Agonia da fome

Maria do Carmo de Freitas · Capítulo 7 de 9 · parte 1/3

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Agonia da fome

A fome caminha no bairro

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

Como é a cara da fome, cidadão?

“A cara eu não sei não, mas a danada deve ter uns dentes bem afiados, isso eu não duvido, porque ela rói a gente por dentro e a dor é muito grande”

(Morador das ruas do centro de Salvador, Jornal A Tarde, 11/8/98, p. 7).

Ao privilegiar o fenômeno da fome, em meio a tantos aspectos socioculturais, outras situações circunscritas ao cotidiano ficaram situadas num plano secundário ou não foram completamente apreendidas. Com isso, deixo de aprofundar outros produtos sociais como o alcoolismo e a mendicância. De fato, necessitei fazer uma redução das muitas observações, para um exame ainda mais minucioso das narrativas sobre a fome, as quais se deram num tom intensamente dramático, pela forma trágica como as pessoas se relacionam com este fenômeno.

De início, o trágico está no pavor do termo, o que, nos textos, apresenta-se com um caráter de distanciamento dos sujeitos, impondo-lhes expressões possíveis e trazendo à compreensão uma interdição, sem entretanto abandonar a presença do fenômeno no mundo cotidiano. Uma interdição que traz, à superfície corporal, uma rede de sentidos que envolvem os sujeitos. Com isso, distingo duas fronteiras da compreensão: “o limiar do sentido e o da significação” (RICOEUR, 1988[a]: 386-387).

Ao tomar um quadro mínimo das interpretações possíveis para decifrar os sentidos de fome e seus significados, considero como referência às dimensões espaciais e temporais das tipificações sensitivas, conformadas na rede de significantes atribuída nas experiências dos atores.

A dimensão espacial é o lugar da vivência de fome dentro e fora do corpo, na casa e no bairro. O espaço geográfico define o imaginado e o real concreto, ambos colados no corporal e a servirem de veículos de expressões de fome. São os sentidos situacionados e relacionados ao contexto social e reproduzidos como tecidos vivos da sociedade. Contexto refere-se a duas qualidades: o situacional ou particular das unidades domésticas e do bairro, e o social que designa as questões da sociedade. Ainda que simultâneos, no mesmo espaço, os contextos diferenciados me auxiliam na maior visibilidade das análises dos dados empíricos.

Cabem nesses espaços, em que ambulam o corpo e a memória, as histórias de vida, as metáforas geradas dos sentimentos de privação, em conexão com o desemprego, a violência, as doenças de fome, as crenças e a ação, propriamente dita, para um que fazer.

A temporalidade se refere ao fenômeno da fome em correspondência com o passado e o presente. E o tempo da noite, onde a fome é mais ameaçadora, é conotado como a espera do mal. Nessas conjunções temporais, o sujeito pensa sua ação a partir da pré-compreensão que ele faz de seu mundo, seu íntimo, seu corpo. O agir se torna então, habitual a partir dessa pré-concepção, uma quase-história que clama ser contada, abrindo-se para a compreensão da experiência, da realidade e da significação de sua fome.

Assim, os famintos agem interagindo e conflituando-se, num conhecimento em que identificam da experiência os motivos que os fazem movimentar-se para solucionar a fome cotidiana. Em todo o tempo apreendem aspectos da realidade para servirem de expressões significantes à interpretação da condição faminta. Criam representações que rompem com o estatuto do presente e reúne-as ao passado. No plano particular, tendem a subjugar e a dispersar a aparência da especificidade, para darem uma compreensão dos objetos reais em meio à multiplicidade de sentidos.

 

Sem força a gente não come Estava tudo indo certo, tinha tudo dentro de casa, não faltava nada, até o dia que o menino foi preso. Passei dois dias em cima da cama, doente. Aí fui ficando mais calma, e depois fui me acostumando com isso. O rapaz é danado mesmo, puxou o pai que morreu na cadeia.

[...] Pensei que eu ia morrer de tanto me consumir.

[...] Meus vizinhos me ajudam. [...] Só sei dizer que ela não me

pegou ainda [...] Estou falando daquilo, aquela coisa (a fome).

Ela queria entrar aqui dentro (na casa, no corpo) no dia que

meu menino foi preso. Porque no dia, eu recebi o aviso

(silêncio). Eu perdi a chave da porta, fiquei trancada dentro de

casa sem poder sair. A televisão não pegou e eu gritava pra

Regina aparecer e ela parecia que estava era surda. Como é

que ninguém me ouvia? Tinha um troço atrapalhando. Fiquei

cansada de tanto gritar e comecei a rezar. Senti aqui dentro

(põe a mão no peito), que alguma coisa estava acontecendo

com meu filho. Senti uma agonia que eu não sei dizer direito, e

quando foi assim umas cinco horas, uma criatura bateu na porta

e gritou: ô fulana. E aí eu, sem querer, meti a mão no bolso e

achei a chave da porta. Antes da mulher falar, eu sabia que era

alguma coisa com o menino. A mulher estava nervosa, toda se

tremendo, e veio me dizer que o filho dela foi preso mais o meu,

lá em baixo. Ela (a fome) avisa, mais tem gente que não

acredita nessa bicha. Agora, estou aqui vivendo do lixo outra

vez (Elza).

O emaranhado dos muitos sentidos da fome, vem imprimir uma demonstração mínima das relações entre as respostas corporais em meio às questões coletivas, sociais, reais e imaginadas. “Ela”, a fome, representa a imagem oculta ao nível da consciência, cuja criação exige de sua visionária perceber-se faminta. Sem refutar o medo, a objetivação se expressa como o fantasma da fome, dentro do contexto específico: a prisão do filho, que transforma a fome pré-textualizada num sentido definitivo, associado aos registros de sentimentos aprisionados na memória e que voltam a atormentar. O passado infesta o presente, ou o presente tornarse passado, lembrando palavras de Paul Sartre (Op.cit. p.165).

O aviso sobre o acontecido com o filho funciona como um pré-texto que pressagia a perda das atuais condições materiais, ou melhor, a perda do provedor do seu sustento, e a possibilidade do regresso ao lixo para alimentar-se. A atitude de surpresa de Elza diante da “coisa”, como algo que é enigmático, misterioso e assustador, é o registro real da fome como um objeto virtual, em sincronia com as sensações de medo. Sem acaso, nada lhe está assegurado nesse contexto, e a “coisa” fome encontra lugar para aparecer e abrigar-se no corpo quando a autora a concebe. Nesse movimento, e diante dos fatos narrados, observo que a fome não lhe é estranha e, a qualquer momento, pode ser decifrada e desfigurada. E nesse processo sensitivo e familiar, a mulher reconstitui a fome com sensações que ressoam desde a interioridade do seu corpo, para reproduzi-las no espaço externo e vice-versa. O antagonismo entre o interior e o exterior estreita-se para encarnar sentidos que se associam e se assemelham.

Ampliando essa percepção às outras unidades domésticas, lembro que a cada perigo que ameaça, o sujeito pode sentir-se configurado, momentaneamente, com as sensações de fome. Nessa experiência e nessa criação, a pessoa outorga à fome um valor que lhe é particular, sustentado por crenças diversas. E são essas sensações que fornecem ao sujeito o sentido do agir.

As pessoas, pra comer todo dia, precisam acreditar nelas

próprias, e nada pode derrubar elas (Tieta).

Precisa ter é força de espírito (Lêda).

Se ficar assim com o corpo esmorecido se acaba por dentro e

por fora, aí chega de tudo (Elza).

Desse ponto de vista, os sujeitos agem motivados pelo que (pré) concebem como qualidades do corpo e do espírito, numa unicidade entendida de modo consciente enquanto narram e interpretam. Os sentidos e a significação da fome então agenciados por símbolos, e a simbolização irá envolver valores éticos próprios, que, sem qualquer neutralidade, oferecem-se a uma ordem efetiva de os sujeitos agirem conforme a possibilidade da “natureza humana”. Um querer ser forte ou fraco são características individuais que os vários atores encarnam como qualidades de atração ou retração da fome. Aspectos cuja literalidade escapam à exatidão dos termos se analisados fora das biografias desses atores.

Para o que se considera fortalecido, diz conhecer as crenças que podem aterrorizar e fragilizar, e revidam-nas. A despeito disso, o que se percebe fraco refere-se à falta de algo em seu mundo pessoal, ou a falta da crença em si mesmo, autorizando-o a pensar-se como um corpo que habita um espírito frágil. A idéia está num traço da linguagem a ser decifrável por outros atores do mesmo jogo social, sublinhando na “força ou na fraqueza”, o caráter público da articulação entre os diversos significantes, para uma significação igualmente pública.

De modo singular e diferenciado, para cada sujeito, a coisa-fome toma muitas formas, como vemos a seguir, com imagens que encarnam para esmorecer e derrubar quem a sente.

Não se pode ter fraqueza de espírito, nem medo, senão a coisa

toma conta, como aconteceu numa casa lá de cima, que

chegou e matou os meninos todos (Elza).

Não deve ficar chamando palavrão com raiva, pra a coisa não

pegar (Lêda).

Às vezes, falta comida. Não tenho dinheiro pra pagar água e

luz, quando o menino está desempregado. Aí eu sinto um vazio

aqui dentro (mãos no peito) e uma gastura no estômago.

Gastura é igual à falta (Tiêta) (é meio-dia e a informante fala

debruçada sobre a pia da pequena cozinha onde estão panelas

viradas para baixo).

Trata-se de mediar os elementos que são mais significativos aos sentidos, na instância do simbólico, e conectá-los com a realidade. Gastura, raiva e medo da fome refletem os sentidos interiores do corpo, conectados aos exteriores, às condições materiais concretas. A dificuldade específica de acesso ao alimento associa-se a outros sentidos, que fazem ressonância com as representações da fome.

Uma informante ao falar de seu corpo vazio, ou em gastura, encontra-se debruçada na pia junto à panela vazia sobre o fogão, os filhos estão sem trabalho e, nessa manhã, ela pretende buscar alimentos no chão do mercado.

Cada caso é um caso e, sendo assim, para outra mulher, a perda da força ocorre no momento da prisão do filho, numa sintonia que a faz sentir-se fragilizada e faminta. Ou para outra, a falta do marido produz um vazio no peito, de modo semelhante à sensação que representa de sua fome. São os sentidos imbricados uns aos outros, situados no plano da linguagem e em um terreno comum que simbolizam sentidos diretos e indiretos de referir fome.

A sobrevivência depende, então, de um estado de espírito nomeado de força para atrair sorte, emprego, afeto, algum dinheiro e aliviar o sentimento de raiva da fome. Ser forte é uma interpretação que funciona como uma via quase mágica de estar no mundo, na medida em que os indivíduos se buscam na substância invisível da fé em si mesmos, que é a mesma fé em Deus. É essa a fórmula do pensamento e da ação, na leitura da experiência, e que se mostra ao corpo para enfrentar a fome e outros problemas do cotidiano. Mas é sobretudo a crença na ação que os impulsiona para um fazer:

O que eu faço pra comer é procurar, pedir, vai depender do dia,

das pernas (Tiêta)

Às vezes eu não acho é nada, aí tiro a vergonha da cara e vou

pedir. E basta eu sentar na porta, na hora do almoço, aí fulana

me vê e já sabe. Se ela tiver, aí ela manda o menino trazer um

macarrão, uma farofinha (Núbia).

Tem que ter muita coragem, aqui dentro (põe a mão no peito,

referese ao estado d’ alma ?) (Tiêta).

Ninguém parece escapar ao movimento do dia, em que o comer ocupa um lugar privilegiado na dimensão do simbólico, ainda que nem sempre esteja explícito no texto:

Quando eu não tenho nada, eu fico parecendo que estou doida,

aí brigo com todo mundo. Dá um nervoso, um calor na cabeça,

quando procuro um pedaço de pão e não acho (Tiêta).

A gente anda, gasta chinelo, debaixo de sol e de chuva, e não

consegue nada. Anda pela construção, pelos prédios dos ricos,

pelas lanchonetes, pedindo trabalho. Não acha, não tem. As

forças vão se acabando (Antônio).

Tem gente que toma emprestado R$ 10,00 compra pimentão,

giló, uns pedaços de abóbora, bota no balaio, vai pra feira, e

fica fugindo da prefeitura pra não pagar imposto. Aí a gente faz

R$ 5,00 por semana. Quando volta pra casa, a gente fica se

escondendo de quem a gente pediu emprestado (Renilda).

Quando falta tudo dentro de casa, a gente fica sem acreditar,

sem coragem de ir pra luta. Dá um desgosto... precisa de ter

muita força pra continuar (Sílvia).

Pedir é o último negócio que eu faço, quero é trabalhar em

qualquer lugar, não quero ficar esperando a fraqueza tomar

conta de mim, nem de minha casa (Regina).

A efetiva ausência de dinheiro, sobretudo, a falta de uma ocupação remunerada é transformada em sentidos aceitos como nervoso, ou desgosto da vida, que funcionam como um deslocamento do centro da percepção do sujeito, para derivar sua fome. Desse modo, as dificuldades de acesso ao alimento encarnam certos tipos de expressões associadas aos símbolos, num empreendimento tautológico que auxilia o sujeito a decidir o destino diário.

Os atores manifestam sentidos ordenados pela necessidade de um símbolo para regulamentar as formas de agir. Um símbolo que se encontra colado à experiência e funciona com ambigüidade entre os diferentes significados. A força é a palavra mágica que o sujeito toma de empréstimo para enxergar e representar a vida. Aparece nos textos como um dado da experiência, dentro da lógica de um cotidiano que ele conhece e, portanto, sabe como lidar com as dificuldades previsíveis. Ele é inclinado a pensar que o cotidiano está dado, e a solução das questões sociais está em si mesmo, o que o faz sentir-se co-autor do mundo, ao conceber a capacidade intuitiva de obter uma força recorrente de seu íntimo, para animar-se a agir. Logo, as relações mantidas entre espírito e matéria, corpo e alma, estão envoltas em produções imaginárias e valoradas para engendrar estratégias que o sujeito absorve para expressar a sobrevivência em conflito.

¨¨¨¨¨¨

Quando parecia que ela (fome) ia chegar, eu sentia uma coisa

(põe as mãos no peito), ficava abafada. Eu pedia pra meu

caboclo, força pra agüentar ver minha filha chorando, sem

dormir, de barriguinha vazia. Ficava doida, botava força nos

braços e me levantava, fazia um chazinho de folha, que tem

nos matos de tudo quanto é lugar de pobre. Pedia uma

colherinha de açúcar na vizinha, aí dava pra menina, e no outro

dia eu ia pra sinaleira, pedir. E os brancos de carro tudo com

raiva, uns dava outros não dava. Eu não gostava de fazer isso,

mas era o jeito senão ela (fome) tomava conta da minha casa

[...] Minhas filhas, tudo com fraqueza nos braços e nas pernas,

de não poder andar. Consegui leite, dois anos, no Centro de

Saúde. Depois, fiquei matriculada em dois Centros, e pude dar

leite pras meninas (Bernadete).

Comida? Eu peço dinheiro quando não tenho, porque eu não

sou de ferro (Sílvia).

A mobilidade vem significar a categoria central dessa matéria significante, complexa, porque “ninguém está esperando a sorte bater na porta” ou “esperando o governo fazer alguma coisa” (Renilda).

Se não achar trabalho, tem gente que vai pra rua roubar, bota

os meninos pra ir pra rua se virar. Não pode é ficar parado

esperando a comida cair do céu (Sílvia.)

No poder da fé em Deus a gente tira os pensamentos ruins da

cabeça pra dar forças nas pernas (Tiêta)

A força é de dentro. A gente já nasce assim. A pessoa que vai

roubar já nasceu com isso na cabeça (Elza).

Cada individualidade é uma maneira de viver total e, por certo, cada qual traz em si o mínimo de cada um dos demais, estimulando, assim, a comparação entre si e os outros. A expressão “a gente” se refere à comunidade para aludir “todos nós daqui”, e o “eu” significa um afastamento desse conjunto, num dado momento. Mas, cada um, concebe sua coautoria no mundo, transformando-se ao mesmo tempo no outro (SCHLEIERMACHER, 1989: 10). O diálogo estabelecido entre as pessoas fazem-nas co-autoras de pensamentos e ações, mesmo que os limites de suas individualidades se enfraqueçam. Mas é justamente nessa correspondência com o outro que eles se sentem mais intensos e se presentificam para interligarem-se e perceberem-se com menor sofrimento.

O sistema de símbolos criado é permeado de padrões de comportamentos, associados à fé, com rituais de rezas específicos para cada mal, definidos no espaço e no tempo, percorrendo os territórios emaranhados entre religiosidade, emoções e gestos que marcam sobremaneira as relações transpessoais. Também as relações interpessoais do dia-a-dia são cercadas de ações que inibem a individualidade, a emoção e outras condutas da condição humana.

Eu sinto aqui dentro (no lugar do peito) um vexame, uma

agonia, quando não tenho pra onde ir buscar trabalho. Não

quero morrer, quero ter força pra trabalhar, viver (Elza).

A gente ajuda uns os outros, como pode, pra levantar a pessoa

derrubada. Eu mesma ajudo qualquer pessoa que chega na

minha porta, é de mim ajudar, mesmo que seja gente que está

carregado de coisa ruim, que às vezes me dá dor de cabeça. Aí

eu rezo, cato umas folhas do bem, rezo a pessoa. E peço tanto

pra Deus, que vem aquela força, vem assim... e me ajuda a

segurar eu e a pessoa (Tiêta).

Ninguém aqui está só. Quando não tem pra aliviar uma pessoa,

a gente escuta, procura entender a vida dela, às vezes só

desabafando a pessoa fica boa dos problemas que bota na

cabeça e se levanta pra batalhar (Sílvia).

Porque tudo na vida é força de vontade. Essa força vem de

Deus (Antônio).

A força é um símbolo que circunda e contamina as pessoas da unidade doméstica. Levanta o sujeito, fazendo-o refletir e compreender suas incertezas em meio às crenças e ao que não sabe definir. Ter força independe do tipo físico, tanto faz ser gordo ou magro, “... a força está dentro da gente, ói eu aqui desse jeito (obesa), tem dia que estou sem ela (força)” (Elza). E, por entre as falas entrelaçadas de sentidos das coisas de seus mundos, a palavra força vem redefinir a vontade de viver, como um poder enérgico sobre si mesmo. Um sentido, uma pertença, pois o faminto se dá verdadeiramente conta da insistência da necessidade de renovar-se. Nessa possibilidade, ele se abre ao mundo para situar o pensamento para além das alternativas habituais e igualmente organizar-se no cotidiano comum, em meio a outros contextos particulares e vizinhos, tão próximos e diversos.

Desse modo, cada qual interpreta a força do corpo/espírito, para dar significados à condição de fome, como uma tarefa diária da sobrevivência. Trata-se, pois, de uma crença, representada para pensar esse objeto fome, como seu, e (re) afirmá-lo reunindo-o aos outros elementos que apreende do real, mas identificando-o de antemão. Nessa apreensão, que se dá nos campos do subjetivo e do objetivo, o sujeito conduz sua fome na objetividade da fé, que converte a vontade de agir num ato que transcende a estética da

certeza de sentir-se sujeito de sua própria vontade.1 Nasce daí uma complexidade, donde a prece marca a conexão do sujeito com o mundo real, e centra-o em sua experiência para exprimir a força de vontade de agir sobre a fome.

A força está na boca, na palavra e no ato mesmo de comer, o qual se reinicia a cada manhã:

A gente tem de começar o dia. O pior é quando não tem nem

um pão, e pão, a gente não acha no lixo, quem é doido de jogar

pão fora? (Tiêta).

A gente guarda um pedacinho, esconde uns pedaços dormidos,

pra molhar no café, amanhã (Lívia). Molhar no café, que café ?

É na água. (Francisca). É na água mesmo (Lívia). A gente

chama de café, mas as vezes nem tem café (Renilda).

O pão constitui uma escolha que centra o sujeito na instância do sagrado, onde o espírito passa a agir sobre o corpo, movendo-o para o trabalho e para providenciar o alimento diário. No simbólico, “o pão de cada dia” (no café ausente) expressa o lugar do sujeito na esfera da Cristandade, para resignar-se no sacrifício subjetivo de um corpo que reage à ausência de alimento.

Se reclamar é pior. Eu sei que dentro tem reclamação. As tripas

tudo pedindo coisa que eu não posso botar na barriga. O pior é

feijão, é farinha, é açúcar, é pão, que a gente não acha no

chão. O resto a gente ajeita. O negócio é ter fé no Senhor do

Bonfim, pra ele não deixar faltar de nada (Elza).

A demonstração coletiva de modos de agir e pensar, em suas realidades particulares, nas unidades domésticas, é o reconhecimento de significados igualmente particularizados que não se dissolvem entre um e outro narrador. Contrariamente, os sentidos da fome dados nas frases vêm reforçar e reunir os critérios de escolhas do que fazer, e a natureza dessas escolhas gravita em torno de cada sujeito, mantendo diferenças, que, por sua vez, estão interligadas por muitas representações, para dar o encontro entre as significações.

Vou passando com um pedacinho, enganando. Aqui tem mãe

que dá pros meninos sopinha de terra, faz bolinho de barro,

tudo pra eles não chorar (Sílvia).

Eu dava pros meninos merendar umas bolachinhas de barro,

bem feitinha, e eles comiam pensando que era bolacha mesmo,

eram inocentes, não sabiam de nada. O povo daqui dizia que

eu estava doida, mas aqui tem muita gente que faz isso até

hoje e não diz [...] Eu não cato da caixa, tenho vergonha de me

verem lá, prefiro roubar do que fazer isso (Val).

Ela (fome) contamina a própria vergonha da pessoa. Porque

quem está com fome não diz que está com fome. Eu não tenho

vergonha de roubar, tenho medo de ser presa, só isso

(Renilda).

Tem dia que eu não sei o que fazer (para comer), aí fico

rodando pelo mercado, até aparecer uma coisa pra eu fazer até

sumir o nervoso (Tiêta).

Muita gente aqui come sobra, resto dos outros, até dos

vizinhos. É vergonhoso falar de fome, é por isso que as

pessoas não gostam de falar (Renilda).

Tem um bando de moradores que levam a vida que nem

porcos, porque não tem opção (Sílvia).

Porcos não há mais no Péla. Mas, com o lixo amontoado, os esgotos entupidos e as ruas imundas, eles se sentem como porcos.

Ter ou não vergonha de coletar alimentos no lixo ou de roubar são sentidos de uma mesma cena, formada por valores pré-simbólicos e que se reorganizam para ampliar ou limitar possibilidades. Ao tomar consciência do sentimento de vergonha, uma mulher nega assemelhar-se a outros. Nega se descobrir e tenta justificar-se, para se reconhecer velada em seu mundo. A vergonha é o sentimento do pecado original do sujeito que se encontra no mundo em meio às coisas e necessita da mediação do outro para ser o que é (SARTRE, Op.cit. p.368-369). O receio de uma outra mulher de ser surpreendida no lixo é o mesmo que temer desnudar sua fome para a subjetividade alheia e sentir-se como o outro. Por isso, ela não freqüenta o lixo do bairro e da vizinhança e considera ser menos humilhante roubar, ainda que (nesse caso) não pratique esse tipo de ação. A condição de colocar-se entre escolhas é, para ela, a necessidade de obter outra imagem de si. Em essência, ao comparar-se com os demais, assegura sua individualidade face ao outro, e desloca a fome vergonhosa de si para outros: “que vive que nem porcos”.

Os que sobrevivem do lixo, em geral, evitam o sentimento negativo de vergonha (que enfraquece o domínio do corpo/espírito), despe-se do pecado e produzem outros sentimentos substitutos. Quer seja o que chamam de força, quer seja a coragem ou a liberdade. Trata-se de um processo dialógico em sua interioridade, que o remete ao sentido de fortalecer o Eu, como uma necessidade real de apropriar-se e dominar sua identidade faminta. O ato de não reclamar das condições de fome confere a negação de sentirem-se como restos sociais, ou “porcos”. Simultaneamente, frente à consciência, o ser se distingue do seu objeto, aproxima-se e cria distância, num círculo que não se esgota. Por um instante, na aparência, o sujeito fica fora de si, e perde a vergonha para conseguir andar sobre o lixo do próprio bairro. No íntimo, pensa-se ausente do bairro naquele exato momento em que remexe as sobras da feira e do mercado próximos. Esse sentimento de ausência lhe concede ambiguamente a objetividade de sua fome.

O sentido de não presença na cena que humilha vem registrar que não é essa a imagem que resguarda de seu eu, e trata de não ser no mais breve tempo. Rapidamente, coleta do lixo e afasta-se. Distintamente, em outros lixos mais distantes, a procura é mais cuidadosa, o tempo é maior, e a reação transcende a objetivação, como um processo que encarna o habitual, porque está longe dos olhos que espiam seu próprio ser, e segue ao encontro de uma interindividualidade para comportar outros sentidos com seus pares.

Lá no mercado eu demoro o tempo que eu quero, ninguém fica

me olhando, mas lá só tem coisa depois das seis. [...] Aqui

acha, mas é coisa pouca; é assim uma cabeça de peixe, uns

restos de verdura, uns repolhinhos [...] Tem pouquinha coisa,

mais a gente acha. Eu sou fingida de não ter vergonha, senão

não agüento (Tiêta).

A onipresença do sentimento de vergonha, que a informante nega e afirma, é o reconhecimento do mundo constituído por uma dinâmica de situações que lhe exige designar papéis, controlar sensações e predizer a fome. Nessa ordem, sustenta-se a crença de um corpo espiritualmente capaz de se contrapor às adversidades sociais e invoca-se o sentido de uma força para além de si, e não se sentir resto humano. O sujeito anda sobre sua própria fome, sem medos e sem vergonhas, para levar o dia.

A força vem significar o controle das emoções, a contenção dos sentidos e, minimamente, o autocontrole das necessidades. É essa a criação de um código frente ao mundo, no qual o sujeito se apóia para perceber-se aceito socialmente. A fraqueza é aparentemente o sentido oposto. Trata-se, pois, de uma dupla construção, que se movimenta na complexidade, entre a singularidade individual e a aceitação pública, com uma variedade de sentidos conotados para atrair e confrontar o inevitável. Um mundo onde o sujeito, ainda que se perceba frágil, necessita interpretar-se como um ser completo, para enfrentar a fome. A interconexão de sentidos exige imagens, as mais distintas, para significarem a disputa do explicável e do não explicável, a vida e a morte, numa reprodução viva da dimensão pessoal no contexto social.

Em suma, cada sujeito age sobre sua fome de muitas maneiras, a partir de uma pré-concepção que se associa à criação de imagens conectadas aos sentimentos e sensações; uma necessidade da crença em si mesmo, que motiva e remove os muitos e variados sentidos incorporados ao cotidiano de outras privações.

A seguir, trago as análises sobre as percepções e os significados, em cada contexto particular, para indicar a sede da fome, não somente o corpo biológico, mas no lugar do eu, na mesma morada do bairro.

 

A dor no peito é a dor da fome

A dificuldade de falar fome não anula a percepção de tal fenômeno no corpo. O sentido se dá em excessos de expressões, que se caracterizam em ocultar e conformar o deslocamento do termo fome para um conjunto de signos que se constituem códigos socioculturais e também biológicos, emanados por sensações físicas e mentais, manifestas em meio às frases das narrativas.

A fala em geral é acompanhada de suspiros ou do olhar que se torna dominante, ora em direção às alturas ou ao chão, ora ao próprio corpo quando uma mulher se encolhe e entra em seu próprio silêncio. Com os olhos fechados e as mãos no peito, parece gemer e diz:

Eu sinto uma “dooor” (silêncio). Bem aqui (põe as mãos no

peito) só de pensar nessa coisa (fome). Uma agonia. A sua

(fome) é outra, é diferente da minha. A minha tem que ter muita

reza pro corpo não cair, só Deus pode ajudar, mais ninguém

(Elza).

A diferença torna-se objeto de representação conceitual, no momento em que a mulher se dirige ao meu corpo e busca uma analogia, uma relação com o corpo e a sua identidade:

Eu não tenho estória, que nem você. Pra mim tudo é a mesma

coisa todo dia, eu não sou ninguém, não tenho ninguém (olha

para os netos). Esses meninos só servem pra me consumir, a

mãe deles não presta.

Só tomei porrada a vida toda. Quem é que gosta de uma velha

preta e gorda como eu? Quem é que vai me querer? Qual é o

homem que vai me olhar? E quem é que vai me dar um

trabalho? Nem o INPS quer nada comigo, nunca consegui falar

com a moça de lá, pra ter uma aposentadoria [...] Fico numa

agonia doida. Sinto um vexame por aqui tudo (o lugar do peito),

parece que está me arrancando as carnes, só de pensar que

essa coisa, essa criatura (a fome) pode chegar (no corpo)

(Elza).

As sensações e as representações revelam o eu através da expressão objetivada na dor, ou na impressão de uma dor que arranca as carnes; uma desconstrução da realidade para reconstruí-la no diálogo com o divino e banir certas visões do mal, numa produção culturalmente relativa dentro do processo social. O sofrimento de uma agonia transforma-se finalmente numa visão experimentada, sentida e compreendida apenas no contexto social em que é formada. Desse modo, as sensações do peito vêm refletir as condições sociais: o ser ninguém, não ter um afeto expressando uma mistura do medo da falta de comida ou da ausência de um trabalho remunerado e segurança.

Quando a informante coloca as mãos no peito, parece aludir ao sofrimento de um outro material somático que não a dor física,

propriamente.2 As mãos tocam o tórax, o peito, como uma indicação de algo terrível, presente no corpo e na casa. O peito é o lugar de referência da fome naquele momento narrativo. Um gesto que confere o caráter perturbador que traz o tema, numa significação que tem raízes nos sentidos mais íntimos do corpo. A dor no peito é a representação guardada das faltas e que se convertem em fome, a assemelhar-se com sua identidade social: uma mulher envelhecida e só, obesa, negra e faminta. Tratase de uma apreensão subjetiva da dor, pois não é o corpo apenas que sente fome, mas também o eu. A região da dor é a mesma da indicialidade do eu e, por isso, é o ser-no-mundo que dói.

Outra, ao referir-se ao tema, faz a mesma alusão ao peito, enquanto narra olhando fixamente para uma estampa do “Coração de Jesus” pendurada na parede da casa. A imagem que vemos tem o coração que sangra, ferido por espinhos, e a face em riso. Uma estética que disciplina o sentido da dor, para quem interpreta o próprio sofrimento:

Eu sinto é uma dor, uma pontada que me arrepia, no peito, que

nem um espinho atravessando o peito, eu sinto só de falar

(coloca as mãos no peito, suspira e fala olhando a gravura de

Jesus na parede). Aí eu rezo muito, e passa (ri). Rezo três Ave-

Maria, três Pai-Nosso, aí passa. É fraqueza de espírito, que só

a reza ajuda (Tiêta).

Os sentidos parecem que se contaminam. Estética semelhante é comentada por Ana Cláudia Oliveira:

Há uma contaminação do sentir. Uma contaminação dos

sentidos pelos sentidos que percebem, sentindo sentidos

(significação). De forma complexa, o corpo, antes mesmo de

qualquer cenário, que é então a ambientação passional das

ações e estados d’alma, é constituído para irradiar-se noutros

corpos; portanto, inseparavelmente, nele se amalgama o que é

para ser percebido e o que é para ser compreendido no tempo

da contemplação (OLIVEIRA, 1996: 245-246).

Sujeito e objeto ressoam numa unicidade para além da aparência. A mulher fala de seus sentidos e imita a face de Jesus, em analgesia. Ela sorri, para e como a gravura, situando o sacrifício de seu próprio corpo para ser recompensado na “paz celestial”. O corpo da mulher parece confundir-se com a imagem, ou interpenetrar e sobreimpressionar-se, entre os sentidos do tórax e da face, formando uma complexa condição igualmente sem dor.

O sentido não é dado tão somente na estética, nem na dimensão lingüística, mas em outras dimensões mundanas, cujas tendências são as de eliminar as sensações orgânicas e criar outras. Novamente, os sentidos não representam um compromisso com os significados do somático. As experiências assinalam que há um lugar ainda mais profundo que a superfície do corpo, expressado e captado como um sentido corporal onírico (LYOTARD, 1974: 276). As muitas sensações se assemelham e misturam-se no mesmo lugar da dor.

Na seqüência narrativa, há uma distinção do enunciado anterior, dado pela mesma mulher, num outro momento e num outro espaço da casa, onde “a dor” (sem a referência da estampa de Cristo), revelou-se como uma correspondência direta com a sensação de dor física movida pela angústia da falta de trabalho do filho.

A gente acorda e não tem nada pra fazer e nem pra beliscar. Dá

um vazio, uma raiva, chega a doer o peito. O coração parece

que não se agüenta. Lúça morreu disso, de tanta raiva de lutar,

lutar e não ter nada. Do marido ruim e de não ter nada. A

bichinha ficava com tanta raiva nos peitos que o coração dela

explodiu dentro de casa (Tiêta).

Eu sinto um frio no peito, parece que o peito está rasgando só

de pensar nessa coisa (fome) (Elza).

Eu sinto uma coisa, assim por aqui tudo (faz um gesto circular

com as mãos sobre o peito) (Bernadete).

O sentido de vazio pré-significa o sentimento de raiva e deste aproxima-se a sensação de dor. O peito coberto pelas mãos sinaliza um diálogo infinito com o eu e a proteção do espírito. Um lugar que deve permanecer fechado, protegido, segundo vários informantes, que afirmaram o perigo do “peito aberto”, ou “corpo aberto” por onde pode entrar “tudo”, tornando-os frágeis, vulneráveis, e, com isso, ampliar o sofrimento. A importância do fechamento do peito evita o aparecimento de sensações advindas de condições concretas da existência, como a indignação, a raiva, e também o desemprego dos filhos e de outras situações. A proteção do corpo/espírito, com gestos (cisma etc.) e rezas são atitudes de uma crença que ora privilegia o objetivo, ora o subjetivo, e tentam projetar a cristalização de emoções evitáveis, ainda que latentes, expressadas em signos, num tempo narrativo que se mescla com acontecimentos pessoais e alheios.

Para ambas as mulheres, o gesto associado à fala vem significar sensações apreendidas desde o horizonte de suas realidades e sentidas na interioridade do ser. Assim, no primeiro caso, a mulher percebe-se faminta na angustiante sensação de vazio que age sobre ela, pela ameaça concreta de fome, relacionada à falta de segurança, à afetividade e à prisão do filho. Para Tiêta, há dois momentos em que as representações são aparentemente contrárias: inicialmente, a sensação de vexame, peso e dor no peito, que sinalizam a raiva de seu problema imediato, a falta de dinheiro para alimentar-se. Depois, percebo que os sentidos encontram uma intermediação com a imagem de Jesus, em que a dor (raiva) se alivia no mito cristão. Nessa cena, a dor no peito consagra seu ser na mesma realidade social, em oposição à demonstração anterior. No espaço do peito, habita o vazio, o frio, uma coisa, conformando características indiciais que encenam significantes, numa metalinguagem a referir sentidos de fome, manifestos em diversos objetos do mundo cotidiano.

Na seqüência descrita, as interpretações de fome das duas mulheres são apoiadas por histórias individuais de outros indivíduos, que diferenciam sentidos na mesma lógica simbólica da gestualidade. O peito é, então, o lócus privilegiado para velar sentidos de fome, o lugar do coração, onde esses sentidos são desvelados em muitos outros e recebidos de diferentes maneiras, como um ato consciente ou não, das condições concretas da vida.

O fenômeno da fome não é manifesto conceitualmente, mas está pressuposto e permanece encoberto, porque o sentido dado é ambíguo. Logo, a dor no peito se apresenta como um símbolo que media a ocultação da palavra, para ser aceita em outras expressões.

Ao tempo em que enunciam, as informantes manifestam sinais orgânicos visíveis de “arrepios” nos braços, nas pernas, e invisíveis no peito, indicando “o que se mostra e aquilo que não se mostra mas são reveladores em si mesmos”, no encontro com o fenômeno (HEIDEGGER, 1997: 60).

Aqui, não se trata de reduzir a significação da palavra “frio” à sensação de calor, porque não se quer falar de um frio térmico, efetivo. A sensação está associada ao meio interno de reagir ao mundo exterior, dando alguma significação ao sentido de fome no corpo. Assim, o frio se remete ao vazio, permitindo interpretar o corpo como um objeto sensível que reage à ausência de algo, como a falta de sentimentos que possam acalentar o sujeito no mundo. No círculo entre as sensações de vazio e frio, há um modo de significar a impressão de uma dor, como uma aflição ou “vexame”, numa produção perceptiva dos sentidos que se expressa no “saber habitual do mundo” (MERLEAU-PONTY, 1996:

319). Um conhecimento que se aproxima do mundo comum, onde todos esses sentidos são expressões sinônimas e sintetizadas no que concebem como coisa, esse desígnio léxico que preserva o que não conseguem falar. Por não saberem definir o sentido, designam-no como coisa, palavra de seu domínio, cuja nomeação compreendem. O que importa, aqui, é a necessidade ontológica de dizer sobre o ser.

Na dimensão dos sentidos, as impressões de “algo” que vem de fora, a preencher o peito, são sensações irregulares nos mesmos sujeitos e em outros, e que indicam, nos textos, um mal-estar. A “coisa” sugere ser uma representação da fome, que se apresenta de diferentes maneiras, mas, em geral, encarna pavor só de pensar.

 

A fome é um beco escuro

Minha vida é que nem esse beco [...] Esse negócio de faltar

comida direto é que nem esse beco, escuro, que chama um

bocado de coisa. Aqui que ela (fome) adora passar de noite. Já

escutei uma ruma de vez ela se esfregar pelas paredes desse

beco, bem doida. Foi ela (fome) eu sei. Ela (fome) gosta de

gente que nem eu, que não tem aposentadoria, viúva sem filho

(o filho está preso), gente que pede esmola na rua. Ela é

traiçoeira que chega para pegar a pessoa no escuro (Elza).

Do temor em falar sobre a fome, surgem textos que se organizam em torno de narrativas mínimas, sustentadas em gestos e monólogos. A expressão do olhar pasmado, um rosto em assombro, perplexo e quase sempre dirigido à porta da casa, remete-me a interpretação de ser esse um tema que deve estar fora da casa, para não atingir o corpo. Ainda que a palavra fome, em geral, não apareça de modo explícito nas conversas, observo que, ao ser mencionado algum conteúdo que possa lembrar a fome, há quase sempre uma redução do volume da voz dos informantes, ou um movimento do corpo que se encolhe (cotovelos sobre as pernas), ou as mãos cobrem os olhos, ou esses se dirigem às alturas ou ao chão:

Falta de tudo, sem salário é horrível, fica tudo pouco. Nem é

bom de falar, porque tem umas coisas que a gente não pode

ficar falando [...] Ainda mais dentro de casa (Elza).

Saímos da casa, Elza e eu, e sentamos num batente da rua. Ela olhava o chão por um tempo em silêncio, e depois, em direção ao céu, disse:

Eu venho aqui de tarde pra comer vento. Esperar o tempo

passar. [...] Pra falar de coisa ruim, tem de ser bem baixinho e

no pé do ouvido, longe da casa da gente, senão ela (a fome)

ouve e a gente recebe a visita dela (fome) em casa. Agora

estou só com Deus, fico aqui mais ele (continua olhando para

as alturas). Vivo no escuro, nesse breu, nesse beco que

ninguém quer. É feio, não entra sol, fede, nego mija e faz côcô

direto. Jogo água, não adianta, é a latrina deles (meninos do

ponto de venda do crack) (Elza).

Em sua casa “não entra sol”, e o pequeno espaço interno é reservado à singularidade, à diferença de outros becos do bairro. Nesse, a morte está presente quase sempre. É um dos lugares escolhidos pelo narcotráfico para exterminar devedores. Sem luz e vento, a casa de Elza simula para ela um perigo iminente, porque pode acolher as entidades malignas que buscam o escuro. A parede do beco é toda cheia de limo, reproduzindo, no seu mundo, um sentido de “breu”, interligado ao medo da fome e da morte. Na presença da luz, o perigo sobre o corpo diminui e, por essa razão, a mulher passa boa parte do dia fora de casa, sentada na rua principal da Vila. Ali, em segredo, sabe escutar o silêncio e pode decifrar o frescor da natureza no vento da tarde, e amenizar o sentimento do peso de sua solidão. É também nesse espaço que ela se encontra com os vizinhos e onde se dão as risíveis conversas sobre outras tantas coisas do mundo.

O olhar em direção às alturas parece afastá-la de seu mundo entre o beco escuro e a rua (há quinze anos ela não anda pelo bairro, nem sai dele), numa incessante busca de identificar-se com um objeto no céu (como se alguém em cima a escutasse). “As alturas” simbolizam a criação de um mundo sem finitude e privação, onde encontra compaixão.

Silêncio, luz e vento mantêm a mulher em comunicação com o universo sagrado, o que a faz sentir-se purificada nas profundezas de seu corpo mundano e liberta-o do logos desse inferno de fome.

A fome, como um beco escuro, vem significar uma fome sem saída, ou uma maldição que traz a morte. Mesmo fora da casa, ela usa outras expressões substitutas que tratam de situar a condição faminta como algo externo ao corpo, uma entidade traiçoeira que “chega para pegar o corpo no escuro”, preconizada por uma sensação de “dor no peito”. Esses elementos estão no plano de conexão com seus problemas concretos, sem aposentadoria, seu único filho está preso, e vive numa das áreas de “desova” do bairro.

A fome negada, mas consentida na figuração inventiva do imaginário, representa a própria aparência oculta do ser faminto, um esquema hermético, difícil de decifrar e, por isso, as metáforas podem expressar as qualidades que se quer dar. Imagens que permitem uma espécie de diálogo entre o sujeito e os objetos significantes da fome, de modo recíproco. Um ciclo que se abre para muitas analogias, tais como, corpo e beco, o eu e a coisa, permitindo inserir-se no mundo social a idéia de uma fome que vive fora do corpo, como algo que pertence ao espaço público e, ao mesmo tempo, dentro do sujeito, o qual dá visibilidade ao fenômeno.

Em síntese, o beco representa a região do corpo onde se dá a metamorfose criada pelo sujeito. O sentido de viver num beco escuro, que atrai a morte, estende-se ao corpo faminto. Em ambos os espaços, numa única temporalidade, o mundo torna-se suportável quando a mulher se desloca para um outro lugar, ainda que carregue consigo seus sentidos, mas afasta-se dos medos, num esforço (re) iluminado pelas representações opostas, as de um mundo belo e adorado, que são também parte do seu ser.

 

Eu sinto quando ela chega

Ela quem? (pergunto)

A criatura que anda solta por aqui. Ai, meu Deus, afaste essa

criatura de perto de mim (as mãos cobrem a face). Hum, ai,

misericórdia minha santa mãe, afaste (Elza entra em silêncio).

Chego a me arrepiar, ói meu braço como fica... ói, só de falar.

Essa bicha com a boca cheia de dente (Bernadete).

Eu sinto quando ela chega, está aqui, estou sentindo, sentindo

a peste. A criatura de perna seca e com uma cara horrível.

Anda toda destrambelhada. Hum, hum (Elza).

Ela pode bater na porta de noite, quando a gente está na

fraqueza, está chamando (Lêda).

É a irmã mais nova da miséria e prima da morte, uma mulher

magra, branca e alta (Elza).

Ela é parenta da morte (Lêda).

Ela toma conta das forças da gente (Tiêta).

A gente tem que ser mais forte do que ela. Não pode ficar

chamando (Elza).

Ela toma conta das pernas da gente, pra gente não andar, não

subir escada, não achar trabalho (Lívia)3 .

Ela (fome) vem com tudo, agarra na gente e só solta se

consegui um trabalho. Qualquer trabalho, sujo, limpo, qualquer

negócio serve, não pode é ficar esperando ela vim pra cima

(Lêda).

Isso é uma mulher mulambenta, seca que nem uma caveira

(Tiêta). É a peste hum, hum, que boca horrível, vixe! Cheia de

dentes pra fora, ui, chego a me arrepiar toda, ói pra aqui, ói

(Elza me exibe os arrepios dos braços).

Sei lá porque é uma mulher. Deve de ser porque a mulher tem

parte com o cão. A mulher faz comida, aí vem essa aí pra tirar,

é maldade pura (Tiêta).

A entidade divina, feminina e enfurecida, é o feminino transformado em fetiche, um mito, uma crença que se desenha para dar o sentido de fome e manifestar-se em uniformidade à idéia tipológica de uma fera encarnada.

A criatura tem muitos nomes e aparências (“peste, cão, demônio, mulher mulambenta, bicha”), “anda solta” pelo bairro e é percebida de muitas maneiras, agoniando o sujeito que pressente sua chegada:

Arrepia a pessoa quando ela (fome) chega perto, dá um

cansaço pelas pernas que sobe e vai até esquentar a cabeça,

como aconteceu com uma mulher que ficou doida lá em cima

depois que recebeu a visita dela, porque não se cuidou (Tiêta). Os calores na cabeça, o frio no peito, posicionam o sujeito na sua interpretação. “A cabeça cheia” e que se “esquenta” são outras sensações presentes no contexto da falta imediata de alimentos na unidade doméstica, e que faz elo com outros aspectos do contexto mais amplo: o desemprego, a polícia no bairro, o filho viciado, o traficante que não respeita a comunidade etc.

Pra mim, lugar de fome é mais em baixo. É barriga vazia

mesmo. Esse troço que essas mulheres daqui tem é tudo falta

de amor, amor de verdade. Amor de homem e de filho e filha.

Tem mulher aqui muito maltratada pelos filhos e pelos maridos.

Mulher que toma porrada e não sabe o que fazer pra melhorar a

vida delas. Tudo frouxa. Não é só porque não tem comida não.

Essa agonia pelo corpo, como Elza estava dizendo, é por causa

daquele filho dela amalucado, viciado em crack e ainda bebe

cachaça que nem o pai dele, que agora está em outra (morto).

O vexame dela não é de comida só não.

[...]

Eu só sinto agonia quando meu filho some, porque pra comer

Continuar: parte 2 de 3