A Mão do Diabo

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 5 de 78

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A Mão do Diabo

Capítulo IV

O homem de bata branca aproximou-se de Tomás, observou-lhe as equimoses e disse umas palavras em grego. Antes que o português lhe pudesse explicar em inglês que era estrangeiro e não percebia grego, o professor Markopoulou interveio em seu socorro e falou com o médico. Os dois trocaram algumas palavras até que o arqueólogo se voltou para o seu colega.

"Tem aí duzentos euros?", perguntou. "Dê-lhe o dinheiro."

Tomás devolveu-lhe o olhar vazio, sem entender onde queria o professor Markopoulou chegar.

"Para quê?"

O grego fez um sinal com o polegar a indicar o médico. "Para que ele trate de si."

O historiador arregalou os olhos. "Perdão?", balbuciou.

"Pague ao médico."

Fez-se luz na mente de Tomás, ou pelo menos ele assim pensou. "Ah, isto é um hospital privado?"

"Não, é público."

O português ficou de novo desconcertado.

"E tenho de pagar duzentos euros para ser atendido num hospital público? Ena, as taxas moderadoras não são nada moderadas por estas bandas! ..."

O arqueólogo revirou os olhos, impaciente com a compreensão lenta do colega.

"Quais taxas moderadoras?! O dinheiro é para o médico, não é para o hospital."

O olhar de Tomás desviou-se para o homem de bata branca que aguardava pacientemente o desenlace do diálogo.

"Para o médico?", admirou-se mais uma vez. "Não estou a perceber..."

"É o suborno", esclareceu o professor Markopoulou. "Pague-lhe o suborno para ele tratar de si! "

O português fitou o colega e depois o médico e depois o colega de novo, atónito com o que acabara de escutar.

"Tenho de subornar o médico num hospital público para ele tratar de mim?! "

" Claro", devolveu o arqueólogo. "Aqui na Grécia é assim, não sabia? Chama-se fakelaki. Temos de pagar aos funcionários públicos por baixo da mesa se queremos que eles façam o seu trabalho."

Foram precisos ainda dois segundos para a situação entrar em pleno na consciência de Tomás. Quando por fim isso aconteceu, não fez mais perguntas. Meteu a mão no bolso, tirou duzentos euros e, com um gesto resignado, entregou-os ao médico.

A deslocação para a esquadra foi feita em silêncio na carrinha celular. A polícia tinha levado os manifestantes feridos para receberem tratamento no hospital, e, agora que haviam sido vistos e tratados, eram transferidos para o posto onde ficariam detidos até que um juiz os ouvisse.

"Não me diga que também é preciso subornar o juiz para ele nos julgar", gracejou Tomás, ainda impressionado com o que acontecera no hospital horas antes. "Só cá faltava mais essa! "

O professor Markopoulou nem levantou a cabeça.

"É natural que tenhamos de lhe pagar alguma coisa." O português fitou o colega, siderado.

"Está a falar a sério?"

O arqueólogo não se deu ao trabalho de responder e o silêncio regressou ao interior do carro celular. Escutavam-se lá fora sirenes sucessivas; eram as ambulâncias e os carros da polícia e dos bombeiros a passarem de um lado para o outro numa azáfama incessante. O dia havia sido movimentado e, apesar de a noite já ter caído, dava a impressão de que as coisas permaneciam agitadas.

"Parece que morreram três pessoas", acabou o professor Markopoulou por revelar. "Sufocadas no incêndio."

"Como sabe isso?"

"Ouvi os polícias no hospital. Os corpos foram levados para lá."

" E a mulher e a menina que retirámos do edifício? Safaram-se?"

O grego encolheu os ombros.

"Sei lá", disse com desprendimento fingido. "Mas acho que sim.

Os três m ortos são pessoas encontradas pelos bombeiros dentro do edifício, o que não foi o caso delas."

Tomás suspirou de alívio.

"Ainda bem que as duas se salvaram", observou, sentindo um peso sair-lhe de cima. "O curioso é que, em vez de nos darem os parabéns, estes tipos prenderam-nos. Irónico, hem?"

O professor Markopoulou levantou o olhar fatigado e contraiu o rosto num sorriso forçado.

"Talvez se os subornarmos eles nos dêem os parabéns", gracejou.

"Quem sabe?"

O carro celular travou com um guincho e imobilizou-se. Ouviram-se vozes lá fora e as portas abriram-se com grande fragor. Os polícias puxaram os detidos para o exterior e conduziram-nos para a esquadra. Depois de aguardar a sua vez num banco de madeira, Tomás foi chamado a dar os seus dados de identificação. Perguntaram-lhe o nome, pediram-lhe o passaporte e assentaram a informação num caderno.

"Oiçam, fui detido por engano", explicou o português. "Nem sou grego, como sabem. Ia apenas a passar na rua e..."

"Silêncio! ", cortou o graduado de serviço num inglês rudimentar. "Se tem explicações para dar, dê-as ao juiz. Não estou para conversas."

O graduado registou as derradeiras informações sobre a identidade do detido e quando terminou passou-o a um guarda. O polícia agarrou Tomás pelo braço direito e levou-o pelos corredores da esquadra até um sector cujas paredes eram formadas por grades do tecto ao chão, como nas jaulas dos jardins zoológicos. Inseriu a chave na fechadura de uma cela, abriu a porta e empurrou-o para o interior.

O português estava ainda a habituar-se ao novo ambiente quando o professor Markopoulou apareceu, atirado para a cela com mais dois homens. Ao todo havia umas dez pessoas apertadas num espaço estreito com dois beliches e uma sanita; a cela parecia ter sido concebida para apenas dois reclusos, mas a manifestação e os tumultos que se haviam seguido tinham deixado as esquadras a abarrotar.

" Como vão as coisas?", sussurrou Tomás ao recém-chegado. "Trataram-no bem?"

"Como uma princesa", retorquiu o grego num tom irónico. Passeou o olhar pela cela. "Vou é queixar-me desta suíte. Falta-lhe o jacuzzi."

O português não estava virado para o humor e não se riu; a situação era demasiado desagradável para isso. Fez um sinal com a cabeça a indicar os homens que os rodeavam.

"Já viu com quem nos puseram? São os tipos que começaram a confusão."

"Chiu! ", soprou o arqueólogo, preocupado com não chamara atenção. "São anarquistas. Não se meta com eles.

Tomás calou-se. Já os vira em acção e sabia que eram capazes dos actos mais extremos. Por causa do que haviam feito a meio da manifestação, três pessoas tinham morrido sufocadas e isso não parecia pesar-lhes na consciência.

"O que nos vai acontecer agora?", murmurou, desviando a conversa. "Irão apresentar-nos ao juiz?"

"Sim. Amanhã ou depois."

A informação surpreendeu o português.

"A sério? Teremos de passar uma noite aqui?"

"Pelo menos. Há demasiados detidos e meter esta gente toda em tribunal vai levar tempo. Precisamos de ter paciência."

"Acha que posso falar com a embaixada do meu país?"

"Só quando eles deixarem."O grego fungou, despreocupado. "Com tanto trabalho, suspeito que não será em breve."

O professor Markopoulou encostou-se à parede e escorregou até ficar de cócoras. A espera ia ser longa e não valia a pena desgastarem-se em pé. Percebendo que teria mesmo de ser paciente, Tomás seguiu-lhe o exemplo e deslizou para o chão até se acocorar ao lado do colega.

O jantar foi uma mistela tão intragável que o professor Markopoulou se recusou a comer. Em vez disso pôs duas notas de vinte euros nas mãos do graduado de serviço e pouco de pois o homem reapareceu com um saco de plástico e uma garrafa de branco. O vinho tinha um certo sabor avinagrado que o tornava insuportável para o paladar de Tomás, embora perfeitamente aceitável para os gregos que com ele partilhavam a cela, mas a comida constituiu uma agradável surpresa; eram duas doses de moussaka que lhe souberam ao empadão que a mãe lhe fazia na sua infância.

Na altura em que lambiam os restos do jantar obtido a custo de suborno o guarda abriu de novo a porta da cela e atirou mais um detido para o interior. Para surpresa de todos, o recém-chegado não tinha ar de ser um manifestante. Apresentava o cabelo louro despenteado e usava calções às riscas verticais azuis e brancas. O mais importante é que vestia um pólo branco desportivo com um emblema redondo e negro ao peito. Tratava-se do emblema da Mannschaft, a selecção de futebol da Alemanha.

A chegada do novo recluso desencadeou um burburinho na cela. Os anarquistas trocaram algumas palavras entre eles e um acabou por se dirigir ao loiro do pólo da Mannschaft.

"Deutsch?"

O olhar do recém-chegado iluminou-se ao compreender a palavra que o identificava.

"Jawohl."

A confirmação desencadeou um novo burburinho entre os restantes reclusos.

"O que estás aqui a fazer? Vieste juntar-te à manifestação?"

O alemão arrebitou uma sobrancelha, como se a simples sugestão fosse a coisa mais absurda que jamais escutara.

"Eu? Nem pensar! "

"Então porque te prenderam?"

"Dirigia-me ao Pártenon quando me deparei com uma multidão que atirava pedras contra as vitrinas e saqueava as lojas. De repente apareceu a Polizei e prendeu toda a gente que ali estava. De modo que fui apanhado enquanto me limitava a fazer turismo."

Trocaram-se na cela novas palavras em grego num tom agitado, inflamado até. A certa altura os anarquistas pareceram chegar a acordo e começaram a movimentar-se; de uma forma sub-reptícia, rodearam o alemão e cercaram-no.

"Isto vai acabar mal", sussurrou o professor Markopoulou, o alarme estampado no rosto. "Muito mal mesmo."

"Porquê? O que se passa?"

O olhar preocupado do arqueólogo grego desviou-se para o detido que momentos antes entrara na sala e depois para os homens que o rodeavam com esgares ameaçadores. "Estão a dizer que... que..." "Que o quê?"

O professor Markopoulou engoliu em seco, num esforço para recuperar a frase que lhe morrera na garganta. Quando retomou a fala, quase só lhe saiu um miado amedrontado.

"Que o vão matar."