Amôres d'um deputado

Hippolyte Buffenoir · Capítulo 9 de 10

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Amôres d'um deputado

Capítulo IX

 

Drama sangrento

M.me William, se bem que se entregasse a uma activa espionagem, não podia penetrar nos segredos da vida privada da bella{138} Carlota. Dispunha-se ella a organisar uma espionagem especial e astuciosa, quando uma manhã recebeu um aviso muito secco, pelo qual era convidada a apresentar-se das 8 ás 10 horas na repartição do sr. prefeito da policia.

Desconcertou-se, e estremeceu, á vista d'esse papel impresso e com o timbre da Prefeitura.

No emtanto resolveu não se preoccupar com essa nota inesperada e logo que chegou o dia em que o prefeito da policia a esperava no seu gabinete, conforme o aviso que lhe enviara, M.me William tomou um trem e fez-se conduzir para a Prefeitura.

Apezar da sua ousadia e da sua depravação não se sentia muito tranquilla ao subir as escadas d'aquelle edificio policial. Tinha a pezar-lhe na consciencia uma serie de acções más, que suppunha terem sido descobertas, e achava singular que a policia viesse metter o nariz nos seus negocios.

Esperou uma bôa meia hora n'uma ante-camara, em companhia de muitas personagens de apparencia suspeita e de olhar equivoco, sem duvida, como ella, chamadas ali, para receberem qualquer salutar reprimenda.

Por fim um empregado chamou em voz alta: «Madame William»! Esta ergueu-se rapidamente como se lhe tivessem dado uma picada de alfinete, e passou a um gabinete onde esperou apenas um instante.

Bem depressa um homem novo ainda appareceu por uma porta em que ella não havia reparado.

—Meu caro senhor, exclamou logo ella,{139} é extraordinario! Ha sem duvida um engano, um lamentavel equivoco. Não comprehendo que a policia me faça comparecer aqui, obrigando-me a...

E ia proseguir n'aquella cadeia de protestos ou lamentações, quando o individuo que se achava na sua presença, grave como uma sentença de morte, lhe fez signal para se sentar, sem dar a menor attenção ás suas palavras.

—Vós sois madame William, disse elle; madame William do «boulevard» Malesherbes; não é assim?

—Effectivamente, respondeu a criminosa mulher.

—Está bem, accrescentou o empregado da policia, mantendo a sua linha de serenidade e firmeza, tenho ordem de vos participar que se continuardes a fazer por mais tempo concorrencia á Prefeitura de policia, vêr-nos-hêmos obrigados a reconduzir-vos á fronteira.

M.me William quiz ainda balbuciar algumas explicações, e tentou ainda enternecer o empregado, que falava em nome do prefeito da policia. Mas foi trabalho perdido. O homem não se desmanchou e disse-lhe ainda:

—Madame, sabemos tudo. Não viestes aqui para fazer phrases sentimentaes, mas para receber uma advertencia. Essa advertencia já vol-a dei. Fazei por não a esquecerdes.

E, como M.me William se erguesse, o homem accrescentou ainda, pondo a mão sobre um masso de papeis.

—Madame, estão aqui documentos que{140} vos dizem respeito. Como vêdes o masso é bastante volumoso. Devo prevenir-vos de que estaes sob a vigilancia da nossa policia e que ella vale bem mais de que a vossa.

M.me William regressou á sua habitação fortemente impressionada com o que se passára.

Não se entendia já dentro dos acontecimentos.

Teve um verdadeiro ataque de nervos e n'esse mesmo dia escreveu ao barão de Quérelles, pedindo-lhe para ir vêl-a sem demora.

A criminosa via bem que a Prefeitura de policia estava ao corrente das suas pequenas intrigas, mas não soube explicar como tinham esperado tanto tempo para a advertirem de que tivesse cuidado nos seus «negocios». Havia annos que ella intrigava a sociedade parisiense, e sempre a tinham deixado «trabalhar» á vontade. Mas apenas dirigira as suas baterias contra M. me de la Tournelle logo a policia intervinha no caso. Realmente a maldita Prefeitura queria tirar-lhe o pão da bocca. Afinal, pensava M.me William, aquelle trabalho a que ella se entregava era como outro qualquer; era um meio de ganhar a vida «honestamente».

O que se tinha passado, perguntará o leitor, para que a policia se intromettesse no assumpto? Uma coisa muito simples. Ronquerolle, que velava sobre a sua amante, como uma mãe vela pelo seu filho, havia tido a suspeita de que a marqueza estava ameaçada d'um grande perigo; e redobrando{141} de vigilancia, havia sabido da existencia de M.me William.

Entretanto prevenira o prefeito da policia, e como este receava os ataques na Camara, do joven deputado, déra immediatamente as ordens mais severas relativamente á aranha ingleza tão compromettedôra.

E foi assim que M.me de la Tournelle, sem o saber, foi desembaraçada d'uma infame espionagem que poderia ter trazido as mais deploraveis consequencias.

O marquez, porém, começava a sentir algumas suspeitas. Era tão desdenhosamente tratado por sua esposa de cada vez que tentava a sua intimidade, que acabou por perguntar a si proprio se a politica seria a causa unica da repulsão que a marqueza por elle demonstrava. E nunca a bella Carlota fôra mais attrahente e digna de ser adorada.

Vestia toileites encantadoras, estonteantes; apparecia nos bailes mais aristocraticos de Saint-Germain, não faltava ás sextas-feiras da Opera, nem a uma unica quinta-feira de Comedie; e viam-n'a em todas as interessantes sessões parlamentares.

Passeava tambem no Bois, nos dias e nas horas em que as grandes elegantes da vida parisiense vêem ali apresentar os seus maravilhosos encantos e as suas deliciosas frivolidades.

Nas secções mundanas dos jornaes, falava-se da marqueza de la Tournelle nos termos os mais elogiosos; era ali citada como uma das rainhas do bom tom e da{142} verdadeira elegancia, e dava-se-lhe o estandarte da belleza no batalhão das formosas louras.

A sua amiga, M.me de Fleurus, era rainha na côrte das morenas.

Esta possuia um particular encanto, que constava de bem pouco, mas que muitas mulheres desejariam possuir.

M.me de Fleurus tinha o labio superior ligeiramente ensombrado, por um adoravel e quasi imperceptivel buçosinho.

—É este o privilegio de nós outras as morenas, dizia ella algumas vezes sorrindo, para M. me de la Tournelle. E devemos tirar todo o partido possivel do que a natureza nos concedeu.

Era para fazer o orgulho do seu amante que a marqueza apparecia constantemente nas festas e nos logares de prazer da sociedade parisiense. Ella bem sabia como os homens mesmo os menos vaidosos, mesmo os mais fortes e os mais incorruptiveis, se sentem felizes de ouvir falar nos encantos, na elegancia, e na belleza da mulher a quem amam.

Ronquerolle, com effeito estava louco de felicidade.

Não era só a sua vaidade que se achava plenamente satisfeita, era tambem, o seu orgulho.

Quando percorria com a vista as secções elegantes do «Figaro» ou do «Gaulois», onde se falava da sua amante, elle sentia-se disposto a abraçar o mundo inteiro, e teria querido conhecer os «reporters» que haviam redigido essas noticias tão simples, mas para elle tão encantadoras, afim de{143} lhes offerecer opiparos jantares na «Maison d'Or», em que o Champagne corresse a rôdo.

Tambem o marquez de la Tournelle lia essas noticias dos jornaes onde se falava de sua mulher como d'uma maravilha de graça e de seducção.

Esses elogios despertavam n'elle a paixão d'outros tempos. E tornava-se a sua paixão mais ardente que a d'um rapaz. E desejava sua propria esposa, como se inveja a mulher d'um outro. Passavam-lhe por deante dos olhos sonhos voluptuosos, desejos insaciaveis e soffria na sua terrivel intensidade o tão falado supplicio de Tantalo. O divino licôr mostrava-se deante dos seus labios febris, mas o marquez não podia mitigar a sêde que o devorava. E não tentava sequer aproximar o calice que brilhava como faiscas de diamantes.

Soffria em silencio, e a sua dôr accumulava-se, como a agua d'uma corrente que cae no fundo d'um precipicio.

Se elle fôra verdadeiramente um homem, se elle tivera a energia moral que quebra os obstaculos e consegue os seus fins, o marquez de la Tournelle teria falado a sua mulher n'um tom que não permittiria a replica, e teria arrombado sem difficuldade a porta do quarto de dormir onde a marqueza se encerrava pretextando a fadiga ou o arranjo da sua toilette.

É verdade que se elle tivesse sido capaz de tal procedimento, que indicam o dominador, o conquistador, a marqueza não lhe teria jámais fechado a porta; viria mesmo abril-a ao vencedor, e elle teria entrado na{144} fortaleza com a serenidade e a alegria do triumpho.

A mulher ama a força e despreza ou pelo menos sente piedade pela fraqueza. É feliz em sentir-se martyrisada, não por um poder brutal, feroz ou louco, mas por uma força intelligente, bella e harmoniosa.

O papel d'um homem é na acção o que o da mulher é pela graciosidaoe.

Para M.me de la Tournelle o homem de acção era Ronquerolle; com elle sentia-se submettida pela unica supremacia que sabia reconhecer, a do talento, a d'um grande caracter, a d'uma grande alma. Assim ella estava ligada ao joven republicano por uma grande ternura cada vez mais solida, augmentando dia a dia pela força adquirida e pelo encanto da recordação.

O marquez estava preso da maior angustia.

Uma noite, soffria com tal violencia, que, como machinalmente, invadiu os aposentos de sua esposa. Ella acabava de sahir. O seu quarto de dormir, o seu «boudoir», o seu gabinete de toilette estavam saturados de perfumes. Reinava ali a deliciosa desordem que deixa uma mulher do grande mundo, quando acaba de se preparar para ir a um baile, a um theatro, ou a uma entrevista de amôr.

Estonteado por esses perfumes capitosos, por todos esses objectos que concorrem para os attractivos d'uma mulher, o senhor de la Tournelle cahiu sobre uma poltrona, e experimentou um sentimento de desespero impossivel de descrevêr.

Uma extranha recordação invadiu todo o{145} seu sêr, e lagrimas ardentes queimaram as suas palpebras.

No «boudoir», viu elle o pequeno cofre que a marqueza trazia sempre comsigo nas suas viagens, e nas suas mudanças de Paris para Saint-Martin e de Saint-Martin para Paris.

Acudiu-lhe á mente a ideia de o abrir.

Veiu até junto do cofre e tentou erguer-lhe a tampa. O cofre estava fechado á chave.

—É singular! disse o marquez. Porquê este mysterio?!

E o seu ávido olhar envolvia o elegante e pequeno cofre.

Poz-se a sacudil-o.

Nenhum som se fez ouvir.

Então a colera atravessou o coração d'aquelle desgraçado homem.

Tomou o cofre entre as duas mãos, acima da altura da cabeça, e lançou-o violentamente contra o marmore branco do fogão.

O cofre abriu-se e duas cartas saltaram d'elle.

O senhor de la Tournelle hesitou ainda um momento, antes de apanhar as cartas.

Parecia-lhe que commettia uma falta, que se deshonrava entrando assim nos segredos de sua mulher, mas a angustia, de que se achava possuido, lançava-o de encontro ás catastrophes.

Com mão tremula, abriu uma das cartas, reconhecendo que ella continha apenas alguns versos, e respirou.

A julgar pelo amarellado da tinta, havia já bastante tempo que esses versos tinham{146} sido escriptos. Olhou para a assignatura: «Maximo Ronquerolle».

—O quê, pensou elle, o nome d'esse homem!

Mas é uma infamia! Oh que fatalidade!

A outra carta não continha assignatura.

Era escripta mais recentemente mas a lettra era a mesma que a da poesia.

Á medida que proseguia na leitura o marquez sentia como que um punhal a atravessar-lhe o coração.

Comprehendeu emfim todo o seu infortunio.

Sua mulher tinha um amante e esse amante era um republicano, e esse republicano era o seu rival politico, o seu implacavel inimigo, aquelle a quem tinham por habito chamar o cidadão Ronquerolle. As duas cartas que haviam saltado do cofre eram as unicas que Ronquerolle tinha enviado á sua amante.

Os versos datavam de longe, eram a sua primeira expressão de amôr.

A outra missiva tinha-a elle escripto no proprio dia da sua eleição, após o apuramento do escrutinio d'onde o seu nome sahira victorioso.

A carta dizia:

«Mulher adorada, devo-vos uma parte do meu triumpho. Sêde bemdita, pois haveis secundado os meus esforços, tendo a coragem de me sacrificardes os preconceitos da vossa raça, e a vossa posição.

Que hei de eu fazer para chegar até á altura do vosso amôr, que se affirma tão poderosamente»!

E mais adeante lia-se: «Que bello destino{147} antevejo, para ti e para mim, deliciosa amante! Ninguem saberá que nos amâmos, ninguem advinhará o segredo da nossa paixão...

Amar-nos-hêmos, adorar-nos-hêmos por nós mesmos, e não em obdiencia a tôlas convenções sociaes, não por nos conformarmos com pequenas cousas ou interesses pueris!»

A leitura dos versos e da carta de Ronquerolle foi um martyrio para o infeliz marquez de la Tournelle.

Pela primeira vez na sua vida esse aristocrata de nascimento, esse espirito fraco, comprehendêra de quanta magia dispunha sua mulher.

E sentiu um duplo soffrimento reconhecendo, que nunca tivera nem podia ter aos olhos da marqueza esse prestigio secreto, admiravel, que faz as verdadeiras conquistas do amôr.

Muitas vezes Ronquerolle tinha aconselhado á sua amante que queimasse os seus versos e muito principalmente a sua longa carta de amôr.

Ella sempre o promettera fazer mas jámais tivera coragem para cumprir a sua promessa.

Essas lettras do amante eram para ella deliciosas recordações do inicio dos seus amôres, e sentia uma extranha voluptuosidade em relêl-as.

É tão agradavel conservar os objectos que hão acompanhado o nascer e o desenvolver d'uma paixão sincera!

As palavras escriptas pela pessôa amada, quer sejam receosas, prudentes, conselheiras{148} ou loucas e irreflectidas; as pequenas lembranças ou recordações, um annel um lenço, um livro; uma simples flôr que secca mas que assim se conserva durante muitos annos, tudo, tudo, mesmo na sua pequenez e na sua apparente insignificancia, representa a mais eloquente testemunha do nosso amôr.

Ha quem conserve esses pequeninos nadas, que são tudo para quem amou, e que não trocaria essas recordações d'um dia, d'uma hora, ou d'um instante feliz na sua vida, por uma perola, um diamante, uma corôa, um reino.

M.me de la Tournelle não daria por um imperio aquelles dois papeis escriptos pelo seu amante.

Era supersticiosa a marqueza em tudo que dizia respeito a Ronquerolle. Pensava que se desapparecessem aquellas cartas, com ellas lhe fugiria Ronquerolle.

Dava a maior importancia a tudo que lhe dizia respeito; e o amante, pela sua parte, não a ligava menos a tudo que respeitasse ao seu idolo.

No fundo do precioso cofre admiravelmente cinzelado jaziam as duas cartas de Ronquerolle como um thezouro de alto preço.

O marquez, perante a horrivel realidade, sentiu renascer a calma no seu pensamento.

—Está bem! exclamou elle com resolução.

E tornou a collocar as duas cartas no cofre.

O pequenino e lindo movel tinha a fechadura arrancada.{149}

Reparou o melhor que poude os estragos causados no cofre e foi pôl-o no mesmo logar onde o encontrára.

Não queria que sua mulher percebesse o que se passára e principalmente que elle tinha conhecimento da sua falta.

A partir d'essa noite fatal, o senhor de la Tournelle começou de apparentar uma grande tranquillidade em todas as suas palavras. Sorria com satisfação e mostrava grande prazer em offerecer aos seus creados pequenas lembranças.

Quem o visse pela primeira vez e quem com elle entretivesse duas horas de conversação, teria dito: Que homem tão feliz! E, no emtanto o desgraçado estava ferido de morte.

Durante um mez occupou-se em pôr os seus negocios em ordem. Todas as manhãs o seu secretario vinha trabalhar com elle.

Algumas dependencias de sua casa, que estavam em más condições foram arranjadas, alguns moveis foram renovados. As propriedades do marquez receberam a sua visita e por toda a parte elle deu ordens uteis.

A marqueza não sabia que pensar do procedimento de seu marido.

Parecia que se preparava para emprehender uma grande viagem por mares perigosos d'onde ignorava se voltaria, e que antes da sua partida tratava de assegurar a sorte dos entes que lhe eram caros.

E no emtanto o marquez não tinha no cerebro qualquer projecto definitivo.

Sentia que ia dar-se um acontecimento grave, um drama sem duvida. Mas qual?{150}

Não teria podido dizêl-o.

—Devo provocar, pensava elle, esse sinistro e fatidico Ronquerolle? Devo cruzar o ferro, ou trocar uma bala com elle? Para quê? É uma loucura. Elle está no seu papel. Encontrou no seu caminho uma bella mulher a quem sorriu e que se lhe entregou... Eu é que deveria ter feito com que ella me amasse. Devo matal-a, a ella, á culpada, ou pôl-a fóra de minha casa? E seria eu menos desgraçado, após essas violencias? Não, não. O golpe está dado, a minha vida está envenenada e o meu destino traçado.

Não posso confiar a minha dôr a pessoa alguma sem me tornar ridiculo. Sou eu quem deve morrêr!

Ah! Se eu não a amasse!...

E o desgraçado sentia uma alegria amarga ao pensar na morte.

Era o seu unico refugio.

N'uma quinta-feira, pelas onze horas da noite, a marqueza sahiu segundo o seu costume, indo a uma «soirée» que dava a sua amiga, M.me de Fleurus.

Era nos fins de maio. A estação dos bailes e recepções estava a terminar. M.me de la Tournelle via decorrer os minutos com impaciencia, para voar para os braços de Ronquerolle.

Estava prestes a deixar os salões da sua amiga, quando esta se aproximou d'ella, e lhe fez signal de que precisava falar-lhe áparte, e immediatamente.

M.me de Fleurus estava pallida e a sua apressada respiração denotava grande emoção.{151}

—Minha querida Carlota, disse-lhe ella; é preciso que voltes já a tua casa, e se me permittes, acompanhar-te-hei.

Um creado teu acaba de trazer aqui uma triste noticia. Teu marido encontra-se muito mal... Partamos depressa.

Por sua vez a marqueza se tornou pallida.

Suppoz logo que uma desgraça irreparavel acabava de se passar.

Quando as duas amigas chegaram ao palacio de Tournelle ia ali uma confusão enorme.

Á porta encontrava-se immensa gente e os creados, muito afflictos, corriam d'um lado para o outro falando e gesticulando.

Um commissario de policia, acompanhado do seu secretario e de muitos agentes descia pela escadaria principal.

Ao vêr a marqueza e madame de Fleurus, o commissario descobriu-se respeitosamente e ahi mesmo participou a M.me de la Tournelle o que se passára.

Varios tiros de revolver se tinham ouvido no palacete e um creado do marquez tinha ido procural-o a elle commissario. Com o mesmo creado entrára nos aposentos do sr. de Tournelle a quem encontrára morto sobre um tapete, no seu quarto de dormir. Tinha-se suicidado; não restava duvida.

Na manhã seguinte, Ronquerolle, que em vão esperára pela amante até ás 2 horas, ao pegar no «Figaro», deparou com estas linhas:

«Á ultima hora acabâmos de receber uma triste noticia:

«O sr. marquez Sergio de Tournelle acaba{152} de fallecer. Tinha quarenta e cinco annos, era um leal defensor da causa da ordem, e um amigo dedicado dos principes da casa de França.

O sr. de Tournelle tinha sido, ao que parece, fortemente affectado pelo triumpho do partido republicano no seu circulo e pelo cheque soffrido nas ultimas eleições.

A sua morte é atiribuida á ruptura d'uma aneurisma. A marqueza está inconsolavel. Todos os representantes do partido conservador lhe enviam com os seus mais sinceros sentimentos de condolencia, as suas respeitosas homenagens.»

—Diabo! exclamou Ronquerolle, relendo ainda a noticia. Oxalá que esta desgraça não venha a recahir tambem sobre ella!

A morte do marquez de Tournelle fez grande ruido e foi vivamente commentada, menos por elle talvez, que por causa, da marqueza, que era uma das senhoras mais conhecidas de mundo parisiense.

Nenhum jornal falou em suicidio, e o infortunado marquez passou aos olhos do publico por ter succumbido á ruptura d'uma aneurisma, como o «Figaro», habilmente tinha noticiado. A policia conhecendo a verdade não guardou menos o segredo.

Os intimos d'alguma cousa desconfiaram, assim como os creados, mas precisavam da marqueza e calaram-se.

Ronquerolle soube pela marqueza de tudo o que se passára. Quando os dois amantes se encontraram após a catastrophe e depois dos funeraes do marquez, estavam inquietos e tremendo.

Abraçaram-se fechando os olhos, e conservaram-se{153} assim algum tempo sem proferirem uma palavra.

—Saberia elle da nossa ligação? perguntou, por fim, Ronquerolle.

«Porque se matou elle?

«Teremos sido nós os culpados d'essa morte?

—Não, respondeu M.me de la Tournelle. Meu marido de cousa alguma suspeitou.

—Estás certa d'isso? interrompeu o deputado republicano.

—Sim, estou certa, replicou a bella Carlota.

Ronquerolle respirou mais á vontade.

Elle não explicava o suicidio do marquez senão pela descoberta da verdade.

M.me de Tournelle era sincera, nas suas affirmações.

Antes de se matar seu marido tinha-lhe escripto uma longa carta que ella encontrára sobre a sua meza de trabalho.

Essa carta não encerrava a menor reprehensão, qualquer allusão que a podesse ferir. Pelo contrario, era ella uma expressão do mais violento amôr.

O desespero que essa carta manifestava parecia ter por causa unica motivos politicos.

Lendo essa carta d'um homem que ao escrevêl-a resolvêra já fazer saltar os miolos, Ronquerolle demonstrára um sentimento de piedade.

—O desgraçado, exclamou elle, não estava á altura da sua missão. Comprehendeu-o, por fim, e a vida tornou-se-lhe um pesado fardo. Que descance em paz.

A marqueza nunca suppoz que seu marido{154} tinha lido as cartas de Ronquerolle, e que se havia suicidado louco de desespero, comprehendendo que nunca seria amado por ella.

Atribuiu realmente aquelle suicidio, como outras pessoas que d'elle tiveram conhecimento, aos grandes aborrecimentos que lhe tinha causado a sua derrota politica.