Assassinatos na Academia Brasileira de Letras

Jô Soares · Capítulo 3 de 3 · parte 1/3

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Assassinatos na Academia Brasileira de Letras

Espreitando de Palheta

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Havia apenas um Delage, tipo GL — Grand Luxe —,circulando pelo Rio de Janeiro. O veículo, feito por encomenda, viera, no começo do ano, como bagagem especial anunciada com grande estardalhaço. A fotografia do orgulhoso proprietário com a esposa ao lado do carro fora capa da revista Fon Fon!.

O comissário Machado perguntou-se o que estava fazendo a famosa limusine, parada na Rua Constante Ramos, em frente à casa da atriz Monique Margot.

Resolvera procurar a francesa, em desespero de causa, na esperança de que ela conhecesse o Brás Duarte do bilhete. No Teatro São José, soube que Monique saíra de licença, alegando um mal-estar.

O detetive puxou o chapéu-palheta, protegendo o rosto dos indiscretos, e escondeu-se na atéia do prédio ao lado do sobrado da corista, justo quando um cavalheiro de casaca saía furtivamente da casa e se enfurnava no interior do luxuoso automóvel. Como ele calculara, o malaise que acometera Monique Margot se chamava embaixador Caio Pontes-Craveiro.

Machado refletiu com cínica sabedoria: “Manuela e Caio Pontes-Craveiro: enfim um casal unido pela infidelidade...”.

Estava assombrado diante da vitalidade do homem. Aos setenta anos, com duas mulheres fogosas como Monique e Manuela, não devia lhe sobrar muito vigor para os assuntos diplomáticos. Acendeu um cigarro pensando na possibilidade do embaixador ter algum envolvimento nos crimes, mas logo pôs a idéia de lado.

O caso transformava-se em obsessão, tanto para ele como para Penna-Monteiro. Por mais que tentassem, não conseguiam nem ao menos decifrar o estranho bilhete. Também queria discutir com Margot sobre o assassinato do capanga de Beluário, Pedro Menelau, buscando indícios que pudessem ajudar a investigação.

“De qualquer forma, deixa ver o que é que eu arranco dessa moça”, decidiu, lançando longe o Cairo e dirigindo-se para a casa da vedete.

Monique abriu a porta de calcinha, sutiã e cinta-liga, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Olhou o visitante de cima a baixo.

— Quelle surprise! Só aparece aqui depois de quase duas semanas... Não sei se devo perdoar tanta indiferença — fingiu reclamar, colando seu corpo quente ao de Machado.

O comissário lembrou-se do ciumento Maximilien Muchenot e resolveu que não precisava de outras complicações. Dominando o desejo, afastou com delicadeza a moça semi-nua.

— Vim à sua casa porque, no teatro, me disseram que hoje você não ia trabalhar.

— É verdade. Estava um pouco febril, mas já passou — mentiu a atriz, procurando beijar os lábios do policial.

Machado esquivou-se do beijo, disfarçando:

— Essa febre tem a ver com a visita do embaixador Pontes-Craveiro?

Irritada, Margot saiu de perto dele.

— E se tivesse?

— Quando cheguei, o embaixador estava saindo daqui — explicou Machado. — Nunca vi um remédio com um carro tão bonito...

— Você parece o Max. Ele viveu uma pequena aventure com a embaixatriz, mas acha que eu não posso ter um affaire com o embaixador. Caio é um bon ami, que me ajuda muito, e não dou satisfações da minha vida particular a ninguém. Quem conhece as minhas necessidades sou eu — respondeu a francesa, friamente.

— Manuela com Maximilien Muchenot!?

— Por que não? Se quer saber, eu também já fui pra cama com ela. Muito en passam, claro, como experiência. O Caio quis ficar assistindo.

O Coruja não sabia se a intenção de Monique era chocá-lo ou se ela falava a verdade, mas, imaginando as duas mulheres lindas, nuas, na cama, admirou a iniciativa do velho e experiente embaixador. E, mais uma vez, disfarçou, procurando manter o tom educado:

— Estou aqui fazendo o meu trabalho. Você me contou que o Bezerra estava esperando um guarda-costas que vinha de Pernambuco. O homem veio, chegou e morreu.

— Eu li no jornal.

— Eu queria saber se, por acaso, ele procurou você antes de ir ao cemitério.

Ainda agastada pela intrusão inoportuna de Machado, Monique foi lacônica:

— Não.

— Obrigado.

— Só telefonou.

— Telefonou? Por que não disse logo?!

— Porque você não perguntou. Depois, que importância tem? Estava ligando do cais do porto, procurando o amado patrão. Primeiro, ligou pro hotel; na portaria falaram do assassinato. O coitado não acreditou e chamou o meu número, que Belizário tinha deixado pra qualquer emergência. Voilà, c'est toutinformou Monique.

Machado Machado procurou amenizar a situação. Correu os dedos pelo rosto dela, num gesto carinhoso.

— Não fica zangada, não é falta de atenção. É que esse caso está tomando todo o meu tempo. Mas juro que pertencer a um clube de admiradores do nível do galante Beluário e do provecto embaixador é motivo de orgulho pra mim.

Pensando que o domínio insuficiente da língua portuguesa não permitiria a Margot entender que a frase ficava entre a ironia e o elogio, Machado aproveitou para lhe mostrar o enigma:

— Por acaso conhece isto?

A curiosidade foi mais forte que o azedume, e Monique examinou atentamente a mensagem cifrada. Ficou tão intrigada quanto todos que viam o bilhete.

— Nunca vi. Que passarinho é esse?

— E o que estou tentando descobrir — disse o detetive, embolsando o papel.

— E do assassino?

Machado exerceu o hábito irritante dos policiais, de sempre responder uma pergunta com outra:

— Quem é Brás Duarte?

Para Monique, foi a gota d'água. Fuzilou o policial com os belos olhos verde-esmeralda e abriu a porta de supetão para ele enquanto berrava:

— Pensou o quê!? Que fosse um dos meus amantes? Claro! Faz parte das centenas de homens com quem eu vou pra cama! Do club! Não foi isso que você disse? Do club! Adieu! — esbravejou, enxotando o detetive.

O comissário Machado Machado saiu da casa e apressou o passo, acossado pelos gritos da vedete:

— Você foi expulso do club! Canaille!

Preocupado com a gritaria, ele nem percebeu o vulto encoberto pelas árvores que o observava do outro lado da rua.

 

SÁBADO, 26 DE ABRIL DE 1924

EN GARDE!

A sala D'armas do mestre Ruggiero Buonaventi, no largo da Carioca, era ampla e despojada. Havia apenas o essencial para transformar o enorme salão numa academia onde se ensinava o manejo do sabre, do florete e da espada. Um espelho ocupava toda uma parede lateral, e os diplomas e medalhas do velho italiano cobriam parte de outra, junto a antigas ilustrações, mostrando os cinco golpes básicos:

Balestra: quando o esgrimista executa um salto curto num ataque ao adversário;

Estocada: golpe desferido com a ponta da arma;

Flecha: uma corrida curta e rápida pressionando o adversário;

Reprise: é efetuado depois do lutador estender a perna dianteira com um golpe à frente;

Resposta: ofensiva em reação a um bloqueio de ataque do adversário.

Com esses cinco golpes, doze mil variações podem ser executadas.

A maioria dos freqüentadores pertencia ao Exército, uma vez que a esgrima era um esporte pouco difundido, geralmente apenas praticado nos quartéis, pelos oficiais militares. Isso não abalava a convicção do mestre-D’armas, na certeza de que seu pioneirismo daria bons frutos. Plantado no meio da sala, gritava para os alunos em posição de combate expressões compreendidas apenas pelos iniciados: “Parada em quarta! Redobrar sobre o braço! Atacarem primeira! Segunda por fora! Ataque ao flanco!”.

Como em todos os sábados, Machado estava entre os pupilos. Era a única prática que o fazia esquecer o trabalho. Enquanto suava, aprimorando cada gesto com o florete, sua arma preferida, desligava-se dos Crimes do Penacho.

No entanto, nessa manhã, um visitante trouxe-o de volta à realidade. Maximilien Casimire Felisbert Anglois de Muchenot acabava de adentrar a sala D'armas.

Buonaventi interrompeu o treino para receber o desconhecido:

— Pois não?

— Vim me inscrever como aluno, monsieur. Quem me recomendou a academia foi o comissário Machado Machado.

O detetive lembrou-se do convite feito por ocasião da visita ao cassino do Copacabana.

— E verdade, Don Ruggiero. Deixe que eu lhe apresente Maximilien Muchenot. Disse que era bom espadachim, e o convidei pra conferir.

Machado não conseguia atinar por que o francês olhava para ele com uma profunda expressão de ódio. Buonaventi continuou:

— Os bons esgrimistas são sempre bem—vindos. Resta saber se são de fato bons. Cuidado, porque o comissário é o meu melhor aluno.

Max respondeu sem tirar os olhos de Machado: — As espadas estão no meu sangue desde a Idade Média. Um dos meus antepassados foi o pupilo preferido de Labouissière — afirmou, com desprezo, citando um grande mestre francês.

O italiano retrucou sem sutileza:

— Veremos. A esgrima não é hereditária como a sífilis.

O mestre-D’armas afastou-se, deixando os dois homens a sós.

— Será que estou detectando uma certa raiva no seu tom?

— Não, commissaire. O que o senhor está detectando é uma raiva certa.

— Não entendo por quê.

— Não entende? Já lhe disse que sou um homem passional. Às vezes, o ciúme nos obriga a fazer papéis ridículos. Ontem à noite eu estava escondido entre as árvores, em frente à casa de Monique, na Rua Constante Ramos. Por que, quando o senhor me viu no cassino, não disse que conhecia a minha mulher? — perguntou, quase sibilando.

Machado admirou-se do descontrole do homem. Respondeu com uma meia verdade:

— Primeiro, porque os meus encontros com essa senhora foram estritamente profissionais e, segundo, porque ela nem é sua mulher.

— Não interessa! Pra mim, é como se fosse!

O Coruja condoeu-se do crupiê martirizado, que não se conformava com as atividades extracurriculares da vedete.

— É melhor se acalmar, Maximilien.

— Lembra que eu lhe disse que um duelo é a melhor maneira de dois cavalheiros resolverem suas diferenças?

— Lembro, e também lembro que os duelos não são permitidos desde o século passado.

Maximilien retirou dois floretes de um armeiro colado a uma das paredes.

— Mas não aqui, com as pontas protegidas.

Atirou uma das lâminas para Machado.

O mestre-D’armas interrompeu a aula e, com os alunos, formou um círculo em volta dos contendores. Jogou-lhes as máscaras protetoras de tela metálica. Muchenot dispensou a sua, chutando-a longe. A contragosto, o comissário imitou-lhe a fanfarrice. Ruggiero Buonaventi quis impedir aquela bravata perigosa, ameaçando:

— Sem as máscaras, não! É proibido!

Machado Machado sorriu com sarcasmo.

— E o caro mestre Buonaventi vai fazer o quê? Chamar a polícia?

Maximilien provocou mais ainda o detetive:

— Claro que não, monsieur le commissaire não pode passar por covarde... — fustigou, ao mesmo tempo que retirava a cápsula protetora do florete e avançava para o primeiro golpe, executando uma balestra.

Machado mal teve tempo de se esquivar e também arrancar a capa que cobria a extremidade da sua lâmina.

Na sala D'armas do largo da Carioca, sob o olhar apreensivo do velho mestre, os ferros de ponta esmerilada ressoaram despidos de qualquer segurança, num autêntico duelo do século passado.

Era visível a excitação causada pelo embate entre os alunos. Muchenot soltava gritos assustadores a cada investida, como um samurai enlouquecido. Mestre Ruggiero foi obrigado a reconhecer a excepcional destreza do esgrimista francês. Por sorte, seu pupilo estava bem preparado.

Max estendeu a perna direita com um golpe à frente, numa clássica reprise, tentando a estocada letal. Para espanto de Muchenot, Machado esquivou-se, no último momento, da lâmina que vinha na direção do seu rosto e respondeu de forma inesperada: girou o corpo num movimento rápido e imprensou o adversário contra o espelho da sala, arrancando-lhe o florete da mão.

Ruggiero Buonaventi respirou aliviado e disse a Muchenot:

— Você é bom, muito bom, ma, grazie a Dio, não tão bom quanto Machado.

Maximilien retrucou, como se tudo não passasse de uma brincadeira inofensiva:

— Monsieur le commissaire não seguiu as regras do jogo...

— É verdade, se fosse seguir as regras do jogo, ia ter que jogar você no xadrez. Vá-se embora antes que eu me arrependa — sentenciou o detetive, no fundo lastimando o ciúme doentio do francês. Ninguém merecia aquele sofrimento inútil.

— Fuori! Vai via! — ordenou o mestre-D’armas Ruggiero Buonaventi, apontando a porta.

Antes que ele saísse, Machado lembrou-se de perguntar, jogando verde:

— Tem visto o Brás Duarte?

— Não conheço nenhum Brás Duarte, commissaire. Aliás, é um nome totalmente destituído de nobreza. Quelle horreur! — lançou, com desprezo, por cima dos ombros, Maximilien Casimire Felisbert Anglois de Muchenot, último baronete falido de Vauvray.

 

O PAIZ

RIO DE JANEIRO, SEGUNDA-FEIRA, 28 DE ABRIL DE 1924

CHRÓNICA POLICIAL

Mystério prolongado

Malgrado as renovadas declarações optimistas do chefe de polícia, general Floresta, continuam infructíferas as investigações sobre os “Crimes do Penacho”.

Aggravando a situação actual, outro homicídio foi commettido no cemitério S. João Baptista.

O crime estaria relacionado à morte dos acadêmicos, pois a victima, Pedro Menelau, teve seu pescoço decepado sobre o sepulcro do senador Belizário Bezerra.

Segundo fontes officiosas, Pedro Menelau, cidadão pernambucano, acabara de desembarcar do Recife e era dilecto funccionário do pranteado belletrista.

Seu assassinato torna mais mysterioso o caso dos Immortais recentemente fallecidos.

VIDA SOCIAL

A erecção do Chisto Redemptor

Continuando o apello iniciado em setembro do armo passado, com a campanha de arrecadação de fundos para a erecção de uma estátua do Christo Redemptor em um dos mais altos cumes do Rio, o Corcovado, será offerecido amanhã um opíparo banquete beneficente, no Hotel das Paineiras.

A creação da colossal estátua, para a commemoração do centenário, era indispensável para demonstrar o espírito cathólico tão arraigado em nossa terra, que se confunde com a augusta celebração patriótica.

Na ocasião, a iniciativa inspirou vários dos nossos mais eminentes vates. Cabe destacar o belíssimo poema “Effigie em excelso throno”, da lavra do insigne acadêmico padre Ignacio de Villaforte, cuja derradeira estrofe publicamos:

À ephémera pergunta: resistir, quem há-de?

Pois mesmo a nobre estátua, em sua transcendência,

Expulsa desta terra a torpe iniqüidade

E afasta para sempre toda violência!

Projectado em duas partes, o Christo Redemptor compõe-se de pedestal e estátua. O pedestal com 12 metros e a estátua com 35 metros de altura, permittindo a permanente visibilidade do monumento. A não ser, cela va sans dire, em dias de neblina.

A comparecência ao apparatoso festim, encommendado à Casa Paschoal, da “chie” rua do Ouvidor, exigirá trajes de gala e, em um gesto generoso, foi offerecido pelo benemérito e illustre membro da Academia Brasileira de Letras, o jornalista Lauriano Lamaison.

Na oportunidade, será mostrada a maqueta do projeto escolhido, e Lauriano Lamaison offerecerá um vultoso prêmio de déz mil contos de réis ao engenheiro Heitor da Silva Costa, vencedor do concurso realizado para a construcção da obra.

Ao cair da tarde, no Café Papagaio, na Rua Gonçalves Dias, o comissário Machado Machado fechou o jornal depois de ler as duas notícias, acendeu mais um cigarro e pediu ao garçom que lhe trouxesse outra cerveja. Dizia a história que o nome do café se devia a um papagaio de apelido Bocage, assim chamado porque do seu bico brotavam palavrões e versos pornográficos. Os boêmios que freqüentavam a casa lhe ensinavam o repertório. Constava da lenda que, quando proferiu uma dessas quadrinhas diante de uma senhora, Bocage foi preso por um guarda, em nome da moral e dos bons costumes.

O lugar era um dos preferidos pelos intelectuais e pela turma do teatro. Numa mesa ao lado da ocupada pelo detetive, o veterano ator Leopoldo Fróes apresentava ao novato Jayme Costa uma atriz muito jovem, que lançaria em breve, chamada Dulcina de Morais. Na mesa mais ao fundo, os desenhistas Kalixto e J. Carlos, da revista D. Quixote, conversavam com outro artista, o elegante Procópio Ferreira, que começava a rivalizar com Fróes. Kalixto rabiscou rapidamente, na toalha, os traços marcantes de Procópio, criando uma caricatura perfeita.

Machado passara parte da manhã procurando, sem sucesso, descobrir o misterioso passarinho do bilhete no insosso Tratado ornitológico sobre a fauna alada do Brasil, de Lauriano Lamaison. Depois, percorrera a feira do largo do Capim e da praça do Mercado, mostrando aos maiores passarinheiros da cidade o desenho da ave acima do nome Brás Duarte na mensagem do assassino. Nada conseguiu, além de palpites controversos e de discussões exacerbadas entre os especialistas. Chegou à conclusão de que talvez o pássaro desenhado fosse uma artimanha do louco para confundir as investigações e não pensou mais no assunto.

O garçom vinha equilibrando a cerveja, em meio aos fregueses que lotavam o café, quando Gilberto de Penna-Monteiro chegou. O legista instalou-se e também pediu cerveja.

— Leu o jornal de hoje? O Floresta deve estar enfurecido. Não procurou você?

— Procurou, porém não me fiz encontradiço... declarou, pernóstico, Machado, sorvendo uma golada. — Achei mais interessante a matéria da coluna social.

— O negócio da ereção do Cristo Redentor? Que título infeliz.

— Sem dúvida, mas o que me interessou mesmo foi saber do banquete. Enfim, vou poder ter uma conversa com o famoso Lauriano Lamaison. Desta vez, ele não me escapa.

— Ficou doido, Machadinho? Não leu que a recepção exige traje de gala? Você, com jeito de poeta maldito, de palheta, com o terno todo esbandalhado e um cotoco desse cigarro fedido no canto da boca, como é que vai se apresentar? — E imitou um mordomo anunciando sua chegada: — Senhoras e senhores, comissário Machado Machado: a polícia em farrapos!

O Coruja riu da descrição do amigo.

— Não vou ao banquete. Pego o Lamaison no trem do Corcovado.

Penna-Monteiro provou a bebida que o garçom acabara de trazer.

— Falando em Lamaison, desencavei uma informação inacreditável.

— Que informação?

— Estive ontem em Petrópolis e soube qual é o segredo terrível que permitiu ao Aloysio Varejeira chantagear o poderoso Lauriano Lamaison.

— Como é que você conseguiu?

— Com muita dificuldade. Tive até que embebedar meu caseiro, o Arlindo. Sabe a história do Rolls-Royce da Manuela Pontes-Craveiro, que correu à boca pequena mas foi logo abafada?

— Claro! Que volta e meia o carro era visto na casa de campo do Lauriano.

— Pois é. Não era boato.

Machado avaliou a informação:

— Então o malandro estava mesmo tendo um caso com a Manuela. Mas ser amante da Manuela não é razão pra chantagem, é motivo de orgulho.

— Mas não é com a Manuela que o Lamaison está tendo um caso — disse Gilberto. E revelou, triunfante: — É com o motorista japonês.

O queixo do comissário Machado Machado não caiu porque a mandíbula estava bem encaixada nos eixos.

— Ninguém sabe, mas parece que ele é doidinho pelo tal Yamamoto. Notável, essa atração irresistível do Lauriano Lamaison pelo nipônico. Vai ver que no fundo ele gosta de ser chamado de Barão Amarelo.

— Fantástico! E ninguém soube a não ser os caseiros — concluiu o detetive, fazendo uma anotação mental para acrescentar a categoria à sua lista de informantes especiais, ao lado das manicures, garçons e mensageiros de hotel.

— O japonês só usa o carro escondido, quando a Manuela viaja. Costuma ir de trem, ou Lamaison manda buscar de automóvel. O caseiro dele contou pro Adindo que uma tarde o Varejeira chegou sem avisar e surpreendeu os dois. Foi um escândalo.

— Quer dizer que o Aloysio descobriu essa brecha na fortaleza do Barão?

— Não esqueça que o Varejeira também cuidava das transações irregulares do Lamaison e era um advogado de péssima reputação. Por isso é que o todo-poderoso Barão Amarelo, o homem mais temido do país, ficava indefeso nas mãos daquele chicaneiro.

— Ficava, não fica mais. Seria motivo pros assassinatos?

— Talvez, mas não justifica a morte dos outros, nem o veneno — explicou Machado. — Lamaison deve dispor de métodos menos complicados. De qualquer forma, é um bom argumento pra puxar assunto com ele, amanhã, a caminho do Corcovado.

Ambos terminaram a cerveja em silêncio, absortos em pensamentos sobre a fragilidade humana. Penna-Monteiro pediu a conta e declarou, filosófico, enquanto saíam do Café Papagaio:

— O que aconteceu com Lamaison serve pra comprovar literalmente o provérbio latino.

— Que provérbio? — perguntou o detetive.

— “Qui culum habet timorem tenet.”

Machado Machado concordou, traduzindo e cunhando para sempre o dito popular:

— E verdade, meu amigo. “Quem tem cu tem medo.”

 

TERÇA-feira, 29 DE ABRIL DE 1924

PIUÍÍÍÍÍÍÍ PIUÍÍÍÍÍÍÍ!!

Veja, ilustre passageiro,

O belo tipo faceiro

Que o senhor tem a seu lado.

E, no entanto, acredite,

Quase morreu de bronquite,

Salvou-o o Rhum Creosotado.

Pela milésima vez na vida, o comissário Machado Machado leu o famoso reclame atribuído ao poeta Bastos Tigre. Presentes em todos os bondes do país e também afixados nos vagões daquele trem, os versos anunciavam as qualidades de um xarope.

Como carioca legítimo, Machado recusava-se a visitar os pontos de atração turística da cidade. Não fosse por razão de ofício, é provável que jamais conhecesse a estrada de ferro, inaugurada por d. Pedro n, que ligava o Cosme Velho ao Corcovado, passando pelas Paineiras. Primeira ferrovia a ser eletrificada no Brasil, seu trem era o mais moderno meio de acesso ao Hotel das Paineiras, destino de Lauriano Lamaison.

A procura do magnata, o Coruja percorreu o comboio recheado pelo grand monde do Rio, atraindo os olhares curiosos dos passageiros. Era o único vestido com “displicência”. Penna-Monteiro chamaria aquela descontração de desleixo, porém a verdade é que tal negligência no vestir era estudada. Fazia parte do estilo de menino desprotegido adotado pelo detetive. Ele veio pelo corredor, seguro de si, de palheta, em meio aos chapéus emplumados, fardas de gala e luvas de renda antiga.

Lauriano Lamaison ocupava, sozinho, o último carro. Machado Machado entrou sem pedir licença, enquanto o Barão Amarelo lia a página de histórias em quadrinhos de um dos seus jornais. O calor e o protocolo não o impediram de envergar o fardão da Academia Brasileira de Letras, que nem era adequado para a ocasião. Ria da leitura, um riso desproporcional, como se quisesse se convencer da graça das historietas.

Lamaison divertia-se com:

OS SOBRINHOS DO CAPITÃO

As tiras dos Sobrinhos do Capitão, criadas por Rudolph Dirks, eram traduzidas do KatzenjammerKids, cujos direitos Lauriano adquirira dos jornais de Hearst, nos Estados Unidos. Os “sobrinhos” eram dois meninos endiabrados, capazes das piores travessuras. As histórias retratavam com humor algumas maldades típicas das crianças, e suas traquinagens eram sucesso mundial. Lamaison adorava ler as aventuras dos moleques, e acabara se transformando num especialista no assunto. O que mais o fascinava era a amoralidade dos dois, que lhe permitia fazer as maiores crueldades sem o menor sentimento de culpa. O Barão Amarelo identificava-se integralmente com o espírito daqueles personagens.

Assim que Machado se aproximou, ele fechou o jornal muito contra a vontade e olhou com pouco-caso para o policial.

— Este vagão é particular.

Antes que Lamaison retomasse a leitura, o Coruja identificou-se, mostrando os documentos.

— Ótimo. Então vamos poder conversar sem ser molestados. Comissário Machado Machado.

Lauriano interessou-se:

— Sei, o encarregado das investigações dos Crimes do Penacho. Meus jornais têm lhe dado boa cobertura. Mesmo que não descubra o assassino, o senhor vai acabar mais famoso que artista de cinema... — declarou, com sarcasmo.

— Estou mais preocupado com a sua fama... respondeu Machado, cheio de segundas intenções, vingando-se da ironia de Lamaison.

O instinto agudo do Barão Amarelo logo o pôs em estado de alerta.

— Não sei a que fama o senhor está se referindo.

— Acho que sabe, sim. E não seja ingrato: não há por que se envergonhar da sua paixão pelo motorista oriental da embaixatriz Manuela Pontes-Craveiro. O amor é lindo, Barão...

Se os olhos de Lamaison fossem revólveres, o policial teria caído fulminado.

— Eu o aconselho a tomar muito cuidado com as infâmias que disser. Sou amigo íntimo do general Floresta. Com um telefonema, posso destruir sua carreira.

— Que pena... aí vou ter mesmo que virar artista de cinema... — rebateu Machado, com absoluta segurança.

Vendo que a ameaça não surtira efeito, Lauriano optou pela conciliação.

— Muito bem. Desde que o senhor não volte a tocar nessa calúnia, estou pronto a lhe fornecer qualquer ajuda.

— Quanto a isso, pode ficar tranqüilo. Sou policial, não sou alcagüete. As suas preferências sexuais não me dizem respeito; mas quero que entenda que o fato de um homem perigoso como Aloysio Varejeira ter sabido desse caso põe o senhor na lista dos suspeitos.

— Bobagem. Pra mim, a única coisa perigosa no Varejeira era o hálito. Claro, ele fez pressão pra que eu o colocasse na Academia, mas também o fiz por uma questão de vaidade pessoal. Queria mostrar meu poder àqueles velhinhos decrépitos. De resto, Aloysio dependia muito mais de mim que eu dele. Eu representava a maior parte do seu faturamento. Não precisava matar tanta gente só pra me livrar do Varejeira.

Machado concordava com Lamaison. Usara o affaire do Barão com Yamamoto apenas como instrumento para derrubar-lhe as defesas. Suavizou o tom da entrevista:

— O senhor sabe de tudo o que se passa nesta república. Então me diga: havia ligações entre Aloysio Varejeira e Beluário Bezerra?

— O único elo era o fardão. Se houvesse outros vínculos, pode ter certeza de que eu saberia.

— E o padre Ignacio de Villaforte? Por que foi o único a votar em branco?

— Aquele santarrão? Por nada, por implicância. Pra mostrar que tem independência, escondido atrás da batina — resmungou Lauriano, quase com nojo.

— Como é que o senhor conheceu o padre?

— Faz algum tempo. No casamento do embaixador Caio Pontes-Craveiro. Ele celebrou a cerimônia, e eu fui um dos padrinhos.

O comissário ficou impressionado.

— O Rio de Janeiro é mesmo muito pequeno. Todo mundo conhece todo mundo... Foi assim que o senhor se encontrou com Yamam...

Lamaison cortou-o abruptamente:

— Já lhe disse pra não se meter na minha vida pessoal!

Machado reconhecia quando passava dos limites.

— Tem razão, doutor Lamaison. Foi uma curiosidade descabida. Eu lhe peço desculpas.

Lauriano virou o rosto num muxoxo magoado. O Coruja surpreendeu-se com aquele gesto feminino, que destoava da fama de homem brutal do Barão.

O trem estava quase chegando à estação das Paineiras. O detetive deu-se por satisfeito, contudo queria conservar o acesso àquela inesgotável fonte de conhecimentos. Lamaison era um verdadeiro arquivo vivo.

— Bem, agradeço a sua paciência e gentileza. Se necessitar de mais alguma informação, eu espero poder contar com a sua ajuda.

Lauriano demonstrou a habilidade que tinha para manter amigáveis as relações de seu interesse:

— Sempre que for preciso, meu caro, sempre que for preciso. Afinal, a certos amigos não se pode negar nada.

Machado Machado já ia saindo do vagão quando se lembrou da missiva criptografada.

— O assassino costuma registrar os crimes com esta mensagem — mostrou.

— Por acaso, o senhor sabe quem é Brás Duarte? — Lauriano Lamaison desandou numa gargalhada desabrida.

— Se eu sei quem é Brás Duarte? Claro que eu sei quem é Brás Duarte! Que idéia genial! — exclamou, no mesmo casquinar contínuo. — E sei quem é o assassino, lógico! É tão óbvio!

Lauriano suava, e ria tanto que começou a se engasgar com o próprio riso. Machado perguntou, ansioso:

— Quem é ele, doutor Lamaison? Por favor, diga quem é!

De repente, as gargalhadas converteram-se em gritos lancinantes, e o rosto arroxeado do Barão, porejando grossas gotas de suor, foi se alterando num esgar de dor. O detetive insistiu, em desespero:

— Quem é Brás Duarte, Lauriano?! Fala! Quem é o assassino?!

Lamaison puxou o policial pela lapela do paletó amarfanhado e, num supremo esforço, murmurou em seu ouvido:

— Brás Duarte é Olavo Bilac!

Tentou continuar, porém uma golfada de espuma negra saiu de sua boca, e ele morreu nos braços de Machado, contorcendo-se de dor. Essa frase incongruente foi a última pronunciada pelo Barão Amarelo.

O temerário arquivo vivo transformara-se em arquivo morto.

 

QUARTA-FEIRA, 30 DE ABRIL DE 1924

O PODER EXPOSTO A NU

O anoitecer veio amainar a forte calidez, incomum naquela época do ano. As luzes frias do Instituto Médico-Legal iluminavam a carcaça aberta de Lamaison, esparramada numa das mesas. O fardão, arrancado sem cuidados, repousava em desalinho no espaldar de uma cadeira branca. Voltaria ao dono, depois da necropsia.

Destituído do seu império de intrigas e coerções, Lauriano era somente mais um defunto à mercê da rotineira investigação policial.

Se ele pudesse saber da estupefação e do terror que naquele momento seus despojos causavam a Penna-Monteiro e ao comissário Machado Machado, ficaria envaidecido. O misterioso veneno devastara o cadáver. Quando o legista apoiou o bisturi para praticar o tradicional corte em ípsilon, a pele rompeu-se de cima a baixo, revelando uma cratera escura. Apenas a epiderme segurava os restos mortais do ex-magnata. Era como se alguma coisa lhe tivesse devorado as entranhas, nas cavidades do tórax e do abdômen. Pedaços pútridos de músculos rasgados pendiam do que sobrara das paredes do diafragma. Os frangalhos dos pulmões insistiam em se agarrar às costelas.

O coração de Lauriano escapara ao horrendo festim. Ficara igual ao de Belizário Bezerra e Aloysio Varejeira: engelhado e reduzido, negro como a língua, que saltava da sua boca escancarada.

Machado não conseguia tirar os olhos daquela ruína.

— Gilberto, que veneno consegue fazer essa destruição?

— O veneno, eu não sei, Machadinho. Mas sei o que ele provocou. Já ouviu falar em fascüte necrotica?

— Graças a Deus, nunca.

— É uma doença causada por uma bactéria comedora de carne.

— O quê!?

— Um tipo de estreptococo que destrói os tecidos. Por isso a bactéria foi apelidada de “comedora de carne”.

— Nunca imaginei que existisse uma coisa tão pavorosa.

— E como existe. Há manifestações semelhantes de bactérias comedoras de carne, como na gangrena de Fournier.

— Pelo nome, já fico com medo de perguntar o que é — disse o detetive.

Sem respeitar a relutância do amigo, Penna-Monteiro prosseguiu:

— Trata-se de uma gangrena fulminante, espontânea, do pênis e do escroto. É causada por uma infecção estreptocócica na genitália masculina. Quer ver algumas ilustrações?

— Não, muito obrigado.

Gilberto continuou, perplexo:

— O interessante é que, em geral, essas bactérias se “alimentam” de pele e da camada que envolve os músculos, a fáscia. O veneno fez com que elas se disseminassem também por todo o organismo. Não é engraçado?

— Muito. Eu só não dou risada por respeito ao falecido, mas por dentro estou gargalhando.

O legista percebeu que o assunto não era apaixonante para um leigo.

— Perdão, Machadinho. A curiosidade científica falou mais alto — desculpou-se, cobrindo com uma mortalha o que restara do Barão Amarelo.

Tirou o avental manchado de sangue, vestiu o paletó e, virando-se para Machado, convidou:

— Não há muito mais que fazer aqui. Vamos jantar?

— Nem que fosse no Bife de Ouro — respondeu o policial, citando o nome do restaurante do Copacabana Palace, o mais caro e requintado do Rio.

O Coruja não se chocava com facilidade, porém saiu do recinto antes que Pensa—Monteiro apagasse a luz.

Ambos atravessaram, taciturnos, a praça XV, em direção à Rua do Carmo.

Uma figura espadaúda e longilínea observava-os, escondida atrás do chafariz da praça. Esperou que o detetive e o legista se afastassem e se aproximou, cautelosa, do muro lateral do Instituto. Levantando um pé-de-cabra que trazia encoberto pelo longo sobretudo negro, arrombou uma das janelas e entrou no necrotério. O luar estendia-se pelo vão da janela vazada, indicando-lhe o caminho. Seguiu o corredor e abriu a porta da morgue. Parou, contemplando satisfeita o resultado nefasto da sua predação. As arcaicas receitas secretas de antanho mantinham o poder destruidor. “Se esperarem muito, não vai haver o que enterrar”, pensou, ao ver que os pequenos organismos vorazes continuavam a consumir o corpo inerte. O monge guerreiro Isidoro de Carcassonne, fundador da Veneficorum Secta, a seita dos envenenadores, sentiria orgulho desse fruto longínquo da sua árvore maligna.

Veneficor contornou a mesa mortuária e colheu da cadeira ao lado o butim que o levara a se arriscar naquela incursão noturna: o fardão de Lauriano Lamaison.

Com passadas largas e rápidas, o Envenenador desapareceu silenciosamente dentro da noite, carregando o produto da pilhagem.

Por onde ele passava, a luz dos lampiões da rua projetava-lhe a sombra nas paredes brancas dos prédios, desenhando uma silhueta mais tétrica do que o local que acabara de deixar.

 

QUINTA-FEIRA, 1° DE MAIO DE 1924

GOOOOL! AVANTE, TRICOLOR!

Apesar da rivalidade entre os dois clubes, e da confusão causada por haver dois campeonatos no mesmo ano, Fluminense e Flamengo resolveram disputar uma partida extraordinária para comemorar o feriado do dia do trabalhador. O amistoso favorecia o clima de festa e confraternização reinante entre os torcedores que lotavam a pequena arquibancada do estádio do Fluminense, nas Laranjeiras, prestigiando o clássico Fla x Flu. No instante em que o time da casa entrou em campo naquela tarde, uma nuvem branca encobriu o céu. Era o já tradicional pó-de-arroz. A manifestação surgira dez anos antes, quando Carlos Alberto, um jogador mulato que viera do América, preocupado com alguns tricolores preconceituosos, polvilhara o rosto de branco. Aos poucos, o suor foi sulcando sua pele, revelando o absurdo do recurso e deixando o atleta malhado como uma zebra. A torcida adversária ria e berrava: “Pó-de-arroz! Pó-de-arroz!”. Ao invés do esperado, o Fluminense assumira a idéia como um brado de guerra, e, sempre que o time entrava em campo, lançava uma verdadeira nuvem de talco sobre o estádio.

Sentado em meio ao povo, encontrava-se o padre Ignacio de Villaforte, que era torcedor fanático do Fluminense. Vibrava com os lances geniais do Preguinho, para ele o maior craque da sua geração e, por acréscimo, filho de Coelho Netto, colega de Ignacio na Academia Brasileira de Letras.

Havia também um prazer secreto nessas idas do padre aos jogos. Ia ao campo sem roupas de baixo e, desapercebido, arregaçava o lado posterior da sotaina, pousando as nádegas nuas sobre a laje fria da arquibancada. Comentara com seu confessor que não via gravidade nesse pecadilho. Era apenas uma maneira tátil de manter um contato indireto com o rebanho, por meio das centenas de traseiros que já tinham sentado no mesmo lugar.

Nessa ocasião festiva, o padre Ignacio de Villaforte achava-se ansioso. Não tinha ido ao campo especificamente para assistir ao jogo, e sim porque marcara, por telefone, um encontro com o comissário Machado Machado. Estava alarmado com uma nota deixada em sua sacristia. Queria mostrá-la ao detetive; porém, desde que soubera da morte de Lamaison, havia escolhido falar com Machado num local público, de grande movimento. Julgava que assim estaria mais protegido. O comissário explicara que a precaução era inútil, o veneno do assassino agia à distância; contudo, nada demovera o padre dessa convicção.

O primeiro tempo terminara com vitória parcial do Fluminense por 1 x 0. Preguinho amortecera a bola no peito, na altura da linha intermediária, driblara Seabra e Candiota, dera um chapéu em Vadinho e, com um shoot irreprochável, executara um lançamento de trinta metros, deixando a pelota nos pés de Nilo, o center forzuard artilheiro do campeonato. Nilo enganara o right back Penaforte com um ágil gingar dos quadris, e da sua shooteira saíra o tiro indefensável, desbaratando Afonso, o apalermado goalkeeper do Flamengo. Os jogadores rubro—negros alegaram, de balde, que Nilo estava offside: o referee e o linesman validaram a jogada.

Ignacio mal conseguira apreciar o lance, aflito que estava com a demora do comissário. Consultava o relógio de minuto em minuto, e seu olhar percorria as tribunas, procurando identificar alguém com as características de um elemento da polícia.

Machado Machado chegou cinco minutos após o início do intervalo. Avistou, de longe, o padre De Villaforte. A figura de batina imaculada distinguia-se em meio aos espectadores, a maioria em mangas de camisa. O detetive, que fugia a todos os padrões das forças policiais, sentou-se a seu lado.

— Padre Ignacio de Villaforte?

O clérigo virou-se, receoso.

— Pois não?

— Comissário Machado Machado.

Padre Ignacio desconfiou do jovem de olheiras, chapéu-palheta e terno sovado. Assemelhava-se mais com os poetas do final do século do que com um policial. Chegava a parecer incongruente o cabo do Colt .45, sua pistola semi-automática que o paletó aberto deixava entrever. A incoerência maior era que, no fundo, o Coruja odiava armas. Por um momento, o padre esqueceu o motivo do encontro e não resistiu a uma observação, apontando o Colt:

— Se me permite o comentário, meu filho, esse objeto não combina com você.

Machado acendeu um cigarro e explicou:

— Concordo, padre, também detesto usar essa “ferramenta de trabalho”. Prefiro o sistema da Inglaterra, onde a polícia não anda armada. Mas presumo que não foi pra discutir sobre isso que o senhor quis me ver.

O medo trouxe Ignacio de volta à realidade.

— Tem razão, comissário. Queria lhe mostrar o bilhete que achei na igreja.

Abriu a mão, desdobrando um papel roto e manchado de suor que trazia na palma cerrada. Não desgrudara dele, desde que o encontrara no chão da sacristia.

Um detalhe diferenciava a mensagem das outras. Sob o nome Brás Duarte encimado pelo passarinho estava escrito numa garatuja:

HOUVE OUTRA LOGO DEPOIS

Os dois fizeram a mesma pergunta, ao mesmo tempo:

— Sabe quem é Brás Duarte?

A resposta tornou-se supérflua para ambos.

Tendo em vista que o padre Ignacio de Villaforte poderia ser um dos próximos candidatos à loucura do maníaco homicida, Machado resolveu mantê-lo informado:

— Não quero assustá-lo, reverendo, mas as mensagens têm relação com os crimes. E o assassino quem deixa os bilhetes e depois rouba os fardões das vítimas, não entendo com que propósito.

— Bem, pelo menos quanto a isso, estou tranqüilo, meu filho. Devido aos meus votos de obediência, pobreza e castidade, não tenho fardão. Tomei posse de batina — explicou Ignacio, não sem uma ponta de orgulho.

— Fico feliz de encontrar um padre que leva seus votos tão a sério — provocou o detetive. — Conheci um que praticava obediência barganhada, pobreza de espírito e castidade relativa.

— Não é o meu caso — fulminou, ríspido, o padre De Villaforte.

— Claro que não, reverendo — sorriu o detetive, acalmando o Dorian Gray. — De qualquer modo, a única pessoa que me falou desse Brás Duarte foi Lauriano Lamaison. Só que morreu nos meus braços, sem conseguir explicar quem ele era. Ainda balbuciou uma frase que complica mais o mistério.

— Que frase?

— Suas últimas palavras foram: “Brás Duarte é Olavo Bilac”.

Uma centelha de ódio aflorou aos olhos do padre Ignacio de Villaforte.

— Típico daquele difamador. Mesmo morrendo, quis profanar a memória do grande poeta. Deus que me perdoe, mas Lauriano Lamaison merecia o que lhe aconteceu. Era um homem sem moral.

Machado encarou-o por alguns segundos e redargüiu:

— Perdão, reverendo, mas não foi Machado de Assis quem disse: “A moral é uma, os pecados são diferentes”?

O alarido da torcida indicou que os times entravam em campo para o segundo tempo. O comissário despediu-se, deixando o padre Ignacio de Villaforte boquiaberto, por ter ouvido um trecho das Memórias Póstumas ser citado por um “tira” insignificante.

 

SEXTA-FEIRA, 2 DE MAIO DE 1924

VAGAS PARA TRÊS CAVALHEIROS DE FINO TRATO

Enquanto se dirigia à tarde, de bonde, para a casa do poeta Euzébio Fernandes, em Santa Tereza, o comissário Machado Machado examinava o desenho que rabiscara tentando, em vão, entender o vínculo existente entre as pessoas envolvidas no caso. De uma maneira ou outra, todas estavam ligadas:

Beluário conheceu Maximilien, que conheceu Monique, que conheceu Caio, que conheceu Manuela, que conheceu Yamamoto, que conheceu Lamaison, que conheceu padre Ignacio, que conheceu Caio, que conheceu Monique, que conheceu Manuela, que conheceu Lamaison, que conheceu Varejeira, que conheceu Belizário. “Parece um texto da Bíblia”, pensou. “Nem sei se é um círculo vicioso ou viciado.”

Sentia-se perdido. Era raro que não atinasse rapidamente com a solução de um crime. Desvendara assassinatos difíceis, utilizando apenas sua intuição de detetive, porém, nesse caso, continuava intrigado com as pistas encontradas na trilha do criminoso.

Guardou o papel no bolso e saltou em frente à casa de Euzébio Fernandes.

O Coruja maravilhou-se com a beleza da moça que veio abrir a porta. Devia estar com cerca de trinta anos. Tinha os cabelos negros e sedosos arrumados num coque. Vestia-se de preto dos pés à cabeça, e seus grandes olhos redondos davam a impressão de que vivia em perene sobressalto. A voz grave, quase rouca, passava uma sensualidade contida:

— Muito prazer, comissário. Papai está à sua espera. Meu nome é Galatea.

— Não quero parecer atrevido, mas sou forçado a dizer que a sua beleza eclipsa a da estátua feita por Pigmalião — asseverou Machado, referindo-se à lenda.

Galatea ruborizou-se.

— Coisas de papai, que é apaixonado pela mitologia grega, mas tenho certeza de que tanto a ninfa como a outra Galatea eram bem mais inspiradoras de paixões do que eu...

O Coruja contradisse-lhe a modéstia:

— Acho difícil. Muito difícil.

— Não repare que tenha sido eu a recebê-lo. Minha babá foi visitar a sobrinha em Vila Isabel.

— Babá?

— Antiga babá. Desculpe, é a força do hábito.

Maria Eugênia cuidou de mim desde pequena. Continua conosco até hoje, ajudando aqui em casa — explicou a moça, enrubescendo outra vez.

A residência de Euzébio Fernandes era de uma simplicidade monacal. Numa pequena sala de estar, onde também eram servidas as refeições, havia livros espalhados pelos móveis, inclusive numa cristaleira antiga, junto com pratos e copos. Percebia-se que os diversos compêndios iam pouco a pouco se apoderando de todas as dependências da casa. Um corredor estreito dava, pelo que se supunha, para os quartos. O comissário espantou-se ao ver a quase-penúria da moradia do acadêmico. As paredes acolheriam de bom grado algumas demãos de tinta, e os estofados não reclamariam de novas almofadas. No entanto, essa escassez material não parecia afetar o bom humor de Fernandes. Ele aguardava Machado na sala, de braços abertos.

— Que honra receber tão notável figura no meu humilde Parnaso!

— O poeta é que merece todos os louvores. Sou apenas um funcionário público no cumprimento do dever — retrucou o policial, com a mesma eloqüência irônica.

— Não seja modesto. O senhor causou excelente impressão ao meu colega Leonardo Feijó, quando visitou o Petit Trianon.

Euzébio afundou o corpanzil no que o detetive julgou ser sua poltrona favorita, uma bergère de couro devastada pelos anos. Fez sinal para que Machado se instalasse no sofá em frente. Galatea sentou-se numa cadeira junto à parede que separava a sala da copa. Machado Machado iniciou a conversa com um elogio:

— Eu gostaria de ter o seu imenso talento de poeta pra conseguir expressar a beleza da sua filha.

Galatea baixou a cabeça, envergonhada, e Euzébio Fernandes inflou de satisfação.

— Felizmente, ela puxou à minha saudosa Quitéria – suspirou o viúvo. — Mas... que posso fazer pelo senhor?

— Antes de mais nada, o senhor pode me chamar de você.

— Foi por respeito à autoridade, mas, se é assim, obedeço às suas ordens – brincou Fernandes, batendo continência.

O comissário Machado Machado sorriu e confessou:

— Estou me sentindo frustrado com a investigação desses crimes. Talvez nossa conversa me ajude a entender o que se passa na Academia.

A bela Galatea interrompeu:

— Papai, por que é que, antes de começar, não oferece ao comissário o famoso café do Nordeste? Só você sabe a receita secreta que mamãe deixou.

Euzébio Fernandes extraiu seu corpanzão da bergère.

— Boa idéia, minha filha. O comissário aceita um cafezinho?

— Com muito gosto.

O grande poeta dirigiu-se à cozinha, e o Coruja viveu um dos episódios mais angustiantes da sua vida. Quando Euzébio saiu pela porta da copa, Galatea, em silêncio, levantou lentamente a blusa, exibindo os mais lindos seios que Machado já tinha visto. Eram fartos e rijos, de bicos rosados. Ela o fitava com um sorriso de Mona Lisa. Molhou a ponta dos dedos com a língua e acariciou os mamilos, deixando-os ainda mais túrgidos. Seu olhar reluzia, carregado de promessas.

Tudo isso enquanto Euzébio Fernandes preparava a famosa infusão. Machado, aturdido, temia que o acadêmico voltasse de repente, surpreendendo a cena esdrúxula. Alheio ao que acontecia na sala, Euzébio, coando o café, falava alto, sem parar:

— Esta receita da minha querida Quitéria é de beber ajoelhado. Quitéria morreu tísica, coitadinha. Dava pena ver aquele mulherão definhando. Não é, filhinha?

— É, papai — disse Galatea, sem suspender a exibição erótica.

O poeta continuou, mudando de tema:

— Não sei se tenho informações que lhe permitam desenrolar esse novelo. O que quer que eu conte sobre a Academia?

— Qualquer coisa — sussurrou o Coruja, quase rouco, observando Galatea contorcer-se de prazer.

Machado Machado apavorou-se ao pressentir a volta de Euzébio Fernandes. Não havia razão para tanto. Com um sincronismo absoluto, à medida que seu pai se aproximava da sala, Galatea ia abaixando a blusa, devagar, sem tirar os olhos do policial. Machado suspirou, aliviado, quando Euzébio tornou a sentar-se. Teve vontade de fumar para diminuir a tensão.

— O cigarro incomoda?

— Não, fique à vontade. Eu também fumo.

Galatea e o acadêmico recusaram o maço de Cairo.

— Obrigado, mas prefiro charutos — explicou Fernandes.

A filha sugeriu, com falsa inocência:

— Papai, por que é que não oferece ao comissário um dos charutos cubanos que o embaixador Caio Pontes-Craveiro mandou de presente? Acho que você guardou as caixas no armário da copa.

— Mas claro! Onde é que estou com a cabeça? Que falta de educação a minha! — desculpou-se Euzébio, voltando a se levantar da poltrona.

— Por favor! Não vá, não! Não se incomode! — gritou Machado, em desespero.

— Não é incômodo algum — Fernandes garantiu, indo para a copa.

O comissário Machado Machado passou de novo pela mesma provação. A tortura repetiu-se por várias vezes, com pretextos diferentes. Galatea pedia mais açúcar para o café, apontava o cinzeiro cheio, suplicou que o pai buscasse no quarto, para mostrar ao detetive, o retrato da falecida, mãe exemplar e esposa amantíssima.

A cada vez, ela levava a limites mais arriscados o movimento de cobrir os seios no retorno de Euzébio à sala. O perigo do flagrante exacerbava o frenesi de ambos naquele jogo sexual.

Finalmente, já não havia o que sugerir para perpetuar a manobra. O gordo poeta deixou-se cair na poltrona, ofegando pelo exercício, e retomaram o assunto que ocasionara a visita de Machado. Euzébio Fernandes explicou o que se passava na Academia:

— Um verdadeiro alvoroço tomou conta do Petit Trianon. É a primeira vez que surgem três vacâncias ao mesmo tempo. De certa forma, os acadêmicos estão na maior felicidade.

— Por quê?

— Meu caro comissário, o único momento em que dão atenção aos imortais é quando surge uma vaga. A disputa pela cadeira provoca uma paparicação sem limites. Por que é que você acha que o embaixador Caio Pontes-Craveiro, que nunca olhou na minha cara, me mandou seis caixas de charutos cubanos Partagas da melhor qualidade? Um juiz do Supremo, cujo nome vou omitir, me enviou uma cesta enorme de frutas cristalizadas, da Confeitaria Colombo. Tremenda gafe, o coitado não sabe que sou diabético. Um general da cavalaria perguntou se minha filhinha não gostaria de ter um pônei inglês. O ignorante pensa que a Galatea tem nove anos. A não ser quando vai haver eleições, ninguém se importa conosco, mas agora, com três cadeiras vagas, somos tratados como realeza.

Parou para tomar fôlego e acender um charuto.

— E, assim, nós vamos nos deixando corromper docemente. Isso, até completar de novo os quarenta; depois, volta o desprezo absoluto. Gosto muito da definição do escritor Fontenelle, contemporâneo de Racine e Corneille na Academia Francesa.

— Qual é? — quis saber Machado, a quem encantavam as tiradas de efeito.

— Veja você, já naquela época, e na França, ele dizia: “Quando somos trinta e nove, caem-nos aos joelhos; se somos quarenta, caçoam de nós”. — E Fernandes completou, repetindo em francês, com seu forte sotaque nordestino: “Sommes-noas trente-neuf, on est à nos genoux; et sommes-noas quarante, on se moque de nous ...”

— Pensei que esse deboche fosse mania de brasileiro.

— Qual o quê! A nossa Academia foi feita nos moldes da francesa, criada por Richelieu; é claro que lá também zombaram de muita gente boa. Como aqui, muitos foram eleitos por serem amigos do rei — continuou, vendo que o assunto agradava ao policial —, e muitos deixaram de entrar por não o serem.

— Quem, por exemplo?

— Alexis Piron. Um ótimo dramaturgo e epigramatista talentoso. Mas Luís XV se opôs, por causa de um poema burlesco de autoria dele chamado “Ode a Príapo”. Como ele era protegido da madame de Pompadour, pra compensar, o rei lhe concedeu uma pensão vitalícia. Quanta hipocrisia! Depois de rejeitado, Piron redigiu seu epitáfio: “Aqui jaz Piron, que não foi nada, nem mesmo acadêmico”.

Cada vez mais, Machado Machado simpatizava com o poeta gordo de Santa Tereza.

Euzébio deu uma baforada no charuto e ajeitou-se na bergère, incomodado com o que ia confessar:

— Eu reconheço que foi por interesses extra-literários que batalhei pela eleição do meu conterrâneo Bezerra...

O corpo vibrante de Galatea enrijeceu na cadeira.

— Não acredite nisso, comissário. Meu pai é um homem incorruptível!

— Obrigado pela defesa, filhinha, mas a verdade é que eu jamais teria me empenhado na eleição do senador, não fosse a promessa de um emprego no governo de Pernambuco. E, sem a pressão do Lamaison, eu não teria votado no Varejeira — declarou, olhando com ternura para a filha. — Perdoe a Galatea, seu Machado. Ela é muito passional.

O Coruja, que acabara de ter uma prova irrefutável dessa afirmativa, consolou-o:

— O senhor nada fez de grave. Depois, os assassinatos brutais corrigiram qualquer distorção.

— Espero que o assassino não esteja inaugurando uma nova modalidade de crítica literária — ironizou o poeta.

— Acha que os crimes podem ter sido cometidos por algum escritor frustrado, como é o caso na trama do último livro do senador? — o policial perguntou.

— Pode ser, porque, no fundo, todos querem entrar pra Academia. — Fernandes deu um sorriso malicioso: — Escrevi um poeminha satírico a esse respeito. Quer ouvir?

Galatea interferiu:

— Papai, o comissário tem mais o que fazer.

— Nada disso. Vou adorar ouvir o poeta dizendo seu próprio texto, mesmo que seja jocoso. Sou admirador do seu pai há muitos anos.

— No fundo é uma brincadeira. Peço que não comente com meus colegas; alguns deles não têm senso de humor e poderiam se ofender — revelou Euzébio, encabulado.

— Prometo — disse o detetive, pondo a mão no peito.

Euzébio Fernandes levantou-se e declamou em tom de farsa:

Canção do exílio, às avessas

Muito mais do que honraria,

Prêmio, medalha, homenagem,

O auge da biografia

Acha-se numa roupagem.

Até quem jura fobia,

Ou lhe faz objeção,

Num segundo aceitaria

O cobiçado fardão.

Pois confesso emocionado:

Desde os tempos de boemia,

Penso no verde e dourado

Da suprema fidalguia.

É um desejo acobertado

Pelo qual tudo faria.

Por isso é que, ajoelhado,

Eu repito a litania:

Que outro escriba não concorra

Quando chegar o meu dia.

Não permita Deus que eu morra

Sem brilhar na Academia.

Na minha obra eu invisto,

Escrevo prosa e poesia.

Aos modernismos resisto,

Se ofendem a confraria.

Falta rima? Eu não desisto,

Procurando noite e dia.

Fico à espera do imprevisto

Quebrando a monotonia:

Um imortal que encontre Cristo

Ao rolar da escadaria.

Na mesma oração insisto,

Com certa melancolia.

Mantenho a perseverança,

O fervor e a energia.

Se quem espera sempre alcança,

Repito logo a homilia:

Que outro escriba não concorra

Quando chegar o meu dia.

Não permita Deus que eu morra

Sem brilhar na Academia.

Alguns parcos contrapesam

O valor desta autarquia.

Muitos falam que desprezam

A Ilustre Companhia,

Que por ela eles não rezam,

Que aquele chá dá azia.

Se aos meus colegas eu digo,

Fazendo demagogia,

Que para o fardão não ligo?

É mentira, é covardia!

Também sonho às escondidas

Com esse nobre galardão.

Nem temo as lutas renhidas

Quando vai-se um ancião.

Sei das vantagens nascidas

Pelo porte do fardão.

Que outro escriba não concorra

Quando chegar o meu dia.

Não permita Deus que eu morra

Sem brilhar na Academia.

Lá dentro tem mais nobreza

Do que na corte de um rei.

Para provar dessa mesa,

Garanto, tudo farei:

Chamo os imortais de “Alteza”;

E certo que agradarei.

Evito qualquer franqueza

E uso de hipocrisia.

Direi que existe beleza

Em bulas de homeopatia.

Só assim vou ter direito

A mordomia e ao jetom.

Prometo que, quando eleito,

Direi em alto e bom som:

Imortal não tem defeito,

Viva o Petit Trianon!

Machado e Galatea aplaudiram, rindo, entusiasmados.

— Bravo! Bravo!

Exaurido pela proeza, o rotundo poeta desabou na bergère, às gargalhadas.

O detetive comentou:

— Não tinha idéia de como ser imortal é importante pra certas pessoas.

— E por pura vaidade — assegurou Euzébio —, porque, além do jetom, não existe nenhuma vantagem financeira nisso. Um dos nossos fundadores, meu dileto amigo e compadre Olavo Bilac, dizia que era imortal porque não tinha onde cair morto...

O comissário Machado Machado matutou sobre as palavras de Bilac enquanto tomava mais uma xícara de café.

— Curioso o senhor ter mencionado o Príncipe dos Poetas. A última frase pronunciada por Lauriano Lamaison, pouco antes dele morrer, foi: “Brás Duarte é Olavo Bilac”. Já ouviu falar em Brás Duarte?

— Nunca ouvi ninguém chamar Olavo de Brás Duarte. O único Brás que eu conheço é o Brás Cubas, do Machado. Será que foi ignorância do Lauriano? Não me espantaria.

— Duvido. Ele afirmou com muita convicção. O que me intriga é que reli os poemas e as crônicas de Olavo Bilac, e não encontrei nenhuma referência ao nome Brás Duarte.

Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes. Fernandes terminou seu charuto e disse, como se pensasse alto:

— Três acadêmicos mortos. Tenho medo de sair de casa. Minha filha diz que estou ficando paranóico. Se continuar deste jeito, daqui a pouco vai haver mais vagas do que imortais.

Machado levantou-se.

— Infelizmente, passou da minha hora. Foi uma tarde agradabilíssima — frisou, olhando para Galatea —, mas ainda tenho que passar na chefatura, saber das novidades.

Euzébio Fernandes perguntou:

— Então nos vemos domingo, na Candelária?

— Domingo?

— E, domingo. Acho que você deve comparecer à missa solene em memória dos três mortos, não?

— Uma missa só? Pros três?

— Claro. Foi o padre Ignacio que teve a idéia da homenagem tripla. É ele quem vai celebrar a missa. A Academia adorou juntar tudo numa cerimônia só. Fica mais barato. Galatea e eu estaremos lá. No meu caso, espero estar de corpo presente — riu Euzébio.

— Até domingo, então.

— Já que falamos em Olavo Bilac, faço questão de que você leve uma lembrança daqui.

Euzébio Fernandes abriu a cristaleira, pegou de lá várias edições encadernadas e autografou metade.

— Minhas obras completas e as do Olavo. Os livros dele estão dedicados a mim e os meus, a você.

Machado emocionou-se ao receber as obras raras, com dedicatórias dos autores.

— O senhor vai abrir mão destes livros assinados por ele?

Continuar: parte 2 de 3