Assassinatos na Academia Brasileira de Letras

Jô Soares · Capítulo 2 de 3 · parte 1/3

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Assassinatos na Academia Brasileira de Letras

O Paiz

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

RIO DE JANEIRO, QUARTA-FEIRA, 31 DE OUTUBRO DE 1923

Supplemento

Literário

Extraordinário o successo alcançado pelo último livro do senador Beluário Bezerra, o excellente “Assassinatos na Academia Brasileira de Letras”.

Como já assinalou esta columna, a obra conta, com muito humor e verve, a história de um mallogrado poeta decidido a vingar-se dos membros da Academia Brasileira de Letras, pois, por duas vezes, os illustres acadêmicos negaram-lhe aquelles tão cobiçados votos que o acclamariam como “Immortal”.

Irônieamente, êste trabalho, que vem coroar uma carreira illuminada por innúmeros successos, deve credenciar inda mais o inspirado auctor para occupar uma cadeira na prestigiosa instituição. Aliás, a de número déz, uma das mais attrahentes daquelle Olympo literário, et pour cause: a cadeira número déz teve Ruy Barbosa como fundador.

Escriptor de estylo atrevido e innovador, Bezerra é também um dos políticos mais influentes da República, tendo sido eleito successivamente senador por Pernambuco.

Beluário Bezerra mudar-se-á, n'êste mez, do Grande Hotel para o recém-inaugurado hotel Copacabana Palace.

 

QUARTA-FEIRA, 2 DE ABRIL DE 1924

ANTEVÉSPERA DA IMORTALIZAÇÃO

Ao sair do chuveiro às nove horas da manhã, o senador Beluário Bezerra examinou-se no grande espelho do banheiro da suíte no último andar do Copacabana. Aprovou com um sorriso a imagem que o cristal bisotado lhe devolvia: apesar dos cinqüenta anos, a ginástica sueca praticada diariamente deixava-o com aparência de quarenta. Tinha a convicção de que, além do seu barbeiro, ninguém notava que devia os cabelos negros como azeviche a Auréole, uma nova tinta inventada por Eugène Schueller, fundador da L'Oréal, que ele comprava regularmente em Paris. Penteava-os para trás, imaculados, com brilhantina Yardley. Não fosse o sotaque carregado e o indefectível terno branco de linho S-120, passaria por um legítimo latin lover do cinema americano. Bem merecera o apelido de Rodolfo Valentino da Zona da Mata. Seus inimigos abreviaram a alcunha para Valentino da Zona. Todos sabiam que Belizário freqüentava os salões das cafetinas mais requintadas do Rio de Janeiro. Ninguém tinha coragem de pronunciar a forma reduzida do apelido na presença dele. O senador era valente e jamais se separava da sua Parabellum, nem mesmo nas sessões do Senado.

Sua família, dedicada ao cultivo da cana e às usinas de açúcar desde os tempos de Maurício de Nassau, era proprietária de metade da Zona da Mata pernambucana, devastada pela agricultura canavieira, e exercia influência política sobre a outra metade. A valentia dos Bezerra em Pernambuco era lendária, forjada ainda na luta contra os holandeses. Considerado por muitos o melhor partido do Rio de Janeiro, eram quase audíveis os suspiros das moças de sociedade quando, nos saraus, ele dizia alguns poemas. Vaidoso como poucos, Belizário nunca se furtava a declamar seus versos pouco inspirados. Diga-se a bem da verdade que os dotes literários dele não chegavam a causar impressão. Sem sua fortuna e influência política, jamais teria sido publicado.

O sucesso de vendas dos livros era creditado, em grande parte, ao próprio autor, que comprava várias edições por intermédio dos secretários e mandava distribuir entre os empregados das suas herdades e usinas. Noventa por cento dos peões eram analfabetos, mas guardavam os livros num relicário ao lado da Bíblia Sagrada.

Mesmo assim, o acadêmico pernambucano Euzébio Fernandes, cujos dotes de poeta só se igualavam aos de articulador, garantira a eleição do senador para a Academia. O poder dos Bezerra estendia-se muito além das fronteiras de Pernambuco. Eram freqüentes as visitas que Beluário fazia ao presidente Arthur Bernardes quando saía do Lamas depois do jantar, indo a pé do restaurante, no largo do Machado, até o palácio do Catete. Ademais, a quantia que doara para ajudar nas instalações da nova sede no Petit Trianon suavizara a imparcialidade dos acadêmicos. O fato de tratar-se da cadeira número 10, que pertencera a Ruy Barbosa, um dos mais notáveis membros fundadores, acrescia honra maior ao evento.

Beluário Bezerra andava esfuziante como um adolescente. Vestiu um dos quarenta ternos brancos do guarda-roupa e saiu do hotel no seu Hispano-Suiza conversível pela avenida Atlântica, assobiando um frevo do último Carnaval de Olinda.

VAIDADE DAS VAIDADES, TUDO É VAIDADE!

O destino do senador era a oficina do alfaiate Camilo Rapozo, no centro da cidade, para os últimos retoques no fardão que usaria dali a dois dias, na noite da posse. O alfaiate esperava-o desde segunda-feira, mas o senador só chegara do Nordeste na terça.

Rapozo era o último representante do ateliê de sua família: filho único, não pretendia renunciar à solteirice apenas para perpetuar através da prole a alfaiataria fundada por seu tataravô António Gomes Rapozo, em Lisboa, artífice de cortes e costuras da corte portuguesa e alfaiate do marquês de Pombal. O avô, Apolinário Rapozo, recebera o título de artífice-alfaiate-mor de Sua Majestade e chegara ao Brasil trazido por d. João m, que não lhe dispensava os talentos.

Aos trinta e seis anos, Camilo era um homem musculoso, de tez morena e olhos oblongos, herança dos mouros que ocuparam a península Ibérica. A cabeça, raspada à navalha, ressaltava-lhe o formato oval do rosto. Durante anos, o topo fora parcialmente coberto por poucos cabelos, que ele deixava crescer de um lado até a altura dos ombros e penteava para o outro, por cima do crânio, numa vã tentativa de ocultar a calvície precoce. Fixava o laborioso emaranhado com gomina argentina, que, quando seca, transformava as ralas madeixas numa carapaça negra.

O vento era seu pior inimigo. Certa vez, quando se dirigia a pé para casa, uma ventania levantou o tampo construído a duras penas com os fios escassos. Foi nesse momento aviltante que o alfaiate resolveu se livrar do inútil penteado.

Sua maior vaidade era a unha desproporcionalmente longa no dedo mindinho da mão direita. Havia um motivo profissional para aquela discrepância: a unha era uma ferramenta de trabalho, pontiaguda como um pequeno punhal. Rapozo seguia o hábito dos grandes alfaiates de Lisboa, que a usavam para marcar correções no pano quando da primeira prova. Com a concisão de um compasso, ele traçava círculos perfeitos, calcando a ponta afiada na trama dos tecidos ingleses.

Camilo conhecia os segredos da confecção de uniformes, fardões, redingotes e casacas, segredos que vinham sendo transmitidos por sua família havia dois séculos. Pela prática do ofício, sabia, como poucos, quais os vieses e outros cortes oblíquos que davam um caimento impecável à camurça de lã inglesa do fardão. Incomparáveis as costuras com fio de ouro francês, o remate dos galões, o leve pregueado das passamanarias, o conforto provocado pelo recorte milimétrico das cavas e, o mais difícil, o peitilho encimado por um colarinho rígido, soberbo, porém inacreditavelmente confortável.

Não menos importante era a exatidão do gancho das calças, com folga aconchegante à esquerda e o cós na altura certa. Conhecendo o poder calórico dos quitutes do chá das cinco, o alfaiate de mãos mágicas conseguia esconder, sem prejudicar o corte e os ornamentos, sobras de fazenda dobradas em plissês e bainhas falsas, o que permitia alargar a vestimenta acompanhando a corpulência sedentária dos imortais.

Tantos talentos transformaram Camilo Rapozo no alfaiate oficial da Academia Brasileira de Letras.

ALFAIATARIA DEDAL DE OURO

A PROVA DE UM HÁBITO QUE FAZ O MONGE

Beluário Bezerra apertou a campainha, e Camilo, numa reverência, abriu a porta para o celebrado cliente. O alfaiate vestia-se com apuro e trazia presa ao pulso a tradicional almofadinha povoada por dezenas de alfinetes. Empunhava um exemplar do Assassinatos na Academia Brasileira de Letras.

— Será que, antes de experimentar o fardão, o senador pode me dar um autógrafo? — pediu Rapozo, correndo, com livro e caneta, atrás de Beluário, que se dirigia a passos largos para a cabine de prova.

Indiferente, sem dizer uma palavra, Bezerra rabiscou seu nome numa caligrafia ilegível.

— Vai demorar? — perguntou. — Tenho reuniões no Senado.

— Não, não! Vou já buscar. Está belíssimo, uma obra-prima! Também, o físico do senador ajuda muito... — disse o alfaiate, adulador.

Largou a caneta e o livro no balcão, e seguiu, com passos miúdos, até os fundos da alfaiataria. Voltou de lá trazendo nos braços o fardão como se fosse a capamagna do papa.

— Nem vai precisar de retoques. E de longe o meu melhor trabalho.

No afã de se vestir, Bezerra pôs logo a parte superior, o que provocou o risinho dissimulado do alfaiate. Vendo-se no espelho, Beluário percebeu o motivo da chacota: lá estava ele de cuecas e imortal da cintura para cima.

—Vamos com isso que eu não tenho o dia todo — disparou, irritado.

Realmente nada havia a corrigir. A vestimenta sublinhava o porte altivo de Beluário Bezerra. Embevecido, o escrevedor imaginava-se aceitando a nomeação num constrangimento simulado. Aproveitando o momento de enlevo do senador, Camilo atreveu-se:

— E quanto ao pagamento, Imortal? — perguntou, tratando-o pelo título ainda não oficializado. Será que tarda?

—Você sabe muito bem que é costume o governo do estado natal do escritor oferecer o fardão. Não me meto nisso — respondeu Beluário rispidamente.

Obvio que Bezerra poderia pagar o vestuário. Embora caríssimo, não era mais do que ele gastava numa noitada com os amigos nos bordéis de luxo das Laranjeiras. Se não o fazia, era apenas por uma questão de vaidade. Era praxe, uma lei não escrita: o estado do imortal morria com a conta do alfaiate. Só que Rapozo não se conformava. Já lhe deviam vários fardões, com a desculpa de que a verba sairia dos cofres públicos.

— Tenha paciência, seu Rapozo! — diziam. — E a glória de ser o homem que veste a Academia?

— Glória não enche a barriga dos meus filhos retrucava Camilo, que não os tinha nem pretendia tê-los.

O senador dirigiu-se para a saída.

— Entregue amanhã no meu hotel.

Enquanto o alfaiate abria a porta pensando no seu provável prejuízo, Bezerra deu-lhe um envelope. Rapozo animou-se, antevendo a gorda propina.

— É um convite para a posse — explicou, magnânimo, o futuro imortal, estendendo o cartão. Venha ao hotel antes pra ajudar a me vestir.

— Claro, Excelência. Obrigado, Excelência...

Ao cruzar a soleira, Beluário virou-se rapidamente.

— Ah! Antes que eu me esqueça. — Inclinando-se, passou a mão na cabeça lisa do alfaiate. — É pra dar sorte... — esclareceu, e saiu batendo a porta.

O imperturbável mestre alfaiate suspirou, engolindo mais uma vez a humilhação que sentia quando o usavam como amuleto. Sim, porque Camilo Rapozo era anão.

Filho, neto e bisneto de anões alfaiates, todos perfeitos, como os sete da Branca de Neve.

 

SEXTA-FEIRA, 4 DE ABRIL DE 1924

A POSSE DO IMORTAL

Em 1923, o governo francês, por meio do seu embaixador Alexandre Conty, doou à Academia uma réplica do Petit Trianon de Versalhes, edifício construído um ano antes, na avenida Presidente Wilson, no centro da cidade, para abrigar o pavilhão da França na Exposição do Centenário da Independência. Nessa noite abrasadora de abril dar-se-ia a primeira posse de um imortal na nova sede. O Salão Nobre estava mais quente ainda devido à quantidade de pessoas famosas que se apinhavam no local. Graças ao prestígio do senador, além dos acadêmicos, havia deputados, outros senadores e o ministro da Viação e Obras Públicas. Sérgio Loreto, governador de Pernambuco, mandara representante. Senhoras elegantes tentavam afastar o calor com leques rendados de hastes de madrepérola. Vinham presenciar a noite de glória do inefável beletrista.

Um alarido ecoou pela sala, saudando a chegada do futuro imperecível. Belizário Bezerra, o Rodolfo Valentino da Zona da Mata, assemelhava-se a um imperador de opereta. O colar banhado de ouro e o espadim lavrado aprimoravam essa aparência. A tez queimada pelo sol do Nordeste fundia seu rosto com o verde e o dourado do esplêndido vestuário. Carregava, sob o braço, o chapéu bicorne emplumado, e percorreu o salão debaixo de aplausos, apertando mãos úmidas entre as luvas brancas. O andar de Beluário tinha a firmeza marcial dos militares e a graça dos bailarinos. À sua passagem ouviam-se exclamações arrebatadas: “Quel panache!”, “Quelle allure!”. Um desavisado que desconhecesse a ocasião e o visse passar assim paramentado seguramente perguntaria, inclinando-se num salamaleque: “Sois rei?”.

A noite anunciava-se auspiciosa. Bezerra seria acolhido na Casa de Machado de Assis por seu mais empenhado cabo eleitoral e conterrâneo do Recife, o poeta Euzébio Fernandes. A competência inegável que Euzébio demonstrava para a lisonja exigida pelas circunstâncias não lhe diminuía o talento de escritor. Era poeta maior, admirado por Bilac e por outros freqüentadores da Livraria Garnier.

Nessa noite ele envergava uma sóbria casaca preta. Afirmava que o fazia por modéstia, mas a verdade é que nem os recursos milagrosos do alfaiate Camilo Rapozo conseguiriam que o antigo fardão voltasse a emoldurar a robustez do vate: Fernandes engordara vinte quilos desde sua posse. Com fartos bigodes e barriga empinada, parecia irmão gêmeo do poeta Emílio de Menezes.

Para espanto geral, e contrariando o protocolo, o volumoso poeta iniciou a solenidade, privilégio do homenageado. As palavras com que recebeu Belizário Bezerra foram um primor de conciliação. Em duas horas de fraseados retumbantes, por várias vezes logrou elogiar o autor sem falar da sua obra. Ao terminar, citou apenas o último livro, Assassinatos na Academia Brasileira de Letras: finalmente, não poderia me furtar também ao panegírico da nossa altipensante instituição, que se demonstrou capaz de rire de soi-même com a espirituosa trouvaille do insigne escritor, o qual levou o picaresco vilão de seu romance a nos envenenar a todos de uma vez. Oh, deliciosa burla! Oh, brilhante facécia! Como dizia Voltaire, “l' humour est L' apanage de L' intelligencé'. Parabenizo o autor e a Academia. Bravo L'auteur! Bravo L'Académie!

Orador brilhante e histriônico, Euzébio foi brindado com aplausos calorosos.

Agora era a vez do novo acadêmico. Beluário preparara um texto com elogios bombásticos a Ruy Barbosa, falecido menos de um ano antes. A expectativa adensava-se, tornando-se quase palpável no Salão Nobre da nova Academia. O calor e o pesado fardão faziam-no transpirar abundantemente. Desdobrou as oito páginas do seu discurso, pigarreou para clarear a voz e disse:

— Não sei bem se tenho o direito de sentar-me na cátedra do tão excelso intelecto que aqui me precedeu. Sinto-me pequeno beija-flor à sombra das colossais asas da Águia de Haia. E com imensurável emoção...

Seguiu-se uma pausa, um tremor de mãos que muitos atribuíram ao nervosismo, e o senador Beluário Bezerra, o mais recente dos imortais, caiu fulminado no chão do Petit Trianon.

 

O PAIZ

RIO DE JANEIRO, DOMINGO, 6 DE ABRIL DE 1924

OBITUÁRIO

Paradoxo Fatal

Os convidados que estiveram presentes antehontem ao acto de posse do senador Beluário Bezerra na Academia Brasileira de Letras chocaram-se com o lamentável incidente que veio ennodoar a noite, enlutando o Petit Trianon.

Suppõe-se que, não resistindo à emoção da cerimônia, o homenageado foi acommettido por um mal súbito, tendo morte instantânea.

Collegas acadêmicos, summidades no âmbito da medicina, que fizeram o primeiro exame no senador, suspeitam que ele tenha soffrido um insidioso ataque de apoplexia ou, mais provável, um enfarte do myocárdio.

Saliente-se aqui, guardando-se, por supposto, as differenças, a ironia do triste episódio: o último livro de Belizário Bezerra, que lhe valeu louvores de crítica e público, descreve a morte, por assassinato, de todos os Immortais.

Belizário Bezerra está sendo velado no Petit Trianon, e será enterrado amanhã, às 16 horas, no cemitério S. João Baptista, em Botafogo, último abrigo dos Immortais fallecidos.

 

SEGUNDA-FEIRA, 7 DE ABRIL DE 1924

PULVIS EST ET IN PULYEREM REVERTERIS

Uma chuva de gotas grossas caía sobre a cidade do Rio de Janeiro naquela tarde de céu encoberto, e relâmpagos festejavam a tempestade. Contrariando a crença de que aguaceiros aliviam o calor, os termômetros acusavam uma temperatura de trinta e nove graus. O clima não impediu que os partícipes se apresentassem a rigor para as últimas despedidas ao senador da República e emérito escritor Belizário Bezerra, no cemitério São João Batista. Havia mais gente ainda que no dia da posse. Sérgio Loreto viera de Pernambuco, e até a autoridade maior do país, o presidente Arthur Bernardes, estava lá, de cartola e sobrecasaca, prestigiando o amigo morto, apesar das preocupações com o estado de sítio, que vigorava desde o governo anterior.

Turistas ocasionais também se amontoavam em volta do túmulo, dando mostras da curiosidade mórbida que se manifesta em catástrofes e nos enterros de pessoas ilustres.

Imortais mais ansiosos já cabalavam, entre si, votos para futuros candidatos. Causava estranheza vê-los de fardão e guarda-chuva.

Outros grupelhos contavam anedotas e riam disfarçadamente. Mulheres envoltas em renda negra trocavam idéias, em voz baixa, sobre os últimos lançamentos da moda em Paris e falavam do exótico Cuir de Russie, novo perfume de Coco Chanel.

Deputados e senadores, conhecedores das tensões do momento político, dirigiam olhares para o presidente, conjecturando sobre possíveis rebeliões tenentistas, inspiradas pelos Dezoito do Forte. Enfim, como em qualquer funeral, o único silencioso era o morto.

Todos pretendiam despachar o defunto com um necrológio pujante, porém o criminalista Aloysio Varejeira foi o mais pressuroso. Quando ele puxou do bolso o panegírico, um enorme círculo abriu-se à sua volta. O inescrupuloso advogado era temido pelo seu mau hálito.

Os maledicentes imputavam-lhe o sucesso nos tribunais ao bafejo cáustico, cultivado por anos de vinho avinagrado e queijo-do-reino, que ele expelia, ameaçador, em direção aos jurados. Pura aleivosia: o talento de Varejeira era tão perigoso quanto seu bafo venéfico.

A não ser por essa discutível qualidade, Aloysio era um homem comum. Portava bem seus setenta e oito anos, não escondia os cabelos brancos, e os dentes perdidos numa juventude descuidada haviam sido substituídos por belas dentaduras de marfim. O fardão, esmaecido por anos de baú, não conseguia atenuar-lhe a penosa figura. Desprendia-se dele um almíscar em que o odor da naftalina se confundia com o da bafagem malfazeja. Somando-se a tudo isso a transpiração abundante do advogado, ficava mais que justificado o largo espaço formado em seu redor. Mesmo assim, algumas senhoras protegiam as narinas com lencinhos perfumados, fingindo prantear o finado.

Indiferente a tudo, Aloysio Varejeira ajustou no nariz o lorgnon que lhe facilitava a leitura, abriu a boca cheia de molares luzidios e, engrolando um ruidoso gorgolejo, tombou morto sobre o caixão do seu confrade.

TEORIA DAS COINCIDÊNCIAS

AXIOMA DE LUZATTI

Amadeo Luzatti (1498-1572), astrônomo genovês, professor de filosofia da Universidade de Bolonha

“... La creatura umana è legata a tutte le parti dell' universo.”

(A criatura humana é ligada a todas as partes do universo.)

* * *

POSTULADO DA TEORIA DAS COINCIDÊNCIAS

Tendo uma amostra significativa, mesmo um evento extremamente improvável torna-se provável, e, portanto, qualquer coisa está fadada a acontecer.

* * *

REFUTAÇÃO PEREMPTÓRIA À TEORIA DAS COINCIDÊNCIAS

TEOREMA DE PENZANI

Giacomo Penzani (1512-16o3), algebrista florentino, matemático da corte do duque da Toscam “... La questione è dimostrata con chiarezza in questo teorema:” (A questão é demonstrada com clareza neste teorema:)

 

IMPOSSIBILIDADE METAFÍSICA DAS COINCIDÊNCIAS

DOGMA DE GALDERÓN Y FUENTES

Frei Diego Galderón y Fuentes (153o-1619), teólogo madrilenho, inquisidor do Tribunal do Santo Ofício “A identidade ou igualdade absoluta de duas ou mais pessoas, eventos ou objetos que altere a ordem divina é uma heresia, indicando intervenção satânica no universo celestial criado por Deus Todo-Poderoso.”

O HOMEM DA PALHETA

O comissário Machado nada entendia de teoremas e axiomas, nem era homem de grandes convicções religiosas: “Católico não praticante”, costumava dizer. Mas certamente não acreditava em coincidências. Ainda mais se a coincidência envolvia duas pessoas de renome.

Dez anos na polícia haviam-no persuadido de que as coisas não aconteciam por acaso. Quando ele leu, n' O Paiz, a notícia da morte dos dois acadêmicos por ataque cardíaco, seu instinto de investigador entrou em alerta. Segundo os médicos, nenhum deles tinha histórico de problemas vasculares.

Por se tratar de literatos, o comissário, compulsivo devorador de livros, logo se interessou pelo caso. O hábito da leitura fora-lhe incutido pelo pai, Rubino Machado, escrivão de caligrafia primorosa do 2°Cartório de Imóveis. Tamanha era a admiração de Rubino por Machado de Assis, que batizara de Machado o filho. Nome: Machado. Sobrenome: Machado. Desde os tempos de colégio perpetravam-se gracejos com o nome em dobradinha do comissário Machado Machado.

Magro, de olhos negros, olheiras cavas — fruto das noites mal dormidas nas delegacias —, que lhe valeram o apelido de Coruja, cabelos compridos de poeta que irritavam seus superiores, Machado Machado era um homem bonito. Tinha mãos longas, de pianista, as unhas impecavelmente tratadas pelas manicures do Hotel Avenida. Não as tratava por vaidade, e sim por zelo profissional. Ninguém como as manicures para conhecer todas as futricas de uma cidade. Enquanto cortavam peles e cutículas, as moças nem se davam conta quando lhe passavam informações valiosas. Às vezes, aquelas alegres meninas tagarelas eram-lhe mais úteis que os alcagüetes das delegacias.

A diferença da maioria dos policiais, que usavam chapéus de feltro com abas largas, o Coruja não abria mão da palheta, chapéu feito de palha trançada, desde que vira, um ano antes, o homem mosca, com Harold Lloyd. Inesquecível a imagem do comediante, nas alturas, pendurado nos ponteiros do relógio gigantesco na parede de um arranha-céu, de palheta na cabeça. Decerto não combinava com as algemas e o Colt.45, a arma semi-automática que Machado portava num coldre de ombro.

O chapéu-palheta e o terno mal passado emprestavam-lhe um ar jovial, acentuando seu jeito enganador de menino desprotegido.

As mulheres achavam-no perturbador, intrigante, e encantavam-se com seu nome em eco: “Machado Machado... Machado Machado...”. Aos trinta e quatro anos, fumante desde os dezoito, não abdicava dos cigarros Cairo, da Tabacaria Londres, feitos de fumo turco, um tabaco de cheiro forte, inconfundível.

Machado tinha uma paciência quase patológica e sempre conseguia o que desejava. Sua obstinação era lendária na polícia.

Da paixão do Coruja pela esgrima, no entanto, poucos sabiam. Era o único esporte que ele praticava. Ficara fascinado pelos duelos desde meninote, ao ler O Corsário Negro e todos os livros de aventuras de Emilio Salgari. O comissário treinava regularmente na sala D'armas do mestre italiano Ruggiero Buonaventi, no largo da Carioca. Excedia-se no manejo do sabre, do florete e da espada. A persistência levava-o a aprimorar todos os golpes à perfeição. Mestre Ruggiero considerava-o seu melhor discípulo e não entendia de onde vinha a resistência quase ilimitada daquele homem que fumava entre os exercícios.

Nessa manhã ensolarada de quinta-feira, três dias depois do ocorrido no cemitério São João Batista, ele tentava convencer, com a teimosia habitual, o chefe de polícia, general Floresta, a deixá-lo investigar a morte dos acadêmicos. Floresta espantava-se com a perseverança e ousadia do comissário: “Que petulância a desse homem, vir até meu gabinete com essa história absurda! Deixemos os mortos enterrarem seus mortos, que eu tenho mais o que fazer!”, pensou.

Bastavam as medidas discricionárias e os métodos repressivos do estado de sítio. Não necessitava de mais aborrecimentos. Servindo-se de um imaculado lenço de cambraia com monograma bordado pela própria esposa, enxugou o suor do rosto, e bufou:

— Tudo isso porque o senhor não acredita em coincidências?

— Exatamente, general.

— Pois eu acredito — pontificou o chefe de polícia, como se a resposta encerrasse a arengada. — Passe bem.

Machado nem se moveu.

— General, só estou lhe pedindo que ordene um exame mais detalhado dos cadáveres. Uma autópsia. Se não surgir...

— Autópsia!? Em dois imortais!? Você enlouqueceu de vez! Quer que eu seja odiado pela Academia? — esbravejou Floresta, que almejava glórias futuras.

— Ninguém precisa ficar sabendo. Posso arranjar isso com o doutor Penna-Monteiro, lá do Instituto. E só o senhor dar a ordem. Pra alguma coisa devem servir estes horríveis tempos de exceção...

O general fingiu não ouvir a crítica ao governo e tentou demovê-lo:

— Olhe que às vezes acontecem coincidências inacreditáveis. Você conhece o caso do rei Humberto I, da Itália?

— Não, senhor — disse o Coruja, paciente.

— Pois bem. Na noite de 28 de julho de 19oo começou Floresta, que tinha ótima memória para coisas inúteis —, o rei Humberto I da Itália jantou com seu secretário num restaurante em Monza. O rei notou que o dono do restaurante era idêntico a ele.

— Idêntico?

— Não me interrompa! — disparou o chefe de polícia.

Machado supôs que ele devia brilhar contando essa asneira em todas as reuniões sociais. Floresta continuou:

— Por curiosidade, o rei começou a conversar com ele e descobriu que os dois tinham muitas coisas em comum. O dono do restaurante também se chamava Humberto, ambos haviam nascido em Turim no mesmo dia, a sua mulher se chamava Margarida, como a rainha, e o restaurante foi inaugurado no mesmo dia da coroação do rei. Pois bem. No dia seguinte, o dono do restaurante foi assassinado por um desconhecido na mesma hora em que um anarquista matava o rei Humberto. E ou não é uma coincidência? — terminou, triunfante.

— Pode ser, mas há uma dissonância nessa história.

— Como? — irritou-se o militar.

— Um era o rei da Itália, e o outro era só dono de restaurante.

Pelo argumento esfarrapado, o chefe de polícia percebeu que não adiantava lutar contra a teimosia do seu funcionário.

— Está certo! Se lhe dá tanto prazer revirar as entranhas alheias, vá em frente! Mas nem uma palavra a ninguém antes de descobrir algo suspeito — concedeu, vencido.

— Claro, general.

— Agora, eu tenho que cuidar de assuntos mais sérios — resmungou Floresta, mergulhando na leitura da revista Careta.

FIDELITER AD LUCEM PER ARDUA TAMEN

“Fidelidade à verdade a qualquer custo”: era o que dizia o escudo de bronze, símbolo do novíssimo Instituto Médico-Legal, colocado na entrada do necrotério instalado na praça XV. O Serviço Médico-Legal passara a ser subordinado diretamente ao Ministério da Justiça.

Nada mais apropriado para a inauguração daquelas dependências do que as duas necropsias dos distintos extintos que jaziam sobre as reluzentes mesas de metal.

Devido ao trânsito e ao segredo que cercara toda a operação, os corpos chegaram só às três horas da tarde. Uma minúcia protocolar acrescentava estranheza maior àquele cenário soturno: ambos haviam sido enterrados com seus fardões.

Entre as duas mesas, estava o legista Gilberto de Penna-Monteiro. Figura imponente — quase dois metros de altura, cabelos encaracolados e voz de baixo profundo —, lembrava um guerreiro conquistador posando ao lado de seus despojos. Penna-Monteiro era conhecido pela meticulosidade. Nada escapava àqueles pequeninos olhos castanhos e percucientes. O comissário Machado Machado fora seu colega de ginásio, e o destino solidificara essa amizade forjada nos bancos de colégio. Lá estava ele junto ao amigo, fumando o inseparável Cairo, enquanto aguardava, ansioso, o início das intervenções.

— Perna, vamos logo com isso. Tenho que devolver esses defuntos ainda hoje! — exclamou, revelando total falta de respeito.

— Calma. Primeiro me ajuda a tirar essas fatiotas.

— Eu?!

— Claro. Você não disse que queria sigilo absoluto? Dispensei meus assistentes.

Despir defuntos não é uma empreitada tão simples como pode parecer à primeira vista, sobretudo quando estão com uniforme de gala. Machado esperava que todo aquele trabalho não fosse inútil. Sabia que o chefe de polícia jamais deixaria de lembrar-lhe o erro, caso fracassasse. Afastou o funesto pensamento e empenhou-se, ao lado de Penna-Monteiro, em desnudar os acadêmicos. Mesmo tendo morrido há mais tempo, Belizário Bezerra achava-se em muito melhor estado que Aloysio Varejeira. Pena que isso não servisse de consolo ao senador. Pouquíssimos confrades foram, no dia seguinte, ao enterro do criminalista, não se sabe se por estarem abalados ou por superstição.

Os cadáveres encontravam-se cobertos de manchas roxas, e a pele rachara em diversos pontos. Os rostos apresentavam a mesma coloração azinhavrada. A pele embaixo do queixo tornara-se violácea, formando um colar à volta do pescoço. Os dois tinham marcas idênticas por todo o corpo. Machado atribuiu tais alterações a um começo de decomposição, no que foi contestado.

— Não. Existe alguma coisa estranha aqui afirmou, intrigado, o legista, abrindo a boca do advogado. — Olha só como a língua dele está escura.

— Claro. Diziam que ele tinha um hálito horroroso.

— Não se trata disso. Pode ver que a língua do colega tem a mesma cor.

Machado afastou os maxilares de Bezerra e constatou que era verdade. As duas línguas exibiam tonalidade semelhante. Havia um certo humor funéreo na postura dos imortais de boca escancarada. Penna-Monteiro declarou:

— Os dois apresentam sinais de pelagra e língua nigra.

— Língua o quê?

— Língua nigra pilosa. A língua parece preta por causa da hipertrofia e do alongamento das papilas filiformes na parte superior. Fica com esse aspecto peludo e com essa coloração porque as papilas desenvolvem colônias de bactérias cromatogênicas.

— Sei, bactérias cromatogênicas... — comentou Machado, irônico.

— São fungos formados por carência de enzimas — explicou o legista. — O engraçado é que também estão com todas as características da pelagra.

— E isso, agora, vem a ser o quê? — perguntou o comissário, cada vez mais aturdido.

— Uma doença causada por má alimentação, deficiência de ácido fólico, vitaminas e sais minerais. Está vendo este colar formado pela coloração diferente da pele? Chama-se colar de Casal, em homenagem a Don Gaspar Casal, um médico espanhol. Ele foi o primeiro a identificar a doença, por volta de 100%. Nós chamamos a pelagra de “doença dos três D”: dermatite, demência e diarréia. Só leva à morte a longo prazo e se não for tratada. Não é possível que dois homens bem alimentados tivessem isso. E ninguém morre de língua nigra, que é de origem desconhecida mas é benigna.

Machado Machado horrorizou-se:

— Belo consolo. O sujeito se olha no espelho, vê que está com a língua preta, não sabe como pegou, mas fica tranqüilo porque é benigna.

— Um dia tudo isso vai ser descoberto. Não esqueça, Machadinho, que a medicina é uma ciência de verdades transitórias — pontificou Penna-Monteiro, um dos poucos a chamá-lo pelo diminutivo.

— Está bem. Enquanto essas verdades não transitam, me esclarece sobre esses sinais.

— Pra mim só tem uma explicação: veneno.

— Eu sabia que essas mortes não eram naturais! — exclamou o Coruja. — Que veneno?

— Isso eu não sei. Certamente não é nenhum dos clássicos. Minha intuição me diz que é algum tóxico desconhecido, porque nos meus anos de legista nunca vi nada semelhante.

O médico estava desnorteado. O estudo de venenos era sua especialidade. Havia defendido tese sobre o tema em Cambridge, na Inglaterra, onde primeiro se graduara summa cum lande em medicina forense e em química.

A família Penna-Monteiro era constituída por gerações de obstetras bem-sucedidos. Seu bisavô fizera o parto de D. Pedro I, no palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista. Fora um desgosto quando Gilberto revelara sua paixão pela medicina legal.

— Vou abrir os corpos pra ver se encontro mais algum indício — resolveu.

Duas horas depois, os imortais, costurados e vestidos, eram despachados de volta ao túmulo, para enfim desfrutarem do sossego eterno.

O comissário Machado observou o cenho franzido do médico ao ver o rabecão do Instituto, disfarçado em ambulância, afastando-se em direção ao São João Batista. Estavam os dois intrigados com o resultado final da necropsia. A princípio, nada parecera anormal, até que Penna-Monteiro extraiu o coração do peito de Beluário Bezerra. O órgão estava enrugado tal qual um pergaminho, encolhera, e sua cor era negra, como a língua. Assemelhava-se às cabeças reduzidas e mumificadas pelos jivaros, os índios peruanos caçadores de cabeça. O coração de Aloysio Varejeira tinha aparência idêntica.

Pela primeira vez desde que entrara para a polícia, contrariando o desejo do pai, que o queria bibliotecário ou advogado, Machado assustou-se com a presença da morte. Despediu-se em silêncio do amigo. Logo teria que prestar contas ao chefe confirmando seus piores receios. “Imortais assassinados”, pensou. “Como no livro.”

Anteviu o escândalo estampado nos jornais e lamentou não ter se enganado. Sabia que o general Floresta odiava portadores de más notícias.

O Dr. Gilberto de Penna-Monteiro, legista por profissão e cientista por vocação, demorou-se ali na soleira, sob o emblema de bronze no umbral do necrotério. Absorto em visões soturnas, girava entre os dedos o botão que arrancara de um dos fardões como souvenir daquelas mortes misteriosas.

 

O PAIZ

RIO DE JANEIRO, SABBADO, 12 DE ABRIL DE 1924

Assassinatos na Academia

Brasileira de Letras!

Chegou a esta redacção uma espantosa notícia: os dois membros da Academia Brasileira de Letras mortos há uma semana foram assassinados. As autoridades officiais competentes, depois dos resultados de minuciosa necropsia, chegaram à conclusão de que o óbito, anteriormente attribuído a causas naturaes, foi provocado por um veneno mysterioso.

O chefe de polícia, general Floresta, apesar de ver-se às voltas com a denúncia de uma conspiração anarchista promovida por subversivos profissionaes infiltrados na União dos Operários em Construcção Civil, prometteu não medir esforços para desvendar os execráveis homicídios.

Salientou o general que desconfiou immediatamente do succedido. “Não sou homem de acreditar em coincidências”, annunciou.

Floresta affirmou ser o crime ainda mais condemnável, pois as victimas pertenciam à fina flor da nossa intellectualidade.

O general ordenou ao comissário Machado Machado que iniciasse, ipso facto, as diligências appropriadas, outorgando-lhe carte Manche. Explicou que êsse subalterno, reconhecido por sua efficiência investigativa, é também um ardoroso admirador das belfas-letras.

Decretou, na mesma occasião, que o legista dr. Gilberto de Penna-Monteiro, do Instituto Médico-Legal, collaborasse com o comissário, tendo em vista seu profundo conhecimento chímico das substâncias venenosas.

O chefe de polícia assegurou um rápido desfecho para o afflictivo e clamoroso affaire policial.

INDISCRIÇÕES DE UM PARLAPATÃO

As onze horas da noite, não havia uma pessoa no restaurante Lamas que não tivesse um jornal aberto à sua frente. O farfalhar de todas aquelas páginas, folheadas à procura de mais detalhes dos crimes, lembrava uma revoada de pombos.

Sentado à mesa habitual, Machado Machado lia, estarrecido, a notícia publicada n' O Paiz. A burrice do general suplantava a desfaçatez com que falara à imprensa. Haviam combinado manter sigilo sobre os homicídios, para facilitar a sindicância, mas o chefe de polícia, na ânsia de aparecer, tinha convocado uma entrevista coletiva. O estabanado falastrão acabara de liquidar a vantagem que levavam sobre o assassino. “Agora, o matador sabe que eu sei e sabe que eu sei que ele sabe”, pensou, irritado, o Coruja. Jurou a si mesmo que somente revelaria qualquer nova descoberta a Floresta quando prendesse o criminoso.

Machado não estava no restaurante apenas para jantar. Freqüentado por boêmios, artistas, intelectuais, políticos, jornalistas e até por umas poucas ovelhas negras do clero, o Lamas também servia de precioso manancial de informações. Suas portas não fechavam nunca. Um dos boêmios assíduos, o Garoupa, contava que dois anos antes, por ocasião da primeira revolta dos tenentes, foi impossível baixar a grade de ferro que protegia o local. Estava emperrada por falta de uso.

Os garçons, que funcionavam como olheiros, sempre a par dos últimos mexericos a circular pela cidade, eram outra fonte de notícias que o Coruja cultivava com carinho. O mais popular deles, o Bodoque, como o chamavam, aproximou-se do policial.

— Então, comissário? Alguma novidade sobre os Crimes do Penacho? — cochichou, batizando a ocorrência em função das plumas que adornavam o chapéu bicorne dos acadêmicos.

Devido ao grande número de jornalistas fregueses das mesas servidas pelo Bodoque, Machado tinha certeza de que, em breve, o apodo viraria cabeçalho nos clichês dos diários.

— Bodoque, você sabe muito mais que eu das novidades.

— Pode ser, comissário, mas nesse caso estou boiando — disse, pensativo, o garçom. — Vou sentir falta do senador. Vinha muito aqui. Gostava de dar boas gorjetas.

— E o doutor Aloysio Varejeira? Também vinha?

— Quem? O Vavá Boca de Esgoto?

— Bodoque, respeite os mortos... — admoestou Machado, suprimindo o sorriso.

O garçom não se abalou:

— A morte só lhe pode ter melhorado o hálito. O sopro daquele homem derrubava urubu no vôo. Ele vinha menos. Era o homem mais unha-de-fome que eu conheci. Não comia ovo pra não jogar a casca fora. Gorjeta, então, pecas.

— Por acaso viu os dois juntos alguma vez?

— Nunca. O senador, quando vinha acompanhado, era por mulheres lindas — Bodoque sussurrou. Volta e meia, aparecia tarde da noite com aquela artista de teatro, a Monique Margot. Que monumento, seu delegado. Quando ela chegava, quase que eu derrubava a bandeja!

Para um profissional como o Bodoque, a expressão era o auge do elogio.

Monique Margot era uma girl francesa disputadíssima por rapazes e coronéis. Chegara ao Brasil na companhia de revistas Ba-Ta-Clan, que, um ano antes, trouxera ao Rio de Janeiro a famosa estrela Mistinguett.

Conhecendo suas limitações artísticas, e ao mesmo tempo percebendo as imensas possibilidades financeiras que o país lhe oferecia, graças à vocação para a macheza e para o coronelismo, quando a trupe voltou à França, depois da turnê, a esperta francesinha preferiu ficar por aqui. No momento, participava de Alô!... Quem fala?, no Teatro São José.

— Aliás, estiveram aqui dois dias antes dele morrer — prosseguiu Bodoque. — Chamou atenção porque tiveram uma discussão feia. Falavam baixinho, disfarçando, mas eu notei que ele estava tiririca e a coisa quase descambou num forrobodó.

— Você não ouviu nem do que se tratava? — perguntou Machado, sabedor da curiosidade insaciável do garçom.

— Tentei, mas eles ficavam calados sempre que eu chegava perto.

Não era grande coisa, mas, com as poucas pistas que tinha, no dia seguinte o Coruja estaria, sem dúvida, no auditório do Teatro São José. Terminou o cafezinho, pagou a conta sem esquecer uma boa propina e, ajeitando o chapéu-palheta na cabeça, saiu fumando um Cairo, enquanto Bodoque mergulhava no burburinho perene do Lamas.

OH LÁ LÁ'. VIVE LA FRANCE! VIVE LA FÉERIE!

Na primeira fila do São José, o comissário Machado Machado admirava os reclames estampados no pano de boca que guarnecia o palco. Era costume vender esse espaço para ajudar a pagar a montagem do espetáculo. Muito coloridos, eles formavam uma animada colcha de retalhos. Os casais de namorados, para passar o tempo, antes do começo e no intervalo da peça, ficavam brincando de descobrir onde se encontrava esta ou aquela palavra no texto dos anúncios.

Terminara o primeiro ato de Alô!... Quem fala?. O libreto de Carlos Bittencourt e Cardoso de Menezes satirizava o serviço telefônico, que volta e meia apresentava problemas dias a fio, irritando os assinantes. O público rira a valer, identificando-se com aquelas mazelas, e continuava em estado de alumbramento e alegria. A revista absorvera a influência das montagens francesas que passaram pelo Rio de Janeiro e deixaram uma marca inconfundível: a féerie. O gênero caracterizava-se por muitas luzes, máquinas de fazer fumaça, cenários grandiosos, música e, claro, como atrativos indispensáveis, o humor dos cômicos e o “nu artístico” das girls.

Machado ganhara o lugar privilegiado no “gargarejo” graças à sua amizade com o administrador. A primeira fila dos teatros era assim chamada porque a proximidade do palco obrigava o espectador a inclinar a cabeça para trás e ele ficava pasmo, de boca aberta, diante das modelos. Olhando de longe, tinha-se a nítida impressão de que a fila inteira estava gargarejando. Em princípio, o “gargarejo” era totalmente ocupado por senhores ricos de excelente fama que vinham se deleitar com a nudez das meninas pobres de fama duvidosa. Depois de uma apreciação in loco, os “coronéis” faziam às coristas propostas ditas indecorosas. Sendo uma extraordinária negociadora, a esperta e belíssima Monique Margot já abocanhara dois solitários de cinco quilates, três apartamentos no Flamengo, um sobrado em Copacabana, onde morava, e um automóvel Packard novinho em folha. Sem falar numa conta em banco cada vez mais polpuda. Seu salário mal dava para pagar a maquilagem importada.

A sala estava lotada além da sua capacidade. Pessoas apinhavam-se em pé, atrás das galerias e da última fila. Alô!... Quem fala? sairia de cartaz na quarta-feira em razão da Semana Santa e só voltaria no dia 19, após o Sábado de Aleluia. Conhecendo a instabilidade das temporadas teatrais, muitos temiam que isso não acontecesse.

Machado notou que Monique Margot tinha status de vedete. Foi ela quem abriu o segundo ato, cantando um grande sucesso de Mistinguett, “Ça, c'est Paris”, o qual adaptou com inteligência para “Ça, c'est Rio”. Cantava cobrindo-se apenas com dois imensos leques de plumas que deixavam entrever os seios esplêndidos. Era, sem dúvida, uma mulher fascinante. Tinha a pele muito branca, quase translúcida, a contrastar com cabelos ruivos, grandes olhos verdes, longas pernas e coxas generosas. Durante o número, ouviam-se suspiros abafados na platéia. No meio do segundo ato, enquanto se trocava o cenário, um novo cantor, chamado Francisco Alves, foi aplaudidíssimo ao interpretar um cabaretier.

O espetáculo terminou em clima de festa. Pouco a pouco, o público foi deixando o teatro e seguindo em direção à praça Tiradentes. O Coruja esperou esgotar-se a fila de admiradores endinheirados que se acotovelavam nos bastidores, marcando encontros, e bateu à porta do camarim da corista.

— Un moment! — gritou a vedete.

Fingindo não conhecer bem a língua francesa, Machado foi entrando. A moça postava-se em frente a um grande espelho, totalmente nua. O comissário entendeu por que os milionários disputavam a peso de ouro os favores de Monique Margot. Desculpou-se, tirando o chapéu-palheta:

— Perdão! Pensei que fosse pra entrar...

A francesinha avaliou-o sem pressa dos pés à cabeça. A palidez e as olheiras profundas do policial lembravam-lhe um retrato de Rimbaud, publicado na edição d' Une saison en enfer, que ela guardava desde criança. Depois, escondeu-se atrás do biombo, não antes dele constatar que Monique era realmente ruiva.

Ela não deve ter desgostado da visita inesperada, porque, enquanto vestia um quimono, disse, apontando o pequeno sofá do camarim:

— Já que entrou, sente-se. O senhor deseja?

— Meu nome é Machado. Sou comissário de polícia, e gostaria de...

— Se veio fiscalizar, vou lhe avisando que minha carteira foi registrada — cortou, ríspida, Margot. Ou vai exigir que eu faça algum exame de saúde?

O registro, feito na polícia, na carteira das atrizes era idêntico ao das prostitutas. Apesar do empenho de vários artistas e intelectuais, a lei continuava igual. O Coruja, que considerava essa qualificação absurda, defendeu-se:

— Mademoiselle, jamais viria aqui com essa missão insultuosa. Tenho o maior respeito pelo seu trabalho.

Não esclareceu a qual das duas atividades se referia: a de atriz ou a de cortesã. Preferiu manter a ambigüidade da resposta.

Monique aproximou-se, com o quimono entreaberto, e perguntou, provocadora:

— O que deseja, então?

— Estou investigando a morte dos dois acadêmicos.

— Mon ami, só seria possível eu matar alguém, do coração, durante o meu número... — afirmou a vedete, rindo e sentando-se ao lado dele.

O quimono deixava ver parte dos seios. A moça cruzou as pernas com sensualidade calculada, mostrando o joelho roliço.

Machado levantou-se e acendeu um cigarro. Forçou a concentração.

— E que a senhora foi uma das últimas pessoas a ter uma conversa tête-à-tête com uma das vítimas, Beluário Bezerra — explicou, gastando seu francês.

Monique deu uma gargalhada.

— Mon chéri, era impossível ter uma conversa tête-à-tête com ele. O máximo que se conseguia era uma conversa “coxa-a-coxa”...

— Eu pediria que a senhora...

A francesinha interrompeu, achegando-se a ele:

— Antes de mais nada, eu prefiro que me chame de você. Afinal, temos intimidade suficiente. Você me viu toute nue...

Machado acendeu outro cigarro na ponta do primeiro. Manteve uma aparência de calma.

— Está certo. Será que você podia me dizer do que se tratava? Soube que foi mais uma discussão que uma conversa.

— Bobagem. Uma briga vulgar envolvendo amor e dinheiro.

— Como assim?

— Ele queria mais amor, e eu queria mais dinheiro...

— Você notou alguma diferença no seu comportamento? Ele falou de algum receio, de algum medo?

— Você já viu colonel pernambucano demonstrar medo? — respondeu Monique, misturando as línguas.

Machado despediu-se, a contragosto, acendendo o terceiro cigarro na ponta do segundo:

— Bem, é só. Muito obrigado pela sua paciência. A vedete chegou mais perto.

— Pensando bem, houve um momento em que ele reclamou de um guarda-costas que devia ter vindo do Recife e ainda não tinha aparecido. Estava nervoso e inseguro, queria que o capanga chegasse antes da posse. Ficou furioso por causa disso e quis descontar em mim.

O comissário achou que talvez a informação fosse relevante. Entregou um cartão a Monique.

— Se lembrar de mais alguma coisa que possa ter relação com os assassinatos, por favor, me ligue, a qualquer hora do dia ou da noite.

A francesinha colou seu corpo no do comissário.

— Tem preferência? De dia ou de noite?

Perdendo a contenção que lhe restava, o detetive atirou longe o cigarro e beijou Monique avidamente. Os dois caíram abraçados sobre o sofá. A vedete arrancou as roupas de Machado, enquanto ele deixava em frangalhos o frágil quimono. E apalparam-se às cegas, como se quisessem guardar a memória dos seus corpos.

Esse momento de plena entrega foi interrompido por batidas violentas na porta:

— Dona Monique! Está pegando fogo aí dentro! Estou sentindo cheiro de fumaça!

Era o bombeiro que ficava de plantão no teatro.

Machado Machado percebeu que seu cigarro aceso havia caído na cesta de papéis do camarim da estrela. E pensou seriamente em parar de fumar.

O REPOUSO DO GUERREIRO

Machado acordou tarde no dia seguinte. Depois do episódio pirotécnico ocorrido no camarim, Monique carregara-o para sua casa, em Copacabana, de onde o detetive saíra, exausto, às cinco horas da manhã. Como sentia no corpo moído os excessos da véspera, preferiu tirar a tarde para descansar. A cabeça pesava-lhe, não por causa do champanhe que tomara com a francesa, mas em razão do intrigante mistério dos assassinatos. Que haveria de comum entre as duas vítimas além da imortalidade? Por acaso, o senador fora cliente do criminalista? O advogado deveria favores ao político? Teria participação nas mortes o capanga nordestino, cuja chegada não consumada tanto irritara Beluário, ou ele ansiava por sua presença porque temia pela própria vida? E o jurista de reputação nebulosa? Por que se precipitara em ler o necrológio? Apenas por vaidade, ou era uma forma secreta de ironia? Resolveu que o melhor que tinha a fazer era cumprir a árdua tarefa de ler o último livro de Bezerra em busca de alguma pista.

Anoitecera quando o comissário Machado Machado terminou a leitura do Assassinatos na Academia Brasileira de Letras. Não havia dúvidas quanto ao talento de Belizário Bezerra: como escritor, a posteridade reservava-lhe o anonimato. A insipidez era sua musa inspiradora. Com afinco admirável pontificava, em várias línguas, sobre os temas que mais ignorava.

O empenho do delegado em procurar pistas no livro mostrou-se inútil. O único ponto em comum era que, tanto na ficção como na vida real, os acadêmicos morriam envenenados. Entretanto, no romance morriam todos, e o veneno fora despejado no famoso chá das cinco, no Petit Trianon. Bezerra não o descrevia no texto, porém certamente a droga usada era menos intoxicante que a sua prosa. No caso dos assassinatos reais, nem chá existia. Desconhecia-se o veneno e o modo como fora ministrado. Penna-Monteiro continuava no laboratório particular improvisado em sua casa, tentando identificá-lo. Passava as noites percorrendo velhos compêndios que pudessem conter alguma informação relevante, mas, por enquanto, o enigma permanecia impenetrável.

Machado atirou o livro longe, suspirou e dirigiu-se para a cozinha em busca de um copo de água. A ressaca deixava-lhe um travo na boca. Quando atravessava a sala, ouviu passos afastando-se pelo corredor do prédio. Era um andar ligeiro, que produzia um som seco. O comissário saiu para o corredor a tempo de ouvir a porta do edifício bater. As pressas, desceu os poucos degraus que o separavam da entrada e ganhou a rua, de pijama e chinelo. Não viu ninguém, mas o ruído das passadas rápidas contornando a esquina soava em seus ouvidos.

Continuar: parte 2 de 3