As musas
Capítulo 21
Pouco depois, Mariana se viu na sala do diretor, e lhe foi solicitado que
desse explicações sobre seus atos. Estava sentada diante do inspetor-chefe
Sangha, de Julian, do diretor... e de Edward Fosca.
Foi difícil encontrar as palavras certas. Quanto mais falava, mais sentia
que não acreditavam nela. Contando sua história em voz alta, percebia
como parecia implausível.
Edward Fosca tinha recuperado a compostura; ficou sorrindo para
Mariana o tempo todo, como se ela estivesse contando uma piada longa e
ele já soubesse qual seria o desfecho.
Mariana também havia se acalmado e fazia o seu melhor para se manter
tranquila. Apresentou a narrativa da maneira mais simples e direta que
pôde, com o mínimo de emoção possível. Explicou, passo a passo, como
chegara a essa incrível dedução: de que o professor tinha assassinado as três
estudantes.
As Musas despertaram suas suspeitas logo de cara, disse ela. Um grupo
de preferidas, todas mulheres jovens. Ninguém sabia o que se passava
naqueles encontros. E, como terapeuta de grupo e mulher, Mariana
dificilmente conseguiria não se preocupar. O professor Fosca exercia um
controle meio estranho sobre suas pupilas, feito um guru, disse Mariana.
Ela mesma havia testemunhado isso — até sua sobrinha tinha expressado
uma certa hesitação quanto a trair Fosca e o grupo.
— Esse é um típico comportamento grupal pouco saudável... um desejo
de se conformar e se sujeitar. Expressar opiniões contrárias ao grupo, ou ao
líder do grupo, gera muita ansiedade, isso se as opiniões puderem ser
expressadas, para começo de conversa. Foi o que senti quando a Zoe falou do professor... Tinha alguma coisa errada. Percebi que ela estava com medo
dele.
Grupos pequenos como esse, explicou Mariana, como as Musas, eram
vulneráveis à manipulação inconsciente ou a diversos tipos de violência.
Inconscientemente, as jovens podem tratar o líder do grupo como tratavam
o pai quando pequenas: com dependência e obediência.
— E, se você for uma jovem traumatizada — continuou ela — em
negação com relação à própria infância e ao sofrimento que suportou,
poderia muito bem ser conivente com outro agressor para manter essa
negação e fingir que o comportamento dele é perfeitamente normal. Se você
abrisse os olhos e o condenasse, teria que condenar outros em sua vida
também. Não sei como foi a infância dessas meninas. É fácil não levar a
Tara a sério e tratá-la como uma jovem privilegiada, sem problemas. Mas,
para mim, o uso excessivo de álcool e drogas sugere que ela era
problemática... e vulnerável. A Tara linda e fodida da cabeça... ela era a
preferida dele.
Manteve contato visual com Fosca ao dizer isso, ciente da crescente
raiva em sua voz e fazendo o possível para se controlar. Fosca olhava para
ela com frieza, um sorriso no rosto. Ela continuou, tentando manter a
calma:
— Percebi que estava olhando para os assassinatos do jeito errado. Não
era o trabalho de um louco, de um psicopata homicida motivado por uma
raiva incontrolável... Só era feito para ser visto dessa maneira. Essas
meninas foram mortas de um jeito metódico e racional. Mas a única que
precisava morrer era a Tara.
— E por que você acha isso? — perguntou Edward Fosca, falando pela
primeira vez.
Mariana olhou nos olhos dele.
— Porque a Tara era sua amante. E então alguma coisa aconteceu... ela
descobriu que você tinha outras?... e ameaçou expor você... e então como
seria? Você perderia seu emprego e esse mundo acadêmico elitista que tanto
valoriza; isso acabaria com a sua reputação... Você não podia deixar isso
acontecer. Ameaçou matar a Tara. E então cumpriu a ameaça. Infelizmente
para você, ela contou para a Zoe... e a Zoe me contou.
Fosca a encarou. Seus olhos escuros cintilavam feito gelo preto.
— Essa é a sua teoria?
— É. — Mariana sustentou o olhar dele. — Essa é a minha teoria.
Veronica e Serena te forneceram um álibi... estavam ambas suficientemente
enfeitiçadas por você para agirem assim... mas, depois, o que aconteceu?
Mudaram de ideia... ou ameaçaram mudar? Ou você queria garantir que
jamais mudariam de ideia?
Ninguém respondeu a essa pergunta. Houve apenas silêncio.
O inspetor-chefe não disse uma palavra sequer; serviu-se de um pouco
de chá. O diretor, perplexo, encarava Mariana, evidentemente incapaz de
acreditar no que escutava. Julian evitava olhar para ela e fingiu verificar
suas anotações.
Edward Fosca foi o primeiro a falar. Dirigiu-se ao inspetor-chefe
Sangha.
— Obviamente, eu nego isso. Tudo. E respondo de bom grado a
qualquer pergunta que você possa ter. Mas, antes de tudo, inspetor... eu
preciso de um advogado?
O inspetor ergueu a mão.
— Acho que ainda não chegamos a esse ponto, professor. Poderia
aguardar um instante? — Sangha olhou para Mariana. — Você tem alguma
prova que sustente essas acusações?
Mariana fez que sim.
— Tenho... esses cartões-postais.
— Ah. Os famosos cartões-postais.
Sangha olhou para os cartões à sua frente. Pegou-os e os embaralhou
devagar; em seguida os dispôs como se fossem cartas de baralho.
— Se entendi corretamente — disse ele —, você acredita que eles foram
enviados às vítimas antes de cada assassinato, como se fossem um aviso?
Anunciando a intenção dele de matar?
— Exatamente.
— E agora que você recebeu um deles... acha que está em perigo
iminente? Por que acha que ele a escolheu para vítima?
Mariana deu de ombros.
— Acho que... eu me tornei uma ameaça para ele. Cheguei perto demais.
Entrei na mente dele.
Ela não olhou para Fosca; não queria perder a compostura.
— Sabe, Mariana — ela ouviu Fosca dizer —, qualquer um pode copiar
uma citação grega de um livro. Não é necessário um diploma de Harvard.
— Estou ciente disso, professor. Mas, quando estive nas suas
dependências, vi a mesma citação sublinhada no seu exemplar de Eurípides.
É só coincidência?
Fosca riu.
— Se fôssemos agora até as minhas dependências... e pegássemos
qualquer livro da estante... vocês veriam que eu sublinho praticamente tudo.
— E continuou, antes que ela falasse: — E você acredita sinceramente que,
se fui eu que matei essas meninas, teria mandado cartões-postais com
citações de textos que eu ensinei a elas? Acha que eu seria tão burro?
Mariana balançou a cabeça.
— Não se trata de ser burro... você não imaginou que essas mensagens
seriam entendidas ou notadas pela polícia... ou por qualquer outra pessoa.
Era a sua piada interna... à custa das meninas. Foi isso que me fez ter
certeza de que foi você. Do ponto de vista psicológico, é o tipo de coisa que
você faria.
O inspetor Sangha reagiu antes que Fosca falasse.
— Para a sorte do professor Fosca, ele foi visto na faculdade na hora
exata do assassinato de Serena... à meia-noite.
— Quem o viu?
O inspetor foi se servir de mais chá, mas constatou que a garrafa térmica
estava vazia. Franziu a testa.
— Morris. O chefe dos bedéis. Ele encontrou o professor fumando do
lado de fora, e os dois conversaram por um tempo.
— Ele está mentindo.
— Mariana...
— Me ouve...
Antes que Sangha pudesse interrompê-la, Mariana disse que suspeitava
que Morris estivesse chantageando Fosca, e que o tinha seguido e
presenciado o encontro dele com Serena.
O inspetor-chefe pareceu ligeiramente surpreso. Inclinou-se para a frente
e a encarou.
— Você os viu... no cemitério? É melhor me dizer exatamente o que
estava fazendo lá.
Então ela contou, dando mais detalhes e, para sua frustração, quanto
mais a conversa se distanciava de Edward Fosca, mais o inspetor parecia se
empolgar com a ideia de Morris como suspeito.
Julian também.
— Isso explica como o assassino conseguia se deslocar sem ser visto.
Quem circula pela faculdade sem ser notado? Quem nós não vemos? Um
homem uniformizado, um homem que tem todo o direito de estar ali. Um
bedel.
— Exatamente.
O inspetor-chefe refletiu por um instante. Então acenou para um dos
policiais e o instruiu a trazer Morris para ser interrogado.
Mariana estava prestes a intervir, mesmo sabendo que não adiantaria
muito. Mas, nesse momento, Julian sorriu para ela. Ele disse:
— Escuta, Mariana. Eu estou do seu lado... então não fica chateada com
o que vou dizer.
— O quê?
— Para ser sincero, notei isso assim que vi você aqui em Cambridge.
Tive a sensação de que parecia um pouco estranha... meio paranoica.
Mariana não conseguiu conter uma risada.
— O quê?
— Sei que é difícil ouvir isso, mas é óbvio que você está sofrendo de
mania de perseguição. Você não está bem, Mariana. Precisa de ajuda. E eu
gostaria de te ajudar, se me deixar...
— Vai se foder, Julian.
O inspetor bateu na mesa com a garrafa térmica.
— Basta!
Fez-se silêncio. O inspetor-chefe falou com firmeza.
— Mariana, você testou a minha paciência várias vezes. Fez acusações
totalmente infundadas contra o professor Fosca... sem mencionar que o
atacou fisicamente. Ele tem todo o direito de prestar queixa.
Ela tentou interrompê-lo, mas Sangha continuou a falar.
— Não. Chega... agora você precisa me escutar. Quero que vá embora
amanhã cedo. Que fique longe desta faculdade e do professor Fosca, longe
desta investigação, longe de mim. Ou vou mandar prender você e acusá-la
de obstrução de justiça. Entendeu? Escuta o Julian. Liga para o seu médico.
Procura ajuda.
Mariana abriu a boca e reprimiu um grito, um uivo de frustração.
Engoliu a raiva e ficou em silêncio. Não havia por que argumentar mais.
Baixou a cabeça, indignada, derrotada.
Ela havia perdido.