As musas
Capítulo 2
O grupo de segunda-feira à noite se reunia na sala da casa de Mariana.
Era uma sala espaçosa. Passou a ser utilizada para as sessões de terapia
logo depois que Mariana e Sebastian se mudaram para lá.
Eles gostavam muito da casa. Ficava no sopé de Primrose Hill, na zona
noroeste de Londres, e era do mesmo tom de amarelo das prímulas que
floresciam na encosta do morro durante o verão. Madressilvas escalavam
uma das paredes externas, cobrindo-a de flores brancas de perfume
adocicado, e, nos meses de verão, o aroma delas penetrava na casa pelas
janelas abertas, subindo a escada e permanecendo por um tempo nos
corredores e cômodos, enchendo-os de um cheiro doce.
Estava excepcionalmente quente naquela noite de segunda-feira. Apesar
de ser começo de outubro, um veranico prevalecia, como o convidado
persistente de uma festa se recusando a perceber nas folhas secas das
árvores os sinais de que talvez fosse hora de ir embora. O sol de fim de
tarde inundava a sala, banhando-a com uma luz dourada tingida de
vermelho. Antes da sessão, Mariana fechou as persianas, mas deixou as
janelas de guilhotina um pouco abertas, para o ar entrar.
Em seguida, dispôs as cadeiras num círculo.
Nove cadeiras. Uma para cada integrante do grupo e uma para Mariana.
Na teoria, deviam ser idênticas — mas não era assim que a vida funcionava.
Apesar de suas melhores intenções, ela havia acumulado, ao longo dos
anos, uma variedade de cadeiras de materiais diferentes e de diversos
formatos e tamanhos. Sua atitude blasé em relação às cadeiras talvez fosse
característica de seu modo de conduzir os grupos. Mariana era informal, até
incomum, em sua abordagem.
Terapia, principalmente terapia em grupo, foi uma escolha profissional
irônica para Mariana. Desde pequena ela nutria sentimentos contraditórios
— e até uma certa desconfiança — em relação a grupos.
Mariana havia sido criada na Grécia, nos arredores de Atenas. Morava
com a família numa grande casa velha, caindo aos pedaços, no topo de um
monte coberto por um tapete preto e verde de oliveiras. Quando criança,
Mariana se sentava no balanço enferrujado no jardim e contemplava abaixo
dela a cidade antiga, que se estendia até as colunas do Partenon, no topo de
outro monte a distância. Era tão vasta, parecia não ter fim; ela se sentia tão
pequena e insignificante, o que interpretava como mau augúrio.
Acompanhar a mulher que trabalhava na casa deles na ida às compras no
mercado movimentado e repleto de gente, no centro de Atenas, sempre
deixava Mariana nervosa. E se sentia aliviada, e um tanto perplexa, por
voltar ilesa para casa. Grupos grandes de pessoas continuaram a intimidá-la
pelo resto da vida. Na escola, ela se sentia deslocada, incompatível com os
colegas de turma. E era difícil se livrar desse sentimento de inadequação.
Anos depois, na terapia, ela entendeu que o pátio da escola era
simplesmente um macrocosmo do núcleo familiar: o que significava que
seu desconforto tinha menos a ver com o momento que vivia e com o local
onde estava — menos a ver com o pátio da escola em si, ou com o mercado
em Atenas, ou com qualquer outro grupo dentro do qual se visse de repente
— e mais com a família na qual fora inserida e com a casa isolada onde
vivera.
A casa deles era sempre fria, mesmo numa Grécia ensolarada. E havia
um certo vazio nela — uma ausência de calor, físico e emocional. Isso se
devia em grande parte ao pai de Mariana, que, apesar de ser um homem
admirável em vários aspectos — bonito, forte, de mente afiada —, era
também extremamente complexo. Mariana suspeitava de que ele havia
sofrido danos irreparáveis na infância. Ela não chegou a conhecer os avós
paternos, e ele raramente os mencionava. O pai dele era marinheiro, e,
quanto menos fosse dito sobre a mãe, melhor. Ela trabalhava nas docas,
contava ele, com uma expressão tão constrangida no rosto que Mariana
concluiu que havia sido prostituta.
Seu pai foi criado nas favelas de Atenas e nos arredores do porto de
Pireus — ainda criança, começou a trabalhar nos navios e logo se envolveu
no comércio e na importação de café, trigo e — Mariana imaginava —
outros itens menos palatáveis. Quando completou 25 anos, comprou o próprio barco e, a partir disso, montou seu negócio de transporte marítimo
de carga. Com muito suor, sangue e frieza, criou um pequeno império para
si.
Era um pouco como um rei, pensava Mariana — ou ditador. Só mais
tarde ela descobriu que era riquíssimo. Não que se pudesse notar, pelo jeito
austero e espartano como viviam. Talvez a mãe — sua mãe inglesa, gentil e
delicada — pudesse tê-lo amansado se tivesse vivido mais tempo. Mas
morreu tragicamente jovem, assim que Mariana nasceu.
Mariana cresceu bastante consciente dessa perda. Sendo terapeuta, ela
sabia que o primeiro senso de identidade de um bebê vem do olhar dos pais.
Nascemos sendo observados — as expressões faciais dos nossos pais, o que
vemos refletido no espelho dos olhos deles, determinam a maneira como
nos vemos. Mariana havia perdido o olhar da mãe — e seu pai, bem, ele
tinha dificuldade de encará-la. Costumava olhar por cima do ombro de
Mariana quando se dirigia a ela. Mariana procurava ajustar e reajustar sua
posição, dando um passo ao lado, colocando-se no campo de visão do pai,
esperando ser vista — mas, de algum modo, sempre permanecia na visão
periférica dele.
Nas raras ocasiões em que olhou bem dentro dos olhos dele, encontrou
tanto desdém, tanta decepção. Os olhos do pai lhe diziam a verdade: ela não
era boa o suficiente. Por mais que tentasse, Mariana tinha sempre a
sensação de que ficava aquém das expectativas dele, conseguindo fazer ou
dizer a coisa errada — ela parecia irritá-lo só por existir. Ele discordava
dela o tempo todo, fosse no que fosse, sendo um Petruchio para sua
Catarina — se ela dissesse que fazia frio, ele afirmava que fazia calor; se
ela dissesse que o dia estava ensolarado, ele insistia em que estava chuvoso.
Mas, apesar das críticas e da atitude contestadora do pai, Mariana o amava.
Ele era tudo que ela possuía, e ela ansiava ser digna do seu amor.
Houve pouquíssimo amor em sua infância. Mariana tinha uma irmã mais
velha, mas não eram muito íntimas. Elisa tinha sete anos a mais e não
demonstrava o menor interesse pela tímida irmã caçula. E, assim, Mariana
passava os longos meses de verão solitária, brincando sozinha no jardim
sob o olhar austero da mulher que trabalhava na casa deles. Então, não é de
admirar que tenha crescido um pouco isolada e desconfortável diante de
outras pessoas.
A ironia de Mariana ter se tornado terapeuta de grupo não lhe passava
despercebida. Mas, paradoxalmente, essa ambivalência com relação aos outros lhe serviu muito bem. Na terapia em grupo, o grupo, não o indivíduo,
é o foco do tratamento: ser terapeuta de grupo significa — até certo ponto
— ser invisível.
Mariana era boa nisso.
Em suas sessões, sempre que possível, se mantinha fora dos debates do
grupo. Interferia apenas quando o assunto morria, ou quando parecia útil
fazer uma interpretação, ou quando algo dava errado.
Nessa segunda-feira, o pomo da discórdia surgiu quase que
instantaneamente, exigindo uma rara intervenção. O problema — como de
costume — foi Henry.