Amôres d'um deputado

Hippolyte Buffenoir · Capítulo 10 de 10

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Amôres d'um deputado

Epilogo

Carlota de la Tournelle reconheceu um dia que o seu pequeno cofre estava partido, mas acreditou que a sua creada particular o tinha deixado cahir, e como encontrára dentro d'elle a poesia e a carta de Ronquerolle, que tanto amava, nunca lhe veiu á ideia que se passára em sua casa um grande drama, que determinára a morte d'um homem.

 

Epilogo

 

Um anno é decorrido. As rosas de maio perfumam os jardins. Na sociedade parisiense não se fala d'outra coisa, senão do casamento da marqueza de la Tournelle com o deputado Ronquerolle.

O bairro de Saint-Germain considéra como uma escandalosa união a d'uma mulher da sua sociedade com o joven tribuno republicano, o arrojado orador, o inimigo do throno e do altar.

Se bem que os novos esposos desejassem que o seu casamento fosse o menos conhecido possivel, todos os jornaes n'elle falaram. {155}

A fama, a gloria, ia procurar Ronquerolle, mesmo quando elle desejaria occultar-se na sombra e que em volta do seu nome se fizesse o maior silencio.

Quando o bispo de Dijon teve conhecimento d'essa união nos seus labios brincou um sorriso singular.

Monsenhor acabava de almoçar, e saboreava uma chavena de café tomado a pequenos golos, no seu gabinete de trabalho.

O seu secretario estava perto d'elle acompanhando-o no saborear do fino Moka.

—Recordaes-vos, meu caro Duboeuf, disse o bispo, d'aquelle banquete que ha tres annos nos offereceu esse pobre marquez de la Tournelle? Nós ali estivemos os dois.

—Sim, monsenhor, bem me recordo, respondeu o vigario. A marqueza não assistiu a esse banquete politico.

—E porque não assistiu ao jantar a formosissima Carlota?

E o bispo de Dijon fazia esta pergunta com um ar trocista e malicioso e em voz quasi afflautada.

—O cidadão Ronquerolle, poderia talvez responder-vos monsenhor, retorquiu o padre, em voz baixa, acariciando o queixo com a mão esquerda e fazendo os olhos mais pequenos, n'um grande ar de espertalhão.

O prelado ficou um momento pensativo.

Depois enchendo um calice com finissimo licôr offereceu-o ao seu interlocutor e tomou um outro calice para si.

Os dois homens tocaram amigavelmente os copos, trocando uma saude, e levaram-os em seguida aos labios.{156}

—Pobre marquez de la Tournelle! disse o bispo.

—Era um fraco de espirito, accrescentou o vigario. Deve pertencer-lhe o reino dos céus.

—E ella, a marqueza? disse o bispo piscando o olho esquerdo.

—Ella! replicou o travesso vigario, é uma deusa do Olympo, que desceu até nós.

Emquanto esta scena se passava no gabinete de trabalho do bispo de Dijon, uma outra scena não menos interessante se dava em Paris entre Ronquerolle e os seus tres amigos.

Tinham n'essa manhã almoçado juntos em casa do deputado republicano, e depois como o tempo estava lindo, a temperatura agradavel e o sol cheio de belleza e alegria, tinham ido passear ao jardim do Luxemburgo.

Haviam posto de parte a politica, e evocavam as recordações dos primeiros annos da sua mocidade na grande Paris.

Instinctivamente, como n'outros tempos, se dirigiram para o Café Tabourey, onde juntos tinham feito tantos projectos de gloria, de amôr e de ambição.

Lá estava ainda, esse café attrahente, esse cantinho parisiense tão propicio aos homens de lettras e aos poetas.

Reconheceram a sua meza preferida e a ella se instalaram.

Os mesmos freguezes liam os jornaes e as revistas. O aparador, ao centro da casa, lá estava, como sempre, carregado de garrafas com cerveja e de copos.

A menina Amelia Dufer, a filha do dono{157} do estabelecimento estava um pouco mais nutrida.

Annunciava-se o seu casamento para breve e seu pae tratava de trespassar o café.

A sua fortuna estava feita, os filhos estavam empregados ou estabelecidos e elle precisava descançar. A edade assim lh'o exigia.

Ronquerolle e os seus amigos entregaram-se ás suas recordações. E cheios de melancholia reconheciam quanto é verdadeira a phrase do poeta:

«Ha lagrimas nos objectos que nos rodeiam.»

Ali encontravam a sua inquieta e desgraçada juventude, os dias da adversidade; quando eram desconhecidos, sem fortuna, sem auxilio, sem fama, tendo apenas por unica arma para as luctas da vida o seu indomavel orgulho. Que de noites de invernia elles tinham passado, ali, encostados áquella meza, sonhando com o futuro, escrevendo artigos, compondo versos, imaginando romances, escutando a voz de Ronquerolle, que muitas vezes a todos reanimava e que d'outras se desesperava sentindo-se tambem vencido pela adversidade. Como parecia que esse tempo já ia longe!

—Como estamos tristes e sombrios! disse Maupertuis. Sacudâmos os nervos, vamos.

«Bebamos um ponche em honra das bellas raparigas que nos saltavam ao pescoço e nos beijavam apaixonadamente nos nossos dias de miseria!

«Merecem bem que as recordêmos, essas{158} loucas, mas lindas e alegres companheiras dos tempos que não voltam.»

Ronquerolle estava mais triste que os seus amigos.

Calava-se e absorvia-se n'um secreto pensamento.

Branche comprehendeu o motivo da sua profunda tristeza. Fez um signal rapido aos seus amigos e a conversação não proseguiu no caminho para onde a desviára Maupertuis.

Depois d'alguns minutos de silencio, Ronquerolle ergueu-se e disse para os seus amigos:

—Acompanhem-me.

E encaminhou-os para o cemiterio do Père-Lachaise, até junto do tumulo da infeliz Emilia.

O excellente rapaz não podia evocar os dias da sua primeira mocidade, sem pensar na pequenina e gentil creatura que tanto o tinha amado, que morrêra por elle.

Quando essa lembrança lhe invadia o cerebro, o coração soffria e Ronquerolle sentia uma dolorosa tristeza que o acabrunhava.

Avançou sósinho até ao tumulo da sua amante.

Os seus amigos conservaram-se respeitosamente a alguma distancia.

Ronquerolle curvou-se ante o marmore da lousa funeraria e descoberto ali se conservou algum tempo, como que petrificado.

—Pobre creança, exclamou elle com toda a sua alma, tu foste colhida pela morte ao principiares a viagem tormentosa da vida.{159}

«A primeira dôr quebrou o teu debil coração; os rigôres do destino hão encontrado em ti uma presa facil.

«Como tu me adoraste!

«Ah! Tinhas razão quando no teu leito de agonia, me disseste que eu nunca te poderia esquecer.

«Tu foste a poesia e a flôr da minha juventude e viverás eternamente no meu pensamento.»

Depois tirando um lapis da algibeira escreveu estes versos sobre o marmore da lapide tumular:

 

Appareces-me sempre, oh candida Visão! E choro-te saudoso, oh minha Primavera! Se não soffrêra assim seria ingratidão.

Furtar-te á morte, amôr, eu bem quizéra,

Mas sempre viverás na minha adoração.

Muito tempo ainda decorreu.

Branche, Didier e Maupertuis, começaram a inquietar-se.

—É preciso arrancal-o d'aqui, disse Maupertuis; a dôr pode matal-o.

Branche aproximou-se e tomando o seu amigo por um braço, afastou-o d'ali. Ronquerolle deixou-se conduzir como uma creança. Pararam depois um instante nas immediações do Père-Lachaise e d'ali contemplaram Paris que se desenrolava deante d'elles.

—Vamos, disse Maupertuis, que era um homem de energia, desçâmos ao turbilhão, e esqueçâmos as miserias d'este mundo, proseguindo na nossa obra de justiça... A nós a fortuna e a gloria! A nós a vida!

Ronquerolle apertou a mão do seu companheiro de luctas e sorriu tristemente.{160}

Depois os quatro amigos seguiram no seu caminho e desappareceram na immensa cidade, na grande capital.

 

Em cada anno, pelo começo do mez de agôsto, se vê chegar ao lago de Côme um par que se instala n'uma deliciosa vivenda, em meio da verdura e de cascatas emolduradas de flôres. Dir-se-hia que se trata de dois namorados que fugiram de casa de seus paes, e que ali se occultam, para furtarem a sua alegria e o seu amôr a olhares indiscretos. Nunca dois entes mais sympathicos pela harmonia da sua mocidade, appareceram por aquelles logares. Quando elles passeiam ao longo do lago, volta-se a gente para os admirar na sua encantadora marcha.

Sente-se, advinha-se, o maravilhoso accordo das suas almas.

Uma aureola de voluptuosidade os envolve; e reconhece-se que hão conquistado a unica felicidade que existe na terra: Adoram-se! Saudae essas felizes creaturas!

É a marqueza de la Tournelle que passa pelo braço do seu adorado e apaixonado marido, o deputado Ronquerolle.

 

FIM

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