephine tivesse. O que eu tomara por uma tolice infantil e “exibição” poderia muito bem ser algo diferente. Josephine, praticando o seu esporte favorito de espionar e bisbilhotar, poderia ter ficado de posse de alguma informação a que talvez nem ela própria houvesse atribuído o valor devido.
Eu me lembrei do raminho que estalara no
jardim.
Eu tivera o pressentimento que o perigo
estava por perto. Agi assim naquele instante, mas depois, minhas suspeitas me pareceram melodramáticas e irreais. Pelo contrário, eu deveria ter imaginado que houvera um crime, e quem o tivesse cometido pusera o seu pescoço em perigo, e conseqüentemente esta mesma pessoa não hesitaria em repetir o crime se assim a sua segurança fosse garantida.
Talvez Magda, por algum obscuro instinto
materno, percebesse que Josephine estava em perigo, e talvez tenha sido este o motivo de sua febril e súbita impetuosidade de enviar a criança para a Suíça.
Sophia veio à porta para nos receber.
Josephine, disse ela, fora levada de ambulância para o Hospital Geral de Market Basing. O Dr. Gray lhes poria ao corrente o mais rápido possível sobre o resultado das radiografias.
—Como foi que aconteceu? — perguntou
Taverner.
Sophia guiou-nos até os fundos da casa e
por uma porta entramos num pequeno pátio abandonado. Em um canto havia uma outra porta entreaberta.
—Era uma espécie de lavandaria — explicou
Sophia. — Há um buraco para o gato passar na parte de baixo da porta e Josephine costumava pendurar-se nela e balançar para frente e para trás.
Eu me lembrei que também gostava de
balançar nas portas na minha própria infância.
A lavandaria era pequena e bastante escura.
Havia alguns caixotes de madeira, uma mangueira velha, alguns instrumentos de jardinagem abandonados e uns móveis quebrados. Ao lado da porta havia um leão de mármore que servia de calço para portas.
—E o calço da porta da frente — explicou
Sophia. — Deve ter sido posto em equilíbrio no alto da porta.
Taverner passou a mão por cima da porta.
Era uma porta baixa, a parte de cima ficava apenas a uns trinta centímetros acima de sua cabeça.
—Uma armadilha — disse ele. Balançou a porta, experimentando-a para um
lado e para outro. Depois, inclinou-se sobre o bloco de mármore mas não o tocou.
—Alguém mexeu nele?
—Não — disse Sophia. — Eu não deixaria que
ninguém o tocasse.
—Muito bem. Quem foi que a encontrou? —Fui eu. Ela não apareceu para almoçar à
uma hora da tarde. Nannie estava chamando. Ela passara pela cozinha e fora para o pátio das estrebarias mais ou menos uns quinze minutos antes. Nannie me dissera: “Ela deve estar-se balançando novamente naquela porta” e eu vim aqui buscá-la.
Sophia fez uma pausa.
—Ela tinha o hábito de brincar assim, você
disse? Quem sabia disto?
Sophia balançou os ombros.
—Eu acho que todos aqui em casa, creio eu. —Quem mais usa esta lavandaria? Jardineiros? —Quase ninguém põe os pés aqui. —E este pequeno pátio não é visto da casa
— resumiu Taverner. — Qualquer um poderia ter saído de casa ou dado a volta pela frente e preparado a armadilha. Mas seria arriscado...
Ele parou, olhando para a porta e balançou-a
levemente de um lado para outro.
—Não se podia ter certeza. Acertar ou errar.
E era mais provável errar do que acertar. Mas ela não teve sorte. Com ela foi acertar.
Sophia estremeceu.
Ele olhou para o chão. Havia várias marcas no
solo.
—Parece que alguém andou experimentando
antes... para ver como iria cair... O barulho não chegaria até a casa.
—Não, nós não ouvimos nada. Não tínhamos idéia de que havia algo errado até que eu vim até aqui e a encontrei deitada de bruços... estatelada — a voz de Sophia tremeu um pouco. — Havia sangue em seus cabelos.
—Este lenço é dela? — Taverner apontou
para um cachecol de lã xadrez no chão.
—Sim.
Usando o cachecol ele pegou o bloco de
mármore cuidadosamente.
—Pode ser que tenha impressões digitais —
disse ele, falando com pouca esperança. — Mas eu creio que quem quer que tenha feito isso foi... cuidadoso.
Virou-se para mim:
—O que é que você está olhando? Eu estava olhando para uma cadeira de
cozinha com o encosto quebrado que estava entre as coisas abandonadas. No assento havia algumas marcas de terra...
—Curioso — disse Taverner. — Alguém ficou
de pé nesta cadeira com pés enlameados. Por que razão?
Ele balançou a cabeça.
—Que horas eram quando a encontrou, Srta.
Leonides?
—Deve ter sido à uma e cinco.
—E a sua Nannie viu-a saindo vinte minutos
antes. Qual foi a última pessoa que esteve antes disso na lavandaria?
—Não tenho idéia. Provavelmente a própria
Josephine. Ela estava-se balançando na porta esta manhã depois do café, eu sei.
Taverner aquiesceu com a cabeça. —Então desta hora até um quarto para a
uma alguém preparou a armadilha. A senhorita disse que este pedaço de mármore serve de calço para a porta da entrada? Tem idéia de quando deu falta dele?
Sophia balançou negativamente a cabeça. —A porta não foi aberta totalmente
durante o dia inteiro. Fez muito frio.
—Tem alguma idéia de onde estavam as
pessoas da casa hoje de manhã?
—Eu saí para dar um passeio. Eustace e
Josephine tiveram aulas até as doze e meia, com uma pausa às dez e meia. Papai, eu penso, esteve na biblioteca a manhã inteira.
—Sua mãe?
—Ela estava saindo do quarto de dormir
quando eu voltei do passeio... devia ser meio dia e quinze. Ela não se levanta muito cedo.
Nós entramos na casa outra vez. Segui Sophia até a biblioteca. Philip, muito pálido e ansioso, estava sentado na cadeira de costume.
Magda, encolhida sobre seus joelhos, chorava
baixinho. Sophia perguntou:
—Eles já telefonaram do hospital? Philip abanou a cabeça.
Magda soluçou:
—Por que não me deixaram ir com ela?
Meu bebezinho... meu bebezinho feio e engraçado. E eu gostava de brincar com ela dizendo que tinha sido trocada pelas fadas e ela ficava furiosa. Como eu pude ser tão cruel? E agora ela vai morrer... Eu sei que ela vai morrer!
—Vamos, meu bem — disse Philip. — Tenha
calma.
Eu senti que não havia lugar para mim nesta
cena familiar de ansiedade e desespero. Saí mansamente e fui procurar Nannie. Ela estava sentada na cozinha chorando baixinho.
—É um castigo para mim, Sr. Charles, pelas
coisas horríveis que eu estava pensando. Um castigo, é isto que é.
Não tentei decifrar o seu significado. —Há maldade nesta casa. É isto que há. Eu
não queria ver nem acreditar. Mas só vendo para crer. Alguém matou o patrão e este mesmo alguém tentou matar Josephine.
—Por que será que tentaram matar Josephine? Nannie puxou um canto do lenço de um
olho e me deu uma olhada perspicaz.
—O senhor sabe muito bem como ela é, Sr.
Charles. Ela gosta de saber de tudo. Ela sempre foi assim, mesmo quando era um tiquinho de gente. Costumava esconder-se embaixo da mesa de jantar e ouvir o que as criadas falavam e depois fazia chantagem com elas. Fazia com que ela se sentisse importante. Sabe? Ela foi muito abandonada pela patroa. Não era uma criança bonita como as outras duas. Sempre foi uma menininha feia. Uma bruxinha, a patroa costu-mava chamá-la. Eu sempre achei ruim com a patroa por isto, pois eu acho que deixa as crianças amargas. Mas de uma forma engraçada, ela se vingava descobrindo coisas sobre as pessoas e deixando que elas soubessem que ela sabia. Mas isto não é uma coisa a se fazer quando há um envenenador por aí!
Não, não era uma coisa a se fazer! E isto me
trouxe outra coisa à cabeça. Perguntei a Nannie:
—Você sabe onde ela guarda um livrinho
preto... um livrinho de notas onde ela costuma escrever as coisas que descobre?
—Eu sei o que o senhor quer dizer, Sr.
Charles. Muito manhosa é que ela é, sabe? Eu a via chupando a ponta do lápis e escrevendo no livrinho e chupando outra vez o lápis. E “não faça isso” eu dizia, “você vai-se envenenar com o chumbo” e “não, eu não vou não” ela dizia, “porque não é mesmo chumbo no lápis, é grafita” apesar de eu não saber por que é que é assim, pois se chamamos um lápis de ponta de chumbo é porque deve haver chumbo nele.
—Você pensa que é assim — concordei eu
— mas na verdade ela tinha razão (Josephine sempre tinha razão!) — E sobre o livrinho? Você sabe onde ela costuma guardá-lo?
—Não tenho idéia, senhor. É outra das
coisas em que ela é ardilosa.
—Não estava com ela quando foi encontrada? —Oh, não, Sr. Charles, não havia nenhum
livro.
Será que alguém pegara o livrinho? Ou talvez
ela o escondera em seu quarto? Tive a idéia de ir procurá-lo lá. Eu não tinha certeza de qual era o quarto de Josephine mas hesitei ao ouvir a voz de Taverner me chamando do corredor.
—Venha cá — disse ele. — Eu estou no
quarto da menina. Você já viu coisa igual?
Eu cheguei à porta e parei estarrecido. O pequeno quarto parecia que recebera a
visita de um furacão. As gavetas da cômoda estavam puxadas e seu conteúdo esparramado pelo chão. O colchão e as cobertas tinham sido arrancados da caminha. Os tapetes estavam empilhados. As cadeiras estavam de pernas para cima, os quadros arrancados das paredes, as fotografias arrancadas das molduras.
— Deus do Céu! — exclamei — Que foi isto? —O que é que você acha? —Alguém estava procurando alguma coisa. —Exatamente.
Eu dei uma olhada em torno e assobiei. —Mas quem poderia ter... Certamente
ninguém poderia entrar aqui e fazer esta bagunça sem que fosse ouvido... ou visto?
—Por que não? A Sra. Leonides passa a
manhã inteira no quarto, fazendo as unhas e telefonando para as amigas e brincando de experimentar suas roupas. Philip senta-se na biblioteca enfiado nos livros. A empregada está na cozinha descascando batatas e cortando vagens. Numa família em que cada um conhece os hábitos dos outros isso seria muito fácil. E eu lhe digo uma coisa. Qualquer um desta casa podia ter feito este trabalhinho... ter preparado a armadilha para a menina e revistado seu quarto. Mas era alguém que estava com pressa, alguém que não teve tempo de dar uma busca minuciosa.
—Qualquer um da casa, você acha? —Sim, eu já chequei todos. Cada um tem
um tempinho que não pode provar onde estava. Philip, Magda, a empregada, sua moça. Lá em cima a mesma coisa. Brenda passou a maior parte da manhã sozinha. Laurence e Eustace tiveram meia hora de recreio — das dez e meia às onze... você esteve com eles parte deste tempo... mas não o tempo todo. A Srta. de Haviland estava no jardim sozinha. Roger estava em seu estúdio.
—Então somente Clemency estava em
Londres no trabalho.
—Não, nem ela saiu hoje. Ficou em casa o
dia todo com dor de cabeça; estava sozinha no quarto com a sua dor de cabeça! Qualquer um deles... qualquer um desses desgraçados! E eu não sei qual deles! Não tenho idéia. Se eu soubesse o que é que eles estavam procurando aqui...
Seus olhos deram a volta do quarto
desarrumado.
—E se eu soubesse se eles encontraram o que
queriam...
Algo estalou em minha cabeça — um
pensamento...
Taverner interrompeu-o ao me perguntar: —O que é que esta menina estava fazendo
quando você a viu pela última vez?
—Espere — disse eu. Saí do quarto às pressas e subi as escadas.
Passei pela porta da esquerda e fui até o andar de cima. Empurrei a porta da sala das cisternas, subi os dois degraus e, baixando a cabeça porque o teto era muito baixo e sujo, dei uma olhada em torno.
Josephine dissera quando eu lhe perguntara
o que ela estava fazendo ali que ela estava “procurando pistas”.
Eu não sabia o que ela podia estar
procurando naquela sala cheia de teias de aranha e tanques cheios d’água. Mas uma tal peça daria um bom esconderijo. Considerei provável que Josephine tivesse escondido alguma coisa por ali, alguma coisa que ela sabia muito bem que não era da sua conta. Se assim fosse, eu não deveria levar muito tempo para encontrar.
Só levei três minutos. Enfiado por detrás do
tanque maior, de onde saía um assobio sibilante que acrescentava uma nota fantasmagórica à atmosfera, eu encontrei um maço de cartas enroladas num pedaço de papel pardo.
Li a primeira carta:
Oh, Laurence — meu querido, meu único e
verdadeiro amor... Foi maravilhoso a noite passada quando você citou aquele verso de poesia. Eu sabia que era dirigido para mim, apesar de você nem me ter olhado. Aristide disse: “Você lê versos muito bem”. Ele não adivinhou o que ambos estávamos sentindo. Meu querido, eu tenho certeza de que brevemente tudo vai dar certo. Nós poderemos alegrar-nos que ele não tenha sabido nunca e que morreu feliz. Ele foi bom para mim. Eu não quereria que ele sofresse. Mas eu não penso mes-mo que se possa retirar algum prazer da vida depois dos oitenta anos. Eu não quereria! Breve nós estaremos juntos para sempre. Como vai ser maravilhoso quando eu puder dizer a você: meu marido adorado... Meu amor, nós fomos feitos um para o outro, eu te amo, eu te amo, eu te amo — eu sei que nosso amor não tem fim, eu...
Havia muito mais, mas eu não quis continuar. Fazendo uma careta, desci as escadas e
joguei o pacote nas mãos de Taverner.
—É possível — disse eu — que fosse isto o
que o nosso amigo desconhecido estivesse procurando.
Taverner leu alguns trechos, assobiou e
remexeu entre as várias cartas.
Então foi que olhou para mim com a
expressão de um gato que acabava de ser alimentado com o melhor dos cremes.
—Bem — disse ele mansamente, — isto
liquida as esperanças da Sra. Brenda Leonides. E também as do Sr. Laurence Brown. Então eram eles, o tempo todo...