As musas

Alex Michaelides · Capítulo 25 de 30

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As musas

Capítulo 21

 

Pouco depois, Mariana se viu na sala do diretor, e lhe foi solicitado que

desse explicações sobre seus atos. Estava sentada diante do inspetor-chefe

Sangha, de Julian, do diretor... e de Edward Fosca.

Foi difícil encontrar as palavras certas. Quanto mais falava, mais sentia

que não acreditavam nela. Contando sua história em voz alta, percebia

como parecia implausível.

Edward Fosca tinha recuperado a compostura; ficou sorrindo para

Mariana o tempo todo, como se ela estivesse contando uma piada longa e

ele já soubesse qual seria o desfecho.

Mariana também havia se acalmado e fazia o seu melhor para se manter

tranquila. Apresentou a narrativa da maneira mais simples e direta que

pôde, com o mínimo de emoção possível. Explicou, passo a passo, como

chegara a essa incrível dedução: de que o professor tinha assassinado as três

estudantes.

As Musas despertaram suas suspeitas logo de cara, disse ela. Um grupo

de preferidas, todas mulheres jovens. Ninguém sabia o que se passava

naqueles encontros. E, como terapeuta de grupo e mulher, Mariana

dificilmente conseguiria não se preocupar. O professor Fosca exercia um

controle meio estranho sobre suas pupilas, feito um guru, disse Mariana.

Ela mesma havia testemunhado isso — até sua sobrinha tinha expressado

uma certa hesitação quanto a trair Fosca e o grupo.

— Esse é um típico comportamento grupal pouco saudável... um desejo

de se conformar e se sujeitar. Expressar opiniões contrárias ao grupo, ou ao

líder do grupo, gera muita ansiedade, isso se as opiniões puderem ser

expressadas, para começo de conversa. Foi o que senti quando a Zoe falou do professor... Tinha alguma coisa errada. Percebi que ela estava com medo

dele.

Grupos pequenos como esse, explicou Mariana, como as Musas, eram

vulneráveis à manipulação inconsciente ou a diversos tipos de violência.

Inconscientemente, as jovens podem tratar o líder do grupo como tratavam

o pai quando pequenas: com dependência e obediência.

— E, se você for uma jovem traumatizada — continuou ela — em

negação com relação à própria infância e ao sofrimento que suportou,

poderia muito bem ser conivente com outro agressor para manter essa

negação e fingir que o comportamento dele é perfeitamente normal. Se você

abrisse os olhos e o condenasse, teria que condenar outros em sua vida

também. Não sei como foi a infância dessas meninas. É fácil não levar a

Tara a sério e tratá-la como uma jovem privilegiada, sem problemas. Mas,

para mim, o uso excessivo de álcool e drogas sugere que ela era

problemática... e vulnerável. A Tara linda e fodida da cabeça... ela era a

preferida dele.

Manteve contato visual com Fosca ao dizer isso, ciente da crescente

raiva em sua voz e fazendo o possível para se controlar. Fosca olhava para

ela com frieza, um sorriso no rosto. Ela continuou, tentando manter a

calma:

— Percebi que estava olhando para os assassinatos do jeito errado. Não

era o trabalho de um louco, de um psicopata homicida motivado por uma

raiva incontrolável... Só era feito para ser visto dessa maneira. Essas

meninas foram mortas de um jeito metódico e racional. Mas a única que

precisava morrer era a Tara.

— E por que você acha isso? — perguntou Edward Fosca, falando pela

primeira vez.

Mariana olhou nos olhos dele.

— Porque a Tara era sua amante. E então alguma coisa aconteceu... ela

descobriu que você tinha outras?... e ameaçou expor você... e então como

seria? Você perderia seu emprego e esse mundo acadêmico elitista que tanto

valoriza; isso acabaria com a sua reputação... Você não podia deixar isso

acontecer. Ameaçou matar a Tara. E então cumpriu a ameaça. Infelizmente

para você, ela contou para a Zoe... e a Zoe me contou.

Fosca a encarou. Seus olhos escuros cintilavam feito gelo preto.

— Essa é a sua teoria?

— É. — Mariana sustentou o olhar dele. — Essa é a minha teoria.

Veronica e Serena te forneceram um álibi... estavam ambas suficientemente

enfeitiçadas por você para agirem assim... mas, depois, o que aconteceu?

Mudaram de ideia... ou ameaçaram mudar? Ou você queria garantir que

jamais mudariam de ideia?

Ninguém respondeu a essa pergunta. Houve apenas silêncio.

O inspetor-chefe não disse uma palavra sequer; serviu-se de um pouco

de chá. O diretor, perplexo, encarava Mariana, evidentemente incapaz de

acreditar no que escutava. Julian evitava olhar para ela e fingiu verificar

suas anotações.

Edward Fosca foi o primeiro a falar. Dirigiu-se ao inspetor-chefe

Sangha.

— Obviamente, eu nego isso. Tudo. E respondo de bom grado a

qualquer pergunta que você possa ter. Mas, antes de tudo, inspetor... eu

preciso de um advogado?

O inspetor ergueu a mão.

— Acho que ainda não chegamos a esse ponto, professor. Poderia

aguardar um instante? — Sangha olhou para Mariana. — Você tem alguma

prova que sustente essas acusações?

Mariana fez que sim.

— Tenho... esses cartões-postais.

— Ah. Os famosos cartões-postais.

Sangha olhou para os cartões à sua frente. Pegou-os e os embaralhou

devagar; em seguida os dispôs como se fossem cartas de baralho.

— Se entendi corretamente — disse ele —, você acredita que eles foram

enviados às vítimas antes de cada assassinato, como se fossem um aviso?

Anunciando a intenção dele de matar?

— Exatamente.

— E agora que você recebeu um deles... acha que está em perigo

iminente? Por que acha que ele a escolheu para vítima?

Mariana deu de ombros.

— Acho que... eu me tornei uma ameaça para ele. Cheguei perto demais.

Entrei na mente dele.

Ela não olhou para Fosca; não queria perder a compostura.

— Sabe, Mariana — ela ouviu Fosca dizer —, qualquer um pode copiar

uma citação grega de um livro. Não é necessário um diploma de Harvard.

— Estou ciente disso, professor. Mas, quando estive nas suas

dependências, vi a mesma citação sublinhada no seu exemplar de Eurípides.

É só coincidência?

Fosca riu.

— Se fôssemos agora até as minhas dependências... e pegássemos

qualquer livro da estante... vocês veriam que eu sublinho praticamente tudo.

— E continuou, antes que ela falasse: — E você acredita sinceramente que,

se fui eu que matei essas meninas, teria mandado cartões-postais com

citações de textos que eu ensinei a elas? Acha que eu seria tão burro?

Mariana balançou a cabeça.

— Não se trata de ser burro... você não imaginou que essas mensagens

seriam entendidas ou notadas pela polícia... ou por qualquer outra pessoa.

Era a sua piada interna... à custa das meninas. Foi isso que me fez ter

certeza de que foi você. Do ponto de vista psicológico, é o tipo de coisa que

você faria.

O inspetor Sangha reagiu antes que Fosca falasse.

— Para a sorte do professor Fosca, ele foi visto na faculdade na hora

exata do assassinato de Serena... à meia-noite.

— Quem o viu?

O inspetor foi se servir de mais chá, mas constatou que a garrafa térmica

estava vazia. Franziu a testa.

— Morris. O chefe dos bedéis. Ele encontrou o professor fumando do

lado de fora, e os dois conversaram por um tempo.

— Ele está mentindo.

— Mariana...

— Me ouve...

Antes que Sangha pudesse interrompê-la, Mariana disse que suspeitava

que Morris estivesse chantageando Fosca, e que o tinha seguido e

presenciado o encontro dele com Serena.

O inspetor-chefe pareceu ligeiramente surpreso. Inclinou-se para a frente

e a encarou.

— Você os viu... no cemitério? É melhor me dizer exatamente o que

estava fazendo lá.

Então ela contou, dando mais detalhes e, para sua frustração, quanto

mais a conversa se distanciava de Edward Fosca, mais o inspetor parecia se

empolgar com a ideia de Morris como suspeito.

Julian também.

— Isso explica como o assassino conseguia se deslocar sem ser visto.

Quem circula pela faculdade sem ser notado? Quem nós não vemos? Um

homem uniformizado, um homem que tem todo o direito de estar ali. Um

bedel.

— Exatamente.

O inspetor-chefe refletiu por um instante. Então acenou para um dos

policiais e o instruiu a trazer Morris para ser interrogado.

Mariana estava prestes a intervir, mesmo sabendo que não adiantaria

muito. Mas, nesse momento, Julian sorriu para ela. Ele disse:

— Escuta, Mariana. Eu estou do seu lado... então não fica chateada com

o que vou dizer.

— O quê?

— Para ser sincero, notei isso assim que vi você aqui em Cambridge.

Tive a sensação de que parecia um pouco estranha... meio paranoica.

Mariana não conseguiu conter uma risada.

— O quê?

— Sei que é difícil ouvir isso, mas é óbvio que você está sofrendo de

mania de perseguição. Você não está bem, Mariana. Precisa de ajuda. E eu

gostaria de te ajudar, se me deixar...

— Vai se foder, Julian.

O inspetor bateu na mesa com a garrafa térmica.

— Basta!

Fez-se silêncio. O inspetor-chefe falou com firmeza.

— Mariana, você testou a minha paciência várias vezes. Fez acusações

totalmente infundadas contra o professor Fosca... sem mencionar que o

atacou fisicamente. Ele tem todo o direito de prestar queixa.

Ela tentou interrompê-lo, mas Sangha continuou a falar.

— Não. Chega... agora você precisa me escutar. Quero que vá embora

amanhã cedo. Que fique longe desta faculdade e do professor Fosca, longe

desta investigação, longe de mim. Ou vou mandar prender você e acusá-la

de obstrução de justiça. Entendeu? Escuta o Julian. Liga para o seu médico.

Procura ajuda.

Mariana abriu a boca e reprimiu um grito, um uivo de frustração.

Engoliu a raiva e ficou em silêncio. Não havia por que argumentar mais.

Baixou a cabeça, indignada, derrotada.

Ela havia perdido.