As musas

Alex Michaelides · Capítulo 8 de 30

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As musas

Capítulo 7

 

 

7 de outubro

 

Quando se mata um ser humano, não tem volta.

Entendo isso agora.

Vejo que me tornei uma pessoa totalmente diferente.

É um pouco como renascer, acho. Mas não um nascimento comum — é uma metamorfose. O que

surge das cinzas não é a fênix, mas uma criatura mais feia: deformada, incapaz de voar, um predador que usa as garras para cortar e dilacerar.

Eu me sinto sob controle agora, escrevendo isto. Num momento de calma e sanidade.

Mas há em mim mais de uma pessoa.

É só questão de tempo até meu outro eu surgir, com sede de sangue, tendo perdido a sanidade e

buscando vingança. E não descansará até encontrá-la.

Sou duas pessoas dentro da mesma mente. Parte de mim guarda meus segredos — só essa parte

conhece a verdade —, mas ela está presa, trancada, sedada, impedida de falar. Só encontra um jeito de escapar quando o carcereiro se distrai por um tempo. Quando me embebedo ou estou prestes a pegar no sono, essa parte tenta falar. Mas não é fácil. A comunicação vem aos trancos e barrancos — um plano de fuga codificado de um campo de prisioneiros de guerra. Quando chega muito perto, um guarda embaralha a mensagem. Um muro se ergue. Um vazio enche a minha mente. A lembrança que eu estava procurando evapora.

Mas vou perseverar. Devo perseverar. De algum modo encontrarei meu caminho através da

fumaça e da escuridão, e vou entrar em contato com ele — o meu lado são. O lado que não quer ferir as pessoas. Há muita coisa que ele pode me dizer. Muita coisa que preciso saber. Como, e por quê, acabei assim — tão distante do que queria ser, com tanto ódio e mágoa, tanta perversidade por dentro...

Ou estarei mentindo para mim? Será que fui sempre assim e não quis admitir?

Não — acho que não.

Afinal, todo mundo tem o direito de ser o herói da própria história. Logo, tenho o direito de ser o

herói da minha. Mesmo que não seja.

Eu sou o vilão.