A Mão do Diabo

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 44 de 78

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A Mão do Diabo

Capítulo XLIII

"Qual é então o seu u plano?"

A pergunta de Raq quel foi feita com cepticism mo, como se lhe parecesse impossível quue uma situação tão compleexa como aquela pudesse ser resolvida ppor um simples historiador. Não Não era ela afinal a polícia profissional?

Sem perceber a descrença da agente da Interpol, Tomás deu meia volta e regressou ao corredor. Pegou no envelope, qu ue pousara sobre o estirador ao entrar no apartamento, e voltou à ssala. A espanhola ficara sentada no sofá e olhava-o sem entender na ada. O português ergueu o sobrescrito e mostmostrou uma das faces à sua interlocutora. sua interlocutora.

"Está a ver isto?"

 

Raquel inclinou-se na direcção do envelope e estudou as quatro linhas rabiscadas de um dos lados.

"Que raio de salganhada é esta?"

O historiador voltou o criptograma para si e deitou-lhe um olhar analítico, contemplando as múltiplas possibilidades que as suas linhas encerravam.

"É o enigma que o Filipe me deixou", explicou. "Presumo que contenha a referência ao paradeiro do famoso DVD que toda a gente procura. Se o decifrarmos, chegaremos a ele."

Raquel pegou no sobrescrito e estudou a charada; parecia-lhe demasiado confusa e sabia que seria incapaz de quebrar o segredo.

"Não serve para nada", concluiu com altivez, devolvendo-lhe o envelope. "Isto não vai lá com segredinhos de adolescentes..."

A forma sumária e categórica como a espanhola despachou o assunto deixou Tomás desconcertado, ou até acabrunhado. Segredinhos de adolescentes? Era assim que ela via a coisa? De certa forma tinha razão, a ideia de Filipe para aquele criptograma nascera das brincadeiras de ambos nos tempos do liceu, e em particular de quando queriam preencher o tempo livre nas férias. Mas, que diabo, se a charada contivesse a solução para o problema, por que razão não deveriam seguir a pista até ao fim?

"Se este caminho não lhe agrada", perguntou Tomás, "o que sugere então que façamos?"

O olhar luminoso de Raquel estava nesse instante fixo no infinito, como se a sua mente se encontrasse longe dali, ocupada com coisas bem mais importantes. De repente estremeceu, como se voltasse à sala ou ao presente.

"A Interpol vai ajudar-nos, claro."

O ecrã iluminou-se como se ganhasse vida e o computador emitiu um zumbido ao começar a funcionar. Raquel acabara de se dirigir ao quarto pequeno com uma escrivaninha que a sua colega ausente transformara em escritório e ligara o computador. A Internet estava acessível e a primeira página a aparecer-lhe foi o Google. Subiu à linha dos endereços, digitou a morada electrónica da Interpol e, instantes depois, conectou-se ao site da polícia internacional. Entrou na página dos funcionários, digitou a sua password e, para sua enorme surpresa, viu o acesso negado. Sem que nada fizesse, foi automaticamente reconduzida para uma página com Uma nota do seu chefe a mandar-lhe uma mensagem.

"Querem que entre em contacto com eles", disse, lendo a mensagem. "O mais depressa possível."

"Que quer isso dizer?"

A espanhola fechou o rosto e não respondeu; ter o acesso vedado à página dos funcionários da sua própria polícia deixou-a inquieta. Após reflectir durante um momento mudou-se para o site da Guardia Civil e dirigiu-se directamente para a página da actividade das últimas horas. A primeira coisa que viu quando a página ficou disponível foi a sua própria fotografia, ao lado de uma imagem de Tomás, e a informação de que ambos eram procurados por causa de um assalto a um banco e pelo homicídio de um guarda. Raquel permaneceu um longo instante pregada ao ecrã, vendo e recusando-se a acreditar.

"Está tudo louco! ", sussurrou, incrédula. Desviou o olhar atónito para Tomás, quase como se lhe pedisse que resolvesse o problema. "Já viu isto?", perguntou, fazendo um gesto impotente para as fotografias estampadas no ecrã. "Acusam-nos de termos assaltado o banco e de termos assassinado o guarda."

O português acenou afirmativamente; nada daquilo o surpreendia.

"Eu avisei-a."

O olhar da agente da Interpol saltitou sucessivamente entre o rosto de Tomás e o ecrã, quase como se esperasse que um dos dois, o historiador ou o computador, solucionasse o problema por artes mágicas. Mas ele não se resolveu assim e a realidade começou a assentar sobre Raquel.

"E agora?"

Fez a pergunta com a ansiedade de quem se sentia encurralada e acabava de tomar consciência de que tomara um caminho que não levava a parte alguma. Se a própria polícia internacional, para quem ela trabalhava e onde conhecia toda a gente, a riscara do mapa, que hipóteses na verdade tinham? Tudo aquilo lhe parecia incrível e reforçava a convicção de que enfrentavam forças muito poderosas, demasiado para as suas capacidades limitadas.

"E agora?", disse Tomás, ecoando a pergunta da espanhola e preocupado com o seu semblante derrotado. "Isso pergunto-lhe eu, você é que é a profissional. Qual é a sua análise da situação?"

A expressão de Raquel, de olhos esbugalhados e presos nele, roçava o pânico.

"Estamos perdidos."

A agente da Interpol passou a tarde sentada no sofá, prostrada pelo desânimo, o televisor ligado num canal de notícias mas a atenção a deambular por parte incerta, perdida no labirinto da armadilha que sobre eles se fechara.

Depois de sair para comprar comida numa mercearia do bairro, Tomás sentou-se ao lado dela no sofá e entregou-lhe uma chávena de café que tinha trazido da rua. Na televisão passava um noticiário com os preparativos para a cimeira europeia em Roma, onde supostamente se iria preparar mais um "pacote decisivo" que poria fim à crise das dívidas soberanas, e informações sobre a sessão preliminar do TPI, marcada para o dia seguinte em Florença e presidida pelo próprio presidente da Comissão Europeia. Depois vieram imagens de tumultos estudantis em Madrid e a seguir um acidente numa carretera qualquer, assunto que lhe pareceu desinteressante e o fez desviar a atenção para outras prioridades.

Foi ao escritório buscar uma caneta e um bloco de notas e, sempre acompanhado do envelope que Filipe lhe dera, voltou ao sofá e pôs-se a estudar o cript tograma escrevinhado no sobrescescrito.

"GOsanSEC não quer dizer coisa nenhum ma", murmurou, entabulando uma conveersa consigo mesmo. "Nem OTat+&AR nem qualquer das outras liinhas horizontais." Leu as linhas verticais, começando pela primei ira à esquerda. "GOHO." Pennsou na palavra. "Parece Soho, o bairro d de Londres ou Nova Iorque." Abanou a cabeça. "Mas é GOHO." Separou u a palavra. "GO HO? GO de e vai? Vai a HO? Hmm..." Passou à segun nda linha vertical. "OTEV." Pa arou aqui. O jogo entre vogais e consoan ntes sugeria de facto uma palavra. Leu ao contrário, de baixo para a cima. "VETO." Ora aqui est tava uma palavra. A solução seria ler de bbaixo para cima? Tentou com a primeira linha vertical. "OHOG." Depo is com a terceira linha verti ical. "SRas." Não, não podia ser essa a rot ta adequada. Aliás, era até de emasiado simples e Filipe jamais escolheria a uma solução tão elementar. . "Hmm... e se..."

Sentada ao lado dele, Raq ele, Raquel pareceu despertar.

"Que está você a fazer?" azer?"

As múltiplas hipótes ses cruzavam-se na mente do historiador, como se a charada fosse um imenso Sudoku, mas desfize eram-se como uma nuvem de vapor quando se s uando se sentiu interpelado.

"Eu?" Indicou as quatro linhas enigmáticas garatujadas no sobrescrito. "Estou a decifrar isto, u a decifrar isto, claro."

"Está a perder o seeu tempo", resmungou ela. "Não é assim que resolvemos o nosso problema." ma."

O português virou-sse para ela com um sorriso a aaflorar-lhe o rosto.

"Está enganada", sentenciou, deixando tra ansparecer mais confiança do que aquela que verdadeiramente sentia. "Está aqui a nossa salvação."

A forma categórica como falou pareceu emprestar algum ânimo à agente da Interpol. Raquel pousou os olhos felinos no criptograma, uma ténue luz de esperança a acender-lhe o rosto.

"Descobriu alguma coisa?"

Tomás abanou a cabeça e concentrou-se de novo na charada.

"Ainda não", reconheceu. "Mas tenho a certeza de que

vou desvendar a mensagem aqui escondida."

"Como pode ter a certeza? Isso parece tão... tão estranho..."

O historiador riu-se.

"Tenho a certeza porque sou bom no que faço."

A agente da Interpol fez uma careta e, brincalhona, deitou-lhe a língua de fora.

"Convencido! "

Tomás ia responder, mas deteve-se e ficou a observá-la, Os olhares de ambos presos um no outro, verde-berlinde com verdeesmeralda, ele a desfazer o sorriso, ela a recolher a língua mas não totalmente, os lábios entreabertos e molhados, as chamas a acenderem-se e a transformarem-se num incêndio.

Caíram um no outro.