A Invenção do Dia Claro

José de Almada Negreiros · Capítulo 15 de 30

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A Invenção do Dia Claro

+Confidencias+

Quando olharam para traz, a Cruz da encruzilhada já estava muito longe. Era necessario acertar a vista para a reconhecer. Mas, era

sem duvida ella, a cruz inconfundivel—aquella onde cabe um homem inteiro e de pé!

 

+FIM DA PRIMEIRA PARTE+

 

+CONFIDENCIAS+

 

Mãe! a oleografia está a entornar o amarello do Deserto por cima da minha vida. O amarello do Deserto é mais comprido do que um

dia todo!

 

Mãe! eu queria ser o arabe! Eu queria raptar a menina loira! Eu queria saber raptar.

 

Dá-me um cavallo, mãe! Até á palmeira verde esmeralda! E o

anel?!

 

A minha cabeça amollece ao sol sobre a areia movediça do

Deserto! A minha cabeça está molle como a minha almofada!

Ha uns signaes dentro da minha cabeça, como os signaes do

Egypcio, como os signaes do Phenicio. Os signaes d'estes já teem antecedentes e eu ainda vou para a vida.

 

Não ha muros para que haja estrada! Não ha muros para pôr cartazes! Não está a mão de tinta preta a apontar—por aqui!

 

Só ha sombra do Sol nas larangeiras da outra margem; e todas as

noites o somno chega roubado!

 

Mãe! As estrellas estão a mentir. Luzem quando mentem. Mentem

quando luzem. Estão a luzir, ou mentem?

 

Já ia a cuspir para o ceu!

 

Mãe! a minha estrella é doida! Coube-me nas sortes a Estrella-

doida!

 

Mãe! dá-me um cavallo! Eu já sou o gallope! Ha uma palmeira,

Mãe!

O que quer dizer um anel? Tem uma esmeralda.

 

Mãe! eu quero ser as trez oleografias!

 

* * * * *

 

Mãe!

 

Em cima das estatuas está o verbo ganhar, Mãe! será para mim?

Quando passo pelas estatuas fico parado. A olhar para cima das

estatuas. Fico parado a subir. Não sei quem me agarra para me levantar ao ar. Agarram-me por debaixo dos braços para me

levantar ao ar. Para eu ver o verbo ganhar em cima das estatuas.

 

* * * * *

 

Mãe! eu não sei nada! Eu não me lembro de nada!

 

Ah! lembro-me!

 

Lembro-me de ter ajudado a levar pedras para as pyramides do

Egypto!

 

Tambem me lembro de me ter chamado José, antigamente, com meus irmãos e uma mulher!

 

Mãe!

 

Estou a lembrar-me! Tu já fôste a menina loira! Eu já fui o menino verdadeiro a quem tu davas de mamar! Eu já estive comtigo na

terceira oleografia!

 

Lembro-me exactamente! Quando tu me beijavas, o sol não doía tanto na minha pelle!

 

Mãe!

 

Estou a lembrar-me!

E as tardes quando iamos todos juntos soltar palavras no caes e

vêr chegar mais laranjas!

 

Outras vezes juntavamo-nos na praia para nadar melhor do que os outros e deixar o sol queimar quem mais merecêsse. Já as

laranjas estavam contentes com o que chegasse primeiro! O melhor jovem ganhava a melhor rapariga. Os outros sabiam aquella que

tinham ganhado. Eu tinha ganho a minha!

 

De uma vez, quando deixavamos o caes, entornou-se o cêsto das

tangerinas. Foi a alegria! E uma das raparigas pôz-se a cantar o succedido ás tangerinas a rolar pró mar:

 

tam

tam-tam

tanque

estanque

tangerina bola

tangerina boia

tangerina ina

tangerininha

pacote rôto

batuque nú

quintal da nóra

e o dique

e o Duque

e o acqueducto

do Cúco

Rei Carmim

e tamarindos

e amarellos

de Mahomet

alli

e lá

e acolá

…

 

* * * * *

 

Mãe!

 

Vem ouvir a minha cabeça a contar historias ricas que ainda não viageie. Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta côr

de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!

 

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

 

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sêde! Eu prometo saber viajar.

 

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cór os degraus da nossa casa. Depois venho

sentar-me a teu lado. Tu a cosêres e eu a contar-te as minhas viagens, aquellas que eu viagei, tão parecidas com as que não

viagei, escritas ambas com as mesmas palavras.

 

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a

meza. Eu tambem quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a meza.