As musas

Alex Michaelides · Capítulo 3 de 30

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As musas

Capítulo 2

 

O grupo de segunda-feira à noite se reunia na sala da casa de Mariana.

Era uma sala espaçosa. Passou a ser utilizada para as sessões de terapia

logo depois que Mariana e Sebastian se mudaram para lá.

Eles gostavam muito da casa. Ficava no sopé de Primrose Hill, na zona

noroeste de Londres, e era do mesmo tom de amarelo das prímulas que

floresciam na encosta do morro durante o verão. Madressilvas escalavam

uma das paredes externas, cobrindo-a de flores brancas de perfume

adocicado, e, nos meses de verão, o aroma delas penetrava na casa pelas

janelas abertas, subindo a escada e permanecendo por um tempo nos

corredores e cômodos, enchendo-os de um cheiro doce.

Estava excepcionalmente quente naquela noite de segunda-feira. Apesar

de ser começo de outubro, um veranico prevalecia, como o convidado

persistente de uma festa se recusando a perceber nas folhas secas das

árvores os sinais de que talvez fosse hora de ir embora. O sol de fim de

tarde inundava a sala, banhando-a com uma luz dourada tingida de

vermelho. Antes da sessão, Mariana fechou as persianas, mas deixou as

janelas de guilhotina um pouco abertas, para o ar entrar.

Em seguida, dispôs as cadeiras num círculo.

Nove cadeiras. Uma para cada integrante do grupo e uma para Mariana.

Na teoria, deviam ser idênticas — mas não era assim que a vida funcionava.

Apesar de suas melhores intenções, ela havia acumulado, ao longo dos

anos, uma variedade de cadeiras de materiais diferentes e de diversos

formatos e tamanhos. Sua atitude blasé em relação às cadeiras talvez fosse

característica de seu modo de conduzir os grupos. Mariana era informal, até

incomum, em sua abordagem.

Terapia, principalmente terapia em grupo, foi uma escolha profissional

irônica para Mariana. Desde pequena ela nutria sentimentos contraditórios

— e até uma certa desconfiança — em relação a grupos.

Mariana havia sido criada na Grécia, nos arredores de Atenas. Morava

com a família numa grande casa velha, caindo aos pedaços, no topo de um

monte coberto por um tapete preto e verde de oliveiras. Quando criança,

Mariana se sentava no balanço enferrujado no jardim e contemplava abaixo

dela a cidade antiga, que se estendia até as colunas do Partenon, no topo de

outro monte a distância. Era tão vasta, parecia não ter fim; ela se sentia tão

pequena e insignificante, o que interpretava como mau augúrio.

Acompanhar a mulher que trabalhava na casa deles na ida às compras no

mercado movimentado e repleto de gente, no centro de Atenas, sempre

deixava Mariana nervosa. E se sentia aliviada, e um tanto perplexa, por

voltar ilesa para casa. Grupos grandes de pessoas continuaram a intimidá-la

pelo resto da vida. Na escola, ela se sentia deslocada, incompatível com os

colegas de turma. E era difícil se livrar desse sentimento de inadequação.

Anos depois, na terapia, ela entendeu que o pátio da escola era

simplesmente um macrocosmo do núcleo familiar: o que significava que

seu desconforto tinha menos a ver com o momento que vivia e com o local

onde estava — menos a ver com o pátio da escola em si, ou com o mercado

em Atenas, ou com qualquer outro grupo dentro do qual se visse de repente

— e mais com a família na qual fora inserida e com a casa isolada onde

vivera.

A casa deles era sempre fria, mesmo numa Grécia ensolarada. E havia

um certo vazio nela — uma ausência de calor, físico e emocional. Isso se

devia em grande parte ao pai de Mariana, que, apesar de ser um homem

admirável em vários aspectos — bonito, forte, de mente afiada —, era

também extremamente complexo. Mariana suspeitava de que ele havia

sofrido danos irreparáveis na infância. Ela não chegou a conhecer os avós

paternos, e ele raramente os mencionava. O pai dele era marinheiro, e,

quanto menos fosse dito sobre a mãe, melhor. Ela trabalhava nas docas,

contava ele, com uma expressão tão constrangida no rosto que Mariana

concluiu que havia sido prostituta.

Seu pai foi criado nas favelas de Atenas e nos arredores do porto de

Pireus — ainda criança, começou a trabalhar nos navios e logo se envolveu

no comércio e na importação de café, trigo e — Mariana imaginava —

outros itens menos palatáveis. Quando completou 25 anos, comprou o próprio barco e, a partir disso, montou seu negócio de transporte marítimo

de carga. Com muito suor, sangue e frieza, criou um pequeno império para

si.

Era um pouco como um rei, pensava Mariana — ou ditador. Só mais

tarde ela descobriu que era riquíssimo. Não que se pudesse notar, pelo jeito

austero e espartano como viviam. Talvez a mãe — sua mãe inglesa, gentil e

delicada — pudesse tê-lo amansado se tivesse vivido mais tempo. Mas

morreu tragicamente jovem, assim que Mariana nasceu.

Mariana cresceu bastante consciente dessa perda. Sendo terapeuta, ela

sabia que o primeiro senso de identidade de um bebê vem do olhar dos pais.

Nascemos sendo observados — as expressões faciais dos nossos pais, o que

vemos refletido no espelho dos olhos deles, determinam a maneira como

nos vemos. Mariana havia perdido o olhar da mãe — e seu pai, bem, ele

tinha dificuldade de encará-la. Costumava olhar por cima do ombro de

Mariana quando se dirigia a ela. Mariana procurava ajustar e reajustar sua

posição, dando um passo ao lado, colocando-se no campo de visão do pai,

esperando ser vista — mas, de algum modo, sempre permanecia na visão

periférica dele.

Nas raras ocasiões em que olhou bem dentro dos olhos dele, encontrou

tanto desdém, tanta decepção. Os olhos do pai lhe diziam a verdade: ela não

era boa o suficiente. Por mais que tentasse, Mariana tinha sempre a

sensação de que ficava aquém das expectativas dele, conseguindo fazer ou

dizer a coisa errada — ela parecia irritá-lo só por existir. Ele discordava

dela o tempo todo, fosse no que fosse, sendo um Petruchio para sua

Catarina — se ela dissesse que fazia frio, ele afirmava que fazia calor; se

ela dissesse que o dia estava ensolarado, ele insistia em que estava chuvoso.

Mas, apesar das críticas e da atitude contestadora do pai, Mariana o amava.

Ele era tudo que ela possuía, e ela ansiava ser digna do seu amor.

Houve pouquíssimo amor em sua infância. Mariana tinha uma irmã mais

velha, mas não eram muito íntimas. Elisa tinha sete anos a mais e não

demonstrava o menor interesse pela tímida irmã caçula. E, assim, Mariana

passava os longos meses de verão solitária, brincando sozinha no jardim

sob o olhar austero da mulher que trabalhava na casa deles. Então, não é de

admirar que tenha crescido um pouco isolada e desconfortável diante de

outras pessoas.

A ironia de Mariana ter se tornado terapeuta de grupo não lhe passava

despercebida. Mas, paradoxalmente, essa ambivalência com relação aos outros lhe serviu muito bem. Na terapia em grupo, o grupo, não o indivíduo,

é o foco do tratamento: ser terapeuta de grupo significa — até certo ponto

— ser invisível.

Mariana era boa nisso.

Em suas sessões, sempre que possível, se mantinha fora dos debates do

grupo. Interferia apenas quando o assunto morria, ou quando parecia útil

fazer uma interpretação, ou quando algo dava errado.

Nessa segunda-feira, o pomo da discórdia surgiu quase que

instantaneamente, exigindo uma rara intervenção. O problema — como de

costume — foi Henry.