A Sociedade do Espetáculo
Comentários sobre A Sociedade do Espetáculo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
À memória de Gérard Lebovici, assassinado em Paris a 5 de Março de 1984, numa cilada que permanece no mistério.
"Por críticas que possam ser as situações e as circunstâncias em que te encontres, não desesperes; é nas ocasiões em que tudo é temível, que nada há que temer; é quando se está rodeado de todos os perigos, que não há que temer nenhum; é quando se está sem nenhum recurso, que há que contar com todos; é quando se está surpreendido, que é preciso surpreender o inimigo."
(Sun-Tzu, A Arte da Guerra)
I
Estes Comentários têm a segurança de ser prontamente conhecidos por cinquenta ou sessenta pessoas, o que já é muito nos dias que vivemos e quando se trata de questões tão graves. Mas é por isso mesmo que eu tenho, em certos meios, a reputação de ser um conhecedor. Importa igualmente considerar que, desta elite que vai interessar-se neles, metade, ou um número muito aproximado, é composta por pessoas que se ocupam em manter o sistema de dominação espetacular, e a outra metade por gente que teimará em fazer exatamente o contrário. Tendo assim em conta leitores tão atentos e diversamente influentes, não posse evidentemente falar com toda a liberdade. Devo sobretudo tomar cautela para não instruir demasiadamente seja quem for.
A desgraça dos tempos obrigar-me-á, portanto, a escrever, uma vez mais, de um modo novo. Certos elementos serão voluntariamente omitidos; e o plano deverá ficar bem pouco claro. Poder-se-á encontrar nele, como a própria assinatura da época, alguns logros. Na condição de intercalar aqui e ali várias outras páginas, o sentido total pode aparecer: deste modo, muitas vezes, foram acrescentados artigos secretos àquilo que os tratados estipulavam abertamente, e o mesmo acontece com agentes químicos que não revelam uma parte desconhecida das suas propriedades senão quando se encontram associados a outros. Todavia, nesta breve obra, demasiadas coisas serão, finalmente, fáceis de compreender.
II
Em 1967, mostrei num livro, A Sociedade do Espetáculo, aquilo que o espetáculo moderno era já essencialmente: o reino autocrático da economia mercantil, tendo acedido a um estatuto de soberania irresponsável, e o conjunto das novas técnicas de governo que acompanham este reino. As alterações de 1968, que se prolongaram em diversos países no decurso dos anos seguintes, não derrubaram em nenhum lugar a organização existente da sociedade, donde o espetáculo brota como que espontaneamente; ele continuou, portanto, a reforçar-se por todos os lados, quer dizer, ao mesmo tempo que se estendeu até aos extremos em todas as direções, aumentou a sua densidade no centro. O espetáculo aprendeu mesmo novos procedimentos defensivos, como acontece com frequência aos poderes atacados. Quando comecei a crítica da sociedade espetacular notou-se sobretudo, dado o momento, o conteúdo revolucionário que se podia descobrir nesta crítica, e isso foi sentido, naturalmente, como o seu elemento mais incômodo. Quanto à coisa mesma, acusaram-me por vezes de ter inventado todas as suas partes e sempre de ter conspirado exageradamente ao avaliar a profundidade e unidade deste espetáculo e da sua ação real. Devo reconhecer que os outros, fazendo aparecer depois novos livros à volta do mesmo tema, demonstraram perfeitamente que se podia evitar dizer tanto. Eles nada mais fizeram que substituir o conjunto e o seu movimento por um só detalhe estático da superfície do fenômeno, a originalidade de cada autor satisfazia-se em escolhê-lo diferente e, por isso, cada vez menos inquietante. Nenhum quis alterar a modéstia científica da sua interpretação pessoal misturando-lhe temerários julgamentos históricos.
Mas, afinal, a sociedade do espetáculo não deixou de continuar a sua marcha. Ela vai depressa, se tivermos em conta que, em 1967, não tinha mais de uma quarentena de anos atrás de si; mas plenamente utilizados. E no seu próprio movimento, que ninguém achou valer a pena estudar, ela demonstrou depois, por surpreendentes façanhas, que a sua natureza efetiva era bem aquela que eu tinha dito.
Estabelecer este ponto não tem somente um valor acadêmico, porque é sem dúvida indispensável ter reconhecido a unidade e articulação desta força atuante que é o espetáculo, para, a partir daí, ser capaz de procurar de novo em que direções esta força pôde deslocar-se, sendo aquilo que ela era. Estas questões são de um grande interesse: é necessariamente em tais condições que se jogará a continuação do conflito na sociedade. Visto que o espetáculo é hoje seguramente mais poderoso do que era antes. Que faz ele deste poder suplementar? Até onde avançou, onde não estava ele antes? Quais são, em suma, as suas linhas de operações neste momento? O sentimento vago de que se trata de uma espécie de invasão rápida, que obriga as gentes a levar uma vida muito diferente, está de ora avante largamente espalhada; mas sente-se isso mais como uma modificação inexplicável do clima ou de um outro equilíbrio natural, modificação perante a qual a ignorância só sabe que nada tem a dizer. Além disso, muitos admitem que é uma invasão civilizadora, tornada inevitável, e têm mesmo desejo de colaborar nela. Estes antes querem não saber para que serve precisamente esta conquista e como ela caminha.
Vou evocar algumas consequências práticas ainda pouco conhecidas, que resultam deste desenvolvimento rápido do espetáculo durante os últimos vinte anos. Não me proponho, em nenhum aspecto da questão, entrar em polêmicas, de ora avante demasiado fáceis e demasiado inúteis; nem tão pouco convencer. Os presentes comentários não se preocupam em moralizar. Eles não consideram o que é desejável, ou simplesmente preferível. Limitar-se-ão a fazer notar o que é.
III
Agora, que ninguém pode razoavelmente duvidar da existência e do poder do espetáculo, pode pelo contrário duvidar-se que seja razoável acrescentar algo sobre uma questão que a experiência resolveu de uma maneira tão draconiana. Le Monde de 19 de Setembro de 1987 ilustrava com felicidade a fórmula «Aquilo que existe já não tem necessidade de ser falado», verdadeira lei fundamental destes tempos espetaculares que, pelo menos a este respeito, não deixou para trás nenhum país: «Que a sociedade contemporânea seja uma sociedade de espetáculo, é um assunto sabido. Em breve, valerá mais a pena examinar os assuntos que não chamam a atenção. São incontáveis as obras que descrevem um fenômeno que vem caracterizando as nações industrializadas sem poupar os países em atraso em relação ao seu tempo. Mas nota-se o ridículo de que os livros que analisam este fenômeno, em geral para o deplorar, devem, eles também, sacrificar-se ao espetáculo para se fazerem conhecer.» É verdade que esta crítica espetacular do espetáculo, chegada tarde e que para cúmulo quereria «dar-se a conhecer» no mesmo terreno, limitar-se-á forçosamente a generalidades vás ou a lamentos hipócritas; como também parece vã esta sabedoria desenganada que bufoneia num jornal.
A discussão vazia sobre o espetáculo, isto é, sobre aquilo que fazem os proprietários do mundo, está, assim, organizada por ele mesmo insiste-se sobre os grandes meios do espetáculo, para nada dizer sobre a sua ampla utilização. Com frequência prefere-se chamá-lo, em vez de espetáculo, o midiático. E, assim, quer-se designar um simples instrumento, uma espécie de serviço público que geriria com um imparcial «profissionalismo» a nova riqueza da comunicação de todos através dos mass media, comunicação enfim chegada à sua pureza unilateral, onde se faz admirar sossegadamente a decisão já tomada. Aquilo que é comunicado são ordens; e, muito harmoniosamente, aqueles que as deram são igualmente aqueles que dirão aquilo que pensam delas.
O poder do espetáculo, que é tão essencialmente unitário, centralizador pela força própria das coisas, e perfeitamente despótico no seu espírito, indigna-se com frequência ao ver constituir-se dentro do seu reino uma política-espetáculo, uma justiça-espetáculo, uma medicina-espetáculo, ou tantos outros também surpreendentes «excessos midiáticos». Assim, o espetáculo nada mais seria que o excesso do midiático, cuja natureza, indiscutivelmente boa já que serve para comunicar, é por vezes dada a excessos. Com muita frequência, os mestres da sociedade declaram-se mal servidos pelos seus empregados midiáticos; mais amiúde eles censuram à plebe dos espectadores a sua tendência para se entregar sem moderação, e quase bestialmente, aos prazeres midiáticos. Dissimular-se-á, assim, por detrás de uma multitude virtualmente infinita de pretensas divergências midiáticas, o que é, pelo contrário, resultado de uma convergência espetacular querida com uma notável tenacidade. Do mesmo modo que a lógica da mercadoria prima sobre as diversas ambições concorrenciais de todos os comerciantes, ou que a lógica da guerra domina sempre as frequentes modificações do armamento, a mesma lógica severa do espetáculo comanda por toda a parte a abundante diversidade das extravagâncias midiáticas.
A mudança que tem a maior importância, em tudo o que se passou desde há vinte anos, reside na própria continuidade do espetáculo. Esta importância não se deve ao aperfeiçoamento da sua instrumentação midiática, que já anteriormente tinha atingido um estádio de desenvolvimento muito avançado: é pura e simplesmente devida ao fato de que a dominação espetacular tenha podido criar uma geração submetida às suas leis. As condições extraordinariamente novas em que esta geração, no seu conjunto, efetivamente viveu, constituem um resumo exato e suficiente de tudo aquilo que doravante o espetáculo impede; e também de tudo aquilo que ele permite.
IV
No plano simplesmente teórico, só me faltará acrescentar àquilo que tinha formulado anteriormente mais um detalhe, mas que vai longe. Em 1967, distinguia duas fórmulas, sucessivas e rivais, do poder espetacular, a concentrada e a difusa. Uma e outra pairavam sobre a sociedade real, como seu fim e sua mentira. A primeira, expondo a ideologia resumida à volta duma personalidade ditatorial, tinha acompanhado a contrarrevolução totalitária, tanto a nazi como a estalinista. A outra, incitando os assalariados a realizar livremente a sua escolha entre uma grande variedade de novas mercadorias que se defrontavam, tinha representado esta americanizarão do mundo, que nalguns aspectos assustava, mas que também seduzia os países onde durante mais tempo se tinham podido manter as condições das democracias burguesas de tipo tradicional. Uma terceira forma constituiu-se depois pela combinação ponderada das duas precedentes, e na base geral duma vitória daquela que se tinha revelado a mais forte, a forma difusa. Trata-se do espetacular integrado, que doravante tende a impor-se mundialmente.
O lugar predominante que tiveram a Rússia e a Alemanha na formação do espetacular concentrado, e os Estados Unidos na do espetacular difuso, parece ter pertencido à França e à Itália no momento do estabelecimento do espetacular integrado, pelo jogo de uma série de fatores históricos comuns: papel importante do partido e do sindicato estalinistas na vida política e intelectual, fraca tradição democrática, longa monopolização do poder por um só partido de governo, necessidade de acabar com uma contestação revolucionária aparecida de surpresa.
O espetacular integrado manifesta-se umas vezes como concentrado e outras como difuso e, depois desta unificação frutífera, soube empregar mais amplamente uma e outra destas qualidades. O seu modo de aplicação anterior mudou muito. Considerando o lado concentrado, o centro diretor tornou-se agora oculto: nunca mais se coloca aí um chefe conhecido, nem uma ideologia clara. E considerando o lado difuso, a influência espetacular nunca tinha marcado a este ponto a quase totalidade das condutas e dos objetos que são produzidos socialmente. Já que, o sentido final do espetacular integrado é que ele se integrou na própria realidade à medida que dela falava; e que a reconstruía como falava dela. De modo que esta realidade agora não está perante ele como qualquer coisa estranha. Quando o espetacular era concentrado a maior parte da sociedade periférica escapava-lhe; e quando era difuso, apenas uma diminuta parte; hoje, nada lhe escapa. O espetáculo misturou-se a toda a realidade, irradiando-a. Como se podia prever facilmente em teoria, a experiência prática da realização sem freio das vontades da razão mercantil demonstrou rapidamente e sem exceções que o tornar-se mundo da falsificação era também um tornar-se falsificação do mundo. Excetuando uma herança ainda importante, mas destinada a diminuir constantemente, de livros e construções antigas, que por outro lado são cada vez mais amiúde selecionados e dispostas em perspectiva segundo as conveniências do espetáculo, nada mais existe, na cultura ou na natureza, que não tenha sido transformado, e poluído, segundo os meios e os interesses da indústria moderna. Mesmo a genética tornou-se plenamente acessível às forças dominantes da sociedade.
O governo do espetáculo, que presentemente detém todos os meios de falsificar o conjunto da produção assim como da percepção, é senhor absoluto das recordações tal como é senhor incontrolado dos projetos que modelam o mais longínquo futuro. Ele reina só em todo o lado; ele executa os seus julgamentos sumários.
É em tais condições que se pode ver desencadear repentinamente, com um gozo carnavalesco, um fim paródico da divisão do trabalho; tanto melhor recebido quanto coincide com o movimento geral de desaparecimento de toda a verdadeira competência. Um banqueiro canta, um advogado torna-se informador da polícia, um padeiro expõe as suas preferências literárias, um ator governa, um cozinheiro filosofa sobre os momentos de cozedura como marcos na história universal. Cada qual pode surgir no espetáculo a fim de entregar-se publicamente, ou por vezes para dedicar-se secretamente, a uma atividade completamente diferente da especialidade pela qual inicialmente se deu a conhecer. Lá onde a posse de um «estatuto midiático» alcançou uma importância infinitamente maior que o valor daquilo que se foi capaz de fazer realmente, é normal que este estatuto seja facilmente transferível e confira o direito de brilhar, da mesma maneira, seja onde for. Mais frequentemente, estas partículas midiáticas aceleradas perseguem a sua simples carreira no admirável estatutariamente garantido. Mas acontece que a transição midiática faça a cobertura entre muitas empresas, oficialmente independentes, mas de fato secretamente ligadas por diferentes redes ad-hoc. De modo que, por vezes, a divisão social do trabalho, assim como a solidariedade normalmente previsível do seu uso, reaparece sob formas completamente novas: por exemplo, hoje em dia pode publicar-se um romance para preparar um assassinato. Estes pitorescos exemplos querem também dizer que já não se pode confiar em ninguém pelo seu ofício.
Mas a mais alta ambição do espetacular integrado é ainda que os agentes secretos se tornem revolucionários e que os revolucionários se tornem agentes secretos.
V
A sociedade modernizada até ao estádio do espetacular integrado caracteriza-se pelo efeito combinado de cinco traços principais, que são: a renovação tecnológica incessante; a fusão econômico-estatal; o segredo generalizado; o falso sem réplica; um presente perpétuo.
O movimento de inovação tecnológica dura já há muito tempo e é constitutivo da sociedade capitalista, dita por vezes industrial ou pós-industrial. Mas desde que tomou a sua mais recente aceleração, (no dia seguinte à Segunda Guerra Mundial), reforça ainda mais a autoridade espetacular, já que através dele cada um encontra-se inteiramente entregue ao conjunto de especialistas, aos seus cálculos e aos seus julgamentos sempre satisfeitos com estes cálculos. A fusão econômico-estatal é a tendência mais manifesta deste século; e aí está ela tornada, no mínimo, o motor do desenvolvimento econômico mais recente. A aliança defensiva e ofensiva concluída entre estes dois poderes, a Economia e o Estado, assegurou-lhes os maiores benefícios comuns em todos os domínios: pode dizer-se que cada um possui o outro; é absurdo opô-los, ou distinguir as suas razões ou as suas desinteligências. Esta união mostrou-se também extremamente favorável ao desenvolvimento da dominação espetacular, que, desde a sua formação, não era senão precisamente isso. Os três últimos traços são os efeitos diretos dominação, no seu estado integrado.
O segredo generalizado mantém-se por detrás do espetáculo, como o complemento decisivo daquilo que ele mostra e, se aprofundamos mais as coisas, como a sua mais importante operação.
O simples fato de estar a partir de agora sem réplica deu ao falso uma qualidade completamente nova. É ao mesmo tempo o verdadeiro que deixou de existir quase por todo o lado ou, no melhor caso, viu-se reduzido ao estado de uma hipótese que nunca pode ser demonstrada. O falso sem réplica acabou por fazer desaparecer a opinião pública, que de início se encontrava incapaz de se fazer ouvir; depois, rapidamente em seguida, de somente se formar. Isto acarreta evidentemente importantes consequências na política, nas ciências aplicadas, na justiça, no conhecimento artístico.
A construção de um presente onde mesmo a moda, do vestuário aos cantores, se imobilizou, que quer esquecer o passado e que já não dá a impressão de acreditar num futuro, é obtida pela incessante passagem circular da informação girando continuamente sobre uma lista muito sucinta das mesmas banalidades, anunciadas apaixonadamente como importantes descobertas; enquanto só muito raramente, e por sacudidelas, passam as notícias verdadeiramente importantes sobre aquilo que efetivamente muda.
Dizem sempre respeito à condenação que este mundo parece ter pronunciado contra a sua existência, as etapas da sua autodestruição programada.
VI
A primeira intenção da dominação espetacular era fazer desaparecer o conhecimento histórico em geral; e em primeiro lugar quase todas as informações e todos os comentários razoáveis sobre o mais recente passado. Uma evidência tão flagrante não necessita ser explicada. O espetáculo organiza com mestria a ignorância do que acontece e, logo em seguida, o esquecimento daquilo que pôde apesar de tudo tornar-se conhecido. O mais importante é o mais escondido. Vinte anos depois, nada foi mais recoberto de tantas mentiras comandadas como a história de Maio de 1968. Contudo, lições úteis foram tiradas de alguns estudos desmitificados sobre essas jornadas e as suas origens, mas são segredo de Estado.
Na Franca, há já uma dezena de anos, um Presidente da República, esquecido em seguida, mas flutuando, então, à superfície do espetáculo, exprimia inocentemente a alegria que ressentia, «sabendo que viveremos a partir de agora num mundo sem memória, onde, como na superfície da água, a imagem afasta indefinidamente a imagem». É efetivamente cômodo para quem está nos negócios; e sabe manter-se neles. O fim da história é um agradável repouso para todo o poder presente. Garante- lhe absolutamente o êxito do conjunto das suas iniciativas, ou pelo menos o ruído do êxito.
Um poder absoluto suprime tanto mais radicalmente a história, quanto tem de ocupar-se dos interesses ou das obrigações mais imperiosas, e principalmente conforme encontrou mais ou menos grandes facilidades práticas de execução. Ts’in Che Hoang Ti mandou queimar os livros, mas não conseguiu fazê-los desaparecer todos. Stalin levava mais longe a realização de um projeto semelhante no nosso século, mas, apesar das cumplicidades de toda a espécie que encontrou fora das fronteiras do seu império, ficava uma vasta zona do mundo inacessível à sua polícia, onde se riam das suas imposturas. O espetacular integrado fez melhor, com novíssimos métodos, e operando desta vez mundialmente. A inépcia faz-se respeitar por todo o lado, já não é permitido rir dela; em todo o caso, tornou-se impossível fazer saber que se riem dela.
O domínio da história era o memorável, a totalidade dos acontecimentos cujas consequências se manifestariam durante muito tempo. Era inseparavelmente o conhecimento que deveria durar e ajudaria a compreender, pelo menos parcialmente, aquilo que aconteceria de novo: «uma aquisição para sempre», diz Tucídides. Por isso, a história era a medida duma novidade verdadeira; e quem vende a novidade tem todo o interesse em fazer desaparecer o meio de a medir. Quando o importante se faz socialmente reconhecer como aquilo que é instantâneo, e vai sê-lo no instante seguinte, e no outro e noutro ainda, e que substituirá sempre uma outra importância instantânea, pode também dizer-se que o meio utilizado garante uma espécie de eternidade desta não-importância, que fala tão alto.
A preciosa vantagem que o espetáculo retirou deste pôr fora-da-lei da história, de ter já condenado toda a história recente a passar à clandestinidade, e de ter conseguido fazer esquecer muito frequentemente o espírito histórico na sociedade, é antes de tudo cobrir a sua própria história: o próprio movimento da sua recente conquista do mundo. O seu poder aparece já familiar, como se tivesse estado lá desde sempre. Todos os usurpadores quiseram fazer esquecer que acabam de chegar.
VII
Com a destruição da história é o próprio acontecimento contemporâneo que se afasta imediatamente a uma distância fabulosa, entre os seus relatos inverificáveis, as suas estatísticas incontroláveis, as suas explicações inacreditáveis e os seus raciocínios insustentáveis. A todas as idiotices que são avançadas espetacularmente, não há senão os midiáticos que poderiam responder através de algumas respeitosas retificações ou repreensões, mas mesmo nisso são parcos, porque para além da sua extrema ignorância, a sua solidariedade de ofício e de coração, com a autoridade generalizada do espetáculo, e com a sociedade que ele exprime, gera-lhes um dever e também um prazer de jamais se desviarem desta autoridade, cuja majestade não deve ser lesada. É preciso não esquecer que todo o midiático, por salário e por outras recompensas ou gorjetas, tem sempre um senhor, às vezes vários, e que todo o midiático se sabe substituível.
Todos os expertos são midiático-estatais, e apenas por isso são reconhecidos. Todo o experto serve o seu senhor, porque cada uma das antigas possibilidades de independência foi pouco mais ou menos reduzida a nada, pelas condições de organização da sociedade presente. O experto que serve melhor é, seguramente, o experto que mente. Aqueles que têm necessidade do experto são, por motivos diferentes, o falsificador e o ignorante. Lá onde o indivíduo não reconhece mais nada por si mesmo, será formalmente tranquilizado pelo experto. Antes era normal que houvesse expertos na arte dos Etruscos; e eram sempre competentes, porque a arte etrusca não estava no mercado. Mas, por exemplo, uma época que acha rentável falsificar quimicamente a maioria dos vinhos célebres, não poderá vendê-los, a não ser que tenha formado expertos em vinhos que levarão os otários a gostar dos seus novos aromas, mais reconhecíeis. Cervantes observa que «debaixo de uma má capa, encontra-se muitas vezes um bom bebedor». Aquele que conhece o vinho ignora a maioria das vezes as regras da indústria nuclear; mas a dominação espetacular estima que, já que um experto se riu dele a propósito da indústria nuclear, um outro experto poderá gozá-lo melhor a propósito do vinho. Sabe-se, por exemplo, quanto o experto em meteorologia midiática, que anuncia as temperaturas ou as chuvas previstas para as próximas quarenta e oito horas, é obrigado a muitas reservas pela obrigação de manter os equilíbrios econômicos, turísticos e regionais, quando tanta gente circula tão frequentemente por tantas estradas, entre lugares igualmente desolados; de modo que ele será melhor sucedido como animador.
Um aspecto do desaparecimento de todo o conhecimento histórico objetivo manifesta-se a propósito de qualquer reputação pessoal, que se tornou maleável e retificável à vontade pelos que controlam toda a informação, aquela que recolhem e também aquela, bem diferente, que difundem; eles têm portanto toda a permissão para falsificar. Porque uma evidência histórica da qual nada se quer saber no espetáculo, já não é uma evidência. Lá onde ninguém tem senão a celebridade que lhe foi atribuída como um favor pela benevolência de uma Corte espetacular, a desgraça pode acontecer instantaneamente. Uma notoriedade anti-espetacular tornou-se qualquer coisa de extremamente rara. Eu próprio sou um dos últimos vivos a possuir uma; a nunca ter tido outra. Mas esta também se tornou extraordinariamente suspeita. A sociedade proclamou-se oficialmente espetacular. Ser conhecido à margem das relações espetaculares equivale já a ser conhecido como inimigo da sociedade.
E permitido mudar completamente o passado de qualquer um, de o modificar radicalmente, de o recriar no estilo dos processos de Moscou; e sem que seja mesmo necessário recorrer às fadigas de um processo. Pode matar-se com menos custos. Os falsos testemunhos, talvez desajeitados - mas que capacidade de sentir esta inabilidade poderá ainda restar aos espectadores que serão testemunhas das façanhas destes falsos testemunhos? - e os falsos documentos, sempre excelentes, não podem faltar àqueles que governam o espetacular integrado, ou aos seus amigos. Portanto, já não é possível acreditar, sobre ninguém, em nada daquilo que não tenha sido conhecido por si mesmo e diretamente. Mas, de fato, já não há muitas vezes a necessidade de acusar falsamente alguém. Desde que se detém o mecanismo de comando da única verificação social que se faz plenamente e universalmente reconhecer, diz-se o que se quer. O movimento da demonstração espetacular prova-se simplesmente andando à roda: voltando, repetindo-se, afirmando continuamente sobre o único terreno onde reside doravante aquilo que pode afirmar-se publicamente, e fazer-se acreditar, pois que é disso somente que todo o mundo será testemunha. A autoridade espetacular pode igualmente negar seja o que for, uma vez, três vezes, e dizer que não falará mais disso, e falar de outra coisa, sabendo bem que já não arrisca mais nenhuma outra réplica no seu próprio terreno, nem em nenhum outro. Porque já não existe ágora de comunidade geral, nem mesmo de comunidades restritas aos corpos intermédios ou às instituições autônomas, aos salões ou cafés, aos trabalhadores de uma só empresa; nenhum lugar onde o debate, sobre as verdades que dizem respeito àqueles que lá estão, possa libertar-se de forma duradoira da esmagadora presença do discurso midiático, e das diferentes forças organizadas para o substituir. Atualmente já não existe julgamento com a garantia de relativa independência, daqueles que constituíam o mundo erudito; daqueles que, por exemplo, antigamente, manifestavam o seu orgulho numa capacidade de verificação, permitindo a aproximação àquilo a que se chamava a história imparcial dos fatos, de acreditar pelo menos que ela merecia ser conhecida. Já nem existe mesmo verdade bibliográfica incontestável, e os resumos informatizados dos ficheiros das bibliotecas nacionais poderão suprimir ainda melhor os traços. Perder-nos-íamos pensando naquilo que foram noutros tempos os magistrados, os médicos, os historiadores, e nas obrigações imperativas em que eles se reconheciam, na maior parte das vezes, nos limites das suas competências: os homens parecem-se mais com o seu tempo do que com o seu pai.
Aquilo de que o espetáculo pode deixar de falar durante três dias é como se não existisse. Pois ele fala, então, de outra coisa qualquer e é isso que, portanto, a partir daí, em suma, existe. As consequências práticas, como se vê, são imensas.
Acreditava-se saber que a história tinha aparecido, na Grécia, com a democracia. Pode verificar-se que ela desaparece do mundo com ela.
É preciso porém acrescentar a esta lista de triunfos do poder, um resultado para ele negativo: um Estado, em cuja gestão se instala duravelmente um grande défice de conhecimentos históricos, já não pode ser conduzido estrategicamente.
VIII
A sociedade que se anuncia democrática, quando alcançou o estádio do espetacular integrado, parece ser admitida por toda a parte como sendo a realização de uma perfeição frágil. De modo que ela não deve ser mais exposta a ataques, já que é frágil; e além disso não é mais acatável, pois é perfeita como jamais sociedade alguma foi. E uma sociedade frágil porque tem uma grande dificuldade em dominar a sua perigosa expansão tecnológica. Mas é uma sociedade perfeita para ser governada; e a prova disso é que todos os que aspiram a governar querem governa-la, pelos mesmos procedimentos, e mantê-la quase exatamente como ela é. É a primeira vez que, na Europa contemporânea, nenhum partido ou fração de partido ensaia somente pretender que tentaria mudar qualquer coisa de importante. A mercadoria já não pode ser criticada por ninguém: nem enquanto sistema geral, nem mesmo como essa embalagem determinada que terá sido conveniente aos empresários pôr nesse momento no mercado. Em todo o lado onde reina o espetáculo, as únicas forças organizadas são aquelas que querem o espetáculo. Portanto, nenhuma pode ser inimiga do que existe, nem infringir a omertá que diz respeito a tudo. Acabou-se com esta inquietante concepção que dominou durante mais de duzentos anos, segundo a qual uma sociedade podia ser criticável e transformável, reformada ou revolucionada. E isto não foi obtido pelo aparecimento de argumentos novos, mas muito simplesmente porque os argumentos se tornaram inúteis. Perante este resultado medir-se-á, em vez da felicidade geral, a força terrível das redes da tirania.
Jamais a censura foi tão perfeita. Jamais a opinião daqueles a quem se faz crer ainda, em certos países, que são cidadãos livres, foi tão pouco autorizada a tornar-se conhecida, cada vez que se trata duma escolha que afetará a sua vida real. Jamais foi permitido mentir-lhes com uma tão perfeita ausência de consequência. O espectador é suposto ignorar tudo, não merecer nada. Quem olha sempre, para saber a continuação, jamais agirá: e tal deve ser o espectador. Com frequência ouve-se citar a exceção dos Estados Unidos, onde Nixon acabava por sofrer um dia duma série de recusas tão cinicamente inábeis; mas esta exceção localizada, que tinha velhas causas históricas, deixou de ser manifestamente genuína, já que Reagan pôde fazer recentemente a mesma coisa com impunidade. Tudo aquilo que nunca é sancionado é verdadeiramente permitido. É pois arcaico falar de escândalo. Atribui-se a um homem de Estado italiano de primeiro plano, tendo exercido funções simultaneamente no ministério e no governo paralelo chamado P.2, Potere due, uma divisa que resume profundamente o período em que entrou o mundo inteiro, um pouco depois da Itália e dos Estados Unidos: «Havia escândalos, mas já não há».
Na obra O 18 Brumário de Louis Bonaparte, Marx descrevia o papel invasor do Estado na França do Segundo Império, que dispunha então de meio milhão de funcionários: «Tudo se transforma assim em objeto da atividade governamental, desde a ponte, à escola, à propriedade comunal de uma aldeia até às linhas do caminho de ferro, às propriedades nacionais e às universidades de província.» A famosa questão do financiamento dos partidos políticos punha-se já nessa época, pois Marx nota que «os partidos que, à vez, lutavam pela supremacia, viam na tomada de posse deste edifício enorme a principal presa do vencedor». Eis como isto soa um pouco bucólico e, como se diz, ultrapassado, já que as especulações do Estado de hoje dizem respeito preferencialmente às novas cidades e autoestradas, à circulação subterrânea e à produção de energia eletronuclear, à exploração petrolífera e aos computadores, à administração dos bancos e dos centros socioculturais, às modificações da «paisagem audiovisual» e às exportações clandestinas de armas, à promoção imobiliária e à indústria farmacêutica, à agroalimentar e à gestão dos hospitais, aos créditos militares e aos fundos secretos do departamento, em contínuo crescimento, que deve gerir os numerosos serviços de proteção da sociedade. E, contudo, Marx continua sendo infelizmente demasiado atual, quando evoca, no mesmo livro, este governo «que não toma de noite as decisões que quer executar de dia, mas decide o dia e executa à noite».
IX
Esta democracia tão perfeita fabrica ela mesma o seu inconcebível inimigo: o terrorismo. Ela quer, com efeito, antes ser julgada pelos seus inimigos que pelos seus resultados. A história do terrorismo é escrita pelo Estado. E, portanto, educativa. As populações espectadoras não podem certamente saber tudo sobre o terrorismo, mas podem sempre saber a esse respeito o suficiente para ser persuadidas de que, comparado ao terrorismo, tudo o resto deverá parecer-lhes mais aceitável, em todo o caso mais racional e mais democrático.
A modernização da repressão acabou por aperfeiçoar, em primeiro lugar na experiência piloto de Itália sob o nome de «arrependidos», os acusadores profissionais ajuramentados; aquilo que na sua primeira aparição no século XVII, durante as alterações da Fronda, se chamava de «testemunhas de ofício». Este espetacular progresso da justiça povoou as prisões italianas de vários milhares de condenados que expiam uma guerra civil que não teve lugar, uma espécie de vasta insurreição armada que por acaso nunca viu chegar a sua hora, um golpismo tecido da juta de que são feitos os sonhos.
Deve-se notar que a interpretação dos mistérios do terrorismo parece ter introduzido uma simetria entre opiniões contraditórias; como se se tratasse de duas escolas filosóficas professando construções metafísicas absolutamente antagônicas. Alguns não veriam no terrorismo nada mais do que algumas evidentes manipulações dos serviços secretos; outros estimariam, pelo contrário, que apenas se deve censurar aos terroristas a sua falta total de sentido histórico. O uso de um pouco de lógica histórica permitiria concluir rapidamente que nada há de contraditório ao considerar que pessoas carentes de todo o sentido histórico podem igualmente ser manipuladas; e até mesmo ainda mais facilmente que outras. É também mais fácil levar a «arrepender-se» alguém a quem se pode mostrar que, antecipadamente, se sabia tudo aquilo que ele acreditava fazer livremente. É um efeito inevitável das formas organizativas clandestinas de tipo militar, onde basta infiltrar poucos agentes em certos pontos da rede para fazer andar e fazer cair muitos. A crítica, nestas questões da avaliação das lutas armadas, deve analisar em certas ocasiões uma destas operações em particular, sem se deixar desviar pela semelhança geral que todas eventualmente teriam revestido. Por outro lado, deveria esperar-se, como logicamente provável, que os serviços de proteção do Estado pensam utilizar todas as vantagens que encontrem no terreno do espetáculo, que foi organizado precisamente para isso há muito tempo; é, pelo contrário, a dificuldade de pensar nisso que é surpreendente e não parece justa.
O interesse atual da justiça repressiva neste domínio consiste, naturalmente, em generalizar o mais rapidamente possível. O importante neste tipo de mercadorias é a embalagem, ou a etiqueta: os códigos de barras. Todo o inimigo da democracia espetacular vale tanto como qualquer outro, como valem todas as democracias espetaculares. Assim, não pode haver mais direito de asilo para os terroristas, e mesmo que: não se lhes aprove tê-lo sido, eles vão certamente voltar a sê-lo, e a extradição impõe-se. Em Novembro de 1978, sobre o caso Gabor Winter, jovem operário tipógrafo acusado principalmente, pelo Governo da República Federal Alemã, de ter redigido alguns panfletos revolucionários, Nicole Pradain, representante do Ministério Público na câmara de acusação do Tribunal da Relação de Paris, depressa demonstrou que «as motivações políticas», única causa de recusa de extradição prevista pela convenção franco-alemã de 29 de Novembro de 1951, não podiam ser evocadas: «Gabor Winter não é um delinquente político, é um delinquente social. Ele recusa as obrigações sociais. Um verdadeiro delinquente político não tem sentimento de rejeição face à sociedade. Ataca as estruturas políticas e não, como Gabor Winter, as estruturas sociais.» A noção de delito político respeitável só foi reconhecida na Europa a partir do momento em que a burguesia atacava com sucesso as estruturas sociais anteriormente estabelecidas. A qualidade de delito político não podia separar-se das diversas intenções da crítica social. Foi assim para Blanqui, Varlin, Durruti. Simula- se pois, agora, querer guardar, como um luxo barato, um delito puramente político que, sem dúvida, ninguém terá jamais a ocasião de cometer, já que ninguém se interessa mais pelo assunto; a não ser os próprios profissionais da política, cujos delitos não são quase nunca perseguidos, e que já não se chamam políticos. Todos as delitos e crimes são efetivamente sociais. Mas de todos os crimes sociais nenhum poderá ser considerado pior que a impertinente pretensão de querer ainda mudar qualquer coisa nesta sociedade que pensa de si própria ter sido demasiado paciente e demasiado boa até aqui; mas que não quer mais ser criticada.
X
A dissolução da lógica foi prosseguida, segundo os interesses fundamentais do novo sistema de dominação, por diferentes meios que operaram prestando sempre um apoio recíproco. Vários destes meios estão ligados à instrumentação técnica, que experimentou e popularizou o espetáculo, mas alguns deles estão preferencialmente ligados à psicologia de massas da submissão.
De acordo com as técnicas, quando a imagem construída e escolhida por algum outro se torna na principal relação do indivíduo com o mundo que antes olhava por si mesmo, de cada lugar onde podia ir, não se ignora evidentemente que a imagem vai suportar tudo; porque no interior de uma mesma imagem pode justapor-se sem contradição seja o que for. O fluxo de imagens domina tudo, e é igualmente qualquer outro que governa a seu gosto este resumo simplificado do mundo sensível; que escolhe aonde irá esta corrente, e também o ritmo daquilo que deverá manifestar-se nela, como perpétua surpresa arbitrária, não deixando nenhum tempo para a reflexão, e em absoluto, independentemente do que o espectador possa compreender ou pensar. Nesta experiência concreta da submissão permanente, encontra-se a raiz psicológica da adesão tão generalizada àquilo que lá está, que vem a reconhecer-lhe ipso fato um valor suficiente. O discurso espetacular cala evidentemente, além de tudo aquilo que é propriamente secreto, tudo aquilo que não lhe convém. Daquilo que mostra ele isola sempre o meio, o passado, as intenções, as consequências. É, portanto, totalmente ilógico. Já que ninguém pode contradize-lo, o espetáculo tem o direito de contradizer-se a si mesmo, de ratificar o seu passado. A altiva atitude dos seus servidores quando têm de fazer saber uma versão nova, por ventura mais mentirosa ainda, de certos fatos, é de ratificar rudemente a ignorância e as más interpretações atribuídas ao seu público, ainda que sejam os mesmos que na véspera se apressavam a difundir esse erro, com a sua habitual certeza. Assim, o ensino do espetáculo e a ignorância do espectador passam indevidamente por fatores antagônicos quando nascem um do outro. A linguagem binária do computador é igualmente uma irresistível incitação a admitir em cada instante, sem reservas, aquilo que foi programado como muito bem quis qualquer outro, e que se faz passar pela fonte intemporal duma lógica superior, imparcial e total. Que ganho de rapidez, e de vocabulário, para julgar de tudo! Político? Social? É preciso escolher. O que é um não pode ser o outro. A minha escolha impõe-se. Sopram-nos, e sabe-se para que são estas estruturas. Não é pois surpreendente que, desde a infância, os alunos facilmente comecem, e com entusiasmo, pelo Saber Absoluto da informática: enquanto ignoram cada vez mais a leitura, que exige um verdadeiro julgamento a cada linha; e que só ela pode dar acesso à vasta experiência humana anti-espetacular. Já que a conversação está quase morta e em breve também estarão muitos daqueles que sabiam falar.
De acordo com os meios do pensamento das populações contemporâneas, a primeira causa da decadência está ligada claramente ao fato de que todo o discurso mostrado no espetáculo não deixa nenhum lugar para a resposta; e a lógica não se formava socialmente senão no diálogo. Mas também quando se propagou o respeito por aquele que fala no espetáculo, que é considerado ser importante, rico, prestigiado, que é a autoridade mesma, a tendência espalha-se também entre os espectadores, de quererem ser tão ilógicos como o espetáculo, para alardear um reflexo individual dessa autoridade. Enfim, a lógica não é fácil, e ninguém deseja ensiná-la. Nenhum drogado estuda lógica; porque não tem dela necessidade e porque não tem sequer essa possibilidade. Esta preguiça do espectador é também a de qualquer quadro intelectual, do especialista formado à pressa, que tentará em todos os casos esconder os estreitos limites dos seus conhecimentos pela repetição dogmática de qualquer argumento de autoridade ilógica.
XI
Pensa-se geralmente que aqueles que demonstraram a maior incapacidade em matéria de lógica são precisamente aqueles que se proclamaram revolucionários. Esta censura injustificada vem de uma época anterior, onde quase toda a gente pensava com um mínimo de lógica, à notícia exceção dos cretinos e dos militantes; e entre estes últimos infundia-se muitas vezes a má fé, desejada porque julgada eficaz. Mas hoje já não é possível negligenciar que o uso intensivo do espetáculo, como seria de esperar, converteu em ideólogos a maioria dos contemporâneos, ainda que somente às sacudidelas e por fragmentos.