Arte-ciência: processos criativos

Evandro Fiorin · Capítulo 9 de 11

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Arte-ciência: processos criativos

O desafio de projetar na cidade contemporânea: projetos em abertoEvandro Fiorin

O desafio de projetar na cidade

contemporânea: projetos em aberto

 

Evandro Fiorin

 

Introdução

Este trabalho se articula com o processo de estruturação de algumas das pesquisas que desenvolvemos junto ao Departamento de Planejamento, Urbanismo e Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Unesp do câmpus de Presidente Prudente, as quais têm, como objeto de estudo, os diversos aspectos ligados à percepção ambiental, aos usos e à representação social do espaço urbano e à ação projetiva que possibilita a criação de projetos como

“sistemas abertos”. 1 Assim, nossa proposta de intervenção em cidades do interior paulista tem como objetivo geral estudar áreas urbanas centrais contíguas ao antigo leito ferroviário, hoje deterioradas pelo processo de obsolescência da ferrovia, de cinco municípios do noroeste paulista, a saber, Presidente Prudente, Araçatuba, Birigui, São José do Rio Preto e Marília. Tal preocupação se justifica pela urgente necessidade de se pensar destinações possíveis para essas áreas residuais e para alguns dos vestígios das estruturas abandonadas ou ocupadas por usos marginais dessas cidades, sem gerar um processo de gentrificação urbana (Arantes, 2000). Nessa proposição procuramos novas maneiras de compreender os usos e as representações dos espaços centrais dessas cidades do interior paulista, para, assim, poder interferir projetualmente, em espacialidades, contraditórias, muitas delas caracterizadas por processos de modernização urbana, que se encarregaram de compor uma imagem cada vez mais desconectada

das tradições caipiras.2

Desse modo, especificamente, iniciamos essa tarefa, auxiliados por alguns orientandos do Programa de Bolsas de Iniciação Científica da Unesp, financiados pelo CNPq, no estudo de algumas dessas áreas urbanas de importância pública, acometidas por um processo de deterioração, nas cidades de Presidente Prudente e Araçatuba. Levantamos e analisamos sua história, cultura, as intrínsecas relações socioespaciais, os projetos que foram desenvolvidos de maneira impositiva para as regiões centrais das cidades citadas e os espaços gerados por esse tipo de intervenção, pontuando os seus espaços residuais e alguns dos vestígios da malha ferroviária obsoleta. Um aprendizado que buscou imaginários urbanos capazes de informar projetos sob o “desfio de radical experimentação”. Ou seja, intervenções pontuais que pudessem ser mais aptas em acolher os desejos do usuário e descompromissadas com os grandes projetos urbanos empreendidos para suscitar a reconversão de áreas deterioradas para a valorização imobiliária. Uma ação na qual a capacidade de preencher algumas alternativas projetivas não se fecham ou completam e são coordenadas pelo ver e por um fazer reflexivo. Nessa proposição, o arquiteto-pesquisador registra digitalmente uma determinada situação como, por exemplo, um andarilho lavando suas roupas na fonte de uma praça e, através de alguns croquis, pode inferir um projeto que tire partido do

improviso, da provisoriedade e espontaneidade cotidiana. 3 Em outras palavras, esse levantamento analítico do espaço da cidade não implica o imediato feitio de um projeto de arquitetura ou urbanismo, mas uma espécie de antecipação dessa tarefa, que está imbuída no próprio ato de perceber. Nesse sentido, essa proposição está baseada no modo de ver, pensar e refletir sobre a cidade, bem como na defesa da “atividade experimental”, que a professora Lucrécia D’Aléssio Ferrara tem feito em várias publicações, ao longo

das últimas décadas. 4 Também se alinha às considerações feitas pelos arquitetos holandeses Herman Hertzberger e Rem Koolhaas e pelo francês Bernard Tschumi, quando se referem às apropriações inusitadas do espaço; à busca de meios “radicalmente diferentes” para o feitio de projetos nas mais diversas escalas e à

“desprogramação” da arquitetura, respectivamente.5 Além disso, tem como parâmetro alguns conceitos trabalhados pela filosofia francesa contemporânea, com destaque para os escritos pós-estruturalistas de Gilles Deleuze e Félix Guattari (2004), Jacques Derrida e Jean Baudrillard, tentando dar vazão a uma “arquitetura

onde o desejo possa morar”, 6 mas também à aceitação de que todo projeto de arquitetura e urbanismo está fadado a um “desvio”, isso porque: “embora o arquiteto seja quem concebe, jamais será dono da cidade e das massas, nem do próprio objeto arquitetônico e de seu uso” (Baudrillard, 1996, p.69).

Nesse âmbito, apresentaremos aqui as problemáticas presentes no estudo e no desafio de intervir na cidade contemporânea, bem como alguns dos procedimentos de leitura e análise utilizados para as cidades de Presidente Prudente e Araçatuba e também os resultados até então conseguidos levando em conta os projetos em aberto realizados para determinadas áreas de tais cidades, alimentados pelos seus respectivos processos criativos.

 

O desafio

O ideário modernista de planejamento das cidades, zoneando as suas funções em trabalhar, circular, morar e lazer, bem como o projeto da habitação em série para um homem padrão que pudesse resolver os problemas do déficit de moradia no pós-guerra europeu, se transformaram em promessas incapazes de, hoje em dia, articular qualquer melhoria da qualidade de vida da população. Por mais que houvesse um projeto político em torno das propostas dos grandes mestres modernos para a cidade e para a arquitetura, sua reprodução, em países como o Brasil – apesar dos emblemas arquitetônicos e urbanísticos da produção nacional na década de 1960 –, também revelou o fundo falso de suas benesses (Arantes, 1998). Exemplo cabal dessa falácia é Brasília, que tem como contraponto ao seu plano urbanístico controlado as cidades-satélites, onde impera o “não plano” – o reflexo da maioria das cidades do nosso país.

Cada vez mais, alguns espaços das nossas cidades provam estar fora do previsto na prancheta do arquiteto. Estamos vivendo em locais onde o crescimento desordenado, a precariedade e a obsolescência dos espaços, o desrespeito às preexistências construídas e não construídas vão revelando áreas urbanas deterioradas, vazias e abandonadas, espaços residuais sem destinação e a desvalorização de áreas centrais consolidadas, acarretando uma generalização de ordem moral, em que os espaços públicos passam a ser lidos como “terra de ninguém”. Uma questão bastante difícil para ser enfrentada pelas novas gerações, que estão sendo educadas diante da proliferação dos espaços privatizados e autonomizados, mas sobretudo perante uma falta de reconhecimento do espaço público como um “espaço necessário” de “convívio e das trocas humanas”, como um “meio” que deve ser valorizado em qualquer projeto para tentar evitar o estado de violência, medo e insegurança nas nossas grandes cidades (Ferraz, 2009).

Nesse caso, algumas problemáticas apontadas estão se agravando nas cidades da região noroeste do interior paulista, muito por decorrência dos seus recentes processos de reestruturação produtiva (Gomes, 2007), mas também pela adoção e reprodução de modelos da metrópole paulistana, ditados pela economia de mercado: no aumento do número de condomínios fechados, dos shoppings centers e centros especializados, da especulação da terra em benefício de grandes empresas, do descaso com o tratamento de áreas verdes e livres e de interesse social e da crescente periferização, dentre outras dinâmicas (Sposito, 2001, p.239).

Nesse passo, os centros urbanos das cidades do noroeste paulista, os lugares que deram origem aos municípios, seja pela chegada da ferrovia, ou pela constituição do patrimônio religioso nos marcos de sua fundação, vão se transformando em espaços à mercê do tempo, vitimados pelo êxodo intraurbano de transeuntes, principalmente durante à noite, quando o comércio popular fecha suas portas. Situações que despertam grande interesse para o estudo dessas áreas urbanas de importância pública, bem como as imagens e os imaginários urbanos em torno dessa realidade, aos poucos, colocada à margem. Dessa maneira, nos cabe a crítica em torno dos modelos da arquitetura e cidade ideais, assim como com relação aos efeitos nefastos da economia de mercado na fisionomia urbana das cidades do noroeste paulista. Além disso, há necessidade de compreensão desses espaços emblemáticos dos centros dessas cidades que, apesar de fortemente ligados à história e à identidade, por decorrência do crescente processo de deterioração, vão se tornando “lugares de lugar nenhum”.

Sendo assim, um dos nossos desafios contemporâneos é aprender como lidar com as complexidades e contradições presentes nos centros urbanos das nossas cidades, agora munidos da capacidade de apreensão das singularidades e pluralidades, com especial sensibilidade para as atividades humanas. Desse ponto de vista, certos de não podermos mais enfrentar os problemas urbanos contemporâneos de maneira messiânica, queremos ter em mente uma reflexão mais humanista da cidade. Esta, colocada em destaque, pode, aos poucos, revelar os sentimentos de pertencimento e identificação, em uma ação projetiva mais coerente com a cidade em que vivemos vislumbrando o embate sobre uma cidade “em processo”, mais realista, pronta a acatar o que fora e

não fora planejado, diante do que chamamos de “complex-cidade”.7

Nessa busca, o estudo de áreas urbanas centrais deterioradas de cidades do interior paulista e das suas intrínsecas relações socioespaciais não tem como fim a elaboração de projetos que sejam a solução das problemáticas anteriormente apontadas. Mas, pretende, sim, paradoxalmente, flagrar impasses, dilemas e embaraços presentes no espaço urbano e em quaisquer ações que busquem uma solução projetiva que seja definitiva sobre a cidade. Desse ponto de vista, alimentamos um estranhamento da imagem que o coletivo tem da cidade, na procura por seu imaginário, que é eminentemente relacional, sempre atentos às peculiaridades a serem exploradas, das situações mais simples às mais improváveis, pois acreditamos que:

Ao projetar, devemos redescobrir a lógica dos relacionamentos

humanos, considerando a especificidade de cada povo,

mergulhando antropologicamente na cultura de cada lugar. E

com esse olhar, tentar entender o espaço urbano, desde o

macro – dos deslocamentos dos fluxos de serviços e

necessidades – até o micro, o que há de singular – seja o

namoro em um banco da praça ou as brincadeiras de rua de um

grupo de crianças. (Ferraz, 2009)

Diante do exposto, na experiência de repensar áreas deterioradas de algumas de cidades do noroeste paulista, queremos trazer à tona alguns imaginários urbanos que darão suporte para uma nova forma de ação projetiva. Nessa prática, temos como desafio deixar de programar o que poderá vir a acontecer no espaço dando-lhe: “as condições construtivas para definir-se conforme os repertórios culturais que dele se apropriam no decorrer da história” (Ferrara, 1996, p.12).

Nesse sentido, os usos imprevistos que qualificam o espaço são tão importantes quanto as determinações que o arquiteto faz no projeto em sua prancheta. De tal sorte, vamos ao encontro dos sentidos e sujeitos que constroem o lugar, pois figuras como o vendedor ambulante, o engraxate, o marreteiro e o mendigo podem transformar a praça pública num lugar de trabalho; um sem-teto que se apropria de áreas residuais embaixo de um viaduto pode ressignificar a ideia de casa ao utilizar materiais recicláveis para o seu abrigo; ou mesmo uma prostituta (ou travesti) que ocupa parte da estação ferroviária abandonada pode redefinir o sentido cultural

de patrimônio, agora como memória dinâmica.8

Esses são exemplos que informam a cidade, percebidos pelo olhar mais atento, que é baseado na “experiência urbana como informação capaz de transformar o conhecimento”, podendo assim servir para “relacionar contextos, situações” e “tipos característicos” e, então, subsidiar novos projetos capazes de incorporar outras formas de projetação, as quais levem em conta os relacionamentos humanos e, dentre um sem-número de variáveis, “a imprevisibilidade dos usos” (Ferrara, 1996).

Nessa proposição, buscamos engendrar algumas ações que possam revelar singularidades e peculiaridades das áreas centrais deterioradas de cidades do noroeste paulista, de modo a contribuir

para a construção de projetos abertos9 que não se balizem pela prática corrente de um urbanismo modernizador, nem pelas práticas de renovação urbana que gentrificam e deturpam os usos característicos de cada lugar; mas que sobretudo acolham o ser humano.

Nesse sentido, nosso desafio, no âmbito da experimentação, é fomentar uma antevisão sobre o espaço, dos croquis, como forma de diálogo do arquiteto (Smith, 1998) e da experiência do uso de novos meios multimidiáticos de expressão e representação da cidade; também do ponto de vista da elaboração de futuros projetos de arquitetura, na possibilidade de pensar em “programas” que sejam “desprogramados” e efêmeros (Tschumi, 1996). Nessa experiência, os usos marginais podem nos dar novos subsídios para repensar os projetos nos espaços públicos contemporâneos, sob

alguma chance de ressignificação do lugar político da arquitetura. 10

 

Projetos em aberto

Presidente Prudente

Desenvolvimento do processo criativo

No início do século XX surge a cidade de Presidente Prudente, a partir da Estrada de Ferro Sorocabana, dividida entre dois núcleos, as terras dos Coronéis Francisco de Paula Goulart e José Soares Marcondes. Apesar de o transporte ter desbravado e garantido a ocupação da região, sendo um importante elemento para consolidar a economia cafeeira no Estado de São Paulo, ao longo da história, a cidade se desenvolveu desigualmente entre as regiões leste e oeste.

Figuras 1 e 2 – Os dois núcleos iniciais de Presidente Prudente,

cortados pela linha férrea e as duas igrejas, dispostas nas Praças

Monsenhor Sarrion, defronte à Praça Nove de Julho e Anchieta, que

demarcam as Vilas Goulart e Marcondes, respectivamente.

Fonte: Francisco; Fiorin (2012).

Na década de 1960, a população urbana de Presidente Prudente já era maior que a rural e a paisagem foi se modificando ao longo do tempo. Pode-se salientar uma grande mudança na região central da cidade por conta da obsolescência do transporte ferroviário. Diversos galpões e edificações importantes nas áreas adjacentes à ferrovia foram abandonados, resultando na sua degradação, com reflexos negativos no centro da cidade. Nesse sentido, as regiões em contiguidade com o leito férreo apresentam conflitos de ordem socioespacial e problemas urbanos. Assim, as visitas à área central serviram para que os alunos de iniciação científica pudessem constatar que esta região apresenta uma grande heterogeneidade em suas estruturas socioespaciais. Alguns espaços públicos como o principal eixo comercial, por exemplo, mesmo modificado ao longo dos anos é palco para pessoas de várias camadas sociais: trabalhadores, consumidores, transeuntes, andarilhos e usuários de drogas fazem deste, um lugar eminentemente democrático. Outro grande exemplo é a intensa utilização, durante o dia, da Praça Nove de Julho, no coração da cidade, um lugar de estar, mas, também, um espaço de moradia para alguns. Lá moradores de rua lavam suas peças de roupas na fonte e as estendem sobre arbustos, enquanto isso, outras pessoas trabalham no comércio ilegal, idosos se reúnem para jogar cartas e diversas pessoas transitam livremente. A partir desse levantamento e análise, os alunos de iniciação tiveram a intenção de desenvolver um projeto inusitado, que servisse a todos os usuários da praça, em qualquer horário, o qual adquirisse formas e disposições variadas, para poder suprir as mais diferentes necessidades. Um projeto em aberto, que pudesse agasalhar os diferentes usos dessa área da região central de Presidente Prudente.

Tão logo, a partir de croquis, foi possível inferir um projeto que pudesse tirar partido da provisoriedade e da espontaneidade cotidiana ali detectadas. Assim, as representações da intervenção criada – uma espécie de banco multiuso – tentam exemplificar algumas das suas possibilidades de utilização. Um modelo possível, o projeto em aberto de um mobiliário articulável que pudesse ser colocado em quaisquer pontos da região central de Presidente Prudente.

Figuras 3 e 4 – Roupas estendidas por moradores na Praça Nove

de Julho.

Fonte: Esdras Veloso dos Santos (2012).

 

Figura 5 – Croqui do Banco Multiuso fechado e aberto.

Fonte: Esdras Veloso dos Santos (2013).

Além de poder servir como banco, pode ser utilizado na composição: mesa e cadeira, a qual possibilitaria a leitura, a escrita e o jogo de cartas – prática exercida constantemente por idosos na Praça Nove de Julho, entre outras ações. Há também a possibilidade de montá-lo como uma cama (principalmente para os moradores de rua), ou várias outras disposições que os usuários pudessem também sugerir.

Figura 6 – Croqui do Banco Multiuso: mesa e cadeira e em seguida

como cama.

Fonte: Esdras Veloso dos Santos (2013).

O material indicado para desenvolvê-lo poderia ser a madeira, disposta com dobradiças para suas articulações, pois seria um modo fácil e barato de construí-lo, além de favorecer sua mobilidade. Nesse caso, o protótipo proposto busca ser útil tanto àqueles que passam pela praça, transitam com alguma frequência, ou até mesmo aos que fizeram dela seu lar, agasalhando a pluralidade dos usos da cidade, coletiva e democraticamente.

Figuras 7, 8, 9 e 10 – Maquete eletrônica do Banco Multiuso nos formatos: fechado, de banco, como mesa e cadeira e em modelo de

cama, respectivamente.

Fonte: Esdras Veloso dos Santos (2013).

Araçatuba

Desenvolvimento do processo criativo

Fundada em 1908, com a chegada da ferrovia da Companhia Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (CEFNOB), a cidade de Araçatuba se desenvolveu com base nas atividades agropecuárias. A presença da estrada de ferro contribuiu para o crescimento da cidade, especialmente pelas edificações que se aglomeravam no centro, em torno da estação, a serviço da ferrovia, além das indústrias beneficiadoras de produtos agrícolas instaladas ao longo da linha férrea, até os anos 1950. A partir dessa época, Araçatuba iniciou um crescimento urbano generalizado, sobretudo em virtude da implantação da economia com base industrial. Aliado a isso, o incentivo ao transporte rodoviário levou à desativação do pátio ferroviário e a transferência dos trilhos para fora da malha urbana. Entre os anos 1980 e 1990, o antigo percurso dos trilhos deu lugar à Avenida dos Araçás. Como resquícios da ferrovia alguns edifícios antigos foram preservados, reformados e adaptados a novos usos, enquanto outros foram demolidos, ou estão aparentemente abandonados.

Atualmente, a deterioração da área central da cidade em contiguidade com o leito férreo se reflete de forma cabal na Praça Rui Barbosa, local ocupado por transeuntes, usuários de drogas e moradores de rua. Entretanto, a referida praça está interditada em virtude de sua reforma. Nesse sentido, entendemos que seria interessante pensar um projeto para essa área que pudesse agasalhar os usuários diversos que descrevemos, em vez de bani-los. Nesse caso, diante dos objetivos deste trabalho, são propostos bancos modulares, os quais assumem diferentes configurações, adaptando-se à realidade encontrada. Assim, em vez de uma reformulação que gentrifica o lugar, a Praça Rui Barbosa pode se tornar um espaço público que marca o centro urbano defronte a antiga esplanada da ferrovia acolhendo distintos tipos citadinos. Nessa proposição, os alunos envolvidos na pesquisa registraram digitalmente uma determinada situação: os transeuntes, os ambulantes e os andarilhos utilizando os bancos da praça central e das imediações para dormir e comercializar objetos; e, por meio de alguns croquis inferiram um projeto em aberto que pudesse tirar partido do improviso, da provisoriedade e espontaneidade cotidiana.

Figuras 11 e 12 – A antiga esplanada da ferrovia e a Praça Rui

Barbosa, em foto preto e branco, e o centro urbano de Araçatuba,

em foto colorida, quando o percurso dos trilhos deu lugar ao asfalto,

respectivamente.

Fonte: Museu de Araçatuba.

Figura 13 – Comércio informal realizado na Praça Rui Barbosa e em

seus arredores.

Fonte: Ana Paula Z. de Melo (2013).

Diante dos objetivos descritos, foi desenvolvida uma ideia que busca novas maneiras de encarar os espaços públicos na cidade contemporânea, um mobiliário urbano com encaixes, podendo assumir diferentes configurações, de acordo com as imprevisibilidades dos usos. Pode ser um único banco ou, módulos separados, oferecendo assentos com tamanhos e alturas diferentes. Além disso, se disposto de outra forma, esse mobiliário pode servir como mesa ou algum móvel para a exposição das mercadorias dos ambulantes e ou dos trabalhos artesanais das feiras que eventualmente ocorrem na praça.

Assim, esse projeto assume como seu sentido um caráter experimental do desafio de perceber e projetar, a partir de uma ideia de contínuo redesenho da Praça Rui Barbosa, entendendo o espaço público contemporâneo de uma maneira dinâmica e com liberdade de usos, porque passível de se transformar pela ação humana.

 

Figura 14 – Croquis do banco modular.

Fonte: Ana Paula Z. de Melo (2013).

 

Figura 15 – Maquetes do banco modular.

Fonte: Ana Paula Z. de Melo (2013).

Figura 16 – Representação em maquete eletrônica da Praça Rui

Barbosa: perspectiva com usos e disposições dos bancos.

Fonte: Ana Paula Z. de Melo (2013).

Figuras 17 e 18 – Representação em maquete eletrônica da Praça

Rui Barbosa: perspectiva com outros usos e disposições dos

bancos.

Fonte: Ana Paula Z. de Melo (2013).

 

Agradecimentos

Ao Programa de Bolsas de Iniciação Científica da Unesp, ao CNPq pelo apoio concedido e aos bolsistas: Esdras Veloso dos Santos e Ana Paula Z. de Melo, sob nossa orientação.

 

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1 Referimos-nos aqui à concepção de rizoma de Deleuze e Guattari (2004, p.3233): “O rizoma se refere a um mapa que deve ser produzido, construído, sempre desmontável, conectável, reversível, modificável, com múltiplas entradas e saídas, com suas linhas de fuga”. Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas. A árvore impõe o verbo ser, o rizoma tem como tecido a conjunção e... e... e...

2 O termo “caipira” não deve ser entendido como pejorativo, muito pelo contrário, porque está ligado às tradições que foram trazidas pelo homem do campo para as cidades do interior paulista, por sua simbiose com a natureza, dada sua origem nômade. Cf. Candido (2001).

3 Referimos-nos aqui, ao projeto realizado pelo nosso orientando Esdras Veloso dos Santos, apresentado no XXV Congresso de Iniciação Científica da Unesp, em outubro de 2013.

4 Cf. Ferrara (1996, p.12; 2000, p.122; 2002, p.109).

5 Cf. Hertzberger (1999), Koolhaas e Obrist (2009, p.40) e Tschumi (1996).

6 Cf. Derrida (2006, p.168). Essa entrevista a Jacques Derrida foi publicada pela primeira vez na Revista Domus, em 1986.

7 O termo “complex-cidade” diz respeito à pedagogia que vem sendo trabalhada por docentes do curso de Arquitetura e Urbanismo da FCT-Unesp e às pesquisas ligadas ao Grupo de Pesquisa em: Projeto, Arquitetura e Cidade. Significa o enfrentamento dos problemas urbanos contemporâneos com base na possibilidade de reflexão e consequente ação projetiva sobre a cidade real. Um trabalho sobre esse tema foi publicado e por nós apresentado no II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo, que aconteceu em Natal, no segundo semestre de 2012.

8 Tais exemplos decorrem da experiência didática em sala de aula, da orientação de Trabalhos Finais de Graduação em Arquitetura e Urbanismo e, em alguns casos, é resultado de estudos anteriores ligados ao tema em questão.

9 “Lotes vagos tornados temporariamente espaços públicos, portal de pedagogia transversal para renovação urbana, próteses arquitetônicas para habitações precárias, estacionamentos centrais reconfigurados como lugares de pernoite, cartografias subjetivas para intervenções mínimas, praça pública customizada por moradores locais, baixios de viadutos como laboratórios de reprogramação urbana, equipamentos solidários para vendedores ambulantes, ambientes digitais para autogestão em mutirão, extensão universitária dentro de assentamentos informais, empreendimento abandonado como possibilidade de coexistência e emancipação política, são algumas das arquiteturas possíveis com as quais objetivamos criar uma mediação. Cf. Campos, Teixeira, Marquez e Cançado (2008).

10 Talvez, nos nossos projetos a serem aqui elaborados, também consigamos abrir novas possibilidades socioeconômicas de inclusão dos “outros”, por meio de alternativas de obtenção de renda na confecção de projetos flexíveis e que sirvam como uma forma de reduzir impactos ambientais, pela reutilização de materiais construtivos coletados ou destinados à reciclagem.