A Mão do Diabo
Capítulo LXX
A descoberta de que o Magus daquela seita satânica era o próprio juiz Axel Seth deixou boquiabertos os procuradores do Tribunal Penal Internacional e os elementos da Interpol e dos carabinieri. A consternação generalizou-se entre os presentes.
"Juiz Seth?! ", exclamou a procuradora-geral Agnès Chalnot, incrédula. "É mesmo o senhor?"
Magus encolheu os ombros.
"O que faço no meu tempo livre é comigo", disse. "Que eu saiba não cometi nenhum crime. Se cometi, cabe-vos a vós prová-lo. Não me parece que seja tarefa fácil."
Os olhares dos dois procuradores saltaram do juiz para Tomás, o único que não parecia surpreendido com a identidade do Magus.
"O senhor sabia quem ele era, professor Noronha?" O historiador anuiu com um movimento da cabeça.
"O nome", disse. "Desde o princípio que o nome do juiz nomeado para este processo me chamou a atenção, em particular quando soube que foi ele que o escolheu. Retirou o apelido dos pais e pôs o nome Seth. Achei estranho e pensei cá para os meus botões: que tipo de pessoa faz uma coisa dessas?"
"Ora essa! ", protestou Axel Seth. "Já só faltava acusarem-me também por ter mudado de nome. O senhor não sabe que Seth é um nome bíblico? Seth era o terceiro filho de Adão e Eva e a palavra significa semente em hebraico. Como vêem, não há aqui nada de mal. Porque implicam agora com o meu nome?"
"É verdade que Seth é um nome bíblico", reconheceu o historiador. "Mas Seth é um personagem totalmente secundário no Génesis e praticamente irrelevante na narrativa das Escrituras. Porque diabo iria uma pessoa dar-se ao trabalho de mudar de apelido para adoptar um nome bíblico obscuro? Se mudasse o nome para Abraão ou Noé ou Moisés ou Jesus, tudo bem. Mas.... Seth? Porquê Seth? O que tinha Seth assim de especial? Lendo a Bíblia, percebemos que a relevância dessa personagem é praticamente nula. Foi isso que desde o início me fez espécie. Porque raio escolheu o juiz o nome Seth?" "E então?", quis saber a procuradora-geral, impacientando-se. "A que conclusão chegou?"
"Concluí que o Seth adoptado pelo juiz não podia ser o Seth do Génesis. Acontece que a mitologia egípcia tem um deus muito importante com o mesmo nome. Seth era a divindade egípcia da violência, da guerra e do caos, a encarnação do espírito do mal e o precursor do diabo. Seth remete para sethanismo, ou... satanismo."
Os procuradores arregalaram os olhos.
"Perdão?"
"O nome egípcio Seth está na origem do nome Satã, ou Satanás." Tirou do bolso o bloco de notas com o criptograma decifrado e dirigiu-se ao presidente da Comissão Europeia. "O senhor juiz lembra-se de, no final da sessão preliminar no Palazzo Vecchio, eu lhe ter mostrado nesta folha a mensagem de Filipe?"
Os olhos dos que se encontravam mais perto desviaram-se para a frase garatujada numa das páginas do bloco.
GO TO santa cross & SEARCH OVER SATAN 'S TOMB
"Sim", assentiu o juiz Seth. "E então?"
"Quando na basílica de Santa Croce percebi que esta mensagem apontava para o túmulo de Maquiavel, interroguei-me sobre os motivos que levaram Filipe a referir-se duas vezes a Satanás e a escrever Satan's tomb e não Devil´s tomb, como seria mais natural. No fim de contas, Maquiavel era conhecido por Il Diavolo, que se traduz por Diabo, Devil em inglês. Por que raio teria Filipe escolhido a palavra inglesa Satan e não a palavra Devil, como seria mais natural? Percebi então que ele estava a fazer uma ligação subtil entre Satan e Seth. A verdadeira chave do criptograma, para além de indicar o caminho para o DVD comprometedor, era nomear Seth como o seu perseguidor."
"Isso é tudo especulação! "
"O que explicava outro mistério", acrescentou o historiador, ignorando o seu inimigo. "Quando começou a ser perseguido, Filipe deveria ter procurado a ajuda da procuradora-geral Agnès Chalnot, no fim de contas a pessoa que o tinha contratado como investigador neste processo e sua natural protectora. Porque não o fez? O problema constituiu para mim um grande enigma, que só resolvi quando me apercebi de que o Satanás a que o criptograma se referia era na realidade o juiz Seth. Sabem, sempre estranhei a nomeação do presidente da Comissão Europeia para juiz deste caso. Cheirou-me a arranjinho. uma vez que Axel Seth mexera cordelinhos para presidir a este processo do Tribunal Penal Internacional de crimes contra a humanidade no escândalo da crise mundial, evidentemente de modo a melhor controlar o que nele era revelado, Filipe temera que a procuradora-geral do mesmo processo estivesse em conluio com o juiz. Filipe não tinha a certeza de nada, claro, mas não podia correr riscos. Daí que tenha evitado pedir ajuda à professora Agnès Chalnot, como era natural que tivesse feito."
A procuradora-geral baixou a cabeça.
"Pauvre Filipe! ", murmurou, consternada. "Imagino o que não deve ter passado..."
"O senhor tem muita imaginação, sim senhor", exclamou Axel Seth com sarcasmo. "Mas tudo isso não passa de conversa da treta, como bem sabe. Se não provar nada, e não provará, as suas palavras resumem-se a conjecturas doentias de uma mente delirante. Não terei dificuldade em arranjar quem o interne por patologia psicótica ou por qualquer outra coisa do género."
"Está a ameaçar-me?"
"Não, estou simplesmente a fazer uma previsão do que lhe vai acontecer."
As palavras do juiz, e na verdade toda aquela situação, deixaram os dois procuradores do Tribunal Penal Internacional muito pouco à vontade. Agnès Chalnot abeirou-se de Tomás.
"Desculpe, professor Noronha, mas deverei depreender que, quando veio falar comigo, já sabia que o juiz Seth era o... enfim, o principal suspeito?"
"Desconfiava. Só obtive a certeza final quando percebi que o criptograma se referia ao túmulo de Maquiavel." "Se desconfiava, porque não me disse nada?"
"Ninguém lança suspeitas sobre o presidente da Comissão Europeia, para mais juiz do processo no qual estamos envolvidos, sem ter certezas, não acha?"
A procuradora-geral não desarmou.
"Mesmo assim, poderia ter-me dito alguma coisa..."
Tomás fitou-a com intensidade, como a indicar que, se ela mentisse na resposta à sua pergunta, tal não passaria despercebido.
"Se lhe tivesse dito que suspeitava que a pessoa por detrás de tudo isto era o presidente da Comissão Europeia e JUIZ deste processo do TPI, teria aderido ao meu plano?"
A pergunta pareceu desarmar Agnès Chalnot.
"Zut, alors! ", exclamou ela, sem saber como responder. "Tenho de admitir que... enfim, não seria uma decisão fácil. Ninguém se atira a uma pessoa como o juiz Seth de ânimo leve, não é verdade?" Hesitou. "Mesmo que tivesse decidido avançar, reconheço que teria dificuldade em convencer o juiz Joossens a passar o mandado de captura. Provavelmente ele não o passaria."
A resposta pareceu satisfazer o historiador.
"Percebe agora porque optei pelo silêncio?", perguntou. Fez um gesto a indicar o presidente da Comissão Europeia. "Mesmo neste momento, e perante tudo o que se passou aqui, vocês hesitam em deter o juiz Seth. Se é assim em condições destas, imagine como seria se eu tivesse aberto o jogo todo..."
Axel Seth soltou Uma gargalhada sem humor.
"Eles hesitam porque sabem o que os espera se não conseguirem provar nada contra mim", sentenciou. "E a verdade, mon cher, é que vocês nada têm de concreto. Apenas umas especulações fantasiosas, nada que se sustente num processo judicial."
Tomás virou-se para o presidente da Comissão Europeia e lançoulhe um olhar sibilino, carregado de subentendidos.
"O senhor está esquecido de uma coisa, não está?"
A pergunta deixou o juiz incomodado. Axel Seth mudou a perna em que se apoiava, incapaz de conter a ansiedade que até esse momento conseguira reprimir.
"Está a falar de quê?"
"Esqueceu-se que eu vim a Florença à procura de algo que o Filipe aqui escondeu?"
O presidente da Comissão Europeia não tinha esquecido. Tratavase do ponto mais importante de todos, aquele que tudo provocara, e o assunto nem por um momento lhe saía da cabeça.
"O DVD", murmurou ele num tom neutro, esforçando-se por ocultar o tumulto que nesse instante lhe revoluteava no coração. "Onde está ele? Encontrou-o?"
Tomás meteu a mão no bolso da túnica e extraiu uni disco prateado, que exibiu provocatoriamente. "Infelizmente para si", disse com um sorriso largo, o olhar insolente cravado no seu inimigo. "Está aqui."