AIDS na terceira década
5 - Espelho, espelho meu
Neste início de século XXI, a epidemia de Aids segue em expansão, com marcadas assimetrias regionais e populacionais. Os padrões de disseminação da epidemia conformariam hoje uma espécie de espelho invertido das riquezas do mundo.
Em um grupo, estão os países desenvolvidos, em que a epidemia se estabilizou ou foi revertida. Tal dinâmica pode ser observada nos países que não são apenas ricos, mas que contam com sociedades homogêneas, cujas desigualdades sociais são pouco relevantes. Nestes países, a epidemia arrefeceu e, a não ser que ocorra algo totalmente inesperado, deverá ter sua velocidade de disseminação paulatinamente reduzida, até que a Aids se torne um problema eventual, quase um 'evento-sentinela', termo com o qual a vigilância sanitária designa eventos raros, que pela sua própria ocorrência denotam alguma falha ou anomalia das medidas de saúde pública em curso.
Apenas para permitir ao leitor compreender do que se está falando aqui, utilizarei um exemplo tradicional de evento-sentinela: a morte de um paciente em decorrência de apendicite. Neste caso, nos países que contam com uma vigilância sanitária de bom padrão, esta morte deve ser minuciosamente investigada, pois se trata de uma patologia de diagnóstico simples, seguido de intervenção cirúrgica padrão, que não deveria, em nenhuma circunstância, resultar em óbito. Da mesma forma, é possível que a notificação de um caso de infecção pelo HIV (pois estes países contam com um sistema de notificação de infecções e não apenas com um sistema de registro de casos de Aids) venha, em um futuro próximo, a constituir um evento-sentinela em países como a Finlândia, Noruega, Suécia e Dinamarca.
No que poderíamos denominar de segundo grupo de países, estão as sociedades ricas, mas heterogêneas, seja em função da marcante desigualdade econômica, seja em função da exclusão de natureza social e/ou étnica de contingentes expressivos da população. O exemplo paradigmático aqui é o dos Estados Unidos da América. Ao longo de duas décadas e meia, uma epidemia que atingiu, no início dos anos 80, predominantemente, a comunidade gay, branca, de classe média, se transmutou em uma epidemia que afeta, hoje, de forma absolutamente desproporcional os negros e os imigrantes, especialmente latinos. Os negros, ou afro-americanos, que correspondem, grosso modo, a 13% da população norte-americana perfazem hoje 50% dos novos casos de Aids notificados naquele país. Da mesma forma, os imigrantes (em relação aos quais as estatísticas estão bastante subestimadas, em virtude do caráter ilegal e oculto em que vivem muitos deles) vêm sendo desproporcionalmente afetados pela epidemia, especialmente alguns segmentos latinos, como os porto-riquenhos. Existe aí um claro contraste com a espiral ascendente de prevenção efetiva, pleno acesso a meios de prevenção e tratamento, através de recursos próprios e diferentes modalidades de seguros sociais privados. Estes recursos materiais e simbólicos fizeram com que a maioria branca, de classe média, com maior nível educacional e ocupações mais bem remuneradas adotasse de forma consistente, ao longo da trajetória individual de cada um e do seu grupo social de referência, medidas preventivas. Caso se infecte ou adoeça, este segmento populacional conta com as melhores alternativas de tratamento e monitoramento.
Como vimos no quarto capítulo, a reversão dessa espiral ascendente pode ocorrer, em médio e longo prazo, a partir dos fenômenos discutidos anteriormente, referentes ao otimismo vinculado à Haart e à recomposição das redes sociais. Mas esta é, por ora, uma tendência preocupante, mas não uma dinâmica majoritária. Ainda que segmentos específicos da população branca, de classe média, possam estar sendo crescentemente afetados, como os jovens gays, ainda é cedo para avaliar as conseqüências desta dinâmica específica sobre os estratos médios como um todo, e, até o momento, a tendência mais abrangente neste segmento populacional majoritário é de estabilização da epidemia.
Entre os desfavorecidos, em contrapartida, existiria uma espiral descendente ou uma 'sinergia de males' (ou 'sindemia', na expressão cunhada por Merril Singer) em locais onde se congregam populações marginalizadas, que habitam guetos sociais, raciais ou lingüísticos, com elevadas proporções de pessoas desempregadas, à margem de qualquer proteção social e que procuram se manter ocultas mesmo frente a programas comunitários de auxílio a pessoas sob risco e/ou vivendo com HIV e Aids (por serem imigrantes ilegais, por estarem sob condicional e não desejarem explicitar que, ao consumirem drogas, estão violando as regras da condicional, por estarem 'juradas' de morte por gangues rivais etc.) não encontram meios de se proteger de forma consistente, às voltas que estão com outras necessidades prementes, como ter o que comer, arranjar um local para dormir, ou mesmo arranjar meios de adquirir a próxima pedra de crack que irão fumar.
Nestes locais (que lembram as nossas favelas), assolados pela violência estrutural, pelo tráfico de drogas, por elevadas taxas de infecções sexualmente transmissíveis, tratáveis (como a sífilis) ou ao menos evitáveis (como a infecção pelo Papiloma Vírus Humano, agente causador do câncer de útero), e ainda, por taxas elevadas de infecção pelo HIV (o que, tecnicamente, é denominado background prevalences), cada potencial interação de risco (como fazer sexo desprotegido ou injetar drogas com a seringa usada por outro usuário de drogas) tem uma enorme chance de se transformar em risco efetivo de infecção pelo HIV. Tudo contribui para este risco ampliado, uma vez que as demais infecções sexualmente transmissíveis aumentam, em muito, as chances de transmissão do HIV, e cada evento de compartilhamento de equipamentos de injeção tem uma enorme chance de colocar em contato uma pessoa infectada pelo HIV e/ou pelos vírus das hepatites B e C e algum novato, que inicia ali o consumo de drogas injetáveis, e encontrou no companheiro mais velho e experiente o 'guia' que vai lhe ensinar como injetar drogas, o mais das vezes 'graduando' a dose (visando evitar uma overdose) na própria seringa que acabou de utilizar. Nestas comunidades empobrecidas, não é de surpreender que medidas tópicas sejam de pouca ou nenhuma efetividade, pois se trata aqui da necessidade de transformar toda uma estrutura que perpetua não só a disseminação do HIV, mas toda sorte de doenças e agravos médicos e sociais. Uma das principais limitações postas à prevenção nestes locais é a descontinuidade das ações, ameaçadas por confrontos violentos entre gangues rivais ou entre traficantes e a polícia. Para quem já atuou em prevenção em comunidades empobrecidas no Brasil, tais relatos norte-americanos soam demasiado familiares.
Da mesma forma, sociedades não tão ricas como a norte-americana, mas segregadas, como a França contemporânea, cujas profundas fissuras vêm sendo expostas nos noticiários de todo o mundo, encerram, em seu bojo, epidemias em declínio, por exemplo, no coração de Paris, e comunidades afetadas pelas já mencionadas sindemias, como nos banlieues, onde se congregam imigrantes, especialmente do Norte da África, com pouco acesso à educação formal, desempregados e às voltas com problemas similares aos norte-americanos de violência estrutural e tráfico de drogas. Nestes locais, a epidemia de HIV e Aids, além, é claro, de um sem número de problemas sociais e de saúde pública, está longe de qualquer perspectiva de controle.
Diversos pesquisadores brasileiros, inclusive o nosso grupo de pesquisa, na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), têm evidenciado dinâmicas similares da epidemia em território brasileiro, país bastante mais pobre do que os Estados Unidos ou a França, e marcado por uma desigualdade social bastante mais pronunciada. Assim como naqueles países, as inúmeras e profundas fissuras da sociedade brasileira têm dado lugar a epidemias de cunho local ou mesmo regional, ainda que, no conjunto, a epidemia brasileira esteja, grosso modo, estabilizada.
Retomando o raciocínio do primeiro capítulo, cabe frisar que o HIV, como qualquer outro agente infeccioso, não tem qualquer opção preferencial por pobres, assim como jamais teve qualquer simpatia ou antipatia por gays ou hemofílicos. O vírus, simplesmente, e num sentido metafórico, se beneficia das linhas de fragilidade das redes sociais onde é introduzido. Se estas vulnerabilidades são decorrentes de comportamentos de risco de pares de parceiros sexuais ou de todo um grupo que compartilha uma injeção de cocaína numa cela de um presídio, isto, da perspectiva (virtual) dos vírus, lhes é inteiramente indiferente. Guiado pela missão primeira e fundamental de persistir, custe o que custar, sua disseminação seguirá as cadeias de transmissão que se lhes apresentarem mais favoráveis, indiferentes a quaisquer psicologias ou sociologias que lhes queiram atribuir.
De volta aos países e sociedades mais afetadas pela epidemia em todo o mundo, cabe ressaltar que a epidemia pode persistir indefinidamente na África subsahariana, em níveis inaceitavelmente elevados, mas não mais de forma explosiva. Neste processo, tecnicamente denominado de endemização, a Aids poderia se tornar a malária do século XXI, dizimando, silenciosamente, milhares de vida a cada ano, sem que isso mereça qualquer notícia na imprensa leiga ou desperte a comoção das pessoas, que se espantam e surpreendem com eventos de aparecimento súbito, como um ataque terrorista, mas se mostram indiferentes diante do lento holocausto provocado pelas guerras civis na África, ou pela disseminação progressiva da malária ou da tuberculose naquele continente. De forma premonitória, o poeta anglo-americano T. S. Eliot disse certa vez que "o mundo não acabaria em uma explosão, mas com um suspiro".
A perspectiva atual com relação à Aids, seja do ponto de vista coletivo ou individual, é de controle, se assim o permitirem as circunstâncias, mas não de erradicação em nível coletivo ou cura no nível individual. Esta afirmativa talvez pareça desalentadora para o leigo, mas não difere em nada do destino da imensa maioria de doenças que assolam o mundo.
A despeito do formidável progresso científico e tecnológico, pouquíssimas doenças infecciosas, como a varíola, foram de fato erradicadas. Mesmo doenças praticamente erradicadas, como a poliomielite (paralisia infantil), reemergem de quando em quando. Os últimos episódios de sua reaparição são paradigmáticos dos obstáculos com que se depara a saúde pública quando tenta traduzir em ações concretas suas formulações. Casos de poliomielite têm sido detectados em alguns países africanos, especialmente naqueles em que conflitos armados permanentes acabaram por desmontar os já frágeis sistemas de saúde locais. Foram notificados também, recentemente, casos de poliomelite em uma comunidade religiosa norte-americana que não aceita a vacinação (assim como outras conquistas da ciência contemporânea). Ou seja, em função de constrangimentos estruturais ou da decisão de pessoas ou grupos em não adotar determinada medida preconizada pelas autoridades de saúde, os resultados práticos de um conjunto de medidas ficam aquém do esperado a partir das formulações teóricas ou dos resultados de simulações desenvolvidas em computador.
Se tais barreiras se antepõem à erradicação de doenças para as quais se dispõem de vacinas cuja efetividade e segurança se aproxima de 100%, o que dizer do campo do HIV/Aids em que, a despeito de inúmeros esforços, não foi possível obter, até o momento, vacinas minimamente eficazes? As pesquisas mais recentes em HIV/Aids já não consideram mais a hipótese de uma futura vacina 100% eficaz e efetiva, mas sim a possível utilização de vacinas que induziriam proteção apenas parcial, não evitando, por exemplo, a infecção pelo HIV, mas evitando que a infecção pelo HIV progredisse para a síndrome clínica (Aids).
Os riscos da aplicação dessas vacinas de proteção parcial são conhecidos e comparáveis aos riscos associados à utilização em massa de anti-retrovirais, discutidos anteriormente. Além da possibilidade de natureza biológica de involuntariamente selecionar um supervírus (ao eliminar seus competidores mais fracos, incapazes de suplantar a proteção conferida pela eventual vacina parcialmente protetora), existe a hipótese mais complexa e desafiadora de que uma suposta proteção conferida pela aplicação em massa da vacina dê lugar a uma percepção equivocada de invulnerabilidade por parte dos vacinados e seus pares e a um descuido perigoso com relação à prevenção. Portanto, seja lá qual for a iniciativa de cunho biomédico a ser adotada num futuro próximo, cabe sempre esclarecer que ela jamais será uma 'bala mágica' (expressão familiar em língua inglesa – magic bullet), capaz de derrotar o inimigo com um único tiro. Não existe qualquer perspectiva de médio e mesmo longo prazo que não compreenda a implementação conjunta e integrada de inovações no campo da biomedicina e estratégias de cunho psicossocial, compreendendo o esclarecimento, aconselhamento e mesmo a assistência psicoterápica, caso necessário (por exemplo, de um indivíduo vacinado que se testa, recebe um resultado positivo, em decorrência da imunidade induzida pela vacina e não da infecção, e reage com um quadro de depressão e ideações suicidas).
Portanto, no plano coletivo, a proposta viável por ora, é coordenar todos os esforços possíveis no sentido de manter a epidemia sob controle, tendo claro que em regiões mais afetadas, quase invariavelmente mais pobres, tal esforço não será possível a partir apenas de ações locais, mas tão-somente a partir de um esforço global, que complemente as inúmeras deficiências materiais e de pessoal capacitado dos países mais afetados pela epidemia e que se deparam com inúmeros outros problemas, como a malária, a tuberculose, a fome ou as guerras civis. Um exemplo claro disso é o colapso do sistema educacional de diversas comunidades africanas, a partir do adoecimento e morte de toda uma geração de professores.
A perspectiva das pessoas vivendo com
HIV/AIDS
No plano dos indivíduos sob tratamento, as perspectivas são em tudo semelhantes às que mencionamos na esfera coletiva. Não existe, em médio prazo, nenhuma perspectiva de erradicação da infecção pelo HIV e conseqüente cura da Aids. Ainda uma vez cabe observar que a imensa maioria das doenças que nos afetam não são curáveis, mas sim manejáveis, a partir de um processo de sua transformação em uma doença crônica. Este é o caso, por exemplo, do diabetes melito ou da hipertensão arterial, que, em momentos anteriores da humanidade matavam em prazo muito curto, e que, hoje, devidamente controladas, não ameaçam de imediato a vida dos pacientes por elas afetadas, evoluindo de forma crônica, sempre a demandar cuidados médicos e monitoramento.
Da mesma forma, é possível hoje controlar a infecção pelo HIV/Aids e devolver aos pacientes com Aids uma vida substancialmente prolongada e plena, não existindo, entretanto, perspectivas de interrupção do tratamento ou a possibilidade de erradicar os vírus de todo e qualquer local do corpo onde eles encontrem refúgio. Habitualmente, é possível erradicá-los ou quase erradicá-los de lugares centrais à sua disseminação, como a corrente sangüínea, o que se traduz em sucessivos exames com carga viral (expressão numérica do contingente de vírus presentes em determinado local) indetectável, o que é, quase sempre, compreendido como 'carga zero'. A questão é, infelizmente, mais sutil, pois em qualquer iniciativa de mensuração não está em jogo tão-somente o objeto a ser medido, como também o instrumento de medida. Portanto, o que sabemos hoje com certeza é que é possível manter, por tempo prolongado, uma carga viral indetectável na corrente sangüínea de um indivíduo sob tratamento adequado, embora não saibamos, ao certo, se esta carga se mantém, de fato, zero, ou na verdade indetectável em função dos limites de detecção dos nossos instrumentos de medida. Sabe-se, hoje, com certeza, que o vírus é capaz de ficar aparentemente adormecido por longo período nos assim denominados 'santuários', locais onde – como os antigos foragidos que buscavam abrigo em templos religiosos – , eles se escondem e se 'fingem de mortos', à espera de uma chance de reemergirem.
Portanto, da perspectiva da clínica dos pacientes vivendo com Aids, cabe administrar da melhor forma possível a emergência de problemas ao longo do período de tratamento, período hoje sinônimo de toda a vida de cada indivíduo. A responsabilidade dos profissionais de saúde que lidam cotidianamente com cada um dos pacientes é enorme, e não deve nunca se limitar a prescrever remédios e solicitar e analisar exames. Profissionais e pacientes são parceiros e partícipes dos projetos de vida de cada indivíduo vivendo com Aids, assim como já ocorre com os profissionais que cuidam de pacientes diabéticos. Diversas estratégias vêm funcionando de forma muito satisfatória em todo o leque de doenças crônicas, incluindo associações de defesa de seus interesses e de apoio de/a pacientes vivendo com diversos agravos à saúde, grupos de mútua-ajuda, além da indispensável oferta de cuidados individualizados, necessariamente prestados por equipes multidisciplinares.
Novos desafios vêm se apresentando no campo do manejo das pessoas vivendo com HIV/Aids, alguns deles decorrentes do sucesso mesmo da terapia anti-retroviral, pois, uma vez que as pessoas vivam mais (estejam elas infectadas ou não pelo HIV), aumentam as suas chances de se depararem com doenças que se apresentam no transcurso dos anos. Um desses desafios, além da já mencionada emergência da resistência viral, é o aparecimento de novos efeitos colaterais dos medicamentos, como a lipodistrofia e a síndrome metabólica correlata, com aumento da glicemia (níveis de glicose) sangüínea e das taxas de lipídeos e suas frações (como colesterol e triglicerídeos) no sangue. Talvez para a surpresa dos leitores, acostumados à imagem de um paciente extremamente debilitado e emagrecido, diversos pacientes hoje, não só ganham peso rapidamente, como se vêem às voltas com o sobrepeso e distúrbios do metabolismo dos açúcares e lipídeos, com as conseqüências que todos já conhecem, de aumento da freqüência de doenças coronarianas, diabetes e hipertensão arterial. Diferentemente, porém de outros pacientes com distúrbios metabólicos, os pacientes com Aids em uso de determinadas medicações apresentam, comumente, uma redistribuição de tecido gorduroso bastante peculiar e esteticamente desagradável para os que a experimentam (com depósito de gordura sob a forma de 'giba de búfalo', na região superior do tronco, em paralelo à perda de massa gordurosa em outras regiões, como a face).
Há algum tempo atrás fui procurado por colegas que desejavam avaliar um programa de condicionamento físico para pacientes vivendo com Aids em uso da Haart. Infelizmente, o trabalho não avançou, o que não quer dizer que esta não seja uma questão prioritária nessa nova época de pessoas vivendo com Aids com sobrepeso e mesmo obesidade, e não mais emagrecido.
Outras questões também emergiram à medida que os pacientes passaram a viver mais, e uma das mais relevantes, especialmente na população com a qual trabalho cotidianamente, os usuários de drogas injetáveis, é o manejo de pacientes coinfectados pelo HIV e por outros vírus, sendo especialmente desafiador o manejo da coinfecção pelo HIV e pelo vírus da hepatite C (VHC ou HCV). Em se tratando de dois vírus de expressão lenta, mas bastante agressivos nos seus efeitos em médio e longo prazos, a coinfecção HIV/HCV deve ser manejada por equipes multiprofissionais com experiência em ambas as infecções e suas respectivas terapias medicamentosas.
Não me aventuraria aqui por outros caminhos, que me são pouco familiares, mas cabe ao menos mencionar outros problemas da clínica contemporânea do HIV/Aids, como a coinfecção HIV e tuberculose multiresistente, que vem emergindo em diversos contextos, em todo o mundo, ou o aparecimento, habitualmente ao longo de um tempo dilatado, de problemas neurológicos em pacientes infectados pelo HIV, ou ainda o complexo manejo de diferentes tumores em pacientes vivendo com Aids.
Aqui, como em todos os demais campos da medicina, viver mais significa não necessariamente viver melhor, embora viver melhor seja uma realidade fartamente documentada na clínica contemporânea em HIV/Aids, mas, infelizmente, por vezes, estar mais sujeito às doenças mais prevalentes entre os mais velhos (como os cânceres e diversos problemas neurológicos). Também aqui, o sucesso logrado em cada etapa se traduz também em novos desafios, numa luta sem tréguas da ciência e da medicina por uma vida mais longa, mais saudável e mais digna.
De volta ao coletivo
Retornando à dimensão propriamente coletiva da questão, lanço mão novamente da idéia do pesquisador norte-americano Morse (vide capítulo inicial) de que não é possível, em um mundo globalizado e interconectado, impor barreiras à disseminação das epidemias, mas sim definir regras do tráfego viral. Tal proposta não é de modo algum simples, pois quaisquer iniciativas neste sentido descambam, muito facilmente, para propostas xenófobas, que se mostraram tão estúpidas e variadas como inúteis (quando não, fracamente contraproducentes) no caso da Aids. Certamente são de triste memória para os mais velhos, como eu, propostas, que em tudo lembravam as propostas nazistas, de, por exemplo, tatuar símbolos nas nádegas de homossexuais masculinos vivendo com Aids, formulada por um legislador norte-americano que os anos fizeram se tornar anônimo, no início da década de 1980.
Combinar medidas de fato efetivas com o respeito aos direitos humanos fundamentais, como o de ir e vir, liberdade de expressão e associação, liberdade de culto etc. constituirá um desafio posto a todas as sociedades e governos de todo o mundo com relação à pandemia que se avizinha, a da gripe das aves. Por ora, trata-se de sacrificar aves e colocar populações de pequenos vilarejos sob observação (e eventual quarentena). Mas o que irá acontecer caso (algo extremamente provável) o vírus passe a ser transmitido de pessoa para pessoa, sem a necessária mediação das aves, e se torne um fenômeno urbano?
Como havia dito anteriormente, o pânico provocado pelas epidemias costuma despertar o que há de melhor e de pior em cada um de nós, num leque que vai da solidariedade ao mais abjeto preconceito e xenofobia. Está em nossas mãos reagirmos a esse novo desafio posto pela gripe das aves de forma mais sensata e democrática possível, sabendo que esta próxima pandemia está longe de ser a última, e que as constantes mudanças climáticas e a devastação sistemática dos diferentes ecossistemas devem acelerar a eclosão e a disseminação de novas pandemias.
Os apelos à preservação dos nossos irmãos, símios não-humanos, têm surtido pouco efeito, e é infelizmente bastante provável que, exterminados ou preservados em algumas poucas reservas e zoológicos, eles deixem de ser o hospedeiro favorito de uma série de agentes infecciosos, que com eles convivem há milhares de anos, de forma relativamente harmoniosa. Ausentes os símios não-humanos, os vírus encontrarão os caminhos – hoje ainda pouco conhecidos – que os levarão a nós, símios humanos.
De forma similar, parece hoje impossível fazer com que a China, a potência emergente dos nossos dias, reformule com a profundidade necessária as suas criações de aves e suínos, de onde emergem, invariavelmente, todas as pandemias de gripe (influenza) que assolam o mundo há pelo menos um século. Como fazer com que um bilhão e trezentos milhões de pessoas sejam alimentadas, se forem destruídas suas fontes básicas de proteína animal (as centenas de milhões de pequenas granjas de aves e suínos), que se estruturam há milênios junto a córregos e pequenos lagos, onde habitam diferentes aves aquáticas (reservatório último dos vírus da influenza). Seria ingênuo acreditar que tais vias de tráfego viral possam ser definitivamente interrompidas ou desaparecer no horizonte dos nossos dias ou mesmo de nossos netos. É mais realista saber que conviveremos por décadas, talvez séculos, com novas ondas de influenza vindas da China, e que cabe a nós monitorá-las cuidadosamente, como está sendo feito com a gripe das aves, prevenindo novos surtos sempre que possível, lançando mão de todos os meios de que dispuser a ciência do futuro, respeitadas as prerrogativas democráticas.
Ao leitor, toda essa sucessão de pragas e pestes deve soar nada menos do que apocalíptica, mas o tom aqui não é de alarde sensacionalista (do qual já estamos todos fartos), mas do cuidado que devemos devotar a este frágil e complexo planeta, que nem conhecemos direito, mas que estamos sempre prontos a espoliar e maltratar.
As dificuldades que ora enfrentamos, e que as novas gerações enfrentarão de modo crescente e agudo, devem nos servir de alerta, mas não amesquinhar nossa capacidade de criar e agir de forma conseqüente.
Os indivíduos, famílias e comunidades que lutaram contra a então nascente epidemia da Aids em um momento em que não havia quaisquer alternativas reais de tratamento, ou os nossos concidadãos do século XXI que vivem em comunidades na África, e que, a despeito dos imensos avanços da ciência, não têm qualquer acesso aos medicamentos que salvariam suas vidas, têm uma imensa e tocante lição a nos ensinar. Que sejamos minimamente justos, solidários e comprometidos com o destino da nossa frágil humanidade, às voltas com sucessivas crises, de origem a mais diversa.
Quero terminar este pequeno livro, que procura recuperar a memória de uma epidemia recente e das pessoas por ela afetadas, com as palavras de um grande brasileiro, que viveu uma longa e produtiva vida, para surpresa dele mesmo, que se julgava condenado a uma morte precoce. Falo de Manuel Bandeira, o mestre da poesia do nosso Modernismo, que contraiu a tuberculose, então fatal, ainda muito jovem, o que o fez mudar totalmente de planos, internar-se em um asilo para tuberculosos na Suíça e tornar-se poeta, no fio da navalha da vida e da morte, como descreve no magnífico 'Itinerário de Pasárgada', de cunho biográfico.
Sempre humilde, enfrentando o destino ingrato de cabeça erguida, Bandeira, para nossa felicidade, viveu uma vida longa e incrivelmente fecunda, tendo incursionado com êxito pela poesia, ensaio, tradução, autobiografia, crônica, além dos textos didáticos que subsidiaram seu sereno magistério. Apaixonado pela vida e acossado pela morte, pôde enxergar, como poucos, a plenitude de cada momento, como no trecho do poema que se segue, os versos finais de 'Embalo':
Azuis de águas e céus
Sou nada, e entanto agora,
Eis-me centro finito
Do círculo infinito
De mar e céus afora.
– Estou onde está Deus.