AIDS na terceira década
Sugestões de leituras
Uma das dificuldades persistentes na compreensão de fenômenos de base biológica nova e complexa é a necessidade de conhecer os fundamentos da biologia moderna. Freqüentemente, os críticos do assim denominado 'modelo biomédico' confundem numa única expressão, aparentemente singela, questões referentes à biologia e à medicina (que, ao contrário da biologia, não é uma ciência, mas sim um entroncamento de saberes de ciências diversas, incluindo as ciências classificadas como biológicas, sociais e humanas; práticas; relações com o mercado e o Estado etc.), além de utilizarem, de forma inapropriada, o próprio conceito de 'modelo' (antes instância mediadora, do que fôrma, na epistemologia moderna). Minha opinião pessoal é que por desconhecerem o avanço do conhecimento biológico ao longo de todo o século XX, gastam seu tempo atacando chavões inteiramente superados no âmbito da biologia, ou, como se diz na gíria, 'chutando um cachorro morto'.
Portanto, um bom começo é compreender a biologia para além das habituais ortodoxias e reducionismos. Minha sugestão inicial é percorrer a obra daquele que é considerado o Darwin do século XX, Ernst Mayr, começando talvez pela sua última e mais concisa obra Biologia, Ciência Única (The Uniqueness of Biology), publicada em português pela Companhia das Letras (Rio de Janeiro) em 2005, pois, como afirmou seu irônico autor, que acabou de redigi-la aos 100 anos, não haveria tempo para redigir obra posterior e não havia dúvida de que esta, sim, se beneficiaria da experiência acumulada.
Seu parceiro de aventuras ornitológicas, Jared Diamond, integra de forma instigante a história das civilizações a uma visão moderna da biologia evolucionista e ecologia, em livros como Armas, Germes e Aço (2001), que debate, explicitamente, a história das doenças infecciosas no quadro da história humana, e Colapso: como as sociedades escolhem o sucesso ou o fracasso (2005), ambos da Editora Record (Rio de Janeiro).
Fechando as sugestões no âmbito da biologia, menciono ainda o volume A Recepção do Darwinismo no Brasil, organizado por Heloisa Maria Bertol Domingues, Magali Romero de Sá e Thomas Glick (Rio de Janeir: Editora Fiocruz, 2003), que aborda as sucessivas releituras e desenvolvimentos da biologia evolutiva em nosso país.
Na interface entre a biologia e dois dos ramos da biomedicina contemporânea, imunologia e virologia, situam-se o norte-americano Paul Ewald, Evolution of Infectious Diseases (Nova York: Oxford University Press, 1994) e o holandês Jaap Goudsmit, Viral Fitness: the next SARS and west nile in the making (Nova York: Oxford University Press, 2004), autores de obras que, até onde é do nosso conhecimento, permanecem inéditas em português. O livro do primeiro está hoje defasado com relação à questão específica da Aids, mas é bastante atual do ponto de vista conceitual. O livro de Goudsmit, considerado por muitos o mais influente pesquisador europeu em HIV/Aids, é bastante atual e traz idéias e achados inovadores sobre as complexas inter-relações entre vírus e seus parasitados (humanos e não-humanos), no contexto de um meio-ambiente próximo do colapso, como discutido por Diamond.
Os textos seminais da pesquisa biomédica em HIV/Aids, nos seus momentos iniciais, foram reunidos na coletânea Aids: papers from science 1982-1985 (Washington, D.C.: American Association for the Advancement of Science, 1986) que encontrei, por acaso, em uma calçada da Rua São José, centro do Rio, em um dia chuvoso, e que adquiri por uma bagatela de um ambulante encharcado. Analisei, em parceria com meu ex-orientador, Euclides Castilho, alguns dos achados compendiados nesta coletânea no artigo: "Aids (1981-1997): o rastro da tormenta", Revista USP, 33: 6-19, 1997. O tratamento da infecção pelo HIV e da síndrome clínica (Aids) nunca mais foram os mesmos desde os trabalhos de David Ho e seus inúmeros colaboradores. Não se trata de leitura fácil para o não especialista, mas constituem inegável marco de avanço científico. Se tivesse que destacar os meus preferidos dentre suas centenas de artigos ficaria com aqueles redigidos em parceria com o mago austríaco da biomatemática, Martin Nowak, mas esta é apenas uma preferência pessoal. As referências dos trabalhos desses autores, assim como de Don des Jarlais, podem ser encontradas na base
bibliográfica PubMed (www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/), acesível ao público em geral.
A epidemiologia tradicional cometeu equívocos grosseiros com relação à dinâmica da epidemia de Aids nos seus primórdios. Uma das razões subjacentes a esses equívocos é o fato de os reducionismos de qualquer sorte constituírem, invariavelmente, opções tentadoras, seja por sua simplicidade enganosa, seja por conferirem uma aura de cientificidade aos preconceitos rasteiros. A segunda razão que me parece alimentar equívocos e preconceitos é a perigosa mistura de ignorância e soberba. Tivessem os epidemiologistas de então lido os trabalhos pioneiros de Alden Klovdahl (sociólogo que atua em Camberra, Austrália), e o pior talvez tivesse sido evitado. Enfim, ainda é tempo de conhecer um pouco dos estudos inovadores de redes sociais em HIV/Aids, através da obra de uma das suas mais agudas proponentes, Martina Morris, em seu livro Social Networks Epidemiology, ainda inédito em português (Nova York: Oxford University Press, 2004).
No campo das ciências sociais e humanas, avultam coletâneas de estudos históricos como Aids: the burdens of history (Berkeley: University of California Press, 1988) e Aids: the making of a chronic disease (Berkeley: University of California Press, 1992). Ou ainda as instigantes reflexões de Jonathan Mann, trágica e precocemente desaparecido, em obras como Aids in the World (Cambridge: Harvard University Press, 1992), publicado no Brasil como Aids no Mundo (Rio de Janeiro: Relume Dumará-AbiaIMS/Uerj, 1994). Também deste último autor, vale conferir Health and Human Rights: a reader (Londres: Routledge, 1999), que apresenta a inovadora proposição de pensar a Aids e a saúde pública em geral nos marcos dos direitos humanos.
A vasta, criativa e polêmica obra de Paul Farmer combina sua vivência prática em medicina, desenvolvida em contextos os mais adversos, especialmente no Haiti, aos seus amplos conhecimentos de antropologia e seu ativismo social. Nas suas obras mais recentes, Infections and Inequalities: the modern plagues (Berkeley: University of California Press, 1999) e Pathologies of Power: health, human rights and the new war on the poor (Berkeley: University of California Press, 2003), até onde é do meu conhecimento, inéditas em português, Farmer amplia sua perspectiva, seja no seu campo de atuação (tematiza especificamente a tuberculose, além da Aids), escopo geográfico (que, além do Haiti, diz agora respeito aos mais diversos contextos onde vivem os 'deserdados da terra', da América Central ao Leste europeu), ou ainda nos conhecimentos que informam sua reflexão (que incorporam a Teologia da Libertação, inclusive brasileira, e a literatura de ficção e a poesia). Poucos autores contemporâneos guardam uma sintonia tão profunda com o "humano, demasiado humano".
Finalizando, registro que os textos de Borges e Manuel Bandeira, que abrem e concluem este pequeno volume, foram extraídos de suas Obras Completas, editadas, respectivamente, pela Emecé (sob este mesmo título) e Nova Aguilar (Poesia e Prosa, em dois volumes). Quanto a T. S. Eliot, vale consultar Complete Poems and Plays: 1909-1950 (Orlando: Harcourt Brace & Company, 1980), em que pode ser encontrado o poema "The hollow men", de 1925.
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Francisco Inácio Bastos
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