As musas
Capítulo 7
7 de outubro
Quando se mata um ser humano, não tem volta.
Entendo isso agora.
Vejo que me tornei uma pessoa totalmente diferente.
É um pouco como renascer, acho. Mas não um nascimento comum — é uma metamorfose. O que
surge das cinzas não é a fênix, mas uma criatura mais feia: deformada, incapaz de voar, um predador que usa as garras para cortar e dilacerar.
Eu me sinto sob controle agora, escrevendo isto. Num momento de calma e sanidade.
Mas há em mim mais de uma pessoa.
É só questão de tempo até meu outro eu surgir, com sede de sangue, tendo perdido a sanidade e
buscando vingança. E não descansará até encontrá-la.
Sou duas pessoas dentro da mesma mente. Parte de mim guarda meus segredos — só essa parte
conhece a verdade —, mas ela está presa, trancada, sedada, impedida de falar. Só encontra um jeito de escapar quando o carcereiro se distrai por um tempo. Quando me embebedo ou estou prestes a pegar no sono, essa parte tenta falar. Mas não é fácil. A comunicação vem aos trancos e barrancos — um plano de fuga codificado de um campo de prisioneiros de guerra. Quando chega muito perto, um guarda embaralha a mensagem. Um muro se ergue. Um vazio enche a minha mente. A lembrança que eu estava procurando evapora.
Mas vou perseverar. Devo perseverar. De algum modo encontrarei meu caminho através da
fumaça e da escuridão, e vou entrar em contato com ele — o meu lado são. O lado que não quer ferir as pessoas. Há muita coisa que ele pode me dizer. Muita coisa que preciso saber. Como, e por quê, acabei assim — tão distante do que queria ser, com tanto ódio e mágoa, tanta perversidade por dentro...
Ou estarei mentindo para mim? Será que fui sempre assim e não quis admitir?
Não — acho que não.
Afinal, todo mundo tem o direito de ser o herói da própria história. Logo, tenho o direito de ser o
herói da minha. Mesmo que não seja.
Eu sou o vilão.