Agonia da fome
Apresentação
Antes de mais nada, uma palavra de cautela aos leitores deste livro: apertem os cintos e preparem o seu coração. As coisas que Maria do Carmo Soares de Freitas tem para contar sobre a vivência e os significados da fome, nas páginas que se seguem, vão tocar-lhes profundamente. Garanto que ninguém sairá ileso.
De fato, desde quando apresentado pela autora como Tese de Doutorado junto ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, este livro já prometia causar impacto. Eu, pelo menos, confesso: foi impossível debruçar-me sobre ele com o distanciamento que se impõe a um membro de uma banca de tese. E, ressalto, não porque sou amiga de Maria do Carmo há muitos anos, mas devido ao misto de emoções que a leitura das narrativas dos seus personagens provoca. Indignação, revolta, culpa, vergonha, tristeza, raiva – tudo isso e muito mais senti ao enveredar, através das mãos e sobretudo da sensibilidade de Maria do Carmo, pelas ruelas do bairro e conhecer sua gente, a violência do dia-a-dia que a cerca, o espectro da fome que ronda a sua porta.
Conhecendo, porém, a autora como a conheço, estou certa de que um dos principais objetivos do seu trabalho (ainda que não explícito), é de fato nos tocar bem no fundo, da mesma forma que, bem sei, ela própria foi tocada ao se embrenhar nesse estudo sobre a fome. Nesse ponto, portanto, não há dúvidas: a autora atingiu seu objetivo. Trata-se, com certeza, de um trabalho que causará um grande impacto no leitor brasileiro, e justamente porque Maria do Carmo não nos fala de uma fome resultante de desastres naturais ou de conflitos e guerras que acontecem longe daqui. O que mais arrepia-nos os cabelos é saber da miséria da fome cotidiana que tem lugar aqui mesmo em Salvador e sobre a qual, não há como negar, todos nós temos uma parcela de culpa como membros de uma sociedade que se mantém impassível diante dessa tragédia nacional (afinal, que país é este?...).
Para além de um trabalho de simples denúncia, entretanto, este livro é certamente uma importante contribuição à análise sociocultural do fenômeno da fome no país. No particular, trata-se de um trabalho pioneiro no que tange à fenomenologia da fome, e onde se descortinam, minuciosamente, os diferentes significados que são atribuídos à fome por aqueles que vivem suas vidas sob a constante ameaça de não ter o seu “pão nosso de cada dia.”
Este é, de fato, o argumento central da autora, isto é, que a fome crônica não se manifesta apenas como um ‘problema social’ ou bio-médico. Trata-se também de um fenômeno de ordem sociocultural, na medida em que lhe são atribuídos significados próprios, construídos socialmente dentro de uma determinada ordem prático-simbólica que se esboça “no mundo cotidiano dos que sobrevivem sem esperança de conquistar sua cidadania, e que, por essa razão, não escolhem os modos de vida, mas tentam interpretá-los em suas próprias visões de mundo”.
Essa tese é formulada a partir de pesquisa de campo desenvolvida pela autora durante quase oito meses, período em que passava dias no bairro entrevistando e observando membros de diferentes unidades domésticas daquele bairro. Tarefa essa que implicava em sérios riscos até mesmo de vida para Maria do Carmo, vez que o Péla é hoje conhecido como um dos principais ninhos do tráfico de drogas de Salvador. Há cerca de uma década, entretanto, o Péla ainda se destacava como um dos bairros mais aguerridos na luta pela cidadania dentro do movimento popular de Salvador. Foi quando a autora primeiro travou conhecimento com o bairro e lá desenvolveu atividades de extensão enquanto Professora da Escola de Nutrição da UFBA, o que lhe permitiu, uma década mais tarde, penetrar no universo descrito nas páginas que se seguem.
Para melhor analisá-lo, a autora traça primeiro um breve histórico do fenômeno da fome, argumentando que “a fome crônica das populações é uma produção definida por processos de exclusão social e revela-se em cada contexto de dominação política e econômica”. Para Maria do Carmo, “trata-se de um fenômeno que surge nas relações entre os homens, há milhares de anos, com a formação das sociedades de classe”, e que é parte da realidade das sociedades capitalistas contemporâneas, manifestando-se, porém, em maior intensidade e amplitude nos países pobres, da chamada ‘periferia’ do sistema capitalista mundial.
Embora o Brasil não seja mais considerado um ‘país pobre’, infelizmente, ainda figura dentre aqueles com os maiores índices de pobreza e de famintos. E é sobretudo nos estados do Nordeste (‘na periferia da periferia’), a Bahia dentre eles, que se concentram os maiores segmentos da população pobre e faminta. Como a autora bem aponta, não se trata de uma situação resultante apenas do problema da seca, isto é, de um problema dito ‘natural’, mas sim das sucessivas políticas econômicas, federais, regionais e locais que privilegiam uma estrutura concentradora de renda e que reproduz a exclusão social e, assim, um grande exército de famintos crônicos em terras norte-nordestinas. O que, sem dúvida, torna relevante um estudo sobre os efeitos socioculturais desse fenômeno de massa na região.
Para tanto, argumenta a autora, as perspectivas da fenomenologia e da hermenêutica apresentam-se como a abordagem mais adequada. É o que ela nos propõe a partir de uma revisão crítica das concepções teóricas sobre a fome, na qual um espaço especial é reservado a Josué de Castro, o primeiro autor brasileiro a se debruçar sobre o estudo da fome no país. Ressalta Maria do Carmo que as abordagens desenvolvidas na dimensão clínico-patológica, ainda que importantes, não conseguem apreender como a fome é vivenciada e entendida por aqueles que a ex-perimentam no seu cotidiano, por gerações. Segundo a autora, a semiologia da fome “recorre a uma complexa associação entre os efeitos do espírito sobre o corpo e vice-versa, sentimentos e aspectos orgânicos que transcendem os sintomas e os sinais descritos na literatura científica”. E, para desatar e entender melhor esse entremeado de significados, faz-se necessária uma perspectiva que permita contextualizá-los, tanto na realidade social quanto na ordem prático-simbólica em que são construídos. Daí porque, defende a autora, a relevância de um estudo etnográfico e dos aportes interpretativos e analíticos oferecidos pela abordagem fenomenológica.
Maria do Carmo nos oferece, então, uma rica ‘etnografia da fome’ no Péla, uma thick description, como sugere Geertz, através da qual nos é revelado, e com muita sensibilidade e destreza analítica, o (sub) mundo em que se tecem as histórias de vida, as redes de sociabilidade e a teia de significados profundos em torno do espectro da fome que espreita a população estudada. Este capítulo é, sem sombra de dúvida, a grande tour de force do livro de Maria do Carmo e o que nos toca mais profundamente. Sem ele, com certeza, seria impossível para a autora enveredar na trilha analítica oferecida no capítulo seguinte – ‘os significados da fome no cotidiano’ – dedicado ao tema central da tese.
De fato, é aqui que a autora vai destrinchando passo a passo os diferentes e até mesmo os contraditórios significados que a fome assume no contexto em questão, entremeando as falas dos moradores com reflexões sobre a complexa teia em que os significados se tecem. Mostra assim a autora que para os moradores do Péla, que lidam com o medo da fome no seu dia-a-dia, ela é algo que vem de fora, mas que depende também da pessoa, ou melhor, da ausência ou não, de força para combatêla. A fome não é um simples fantasma, mas um ente que se incorpora nas pessoas – nas crianças, como no caso de Romãozinho. É um ser‘gendrado’, como a ‘irmã da fome’ – uma mulher cheia de dentes – e que pode bater à porta na calada da noite, para tomar conta do indivíduo, comer-lhe as carnes, impedindo-o de andar e fugir. Tudo isso nos é revelado com destreza por Maria do Carmo, o que torna seu trabalho uma contribuição pioneira e de relevância no campo da fenomenologia da fome no Brasil. Por isso mesmo, estou certa de que este livro não ficará nas prateleiras.
Cecília Sardenberg Professora do Departamento de Antropologia da UFBA