Amôres d'um deputado
Capítulo VIII
Policia dupla
As tribunas da Camara estavam cheias de gente.
Personagens officiaes, jornalistas, provincianos ha pouco chegados a Paris, mulheres da moda, elegantes, avidas de emoções oratorias, politicos de varios matizes, alguns más linguas e intriguistas e parentes e amigos dos deputados, de tudo ali havia.
As ordens eram severissimas relativamente á entrada; era impossivel assistir á{117} sessão legislativa, sem um bilhete perfeitamente em regra, e verificado mais d'uma vez com o maior cuidado.
N'uma das primeiras tribunas, um pouco á esquerda, viam-se duas mulheres novas, e notava-se mais que uma era trigueira e outra loura. Sorriam e agitavam habilmente os seus leques.
De quando em quando, percorriam com o olhar atravez o «lorgnon» de aros de ouro, as bancadas dos deputados, e communicavam uma á outra as suas impressões.
Vestiam «toilettes» muito elegantes; no emtanto mostravam-se á vontade sem procurarem attrahir a attenção da camara ou das galerias, embora não podessem passar despercebidas.
A loura era a marqueza de la Tournelle e a outra senhora que a acompanhava era uma das suas amigas, a esposa d'um deputado da Direita, madame de Fleurus.
O ministro da guerra acabava de dar á camara explicações sobre as despezas não previstas pelo orçamento, e das bancadas do Centro ouviam-se ainda appoiados, quando o prezidente da Assembleia pronunciou gravemente estas palavras:
—Na ordem do dia figura uma interpellação do sr. Ronquerolle sobre a politica geral do governo.
—Tem a palavra o sr. deputado Ronquerolle.
Estabeleceu-se silencio. Das bancadas mais distantes da extrema esquerda, ergueu-se um homem novo, de excellente figura, que depois se dirigiu lentamente até á tribuna dos oradores.{118}
Subiu os degraus com passo cadenciado e pousou sobre o marmore alguns papeis.
Depois lançou um rapido olhar sobre o auditorio e começou a falar n'um tom muito baixo.
Tinha deante de si os ministros aos quaes não perdia de vista. Pouco a pouco, a sua voz foi-se avolumando, tornando-se mais forte, e resoou em todo o ambito do Parlamento.
Ronquerolle passava á fieira os actos do ministerio, e fazia resaltar a hypocrisia d'alguns dos membros do governo.
Fustigava todos os homens que ambicionavam o poder só para adquirirem fortuna, não considerando o povo senão como uma machina util ás suas ambições.
Erguendo os olhos para o lado das tribunas reservadas, Ronquerolle viu a sua amante.
Ao clarão d'esse olhar apaixonado, á visão rapida d'essa bella figura, d'esses cabellos dourados e abundantes, d'esse collo admiravel apertado n'um delicioso corpete, á vista d'essa mão fina e bem desenhada agitando o leque finissimo, o joven deputado sentiu como que uma vertigem, uma forte commoção electrica, e encontrou para as suas palavras uma dicção e uma accentuação de tanta eloquencia que fez estremecer todo o auditorio.
Ronquerolle, porém, nem via a Assembleia, esquecêra os seus collegas, os seus inimigos da direita da Camara e os seus amigos da esquerda; não via mais ninguem pelo espirito, senão a sua bella Carlota, a{119} sua conquista, a sua felicidade, o seu thesouro, a sua vida.
Queria conquistar a inteligencia d'aquella mulher que adorava, como já havia conquistado o seu coração e os seus beijos.
Queria unir-se a ella pelos laços indestrutiveis da estima, e do respeito pela sua coragem e pelo poder do seu cerebro.
A bella Carlota toda estremecia de prazer no seu logar.
Respondia ligeiramente á sua amiga, que lhe dava conta das suas impressões:
—Que pena, dizia ella á marqueza, que este homem não seja dos nossos! Desejaria vêr a causa dynastica, defendida assim com esta energia e com este vigor.
A marqueza fechou os olhos por um momento, n'uma grande commoção de felicidade.
Ella, positivamente, bebia soffregamente as palavras do amante.
Gozava assim deliciosamente do mysterio da sua ligação com Ronquerolle.
Tudo n'ella se satisfazia n'esse momento, o seu orgulho de mulher, a sua superior concepção do amôr; o seu voluptuoso ideal, a sua propria vaidade, n'uma palavra, a sua intelligencia e o seu coração.
Essa sessão da Camara gravou-se na sua memoria com uma tal intensidade de traços, que jámais se apagariam.
Comprehendeu n'esse dia como a sua existencia estava ainda incompleta, e teve como que um grande arrependimento de tantos annos perdidos já, e que se assemelhavam a um campo arido sem arvores, sem verdura e sem flôres.{120}
O discurso de Ronquerolle causou enorme impressão.
Foi discutido por toda a imprensa.
Uns encheram de elogios o joven orador, outros criticaram vivamente as suas doutrinas, mas toda a gente se curvou perante a sua incontestavel eloquencia.
Na quinzena que se seguiu, o novo deputado não teve mãos a medir.
Era uma alluvião de solicitadores.
Ou vinham felicital-o, ou enviavam-lhe delegações, ou convidavam-n'o para conferencias e banquetes.
Janeiro estava a findar e os dias eram pequenos; desde as cinco horas que a noite envolvia Paris, e o inverno era rigoroso.
N'uma quinta-feira, Ronquerolle sahindo da Camara, dirigia-se a pé para sua casa pela explanada dos Invalidos. Cahia gelo e por isso eram raras as pessoas que andavam pelas ruas.
Chegado á altura da rua de Grenelle, o deputado de Saint-Martin, parou um momento para deixar passar uma fila de carruagens...
Como olhasse em torno de si, antes de atravessar a rua, notou á sua esquerda, um individuo cuja figura não lhe era desconhecida.
Esse homem conservava-se a distancia, e quando viu que Ronquerolle o observava, alargou o passo e passou adeante do deputado.
—Ah! Já sei, disse Maximo, este homem é um agente da policia. Depois da minha interpellação ao ministerio, este honesto espião não me deixa um segundo.{121}
Não se enganava. O homem era effectivamente um agente da policia secreta. O discurso de Ronquerolle tornara-o um deputado perigoso, temivel para um ministerio na agonia. A consequencia natural d'esse facto era fazel-o submetter a uma rigorosa espionagem.
Chegariam com essa espionagem a colher elementos da sua vida privada, de que naturalmente se serviriam no momento opportuno para entravar essa eloquencia que vinha de nascêr e que se apresentava implacavel para com a traição.
Ao mesmo tempo que os adversarios de Ronquerolle o submettiam a essa vergonhosa e ignobil observação dos agentes da policia secreta, o inimigo da marqueza de la Tournelle não dormia tambem.
Mais enraivecido que nunca, o barão de Quérelles tinha resolvido, elle tambem, fazer passar a bella Carlota por uma espionagem assidua.
Adivinhava que ella tinha um segredo a occultar, e esse segredo queria elle conhecêl-o, afim de a fazer estremecer ante a sua pequena estatura.
O pygmeu, o tacanho, desejava humilhar a nobre mulher cujo coração não vivia senão para o amôr e pelo amôr, cujo espirito jámais conhecêra o que fosse uma baixeza.
É assim que, na vida, as almas mesquinhas e cubiçosas attacam a belleza, a generosidade, a coragem, a franqueza que lucta á luz do sol, a franqueza que procura sempre a verdade e segue ousadamente no seu caminho claro e leal.{122}
Em redor dos entes superiores e brilhantes giram os perversos silenciosos e invejosos. Não teem senão um fim, incommodar, prejudicar; senão um pensamento, infeccionar, macular; não teem mais que um desejo, um empenho, buscar trazer até elles, até á lama que os envolve, as creaturas de eleição, que lhes fazem sombra, e das quaes elles não podem imitar as qualidades e as virtudes.
E assim é que, n'um jardim, se vê muitas vezes uma lagarta repellente instalar-se na mais bella rosa deixando a sua nojenta baba sobre as petalas da flôr.
O barão de Quérelles era um ente odioso, desprezivel, abjecto, mas não era um imbecil.
Comprehendia que só uma mulher podia espionar outra mulher, e poz-se em campo para descobrir esse cumulo da infamia.
Á uma hora depois do meio dia vinha elle descendo a Avenida dos Campos Elyseos, após um copioso almoço, quando subitamente deu uma palmada na testa, como se fôra illuminado por uma inspiração celestial e apressou o passo.
—Mas, sem duvida, exclamou elle comsigo mesmo, M.me William tratará perfeitamente do negocio. Como não havia eu pensado n'ella ainda?! Oxalá que ella não tenha mudado de rezidencia!
E Dominique, sem se envolver n'outras meditações, cortou á esquerda, seguiu ao longo do palacio do Elyseu e chegou rapidamente ao «boulevard» Malesherbes, onde outr'ora M.me William occupava uma vasta habitação em que dava soirées muito concorridas{123} de jovens ricaços, jornalistas, romancistas mundanos, mulheres novas e bonitas, casadas com maridos velhos ou de habitos sedentarios, preferindo o canto do fogão, ou o leito, ás seducções d'um baile, que começa ás onze da noite, para terminar ás seis horas da manhã.
—M.me William! perguntou Dominique timidamente ao porteiro.
—No segundo andar, á esquerda, respondeu o homem.
Podeis subir, madame está em casa.
O barão respirou.
Havia bem uns cinco annos que elle não visitava a mulher, cuja recordação lhe viera tão aproposito.
Receava não a encontrar, pois que M.me William era pessoa que se mudava a miudo e que viajava mais a miudo ainda.
—Que milagre! pensou de Quérelles. O quê! Depois de cinco annos, ella não deixou esta casa, onde eu a vi pela ultima vez!
Terá renunciado aos elegantes negocios d'outros tempos!
M.me William era de origem ingleza.
Habitava em Paris ha uns dez annos com suas duas filhas.
Porque a tinha deixado seu marido, official superior no exercito britannico? Ninguem ao certo, o sabia.
M.me William, no emtanto, dizia que seu marido não tivera razão para a abandonar e todos fingiam acredital-a.
Fôra recebida na sua qualidade de estrangeira, em muitos salões frequentados pela alta sociedade.{124}
Entretanto o papel que ella dezempenhava no meio parisiense dava-lhe protectores altamente collocados e a sua elegancia mundana attrahia indulgencias ao seu procedimento.
Tinha por pessoas da sua amizade, financeiros, homens politicos e especuladores de negocios varios. O fundo da sua existencia era o dinheiro, a intriga, a galanteria, o proprio vicio. Se se tratava de fazer propostas deshonestas a uma consciencia recta, a uma mulher cubiçada, procurava-se para esse fim M. me William.
Por cada operação d'esse genero recebia ella os seus emolumentos. O seu alojamento de seis mil francos era pago com toda a regularidade, assim como as suas bellas «toilettes» e os ordenados dos seus innumeros serviçaes.
M.me William era uma mulher sem pudôr e que dispunha para satisfazer os seus vergonhosos compromissos d'uma actividade inacreditavel.
Era, n'uma palavra, a encarnação poderosa e perigosa da immundicie coberta de ouro, passeando de coche, adulada, procurada; infame podridão, merecendo ser lançada ao monturo, depois de ter sido esmagada debaixo dos pés. Era a lagarta sem nome, de corpo repellente, devastando esse immenso jardim humano que se chama Paris.
Tal era a immunda creatura á qual o barão de Quérelles ia confiar a missão de perder a marqueza de la Tournelle.
M.me William não tinha ainda attingido os quarenta annos. Era bastante formosa; e{125} só por vêl-a e ouvil-a ninguem podia jámais suppôr as torpezas da sua vida.
Falava muito correctamente o francez, com uma ligeira accentuação estrangeira, o que lhe dava mais uma linha de seducção.
—Que foi isso, barão, disse ella a Dominique, que bom vento vos trouxe até aqui? Julgava-vos casado. Sabeis que me haveis abandonado bem singularmente?!
De Quérelles mostrava-se embaraçado. Não sabia como abordar o assumpto pelo qual ali viera, e sentia desejos de abreviar aquella visita mesmo sem ter dito cousa alguma.
Mas M.me William é que comprehendia claramente que se elle voltara a procural-a após tel-a esquecido durante cinco annos, era porque no seu espirito existia qualquer preocupação grave.
Tinha a impressão de que era preciso manobrar com toda a astucia dos dias solemnes e dispunha já em linha de ataque todas as suas baterias. Fez assentar o barão n'um sophá, perto d'ella, e interrogou-o sobre os assumptos mais extraordinarios. Jamais um confessor empregou mais habeis estratagemas para facilitar a confissão a um penitente, para o obrigar a confessar qualquer grande peccado dos que não se ousam contar em voz alta, de que só se fala na meia escuridão d'um fim da tarde e fechando os olhos.
Após duas horas de conversação o barão descarregára do coração um grande fardo.
A sua confissão fôra completa.
M.me William soubera que Dominique gostava da marqueza de la Tournelle, que{126} elle tinha sido alvo dos desdens d'essa dama da aristocracia, que elle desejava vingar-se humilhando a altiva fidalga; que era preciso portanto, descobrir á marqueza qualquer amante verdadeiro ou falso, fazer estalar o escandalo, e depois recolher, em bôa ordem, algumas excellentes notas de mil francos na sua bolsa.
A intrigante experimentou uma alegria diabolica, pensando que ia achar-se em frente da marqueza. Havia muito tempo que esta aranha ingleza não envolvia nos fios da sua teia tão bella presa. Detestava por natureza as mulheres d'um mundo superior ao seu, e reservava-lhes as suas mais crueis ciladas.
Começou por encommendar duas soberbas «toilettes» n'uma modista da moda, no «boulevard» Haussmann.
—Meu pequeno De Quérelles, disse ella comsigo mesma, subindo para o seu coupé, depois de ter escolhido os tecidos de que deviam ser feitos os vestidos que encommendára, serás tu quem pagará a factura como inicio do negocio, que em seguida realizaremos sob um aspecto de seriedade.
Eu sou como o governo, tenho neccessidade n'esta occasião de abrir emissões para fazer effeito, e conto comtigo, meu caro barão, para satisfazeres na caixa as obrigações contrahidas.
E desatou a rir, imaginando que tinha tanto espirito como Voltaire. M.me William applicava uma certa consciencia no cumprimento da sua ascorosa tarefa. Gostava de penetrar nos segredos das familias, mas queria obter dados precisos, exactos, constatados{127} por ella tanto quanto possivel, depois do que manobrava com uma espantosa segurança e firmeza de pulso.
Uma manhã, acabando de tomar o seu chocolate, começou a pensar seriamente, no que ella chamava o negocio do barãosinho.
—Vejamos, vejamos, dizia ella para comsigo, trata-se de saber se essa formosa marqueza tem um amante, ou antes, como ella com certeza o possue, trata-se de descobrir quem elle é.
Devo seguil-a ou fazel-a seguir, quando ella sae, quando ella vae a qualquer entrevista? Não, deixemos esses processos vulgares á policia. A marqueza ama o grande mundo, os bailes, as «soirées»; adora tambem o theatro e tem um camarote na Opera.
Ora, é evidente, que ella deve encontrar ali o homem a quem ama.
É necessario portanto seguir-lhe ahi os gestos, as expressões, os olhares; e d'isso me encarrego eu, M.me de la Tournelle!
A ingleza via bem as cousas. Desde que ha apaixonados sobre a terra, elles teem sentido sempre uma volupia indifinivel em admirarem junctos as scenas harmoniosas da natureza, em repartirem as mesmas sensações litterarias e artisticas, em trocarem olhares de ternura, quando a emoção produzida attinge a sua maior intensidade.
O quadro onde se desenha a nossa vida nunca nos parece tão bello, como quando n'elle apparece tambem um traço da vida d'aquella a quem amâmos.
M.me de la Tournelle e Ronquerolle não fugiam á regra geral, á lei commum, doce{128} lei que ordena áquelles que se amam que tudo sintam em commum, prazeres, alegrias, desgostos e tristezas.
Os dois amantes não podiam encontrar-se na sociedade. O logar de deputado republicano não era, decerto, nos salões aristocraticos que a marqueza frequentava. Era para elles esse facto motivo de pezar, mas comprehendiam que a sua ligação era impossivel se não observassem a cada instante a maior prudencia.
O marquez regressara a Paris em companhia do conde Orgefim, e o seu palacete havia readquirido a animação de todos os invernos.
O que se diria se o seu adversario politico, o seu feliz rival fosse visto a conversar com sua esposa n'uma «soirée» do grande mundo.
M.me de la Tournelle assistia ás sessões da camara dos deputados, afim de vêr ali o seu amante.
Do seu logar na tribuna ella contemplava-o sentado á sua carteira, escrevendo, gesticulando, discutindo com os seus collegas, interrompendo os oradores da direita, n'uma palavra, dispondo de toda a sua actividade, e a marqueza era feliz vendo-o assim.
Quanto a Ronquerolle o seu prazer supremo era ir á Opera, onde ella apparecia decotada, ornada de diamantes e eclipsando pela sua belleza todas as outras mulheres...
—Oh felicidade, pensava elle, o intrepido republicano, é minha essa sublime mulher!{129}
Amâmo-nos, adorâmo-nos e ninguem no mundo, além de nós, conhece o nosso segredo.
E prolongando estes pensamentos, n'uma febre de amôr, Ronquerolle atravez a sala do theatro enviava toda a sua alma á incomparavel Carlota.
Ella via-o tambem, do seu camarote, seguia-lhe os olhares, transmitia-lhe tambem os seus pensamentos e enviava-lhe por entre as varetas do seu lindo leque beijos discretos.
Algumas vezes Ronquerolle ouvia os seus visinhos dos fauteuils de orchestra interrogarem-se.
—Quem é, diziam elles, aquella linda mulher, que occupa o segundo camarote do lado esquerdo, aquella que ostenta nos cabellos uma formosa estrella de diamantes?
—É a marqueza de la Tournelle! respondia um interlocutor melhor informado. É na verdade uma das mais seductoras mulheres de Paris.
Que altivez, e ao mesmo tempo que encanto na sua figura!...
Ella tudo possue, mocidade, saude, riqueza, um nome illustre, dignidade, belleza e espirito.
Ronquerolle empallidecia de felicidade, ouvindo o elogio da sua deliciosa amante.
Desejaria estar juncto d'ella, no seu camarote, a murmurar-lhe aos ouvidos essa palavra tão doce de pronunciar e mais doce ainda de ouvir:
—Amo-te! Amo-te!
Invejava e tinha ciumes de todos os que{130} visitavam o camarote da marqueza, onde ella sorria em meio do perfume das flôres e dos canticos que enchiam o theatro.
As convenções sociaes não permittiam que aquelles dois amantes se apaixonassem, que fallassem em publico. Não podiam trocar palavras senão na intimidade, nas suas secretas entrevistas, que Ronquerolle tinha organisado com uma arte consummada.
Alli, sem duvida, elles se desforravam amplamente, de todas as privações e mentiras a que os condemnava a sociedade, mas nem por isso soffriam menos, por não poderem repartir as mesmas alegrias da vida exterior, as mesmas emoções, os mesmos prazeres.
Uma noite, na Opera, Ronquerolle não poude conter-se. M.me de la Tournelle estava só. Dirigiu-se ao seu camarote, e erguendo o reposteiro do pequeno salão interior, do mesmo camarote, sem poder ser visto da sala, chamou a attenção da amante.
Carlota veiu ao fundo e exclamou em voz baixa:
—Que imprudencia!
E deu-lhe os labios, onde elle depositou um beijo ardente.
Apertou-a um momento nos seus braços e depois retirou-se com a alma embriagada por esse vinho capitoso, o orgulho da posse.
Esta rapida scena não teve testemunhas, comtudo M.me William, a aranha ingleza, que assistia tambem ao espectaculo, notou que a marqueza estando só, tinha-se affastado{131} por alguns minutos da frente do camarote.
—Por acaso o amante da marqueza não pertencerá á sua sociedade? disse comsigo a perfida observadora. É um enygma então, e como decifral-o?
M.me William havia já começado a sua sombria tarefa de espionagem. Sabia já o nome e a morada de todas as pessoas que frequentavam o palacete da marqueza. Mas os apontamentos colhidos tornavam-n'a perplexa. Não podera ainda achar um facto preciso, que podesse collocal-a n'uma pista que devesse seguir.
Quanto a Ronquerolle tinha-se desembaraçado dos agentes lançados nas suas piugadas pelo ministerio, fazendo publicar nos jornaes do seu partido uma noticia nos seguintes termos: «O deputado de Saint-Martin interpellará proximamente o ministro do Interior sobre assumptos da perfeitura da policia. Trata-se, ao que parece, de pequenas e grandes infamias dos agentes secretos. O sr. Ronquerolle apresentará factos, não baterá ao acaso. Desejamos que o ministro seja d'esta vez, um pouco mais feliz do que na sua ultima derrota.»
O ministro havia comprehendido a intenção e a ordem fôra revogada, ou fôra suspensa por algum tempo a observação secreta de que Ronquerolle era alvo. Este não poude deixar de sorrir-se da covardia dos seus adversarios.
Comprehendia agora que ignobil procedimento se acoberta sob as apparencias de legitima defeza politica.
Quanto mais penetrava no exame dos{132} actos e dos homens do poder, maior numero de ignominias encontrava.
A colera invadia-o e teria querido desmascarar os homens que se fingiam honestos e dignos.
—De que valem os discursos contra a villanagem? dizia elle. Não são phrases que é preciso lançar-lhes ao rosto, o que é preciso é cuspir-lhes na cara.
M.me William reconheceu a necessidade de realizar uma larga entrevista com o barão de Quérelles.
N'essa entrevista contou-lhe elle a historia da ultima eleição de deputados em Saint-Martin, a queda do marquez e o triumpho de Ronquerolle, o candidato republicano, e a parte que elle proprio tomára nos acontecimentos.
—Não faço ideia, interrompeu M.me William, como seja o aspecto d'esse tal sr. Ronquerolle, de quem tanto se fala na Camara e cá fóra, e que derrotou com tanta felicidade o pobre de la Tournelle?
—É um homem alto e delgado, disse o barão, e elegante como um principe. Mas porque me faz essa pergunta?
—Simples curiosidade de mulher! exclamou a descarada ingleza tomando uma attitude de denguice.
M.me William viu depois muitas vezes a Ronquerolle, na Camara dos deputados.
Occupava logar n'uma tribuna não distanciada d'aquella onde M.me de la Tournelle tinha por costume assistir aos debates parlamentares, deliciando-se com a vista do amante.
A esperta ingleza reparou em que a loura{133} Carlota não desviava os olhos do joven deputado.
—Seria interessante, pensou ella. Aqui ha mysterio! Decididamente senhora marqueza é necessario que eu vos faça seguir durante os vossos passeios atravez a cidade de Paris!
As entrevistas de Ronquerolle com a sua formosa amante, realizavam-se alternadamente em tres logares differentes, em tres bairros affastados uns dos outros.
Era assim mais difficil surprehender os dois amantes nos locaes das suas reuniões.
Além d'isso a marqueza mudava de carruagem cada vez que ia juntar-se a Ronquerolle, de fórma a estabelecer a duvida na espionagem de que podesse ser alvo.
Ella bem sabia que por uma moeda de vinte francos é facil fazer falar os creados e os cocheiros.
Assim nem mesmo estes podiam ter a mais leve suspeita.
Esses agradaveis encontros tinham sido organisados pelo intelligente deputado republicano com especial habilidade, uns dias realizavam-se de manhã e d'outras vezes á tarde ou á noite.
M.me de la Tournelle poderia mesmo passar a noite inteira fóra de seu palacete sem se comprometter.
Paris tem essa immensa vantagem sobre a provincia.
Em geral as pessoas que vivem na grande cidade não se occupam dos visinhos.
Nas casas habitadas por pessoas de alta posição só se exige uma qualidade aos locatarios,{134} e essa qualidade consiste em não fazer ruido nas escadas.
O socego e algumas peças de cinco francos lançadas de tempos a tempos nas mãos dos porteiros auxiliam efficazmente os amôres illicitos nos ninhos dourados, impenetraveis. Accresce que certas casas e certos predios teem duas entradas, e portanto duas sahidas.
Este systema aperfeiçoado permitte ás pessoas que teem motivos para se envolverem em mysterios o rirem-se nas bochechas d'aquelles, que pelo contrario, teem todo o interesse em conhecerem os nomes e as caras das pessôas que se occultam nas mysteriosas habitações.
Ronquerolle era bastante parisiense, pelo espirito e pelos habitos para n'aquelle jogo de amôr obter todos os trumphos.
De resto, a intelligencia que qualquer recebeu da mãe commum, a natureza, serve-nos de auxiliar poderoso em todos os lances da vida.
Que prodigios de imaginação não teriam os amantes, para se vêrem a miudo.
Ronquerolle por si nada tinha a recear, era livre como o ar; mas preoccupava-se com o salvaguardar a honra da sua amante, uma mulher casada, pertencendo a um mundo de apparato, de vista, e que teria tudo a perdêr, se o segredo da sua ligação viesse a ser desvendado.
O marquez de la Tournelle não tinha a menor suspeita sobre a virtude e a fidelidade de sua esposa. Era-lhe submisso como um cão ao dono e nem sequer discutia os seus menores caprichos.{135}
Sentia e sabia que ella lhe era superior, e amava-a com uma especie de devoção, como se ama e se venera uma divindade.
Depois do chéque eleitoral soffrido, elle considerava-se perdido aos olhos da marqueza, porque não seguira os seus conselhos.
Tremia deante d'ella e nem tentava explicar a si proprio as causas da frieza que sua mulher lhe testemunhava.
Por caricia unica, depois que Ronquerolle triumphára, M.me de Tournelle apenas permittia ao marido que a beijasse na testa.
Uma noite, pelas 11 horas, o infortunado marquez veiu bater á porta do quarto de sua mulher.
—Sois vós, Sergio? perguntou ella com voz irritada.
E como elle lhe respondesse affirmativamente:
—Tende paciencia, mas não vos posso attender. Voltae para os vossos aposentos. Estou fazendo a minha toilette para ir ao baile a Saint-Germain.
Effectivamente estava vestindo uma elegantissima «toilette» depois de se ter perfumado dos pés á cabeça.
Ronquerolle esperava-a n'essa noite n'um dos seus ninhos de amôr; mas para salvar as apparencias a marqueza foi effectivamente a um baile em Saint-Germain, d'onde rapidamente sahiu sem os outros convivas darem por isso, para ir cahir nos braços do seu adorado, do seu querido Ronquerolle.
—Fui eu que errei, dizia Sergio de la{136} Tournelle dirigindo-se para os seus aposentos.
Devia ter escutado os seus conselhos e obedecêr-lhe escrupulosamente... Oh! A politica! Infernal politica! Para que me lancei eu n'essa odiosa engrenagem?
Carlota! Carlota!
Se tu soubesses como eu te amo!
Morreria por ti se m'o ordenasses!
E o desgraçado desesperava-se suppondo que havia perdido a estima de sua esposa apenas por uma serie de fraquezas suas, e acreditando, o que era verdade, que jámais a podia reconquistar.
O pobre marquez devorava a sós o seu profundo desgosto, porque as suas dôres eram d'aquellas que não se confiam a pessoa alguma, nem mesmo a um amigo intimo.
N'essa noite o marquez de la Tournelle não dormiu.
Ouviu dar todas as horas até ás quatro da madrugada.
A essa hora a marqueza entrava em casa.
Sergio ouviu tudo o que passou no seu palacete: o porteiro abrira a porta da rua, a carruagem entrára no pateo, depois a porta envidraçada da escadaria abrira-se para dar passagem á encantadora Carlota, e depois tudo voltára á tranquilidade e ao silencio.
—E dizer que minha mulher está aqui perto de mim, exclamava elle, que acaba de entrar vinda d'um baile, perfumada como uma rosa e bella como uma Venus, e que eu não ouso entrar no seu quarto, e que se tal ousasse ella me acolheria com um sorriso de piedade!{137}
E o senhor de la Tournelle virava-se e revirava-se sobre o leito como se estivesse sobre um brazeiro, e de raiva, de desespero pela sua fraqueza, mordia as almofadas e rangia os dentes como atacado d'um accesso febril.
No emtanto o pobre marquez estava ainda longe de suppôr toda a importancia da sua desgraça.
A marqueza, como é sabido, vinha não só do baile como d'um delicioso «rendez-vous» de amôr.
Fatigada dos abraços estonteantes de Ronquerolle, despia-se vagarosamente, lançando o seu vestido de baile, levemente amachucado, sobre uma poltrona.
Tinha ainda nos labios vermelhos como que o calor dos beijos do fogoso republicano.
E adormeceu feliz recordando as phrases de amôr, o delirio do olhar apaixonado de Ronquerolle; e jurando não amar no mundo mais ninguem senão a elle.