A Mão do Diabo
Capítulo LXXV
Apesar de se tratar de um albergue de terceira categoria situado numa ruela perdida nas vizinhanças do Duomo, para alguém que como Tomás passara as duas últimas noites a dormir sentado, a primeira num camião e a segunda num comboio, a apresentação limpa e arrumada e o conforto do quarto davam a impressão de que se encontrava no mais luxuoso dos hotéis de Florença. O Ritz não lhe pareceria melhor.
Depois de tomar banho, o primeiro desde que saíra do seu apartamento em Lisboa para visitar a mãe em Coimbra, dois dias antes, estendeu-se na cama e sentiu os olhos pesarem; sabia que dormiria profundamente nessa noite. Havia uma coisa, porém, que precisava de fazer antes de adormecer. O seu olhar desviou-se para o mostrador digital do relógio pousado sobre a mesinha-de-cabeceira.
Duas e meia da manhã.
Não era propriamente a melhor hora para ligar a ninguém, pois não? O assunto, no entanto, era da máxima urgência e não ficaria descansado enquanto não o resolvesse. A confusão das últimas quarenta e oito horas mantivera-o de tal modo ocupado que não tinha tido oportunidade de lidar com a questão, mas agora que deixara de ter perseguidores no encalço e dispunha enfim livremente de acesso aos meios de comunicação, precisava de resolver as coisas.
Agarrou no telefone do quarto e digitou os algarismos no teclado, começando pelo indicativo internacional, zero zero, depois o de Portugal, três cinco um, e a seguir o número.
O sinal de chamada tocou três vezes.
"O Lugar do Repouso, boa noite."
Atendeu uma voz feminina estremunhada, com certeza a funcionária encarregada do turno da noite.
"Boa noite, minha senhora", disse com voz mansa, consciente de que a hora não era a melhor. "Peço desculpa por estar a ligar tão tarde. Sou o filho da dona Graça Noronha, uma das pessoas alojada aí no lar. Sabe dizer-me se a minha mãe está bem?"
Ouviu o que parecia um bocejo do outro lado da linha. "Sim, com certeza", foi a resposta da mulher, visivelmente fatigada. "Porquê?"
"É que... bem, havia um problema com o pagamento da mensalidade e foi-me dado um prazo até esta noite para regularizar a situação, senão... senão ela seria expulsa às oito da manhã de amanhã. Sabe dizer-me como está isso?"
"Sou a auxiliar de serviço, não sei nada sobre essas coisas. Se é para questões administrativas, terá de ligar amanhã de manhã."
"Pois, justamente, amanhã de manhã poderá ser demasiado tarde porque ela... enfim, será expulsa, não é? Queria tratar do assunto antes que isso acontecesse, como decerto compreenderá."
"Como lhe disse, sou a auxiliar de serviço", retorquiu a mulher, a impaciência a espreitar-lhe na voz. "Para questões administrativas ligue amanhã de manhã, se faz favor."
A pessoa do outro lado da linha começava a parecer uma gravação. Tomás percebeu que com ela não resolveria o problema.
"Tem por acaso o contacto da senhora directora?" "A doutora não está."
"Sim, com certeza. Mas tem o contacto dela?" A mulher hesitou.
"Não se telefona à senhora doutora a uma hora destas", acabou por dizer, empertigando-se. "Faça o favor de ligar amanhã."
Não estava a ser fácil conseguir a cooperação daquela alma.
"Tem toda a razão", disse Tomás, sempre com a voz dócil. "O problema, como decerto compreenderá, é que queria evitar que a minha mãe amanhã fosse posta na rua. Daí a minha urgência em falar com a doutora Maria Flor..."
"Ligue amanhã."
O historiador massajou o couro cabeludo com a ponta dos dedos, como se tivesse esperança de assim arranjar ideias que lhe permitissem convencer aquela casmurra.
"Oiça, não haverá mesmo nenhuma maneira de..." "Ligue amanhã, já lhe disse! "
Esta última frase foi disparada de forma mais ríspida, como se a mulher indicasse, e não com subtileza, que estava a atingir o limite da paciência.
Tomás suspirou.
"Pronto, está bem. Muito obrigado."
Desligou o telefone e ficou de olhar perdido na janela. Por cima dos telhados podia ver a cúpula iluminada do Duomo, mas a última coisa naquele momento presente no seu pensamento eram as maravilhas arquitectónicas de Florença. Agora que resolvera a inopinada situação em que se metera, precisava de desatar o nó que envolvia a mãe no Lugar do Repouso antes que ela fosse expulsa, mas a hora e a distância pareciam acorrentá-lo ainda.
A verdade é que não havia maneira de se assegurar de que as suas contas bancárias já estavam desbloqueadas. Com toda a certeza as autoridades não tinham tido tempo para resolver esse problema. Suspeitava até que teria de meter uns requerimentos em Lisboa e envolver-se numa complicada burocracia até conseguir superar a dificuldade. Assim sendo, de que lhe valeria falar com Maria Flor? A directora tornara muito claro que os proprietários não queriam conversa, mas o dinheiro em falta. E acesso ao seu próprio dinheiro era o que ele, bem vistas as coisas, ainda não tinha.
Nessas condições, a única coisa que poderia fazer era ir buscá-la ao lar e tratar dela enquanto o bloqueio das contas bancárias não se resolvesse. O problema é que ele se encontrava em Florença e, mesmo que apanhasse o primeiro voo da manhã, apenas poderia ter a esperança de chegar a Lisboa ao princípio da tarde, uma vez que de permeio teria de apanhar um voo de ligação, pelo que só chegaria a Coimbra umas duas horas depois. No entretanto, só Deus sabia o que aconteceria à mãe. Como poderia sair daquela alhada?
Um toque na porta interrompeu-lhe os pensamentos. Estranhando uma visita a hora tão imprópria, enrolou-se na toalha de banho, abriu a porta e espreitou para o corredor.
"Posso?"
Era Raquel.
"Passa-se alguma coisa?"
A bela espanhola, que se encontrava envolvida num roupão branco, tirou as mãos de trás das costas e exibiu uma garrafa de espumante italiano e dois copos.
"Trouxe isto para comemorarmos", disse ela com um sorriso juvenil. "Terminou o nosso pesadelo e parece-me uma óptima razão para improvisarmos uma pequenita fiesta, não achas?"
Tomás abriu totalmente a porta e, com um gesto, fez-lhe sinal de que entrasse.
"Vamos a isso."
A agente da Interpol invadiu-lhe o quarto e encheu os copos de champanhe.
"Qué pasa? Estás com cara de caso."
"É a minha mãe. Ando preocupado com ela."
"A tua mãe?", admirou-se a espanhola. "Aconteceu-lhe alguma coisa?"
O historiador sacudiu a cabeça; explicar a situação da mãe parecia-lhe muito complicado e até inútil, uma vez que Raquel não o poderia ajudar.
"Não aconteceu nada", disse. "Esquece." Pousou o olhar nos copos que ela acabara de encher e, esforçando-se por deixar as preocupações de lado, até porque nada poderia resolver nesse instante, tentou animarse. "Então, esse champanhe?"
A visitante estendeu-lhe o copo dele e depois ergueu alto o seu.
"Salud! "
"Tchim-tchim! "
Tomás tinha sede e, fechando os olhos, engoliu todo o champanhe do copo de uma só vez. Quando reabriu as pálpebras quase deixou cair o copo. O roupão de Raquel escorregara até aos pés e ela estava nua diante dele, o corpo sinuoso e bem desenhado, o peito arrebitado e ofegante, os grandes olhos verde-esmeralda a cintilarem.
"A fiesta tem banquete", ronronou ela, deslizando para a cama e abrindo os braços convidativos. "Faz-me o que devias ter feito naquela sala de demónios, cariño..."
"O champanhe não estava mal", murmurou o português, contemplando o corpo bem desenhado da mulher, "mas o prato principal parece de arromba! "
Com um gesto rápido e uma gargalhada travessa, a espanhola agarrou a toalha que o cobria e puxou-a, desnudando-o também.
"Hola! ", exclamou ela, arregalando os olhos perante o que via. "Também não me posso queixar..."
Tomás deixou-se resvalar para a cama e, como um náufrago, afundou-se num abraço feito de gemidos e suspiros, sentindo a carne quente e palpitante da mulher, a pele aveludada a tornar-se leitosa e arredondada nos seios e nas nádegas, a garganta a arquejar de volúpia, os olhos entreabertos de desejo, as entranhas húmidas e sequiosas, os corpos a contorcerem-se no dueto de um movimento sincronizado, os lábios molhados entreabertos com sofreguidão, gulosos e glutões, as línguas sôfregas a digladiarem-se numa refrega sedenta, imitando os corpos na gula insaciável de amantes que se descontrolavam e perdiam numa sinfonia de vagidos ofegantes, espada a penetrar em carne, pedra áspera na almofada de seda, gelo no fogo, uma dança de ritmo crescente, primeiro devagar, a fruir
o toque, a saborear a lenta doçura do instante, depois a ganhar velocidade à medida que o corpo pedia mais e mais, como uma locomotiva a acelerar, a bigorna a bater em ferro em brasa, o...
"Não! ", disse ele de repente. "Não! "
Saiu dela e rolou para o lado.
Raquel abriu os olhos, apanhada de surpresa com a interrupção, na verdade sem entender o que sucedera.
"Qué pasa?", perguntou, alarmada e atarantada. "Que aconteceu? Porque paraste?"
De pálpebras cerradas, o português abanou a cabeça.
"Não."
Ela apoiou o cotovelo na cama e ergueu-se, observando-o para ver se estava tudo bem.
"Não, o quê?"
Tomás respirou fundo e abanou a cabeça.
"Desculpa, mas não posso", titubeou. "Não posso, não posso."
"Porquê? O que se passa?"
O português ergueu o braço e indicou a porta do quarto. "Tu não tens culpa, não é nada contigo, mas... preciso de ficar sozinho." A espanhola abriu a boca, sem saber o que pensar. "Estás a mandar-me embora?" "Sim, por favor", confirmou ele, sem vontade de se explicar. "Desculpa, mas não posso. Preciso de ficar só." Raquel saltou da cama e vestiu o roupão com gestos bruscos, a fúria a crescer-lhe no corpo e a indignação a enrubescer-lhe a face. "Cabrón de mierda", resmungou entre dentes, "hijo de puta, coro de maricón! "
Sem olhar para trás, saiu do quarto como um furacão e bateu a porta com violência. Enfim sozinho, Tomás enroscou-se na cama e puxou o lençol, ele próprio sem compreender o que fizera e porque o fizera. A única coisa que sabia é que, enquanto amava e beijava e penetrava aquela mulher que tão inesperadamente rejeitara, um rosto se lhe impusera com tal força que fora incapaz de prosseguir, uma cara materializara-se-lhe diante dos olhos, travara-lhe o corpo e obrigara-o a parar.
Maria Flor.