A Invenção do Dia Claro

José de Almada Negreiros · Capítulo 22 de 30

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A Invenção do Dia Claro

+Retrato da Estrella que Guiou o Filho Prodigo na Volta Á Casa Paterna+

Vi as coisas do ar que havia, as coisas que estavam focadas com

o ar de hoje. As lembranças já estão inteiras, muito poucos os minutos falsos.

 

Fiz todas as horas do Sol e as da sombra. Ao chegar a noite

estive de accordo com o Sol no que houve desde manhã até ser bastante a luz por hoje. Depois veiu o somno. E o somno chegou a

horas. Antes do somno ainda houve uma imagem—um leão a dormir!

 

Na verdade, não ha somno mais bem ganho do que o de um leão

a dormir com restos de sangue ainda no focinho, como os leões de pedra que ha nas escadarias por onde se sobe depois da batalha!

 

+RETRATO DA ESTRELLA QUE

 

GUIOU O FILHO PRODIGO NA

 

VOLTA Á CASA PATERNA+

 

Na praia uma menina perguntou-me se eu era rico. Estava de gatas e muito longe, a perguntar-me se eu era rico.

 

* * * * *

Todas as manhãs ia brincar com os vizinhos para a sombra da

egreja.

Depois do almoço a sombra era do outro lado.

 

* * * * *

 

Quando as meninas corriam no jardim, os cabellos e os vestidos

ficavam para traz.

 

* * * * *

 

A rapariga das laranjas tinha uma linda voz para vender laranjas. As pessoas ficavam co'as laranjas na mão a ouví-la.

 

* * * * *

 

A larangeira ao pé da nóra já me conhecia—punha-se a fingir que

era o vento que a fazia mexer.

 

* * * * *

 

Acho mais sinceros os dias de chuva. Nos dias em que chove ponho me a pensar que não sou eu só que vivo arreliado. Depois, o

cheiro da terra molhada é que me faz de novo animar.

 

* * * * *

 

Ás vezes ponho-me a pensar em coisas que eu nunca vi. Naturalmente só ha muito longe, nas outras terras!

 

* * * * *

 

Estou a espera de ser grande para ver se o que eu penso é

verdade ou não. Se não fôr, mato-me!