Agonia da fome
Considerações finais
Não pode deixar o medo (da fome) tomar conta, senão a pessoa está perdida.
As expressões adquiridas a partir do estudo etnográfico são produtos das interações das relações sociais e encontra-se nas camadas populares que vivem enormes carências materiais, resultante do processo de apropriação desigual do capital sócio-econômico. Os reflexos dessa condição, na vida diária, constituem ações específicas, com uma dinâmica conflitiva entre o real e o simbólico, estreitamente vinculados às questões gerais da sociedade.
Desse modo, as interpretações sobre a fome apóiam-se no diálogo imaginado para compreender o real. O imaginado gerado no contexto do bairro é uma construção da cultura e, por conseguinte, as imagens da fome são apropriadas, pelos famintos, para dar sentido e caracterizar a realidade social.
No processo interpretativo, a relação causa/efeito da fome é visualizada pelos famintos quase sempre de modo difuso, num tempo/espaço imaginado e no real, sendo essas as instâncias onde o corpo propriamente decide e age sobre o fenômeno. Tal relação conduz-me a outra: a que trata a fome como uma manifestação situada em espaços fora e dentro do corpo. Para eles:
a fome vem de fora do corpo:
falta de políticas do governo para melhorar a vida da gente,
desemprego, prisão do filho ou do marido, morte do marido,
doença grave, falta de aposentadoria, falta de dinheiro, dinheiro
pouco, viúva sem filho, nascimento do neto e mais bocas pra
comer, ela (fome) pega a pessoa que vive num beco escuro, é a
peste, a bicha, a coisa, a criatura, Romãozinho, que entra pelo
corpo e come as carnes da pessoa.
a fome aparece dentro do corpo:
falta de coragem da pessoa, covardia, medo de tudo, vergonha
de tudo, natureza aperreada, espírito ruim, não tem força pra
brigar, pessoa lerda que sabe o que tem que fazer e não faz,
gente medrosa.
Entre os sujeitos estudados, distingo os que participaram do movimento pela melhoria do bairro, têm maior escolaridade que os demais e entendem a fome como um produto da ausência de políticas sociais. Para esses, noto nitidamente um sentimento de vergonha pela situação de fome dos moradores, negando, em geral, esse fenômeno em seu próprio corpo. Outros, com pouca ou nenhuma escolaridade, interpretam o problema como um ente alegórico, que quase sempre ameaça a sobrevivência. Para esses, é “preciso tirar a vergonha da cara para conseguir comer” ou, como me disse outra faminta: “não tenho vergonha de catar do lixo, porque pior é roubar”.
O que é significativo para um faminto nem sempre é para um outro, na mesma realidade social. Pois, em cada contexto particular, cada um sente a fome crônica de modo singular, com sua própria percepção e constroem significados específicos, engendrando um texto igualmente específico para a compreensão da fome. Nessa atitude, o sujeito se volta para si mesmo e percebe-se faminto, uma ação que o centra na cena objetiva.
A narrativa traz do processo investigante dois indicativos gerais, descritivos como experiências que repousam em específicos contextos.
Com isso, constato que o termo fome aparece na fala de mulheres e homens de diferentes unidades domésticas. São pessoas que em algum momento de suas vidas lutaram por melhorias da qualidade de vida no bairro, foram membros ativos da Federação das Associações de Bairros de Salvador e anunciam a palavra fome nos quadros de um contexto social e político, de modo claro, para uma compreensão objetiva desse fenômeno na sociedade e, em especial, no bairro onde habitam. Mas, ao tratar do tema em relação aos seus corpos e dos membros de suas famílias, o termo se apaga.
A palavra fome também aparece de forma explícita na fala dos jovens do bairro, principalmente os envolvidos no tráfico de drogas. Referemna como um sentido de morte, e a associam às experiências vividas nas suas infâncias e à condição econômica.
O termo, entretanto, não aparece nos discursos de outros personagens. Como um tabu lingüístico, a palavra fome encontra-se velada, escondida e substituída por símbolos. Sobre esse aspecto, examino o inominável, as formas que não conheço, as que se apresentam como terrificantes aos meus olhos.
Os enunciadores revelam os sentidos da fome com o recurso de metáforas e usam gestos em lugar da palavra. Não há uma negação da condição faminta, mas uma tentativa de distanciamento. O sentido próprio do termo é tomado como um caráter de entidade, mas, em momento algum, há uma ausência do ator no palco. Permanece o sujeito a dialogar com seus objetos e a sentir a fome conforme suas crenças.
Sem qualquer exceção, os sujeitos se interpretam e movem-se para enfrentar a fome do dia-a-dia, inspirados em valores culturais que caracterizam as variedades de sentidos percebidos. Os símbolos da fome, colados às condições sócio-econômicas, são legitimados entre as diferentes maneiras de sentir o problema.
Isto posto, vale dizer que, nas condutas, há regras de um agir sobre a carência de alimentos, significadas por diversas percepções. Nesse aspecto, o recorte analítico exigiu a eleição de significantes e suas relações num mundo de dimensões objetivas e subjetivas, a um só tempo, para significar os sentidos de fome.
Colocado nesses termos, o sujeito age no campo de significações de sua realidade com expressões multívocas ou simbólicas, para compreender-se faminto em sua existência. Nesse movimento reflexivo, ele dá sentido a uma ação prática, como uma aquisição que experimenta para criar capacidade de decidir e justificar-se ao outro.
A (pré) compreensão do sujeito da ação.
Sentido de força:
A pessoa tem de ser forte, tem que fazer qualquer negócio, não ter vergonha, não ter medo, pedir a um e a outro, bulir no lixo, tem uns que até rouba, assalta, bole nas coisas dos outros, não pode ficar esperando as coisas cair do céu, tem que ter muita fé pra ficar com força, se levantar e andar, andar.
Sentido de fraqueza:
A pessoa fica besta, parecendo que se largou, esperando a bicha chegar e tomar conta do corpo, fraca do juízo, ‘abestada’, vai indo, vai indo até sumir as carnes, se entrega pra ‘coisa’ pegar e até matar.
A recorrência do sujeito a um sentido ou a outro situa a interioridade de um mundo que ele conhece e reproduz para a exterioridade do mundo real, a sociedade. Dessa maneira, os sentidos de fome levam-no ao confronto entre esses dois mundos, aparentemente separados. Nesse testemunho, ele não estranha o mundo, conhece-o e o reconstitui para continuar confrontando-se e sentir-se vivo.
O que parece ser um distanciamento da fome é, de fato, uma apropriação, porque o sujeito não escapa da ameaça e agencia sua fome no mundo abrindo um limite, no horizonte, para si mesmo. A fome torna-se a sua maior adversária, a que o envolve em sua análise da mundaneidade, que o faz sentir-se frágil ou fortalecido para agir, num tempo e num espaço definido.
Aquele que se diz no tempo presente, atual, e sabe ganhar dinheiro, despreza as pessoas que ‘dão duro’ e ganham o salário mínimo. Do desprezo dos ‘normais’ para com os ‘otários’ nasce uma oposição clara, mas com um forte elo entre ambos: a perseguição. Sentem-se perseguidos, ou pela polícia ou pela fome. Ao mesmo tempo, o ponto de encontro é que ambos são presos ao medo da fome. Desse segundo sentido, o fenômeno se desdobra em personagens imagéticos e coadjuvantes, na mesma trama da sobrevivência.
Forte e fraco significam coragem e covardia ? Semanticamente, são representações opostas, mas que possuem um elo que se encontra na presença-ausente de fome e vice-versa. Nesse conflito, não há uma negação da fome para aquele que se sente forte, mas uma necessidade de devolver ao outro a imagem que não quer ver ou sentir. Daí porque o forte se espelha no frágil, e essa é a qualidade que o atrai. A força pertence ao sujeito que tenta afastar a fome de sua porta (mente, corpo), e o oposto o que sucumbe.
Para os que nunca tiveram alimentos em suficiência, a tendência pessoal é o distanciamento do termo fome. O reconhecimento é dado como um signo da maldição, que habita fora do seu próprio corpo. Ao temê-lo, afirma-se a sua existência, sobretudo porque se espera a “coisa bater na porta”. A “coisa” é o elo com a realidade social.
Ao privilegiar o subjetivo, entendo que o sentido da espera da fome é parte do ritual alimentar cotidiano. Na vivência de fome, o sujeito é tomado pela representação da espera e da retenção, quando os sentidos estão no palco e são percebidos para serem explorados e explicados entre seus semelhantes.
As experiências situadas no espaço e no tempo designam as relações entre signo-realidade e signo-fábula, que se fazem real, numa dinâmica em que a construção intersubjetiva compõe o jogo de imagens da linguagem e outras expressões, tornando-as ‘sociologizantes’, no dizer de Bakhtin (1988: 83). O caráter intersubjetivo possibilita as mediações simbólicas da ação sobre a fome, numa produção de significados diversos e interligados para a compreensão, onde os traços simbólicos e temporais conferem os movimentos destinados ao agir, ao pensar (RICOEUR, 1988[b]). E toda uma descrição causa/efeito pode ser verificada pela ação do faminto que sente força ou fraqueza, e ambas as sensações são evocadas da interioridade e da externalidade desse corpo.
Sensações de fome
que vêm de dentro do corpo:
dor no peito, confusão na cabeça, nervoso, fraqueza nas
pernas, cisma, calundu, gastura na boca do estômago,
cansaço, tonturas, fraqueza do corpo inteiro, medo.
que vêm de fora do corpo:
insônia, uma coisa esquisita, a maldita, a peste, dá um vexame,
a gente sente um arrepio quando o vento passa; a gente sabe
que é um vento ruim; inveja, raiva que entra na gente e tira o
sono, esmorece o corpo todo, dá vontade de sair correndo e se
esconder, os braços e as pernas tremem; uma coisa que chega Assim, pude constatar que a fome não se manifesta apenas no plano biofísico e sócio-econômico, mas vai além destes, com construções simbólicas, independentes ou não, das necessidades nutricionais do organismo. É no espaço temporalizante das condições sociais que se encontram as representações culturais da fome, as quais são produzidas para o indivíduo tecer explicações em dimensões, objetiva e subjetiva, e imprimir os diferentes sentidos sobre esse perverso fenômeno no cotidiano.
assim que tem gente que fica doido, é ela querendo entrar; a
gente tem vontade de ficar parado, fica mole esperando a coisa.
As sensações se inter-relacionam: o medo é misturado, arrepia o corpo, aviso de prisão do filho, falta de tudo dentro de casa, pai de família desempregado, gente que vira fera, visagem, não tem aposentadoria, a casa está pra cair, polícia no bairro, bala perdida, falta pão; não pode deixar o medo (da fome) tomar conta, senão a pessoa está perdida.
Onde se perde a pessoa? A percepção que cada um tem do seu corpo está em compreender suas diferenças no tempo e no lugar. Nesse aspecto, o sujeito, peregrino de sua história pessoal, imagina e realiza, integra-se às situações e concebe motivos para produzir sentidos. Com a compreensão de sua história, interpreta o “que fazer pra não ter fome”, apoiando-se numa tradição através da qual ele qualifica ações e as interliga aos múltiplos sentidos. Não isolado, o faminto age conforme a sua posição na sociedade e contempla-se no próximo, que é parte de seu mundo. Esse é o seu contexto.
Concluo que a fome crônica e coletiva dos moradores do Péla, pode ser compreendida como uma produção oriunda da condição sócio-econômica que os impedem de alimentar-se adequadamente, e manter uma melhor saúde do corpo. Essa condição histórica é traduzida no plano concreto da vida, a partir da adaptação ao tipo de alimentação diária que eles têm acesso, como ficou evidente neste estudo.
Para os famintos do bairro, a fome vai além do campo biológico, num quadro que se reorganiza dentro de uma semiologia própria, específica, ao demonstrarem os significados deste fenômeno em pauta. A experiência dos famintos no mundo cotidiano revela sistemas simbólicos que se configuram como significados concretos e inter-relacionados entre si. Para tanto, o instrumental metodológico possibilitou construções conceituais sobre a fome, com os recursos das ciências sociais: a Semiologia e a Hermenêutica.
Os sentidos mais comuns vêm indicar a fome como a condição a partir da qual convergem outros fenômenos, implicando formulações que dão lugar à polissemia que persiste mesmo quando desaparece a carência imediata do alimento, tornando a fome complexa em sua origem. Ao organizar o passado no mundo da linguagem, o sujeito apreende sua condição de ser faminto, mas não rompe as amarras da fome impronunciável, cuja tendência é afirmar a incerteza de viver sem a presença de fome.
As pessoas permanecem enfrentando a fome, e fornecendo significados, ora relativizados ao passado, como uma prática herdada, ora com outras estruturas que adornam os sentidos negados e reafirmados, no mesmo palco. São as experiências nos terrenos interpretativos que jogam na descrição ontológica, dada pelos atores, a enunciação de significados, de maneira singular em cada situação concreta.
Em cada contexto particular, a fome é sempre um sofrimento que fere o corpo, “rasga o peito” ou rompe a naturalidade dos dias. Primariamente, ela é percebida como externa e secundariamente, dentro do corpo, quando são reconhecidas as sensações. Essas que “cumprem um rito e um culto estético”, como observou Fernando Pessoa ao descrever as emoções como um meio (em O Eu Profundo, Obras em Prosa, 1974, p.36).
Dentro e fora, são os espaços de uma aparente dualidade dos sentidos, onde a fome é classificada como um processo que é permitido sentir, e cujas referências são as sensações momentâneas, que fazem do sujeito um receptor humano comum, e um outro processo em que nega, ou não quer sentir, pois o faz se reconhecer num mundo igualmente temeroso.
Nesse aspecto, a fome como um mal estar físico, ou “uma gastura na boca do estômago”, associada ou não à atitude de irritação, ou ao calundu, não é um estado que se percebe ameaçador, não sendo
o termo censurado12 . Essa sensação de fome aparece no logos mundano, que confere ao sujeito a necessidade de comer, como um ato comum a significar o sustento diário do corpo. Contudo, observo que a sede desse fenômeno não é tão somente manifesto no corpo biológico, mas também no mesmo lugar do eu, mediado pelo coletivo. O idioma de que falam os sentidos da fome que ameaça, traz os signos mais profundos do eu, no mundo habitual, não reduzindo a fome às relações funcionais do organismo.
A necessidade da produção de signos serve para identificar os sentidos e as emoções associadas que governam as sensações físicas. Essas, previsíveis e pressupostas, formam um labirinto de muitos sentidos interligados ao corpo e que dão lugar à compreensão do eu faminto, na condição social.
Como um fenômeno exterior ao corpo, a fome se manifesta na interioridade do ser, como uma ameaça pré-concebida. Essa que se remove do plano corporal para conectar-se à pré-compreensão, e faz o sujeito significar sua fome silenciando-a, e criando signos. Uma fuga a ser transformada em vergonha de ter fome, porque dá raiva e tristeza só de pensar. Um recuo da feição estética de uma fome que se nega e se sente.
Esse e outros aspectos não lingüísticos, e difíceis de serem interpretados, conformam um texto que oferece sentidos aos significados referentes. O distanciamento da palavra – o que implica em um tabu lingüístico, pela disposição do temor – desloca a fome do corpo, para ser concebida como uma “coisa” que não se consegue dominar, “porque ela é mais do que eu”. Nessa tendência, oculta-se o que mais aflige, e sem disfarces certos, a fome se revela para seu agente, inevitavelmente.
O fundamental para o sujeito é tornar crível para si e para outros, a fome que não quer ver e portanto, não quer sentir. É nesse quadro que o fenômeno toma formas e sentidos para dar uma compreensão da cultura, a qual os sujeitos se reconhecem e apoiam-se.
Dos testemunhos, constato que as sensações envolvem os indivíduos em suas individualidades. No tempo da noite, quando as crianças choram ou a violência assusta ainda mais, são produzidas insônias e visões. No sombrio das condições de vida, a significação de uma fome noturna justifica as percepções manifestas. Esse tempo provisório e diário age como coadjuvante do sentido de fome, e perpetua a insegurança da sobrevivência. Significa que não há “sossego na madrugada da favela”, mesmo quando os medos parecem arrefecidos com uma refeição e apagam-se provisoriamente. Mas, não há como se afastar da fome, pois ela está interligada aos outros temas de seus cotidianos e de suas histórias de vida. Também o beco escuro é o espaço onde outra informante percebe seus medos, que ressoam nos movimentos que cria para constituir sua identidade faminta.
Como vimos, o princípio organizador desses e de outros significantes recorre a outros sentidos aportados na persistente carência material. Não será, então, somente no escuro da noite ou do beco que as entidades imagéticas da fome vêm assombrar os informantes. Elas existem e são inevitáveis, ainda que a natureza do sujeito as (re) signifique, e reordeneas, a cada dia. Estão co-presentes e objetivamente se desvelam como função contextual, as quais não se assentam apenas no chão do bairro, mas antes, são transfiguradas pelo sujeito e o acompanha em qualquer lugar, porque estão conjugadas aos demais fenômenos sociais imanentes a ele.
Desse modo, as metáforas da fome não são ilusões dos agentes, mas os efeitos dos sentidos. Significantes que se associam a outros fenômenos, em cuja conexão a fome pode se manifestar como um ente que “sacode a porta” para significar a aflição crônica do desemprego, da falta de dinheiro para o leite da criança etc.
A produção sobrenatural de qualidade maligna funciona como um ponto de passagem da consciência para redefinir a existência faminta. O ente, a coisa etc. não são alegorias ou estruturas soltas no vazio, mas formações interpretativas para validar, como conteúdos subjetivos, o objetivo de uma fome anunciada.
O anúncio pode ser uma dor situada no peito, a qual é (re) conhecida para referenciar outras sensações que também afligem. Como uma dupla significação, a dor no peito ou na cabeça não são referentes isolados da fome, e, por conseguinte, (re) significam a fome, como a prisão de um filho, a falta de salários, a violência do bairro etc., e vice versa.
As condições de vida se mesclam, e conferem uma intertextualidade do fenômeno no plano da realidade, como se o real e o quase real estivessem em permanente correspondência. Os diferentes sujeitos têm seus horizontes interligados, numa mesma base semântica, o que significa que ninguém escapa ao sentido de fome. Em outros termos, quem experimentou a condição concreta de fome e continua convivendo com semelhantes processos, sentirá sempre o registro da fome em seu íntimo, como um dado que se endereça à formação de uma cultura de fome, presente no bairro.
Entretanto, cada ator reflete seus contextos e diferenciam os sentidos de totalidade. Nessas reflexões, há os que se percebem distintos uns dos outros, e definem a fome como um fenômeno alheio e contagiante. Nesse ponto, a referência de fome está no outro que o ameaça com seus sentidos, como um contágio, nomeado peste, e essa que pode ser também a droga (comércio e/ou consumo).
A fome perdura sem repouso em todas as pessoas do lugar, com tipificações diversas, que orientam as interpretações manifestas, realçando a fiação fundadora de uma realidade que se assemelha, e onde os sujeitos se percebem semelhantes, entre seus parceiros sociais, das mesmas ruas e becos do bairro.
A fome povoa os horizontes de quem vive nesses contextos sociais, e por isso pode ser sentida. O sujeito é sensitivo à ameaça de fome, o que faz se perceber faminto, mesmo diante da presença do alimento, esse que se apresenta sempre como provisório. É esse o sentido que antecede a representação conceitual do fenômeno, cuja noção de corpo-faminto articula-se à condição de uma existência-faminta, que habita no sujeito, o qual se move para interagir sentidos.
Dessa imanência, a fome é tematizada no medo de passar fome. Uma semântica que se interpõe ao sujeito para lhe exigir o envolvimento em muitas direções. E sobre isso, a entrada de alguns moradores no comércio de drogas funciona como uma estratégia para não passar fome, ainda que esta continue passando por eles.
A linguagem que fornece a significação está dentro do sujeito e fora dele, vem do particular para o público, numa produção em que o ato de comunicar considera também o oposto. A externalidade da fome é a transcendência que o sujeito encontra de suas impressões, para expressálas transcendendo o tempo e o lugar. Como um conflito permanente, a interpretação dos sentidos de fome não se esgota, mas objetiva o discurso e as suas referências.
Os moradores do Péla expressam sentidos que perpassam a superfície do corpo e os interpretam com indicativos de um contexto mais amplo, situando-os como estruturas naturais do cotidiano e fornecendo matizes que se encontram e se retraem, entre os espaços internos e externos do corpo. O medo de serem perseguidos pela fome produz significantes fundantes de outras perseguições que se entrelaçam aos distintos produtos gerados pelas condições sociais.
O medo da fome está no medo concreto do viver, que abraça significantes, como o desemprego e o baixo salário, os quais intimam os sujeitos ao confronto de seus sentidos. Uma metalinguagem, em que o sujeito é chamado a agir com a inspiração dada pela interioridade que pertence ao seu mundo. Assim, ele não se distancia de sua realidade, não se afasta do esperado, nem estranha a fome.
São evidências de que não há uma negação da realidade objetiva da sobrevivência ou uma redução das representações imagéticas de fome essas que se apresentam como uma verdade velada, implícita e distante, a um só tempo. Na dimensão subjetiva, a fome não chega a surpreender o ambiente doméstico, e ainda que os enunciados se mostrem como sendo essa uma condição assustadora, sugerem também outro sentido: a permanência de uma “espera”. O sentimento precede e relativiza qualquer dicotomia e estranheza. Vem antes de qualquer representação e permanece.
Qualquer pessoa do bairro sente-se faminta em seus contextos particulares, ou porque tem uma fome vivenciada de suas infâncias ou porque, de fato, não tem o suficiente para comer. Nesse aspecto, a concepção clínica de “um estar nutrido” significa, para eles, estar faminto em suas realidades. A realidade é reconduzida por uma diversidade de sentidos, cuja experiência impõe significados subjetivos para ordenar esse mundo real. Nessa construção da cultura, a condição de fome centra o sujeito em sua própria realidade.
Como produtor de sentidos, o sujeito compreende a fome como uma inserção direta e indiretamente de seu mundo e de seus semelhantes, e na linguagem ele revela as formas de agir sobre esse fenômeno, as quais são inteiramente relacionais às questões macro-sociais e históricas. Fome real, quase real e imaginada, ou realidade e conotação do real, ocupam-se das imagens do medo de sentir fome. Estas são construídas para serem recebidas e tecidas na realidade concreta, cuja perspectiva semiológica permite-me compreender um estado de fome a transitar no espaço físico do bairro, do corpo e da existência, conformando um conjunto de significantes que estão no corpo/mente de quem experimenta o fenômeno e sua idealidade constituída, e dele não se liberta.
As evocações nascem dos sentimentos intencionados para manifestar um mínimo de compreensão, produzindo a originalidade de significados a partir da presença animada do fenômeno. Uma produção que está dentro do processo social e percebida para compor o cenário de um mundo violento e faminto.
Nessa animação, a fome é uma fera. Uma antromorfização que se mostra no sentimento de raiva pela fome ou pela droga que vem da fome. Não é por acaso que a externalidade e a internalidade se correspondem para capturar a comunicação que se quer afastar. No empírico, o faminto age para coibir a fusão do corpo com a imagem que cria, essa alegoria que está no real, quando toma como referente à fome em um outro. E esse que a devolve para contaminar com seus sentidos aquele que se percebe semelhante. Nesse dilema configurante, reúne-se uma pluralidade de sentidos, e um juízo reflexivo para classificar a fome como uma condição angustiante. É nessa intersubjetividade que o sujeito se percebe e dá objetividade à (sua) agonia de fome.
O interesse desses atores não está em mostrar a fome de modo consciente, por essa razão os signos físicos não são os mais valorizados, e a esses se somam outros signos para explicar a real manifestação da fome. Para suportar a sobrevivência, os famintos tendem a afastar-se da fome em suas pré-reflexões, e, num tempo provisório de sua reflexão, eles não se limitam a perceberem os sentidos, mas também a utilizá-los em suas explicações recorrentes. Também, por essa razão, eles nem sempre refletem a importância do peso corporal como um problema de saúde. Magreza e obesidade são condições próprias da natureza da pessoa, e nem sempre percebidas como processos nosológicos.
A desnutrição pode ser interpretada, enquanto uma condição advinda de contágios ou não, de crenças, como o mal do olhado, ou um destino da criança. E a perda severa de peso torna-se a encarnação de uma fábula. Romão surge, então, como a intencionalidade de seus receptores, para explicar e justificar uma ação que vem de fora do corpo.
Nessa descoberta, não há como se abrigar do modelo dessa trama e nem se questiona os limites entre o real e o imaginário, o corpo e o espírito. As duas noções se confundem para que a fábula possa agir e interferir na realidade. Romão se apossa da cena da desnutrição, e o sentido físico de fome abraça outro idioma, ou seja, uma elaboração global da significação da fome e não somente uma entidade nosológica da criança.
A desnutrição é doença, ou não. Como negação, se afirma um estado natural de uma imagem que se acostuma ver. Como doença, será referido como uma entidade própria da natureza da pessoa. Essencialmente, trata-se da força e da fraqueza como formas de auto e heteroreferências, relacionadas ao modo de como os sentimentos encontramse dispostos frente às dificuldades da vida. Ao fraquejar sobre o mundo, a mãe exerce influência sobre o corpo do filho, e nessa pré-compreensão, ela (pre) sente a fome e conseqüentemente, a desnutrição afeta a criança. Essa relação entre o evento e a significação, faz referência à natureza da mãe, a qual rege o cuidado, a fé no alimento, a qualidade do leite materno etc.
Nesse âmbito, a auto-referência caracterizada em vários enunciados, liberta-se dos limites situados no contexto, para oferecer possibilidades geradas para acostumar-se a viver com pouco. Uma compreensão que vai além dos limites impostos pelo contexto social.
Mesmo quando se estabelece a fome como um fato objetivo (a desnutrição da criança), a possibilidade de interpretar esse fenômeno como algo invisível não é afastada. O subjetivo dentro do objeto implica na relação real entre o homem e seu mundo, que quando invertida na sua consciência, ele é capaz de habitar a realidade conjugando elementos que ele cria e nega, e vice-versa. O que se torna significativo é que não basta estar “desnutrido” ou “normal”, para estar faminto, pois a fome está num tempo da vida, como uma “tatuagem”, uma cicatriz da própria existência, independente do peso do corpo. Ou melhor, a fome é uma marca inseparável do corpo e da história de vida desse corpo.
Os muitos sentidos, que se cruzam e se separam, confundem-se nas antigas tradições visionárias – e que ainda ecoam em suas unidades domésticas – e outras novas maneiras de pensar a fome, formando uma multiplicidade dispersiva de expressões, nem sempre por nós apreendidas.
Os significados da fome engendram um texto específico para a compreensão desse fenômeno, que não é percebido como uma doença, mas antes, um estado da desvalorização social do sujeito perante o mundo, a sociedade. Uma desvalorização, no sentido ôntico, pois os famintos não só se sentem humilhados, como se percebem sem qualquer esperança de sair das condições sociais em que vivem. Como uma espécie de punição, vivem no inferno, como as pessoas designam o bairro, a cadeia, a perseguição policial, esse tempo presente, os sentidos e os mitos da fome.
O inferno sintetiza a condenação da qualidade de vida no aqui-agora, onde ninguém tem pra onde migrar, nem como evitar as assombrações da fome, as quais se misturam a tantas dificuldades “destinadas”. Para uns “a vida não tem mais jeito”, para outros, só um “milagre” poderia reverter a desigualdade social que produz fome e transforma o bairro num “lugar igual na cidade, sem a fome e sem a violência vim pra porta da gente”. Uma violência que não pede passagem a Renilda, Sílvia, Bernadete, Val, Regina, Elza, Tiêta, Arlete e tantas outras pessoas que têm suas casas crivadas de balas, seus cardápios arranjados no lixo, suas crianças sem escola.
Das muitas limitações encontradas neste estudo, considero importante registrar: a dificuldade de retornar a algumas das unidades domésticas envolvidas com os esquemas comerciais da droga; a minha saída do bairro antes de obter outras informações sobre a influência de Romãozinho fora da área dos sertanejos; a superficialidade com que trato os aspectos da religiosidade, em especial o Candomblé, deixando em mim algumas dúvidas sobre tal domínio na temática da fome.
Constato que a ausência de projetos político-sociais no bairro constitui-se na sustentação de uma espécie de vazio de expectativas para as pessoas. Essa falta de projetos transformadores da realidade do bairro fortalece a desesperança e o fatalismo, esses que alimentam o mundo imaginário do faminto, como um inferno vivo e eterno.
A condição de fome, como uma das mais terríveis experiências da vida, vem confirmar a necessidade de ações políticas mais amplas do que a doação de alimentos pelos serviços de saúde para uma população concebida como “vulnerável” aos efeitos da fome crônica. Uma complementação estaria em ações que manifestem a importância da reversão dos sentidos de fome a partir da valorização social do sujeito, associado a mudanças estruturais na sociedade que produz fome. Com esse caminho, a conquista da cidadania estaria mais próxima de cada pessoa, e certamente poderia libertar-se da fome, esse espectro que ameaça a vida e interrompe qualquer sonho humano.
A fome, este tema tão complexo, tem o campo interpretativo aberto para outras leituras, no mesmo bairro. Descrevo este fenômeno histórico conforme as minhas observações e possibilidades; incorporo as experiências dos famintos sobre este flagelo social que “corta o coração”, que “dá vergonha” e “uma agonia, muito grande, dentro da gente”, segundo as expressões desses que sentem fome.
Notas
12 Apesar da extensa documentação histórica sobre a presença de corpos famélicos nas diversas sociedades, as ideologias das classes dominantes, por mais de mil anos, designaram o termo fome para, fundamentalmente, referirem-se ao habitual da sensação momentânea de vazio no estômago. A fome crônica não foi considerada como um fenômeno associado às enfermidades e nem mesmo como uma qualidade intrínseca à pobreza (SIGERIST, 1981: 35)12.