A Sociedade do Espetáculo

Guy Debord · Capítulo 12 de 14

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A Sociedade do Espetáculo

Capítulo IX - A ideologia materializada

Capítulo IX

 

A ideologia materializada

 

A consciência de si é em si e para si quando e porque ela é em si e para si para uma outra consciência

de si; quer dizer que ela não é senão enquanto ser reconhecido. (Hegel, Fenomenologia do Espírito.)

 

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A ideologia é a base do pensamento duma sociedade de classes, no curso conflitual da história. Os fatos ideológicos não foram nunca simples quimeras, mas a consciência deformada das realidades, e, enquanto tais, fatores reais exercendo, por sua vez, uma real ação deformada; tanto mais que a materialização da ideologia, que arrasta consigo o êxito concreto da produção econômica autonomizada, na forma do espetáculo, confunde praticamente com a realidade social uma ideologia que pôde talhar todo o real segundo o seu modelo.

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Quando a ideologia, que é a vontade abstrata do universal, e a sua ilusão, se encontra legitimada pela abstração universal e pela ditadura efetiva da ilusão na sociedade moderna, ela já não é a luta voluntarista do parcelar, mas o seu triunfo. Daí a pretensão ideológica adquirir uma espécie de fastidiosa exatidão positivista: ela já não é uma escolha histórica, mas uma evidência. Numa tal afirmação, os nomes particulares das ideologias desvaneceram-se. Mesmo a parte de trabalho propriamente ideológica ao serviço do sistema já não se concebe senão enquanto reconhecimento duma "base epistemológica" que se pretende para além de qualquer fenômeno ideológico. A própria ideologia materializada está sem nome, tal como está sem programa histórico enunciável. Quer isto dizer que a história das ideologias acabou.

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A ideologia, que toda a sua lógica interna levava à "ideologia total", no sentido de Mannheim, despotismo do fragmento que se impõe como pseudo-saber dum todo petrificado, visão totalitária, é agora realizada no espetáculo imobilizado da não-história. A sua realização é também a sua dissolução no conjunto da sociedade. Com a dissolução prática desta sociedade deve desaparecer a ideologia, o último contra-senso que bloqueia o acesso à vida histórica.

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O espetáculo é a ideologia por excelência, porque expõe e manifesta na sua plenitude a essência de qualquer sistema ideológico: o empobrecimento, a submissão e a negação da vida real. O espetáculo é, materialmente, "a expressão da separação e do afastamento entre o homem e o homem". O "novo poderio do embuste" que se concentrou aí tem a sua base nesta produção pela qual "com a massa dos objetos cresce (...) o novo domínio dos seres estranhos aos quais o homem está submetido". É o estádio supremo duma expansão que virou a necessidade contra a vida. "A necessidade de dinheiro é portanto a verdadeira necessidade produzida pela economia política, e a única necessidade que ela produz" (Manuscritos econômico-filosóficos). O espetáculo alarga a toda a vida social o princípio que Hegel, na Realphilosophie de Iena, concebe como o do dinheiro; é "a vida do que está morto movendo-se em si própria".

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Ao contrário do projeto resumido nas Teses sobre Feuerbach (a realização da filosofia na práxis que supera a oposição entre o idealismo e o materialismo), o espetáculo conserva ao mesmo tempo, e impõe no pseudoconcreto do seu universo, os caracteres ideológicos do materialismo e do idealismo. O aspecto contemplativo do velho materialismo, que concebe o mundo como representação e não como atividade, e que finalmente idealiza a matéria, está realizado no espetáculo, onde as coisas concretas são automaticamente senhoras da vida social. Reciprocamente, a atividade sonhada do idealismo realiza-se igualmente no espetáculo pela mediação técnica de signos e de sinais, que finalmente materializam um ideal abstrato.

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O paralelismo entre a ideologia e a esquizofrenia estabelecido por Gabel (A Falsa Consciência) deve ser inserido neste processo econômico de materialização da ideologia. O que a ideologia já era, a sociedade acabou por ser. A desinserção da práxis e a falsa consciência antidialética que a acompanha, eis o que é imposto a cada hora da vida quotidiana submetida ao espetáculo; que é necessário compreender como uma organização sistemática do "desfalecimento da faculdade de encontro" e como sua substituição por um fato alucinatório social: a falsa consciência do encontro, a "ilusão do encontro". Numa sociedade em que ninguém pode já ser reconhecido pelos outros, cada indivíduo torna-se incapaz de reconhecer a sua própria realidade. A ideologia está em sua casa; a separação construiu o seu mundo.

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"Nos quadros clínicos da esquizofrenia", diz Gabel, "decadência da dialética da totalidade (tendo como forma extrema a dissociação) e decadência da dialética do devir (tendo como forma extrema a catatonia) parecem bem solidárias". A consciência espectadora, prisioneira dum universo estreitado, limitada pelo écran do espetáculo, para trás do qual a sua vida foi deportada, não conhece mais do que os interlocutores fictícios que lhe falam unilateralmente da sua mercadoria e da política da sua mercadoria. O espetáculo, em toda a sua extensão, é o seu "sinal do espelho". Aqui se põe em cena a falsa saída dum autismo generalizado.

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O espetáculo que é a extinção dos limites do moi (*) e do mundo pelo

esmagamento do moi (*) que a presença-ausência do mundo assedia, é igualmente a supressão dos limites do verdadeiro e do falso pelo recalcamento de toda a verdade vivida sob a presença real da falsidade que a organização da aparência assegura. Aquele que sofre passivamente a sua sorte quotidianamente estranha é, pois, levado a uma loucura que reage ilusoriamente a essa sorte, ao recorrer a técnicas mágicas. O reconhecimento e o consumo das mercadorias estão no centro desta pseudo-resposta a uma comunicação sem resposta. A necessidade de imitação que o consumidor sente é precisamente a necessidade infantil, condicionada por todos os aspectos da sua despossessão fundamental. Segundo os termos que Gabel aplica a um nível patológico completamente diferente, a necessidade anormal de representação compensa aqui um sentimento torturante de estar à margem da existência.

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Se a lógica da falsa consciência não pode reconhecer-se veridicamente a si própria, a procura da verdade crítica sobre o espetáculo deve ser também uma crítica verdadeira. É-lhe praticamente necessário lutar entre os inimigos irreconciliáveis do espetáculo e admitir estar ausente lá onde eles estão ausentes. São as leis do pensamento dominante, o ponto de vista exclusivo da atualidade, que reconhece a vontade abstrata da eficácia imediata, quando ela se lança nos compromissos do reformismo ou da ação comum dos resquícios pseudo-revolucionários. Aí, o delírio reconstituiu-se na própria posição que pretende combatê-lo. Pelo contrário, a crítica que vai para além do espetáculo deve saber esperar.

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Emancipar-se das bases materiais da verdade invertida, eis no que consiste a auto-emancipacão da nossa época. Esta "missão histórica de instaurar a verdade no mundo", nem o indivíduo isolado, nem a multidão atomizada, submetida às manipulações, a podem realizar, mas ainda e sempre a classe que é capaz de ser a dissolução de todas as classes, ao reduzir todo o poder à forma desalienante da democracia realizada, o Conselho, no qual a teoria prática se controla a si própria e vê a sua ação. Lá, somente, onde os indivíduos estão "diretamente ligados à história universal"; lá, somente, onde o diálogo se estabeleceu para fazer vencer as suas próprias condições.

 

(*) Mantém-se o original para não alterar a referência analítica donde provém. (N. T.)

(*) Mantém-se o original para referenciar o conceito utilizado por Freud (N. T.)

 

(*) Em inglês no original (N. T.).

(*) Em inglês no original. (N. T.)

(*) Em inglês no original. (N. T.)