A indexação de livros: a percepção de catalogadores e usuários de bibliotecas universitárias

7 A indexação na catalogação de livros em bibliotecas universitárias: aplicação, educação e futuro

7 A indexação na catalogação de

livros em bibliotecas universitárias:

aplicação, educação e futuro

 

Mariângela Spotti Lopes Fujita

A proposta que uniu quatro pesquisadores nesta pesquisa é baseada na visão de que os catálogos devem melhorar a recuperação por assunto de seus usuários locais e a distância adotando a indexação na catalogação de livros. Para isso, o objetivo comum das pesquisas foi o estudo do contexto de indexação na catalogação de livros em bibliotecas universitárias com abordagem sociocognitiva para análise de procedimentos, dificuldades e de percepções de catalogadores, bibliotecários de referência, dirigentes de bibliotecas, usuários pesquisadores e usuários alunos de graduação como participantes da coleta de dados.

O fato surpreendente da análise dos resultados obtidos das várias percepções dos participantes da coleta de dados é que existem pontos de vistas coincidentes sobre a inexistência de procedimentos para análise e representação de assuntos de livros, a incompatibilidade da linguagem documentária e problemas de recuperação por assunto do catálogo. Isso é revelador de que todos os participantes, incluindo usuários, têm conhecimento de que existem problemas que precisam ser solucionados com propostas fundamentadas e sistematizadas.

A indexação na catalogação é a proposta desta pesquisa, considerando-se necessário que os catálogos possibilitem a recuperação por assuntos mais precisa e específica. Essa proposta, embora seja a ideal sob vários pontos de vista qualitativos, poderá ser de difícil implantação caso não haja o empenho político de dirigentes, educadores e usuários, tendo em vista que rompe com esquemas do trabalho profissional do catalogador para introduzir mais um processo dotado de sistematização própria, instrumentos de representação e normas. Nesse sentido, é preciso pensar nas condições profissionais do catalogador, que atualmente faz a representação descritiva de livros, a começar pela característica do software que adota um formato de metadados, e a isso se articula a adoção de padrões para registros bibliográficos com base em códigos, normas e procedimentos. Enfim, o catalogador está sujeito a uma realidade de trabalho que impõe um con-junto de procedimentos, normas, códigos e regras de padronização para que seja possível não só a transferência de dados, mas também o compartilhamento. Aliada a essa realidade profissional está a situação do reduzido quadro de catalogadores por biblioteca, o acúmulo de trabalho e a pressão de tempo para o processamento de grandes quantidades de livros, restrições estas que conduzem o catalogador a encontrar na cópia de registros pela catalogação cooperativa a solução para a economia de tempo e a deixar de lado a importância de realizar a análise e representação de assuntos.

A realidade profissional na catalogação de assuntos foi investigada por Šauperl (2002, p.164-5) em três bibliotecas universitárias norte-americanas com doze catalogadores, e suas considerações finais dizem respeito às dificuldades do trabalho do catalogador por causa de "intricadas políticas e regras de catalogação, porque catalogam em muitas e diferentes áreas de conhecimento, porque instrumentos de catalogação não oferecem muito suporte, e por causa da pressão de tempo e produtividade".

Em resultados recentes obtidos de um diagnóstico realizado com bibliotecas nacionais da América Latina, Fujita & Gil Leiva (2009) constataram que a inexistência de política de indexação deve-se à falta de pessoal.

O desafio maior, portanto, não é o da aceitação do catalogador pela introdução da indexação em sua rotina de trabalho, pois nos relatos e análises das pesquisas em capítulos anteriores (4, 5 e 6) ele tem consciência do problema e quer resolvê-lo. A questão que fica pendente em torno da proposta são as condições de trabalho a serem adequadas em função da necessidade de incluir a indexação na catalogação que, a nosso ver, estão atreladas à discussão de uma política de indexação para bibliotecas que conduza decisões administrativas promotoras de mudanças em razão da qualidade e especificidade da recuperação dos catálogos.

O outro aspecto abordado nesta pesquisa diz respeito às perspectivas teóricas e metodológicas em torno dos processos de catalogação de assuntos e indexação que, embora tenham objetivos conceitualmente equivalentes, o de análise e representação de assuntos, possuem caminhos históricos, institucionais, teóricos e metodológicos diferentes.

Inicialmente, é pertinente mencionar que a catalogação de assuntos tem trajetória de prática profissional e de fundamentação teórica mais antiga do que a indexação, como mencionado no Capítulo 1, considerando-se a existência institucional das bibliotecas e a primeira publicação datada de 1876 de Charles Ammi Cutter com o objetivo de estabelecer regras para a formação de cabeçalhos alfabéticos de assuntos, que formariam catálogos alfabéticos de assunto.

A indexação como prática é mais antiga do ponto de vista da construção de índices alfabéticos, porém é mais recente tendo em vista a prática institucional da indexação com procedimentos de análise e representação de assuntos de conteúdos documentários em serviços de informação que passaram a produzir bases de

dados referenciais1 no início do século XX.

A indexação como processo de análise de assunto tem raízes teóricas e metodológicas ligadas à linha inglesa, e a catalogação de assunto, à linha norte-americana. Ambas tiveram desenvolvimentos próprios em ambientes institucionais e tipologias documentárias diferentes, além de áreas de assunto mais especializadas no caso da indexação. Assim, a indexação é realizada em serviços de indexação e resumos com artigos de periódicos e documentação científica em geral, e a catalogação de assuntos, em bibliotecas com livros e documentação publicada convencionalmente. Com o crescimento dos serviços de indexação e resumo em todo mundo e a importância das bases de dados para o desenvolvimento científico e tecnológico, cada vez mais se buscava o aprimoramento teórico e metodológico da indexação com o objetivo de melhorar a recuperação por assuntos.

A literatura sobre indexação e linguagens de indexação (tesauros) aumentou em quantidade e qualidade, comprovadas por estudiosos como Foskett, Lancaster, Austin, Farradane, Metcalfe, Aitchinson, Gilchrist e outros, além de normas como a ISO-5.693 e a ABNT-12.676. A indexação obteve avanços científicos qualitativos em processos, produtos e instrumentos, que foram muitas vezes avaliados pelo uso na consistência da indexação e recuperação por assuntos com farta literatura publicada de repercussão internacional na área de Ciência da Informação. Aliados a esse aspecto, os avanços científicos da indexação abriram mercado de trabalho para profissionais de outras áreas e produziram repercussões no ensino para formação inicial e continuada de bibliotecários, nas técnicas e normalização de análise e representação de assuntos e, especialmente, na recuperação por assuntos com mudanças nas interfaces de busca dos sistemas automatizados e, com certeza, influenciando os sistemas inteligentes de indexação de metabuscadores, como o Google e o Yahoo.

A repercussão dos avanços da indexação é notória também no comportamento informacional dos usuários como relataram os participantes usuários pesquisadores e alunos de graduação nos resultados desta pesquisa, que preferem a recuperação por assuntos assemelhada a uma base de dados ou a um metabuscador da web.

Por sua vez, a catalogação de assuntos, restrita ao ambiente institucional de bibliotecas, teve sua evolução atrelada às perspectivas técnicas da prática profissional do catalogador a partir das regras de Charles Ammi Cutter. Segundo Guimarães (2008), a catalogação de assuntos, assim como a indexação, são linhas teóricas do tratamento temático da informação (TTI); entretanto, considera que a primeira abordagem da catalogação de assuntos foi voltada diretamente para a atividade profissional em bibliotecas e sob forte influência da Escola de Chicago, que decorreu dos princípios de catalogação alfabética de Cutter e da tradição de cabeçalhos de assunto da Library of Congress, cuja ênfase reside no catálogo enquanto produto do tratamento da informação em bibliotecas. O avanço do catálogo manual como instrumento de recuperação da informação, conforme Guimarães (2008), teve contribuições teóricas importantes de Cutter, Coates e Kaiser na construção e organização de enunciados de assuntos para a formação de cabeçalhos de assunto, com destaque para autores como Olson, Berman e Šauperl, que atualmente contribuem para os estudos teóricos e metodológicos dessa linha.

Ressalte-se, ainda, a repercussão do movimento de catalogação cooperativa no mundo todo, das listas de cabeçalhos de assunto (atualmente tesauros), do catálogo on-line, dos códigos de catalogação sempre atualizados e dos metadados em formato catalográfico.

A evolução da principal lista de cabeçalhos de assunto, a Library of Congress Subject Headings (LCSH), em formato de um tesauro, considerada linguagem de indexação, é o exemplo mais característico de que existe uma tendência mundial de pensar a catalogação de assuntos com o rigor científico e metodológico da indexação para obter especificidade e precisão tanto na análise e representação de assuntos quanto na recuperação, pois os cabeçalhos de assunto, anteriormente pré-coordenados por catalogadores, não são necessários após a evolução dos catálogos manuais em catálogos on-line, que permitem buscas por qualquer palavra do assunto coordenado com outras palavras ou não.

Essas diferenças residem principalmente no fato de que a catalogação na biblioteca apresenta um conjunto de princípios firmados e reconhecidos mundialmente que fornecem padrões para a elaboração de registros bibliográficos, contribuindo para a construção da área da catalogação e para o intercâmbio de informações. Os serviços de indexação e resumo, por sua vez, não têm, e apresentam diferenças entre seus métodos para descrição e pontos de acesso e diferentes padrões.

Além disso, devem ser considerados os objetivos e funções de um catálogo e de uma base de dados; a estrutura e conteúdo de um registro bibliográfico do catálogo e da base de dados e a escolha e as formas de pontos de acesso.

Ainda segundo Fattahi (1998), a catalogação poderia aprender alguns princípios dos serviços de indexação e resumos, tais como pontos de acesso adicionais de autor. Finalizando seu artigo, o referido autor afirma que a uniformidade e a consistência são requisitos básicos para o controle e o acesso bibliográfico efetivo no ambiente global on-line e que a tendência crescente na integração, fusão e disponibilização de diferentes registros bibliográficos revela uma forte afirmação dos valores de consistência entre os diferentes tipos de bases de dados, o que ajudará o usuário a buscar de maneira mais fácil e eficiente entre a extensa gama bibliográfica.

A atual situação dos catalogadores, que copiam registros bibliográficos prontos de outras bibliotecas e que por isso não realizam a catalogação de assuntos, é bem diferente da época em que a evolução dos catálogos on-line não existia e que o catalogador fazia a catalogação original dos livros em sua biblioteca. Nesse período dos catálogos manuais, os bibliotecários faziam a catalogação de assunto e construíam catálogos topográficos de assunto com a finalidade de controle de vocabulário e uniformidade de cabeçalhos de assunto. As fichas catalográficas eram reproduzidas manualmente, conforme a quantidade dos cabeçalhos de assunto atribuídos para a representação de assuntos de cada livro. As fichas remissivas eram elaboradas e inseridas na mesma ordem alfabética de assuntos junto com as fichas catalográficas de assunto, para orientar o usuário na busca de assuntos equivalentes, associados ou hierarquicamente relacionados. Destes catálogos topográficos surgiram as listas de cabeçalhos de assuntos, que atualmente são pouco utilizadas. O processo de catalogação de assunto perdeu-se em meio à evolução da área de catalogação e dos catálogos on-line e evoluiu influenciada pelo processo de indexação.

Nesse sentido, fica a questão de como assegurar a qualidade da recuperação por assuntos na atual conjuntura de catalogação cooperativa por cópia de registros, pois não se trata somente de incluir a indexação, mas de assumir que mesmo realizando a cópia do registro, é necessário adequá-lo aos procedimentos de análise e representação de assuntos.

Essa questão e a situação de trabalho dos catalogadores, referida anteriormente, transformam a necessidade de recuperação por assuntos com mais especificidade e precisão em um desafio que não poderá ser enfrentado somente pelos catalogadores, porque depende de uma conjuntura formada por fatores administrativos, tecnológicos, educacionais, teóricos e metodológicos ligados a uma política de indexação a ser discutida por todos os envolvidos: dirigentes de bibliotecas, pesquisadores da área de Ciência da Informação, catalogadores, bibliotecários de referência, usuários pesquisadores, leitores e alunos.

A superação do problema a ser enfrentado por todos e principalmente pelo catalogador deve ser apoiada na vantagem de melhoria de recuperação por assuntos que a inclusão da análise e representação por assuntos da indexação proporcionará ao catálogo on-line. Aos usuários de bibliotecas universitárias interessa, além da recuperação por assuntos, a visibilidade e divulgação da produção científica pelo catálogo on-line, uma vez que o catálogo reúne todos os recursos de informação, incluindo textos completos de teses, dissertações, artigos, relatórios científicos e outros.

A proposta para o futuro é que as bibliotecas se reúnam em sistemas e organizem equipes que possam compartilhar decisões voltadas para a qualidade e consistência da indexação na recuperação de assuntos de seus catálogos baseados em condutas metodológicas que sejam coletivamente desenvolvidas e descritas em manual de indexação, à exemplo de serviços de indexação e resumo que funcionam em sistema de cooperação para a produção de bases de dados referenciais. Nesse sentido, a experiência de sistemas de bibliotecas universitárias em inserir processos de indexação e adotar uma política de indexação descrita em manual de indexação é importante para estudos de avaliação contínua de recuperação por assuntos. Do mesmo modo que é fundamental a participação dos pesquisadores em Ciência da Informação no desenvolvimento de pesquisas dedicadas ao aprimoramento de catálogos on-line no que tange ao processo de análise e representação de assuntos para a recuperação e também para estudos métricos ligados à visibilidade científica brasileira e internacional.

Do ponto de vista educacional, entendemos ser imprescindível que o catalogador, em sua formação inicial e continuada, possa ter conhecimento do contexto de catalogação em bibliotecas, examinando os procedimentos, instrumentos, regras e condutas utilizadas na análise e representação de assuntos de livros pela indexação, observando o funcionamento do catálogo pela recuperação por assunto e o comportamento informacional do usuário. Nesse sentido, recomendamos que a indexação como processo de análise e representação de assuntos não seja dissociada do ambiente de bibliotecas nos conteúdos curriculares. Acreditamos que as análises dos relatos verbais dos participantes da pesquisa, usuários, catalogadores, dirigentes de bibliotecas e bibliotecários de referência devem ser consideradas no ensino, pois foram suficientes para demonstrar o contexto sociocognitivo do catalogador, assim como revelaram claramente o que pensam sobre os problemas desse contexto, como seria possível resolvê-los e quais os instrumentos e métodos necessários.

 

Referências bibliográficas

FATTAHI, R. Library cataloguing and abstracting and indexing services: reconciliation of principles in the online environment? Library Review, Bradford, v.47, n.4, p.211-16, 1998.

FUJITA, M. S. L.; GIL LEIVA, I. Política de indización en latinoamerica. In: Avances y perspectivas en sistemas de información y documentación. Zaragoza: Universidad de Zaragoza, 2009. (Aceito para publicação).

GUIMARÃES, J. A. C. A dimensão teórica do tratamento temático da informação e suas interlocuções com o universo científico da International Society for Knowledge Organization (ISKO). Revista Ciência da Informação, Brasília, v.1, p.77-99, jan./abr. 2008.

ŠAUPERL, A. Subject determination during the cataloging process. Lanham: Scarecrow Press, 2002.

1 O Chemical Abstracts foi a primeira base de dados referenciais produzida por serviços de indexação e resumos, em 1907.