AIDS na terceira década
2 - A primeira década: uma série de coincidências infelizes
2 - A primeira década: uma série de
coincidências infelizes
Inicio este capítulo de forma similar ao anterior, recorrendo uma vez mais a um pensador judeu heterodoxo, desta feita alemão, Walter Benjamin, cuja obra não guarda qualquer relação direta com a temática da Aids, até mesmo porque Benjamin se suicidou no contexto da perseguição nazista durante a Segunda Guerra Mundial, ou seja, décadas antes do advento da epidemia.
Novamente, não vou me ater à letra do texto benjaminiano, mas sim à idéia mais geral que um dos seus textos veicula. Neste texto, Benjamin analisa um quadro do pintor Paul Klee (1879-1940) e afirma, entre outras coisas, que a história dos vencidos está por ser escrita, pois é ela apenas um resíduo da história, arrogante, dos vencedores (o leitor interessado deverá recorrer aos originais plástico-poéticos da dupla Klee-Benjamin para uma apreciação da complexidade da obra de ambos).
Pois é exatamente isso o que aconteceu à história da Aids na África subsahariana. Nos primeiros anos da década de 1980, ela simplesmente inexiste! O que todos sabem é que a partir de casos de pneumonia atípica e de um câncer raro (Sarcoma de Kaposi) em homens jovens, previamente saudáveis, em sua maioria homossexuais masculinos, nas cidades de Los Angeles, São Francisco e Nova York, os Centers for Diseases Control and Prevention – CDC (Centros para a Prevenção e Controle das Doenças), dos EUA, identificaram uma nova e misteriosa síndrome. Após inúmeras marchas e contramarchas, erros e acertos por parte de diversos epidemiologistas e infectologistas, chegou-se à definição e caracterização de uma nova síndrome, a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (cuja sigla é Sida ou Aids, esta última em língua inglesa, que nós, brasileiros anglófonos, adotamos).
A outra e principal epidemia, a que vinha afetando a população dos países africanos ao sul do deserto do Sahara, havia passado até então despercebida aos olhos da mídia e da ciência ocidental e, portanto, existia de fato, sem que 'existisse' para a ciência ocidental e a opinião pública. Não resta hoje qualquer dúvida de que o agente causador da epidemia, o HIV, teve sua origem na África, havendo mesmo um tipo de HIV, o HIV-2, que jamais abandonou suas raízes africanas e que 'não' está associado à pandemia (causada por seu primo-irmão, o HIV-1). Muito provavelmente, na ausência de um sistema de vigilância eficiente, diversos casos da nova síndrome emergiram na África ao longo da década de 1970 e início da década seguinte sem que fossem identificados enquanto tais, mas sim, enquanto algo que afetava um contingente adicional de pessoas que faleciam em virtude de infecções graves (já que o Sarcoma de Kaposi, que é um câncer causado por um vírus, jamais foi tão prevalente entre os africanos como entre norte-americanos e europeus vivendo com HIV/ Aids). Em um contexto de um sem-número de infecções, desnutrição, guerras civis e miséria, não foi possível compreender que uma nova ameaça à humanidade estava a caminho. Aliás, um exemplo dessa situação em que diversos males se superpõem (o que o antropólogo norte-americano Merril Singer denominou 'sindemia' ou 'sinergia de pragas') emergiu nos estudos referentes a surtos do vírus Ebola, que tiveram lugar em torno do rio homônimo (localizado na República Democrática do Congo, antigo Zaire) e regiões próximas. As análises referentes a amostras de sangue de pacientes que faleceram em virtude da infecção pelo Ebola evidenciaram que diversos pacientes estavam também infectados pelo HIV, sem que isso tivesse sido sequer notado.
A epidemia haitiana, que analiso brevemente a seguir, e que se assemelha àquela que teve e tem lugar na África subsahariana, encontrou no médico e antropólogo Paul Farmer um historiador em quem a paixão pela vida humana não embaçou a mirada crítica. A epidemia africana também tem sido objeto de inúmeras análises, algumas delas de cunho histórico e antropológico. Provavelmente por se tratar da crônica de um vasto conjunto de sociedades e culturas (que se expressam em diversas línguas locais) ainda não dispomos (que eu saiba) de uma história que articule de forma integrada suas múltiplas facetas, nos moldes da breve história que contarei a seguir: A Fábula dos 4 H.
Os 4 Hs: uma fábula moderna
A fábula dos 4 Hs foi tecida por epidemiologistas equivocados (e digo isso com tranqüilidade, pois esta é a profissão que abracei, cometendo também inúmeros equívocos, talvez não tão preconceituosos, espero!) e não pela sabedoria popular. Em se tratando de uma fábula científica e moderna (ou pós-moderna) não conta ela com príncipes, princesas ou fadas, embora conte com um excesso de bruxas...
As raízes dessa fábula contemporânea remetem ao clima de caça às bruxas, bruxas essas plasmadas pelos próprios fabuladores, talvez em busca de apoio a uma visão maniqueísta do mundo: de um lado, os saudáveis, do outro, os doentes, estes últimos, por seu turno, subdivididos em: 'vítimas inocentes' e (supostos) 'culpados'. Categorias estranhas que um hipotético HIV dotado de consciência crítica classificaria como mais uma bizarrice desses estranhos seres humanos, prova definitiva dos seus desvarios.
Enquanto os homens construíam suas falsas categorias classificatórias, não custa imaginar um vírus com um sorriso mordaz no canto da boca (nos moldes dos pequenos demônios que povoam a ficção do genial Isaac Bashevis Singer, prêmio Nobel de literatura), dizendo para si mesmo: "e eu que só almejava persistir, e procurei os caminhos que me pareceram mais fáceis de trilhar, enquanto os homens atribuíam a mim ocultas preferências por homossexuais masculinos (H1), haitianos (H2), hemofílicos (H3) e heroinômanos (H4)". Acompanhando o sábio e mordaz HIV pensante, vamos explicar a seguir como a má ciência construiu as fábulas que o pensamento crítico (científico ou não) levou anos para desconstruir.
Talvez ocorra ao leitor a idéia de que é fácil evidenciar erros a posteriori, a partir de uma confortável visada retrospectiva. Mas, ainda que não reste dúvida de que momentos de crise e dúvida nos colocam em dilemas que, no calor da ocasião, não é possível compreender e enfrentar, cabe assinalar que as ferramentas conceituais e metodológicas necessárias à correta análise da dinâmica da epidemia que então emergia já existiam e foram empregadas de forma apropriada por um pequeno grupo de pesquisadores. Retomarei este ponto mais adiante, com exemplos concretos da pesquisa inovadora desenvolvida no início dos anos 80. O fato de que ela fosse então minoritária não quer dizer, de forma alguma, que ela não existisse.
O primeiro H: os homossexuais masculinos ou 'a cena gay ocidental'
Os anos 1960 foram, nos EUA e demais países ditos 'ocidentais' (o foram também nas várias 'periferias do mundo', de forma algo distinta, o que não será abordado aqui), um momento de transformação social e protesto, com a emergência de movimentos sociais de grande envergadura, como o movimento contra a guerra do Vietnã (ou pacifista, em um sentido mais amplo), de afirmação étnica/anti-racista, feminista e de diferentes minorias, como as minorias sexuais.
A crônica desses movimentos ultrapassa, em muito, os modestos propósitos deste livro. Limito-me a descrever brevemente a dinâmica da cena gay contemporânea, duramente afetada pela eclosão da Aids.
A história é composta de fluxos contínuos (ou 'fortes ventos', segundo a dupla Klee-Benjamin), mas para contá-la é necessário estabelecer marcos. Tome-se, então, como marco inaugural da luta pelos direitos civis dos homossexuais norte-americanos a Revolta de Stonewall. A Revolta de Stonewall já foi cantada em prosa e verso (e no CD The Stonewall Celebration, EMI, de 1997, do compositor e cantor brasileiro Renato Russo). Basicamente, é possível descrevê-la como uma série de querelas entre a nascente militância gay e as forças policiais de Nova York, a partir de uma incursão policial nas adjacências do bar Stonewall Inn, localizado no Village, culminando em um conflito aberto e uma mobilização sem precedentes da comunidade gay nova-iorquina.
Emergindo de um contexto de repressão e ilegalidade (ilegalidade esta que persiste em diversos estados norte-americanos até hoje, nas assim denominadas 'leis anti-sodomia'), a cena gay se moveu no sentido exatamente oposto: de exaltação da liberdade sexual, orgulho pela condição homossexual (gay pride) e engajamento político, através, principalmente, de movimentos sociais de base comunitária. Foi exatamente esta cena movimentada, dinâmica e que tinha a sexualidade como elemento essencial e definidor das identidades pessoais, que foi marcadamente atingida pela disseminação do HIV, provavelmente ao final da década de 1970 (com reflexos evidentes na década subseqüente).
A partir da inegável disseminação do HIV na cena gay, uma mistura de má ciência e preconceito forjou a fábula do primeiro H. Uma primeira vertente (que, por incrível que pareça, ainda tem seus defensores até hoje, transcorridas três décadas de pesquisas!) propôs que a nascente síndrome não seria decorrente de uma patologia infecciosa, mas sim de um problema secundário ao uso de substâncias muito freqüentemente consumidas na cena gay daqueles dias: o nitrito de amila, popularmente conhecido como popper. O isolamento do vírus posteriormente denominado HIV, em 1983, por uma equipe de pesquisa francesa (cuja prioridade foi posteriormente contestada por uma equipe rival, norte-americana) tornou esta hipótese do caráter não infeccioso da Aids indefensável entre os pesquisadores responsáveis e, posteriormente, insustentável aos olhos da opinião pública.
Quase simultaneamente foi gestado o segundo desdobramento da fábula H1, que afirmava que a síndrome seria uma afecção exclusiva de homens gays, no que viria a ser popularmente conhecido como 'câncer gay' ou, ainda, numa vertente aparentemente mais sofisticada, a então denominada GRID (gay-related immunodeficiency ou 'imunodeficiência relacionada aos gays', ou ainda, numa tradução ao pé-da-letra, ([relacionada a] 'ser gay'). Ou seja, a humanidade se subdividiria daí em diante em duas supostas metades: gays, sob risco absoluto de contrair o HIV/Aids, e não-gays, a salvo do misterioso mal. Enquanto isso, a epidemia avançava velozmente na África subsahariana na ausência de qualquer cena gay (obviamente, isso não quer dizer que não existam homossexuais masculinos na África, mas certamente não uma cena gay nos moldes ocidentais, exceção, à época, das metrópoles sul-africanas), basicamente através de relações heterossexuais sem o uso de preservativos (que eram, então, pouco utilizados, e com finalidade basicamente anticoncepcional).
Mas a suposta essencialidade do câncer gay foi desmontada aos olhos dos formadores de opinião pública dos países desenvolvidos, com o aparecimento de casos de Aids entre os demais H, o que veremos mais adiante. No entanto, nos moldes das bonecas russas de madeira, que vão 'gerando', sucessivamente, bonequinhas cada vez menores, nasce um terceiro desdobramento dos equívocos anteriores, extremamente danoso para as ações preventivas, persistindo ao longo de décadas – a suposta exclusividade da relação anal como modo de transmissão do HIV e a suposta invulnerabilidade dos homens heterossexuais ao HIV transmitido a partir de mulheres infectadas.
Não resta dúvida, hoje, de que a transmissão a partir do sexo anal (desde que não sejam utilizados preservativos, ou, no jargão epidemiológico, desde que se pratique o sexo 'desprotegido') é bastante mais 'eficiente' (do ponto de vista da transmissão ou do nosso interlocutor hipotético, o vírus autoconsciente) do que a transmissão vaginal, ainda que, no âmbito de uma parceria heterossexual em que existam ambas as práticas – vaginal e anal – a transmissão vaginal do HIV seja muito mais relevante, simplesmente, por ser mais freqüente, e, com isso, fazer com que o parceiro eventualmente não infectado esteja sujeito a uma exposição repetida ao HIV a partir da relação sexual desprotegida com o parceiro infectado.
Ou seja, não resta dúvida de que a cena gay foi e (em diversos contextos) continua sendo bastante afetada pela disseminação do HIV. Não resta dúvida também de que a prática do sexo anal desprotegido está fortemente associado à transmissão do HIV. O problema é que isso se fez às custas da negligência com relação à prevenção da transmissão do HIV entre homens que 'não' fazem sexo com outros homens e das mulheres de um modo geral, um equívoco grave, que custou inúmeras vidas. A outra face perversa dos equívocos cometidos foi a estigmatização de todo um conjunto de pessoas a partir de suas práticas sexuais, comportamentos e atitudes, o que se revestiu de conotações moralistas e religiosas (na minha opinião, a partir de uma leitura preconceituosa dos textos fundamentais das diferentes religiões, mas, enfim, este é apenas um ponto de vista pessoal em um campo atravessado por polêmicas atrozes).
Ou seja, trata-se de uma história mal-contada, que incorre num essencialismo de todo estranho à biologia, pois, repito, o vírus almeja (de forma não proposital, é óbvio) tão-somente persistir, e encontrou nesta cena fortemente interativa, interconectada, onde as relações sexuais (à época, quase sempre desprotegidas) contribuíam fortemente para estabelecer vínculos afetivos e demarcar identidades.
O segundo H: um país em crise permanente
O leitor deste início de milênio está, ainda que superficialmente, familiarizado com o drama haitiano, que perpassa a música popular (no famoso refrão: "o Haiti é aqui") e o noticiário televisivo. A presente crise haitiana (que se inicia explicitamente em 2004/2005) envolve de perto o governo brasileiro, que para lá enviou suas tropas, visando restabelecer (ao menos, em tese) a governabilidade e dar posse a um presidente democraticamente eleito. Esta é, no entanto, tão-somente uma penúltima reencenação de uma crise que se tornou estrutural naquele que é o mais pobre país das Américas, e um dos países mais pobres de todo o mundo, exceção feita a alguns países africanos.
Primeiro país nas Américas a tomar para si as rédeas do poder no âmbito de um processo acidentado de descolonização e abolição da escravatura, o Haiti, por razões que em muito ultrapassam meus conhecimentos (e intrigam os historiadores), se viu, desde então, às voltas com graves problemas políticos, econômicos e sociais. Brevemente, pode-se dizer que o país não conseguiu se industrializar ou mesmo estabelecer uma agricultura em bases modernas, vivenciou uma sucessão de ditaduras sangrentas e afundou em um ciclo sem-fim de conflitos sociais, que perpassam todo o tecido social (compreendendo desde a ação de pequenos bandos armados até conflitos de massa, nos moldes de guerras civis e guerrilhas).
Localizado em uma região de grande beleza natural e extremamente barato para o turista, especialmente norte-americano, que ganha em dólar (ou outra moeda forte) e mora próximo, o país se transformou numa Meca do turismo internacional, com o estabelecimento de um forte movimento pendular de turistas de várias nacionalidades, com marcante presença de turistas provenientes dos países vizinhos.
Em paralelo, devido a uma quadro de violência estrutural, desemprego e perseguição política, o Haiti se transformou em um exportador de mão-de-obra barata ou, antes, de pessoas desalojadas pelos diferentes conflitos locais. Vários dos imigrantes haitianos aportam nos diferentes países (especialmente nos EUA) nas condições mais precárias possíveis, e, com relativa freqüência, se inserem em redes ilícitas, trabalhando informalmente nas mais diversas (e mal pagas) ocupações, quando não perambulando em busca de alternativas de moradia e trabalho.
Retomando o fio da meada: foram estas inúmeras mazelas e flagrantes desigualdades que estabeleceram redes sociais fortemente interativas, que puseram em interação haitianos e norte-americanos. E assim como onde há fumaça... há fogo..., onde há interações marcadamente desiguais entre seres humanos, estabelecem-se circuitos de exploração sexual, sexo comercial, além de distância e mesmo ocultação deliberada face às instâncias formais, entre elas, a saúde pública e a medicina de um modo geral. Pessoas de quem é subtraída a cidadania não são donos de seus corpos, e os vendem no mercado do mundo. Não têm, igualmente, oportunidades de 'cuidar de si', às voltas com deficiências de transporte, falta de seguro social (ou dinheiro para pagar médicos particulares) e de tempo, que não seja o despendido na luta pela sobrevivência cotidiana (escapar da violência, ganhar a vida como for possível, comer...).
Tais condições de vida adversas, sejam elas as dos haitianos que permanecem no seu país de origem, sejam as dos imigrantes vivendo em condições precárias nas metrópoles norte-americanas, são degradantes para seres humanos, mas ideais para vírus, que, como disse repetidas vezes, almejam, antes e acima de tudo, persistir. E se o 'propósito' é persistir, haveria população mais facilmente 'parasitável' que esse amplo contingente de deserdados da terra, desnutridos, enfraquecidos por uma série de doenças (algumas delas, como diversas infecções sexualmente transmissíveis, capazes de facilitar a transmissão do HIV), extremamente móveis, inseridos em circuitos de interação sexual desprotegida, quando não em redes de tráfico e consumo de drogas.
Não é de estranhar que os haitianos se tornassem o segundo H, numa tentativa conceitual tão simplista quanto certeira na sua capacidade de discriminar e estigmatizar. A despeito da evidente exploração sexual e de séculos de injustiças e violações de toda a sorte, os haitianos se tornaram uma categoria em si, supostamente afetada pela Aids devido a uma preferência velada do HIV... por haitianos!
Mercadejando o sangue do mundo: o terceiro H
Quando se pensava que toda a crueldade do conturbado século XX havia atingido seu ápice com o holocausto e a bomba atômica, eis que emerge, já no apagar das luzes, uma nova forma de exploração do homem pelo homem – exploração não mais de seres humanos digamos 'integrais' (termo pouco apropriado para populações espoliadas, admito, mas não me ocorre outro, em contraposição ao que descreverei a seguir), mas de seus 'pedaços', como órgãos e fluidos.
Ainda que a expropriação e circulação de órgãos humanos pertença antes de tudo à crônica policial, aflorando aqui e ali, em histórias horripilantes, o sangue foi objeto, até há pouco no Brasil (e ainda o é, em diversos países), de um comércio não só explícito, como florescente.
Dado o caráter inovador e complexo dos processos biotecnológicos envolvidos na produção dos assim denominados 'hemoderivados' (ou seja, produtos biológicos derivados do sangue) constitui-se, no mundo contemporâneo, um circuito de produção e consumo de características monopolistas e excludentes. Neste mercado humano, demasiado humano, cabe aos países em desenvolvimento exportar (como sempre ocorre), a commodity primária (o sangue) e importar, a preços substancialmente mais elevados, os produtos daí derivados, neste caso, os hemoderivados.
Numa reprodução, em menor escala, das desigualdades em escala global, no âmbito das sociedades nacionais, os assim denominados 'doadores profissionais' fornecem sangue, em troca de uma pequena compensação financeira. Esses doadores profissionais são (no Brasil, eram, pois tal prática foi proibida por lei, em meados da década de 1980), em sua imensa maioria, recrutados dentre os segmentos mais pobres e marginalizados de cada sociedade, congregando, por exemplo, mendigos (como mostrou um trabalho brasileiro realizado no período) e usuários de drogas injetáveis. Em se tratando de uma população vivendo em condições bastante precárias, não é de se estranhar que ela tenha taxas de infecção (pelo HIV e diversos outros agentes infecciosos) substancialmente mais elevadas do que a população de um modo geral (o que foi documentado por inúmeros trabalhos, realizados em diferentes países).
Pior: na produção de hemoderivados são utilizadas amostras de sangue provenientes de vários doadores visando à produção de um único lote de cada hemoderivado específico. Com isso, aumentam substancialmente as chances de que cada um dos lotes de hemoderivados inclua, ao menos, uma amostra de sangue contaminado.
Por essas razões, e pelo fato dos hemofílicos receberem determinado hemoderivado de forma repetida ao longo da vida, aumentam exponencialmente as chances de que um determinado indivíduo hemofílico seja infectado a partir de um produto que se origina de um extenso pool de doadores, estando um ou mais de um deles infectado pelo HIV e/ou outros patógenos de transmissão sangüínea.
Numa versão absolutamente perversa dos processos de globalização, milhares de hemofílicos e outros pacientes que haviam recebido transfusões sangüíneas no final da década de 1970 e início da década seguinte (quando ainda não se dispunha de testes sorológicos para o HIV) foram infectados pelo HIV. Ainda que considerados 'vítimas inocentes' de 'erros médicos', faltou compreender o essencial: não se trata de 'erros', mas sim de um desdobramento esperável de um mercado regido por uma lógica absolutamente distorcida.
No Brasil, sob a liderança de Herbert de Souza, o Betinho, e com a participação de diversos profissionais de saúde e ativistas, implementou-se, em meados da década de 1980, uma profunda reforma da legislação relativa a doações e à operação de bancos de sangue, com o fechamento de vários estabelecimentos que funcionavam em franca contradição com a legislação e as boas práticas laboratoriais. Infelizmente, no caso de Betinho, a mudança chegou tarde demais % tendo (con)vivido por longos anos com a hemofilia e, posteriormente, a Aids, faleceu ele em decorrência de uma segunda infecção, a hepatite C, que igualmente contraiu a partir do sangue contaminado.
Um falso quarto H: os usuários de drogas injetáveis Mesmo no âmbito de diversos equívocos e distorções, saltam aos olhos os erros e preconceitos referentes aos usuários de drogas injetáveis, que foram reduzidos a uma única modalidade de consumo por via injetável, a injeção da heroína – o quarto H. Um dos equívocos mais curiosos neste caso refere-se à própria droga injetada. Possivelmente devido ao estigma longamente associado à heroína nos locais onde seu consumo é mais prevalente, como os Estados Unidos, Europa e Austrália, foi a ela conferida um papel indevido, por diversas razões.
Em primeiro lugar, a cena de uso de drogas na década de 1980 era bastante mais matizada do que se suponha a princípio, com a entrada em cena da cocaína (entre outras substâncias, que o presente texto não tematiza), sob várias apresentações (cheirada, injetada, e, em um momento posterior, fumada, sob a forma de pedras de crack). A cocaína injetada estava bastante presente na cena de drogas nos Estados Unidos e Europa ocidental na década de 1980, quando foi formulado o conceito do quarto H, ou seja, uma ampla fração de usuários de drogas injetáveis, usuários de cocaína, isoladamente ou em combinação com a heroína (denominado speedball) foi simplesmente ignorada. O problema maior relativo a essa omissão é que ela excluiu do campo do HIV/Aids exatamente os usuários de drogas cujas taxas de infecção pelo HIV são mais elevadas, devido a uma série de fatores, que a pesquisa se encarregou de esclarecer posteriormente.
A primeira dessas omissões decorre de um erro fundamental em metodologia científica. Sabe-se, pelo menos desde Aristóteles, que é preciso observar os fenômenos e descrevê-los da forma mais acurada e exaustiva possível, antes de estabelecer inferências acerca deles. Caso as práticas dos usuários de cocaína injetável tivessem sido adequadamente observadas e descritas, saber-se-ia que seu padrão de uso (injeções repetidas em um curto intervalo de tempo, denominado em inglês binge, termo que não tem tradução exata para o português), está fortemente associado ao compartilhamento de agulhas e seringas (o elemento central da transmissão do HIV nesta população) e, com isso, à transmissão do HIV. Embora a documentação formal, do ponto de vista epidemiológico e estatístico, da estreita associação do binge e transmissão muito pronunciada do HIV date de 1991 (a partir de um artigo de pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, EUA), já se dispunha, desde o início da década de 1980 (ou mesmo antes), de detalhados relatos sobre as práticas de injeção de usuários de diferentes drogas, a partir de trabalhos, informais, das próprias associações de usuários de drogas, como as Junkiebonden, algo como um 'sindicato' de usuários de drogas holandeses. Mas quem daria ouvido a um bando de 'doidões'? O preço da omissão se traduziu, como sempre, em sofrimento e mortes desnecessários.
Aos poucos, pesquisadores corajosos e inovadores, como o também holandês Jean-Paul Grund, e diversos pesquisadores norte-americanos, estabeleceram canais de comunicação com os próprios usuários de drogas, dedicando-se a levantar e sistematizar a rica etnografia das cenas de uso. Entre outras lições, esses pesquisadores demonstraram (a partir de um extenso conjunto de trabalhos de natureza etnográfica, epidemiológica e biológica) que, além do compartilhamento das seringas e agulhas utilizadas na auto-administração de drogas injetáveis, o compartilhamento dito 'indireto' dos demais materiais e equipamentos de injeção, como, por exemplo, o hábito de diversos usuários de drogas, especialmente, de cocaína, de preparar uma solução comum de cocaína, em que 'abastecem' e 'lavam' suas seringas individuais, estava igualmente associado à transmissão do HIV (em função do vazamento de restos de sangue contaminado, contido nas seringas, a cada rodada de abastecimento/lavagem).
Aqui também o risco maior era o experimentado pelos usuários de cocaína (e não de heroína!), cujas práticas de preparação de solução de drogas envolvem recipientes cheios de solução de cocaína, em que seringas são repetidamente enchidas e esvaziadas, e, freqüentemente, 'graduadas' (ou seja, utiliza-se um recipiente ou seringa comum para abastecer as seringas individuais com doses específicas, de modo a evitar desperdício e minimizar o risco de sobredosagem – overdose). Ao contrário, os usuários de heroína injetam esta substância de forma mais espaçada no tempo, e lançam mão de acidificantes (como o limão) e fogareiros (ou equivalentes) no preparo, o que reduz substancialmente os riscos associados ao compartilhamento indireto. Enfim, por estas e outras razões, o quarto H é, na verdade, um CH (C de cocaína).
Finalizando essa breve incursão pelas cenas de uso de drogas, cabe observar que um dos elementos-chave do compartilhamento de agulhas e seringas (e, portanto, da disseminação do HIV nesta população) deve-se, paradoxalmente, à adoção de sucessivas legislações com vista a evitar o uso de drogas injetáveis. Obviamente, a legislação não é a única dimensão a ser abordada neste caso, inclusive porque em países em que ela jamais foi adotada (como o Brasil) observa-se também o compartilhamento de equipamentos de injeção. Não resta dúvida, entretanto, de que as leis que restringem a aquisição e o porte de equipamentos de injeção (que, em inglês, são conhecidas como prescription laws e paraphernalia laws, respectivamente) desempenham um papel fundamental no incremento das práticas de compartilhamento de agulhas e seringas, e, com isso, da transmissão do HIV e outros agentes infecciosos. Um interessante conjunto de trabalhos, que avaliou usuários de drogas diabéticos (que têm isenção frente às leis de controle da venda e porte de seringas, em função do eventual uso de insulina injetável) e não-diabéticos, registraram taxas de infecção substancialmente mais baixas entre os usuários diabéticos (frente aos demais), pareadas outras características, como idade ou padrões específicos de consumo de drogas.
Por uma ciência renovada
Em todos os exemplos até aqui mencionados, a interação o mais possível livre de preconceitos e pautada no diálogo entre pesquisadores e pesquisados, quando não a pesquisa empreendida pelos próprios membros das comunidades mais atingidas, é capaz de renovar os surrados paradigmas e abrir novos horizontes, para além dos 4H e outras propostas igualmente simplistas e reducionistas.
Algumas das metodologias mais criativas e férteis de análise de processos de difusão – e toda a epidemia, é antes de tudo, um processo de difusão, no caso, de uma 'máquina spinoziana', que tudo 'faz' no sentido de maximizar esses mesmos processos de difusão – provêm de estratégias que compreendem o fenômeno de difusão, não da perspectiva exclusiva dos indivíduos, mas sim de suas interações e dos contextos em que se inserem. Se é verdade que a ampla maioria dos trabalhos da primeira metade da década de 1980 cometeu erros crassos, a partir do emprego sistemático do paradigma equivocado dos 'grupos de risco', isto não teve lugar em função de não se dispor de alternativas conceituais e metodológicas apropriadas, mas sim em função da adesão da ampla maioria de pesquisadores a lugares-comuns, e, por que não?, em decorrência da ignorância.
Em 1985, o sociólogo norte-americano, radicado na Austrália, Alden Klovdahl, publicou um trabalho clássico em que descreve a aplicação da análise de redes sociais ao então emergente fenômeno da Aids. Os conceitos e diagramas de Klovdahl, que pareciam bizarros à época, acabaram por inspirar inúmeros trabalhos, com a defasagem de décadas (avaliando-se as citações deste trabalho fundamental, através da ferramenta de busca ISI - Web of Science, constata-se ter ela se transformado em um 'clássico contemporâneo', que desafia a tradicional obsolescência dos artigos científicos). Mas, afinal, quem ligava, à época, para um misterioso sociólogo australo-americano inteiramente à margem do establishment epidemiológico?