A reinvenção do desenvolvimento

Anete B. L. Ivo · Capítulo 1 de 8

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A reinvenção do desenvolvimento

Apresentação

 

Este livro resulta da pesquisa A Reinvenção do Desenvolvimento: agências multilaterais e produção sociológica contemporânea, cujo objetivo é analisar a circulação de ideias, a influência e as relações complexas entre as agências multilaterais e a agenda de pesquisas das Ciências Sociais, especialmente da Sociologia, nas duas últimas décadas. Ele representa a continuidade de esforços anteriores de pesquisa, com a produção de textos coletivos e individuais voltados para recompor o estado da arte da Sociologia do Desenvolvimento, inicialmente publicados no Dicionário Temático Desenvolvimento e Questão Social, São Paulo, Annablume (2013), e no Estado da Arte da Sociologia nos estudos sobre desenvolvimento, Brasília, IPEA (2014). Resulta de uma articulação entre professores pesquisadores de diferentes campos disciplinares, vinculados a programas de pós-graduação e a centros de pesquisas universitários, que buscam analisar e reconstruir os parâmetros do desenvolvimento e das Ciências Sociais no contexto contemporâneo, de uma perspectiva sociológica, política e das relações internacionais, com base numa agenda global formulada por várias organizações internacionais, especialmente em relação aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e a Agenda Pós-2015 das Nações Unidas.

Com essa publicação, pretende-se transcender o espaço restrito da pesquisa e da produção individual de cada pesquisador associado e possibilitar diálogos mais amplos, questionando as relações complexas e interdependentes entre as agências multilaterais (PNUD, Banco Mundial e outras) e as metas do desenvolvimento projetadas e pactuadas numa agenda global, na sua interface com a produção acadêmica da Sociologia, com governos e instituições da sociedade civil em diferentes temáticas: a governança; o desenvolvimento sustentável e povos indígenas; a problemática das cidades e dos assentamentos humanos pela urbanização crescente; o desenvolvimento humano; e as novas relações de cooperação entre países, no sentido Norte e Sul e na relação entre países do Sul na nova ordem global. Cada um desses estudos formula com autonomia novos questionamentos da perspectiva de cada área de conhecimento, revelando novas assimetrias entre os processos globais e nacionais prospectados.

A pesquisa A reinvenção do desenvolvimento foi apoiada pelo Edital Universal nº 14 do CNPq (2012) e contou com a colaboração de pesquisadores de distintas instituições e áreas de atuação. Com base em indicações metodológicas gerais da coordenação do projeto de pesquisa, cada pesquisador formulou seus estudos específicos com autonomia, valendo-se dos conhecimentos acumulados em suas trajetórias acadêmicas e em seus campos disciplinares de formação e pesquisa. A sintonia entre as proposições metodológicas da coordenação do projeto e as contribuições elaboradas pelos autores ofereceu a riqueza das abordagens – aqui reunidas, em caráter original –, abrindo novas interfaces e caminhos interdisciplinares no debate contemporâneo sobre desenvolvimento.

O caráter interdisciplinar da temática e da pesquisa exigiu um esforço adicional dos autores: o de articular suas experiências e conhecimentos num diálogo com a Sociologia, enriquecendo a análise e contribuindo para a renovação da agenda do desenvolvimento contemporâneo. O resultado delineia um novo regime de ação global, orientado para a mudança social e institucional, na pactuação de novos compromissos com temáticas tais como o enfrentamento da pobreza, os novos regimes de governança e desenvolvimento em diferentes escalas, o desenvolvimento sustentável e a agenda dos povos indígenas, a questão urbana e dos assentamentos humanos, os usos do desenvolvimento humano na produção sociológica mais recente e as relações de cooperação intergovernamentais entre países.

A originalidade desse projeto assenta-se em três perspectivas associadas. A primeira resulta do diálogo e da reconstrução interdisciplinar, ambos alimentados pelas dimensões conceituais do desenvolvimento postuladas pelas agências internacionais em diversos programas e escalas. Esse esforço exigiu um ir e vir constante das diversas disciplinas à produção sociológica em temas específicos. Uma segunda perspectiva inscreve-se numa visão analítica e crítica desses processos, sem adesão normativa aos prognósticos dessas organizações internacionais, visando a contribuir para a dinâmica sempre inacabada entre a pesquisa, a produção de conhecimentos, a política e um regime de ação para a mudança social, protagonizada por diversos agentes. Por fim, essas análises permitem observar, no plano da práxis, como se tecem as relações complexas e dialéticas entre a ciência, os atores e a política, considerando as organizações internacionais como agentes políticos globais em interação permanente com o setor público intergovernamental e a sociedade civil dos países e a comunidade acadêmica. Sabe-se, no entanto, que os resultados aqui apresentados têm caráter provisório, não pela natureza exploratória das análises, mas pelo caráter histórico do conhecimento nas Ciências Sociais, que, em interação com a realidade social, se modifica constantemente, interpelado no curso da sua própria ação pelas críticas, o que alimenta uma dialética continuada e reflexiva entre conhecimento, política e ação social global.

Ainda que essas pretensões pareçam ambiciosas, considerado o horizonte modesto desse projeto em termos de equipe e financiamento, sabe-se que os resultados vêm avançando progressivamente, abrindo-se a novas perspectivas e conhecimentos, propiciando uma aprendizagem no debate público e com as reflexões trazidas por interlocutores em diversos fóruns de discussão. Em que pesem os seus limites e a cautela sobre os alcances da pesquisa, os resultados apresentados alimentam e possibilitam novas perspectivas e dilemas das investigações no âmbito da interdisciplinaridade e das escalas entre a produção da Ciência Social e os processos globais.

Aos colegas que compartilham dessa iniciativa, e aos demais colegas que integraram etapas anteriores desse projeto expresso aqui meus agradecimentos pelas colaborações inestimáveis, tanto na pesquisa e no fomento como nesta publicação coletiva.

Como responsável coordenadora dessa investigação, minha dívida pessoal não se esgota com esses colegas, autores que colaboraram na discussão de aspectos da agenda do desenvolvimento sustentável em escala global e sua relação com a produção sociológica, sob inúmeras formas e estratégias. Cada pesquisador trabalhou com autonomia, fez escolhas, desdobrou e mobilizou recursos analíticos próprios para cada subtema do projeto (capítulos), dialogando com o desenho metodológico da pesquisa.

Quero manifestar um agradecimento especial à coordenação do Centro de Estudos e Pesquisas em Humanidades (CRH) e ao Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (PPGCS), ambos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia (FFCH-UFBA), que acolheram institucionalmente a execução desse projeto. Ao Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais e Cidadania da Universidade Católica do Salvador (PPPSC-UCSAL), instituição de vínculo da coordenação do projeto; ao Programa de Pós-Graduação e Pesquisas em Relações Internacionais (PPGRI) do Instituto de Humanidades, Artes e Ciência Professor Milton Santos (IHAC) da UFBA pela colaboração com esse projeto; ao Instituto de Psicologia (IPS) e à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UFBA, instituições acadêmicas de colaboradores deste livro, a todos nossos agradecimentos.

Faço uma especial menção a Mateus Santos Silva, doutorando na Universidade Federal de Minas Gerais, que participou no levantamento e sistematização dos dados dos grupos de pesquisa em 2012 (retomado em parte no segundo capítulo desse projeto), e a Maria Auxiliadora Alencar pelo apoio técnico durante toda a vigência do projeto.

Por fim, essa iniciativa não teria sido possível sem o apoio financeiro do CNPq e da Editora da UFBA (EDUFBA), que depositaram confiança no trabalho acadêmico desses pesquisadores na realização da pesquisa e deste livro. A todos e em nome de todo grupo e das instituições associadas, minha gratidão.

Salvador, 5 de agosto de 2016.

Anete B. L. Ivo

Coordenadora do Projeto