Amôres d'um deputado
VII Vida nova
VII
Vida nova
Na quinta-feira seguinte ao dia da eleição, pelas dez horas da manhã, a cidade de Saint-Martin apresentava um aspecto de festa fóra de costume. O sol de julho brilhava n'um ceu purissimo, e o calor era já asphyxiante. Quinhentas a seiscentas pessoas estacionavam em frente do edificio da Camara, onde acabava de chegar uma fanfarra com o seu estandarte, e ia formar-se o cortejo.
Os republicanos preparavam-se para acompanhar até á estação dos caminhos de ferro o cidadão Ronquerolle que partia para Paris. {93}
Por entre os grupos que se viam formados pela praça, o observador prespicaz teria notado tres mulheres novas, que muito chegadas umas ás outras pareciam tristes e preocupadas. Entretanto sorriam mas o seu sorriso era contrafeito.
Esse grupo feminino compunha-se da graciosa Madame Beauménard, a mulher do banqueiro, da buliçosa Madame Desbroutin, a mulher do tabellião, e finalmente da elegante Madame Jolibois, a mulher do recebedor das contribuições.
Todas tres muito amigas, não tinham segredos umas para as outras.
Madame Beauménard deixara-se prender pelas declarações amorosas de Didier; Madame Desbroutin adorava Branche, e, finalmente, Maupertuis conseguira fazer sossobrar a virtude um pouco arisca de Madame Jolibois.
Ai, como são rapidos os dias felizes!
Os apaixonados retomavam o vôo em direcção a Paris, e a vida monotona da provincia ia recomeçar para aquellas galantes mulheres.
De repente, o deputado Ronquerolle appareceu seguido dos seus tres amigos, de todos os membros do «comité» republicano e de numerosos cidadãos, pertencentes ás diversas classes da sociedade. Estava pallido, quasi livido e uma gravata vermelha fazia ainda resaltar essa pallidez, resultante da fadiga e das commoções soffridas. A fanfarra executou a «Marselheza» e o cortejo poz-se em marcha.
Quando Branche, Didier e Maupertuis passaram junto das suas tres amantes, trocaram-se{94} rapidos olhares e as tres mulheres não puderam conter as lagrimas.
—Amava-l'o muito? disse Madame Jolibois a Madame Beauménard.
—Minha querida, era louca por elle! E tu? redarguiu a interrogada.
—Eu, quereria partir com elle, respondeu Madame Jolibois.
Quanto a Madame Desbroutin, estava tão commovida, que apenas poude dizer:
—Que ha de ser de nós, agora? Esses rapazes que partiam eram a poesia, o amôr a paixão.
A marqueza de Tournelle havia deixado Saint-Martin no dia seguinte ao das eleições. Estava em Paris havia quatro dias, quando Ronquerolle ali chegou.
A grande cidade estava n'essa occasião deserta. A alta sociedade partira já para as estações de aguas, para os banhos do mar, para o campo. Apenas ficára a população que as necessidades da vida prendiam em Paris. O calor tornava-se mais violento dia a dia.
A marqueza habitava um soberbo palacete na rua de Varennes, construido entre um pateo e um jardim.
Habitualmente demorava-se no campo até aos fins de novembro, mas o seu regresso inesperado a Paris foi explicado pelo cheque eleitoral soffrido pelo marquez seu esposo.
O sr. de La Tournelle, sentindo-se envergonhado, humilhado, diante de sua mulher, não ousava acompanhal-a á grande capital. Por outro lado o continuar em Saint-Martin lhe parecia tambem insupportavel e por{95} isso partira, sem demora, para a Suissa, em companhia do conde de Orgeffin.
Ronquerolle, em vista da sua nova situação, alugara uma bôa habitação perto dos Invalidos, ficando estabelecido que Branche seria seu secretario e rezidiria com elle. Quanto a Maupertuis e a Didier installar-se-hiam nas immediações.
A abertura das camaras devia realizar-se em outubro, e por isso restavam ainda ao novo deputado dois longos mezes para se preparar para as luctas parlamentares, para se concentrar antes do combate, e para se entregar inteiramente á sua amante.
Durante esse espaço de tempo esses dois entes privilegiados foram completamente felizes. Encontravam-se todos os dias e a sua intimidade augmentando, augmentou a sua paixão. Até então elles tinham-se mais adivinhado do que conhecido. E que alegria foi para elles o reconhecerem, mutuamente, que eram ainda superiores á ideia que se haviam formado de sentimentos, de intelligencia e da elevada concepção do amôr.
Ronquerolle estava completamente fascinado, maravilhado da audaz belleza de Madame de la Tournelle e a marqueza adorava o seu amante pela sua mocidade, simplicidade, pela vehemencia da sua paixão e do seu formoso espirito, e tambem pela sua insaciavel ambição.
Ronquerolle comprazia-se em fazer-lhe longas confidencias sobre os seus projectos de futuro. Não queria entrar na camara dos deputados para se deixar seduzir pelo apparato do poder, para ser cumplice ou victima da corrupção, da ignorancia ou do{96} embuste; mas sim para representar verdadeiramente o papel de reformador, tomando o povo como ponto de apoio...
Uma tarde, quando o sol desapparecia por detraz do Arco do Triumpho, e quando já descia o crepusculo sobre a grande cidade, o orgulhoso rapaz repetia á sua amante os seus sonhos de esperança, deixando as palavras seguirem o curso do seu fogoso temperamento.
Electrisas-me, meu adorado, dizia-lhe a encantadora e loura Carlota de la Tournelle; perdôa-me mas sou ciumenta como uma panthera, e estremeço ao pensar que em breve te tornarás uma figura celebre, que os mais provocantes sorrisos te vão ser dirigidos, e que, pode ser, que então, eu não seja a unica a possuir toda a tua alma!
—Tranquilisa-te, respondeu Ronquerolle; porventura não sentimos que este amôr é de vida e de morte.
—Sim, sim, retorquiu vivamente e apaixonadamente a marqueza, amôr para a vida e para a morte!
Algumas vezes, tambem pelas onze horas da noite, os dois amantes passeavam juntos, a pé ou de carruagem, percorrendo os bairros mais afastados e solitarios, pois que a marqueza ficaria perdida se fosse reconhecida nos seus passeios em companhia do joven deputado republicano.
N'um sabbado, pela meia noite, quando entravam por uma pequena rua desviada da habitação de Ronquerolle, estremeceram ambos ao mesmo tempo ao cruzarem-se com um individuo que seguia em sentido contrario.{97}
Felizmente para madame de la Tournelle ella usava um véu espesso e não poude por isso ser reconhecida.
O homem que passara perto d'elles era o barão de Quérelles, que, por seu turno, acabara de chegar a Paris, com a firme rezolução de vigiar a marqueza.
Como seguia preoccupado e muito rapidamente, o barão nem mesmo reconheceu Ronquerolle, mas fôra reconhecido por este e por madame de la Tournelle.
—Diabo, exclamou Maximo, vamos ter este pequeno barão a seguir-nos os passos. É preciso acautelarmo-nos até que d'elle estejamos livres.
Por esta epocha, Ronquerolle recebeu uma carta que profundamente o impressionou.
Era a pobre, a pequena Emilia, sua amante d'outros tempos, que lhe escrevia.
Ronquerolle ainda não a tinha ido ver, e a infeliz rapariga sabendo do seu regresso a Paris, lamentava-se do abandono a que elle a votara.
«Eu bem sabia, lhe dizia ella, que a tua partida para a Borgonha era o fim dos nossos amôres! Eu bem sabia que uma nova vida ia começar para ti, meu adorado Maximo, e que eu, pobre flôr desfeita, seria sacrificada á tua ambição, que uma nova paixão exige.
«Bem sabia ao vêr-te partir que tudo era perdido para mim, o meu unico amigo, o meu bem amado, o meu querido amante! Escuta, prefiro antes morrêr a descêr pela escada fatal das raparigas bem educadas{98} mas pobres. Tornar-me-hia a amante d'um outro, que me abandonaria tambem, depois d'um terceiro, e depois, de todo o mundo! Não! Não! Repito-te, antes a morte!
«Não me digas que ainda me amas; se assim fosse não terias vindo abraçar-me logo após a sahida do comboio que te conduziu a Paris? E tu estás aqui ha quinze dias, e em vão te hei esperado todas as manhãs e todas as tardes.
«Oh! Maximo! Meu querido Maximo! Não poderei eu ainda apertar-te nos meus braços, antes de ser envolvida na mortalha dos pobres, antes de fechar os meus olhos á doce claridade do sol, antes de ser conduzida ao cemiterio e coberta com algumas pás de terra?
«A tua querida toutinegra d'outros tempos
«Emilia.»
Ao ler esta impressionante carta, Ronquerolle sentiu que um suor frio lhe banhava a fronte. Não tinha esquecido completamente aquella pobre creança companheira dos dias de maior adversidade, essa sensivel Emilia á qual jurara eterno amôr, mas da qual a imagem havia sido eclipsada no seu coração e no seu cerebro pela visão estonteante da marqueza de la Tournelle.
E comtudo, durante o periodo eleitoral, elle tinha-lhe escripto, á pobre rapariga, jurando-lhe ainda que nunca a abandonaria, mas, mau grado os seus desejos, a sua linguagem, as suas palavras eram sem calôr, e o amôr d'outros tempos transformara-se n'uma affeição de irmão.{99}
Emilia havia comprehendido essa mudança, mulher de sentimento, sentira que lhe fugia o amante a quem adorava, e ficou profundamente abatida.
Ronquerolle era tudo para ella, sem parentes, sem familia, só n'essa immensa Paris, ella só o tinha a elle no mundo para proteger a sua juventude, e a sua fraqueza de mulher nas luctas contra a dura necessidade.
Com esse instincto maravilhoso que possuem as verdadeiras amantes, Emilia comprehendêra que uma outra paixão enchêra a alma do seu querido Maximo, e então todas as suas esperanças, já de si tão frageis, se abateram de um só golpe.
Nem o pensamento de luctar contra a adversidade lhe assaltou o espirito.
A pobre creatura, imagem fiel da resignação disse a si propria: Maximo já não me ama, pois bem, só me resta morrêr.
Quando soube da chegada de Ronquerolle, quando soube que elle estava em Paris ha quinze dias e o esperou em vão, chorou lagrimas de sangue e decidiu-se por fim a escrevêr-lhe, como unica esperança de vêl-o, ao menos uma vez antes de morrer.
Ronquerolle, tomado d'uma inquietação mortal, ao terminar a leitura da carta da sua pobre Emilia, sahiu immediatamente, tomou um trem e dirigiu-se a casa da pobre rapariga.
Emilia reconheceu-lhe os passos, e quando elle lhe bateu á porta, abriu-lh'a com o coração despedaçado, mas ainda com uma migalha de esperança.
Foi tal a violencia da commoção recebida,{100} que a pobrezinha, cahindo nos braços do seu adorado Maximo, durante bastantes minutos não poude articular palavra.
O triumphador não podia crêr no que os seus olhos viam. A sua pequenina Emilia não era mais que uma sombra do que fôra.
Pallida, magra, os olhos amortecidos pela angustia, pelas lagrimas, e pelas noites de insomnias, davam áquella creaturinha o aspecto d'um phantasma.
—Meu Deus! pensava Ronquerolle, oxalá que eu não chegasse demasiado tarde! A pobre creança está ferida de morte pelo desgosto que lhe causei, e a sua extrema sensibilidade attrahe-a para o tumulo.
Passados os primeiros momentos Emilia retomou o seu doce sorriso e n'uma alegria verdadeiramente infantil exclamou:
—Eis-te emfim, meu querido Maximo! exclamou ella.
Oh! Como eu sou feliz em tornar a ver-te!
Como eu te esperava!
Como eu receava morrer sem te abraçar ainda uma vez!
Como eu te amo!
Se tu soubesses como eu te amo!
Tu, bem sei, tu não podes amar-me da mesma forma.
Sei muito bem que tu não podes prender na tua vida uma simples sensitiva como a pobre Emilia...
Tu tens um grande destino a cumprir, tens uma vasta carreira a percorrer. Tens que alcançar a gloria.
Eu vejo bem a differença da minha vida para a tua.{101}
Precisas de amôres enebriantes; desejas o explendôr que possa satisfazer o teu immenso orgulho...
Eu conheço-te bem!
Ronquerolle, profundamente impressionado sentia que a sua companheira d'outros tempos tinha razão.
Elle procurava distrahil-a, animal-a, mas a pobre rapariga voltava sempre a reconhecer o fatal abandono a que fôra votada.
Entretanto sentia uma especie de melancholica voluptuosidade em remover as recordações dos felizes dias passados, dos primeiros mezes dos seus amôres, dos seus passeios de outr'ora nos bosques, a Saint-Cloud, a Mendon, a Montmorency, a Ermenonville.
—Como soubeste que eu voltara a Paris? perguntou Maximo.
—Como o soube! retorquiu Emilia; muito simplesmente, adivinhei. Podes crêr. Sentia-te perto de mim.
Os que amam verdadeiramente teem presentimentos que jámais os enganam.
Além d'isso, eu vi os teus amigos atravessarem a rua Vaugirard.
A sua presença confirmou a tua. Eu sabia quanto sois inseparaveis. Tu não estavas de certo longe, visto que me apparecia Branche, Didier e Maupertuis.
O novo deputado demorou-se bastante tempo junto de Emilia.
Um extranho encanto havia em volta d'ella.
Emilia vestia um penteador azul e estava sentada n'um canapé, perto da janella. Lembrava uma convalescente que procurava{102} cobrar fôrças, e a quem o menor esforço enfraquecia.
—Voltarei a vêr-te muitas vezes, disse-lhe Ronquerolle deixando-a. Tem coragem. A tua vida terá ainda dias felizes.
—Não, meu amigo, respondeu ella. Tudo se acabou!
Pois não reparas?
Não vês que eu não te faço a menor pergunta?
Nem sequer me queixo!
É a suprema resignação do condemnado.
Maximo affastou-se lentamente da casa de sua pequena amiga. Seguiu para o «boulevard» de Vaugirard, voltando-se mais d'uma vez, para olhar a janella onde outr'ora tantas vezes, elle vira o rosto sorridente da pobre creança. A sua dôr tão verdadeira, tão sincera, tão eloquente, envenenava a sua felicidade.
Aguardou assim a hora em que M.me de la Tournelle o esperava.
A marqueza não teve muito trabalho para reconhecer que o seu amante tinha qualquer pensamento que o fazia soffrer. Interrogou-o. Perguntou-lhe a causa da sua dôr.
Ronquerolle hesitou um momento, mas depois, para alliviar o enorme peso que tinha sobre o coração, contou-lhe toda a historia da sua ligação com a pobre Emilia.
—Seria indigno de mim, o occultar-lhe o menor segredo da minha vida, disse-lhe elle.
O soffrimento d'essa pobre creança, cahe sobre mim como um remorso. É o primeiro da minha vida!
Dois dias depois o deputado republicano recebia nova carta da pobre abandonada.{103}
«Eu bem te dizia Maximo, escrevia Emilia, que estava proximo o meu fim: estou cada vez peor, meu amigo, vêm depressa. Eu não nasci para viver n'este mundo demasiado brutal. O meu pobre coração quebrou-se ao embate da primeira amargura.
Tombou como uma flôr que a tempestade lança por terra, e cousa alguma n'este mundo pode já reanimal-o, dar-lhe a alegria, sem a qual elle não pode viver.
A flôr arrancada da haste nunca mais pode readquirir a sua frescura e o seu perfume.
Vive um dia e morrre. Nada resta d'ella.
Outras flôres vêem substituil-a, outros felizes dias vão nascer, e a outra a pobre florinha morreu e não ressuscitará.
E que bellos momentos nós tivemos na vida meu querido Maximo!
Recordas-te de quando tu me esperavas ao terminar as tuas lições da Sorbonne e do Collegio de França, quando iamos passear de braço dado, sob as sombras de Luxemburgo, quando trocavamos ainda timidas palavras de amôr, quando tu apenas ousavas apertar-me a mão?
Abençoados tempos, dias felizes da minha adolescencia, da minha juventude, porque tão depressa me fugiste?
Porquê meu bem amado é tão rapida tão fugitiva a felicidade?
E porque será que ha na vida fatalidades que nos quebram o coração?
Conheci-te nas mais bellas horas da tua mocidade, meigo e ao mesmo tempo terrivel amante pelo qual eu fui vencida e pelo qual eu vou bem cêdo morrer!{104}
Entretanto a ambição vae devorar-te, mas as mulheres que te amarem não descobrirão nos teus labios esse encantador sorriso que tu tinhas para mim, essa bella alegria e esse enthusiasmo dos vinte annos, que eu pude apreciar. É essa a minha suprema consolação.—A tua pequenina amiga d'outros tempos—Emilia».
Estas cartas preoccupavam sobremaneira Ronquerolle. Augmentava o seu remorso, e a imagem da terna Emilia, doente, morrendo do peito e morrendo de desgosto não o deixava um instante.
Era um espectaculo commovedor o apresentado por aquella joven que não tinha a força para supportar as brutalidades da existencia e que o primeiro abalo derrubava.
Ha no meio da corrupção das cidades, d'essas creaturas excepcionaes que possuem todas as virtudes, todas as bellezas moraes e todos os heroismos. Nada as mancha; ellas veem o mal que para ellas avança, mas os seus olhos se fecham sobre a visão pura que vive na sua alma e a perversidade jámais as alcançará.
A sua innocencia conserva-se inalteravel. Vivem e morrem presas ao seu ideal como a hera em volta da arvore.
É esse todo o seu destino.
E ha d'estes seres sublimes em todas as classes sociaes: tanto nos palacios dos ricos, como nas habitações dos burguezes ou nas cabanas dos pobres. O observador á primeira vista não os apercebe, tão modestos elles são, tão simples, tanto se occultam{105} na sombra; mas por pouco que o seu olhar investigador saiba lêr nas consciencias, analysar a vida dos homens e o aspecto das coisas, elle não tarda a reconhecer o heroismo do coração, onde, na apparencia só ha uma existencia monotona, sem colorido e sem perfume.
As mulheres mais do que os homens, teem d'essas dedicações obscuras, que toda a gente ignora, de que ninguem falará e de que mesmo o que d'ellas é objecto não suppôe toda a grandesa.
É quando essas creaturas amantes e tão felizes por se sacrificarem já não existem, que se adivinham todos os primores das suas virtudes.
É quando o frio tumulo as occulta nas suas negras sombras, que se reconhece a bondade do seu espirito e do seu coração e que se lhe faz verdadeiramente justiça.
Mas então, é já tarde!
Esse arrependimento posthumo não consola do remorso de haver quebrado desapiedadamente uma alma encantadora, franca, leal; de ter perdido um thesouro de ineffavel ternura e de amôr sincero, de ter feito chorar dois lindos olhos, de ter feito o desespero d'um inexperiente coração.
Dar-se-hia então dez annos da existencia para tornar a vêr uma hora apenas essa devotada creatura, para se lhe dizer que emfim foi comprehendida e que é amada.
Mas são já inuteis então os desesperos e estereis os votos.
A morte não mais devolverá a sua presa, e o turbilhão do mundo, chama-nos e attrahe-nos com os seus risos, as suas canções,{106} o ruido das suas orgias, o estonteamento dos seus prazeres.
Emilia era do numero d'essas pobres raparigas que, se não tivessem amantes, se fariam irmãs de caridade, dedicando-se aos doentes e á paixão pela cruz.
Dependia ella mais da poesia, que da vontade propria; possuia mais humildade que orgulho, mais resignação que coragem para a lucta.
Tinha sonhado o amôr como a juncção de duas vidas não formando mais do que uma.
Aos dezesseis annos, essa fragil creança realizava o typo perfeito da joven que ama perdidamente.
Nenhum halito impuro bafejava a superficie da sua alma de virgem.
Inspirava respeito, e, instinctivamente, todo o homem, ou todo o rapaz tirava o seu chapeu quando com ella se crusava nas ruas e quando ella para elle erguia os seus grandes olhos ingenuos e leaes.
D'uma delicada saude, ter-se-hia tornado robusta se a alegria a tivesse acompanhado.
Mas vindo os desgostos ella podia morrer, e morria effectivamente, e o mal fazia constantes progressos.
Ronquerolle não a abandonava. Sentava-se aos pés do seu leito e prodigalisava tantos cuidados á doente como se fôra mãe da infeliz rapariga.
Graças a madame de la Tournelle, um dos principes da sciencia fôra chamado a tractar da joven Emilia.
Todas as manhãs esse medico vinha vêl-a{107} e ficava surprehendido dos progressos da doença, e resumia por estas palavras as suas impressões: uma saude delicada morta por um desgosto terrivel.
Algumas vezes, Ronquerolle acompanhava-o quando elle sahia de ao pé da doente, e ambos conversavam na casa de entrada da habitação da pobre rapariga.
—Ora vêde, dizia o medico, que de mysterios encerra a natureza!
«Ahi está uma sublime rapariga que vae morrer, porque n'ella o equilibrio das fôrças é incompleto.
«É cortada pela dôr, como um fragil canniçado pela ventania.
«A sua fraqueza faz d'ella uma santa.
«Os entes verdadeiramente fortes (e vós pertenceis sem duvida a esse numero, reconhece-se rapidamente no vosso olhar), os entes verdadeiramente fortes, são talvez mais feridos pela desillusão do que essa infeliz creança, mas vivem, não soffrem materialmente, sorriem até quando é preciso, teem-lhes inveja, crêem que elles são felizes.
«Olhae, por exemplo, para mim!
«Tenho eu porventura o ar d'um homem digno de lamentações?
«Possuo uma fortuna e goso d'um nome glorioso, entretanto um grande ferimento moral, me atormenta.»
Ronquerolle estava surprehendido pelas confidencias do notavel medico. Esse homem parecia adivinhar o seu pensamento, via claro na sua vida e comtudo devia ignorar em que mundo de emoções se encontrava agora o seu espirito.{108}
E o amante da marqueza ia no entanto prodigalisando todos os cuidados, todos os carinhos a Emilia.
Installou juncto d'ella uma excellente enfermeira, e vinha todos os dias, de manhã e á noite informar-se do estado da doente.
Muitas vezes mesmo durante o dia elle enviava ali o seu dedicado amigo Branche, para distrahir a infeliz rapariga.
Mas o mal fazia os mais rapidos progressos.
Os pulmões esphacellavam-se, o medico perdêra ja toda a esperança de salvar a terna creaturinha.
Emilia tinha uma tosse constante e uma febre ardente.
Não podia já deixar o leito.
Encostada a duas almofadas, ella tinha entretanto ainda fôrças para lêr.
E satisfazia-se ainda, sentia um ineffavel prazer em voltar a lêr as bellas paginas lidas n'outros tempos com Maximo, junto do fogão nas noites de inverno.
Qualquer soberbo romance de Balzac ou de Stendhal, qualquer livro de deliciosos versos de Alfredo de Musset, de Lamartine, de Victor Hugo e outros.
Ah! Como ella agora comprehendia melhor os gritos de desesperação dos poetas e o scepticismo dos grandes observadores ante a alegria que passa e a felicidade que se aguarda.
E a pobre Emilia sentia mesmo um extranho prazer em sentir-se abatida pela dôr, agarrada pela morte.
Envolvia-se no seu infortunio como em luxuosa e linda capa de baile.{109}
Quando, após ter lido muito, a fadiga a prostrava, deixava cahir o livro sobre o leito e a sua ainda bella cabeça tombava sobre o almofadão, e perdia-se n'um mundo de recordações.
Via-se então ainda muito creança; rodeada de carinhos, adorada por sua mãe, que tambem bem cêdo a morte arrebatara.
Como esses dias lhe pareciam estar ainda proximos.
Recordava-se da egreja onde ia ouvir missa todos os domingos, com os seus modestos mas lindos vestidinhos claros, e onde pondo as mãos rogava a Deus e á Virgem toda a sorte de felicidades para a sua familia e para si.
Depois viera para Paris, recolhida por uma tia, após a morte de sua santa mãe.
Tinha então quinze annos e o seu maior desejo era estudar, aprender para ser quanto possivel independente. Seguira para isso o curso da Sorbonne.
Foi ahi que ella conheceu o Maximo, que ella o amou com toda a sua alma; sim, com toda a sua alma tão leal, tão enthusiastica.
E quando apenas tocara na taça da vida era preciso deixar o festim e seguir até lá baixo, ao cemiterio, a deitar-se na terra fria.
Emilia não podia, mau grado a resignação do seu temperamento e do seu caracter, olhar para o seu destino sem uma secreta revolta.
Como a «Joven captiva», de André Chenier, ella desejaria não morrer ainda.
Pois quê! a sua vida estava terminada, ella ia desapparecer da scena do mundo{110} sem ter visto acabar a primavera, sem ter colhido as flôres d'essa estação, sem ter repousado sob os ridentes arvoredos, sem ter conhecido o verão abrasador, nem o outomno fecundo!...
Tres mezes decorreram n'estas angustias moraes.
Ronquerolle foi admiravel de dedicação.
Quando o fim se approximou, quando o medico declarou que Emilia ia morrer, Ronquerolle nunca mais abandonou a doente.
Sombrio ante a implacavel fatalidade que pesa sobre os sêres humanos, accomodára-se juncto do leito da moribunda, sem ter a coragem de a animar.
Emilia, no delirio da febre falava-lhe como se longos annos de felicidade lhe tivessem sido promettidos.
—Maximo, dizia ella no desvairamento da rasão, Maximo, meu querido Maximo, nós vamos unirmo-nos para sempre!
Coisa alguma nos poderá separar, não é verdade?
A minha vida vae ficar unida á tua. Sou a tua mulhersinha! Sim! A tua mulher.
Ah meu adorado Maximo! Se tu soubesses como eu desejava ser a tua esposa. Se soubesses como eu soffri por ser sómente a tua amante!
Era o meu sonho chamar-te o meu marido, e poder caminhar com firmeza, sobre o teu braço, e de cabeça erguida, sem receio!
Pois bem, o meu sonho, está realisado, não é verdade? E eu sou feliz. Já posso{111} acompanhar-te sem córar. Agora dizem ao vêr-nos passar em Luxemburgo: ahi vão dois jovens noivos; e como elles vão contentes, como se amam!
Ronquerolle chorava ante o delirar da sua pequenina amiga, da sua «querida toutinegra» d'outros tempos, como elle tinha por costume chamar-lhe, brincando com ella como duas creanças.
E o deputado de agora tapava o rosto com o lenço e soluçava.
Emilia entretanto nos seus delirios febris, tinha projectos adoraveis, d'uma simplicidade encantadora.
—Dize, Maximo, exclamou ella, quando voltar a primavera tu levar-me-has para o campo, não é assim?
Iremos pelas veredas embalsamadas, pelos trigaes, pela beira dos bosques e das vinhas... Vestir-me-hei como tu gostas; porei um d'esses chapeus de verão, que tanto te agradam e que, dizes tu, me ficam muito bem.
N'um dos seus momentos de lucidez, Emilia pediu a presença d'um sacerdote e recebeu os sacramentos com a devoção e recolhimento d'uma creança na sua primeira communhão.
Quando Ronquerolle viu a sua pobre amiga erguer-se, aproximar o rosto e receber a hostia sagrada das mãos do sacerdote, a impressão n'elle produzida foi tão violenta, que não poude conservar-se ali por mais tempo e sahiu a respirar por um momento no boulevard Montparnasse.
Uma vez ali, reparou n'uma carruagem fechada que perto estacionava.{112}
Aprumando-se viu que alguem de dentro da carruagem o chamava.
Era madame de la Tournelle que inquieta, viera ali para informar-se do que se passava.
—A pobresinha, disse-lhe Ronquerolle, morrerá mal chegue a noite, são estas ás palavras do medico. Parte-se-me o coração e soffro muito por vêl-a assim desfallecer.
«Não quero abandonal-a assim. Volto para junto d'ella.
Eram umas quatro horas da tarde.
A marqueza quiz acompanhar Maximo até á cabeceira da moribunda.
Emilia já mal respirava.
A garganta comprimia-se-lhe e apenas podia volver os olhos sem mover a cabeça.
O medico tambem estava perto d'ella. O seu aspecto grave e triste era como uma phrase completa e fatal.
A morte reclamava aquella pobre rapariga e elle tinha que se curvar, aguardando apenas o momento em que aquella existencia teria que cessar.
Madame de la Tournelle collocára-se ao lado do medico.
O perfume a heliotrope da sua toilette enchia, embalsamava o quarto de Emilia.
A marqueza contemplava curiosamente aquella pobre moribunda e pensava que durante muitos annos a infeliz que ia morrer fôra a amante de Ronquerolle.
Este, sentado aos pés do leito da pobre creaturinha sentia a mais violenta das punhaladas que pode atravessar o peito d'um homem de coração.
E olhava essa figura magra, descarnada,{113} que elle amara nos dias da sua irrequieta mocidade.
Quantos beijos elle tinha deposto n'aquelles labios agora sem côr, n'aquellas faces, n'aquelles olhos, sobre esse rosto outr'ora encantador!
E não podia acreditar que a morte ia apagar a luz d'aquelles olhos que elle amára, e gelar aquelle coração que lhe pertencêra.
Emilia fez ainda um esforço para se sentar no leito. Ronquerolle correu a ajudal-a.
A infeliz voltou-se então para o lado onde se encontrava madame de la Tournelle, e poude ainda dizer:
—Oh! Minha senhora! Amae-o como eu o amei, apenas por elle!
Depois pondo a mão fria de neve sobre o rosto de Ronquerolle, proseguiu:
—Não tenhas remorsos, meu amigo, a minha vida estava condemnada! Eu teria querido viver apenas para ti...
«Tu não sabes como eu te amava! Mais tarde o comprehenderás e sinto que não poderás esquecer-me!...
E nada mais poude dizer. A sua linda cabeça cahiu novamente sobre a almofada, e alguns instantes depois a pobre rapariga expirava.
No dia seguinte um coche magnifico, coberto de flôres, dirigia-se lentamente, pelas dez horas da manhã, para os lados do cemiterio do Père Lachaise. Uma unica carruagem de luto seguia o coche funerario.
Tres pessoas occupavam essa carruagem. A um dos cantos um rapaz soluçava, immerso na dôr, aniquilado.
Uma dama com o rosto coberto por um{114} espesso véu, tentava inutilmente animal-o. Em frente d'elles, silencioso, sombrio, um homem, com o queixo encostado ao castão dourado da sua bengala, embrenhava-se em mysteriosos pensamentos.
Estas tres personagens eram Ronquerolle, madame de la Tournelle e o medico que tratara Emilia.
Eram elles que acompanhavam a querida creaturinha á ultima morada, tanto do rico como do pobre, do sabio como do ignorante, do valente como do fraco.
Em volta d'elles o ruido, o movimento da grande cidade, eram de estontear.
A manhã estava bella, o sol de outubro era ainda lindo com os seus reflexos de ouro e aquecia os boulevards.
Alguns passeantes reparavam n'esse bello coche funerario coberto de flôres e seguido apenas por uma carruagem.
E pensavam que havia ali talvez um d'esses dramas patheticos, que Paris possue em tão grande numero.
Ronquerolle, do qual a superior intelligencia cedêra o logar á tristeza, conservou-se muito tempo inconsolavel pela morte de Emilia. A febre da ambição fôra dominada pela da dôr.
Passou os dias a evocar a tocante recordação d'essa rapariga que elle tinha amado, que a elle se havia dado com todo o seu coração, que elle possuira e que morrêra por elle. De noite não podia dormir, erguia-se e ia contemplar o retrato da querida defunta, pendente d'uma das paredes da sua habitação.
Quando olhava para essa figurinha tão{115} graciosa, de olhar tão singello e tão suave, o seu coração estremecia com as recordações do passado, e grossas lagrimas cahiam dos seus olhos e rolavam sobre o seu rosto varonil de tribuno popular e de poeta.
Depois ia tirar d'uma gaveta um masso de cartas, e relia-as.
Sabia-as de cór, mas o fixar a calligraphia da sua joven companheira da mocidade, era para elle motivo de intima consolação.
Eram já de longo tempo essas cartas. A tinta havia empallidecido e as datas traziam recordações a Ronquerolle.
—Que fatalidade! exclamava elle.
Tudo se acabou.
O luto entrou no meu pensamento e jámais o amôr me dará uma alegria sem uma triste recordação. Encantadora e bôa creança, com a tua mocidade levaste tambem a minha para o tumulo. Os tempos de illusão acabaram-se, as horas tranquillas não voltarão mais. Agora só vejo na minha vida sombras e tempestades.
Para acalmar as suas apprehensões, para procurar serenar os seus nervos, Ronquerolle começou a escrever versos em memoria da sua adorada Emilia.
Compoz um verdadeiro poéma em sua honra e fêl-o publicar n'uma revista litteraria.
Esses versos foram notados e commentados nos jornaes politicos.
A marqueza de la Tournelle respeitou a dôr do seu amante.
Ella sentia uma infinita e deliciosa commoção ao pensar que tambem seria adorada por aquelle homem, e mais ainda que a{116} bôa, mas simples creaturinha que acabava de morrer.
Entretanto aproximara-se o dia da abertura das Camaras e Ronquerolle sahiu como que d'um sonho quando leu no «Jornal Official,» o decreto presidencial, e recebeu aviso, na sua qualidade de deputado, de que o Parlamento ia recomeçar os seus trabalhos. Estava como um homem que após um longo e profundo somno, desperta com a impressão de que tem um rude trabalho a desempenhar, e um grande caminho a percorrer. Experimentado pela dôr, devorado pela paixão, Ronquerolle ia entrar na vida politica como um verdadeiro athleta, treinado por violentas luctas.