Agonia da fome
A péla e sua gente
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
O nome desse lugar é Esperança, mas não pegou, porque ninguém tem esperança de mudar de vida. Aí ficou esse. Lugar antigo de pelar porco pra vender no mercado. Mas, aqui não tem mais porco. Tem um bando de moradores que vivem que nem porcos, porque não tem opção. Ninguém aqui tem esperança até de viver amanhã (Sílvia).
Às vezes, eu converso assim com Deus:
Meu Senhor, onde eu estava com a cabeça quando pedi pra
voltar? Quando pedi pra nascer de novo?
Como é que eu ia saber que eu vinha pra esse inferno?
Como é que eu não vi isso, antes de nascer nessa seca de
água, de amor, de tudo? Eu já vi demais de tudo. Já vi como é o
inferno. Quando eu for outra vez, com toda a minha fé em
Deus, eu não vou mais voltar. Voltar pra que?
(Tiêta nasceu no sertão da Bahia e vive a mais de 20 anos no
Péla).
Convido o leitor a conhecer esse inferno de Tiêta e de milhares de outras pessoas que não têm qualquer expectativa de viver sem fome. A etnografia é o caminho que encontro para interpretar esse mundo violento, um método que me permite descrever os modos de viver na cena cotidiana e as diversas maneiras de como os atores experimentam uma fome crônica e persistente, em meio a outros problemas sociais. Como eles se percebem no mundo e interagem nas relações sociais para sobreviver são, entre outras, as questões aqui colocadas, advindas de minha observação no bairro.
Descrevo as unidades domésticas; em particular, a biografia de membros da família, em geral a mulher, como principal informante e a maior responsável pelo cuidado alimentar de sua unidade. A observação da vida deixa-me, ao menos, compreender a forma como cada membro reproduz o sistema social de símbolos e valores em sua vida pessoal, sobretudo em relação às concepções do fenômeno estudado, vez que, é nesse contexto específico que aparecem símbolos significativos, impressões, sentimentos e visões, a inscreverem-se como textos da condição de privação.
Assim, como observadora, obtenho um conhecimento mínimo da cultura de fome, tratando de resgatar não apenas as estratégias retóricas a respeito de um mundo reduzido a partir do texto dado pelos atores sociais, como também o sentido prático do mundo social, de como eles vivem e enfrentam a fome.
Eles narram enquanto prepararam os alimentos ou outros afazeres domésticos, ou saindo para o trabalho, dentro e fora da casa, com uma certa ordem sintagmática, num encadeamento seqüencial, em seus mundos diários. Para cada tarefa, um texto sugere a reflexão sobre situações da vida, como se o “fazer algo” se relacionasse a um modo de ver e de sentir o corpo no mundo. São atitudes naturais, em que as atividades diárias significam o tempo dos dias, e a preocupação com as questões da sobrevivência ocupa esse tempo sem perder de vista os outros sentidos da vida.
Para mim, todo um exercício (de ver e ouvir) para interpretar é uma aprendizagem que se constitui na tarefa de delinear a interação simbólica do dia-a-dia desse grupo social, suas ações, suas definições, as maneiras de compreender o mundo e a fome. Mesmo que haja diversas leituras sobre o uso da observação participante, nas escolas de pensamento da Antropologia (HAGUETTE, 1992: 69), essa técnica desvenda algumas das lacunas deixadas pelas narrativas, revela códigos e seus significados mais íntimos (BÁZTAN, 1995:10-14). E como observante, ainda que eu tenha códigos de referências distintos desse grupo, ainda que seja uma estranha no mundo deles, e estranhe muitas coisas de seu ambiente, procuro sentir-me co-presente no convívio com eles, os moradores do Péla.
De fato, para o exame de como se constitui essa comunidade, o diálogo é o mais amplo possível. Também, parto da pressuposição de que a linguagem pode trazer elementos que nem sempre estão no plano da realidade objetivada, e por isso utilizo a entrevista semi-estruturada como um dos recursos para a revelação dos sentidos, as diferenças e semelhan-as sobre o pensar o corpo, a fome e os vários assuntos humanos sensibilizados em suas expressões. Os aspectos subjetivos da linguagem simbólica e a restauração da experiência dos famintos são proeminentes para a análise das narrativas.
Nesse mesmo tempo e espaço, os informantes afirmam suas expectativas e suas memórias relacionadas aos múltiplos mundos de outras narrativas sociais, públicas e culturais (SOMERS, 1994: 605-649). São as informações, conexões e substituições da linguagem a inscrever o conjunto das coisas cotidianas, donde tudo interessa e significa sem cessar, para a construção de um texto o mais próximo possível da realidade.
As experiências de fome aproximam-se uma das outras na conformação de um mundo cotidiano intersubjetivado, compartilhado, vivenciado por outros que também experimentam situações semelhantes, e por isso podem ser interpretadas de modo semelhante. As diferenças e similitudes entre as pessoas formam um acervo de saberes (pensamentos e práticas), fundados na experiência subjetiva do mundo cotidiano, ordenado em dimensões temporais, espaciais e sociais de cada situação vivida.
Do referencial teórico utilizado, descrito mais adiante, distingo os conteúdos veiculados ao tema, tomando como indicativo básico o conjunto de significantes implícitos na condição do ser-faminto. O que significa dizer que o foco – o cotidiano e as experiências de fome – alude sentidos significantes que se conectam aos contextos particulares das unidades domésticas que, por sua vez, são relacionados às questões sócio-históricas, as quais andam juntas aos significados encontrados.
Foi nesse bairro, no período de 1983 a 1990, que trabalhamos, professores e alunos do curso de Nutrição da Universidade Federal da Bahia, recuperando os casos de desnutrição infantil, utilizando recursos específicos, tais como suplementos de soja e a cesta básica do Centro de Saúde vizinho, ao tempo em que discutíamos com a população a melhoria do bairro junto à sua associação, com várias atividades como a educação para a saúde, as oficinas de trabalho e lazer (naquela época, já percebia a dificuldade dos moradores em usar a palavra fome em seus discursos). Em 1987, por reivindicação dos moradores, foram construídos, o saneamento básico e as escadarias de cimento, em ações promovidas pelo governo e com a utilização da mão-de-obra dos moradores. E após dois anos, houve uma redução da desnutrição aguda nos menores de cinco anos. Lembro que eram semanais as reuniões na comissão de saúde da Associação de Moradores, em cujas pautas constatavam a visita aos desnutridos, a ênfase ao aleitamento materno, o cuidado com a criança. Do alto-falante do bairro, a cada momento, escutavam-se mensagens sobre a higiene, o risco das verminoses e outros temas. E seis da tarde, no horário da Ave-Maria, um morador lembrava o ninado das crianças, como uma medida de evitar o espancamento e outros maus-tratos.
Passados sete anos, retornei ao bairro e fui tomada por uma forte emoção pela constatação de muitas mudanças no interior desta realidade. A visível degradação econômica e social, pela desocupação dos membros das famílias e a falta de projetos na comunidade, associadas à expansão do comércio de drogas, deixou-me a impressão de ser esse, um ‘outro’ bairro. Esperava a continuidade do trabalho iniciado antes, como a luta por cidadania, a ampliação da escola (não a sua extinção), as crianças sendo atendidas no centro de saúde, as grávidas nos pré-natais, a manutenção do saneamento básico pelos poderes públicos etc.
A minha impressão inicial, no impacto do familiar pelo estranho, foi a de uma exclusão social ainda maior que no passado. Talvez, mais que uma exclusão, predomine nos moradores um sentimento de rejeição social, pois eles não têm qualquer referência de melhoria de vida, já não se reconhecendo como comunidade, dada a violência exacerbada dentro e fora de suas moradas. Ao comparar o cenário atual com os anos anteriores, notei modificações nas casas: os pequenos jardins e quintais deram lugar aos novos domicílios, e as salas ficaram reduzidas ou deixaram de existir; não há mais plantas nas portas, nem vasos a enfeitar o interior das mesmas casas do passado, nem se vê com freqüência os papéis recortados em mosaicos sobre as prateleiras das panelas.
A experiência daquela época não foi esquecida e, por isso, várias pessoas solicitaram-me uma visita, uma conversa sobre a comida das crianças e outros temas, como fazíamos antes. Dessa aproximação, as observações, as narrativas e tantas reflexões, constituíram um diário de campo como um testemunho desse estágio de poucos meses.
Para as antigas lideranças, esta etnografia serve para “denunciar as condições de fome do povo” (Renilda), porque “só gente letrada pode levar para fora o que se passa aqui dentro” ou ainda, “todo mundo tem de saber como é que a gente vive” (Sílvia). Elas dizem reconhecer a fome como um produto da desigualdade social, e minha presença passa a servir de aporte às suas reflexões sobre esta condição humana. Nesse sentido, elas não rejeitaram o tema da investigação e dessa aceitação abriu-se a possibilidade de iniciar o trabalho de campo com a história do bairro, das famílias, das pessoas e as primeiras entrevistas.
Desde o re-encontro com os vários moradores conhecidos, eles se organizaram para um permanente acompanhamento do trabalho de campo, para me proteger de uma nova violência instalada no lugar desde os últimos quatro ou cinco anos. Nesse cuidado, eles também delimitaram a área da investigação, e o lugar conhecido como Campo e duas das inúmeras travessas do bairro não foram visitadas.
O conhecimento prévio deste universo evocou das forças sociais que jogam na produção da fome uma série de categorias identificadas em campo, como as percepções e as práticas cotidianas sobre esse fenômeno, e outras indicações do contexto social, a saber: desemprego, renda familiar, violência, as quais englobam o que se denomina de condições materiais objetivas, concretas.
Assim, para obter uma idéia mais ampla da comunidade, elejo unidades domésticas que sobrevivem com menos de um salário mínimo, outras que recebem até dois salários e algumas que não declaram renda, mas dizem viver em condições de fome. No decorrer da investigação, associo esses dados aos níveis de escolaridade, origem, tipo de ocupação das pessoas, suas comidas cotidianas etc.
As dúvidas e as questões nascentes a cada passo, a cada encontro mesclam-se aos detalhes das diversas situações. E das expressões colhidas, elaboro uma descrição minuciosa de como as pessoas interpretam suas vidas de fome. Em particular, destaco os aspectos subjetivos, as pausas e silêncios nas entrevistas, os signos narrados ou quando, de olhos fechados, os informantes suspiram ou gemem, alternando a necessidade de distanciamento do tema ou de uma comunicação com o divino.
O encontro com a temática da fome não se deu de maneira simples. Durante os oito meses de trabalho de campo, entre as ruas do bairro, as escadarias e o interior das habitações, surgiram impressões pessoais, aspectos gerais, coisas comuns e incomuns aos meus olhos, hábitos e termos que iluminaram e, por vezes, obscureceram a temática. No dia-adia, decifro códigos, gestos, um sorriso dos pequenos traficantes, uma proximidade, um aviso: “...aqui não é lugar pra você”, ou ainda: “ ... quer que eu vá mais a senhora, lá em cima?”.
Das dificuldades encontradas para ampliar o leque de visitas, considero como mais importante o sentimento de medo por parte dos moradores da presença ostensiva e violenta da polícia em dias de terças e sextas-feiras, e os tiroteios dos conflitos entre os grupos do comércio das drogas, que transformam as ruas em desertos, em pleno dia. Por estas e outras razões, não foi possível tirar qualquer fotografia da área ou das pessoas.
Muitas vezes, o disfarce de minha falsa indiferença em relação aos horrores revelados, propiciou-me a aproximação de alguns grupos do tráfico de drogas e de suas famílias, os quais abriram suas crenças, seus sentimentos mais íntimos, seus medos. Após muitas horas de gravação, alguns informantes se recusaram a dar entrevistas dentro do bairro, por temerem alguma reação adversa da polícia ou de grupos do tráfico. Finalmente, deixei o campo por solicitação dos traficantes, cuja ordem de afastamento tornou-se ainda mais clara no dia seguinte ao assassinato de cinco meninos, dentro do bairro, tidos como devedores de crack.
A tentativa de descortinar a cena social para reconstruí-la com outros elementos do cotidiano, deu início, lentamente, a este trabalho junto aos moradores, com suas vidas no mundo diário, a formação do bairro etc.
A maioria que chegou aqui, era retirante de outros Estados e
daqui da Bahia mesmo. Sem ter onde morar, foram chegando,
uns chamando uns aos outros, e iam trabalhando de limpador
de rua. Essa gente toda que chegava de repente, construía os
barracos da noite pro dia. Foi virando favela. Todo mundo
invadia. Quando a prefeitura descobria que a quantidade de
barracos ia aumentando, aí vinha e derrubava. Era barraco de
taipa, de papelão. Quando não tinha ninguém em casa, eles
tocavam fogo. O terreno era do INPS e o diretor dizia que tinha
que queimar tudo, acabar com as casas, que aqui era um antro
de marginal. Naquela época só tinha pai de família, trabalhador,
que por necessidade da vida estavam invadindo o terreno.
Como eu e outras pessoas. Hoje o bairro tem menos operários.
Não tinha água, não tinha luz. Comecei a me apaixonar pelo
lugar. Nós aqui, cercados pela burguesia. Nenhum de nossos
filhos eram aceitos nas escolas públicas vizinhas. Não nos
queriam. Sempre fomos marginalizados pelos vizinhos, como
se a gente fosse piolho (Renilda).
Na geografia da fome de Salvador, destacam-se, sobretudo, os bairros periféricos. Conforme a conversa com as pessoas mais antigas do bairro, os pobres da cidade estão segregados em espaços nomeados desde o início do século como “periferia”, “subúrbio”, “rocinha”, “lugar de negro” e “lugar de pobre”. A partir dos anos 60, passam a ser conhecidos também como, “invasão”, “favela” ou apenas “bairro” ou “barrio”. Mais tarde, quando o movimento popular reinicia sua luta política, em meados dos anos 80, adquirem a terminologia “bairro popular”, insistentemente colocada pelos moradores como um modo de caracterização de classe e, portanto, de luta, rompendo com as definições criadas pelo poder político.
Entretanto, mesmo entre os bairros de classe média, no centro da cidade, encontram-se lugares de pobreza, senão de miséria total, onde se amontoam cortiços, becos, ou “avenidas” (conjunto de pequenas casas geminadas), com famílias que enfrentam a fome, como parte de seus cotidianos. Enquadra-se aí o Péla, como é conhecido na cidade, esse sub-distrito do bairro de Santo Antônio, registrado como Favela Alto da Esperança, com 369 domicílios particulares, 23 estabelecimentos comerciais e um total de 1.427 pessoas, entre 674 homens e 753 mulheres, conforme o censo de 1996 (FIBGE).
Situado no centro comercial da parte mais antiga de Salvador, o Péla era, até os últimos anos da década de 60, parte do cenário da principal porta de entrada da cidade. A área, conhecida como a ribanceira de acesso à rodoviária, era um grande terreno acidentado de mata cerrada. Lugar onde se abatia e se pelavam porcos para serem comercializados no mercado das Sete Portas, dos anos 20 à década de 60. E foi a partir das sucessivas secas dos anos 60 que alguns migrantes do sertão da Bahia e de outros Estados do Norte e Nordeste passaram a habitar essa antiga mata. Eram, aproximadamente, vinte famílias baianas, paraibanas, alagoanas, pernambucanas e paraenses que se apossaram da parte baixa do terreno, naquele tempo.
Os primeiros que chegaram demarcaram o território com um acordo, para um lado e outro de uma imensa jaqueira. Nessa divisa, ruas e ruelas foram abertas pelos moradores, dando lugar à separação por ordem de chegada dos migrantes, nascendo a rua dos Paraibanos, do povo de Alagoinhas (município da Bahia), do Sertão ou da Seca etc. Hipoteticamente, da divisão nasceram diferenças sociais entre o que se consideram “o povo de baixo e o povo de cima”, criando mais tarde outras nomenclaturas, como “gente de trabalho”, “gente de briga”, “gente barra pesada” etc.
A formação dessas microrregiões do bairro, ademais da originalidade dos moradores, modificou-se, principalmente desde os últimos cinco anos, com a maior influência do tráfico de drogas. As novas áreas conformam os espaços nomeados como o lugar “de fulano e sicrano”, numa subdivisão que se mescla com as mais tradicionais, a Rua Direta, de Cima, Pantaleão, Jaqueira, Vila Antônia, Paraíbas, Campo, Becos, Travessas e o Miolo dos Alagoanos. Aparentemente separados por grupos de origem, as relações adquiriram regras formalizadas de convivência.
A rua Direta representa hoje a mais importante do bairro. Com aproximadamente 500 metros de extensão, estão aí situadas as melhores casas, abrigando também um pequeno comércio de videogames, padaria, alguns bares, salão de beleza, oficina de carros, marcenaria e a escola pública do primeiro grau até o final de 1998. Faz limite com a entrada do bairro, na parte baixa próxima à movimentada avenida do comércio local, um muro branco e alto (dois metros de altura), que abriga, desde 1982, um Centro de Saúde. Os moradores procuram normalmente esses serviços, embora o considerem “fraco”, por carecer de outros necessários à população, como um setor de emergências e tratamento antidroga.
Esse postinho aí só tem tamanho, não serve pra a gente; não
tem pronto socorro, só serve pra dar vacina e uns conselhos,
mais nada
(Regina).
Aí só tem uma médica boa, o resto pensa que a gente é porco
[...] são um bando de enfermeira e médico tudo grosso, tem
nojo da gente (Val).
Os mais antigos moram nas ruas planas, e outros, que chegaram mais tarde, passaram a habitar o alto dos morros, as escadarias, os batentes, os becos. Atualmente, por falta de espaço, o bairro cresce no sentido vertical, com pequenos prédios amontoados por todo o território, numa arquitetura incerta, com uma clara divisão social entre os pobres e os mais pobres, em meio aos becos, à planta baixa e aos morros. Um conjunto próprio de uma densidade populacional que se acomoda em espaços gerados para dar lugar às casas de dois e três andares. Esses apartamentos aparecem como novas propostas de moradias, antes pouco conhecidas, e o termo barraco, utilizado para definir a pequena habitação, é uma nomenclatura referida apenas por antigos moradores.
E quanto mais eu entrava em estreitos e escuros becos, com odores de fezes e urina, mais via habitações empobrecidas. As casas de alvenaria ou madeirite, nos becos, nas pontas dos morros, travessas e escadarias, são quase sempre úmidas e pouco iluminadas. Num quarto ou num vão, onde vivem muitas pessoas, elas se servem da água de torneiras coletivas que são os pontos comuns de encontro das mulheres na lavagem de roupas e utensílios. Aqueles com melhores condições econômicas vivem em casas maiores, situadas em ruas e geralmente com mais de dois ou três cômodos (sala, quarto, cozinha e sanitário intradomiciliar).
Os mais pobrezinhos aqui vivem no Campo, no Miolo e nos
quartos de beco. Só de olhar o lugar deles a gente já vê que
não têm o que comer (Lourdes).
Aqui, uns moram e outros se escondem (Madá).
De quem se escondem ? A descrição dos moradores sobre os que moram e os que se escondem leva em conta a existência de uma pobreza maior dentro do bairro. Desse ponto de vista, as narrativas de alguns moradores tendem a explicitar a fome combinada ao tipo e ao local do domicílio. O escondido corresponde àquele que vive em piores condições ou é perseguido pelo inimigo. Mas em geral, estar escondido é viver sem a luz do sol a iluminar a morada, que no contexto de violência são os locais escuros, os mais atrativos para os assassinatos pelo tráfico.
Para alguns moradores, a casa representa a vida de fome de seus habitantes, acostumados a esse processo. Para outros, mesmo que haja alguma relação entre o tipo de habitação e a fome de seu habitante, há diversas interpretações que, por vezes, revelam a supressão do mundo aparente, e apresentam outros objetos que encarnam a verdadeira razão da condição de fome. Pois, “todo mundo tem medo de não ter o que comer” (Tiêta), porque “aqui ninguém se salva, nem quem tem casa boa, nem quem não tem” (Sílvia). Na realidade, os moradores, de maneira geral, são impulsionados a pensar e a agir sobre a fome cercando-se de distintos símbolos, cujos significados independem da aparência das suas casas, embora, num dado momento, tenham metáforas intimamente relacionadas à fome construídas por quem vive “nos becos da morte”.
A maioria das casas não tem reboco nem pintura. As portas são trancadas com cadeado e algumas janelas estão situadas acima da altura dos adultos. Casas modificadas com tábuas, outras com grades de ferro ou como cavernas de chão de barro batido, como escuros esconderijos. Em espaços como esses, vi, através de frestas das portas, crianças presas, sozinhas. No interior de uma das casas, uma criança, com menos de três anos, estava com uma perna amarrada de corda à mesa e um cachorro tomava conta. Às vezes, uma vizinha lhe dá “água e restinho de comida”. E diz: “isso é filho de bandido, é gente da pesada”.
O conjunto de objetos gasto faz par com os pisos e paredes sem rebocos, telhas envelhecidas e quebradas. Um habitar que parece provisório, nessas casas em permanente construção. Prédios em precárias condições, saturados de subdivisões para abrigar parentes e agregados, formando um movimento labiríntico tanto interna como externamente. Escadas do lado de fora a dar acesso ao andar superior, chão de madeira sobre esgotos etc. Numa engenharia cuja técnica rudimentar de construção não traz segurança aos habitantes. Muitas, ainda se encontram penduradas nos morros e sobre os terrenos alagadiços, sem água intradomiciliar e sem sanitário. Também as coletivas, onde habitam vários grupos domésticos, não têm qualquer condição de manter a higiene pessoal.
O lixo das unidades domésticas é recolhido pelos moradores às caixas coletoras nas duas principais entradas do bairro. Mas, como isso nem sempre ocorre, o resultado é a sujeira nas proximidades das casas, nas escadarias e junto aos esgotos, em vários pontos do bairro. O jeito de viver na miséria anuncia a presença constante do lixo como um complemento de sentirem-se como restos sociais.
Isso é falta de responsabilidade da prefeitura (Renilda).
Só branco tem serviço de apanharem o lixo das portas, a gente
aqui tem que descer ou subir pra levar até o tonel. Aí tem gente
que se revolta e joga assim, por isso tem tanto rato dentro de
casa (Lourdes).
“Quem chega no bairro por baixo, vê logo aquela subida do lado, lá só vive gente ruim” (Joana). A Vila Antônia representa o lugar de morada do grupo mais visado pela polícia, e por esta razão, destaca-se como o espaço mais fechado de todo o bairro. Recebeu o nome de Antônia em homenagem a uma antiga moradora que abriu sozinha uma rua larga, morrendo de “facão na mão”, após tanto esforço.
De todo o território, esse espaço se diferencia por sua história de
“gente que parece umas feras”, “lugar de gente perigosa” etc.. 1 Seus moradores formam ainda hoje um condomínio que se assemelha a uma grande família. De fato, no início dos anos 70, D. Judite, seus onze filhos e vários agregados chegaram aos poucos dos municípios baianos de Santo Amaro e Cachoeira e tomaram conta da Vila. Nesse morro, vivem hoje cerca de cem unidades familiares. Construíram casas, cercaram a entrada principal e permitiram a vinda de migrantes de outros bairros. Passados tantos anos, os descendentes dessa família continuam dominando o lugar. Envolvidos, desde muito tempo no tráfico de maconha, assaltos e furtos, são temidos e considerados por outros moradores como “gente ruim” porque “podem roubar e matar qualquer um daqui”. Os que vivem próximos revelam que:
Tem anos que ninguém daqui quer entrar lá. E nem quando
tinha o terreiro de D. Geralda a gente ia lá. O terreiro não deu
certo e não tem igreja que fique lá dentro. É tudo contaminado
de tudo. Tem gente que mata por causa de um pedaço de pão
[...] Lá começou com uma família de bandido, aí foram
chamando os outros de fora (Laura).
Eu moro aqui tem vinte anos e nunca entrei lá. Todo mundo
sabe que ali não tem jeito (Tiêta).
Foi na Vila que, em 1984, ficamos, J. e eu, trancados por algumas horas, num pequeno quarto, quando ele me convidou a ver seu filho “desnutrido”. Tratava-se de uma mentira. E sentado na cama ao meu lado, ele falou de sua mãe bêbada e das dificuldades em conseguir trabalho para mudar de vida. A maior autoridade do lugar mostrou-me um outro lado da sobrevivência dos perseguidos pela polícia. A necessidade dele era dar esse conhecimento, a seu modo. Como sua prisioneira, pude ouvir o que ele considerava fundamental e sentir o que ainda não conhecia do bairro. Depois dessa prova, ele avisou aos moradores que ninguém poderia tocar-me, pois eu estava sob sua proteção. J. era um “marginal perigoso, antigamente” (Josival, irmão de J.), “ele matou a mulher lá no interior, de peixeira, e ficou escondido dentro de casa mais de mês” (Laura). Hoje, envelhecido, sisudo e cansado, diz que quer se aposentar do crime, porque “não consegue correr mais como antes”.
O antigo campo de futebol também deu lugar a uma nova invasão. Conhecida como morada de ladrão, “ninguém entra, nem a polícia” nesse enorme vale com suas duas entradas vigiadas por moradores que comercializam o crack. Toda a luz elétrica está clandestinamente ligada aos postes das ruas do bairro de classe média que fica no alto, não havendo água intradomiciliar, nem tonéis para a coleta de lixo.
Com o crescimento populacional da cidade, em meio à ausência de políticas sociais, diversos problemas se avolumam, como a falta de vagas nas escolas e de estímulo para uma formação profissional mínima, restando aos jovens das camadas populares poucas opções.
É nessa realidade que o Péla, com o fim do movimento social reivindicativo em 1992, passa a conviver com a presença ostensiva do tráfico de drogas, um aumento considerável se comparado aos anos 80, quando seus moradores, conhecidos como “gente de briga” pela mídia, segundo depoimentos, conseguiram conquistas importantes, como a legalização do terreno, água, saneamento básico e escadarias em algumas áreas. Nesse período, era pequeno o número de assassinatos no bairro, e hoje não é raro encontrar corpos de jovens fuzilados, com mãos amarradas, nos becos e travessas de acesso.
Em meio a esta guerra social, também observo a insatisfação dos moradores em relação à sujeira do lixo que se avoluma em suas portas, e a destruição dos canos dos esgotos, permitindo exalar cheiro de fezes e urina em vários pontos do bairro.
Quanto à situação de fome, conforme os entrevistados: “... tem mais que antigamente” ou “piorou muito”, ainda que o resultado do exame antropométrico das crianças mostre uma redução da desnutrição
infantil 2 . Uma contradição envolta no crescimento visível da mendicância, e no aumento de pessoas que sobrevivem dos restos e sobras dos mercados e das casas de lanches próximas ao bairro; uma situação pouco vista no passado, quando se recolhiam alimentos do lixo de tonéis e do chão, apenas à noite ou de madrugada, devido ao sentimento de humilhação que os moradores sentiam nessa atividade. Diferentemente do passado, hoje é comum ver a multidão sobre os lixos, a qualquer hora do dia.
Com o tráfico de cocaína, 3 crack e maconha, os moradores tornaramse visados pela polícia, tendo suas casas vasculhadas a qualquer hora e sofrendo freqüentes ameaças de prisão, muitas vezes arbitrariamente. As chamadas “noites de terror” são representadas pelas batidas policiais, que se configuram como uma ameaça permanente aos moradores. Com isso, as crianças brincam raramente nas ruas e, em muitas ocasiões, o espaço social fica deserto quando as gangues dos traficantes assim determinam. “Ninguém sai, ninguém entra em casa nem no bairro. Eles mandam avisar pra a gente não sair” (Renilda). O clima é de terror e medo, como descreve a canção de alguns jovens:
Sempre cabe mais um na vida do crime
Quando chega o barão todos metem a mão
Querendo superar a sua atitude ou a sua concorrência
Não deixando ninguém em paz
E lá estão eles, cada um com o seu copo esquerdo e a pedra
na mão, Bancando a sua presença / (venham, venham,
venham)
Dê mais um pau pra ficar legal (bis) Alguns ouvem a palavra do
senhor Para tirar de tempo
Eu já vi muitos moleques nascendo
E outros morrendo e saraivado à bala
E ninguém faz nada
Nem se manifesta pra nada
Parece até que não temos voz ativa
(demoramos, mas achamos a nossa)
Um otário de farda aqui, é natural pra mim
Vendo mais um corpo estirado no chão
Só depois de muito tempo que chega o rabecão Porque de
boca em boca, mais um tiro na boca De mão em mão, mais um
cadáver no chão
Pra quem mora aqui todo dia é igual
Ver linchamento é natural
Ele tentou correr e até gritou
Ninguém deu ouvido
Ninguém queria saber de nada Cada um queria tirar a sua lasca
E o linchamento prosseguiu
Depois de muito tempo ele se recuperou Tentou fazer justiça
com as próprias mãos Depois ele se tocou
Que a malandragem vacila demais
De boca em boca, mais um tiro na boca
De mão em mão, mais um cadáver no chão4 .
Muitos dos rapazes e moças, que hoje se ocupam da venda de drogas, foram “nossas crianças desnutridas” do passado. Sem escolaridade e sem emprego, são facilmente atraídos pelo comércio da droga, cuja menor remuneração não é inferior a R$ 300,00 por mês.
Ao lembrar a experiência anterior, vinham imagens e nomes enquanto percorria as ruas:
– E Almir? (perguntei).
– “A polícia matou na cadeia” (Sílvia).
Ele tinha uns 25 anos, quando nos ajudava no trabalho de recuperação da desnutrição das crianças, naqueles anos oitenta, acompanhando-nos e participando das reuniões. Lembro do seu interesse em melhorar as condições sanitárias do bairro. E fiquei sabendo apenas agora, passados mais de 10 anos, que desde aquela época, ele matava e enterrava os corpos ali mesmo no chão do bairro. Não só matava como esquartejava suas vítimas e as colocava nos tonéis de lixo. Era temido porque virou uma fera, segundo Sílvia. Depois de sua morte na cadeia, apareceram mortos a tiros, em sua casa, a sua mãe e seus três irmãos. Uma “limpeza”, como me disseram.
– Cadê Geraldo ?
– “Cala a boca, mulher. Você está chamando o demônio? Ele é
o maior assassino, o chefão daqui” (Sílvia).
Ao encontrá-lo, em seguida, ficamos face-a-face, em silêncio, e ele levou a minha mão até o seu peito magro e negro, com tatuagens de serpentes azuis. Parecia ter outra vez 10 ou 12 anos de idade, e não 26. Seus olhos lacrimejaram ao dizer que passou pelo inferno da cadeia. Minha mão continuava segura à sua, em seu peito: “Eu fiquei preso seis anos. Passei uma parte de minha juventude na penitenciária. Fiz muita besteira. Agora tem cinco meses que estou aqui de novo. Quero começar minha vida, limpo. Tenho duas mulheres grávidas, as duas moram aqui na rua”. Fiquei com o olhar ancorado naquele homem alto e cheio de correntes envoltas ao pescoço. Disse-me que queria deixar de ser marginal, queria um trabalho de vigilante, porque não estava mais acostumado a dormir à noite. Queria aprender um ofício.
Segundo os moradores da Vila Antônia, desde jovem ele se envolveu em furtos. Sem pai e com a mãe muito doente, “teve de ganhar dinheiro muito cedo [...] ele foi preso em flagrante quando assaltou e matou. A mãe morreu logo depois disso” (Sílvia). Passado um mês do nosso encontro, soube que “o coração dele parou depois da seringa. Caiu duro de junto da droga” (Ana). Dizem que ele estava sozinho, em casa, naquela tarde de uma sexta feira. “Ele morreu de overdose, ele não tinha ninguém, tinha umas namoradas, uns amigos, mas eu acho que ele precisava era de uma família (Sílvia)”.
Os grupos domésticos, em especial, as unidades, em cada contexto particular, geram práticas familiares que expressam valores, crenças e aspirações, que são vividas dentro do espaço do cotidiano, como parte de um hábito, importante na conformação dos indivíduos. O habitus, um processo pelo qual o social se interioriza nos indivíduos, contribui para que as estruturas objetivas se articulem com as subjetivas (BOURDIEU, 1989: 61). Desse modo, as atividades, no âmbito doméstico, cumprem não só a função da manutenção cotidiana, mas também a de transmitir, de uma geração à outra, aspectos ideológicos, esses que também fundam distâncias sociais no conjunto da sociedade (OLIVEIRA & SALLES, 1988:11-36).
As ações se tornam habituais e conservam seu caráter significativo para o indivíduo, como parte do acervo de conhecimentos incluídos na rotina e que, inevitavelmente, centra-o em sua realidade. E são as relações de parentesco e afinidades que produzem certos habitus para a manutenção das necessidades básicas.
A família é o ponto de referência, cujos valores e sistemas de códigos permitem ao indivíduo apreender e reproduzir sua realidade (GONZÁLEZ, 1993: 322). Por essa razão, utilizo o âmbito familiar e, mais particularmente, a unidade familiar doméstica, como paradigma, por ser nesse espaço que seus “membros estabelecem relações de convivência, trocam experiências, acumulam saberes e habilidades” (TRAD & BASTOS, 1998: 430). Também, é nessa instância, formada por laços de parentesco real ou fictício, biológicos ou não, que são organizados diferentes arranjos domésticos, dos membros que partilham a mesma residência (SARDENBERG, 1997: 7).
Na análise das ações concretas para o enfretamento da fome, considero as práticas dos indivíduos que compartilham e organizam-se em suas unidades, bem como no seu conjunto – os grupos domésticos. As diferentes formas de interação indicam a importância da existência de relações externas de parentesco, como o trabalho e a amizade, que se combinam na luta pela sobrevivência.
A necessidade de sobrevivência leva, inevitavelmente, a família
da classe trabalhadora a organizar uma estratégia de
combinação entre o trabalho assalariado (setor formal) e outras
modalidades de atividade econômica (setor informal). Salários
insuficientes, aliados à instabilidade empregatícia, não
permitem ao pai assegurar plenamente a manutenção da
família. Como solução, reorganiza-se o grupo doméstico
(enquanto unidade econômica) para reproduzir a família
(enquanto categoria ideológica) (KLAAS WOORTMANN, 1984,
vol.3/13).
É em meio a tantos elementos das relações sociais, no emaranhado das coisas do mundo cotidiano, que aparecem, nos discursos dos moradores do Péla, as noções representacionais da fome, mescladas ao somatório das questões necessárias à compreensão sobre o modo como cada um pensa, sente e expressa o mundo social.
A origem dos moradores é, de fato, a mais importante raiz das relações de amizade e dos negócios. Como uma família extensiva, os grupos domésticos mantêm algumas tradições necessárias à sobrevivência. E muitas vezes, quando os modos mais comuns de condutas são rompidos, ocorre a migração dentro ou fora do bairro.
O contexto das unidades tem dois eixos que indicam os caminhos para a análise dos dados empíricos: um que conta com a presença de um núcleo central, uma chefia declarada, e outro, sem essa premissa, que são os vários núcleos e também os membros que vivem isolados. Embora não tenha sido possível realizar um levantamento mais detalhado das unidades domésticas do bairro, consta a existência de cinco tipos, a saber: o casal com filhos, sendo o homem o chefe da unidade; a mulher com filhos, sendo esta a chefe da unidade; a mulher com filhos, sendo um dos filhos o chefe da unidade; o indivíduo que vive só, mas tem filhos ou outros parentes que vivem no bairro; o indivíduo só e sem quaisquer parentes no lugar.
Na maioria dos casos observados, a tendência é tornar a família extensiva no mesmo domicílio, com os casamentos dos filhos e a adoção de agregados, parentes ou não. Os filhos nem sempre são do casal, mas, antes, só da mulher, de seus casamentos anteriores. Diante das particularidades que caracterizam o universo investigado, é imprescindível incluir a chefia familiar feminina e outros arranjos domésticos definidos pelos atores sociais deste estudo.
Para os que vivem sozinhos, o lugar representa a única referência de família. São eles os velhos, velhas e aleijados, os bêbados em qualquer idade e que vivem, de certo modo, apoiados por uma ou outra unidade doméstica que os acolhe com um prato de comida, um banho, uma conversa. São mendigos a perambular pelas ruas do próprio bairro ou imediações e, algumas vezes, qualificados como uma espécie de lixo social: “Não sei pra que está vivo, se não tem de que viver” (Sílvia). Há casos em que são espancados ou expulsos de suas moradas, como foi a invasão da casa de D. Caetana (uma mulher alcoólatra de uns setenta anos), por um grupo de rapazes, para o uso de drogas. Ela passou a perambular pelo bairro, de porta em porta, assustada e sozinha, até que uma mulher levou-a para a porta de um abrigo na Cidade Baixa.
Para melhor compreender a estrutura da unidade doméstica, busco os estudos de García, Muñoz e Oliveira (1982) e outros como Quesnel & Lerner (1988), cujas etnografias fazem a tipologia dos grupos residenciais a partir das relações de parentesco, utilizando o conceito de ciclo de vida para especificar a estrutura interna de cada
unidade 5 . No meu entendimento, tal definição está intrínseca às modalidades de organização familiar no contexto da violência do bairro. Uma violência dentro e fora da casa, que condiciona a vida no espaço do cotidiano, e jogam no campo da incerteza quaisquer planos do presente e do futuro.
Aqui a gente está vivo e não está. Tem bala perdida, confusão
dentro de casa, me deixe, ninguém sabe aqui como é que
estamos vivos, ainda (Sílvia).
Ninguém sabe o que fazer para melhorar a qualidade de vida, cujos agravos cotidianos não estão restritos às condições oferecidas pela violência do bairro, mas também às formas diversas de sofrimento, pelo desemprego e um mínimo de dignidade para viver. Nessa experiência, a vida, no mundo íntimo, declina-se sobre os sentimentos gerados pelo medo, mas encobertos pela naturalidade derivada por um estar no mundo igual aos seus semelhantes. Não obstante a vida de privações, a construção do cotidiano é conciliada e identificada com um mundo naturalmente dado: “Um inferno que a gente tem de se acostumar” (Tiêta). Pois, dentro da casa, a vida não é menos precária do que fora dela e, quase sempre, os problemas traspassam a morada e seguem em direção aos vizinhos, à rua, ao bairro, como uma grande família que acolhe, ou pune e desdenha.
Sobre as dimensões representacionais do casamento, estas não se encontram tão distantes de outros jogos conjugais de outros setores sociais. O que as fazem diferentes são os elementos associados à afetividade. A construção e a desconstrução dos afetos seguem regras universais, no mundo de cada indivíduo, para afirmar ou negar a existência do outro em si mesmo, mas é na face peculiar de cada contexto social, de modo muito particular, que a visão da beleza a ser embutida no amor, por alguns, arrisca-se e se desvanece com os problemas sociais do cotidiano. Nessa ambiência, o afeto parece perder o sentido idealizador de sua própria estética. São costumeiras as brigas conjugais na cena diária, como parte do conjunto dos sintomas do sofrimento social, condicionado por problemas concretos, como a violência intra e extradomiciliar, o baixo poder aquisitivo para alimentar-se etc.
... quem mais sofre aqui é a mulher, porque é a gente que se
preocupa mais com as coisas. Ói Lúcia, ela vai morrer, nunca vi
ela triste assim, desgostosa com a vida, como está agora,
desse jeito. Não quer comer, nem falar. Está lá dentro de casa
paradona. É calundu por causa do marido ruim que ela tem, a
pessoa fica assim, se acabando.
[...]
Aquele homem grosso, que dá porrada nela, joga fora a comida
que ela faz, não deixa ela sair na rua [...] Ela tem culpa dele
está sem trabalho? [...]E não têm um filho que dê gosto pra ela,
os meninos estão na maconha, no crack. [...] Ela só tem
desgosto, aí chega um dia que a pessoa não agüenta, fica
desse jeito (Bernadete).
O desgosto de Lúcia é a manifestação da sua frustração no seu mundo doméstico. O lar opressivo, a impossibilidade de uma nova vida e “as porradas que recebe do marido”, já não têm disfarces, como em outros casos, comuns no bairro. Os vizinhos presenciaram, durante anos, as agressões perpetradas pelo marido de Lúcia, a qual acobertava a violência de que era vítima, até o momento em que passou a reagir, esquivando-se do presente e sinalizando o desejo de desistir da vida. Após dias de emudecimento e tristeza, ela morre quando “o coração não agüentou mais” (Lêda).
Para Arlete, a Igreja Universal do Reino de Deus lhe salvou dos maltratos do marido. O casal de cinco filhos, sendo três menores, vive com cerca de R$ 100,00 por mês, que corresponde às faxinas que ela faz para sustentar a casa, pois o marido não consegue trabalho como pedreiro há mais de um ano. Para ela, a leitura dos salmos bíblicos mudou sua vida. Diz que depois que conheceu a palavra do Senhor seu marido não a espancou mais; “antes ele me xingava toda, todo dia, e qualquer coisa que eu dizia ele me batia. Vinha bêbado pra casa, vivia procurando encrenca com as mulheres dos outros, era horrível. Depois da igreja, a tentação foi passando. [...] Eu nem sei se gosto dele mais, depois de tudo que já passei”.
Para alguns dos homens entrevistados, a violência intradomiciliar é resultante,
... da cabeça esquentada que a gente fica quando não tem
trabalho, nem dinheiro (Elias);
... da mulher que vive reclamando que falta coisa dentro de
casa (José);
... do trabalho que está difícil (Pedro).
... do meu nervoso. Eu perco a paciência com tantos
problemas, aí desconto em todo mundo (Antônio).
Essa perda da paciência é o efeito das pré-condições que culmina nos atos de violência, cuja passagem, do devir ao ato, produz sentidos que redefinem a autoridade ou mesmo a dominação, em geral, do homem sobre a mulher, no pequeno espaço doméstico. Nesse círculo, na convivência cotidiana não se esgotam as tréguas e os atos de violência com palavras e gestos. A personagem passiva e o agressor formam uma oscilação ressonante de uma multiplicidade de sentimentos que se avolumam e enuncia o permanente conflito. Com tantas tensões, a afeição se torna insuficiente para repelir a violência no interior da vida doméstica.
Algumas mulheres justificam que os maus-tratos recebidos de seus companheiros são impulsos momentâneos de irritação ou próprios de suas naturezas. Suportam-se as condições de agressividade nas relações, para garantir o sustento, em especial a comida. É essa a base que define as qualidades favoráveis do homem; “ele é assim, mas é bom, porque bota as coisas dentro de casa [...] bota comida” (Lourdes, ao se referir ao vizinho). A esse respeito, o homem corresponde ao marido ou ao filho que trabalha, em cuja similitude, a sexualidade da relação homem / mulher é dissipada, para dar lugar à necessidade alimentar.
Os casos em que “a mulher quebra tudo dentro de casa de tanta raiva do homem” (Madá), são mais raros.
D. Iaiá que era danada. Uma mulher que tinha aqui que batia no
homem até ele cair; quanto mais ela batia mais ele adorava ela.
Depois ele ficava bem manso, ia procurar trabalho, trazer
dinheiro pra ela comprar as coisas. Mas o que se vê mesmo é
homem acabando a vida da mulher (Tiêta).
Também D. Nininha lá de baixo, quase matou o marido que
dava corno nela (Lívia).
Na soma de tantas coisas do dia-a-dia, ampliam-se as noções conceituais que cercam o tema da fome, produzindo um conjunto de significantes para as muitas revelações associadas às condições de vida nesse espaço social. Os sentidos da fome terão muitas interpretações e, em especial, para a mulher, quando sofre a ausência do companheiro e enfrenta sozinha a criação dos filhos. Nesse papel social, observo algumas situações de desespero, como o caso de uma faminta que tentou o suicídio ao queimar todo o corpo. E outra que emudeceu depois que seu marido foi preso e condenado a mais de vinte anos de reclusão. Também, há casos de mulheres que se colocam na mendicância desde jovens e,
... ficam viciadas de pedir, com os filhos pequenos, tudo pela
rua. Aqui dentro tem um bocado que é assim (Lourdes);
... ficam nos pontos pela cidade, pela Piedade, nas portas das
igrejas, nas lanchonetes, sei lá (Tiêta);
... tem umas que estão pedindo dinheiro nas ruas porque não
sabem resolver sozinhas as contas que têm pra pagar, é luz, é
água, é comida, não têm marido e ficam com o juízo
atrapalhado, aí se acostumaram a pedir, porque tem quem dê
(Sílvia).
Casamento ou união livre, são ambos moldados por normas tradicionais de fidelidade e cercados de pautas relativamente rígidas, como a importância da virgindade da mulher jovem para o casamento e a idade dos noivos, seguindo um ritual em que os pais da noiva (em geral a mãe) empenham-se em pagar a festa e o vestido da filha que se casa. Como parte de um processo social e histórico de formação de casais, ainda que haja diferentes maneiras de experimentar a instituição matrimonial, o que predomina no bairro, é a união livre, sem a legitimação do matrimônio, mas com uma formalização semelhante. A instituição que rege as regras, em essência, é a mesma.