Arte-ciência: processos criativos

Evandro Fiorin · Capítulo 5 de 11

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Arte-ciência: processos criativos

Design contemporâneo: poéticas da diversidade no cotidianoMônica Moura

Design contemporâneo: poéticas da

diversidade no cotidiano

 

Mônica Moura

 

Introdução

A revolução tecnológica expressa pela microeletrônica, telecomunicações, nanotecnologia, telemática e os sistemas informáticos, digitais e de redes, bem como o desenvolvimento da biotecnologia e das energias renováveis, entre outros, impulsionaram mudanças em praticamente todas as áreas do conhecimento e da produção humana.

A história nos comprova que as mudanças culturais, políticas, socioeconômicas e tecnológicas estabelecem outros processos, técnicas e materiais que, por sua vez, interferem e geram novos padrões de criação, de projeto, de produção, de relacionamento e comunicação.

Nesse cenário de mudanças vivenciadas entre os séculos XX e XXI, o campo do design passou por diversas modificações que resultaram em sua ampliação, flexibilização, disseminação e valorização.

A cada dia, mais pessoas tomam consciência de que o design está presente em todos os aspectos da vida, assim como diz Victor Margolin (2000), o design está sempre ao nosso redor, está em tudo! Ou, ainda, Paul Rand (2010) que, mediante a afirmação de que tudo tem design, nos lembra que existe o bom e o mau design. Por bom design, ele considera as relações complexas, a unificação de forma e conteúdo de maneira simples e objetiva; já o mau design é superficial, irrelevante e pretensioso. Para Rand, o design tem inúmeras definições, pode ser arte e estética – e ele dizia tentar sempre criar arte, pois as duas áreas, arte e design, trabalham com forma e conteúdo.

Se design e arte se relacionam, dialogam e até se hibridizam, especialmente nos tempos atuais, podem gerar e produzir poéticas. Abbagnano (1998) indica que a poética é a relação estabelecida a partir daquilo que é criado e que inspira o sensível por meio de um conjunto de reflexões que um criador faz sobre sua atividade ou sobre a arte em geral.

Por sua vez, a diversidade diz respeito à alteridade, às diferenças ou à dessemelhança, à convivência de ideais e ideias variáveis em torno de características, assuntos, elementos, situações, ambientes diferentes entre si. Os conceitos de pluralidade, multiplicidade e heterogeneidade estão relacionados à diversidade.

Uma das características que constroem o design contemporâneo é a diversidade, que dinamiza e possibilita a relação e criação de poéticas. Como poderemos observar nos exemplos analisados neste texto.

 

Design contemporâneo brasileiro: percursos e

dinâmicas

O caminho da valorização e da disseminação do design brasileiro se deu, especialmente, pelos aspectos econômicos e culturais. No cultural, incluem-se as questões relacionadas ao ensino e pesquisa, à formação, à capacitação e à qualificação em design.

Por meio dos processos de globalização, a identidade e a alteridade, bem como culturas locais, foram revalorizadas e estimuladas. No Brasil, ocorreu a retomada das culturas regionais e do artesanato, não apenas no aspecto cultural, mas também no aspecto econômico, gerando e estimulando o que veio a denominar-se como economia criativa. Segundo Howkins (2001), a economia criativa ocorre por meio de processos que envolvem criação, produção e distribuição de produtos, sistemas e serviços em que a criatividade é o principal recurso. A economia criativa no Brasil conta com uma secretaria vinculada ao Ministério da Cultura. O design é uma das áreas que pertencem à chamada economia criativa, assim como ocorre com o artesanato, a moda, a publicidade, as artes, o cinema e vídeo, a televisão, o segmento editorial, o rádio, os softwares de lazer e a música. Podemos observar como essas áreas se relacionam, se integram, e podem até se fundir e promover intensos diálogos.

As ações de política econômica, como o estabelecimento do microcrédito, a ampliação do crédito e do poder de compra da população brasileira, são fatores que contribuíram para o campo do design. Elas foram fortalecidas e somadas ao chamado empreendedorismo, à redução dos cargos e empregos tradicionais, ao aparecimento de novas profissões e ocupações e ao crescimento do setor de serviços e populacionais e as necessidades relacionadas à busca da qualidade de vida, do conforto, do bem-estar e da estetização do cotidiano. Questões muito bem exploradas pelo mercado na atual dinâmica consumista e que também indicam alguns dos principais motivos pelos quais o design brasileiro atravessa um período intenso e frutífero desde o final do século XX.

Entre as mudanças trazidas pela contemporaneidade no campo do design estão as relacionadas ao ensino e à profissionalização da área. Somado ao movimento de valorização do design em várias partes do mundo. O Brasil registrou, a partir dos anos de 1990, a proliferação de cursos de design por todo o país, tanto nas instituições de ensino públicas quanto nas particulares. Segundo a Sinopse Estatística do Censo da Educação Superior de 2010 do INEP/MEC (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira do Ministério da Educação e Cultura), existem 647 instituições de ensino (120 públicas e 527 privadas) que oferecem cursos de graduação presenciais e à distância, nas modalidades bacharelado e tecnólogos em design no país, perfazendo um total de 1.038 cursos de design, dos quais 200 estão nas universidades públicas e 838 nas instituições de ensino particulares. Esses cursos são registrados com as seguintes nomenclaturas: design e estilismo; decoração de interiores; design de interiores; desenho de moda; desenho industrial; design; moda; projeto de produto.

Podemos observar que existe uma variedade de denominações que convivem dentro da mesma área. Estilismo, decoração, desenho e projeto são nomenclaturas utilizadas para indicar esse segmento, embora, em 1997, o Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Superior (SESu) e da Diretoria de Regulação e Supervisão da Educação Superior, ter instituído o “Cadastro de denominações consolidadas para Cursos de Graduação (bacharelado e licenciatura)” que indicava a substituição da nomenclatura desenho industrial por design em todo o país, visando preparar “o futuro graduado para enfrentar os desafios das rápidas transformações da sociedade, do mercado de trabalho e das condições de exercício profissional” (MEC/SESU, 1997, p.1). Essa mudança foi regulamentada pela Resolução CNE/CES n.5, de 8 de março de 2004.

Mas é importante ressaltar que a discussão a respeito da nomenclatura ocorria muito antes de os órgãos ligados à educação no Brasil se pronunciarem a respeito e a legislação específica foi um reflexo das ações de acadêmicos e profissionais realizadas muitos anos antes. Em 1986, o Grupo Panorama organizou o Congresso Espaço Design 86, em São Paulo, onde foi decidido que a partir de então a nomenclatura adotada seria “design”, para denominar a área em geral; “design gráfico”, em substituição a “comunicação visual”; “design de produto” no lugar de “desenho industrial”.

A adoção da nomenclatura design em inglês, no final dos anos 1980 e consolidada nos anos 1990, não se deu só no Brasil, seguiu uma lógica dominante no mercado internacional, iniciada na Europa e, posteriormente pelos países asiáticos. Porém a adoção desse termo não foi simples nem tranquila. Várias discussões e questionamentos com relação a essa nomenclatura foram realizados. Mas os círculos profissionais e acadêmicos, o mercado, a mídia e a população em geral começaram a empregar a palavra design e designer, mesmo que, muitas vezes e até hoje, esses termos sejam empregados de forma inadequada, com o significado restrito apenas às questões da forma e do aspecto visual das coisas.

A partir de 1990, ocorreu a segmentação na formação em design conforme os cursos constituídos e ofertados com a proposta de atender a demandas regionais, segmentos e nichos de mercado. Ao mesmo tempo, o mercado de design se segmentou a partir das mudanças socioculturais, políticas e econômicas e diante da introdução das tecnologias de informação e de comunicação. Os anos 2000 trouxeram de volta um movimento de integração, tanto no mercado quanto no campo educacional, no sentido do design

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Os cursos de pós-graduação começaram no país a partir de 1994 e foram credenciados os primeiros cursos de doutorado em Design no Brasil a partir dos anos 2000, constituindo os programas de pós-graduação nesta área. Atualmente, contamos com dezessete instituições com programas de pós-graduação em Design, sendo oito doutorados, catorze cursos de mestrado acadêmico e três cursos de mestrado profissional, distribuídos nas regiões Sudeste, Sul, Nordeste e Centro-Oeste. Como propulsor e também reflexo dessa realidade, ocorreram o desenvolvimento das pesquisas científicas e o fortalecimento das publicações acadêmico-científicas na área. Em paralelo a este movimento, houve a consolidação dos eventos científicos, com a implantação de organizações profissionais, sociedades associações educacionais e científicas.Vários grupos de pesquisa se organizaram; hoje eles já somam de 520 no país, segundo dados do Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq.

Os anos 1990 também registraram a internacionalização do design brasileiro. Fato que ocorreu pela ação de alguns profissionais, especialmente os Irmãos Campana, que tiveram seus produtos fabricados e comercializados por grandes marcas internacionais, bem como passaram a ter seus produtos expostos em museus, galerias e feiras de design. Também obtiveram uma série de premiações, tornando-se presença constante na mídia nacional e internacional. Um aspecto que vai além do destaque desses profissionais é o fato de que os produtos criados e desenvolvidos por eles atuam na relação design, arte, artesanato.

Figura 1 – acima, Poltrona Vermelha (criada e produzida pelo

Estudio Cam-pana em 1993 e, a partir de 1998, produzida pela

EDRA, Itália); no centro, Poltrona Corallo (criada e produzida pelo

Estudio Campana em 2003 e, a partir de 2004, produzida pela

EDRA, Itália); abaixo, Poltrona Paraíba (2002) criada e produzida

pelo Estudio Campana.

Fonte: Poltronas Vermelha e Corallo: Cortesia Edra e Estudio

Campana; Poltrona Paraíba: Cortesia Estudio Campana, foto de

Calazans Estúdio (www.estudiocampana.com.br; www.edra.com). A partir daí o design brasileiro desenvolvido por diferentes profissionais foi inserido nas exposições, coleções e acervos de importantes museus de arte e de design internacionais. Hoje, há uma geração “pós-Campanas” constituída por coletivos e jovens profissionais autônomos que trilham caminhos semelhantes, abertos por estes designers pioneiros nesta questão.

Novos olhares, vindos de todos os cantos do Brasil, atestam

que a produção nacional não está mais restrita às grandes

metrópoles. Enquanto isso, no exterior, a criatividade do

produto nacional é celebrada em prosa e verso. Cada vez mais

se produz e se experimenta. (Lima, 2009, p.10)

A mídia em geral começou a dar atenção e a divulgar de forma mais intensa, dedicando espaços em seções, colunas e editoriais para a área e para os profissionais de design. O número de revistas e seções em jornais de grande circulação relacionadas ao tema aumentou, incluindo-se aí as revistas específicas que foram lançadas e outras consolidadas, bem como sites e blogs presentes na mídia digital online. Isso contribuiu para que fosse disseminada e valorizada a profissão e a área projetual graças ao entendimento de sua importância na cadeia produtiva e criativa. Também surgiram editoras especializadas em design ou com linhas editoriais específicas nesta área em seus vários segmentos, tendo como resultado muitas obras publicadas tanto de autores nacionais quanto internacionais.

Os eventos de design também foram retomados e ampliados. Como um dos exemplos, podemos citar a Bienal Brasileira de Design que teve uma edição na década de 1970 e foi descontinuada, tendo sido retomada em 2002 e, desde então, realizada continuamente, a cada dois anos, em diferentes capitais do país. Também nos anos 1990, foi instituída a Bienal de Design Gráfico, e outras tantas exposições de design passaram a constituir a agenda cultural de muitas cidades brasileiras, notadamente São Paulo e Rio de Janeiro.

Muitas premiações em design instituídas em concursos foram implantadas. O Prêmio Design Museu da Casa Brasileira foi fortalecido, ampliando suas edições ininterruptas e encontrando-se, em 2013, em sua 27ª edição anual. A seleção e a premiação nesses eventos conferem aos produtos, aos designers que os desenvolvem e as empresas que os produzem um diferencial, tal como um selo que valida essas ações no âmbito cultural e comercial, destacando a qualidade e o diferencial dos produtos e propiciando o aumento de seu consumo. As publicações acadêmicas passaram a participar dessa premiação a partir da 19ª edição, no ano de 2005, sob a designação de “trabalhos escritos”.

No campo acadêmico científico, o 1º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design – P&D foi inaugurado no ano de 1994 e é realizado a cada dois anos. Essa reunião científica impulsionou a existência de outros tantos eventos científicos no Brasil na área do Design.

 

Dos 1990 aos 2000 design e designers na cena

contemporânea

A partir do final dos anos 1990, os negócios relacionados ao design cresceram de forma significativa, tanto os relacionados à produção industrial quanto à manufaturada por causa da introdução de novas tecnologias. Além disso, tanto o sistema de venda para grandes massas quanto aquele destinado a públicos segmentados obtiveram ampliação e crescimento. Dessa forma, também vimos surgir o fortalecimento dos designers que atuam de forma independente, seja com sua própria marca ou atendendo a outras marcas.

A pós-industrialização gerou tecnologias e sistemas para viabilizar as manufaturas flexíveis, estimulou a diversidade, a multiplicidade e a pluralidade, bem como aproximou o inter-relacionamento entre áreas e campos distintos. A possibilidade de escolhas individuais do consumidor/usuário/sujeito levou os designers a explorar a personalização e a customização dos objetos e sistemas. O campo do design tomou novos rumos e traçou diferentes caminhos gerando a ampliação de atuação nesse campo, bem como destacando diferentes segmentos e subáreas.

Também foram constituídas e fortalecidas ações econômicas e comerciais, tais como diversas feiras e salões de design que foram inaugurados e ampliados a partir dos anos 2000. Diante da consolidação de um discurso em sintonia com a contemporaneidade, espaços e lojas comerciais de design transformaram-se em lojas conceituais, lojas pop-up, lojas ateliers, entrepostos, galerias, espaços culturais e coletivos, ou seja, palavras e conceitos do campo cultural e da arte foram adotados pelo mercado econômico. Os objetos e produtos de design tradicionalmente associados à produção industrial em larga e média escala convivem hoje ao lado de “peças únicas”, “peças seriadas e numeradas”, “peças assinadas”, “obras” de design que concorrem e se popularizam no mercado consumidor. Neste aspecto, ganharam importância e valor os designers (seus nomes, assinaturas e marcas), as peças e objetos projetados neste sistema e o mercado que é dinamizado por tais ações.

Inclusive objetos de design passaram a ser item de colecionadores e o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), com a curadoria da jornalista e crítica de design Adélia Borges, criou o Clube do Design. Os sócios dessa agremiação, a partir de contribuições mensais, recebem cinco obras ao ano, sendo estas em tiragens limitadas de cem exemplares e um destes exemplares passa a constituir o acervo do museu. A partir de 2013, a curadoria está sob a responsabilidade do designer e arquiteto Marcelo Rosenbaun. Todas essas questões se estabelecem como características marcantes do design contemporâneo.

Os designers, de um modo geral, ampliaram sua atuação na criação, expressão e experimentação, pois as ideias inovadoras, diferenciadas, conceituais e sensoriais passaram a ser, cada vez mais, valorizadas e estimuladas. Conforme Torrent e Marín (2007), os designers associados às indústrias de pequeno, médio ou grande porte transformaram projetos e protótipos em produtos para o bem-estar, mas também em ferramentas de marketing para a indústria e o comércio.

Além disso, a estabilização da economia em meados dos anos 1990 fez com que “tanto os produtores de móveis como os empresários de hotéis, restaurantes, bares e lojas entrassem em cena encarregando os mais importantes designers a converter o design em benefícios” (Coran; Fraser, 2008, p.20).

Cada vez mais foi se estabelecendo e fortalecendo a visão do que diferencia os designers na contemporaneidade, fato que ocorreu pela ação de nossos designers e por meio da capacidade de responder de forma diferenciada, criativa e, muitas vezes, inovadora às necessidades do homem e da vida atual.

Devemos lembrar que os termos “design e designer”, no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, também foram promulgados e instituídos a partir dos planos de marketing das indústrias de mobiliário e objetos europeias, notadamente as italianas e alemãs que, por meio da globalização e com investimentos visando à diferenciação, à originalidade e à identidade, diante do temor da concorrência global, incentivaram o consumo e o estilo promovendo a “cultura do design e a cultura do designer”. Como resultado, esse campo passa a ter atenção da mídia em geral e constitui uma plataforma promocional despertando, cada vez mais, a atenção da indústria e dos consumidores.

Diante dessa realidade, vemos o design brasileiro ganhando força, ampliando suas fronteiras internas e externas, atuando em sua expansão nacional e internacional e dialogando com outras culturas e campos de conhecimento.

A chegada dos anos 2000 apontou que a pluralidade dos segmentos de design – assim compreendidos e nomeados como industrial, de produto; visual, gráfico, de comunicação; de ambientes ou de interiores; de moda, de joias, de superfície, têxtil; design de informação, de hipermídia, digital, games, animação; design sustentável e ergodesign, entre outros – se aproximou da conscientização e do conhecimento a respeito da concepção e da ação projetual que envolvem todos os segmentos, áreas e subáreas. Antes de tudo vêm a criação, o projeto e o desenvolvimento independente do segmento de design, isto é, no sentido do design como um campo maior e como uma questão mais abrangente, incorporando atitudes e desafios políticos e sociais, deixando de lado a fragmentação das áreas e subáreas divisórias em busca de um pensamento projetual mais amplo e consistente. O trabalho com a concepção-criação-produção em design é, principalmente, pensamento e ação projetual, independentemente do segmento ou subárea. Ou seja, o profissional designer pode atuar em qualquer um desses segmentos, bem como em qualquer área de criação e desenvolvimento de produtos, objetos e sistemas. A ação do designer na contemporaneidade é ser, sobretudo, um tradutor de signos e linguagens.

Além da diluição de fronteiras na área interna ao design, ou seja, em seus segmentos acima citados, ocorrem também a aproximação e, muitas vezes, a hibridização do design com as áreas profissionais e campos de conhecimento externos ao seu domínio tradicional, tais como a medicina, a física, a nanotecnologia e a biotecnologia. Na contemporaneidade também se passa a integração entre as diversas áreas dialógicas a esse campo, tais como a arte, o artesanato, o cinema, a arquitetura, a engenharia, entre outras. Se o design contemporâneo se constrói por meio de expressões, projetos e produtos que compreendem uma dinâmica diferenciada e ampla, cada vez mais se estabelece a relação do design com outras ciências e conhecimentos como resposta à complexidade da vida do usuário, o ser humano dos tempos atuais pensado em sua pluralidade e diante da diversidade.

No design brasileiro, temos uma série de expressões com uma dinâmica diferenciada porque as questões da vida humana estão ficando cada dia mais complexas e inter-relacionadas, indicando o contínuo rompimento de fronteiras e a integração.

O campo do design abriu ou assumiu o diálogo com outras áreas de produção que eram consideradas à margem. Podemos inferir que o design ao ver valorizada sua identidade deixou de lado o temor em dialogar com a arte, a arquitetura, a engenharia. Os muros separatórios foram ruindo aos poucos e, ainda, estão no processo de diluição de suas barreiras. É um diálogo que vem sendo construído em favor de áreas que são projetuais e, nesse caminho, só se fortalecem. O mesmo ocorreu com as relações do design com o artesanato brasileiro. Tomou-se consciência de como as produções artesanais podem dialogar e valorizar a produção em design, somando e, com isso, ampliando campos de atuação e de produção, integrando a cultura brasileira. Isso ocorreu também com a moda e com a produção joalheira que tanto foram negadas pelo design brasileiro, estas não estavam somente à margem, muitas vezes eram mesmo consideradas marginais.

Mas o “estar à margem” vem de uma relação presente desde a antiguidade grega, com a separação entre “artes maiores” e “artes menores”. Bardi (1986) nos lembra que a arquitetura foi a matriz das artes ditas menores, incluindo aí a decoração e sendo seguida pelo design. Outras designações, tais como “arte aplicada”, “artes utilitárias” e “artes decorativas”, foram adotadas para nomear aquilo que era secundário, indiferente e considerado até mesmo pobre. Muitos escritos sobre história da arte, bem como muitos museus, adotam essas designações para adjetivar ou separar objetos de adorno, joias, vestimentas, estamparia, tecidos, porcelanas, louçarias e mobiliário, ou seja, produtos de design, da considerada grande arte ou “belas-artes”: pintura e escultura.

Bardi (1986) dizia que tanto a arte quanto o design não existem mais sem fins utilitários, atendem a um mercado e a “coisa-arte” ou “coisa-design” tornaram-se moedas de troca, tais como o ouro e os papéis de investimento. Porém o prazer sensível tanto pode ocorrer

ao escutar-se uma música de Bach quanto a visão de uma

geladeira, naturalmente quando as duas propostas satisfazem

nossa faculdade de conhecimento e sentimento. Trata-se de

expressões, individuais ou grupais, distintas em termos

espirituais ou práticos, porem sempre poéticas quando as

ouvimos ou observamos, cada uma contendo uma mensagem

capaz de nos persuadir. (Bardi, 1986, p.85)

Hoje, parece-nos que essa diferenciação e esse “estar à margem” se dissiparam ou estão em via de diluição, pois as fronteiras se misturam e hibridizam no contemporâneo. Não podemos esquecer que o design surgiu no mundo capitalista, mesmo que muitas vezes seja resultado de reflexos e ações sociais no sentido de design para todos ou design universal. Mas, em qualquer das situações, movimenta os setores políticos, econômicos, industriais, tecnológicos, culturais e de serviços.

Além das relações acima indicadas, o design ocorre a partir da construção de uma linguagem e com o objetivo de uma proposta. Esta, por vezes, é entendida, apenas como uma função a ser alcançada. Porém é importante destacar que, diante das mudanças contemporâneas, ocorre a conscientização do valor do objeto e das relações propiciadas por meio dele. A função de um produto ou objeto também se alterou e se ampliou indo além das questões formais-utilitárias. Isto é, a função não se restringe mais apenas à questão do uso e ação por meio do produto/artefato/objeto e passa a ser relacionada às questões emocionais, à reativação das lembranças e dos vínculos afetivos, à satisfação, à fruição, à experiência, ao prazer sensível, ao valor, ao estilo pessoal, ao modo de vida e ao que se entende por qualidade, conforto, bem-estar e prazer estético e sensível.

 

Design em fusão com a arte na construção de

poéticas contemporâneas

No design contemporâneo, os objetos são carregados das questões de inter-relação e fusão entre arte e design. Desde o envolvimento e a interação das pessoas no universo da experiência sensível até o lidar com a construção de discursos, provocar questionamentos, despertar para vivências e interpretações pessoais e subjetivas, estimulando a fruição estética, constituindo novas poéticas. O pensar a respeito do homem, da sociedade na qual ele vive em suas subjetividades e diversidades, também passa a ser uma das ações do designer na contemporaneidade.

A “I Mostra Internacional de Design”, realizada em 2006 em São Paulo, contou com a exposição denominada “Safety Nest – O ninho seguro” e nos revela os aspectos anteriormente abordados. Essa mostra teve curadoria geral de Nicola Goretti e consultoria curatorial de Paola Antonelli. A proposta da exposição se relacionava à discussão sobre segurança e violência nas cidades como metáforas dominantes no século XXI. E, também, ao papel do design na reflexão e sensibilização dos sujeitos na busca pela segurança e proteção a partir de olhares diferenciados e diversas culturas. A exposição reuniu designers de diversos países, refletindo e expressando a partir dessas proposições quando o risco assume multiplicidades de visões que se mesclam às contradições da realidade a partir dos sistemas de vigilância e da violência presentes nas cidades. Os designers convidados projetaram e constituíram cenários, tentando definir limites e questionamentos em espaços e instalações poéticas.

Figura 2 – Jacqueline Terpins: Mil folhas.

Fonte: Catálogo da I Mostra Internacional de Design – O ninho

seguro. Sesc (SP), 2006. Foto: Fábio Scrugli.

A designer brasileira Jacqueline Terpins desenvolveu a instalação denominada “Mil folhas” explorando o vidro – material base de seu trabalho com objetos e mobiliário. A sua criação e a sua reflexão tratam da dualidade vitral que, ao mesmo tempo, é frágil e rígida. A instalação apresentou uma alusão ao abrigo, com percursos em trilhas de areia cujo destino é um “centro”, onde, então, o observador vê sua imagem refletida como metáfora da única segurança possível, o seu próprio eu.

Figura 3 – Matthias Megyeri: Glass Figures/ RazorWire/ Railings/

Curtai.

Fonte: Catálogo da I Mostra Internacional de Design – O ninho

seguro. Sesc (SP), 2006. Foto: Fábio Scrugli.

A partir do vidro e do metal, Matthias Megyeri, designer alemão, discute a insegurança e a crueldade atribuindo novo conceito ao que é considerado normal na nossa sociedade: as grades de segurança e os recursos utilizados para a proteção. Dessa forma, explora sensações e percepções humanas relacionando o que é aparentemente ingênuo, como inocentes figuras de coelhos e pinguins, sequências de pequenas borboletas que lembram flores e o perfil de imagens de cidade que lembram o clima natalino: pinheiros, casas com chaminé, igrejas, fábrica e um pássaro que parece ter pousado em um muro para observar o silêncio e a singela paisagem. Porém são objetos cortantes que agridem e ferem a pessoa que tiver contato com esses recursos de proteção. Discute a nossa fragilidade e ao mesmo tempo a nossa crueldade com o outro na busca pela segurança. Megyeri diz que “designers devem oferecer soluções para as necessidades e problemas reais contemporâneos [...] uso os produtos como veículo para explorar questões sociais relevantes com abordagens críticas” (cf. Catálogo da I Mostra Internacional de Design, 2006, p.7).

 

Figura 4 – Simone Mattar: Gelúmina Poesia Luminofágica.

Fonte: Catálogo da I Mostra Internacional de Design – O ninho

seguro. Sesc (SP), 2006. Foto: Fábio Scrugli.

Simone Mattar, designer brasileira, explorou o efêmero, as sensações, o despertar dos sentidos a partir das conexões entre pessoas e objetos. Sua luminária de gelatina, denominada “Gelúmina”, é um objeto para ser visto, sentido e tocado, degustado, experimentado. Essa designer diz que os objetos que cria são “formas de pensamento que podem ser interpretados” (Cf. Catálogo da I Mostra Internacional de Design, 2006, p.6). Sua instalação continha três artefatos de luz com alimentos, propondo o conceito de segurança a partir do provimento no lar e reuniu “numa só ideia a gastronomia, o design gráfico, a arte e a poesia, com a proposta de abranger todos os sentidos” (cf. Catálogo da I Mostra Internacional de Design, 2006, p.6).

Objetos de design se aproximam da arte ao trazerem discussões contemporâneas sobre questões sociais e políticas e ao refletir e questionar a vida do homem neste momento e nesta sociedade. A exposição “O ninho seguro” destacou o desenvolvimento conceitual e de produção, a pluralidade e a diversidade cultural e artística no campo do design, apontando novos mercados.

Figura 5 – Simone Mattar: Como penso como.

Fonte: Catálogo Exposição Como penso como – Sesc (SP), 2013.

Fotos: André Portioli e Luna Garcia.

A mesma designer, Simone Mattar, em 2013, concebeu e levou a público a exposição intitulada “Como penso como”, na qual discute a relação entre o homem e a comida, nestes tempos de supervalorização da gastronomia e dos gourmets. Foram concebidos e projetados por ela os espaços, os objetos e os pratos criados especialmente para esta exposição onde a percepção humana e os sentidos visual, olfativo, sonoro e de paladar foram explorados. As referências partiam de músicas, textos e poesias declamadas por atores que representavam personagens. Os espaços expositivos dividiam-se em “Lightlock Sensorial”, “Bolo de rolo e Ilhas de Conteúdo”, “Experiência de Degustação” e “Cozinha”. A maioria dos objetos era comestível e mesclavam-se às iguarias criadas. Entre outros instigantes objetos e itens do cardápio, havia uma luminária feita de filigrana de mandioca; paçoca Amor de mousse de amendoim envolta em folha de banana; mousse de queijo com goiabada, envolta em papel de goiaba; pipoca de tapioca; prato-travesseiro de porcelana com sonho salgado com coroa de telha de alho; ossos de boi esculpidos por artesãs com cubos de abóbora; cabeça do Bispo Sardinha com referência a antropofagia. Durante o período da exposição, duas vezes ao dia, um grupo de trinta pessoas degustava os pratos criados. Esse trabalho demonstra a hibridização do design e da arte, estabelece relação com o artesanato, insere a área do food design, concebe e projeta o espaço, os objetos, a comida, as intervenções sonoras, textuais e espaciais, utiliza referências culturais, envolvendo o observador/sujeito/usuário a partir dos sentidos, do prazer, da fruição e pela reflexão e experiência estética. Mais contemporâneo impossível: grande exemplo das produções do design contemporâneo brasileiro!

 

Considerações finais

O design é um campo que revela as mudanças, os hábitos e estilos de vida do homem, bem como a produção estética e cultural em um processo entrecruzado com o tempo. Essas inter-relações são ampliadas e exploradas pelo design contemporâneo colocando em destaque a valorização do sensível, das poéticas e da diversidade presente nas relações do nosso tempo. Fato que, além de incorporar mudanças tecnológicas e conceituais, retoma a importância do usuário/sujeito no processo e na sua relação com o objeto projetado, fortalecendo a área no sentido de campo expandido.

A adjetivação design contemporâneo só deve ser aplicada quando o projeto ou o espaço ou o produto ou o objeto ou, ainda, todas essas coisas integradas são complexas e exploram sensibilidades e sensações, singularidades, diluições, fusões, mixagens, questionamentos e novas propostas, muito além e aprofundando as relações função e uso, forma e conteúdo. A concepção, criação e projetação, bem como a recepção e interação do usuário, são estimuladas diante de uma nova e diferenciada atitude e proposta. Muitas vezes gerando desestabilizações, incômodos, questionamentos, provocações, mas também levando à reflexão no universo do sensível, como é típico das vanguardas que instituem novas questões ao repertório dominante e estabelecido e do design que rompe com os paradigmas funcionalistas e racionalistas.

Cultura, conhecimento, informação, expressão e consumo se permeiam e se mesclam somando-se às questões do entre, das passagens, do trânsito que levam a multidimensionalidades, hibridismos, ecologias num movimento de intersecções, integrações, transversalidades que se alimentam pelas dicotomias e as aproximações. Ressignificações são instituídas constituindo novas construções materiais e simbólicas, bem como tornando presentes a recriação, a cocriação e a coautoria. É o domínio e a interferência do homem sobre a natureza e a paisagem, construindo e remodelando de forma peculiar o artificial e simbólico, gerando expressões e linguagens que vão se construindo, desconstruindo, reconstruindo questões em um processo cíclico contínuo.

O objeto de design explora essas relações até porque se encontra mais próximo e mais presente na vida de todas as pessoas. E o design contemporâneo brasileiro tem atuado e respondido com experimentações que geram novas e outras relações materiais, processuais e com expressividades que estimulam e constroem as poéticas da diversidade presentes no cotidiano.

 

Referências bibliográficas

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CATÁLOGO Como penso como. São Paulo: Sesc, 2013.

CORAN, T.; FRASER, M. Los diseñadores hablan sobre el diseño. Barcelona: Blume, 2008.

HOWKINS, J. The Creative Economy: How People Make Money from Ideas. UK: Penguin, 2001

KROEGER, M. Conversas com Paul Rand. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

LIMA, M. A boa safra do Design. O Estado de S. Paulo, 26/4/2009. Caderno Casa, p.8.

MARGOLIN, V. O design e a situação mundial. Arcos, v.1, Rio de Janeiro, UERJ/Contra Capa, 1998. (número único)

MOURA, Mônica Cristina de. O design de hipermídia. São Paulo: 2003. 357f. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica, PUCSP, São Paulo, 2003.

TORRENT, R.; MARÍN, J. M. Historia del diseño industrial. Madrid: Cátedra, 2005.

 

1 Essa denominação provém da obra total que era um dos objetivos da Bauhaus, bem como de outros movimentos que associavam o design, o artesanato e a arte. Em 1963, um grupo de designers holandeses (Win Crouwel – tipógrafo, Friso Kramer – designer de mobiliário e Benno Wissing – designer gráfico) fundou o escritório Total Design, cuja proposta era a aplicação da multifuncionalidade de seus projetos, aplicações e operações, desenvolvendo e aplicando design para uma mesma empresa/cliente em todas as necessidades e vertentes. Atualmente, a Total Design, além de ser um escritório subdividido em equipes de criação, é também uma consultoria. O termo Total Design foi adotado por vários estúdios e escritórios do mercado de trabalho para identificar a atuação em todos os segmentos do design, muitas vezes de forma integrada (Moura, 2003).