A Invenção do Dia Claro

José de Almada Negreiros · Capítulo 25 de 30

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A Invenção do Dia Claro

Ao Joaquim Graça

 

+A FLOR+

 

—«Je travaille tant que je peux et le mieux que je peux, toute la

journée. Je donne toute ma mesure, tous mes moyens. Et après,

si ce que j'ai fait n'est pas bon, je n'en suis plus responsable; c'est

que je ne peux vraiement pas faire mieux.»

 

Henri Matisse.

 

Pede-se a uma creança. Desenhe uma flor! Da-se-lhe papel e lapis. A creança vae sentar-se no outro canto da sala onde não ha

mais ninguem.

 

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas n'uma direcção, outras n'outras; umas mais carregadas, outras mais leves;

umas mais faceis, outras mais custosas. A creança quiz tanta força em certas linhas que o papel quasi que não resistiu.

 

Outras eram tão delicadas que apenas o pezo do lapis já era

demais.

 

Depois a creança vem mostrar essas linhas ás pessôas: Uma flôr! ÁCERCA DA PINTURA DE CÉZANNE

As pessôas não acham parecidas estas linhas com as de uma

flôr!

 

Comtudo, a palavra flôr andou por dentro da creança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, á procura das linhas

com que se faz uma flôr, e a creança pôz no papel algumas d'essas linhas, ou todas. Talvez as tivesse pôsto fóra dos seus logares, mas,

são aquellas as linhas com que Deus faz uma flôr!