Assassinatos na Academia Brasileira de Letras

Jô Soares · Capítulo 2 de 3 · parte 3/3

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Assassinatos na Academia Brasileira de Letras

O Paiz

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Yamamoto, não temos pressa. Dirija bem devagar. — E virou-se para Machado, explicando: — É meu criado de confiança. Conheci no Japão, quando meu marido foi embaixador em Tóquio. Ao contrário do que geralmente se diz, é um excelente motorista.

Manuela inclinou-se para pronunciar a última frase bem no ouvido do policial, deixando entrever, pelo generoso decote, a comissura dos seios.

— Então? Sou suspeita de algum crime pavoroso? — perguntou, provocativa.

— A embaixatriz só conseguiria matar alguém de paixão — respondeu Machado, sedutor. E acrescentou: — Ou levando ao suicídio algum pobre infeliz por um amor não correspondido.

Manuela suplicou, sorrindo:

— Vamos deixar a embaixatriz de lado, me chame de Manuela. O que é que esta humilde criatura pode fazer pela polícia?

Machado tomou coragem e disse, circunspecto:

— Soube da sua amizade pelo senador Belizário Bezerra, morto em circunstâncias trágicas.

— Trágicas? Eu diria tragicômicas. — Deu uma gargalhada: — Morrer entufado naquela fantasia...

Machado Machado queria chocar-se com o comentário, mas a beleza daquela mulher estupenda apagou qualquer cerimônia, e ele riu com ela. Viu que não conseguiria levar adiante a conversa por muito tempo.

— Por acaso já ouviu falar em Brás Duarte?

— Brás Duarte? Não. E tenho certeza de que o Gaio também não.

Por dever profissional, o Coruja ainda tentou:

— Sabe de algum motivo que pudesse levar ao assassinato do senador?

Manuela aproximou-se mais, o rosto quase colado no ouvido dele, e segredou:

— Sei. Um motivo sério. Beluário era péssimo amante. Eu adoraria saber se você corre risco de vida pela mesma razão...

Machado deu por encerrado o interrogatório. Beijou a embaixatriz, sorvendo-lhe os lábios úmidos e macios, enquanto fazia deslizar o cetim do vestido. Manuela retribuía, a língua quente provocando-lhe o desejo, nessa altura, incontrolável. Não usava nada por baixo. O detetive arrancou o paletó, tirou o incômodo coldre de ombro que aninhava o inseparável Colt, deitou fora as algemas no chão do carro, livrou-se do que restava de suas roupas, e em menos de um minuto os dois faziam amor, entrelaçados sobre o extenso banco de couro. Manuela gemia de prazer, e Machado prolongava-lhe a lascívia, sugando, com a boca trêmula de gozo, cada centímetro daquele corpo magnífico.

Finalmente saciados, vestiram-se depressa e em silêncio, pois o carro aproximava-se do seu destino. Pelo fone, a embaixatriz pediu que Yamamoto encostasse a limusine para o Coruja descer. Não convinha que ele saltasse em frente à embaixada britânica.

Manuela baixou o vidro e deu-lhe um último beijo, fugaz, pela janela. Quando terminava de ajustar o vestido no corpo suado, percebeu que, durante o sexo selvagem, o famoso rubi, prêmio sensual que lhe enaltecia o ventre, desaparecera do seu umbigo. Procurou, sem sucesso, a pedra preciosa no assoalho do automóvel. Perguntou ao policial, enquanto o Rolls-Royce prateado se afastava:

— Machado, o rubi! Você viu o rubi? Não consigo achar!

O comissário Machado Machado gritou de volta, encabulado:

— Perdão, amor. Acho que engoli.

 

QUINTA-FEIRA, 17 DE ABRIL DE 1924

MACHADO MACHADO NA CASA DE MACHADO

O comissário pensou na emoção que seu pai, o modesto escrivão Rubino Machado, sentiria ao vê-lo entrar na Casa de Machado de Assis. Mesmo que ali entrasse, não como imortal, mas como detetive. A admiração de Rubino pelo escritor beirava o fanatismo. Ao policial não incomodava que o alumbramento paterno tivesse convergido para a pia batismal. Seria eternamente grato ao pai por ter lhe suscitado o gosto pela leitura.

Machado telefonara comunicando a visita, e foi recebido, ao chegar na hora do chá, pelo simpático escritor Leonardo Feijó, por ser ele, aos sessenta anos, o benjamim da Academia. Além disso, constava da sua obra uma brochura sobre o famoso Crime da Mala, ocorrido em São Paulo, em 1908, quando Miguel Traad, um imigrante árabe de Beirute, estrangulou e esquartejou o patrão, colocando o corpo retalhado numa mala forrada de zinco, com a intenção de lançá-lo ao mar. Na opinião dos colegas de Feijó, o livro aproximava-o do comissário. Leonardo vestia-se com apuro, permitindo-se apenas contrastar o sóbrio terno preto com um colete de brocado lilás. Ele estendeu a mão, saudando o detetive:

— Ora, viva! Então, temos Sherlock Holmes no Petit Trianon! Conceda-me o privilégio de atuar como doutor Watson.

— Quem dera o verdadeiro Sherlock tivesse contado com um Watson tão talentoso. Seu trabalho sobre o Crime da Mala é um dos meus livros de cabeceira — mentiu Machado, para quem a obra não era desconhecida.

— Bondade sua... — agradeceu o escritor, ruborizando. — E que sorte nos calhar um policial que sabe ler.

— Perdão?

— Digo, que gosta de ler... pra investigar esses crimes — Feijó completou, corrigindo o deslize.

Mordido pela gafe, Machado deu o troco:

— Sou obrigado a confessar esse vício medonho. Leio tudo o que me cai nas mãos, do patrono desta Casa ao pessoal da Semana de Arte Moderna. Meu gosto é bastante eclético: adoro Eça e Lima Barreto, Augusto dos Anjos e Oswald de Andrade. Também não perco as aventuras de Reco-Reco, Bolão e Azeitona na revista O Tico-Tico.

— Nem eu, nem eu. A revistinha é ótima! Traiu-se o acadêmico.

— Ando empolgado com um jovem português chamado Fernando Pessoa. Não é um poeta formidável?

Feijó, que nunca ouvira aquele nome, aquiesceu e conduziu o comissário pelo braço. A medida que atravessavam o saguão com piso de Garrara, ele ia apontando o lustre de cristal francês e destacando as peças raras de porcelana de Sèvres, como um guia de museu.

Ao passarem pelo Salão Francês, Leonardo, o bom cicerone, explicou:

— Aqui, antes da posse, o eleito fica sozinho, recolhido num momento de reflexão. Nessa hora ele avalia toda a sua existência.

O Coruja presumiu que para certos acadêmicos aquilo teria que ser um ato de contrição.

Quando chegaram ao salão de chá, Leonardo apresentou-o com uma tirada, no mínimo, de mau gosto:

— Comissário Machado Machado, aqui estão alguns imortais que ainda não morreram.

Uma sensação de desconforto perpassou pelo recinto.

O detetive jamais sonhara um dia encontrar igual aglomerado de notáveis. Coelho Netto, Ataulfo de Paiva, Antônio Austregésilo, Carlos de Laet, Miguel Couto, Graça Aranha e Rodrigo Octavio cochichavam a seu respeito em tom conspiratório, atarefados em volta das guloseimas.

Um pouco afastado, Félix Pacheco conversava em francês com Paul Lapin, imortal da Academia Francesa em visita ao Rio. Lapin tornara-se célebre escrevendo sobre esoterismo, e garantia a Pacheco, que era diretor do Gabinete de Identificação, ter conhecido o conde Saint Germain pessoalmente, em Paris. Tratava-se de um alquimista que pertencera ao círculo íntimo do rei Luís XV, da França. Paul afirmava que o conde alcançara a imortalidade, não a literária mas a verdadeira, por meio da Pedra Filosofal. Segundo ele, Saint-Germain completaria duzentos e catorze anos em agosto. O poeta concedia-lhe ouvidos céticos.

— Pois é. Pena que na época ainda não existisse a datiloscopia...

Machado notou que o poeta pernambucano Euzébio Fernandes, protetor de Belizário, e Lauriano Lamaison, com quem pretendia conversar, não estavam presentes.

Pouco a pouco, apresentando desculpas distintas, os acadêmicos foram deixando o salão. A visita do Coruja causava desconforto. Finalmente, ficaram ali apenas Machado e Leonardo Feijó, bebericando o chá, e, na mesa ao lado, os historiadores Alfredo Olívio e Emengardo Villela, discutindo entre os petiscos. O policial não pôde deixar de ouvir um trecho da conversa:

— Então negas o talento dele? Negas?

— Pra mim, quem tinha razão era Emílio de Menezes. O Emílio dizia que o Medeiros era como prédio de avenida: muita frente e pouco fundo — declarou Alfredo Olívio, citando o poeta satírico.

— Balela!

— Balela nada! Essas estrofes do hino são estrambóticas, chegam a ser ridículas. Por isso é que dizem que o Brasil não tem memória! — quase gritou Alfredo Olívio.

Pelo pouco que escutou, o comissário deduziu que os grandes mestres divergiam a respeito do Hino da Proclamação da República, composto por Medeiros e Albuquerque, um dos fundadores da Academia. Leonardo entrou no assunto sem pedir licença:

— Vocês continuam falando da letra do hino?

— Eu continuo, porque não entendo como um historiador não perceba o absurdo dos versos — teimou Alfredo Olívio, irredutível.

Leonardo Feijó adorava se divertir com a arenga daqueles velhinhos. Ambos com oitenta e oito anos, eram os mais idosos da Ilustre Companhia, e a vitalidade que demonstravam levava a crer que seriam, de fato, imortais. Inseparáveis, provavam que os opostos se atraem: Emengardo Villela, magro e longilíneo, nariz adunco, vasta cabeleira aprumada sobre a testa larga; Alfredo Olívio, baixo e roliço. Pareciam a reprodução de Mutt e Jeff, uma dupla muito popular que aparecia nas tiras em quadrinhos dos jornais. Sem o saber, logo ganharam o apelido no Petit Trianon. Villela era o Mutt, e Olívio, o Jeff Por princípio, os dois historiadores sempre tinham opiniões discordantes. Quando Emengardo Villela lançou o livro Calabar, traidor de duas pátrias, Alfredo Olívio rebateu, um mês depois, com Calabar, o libertário injustiçado.

Leonardo resolveu estimular a rixa entre os longevos e sugeriu, muito sério:

— Vamos deixar o nosso comissário Machado decidir quem está certo?

Os vetustos concordaram, mais por cerimônia em relação ao visitante do que por convicção. Villela falou primeiro.

— Eu argumentava que os versos do Hino da Proclamação da República são de uma beleza sublime. E destacava a altissonante estrofe do Medeiros:

Liberdade! Liberdade!

Abre as asas sobre nós!

Das lutas, na tempestade

Dá que ouçamos tua voz.

Depois da declamação entusiasmada do confrade, Alfredo Olívio revidou, irônico:

— Em primeiro lugar, não estou criticando a poesia. Quem sou eu pra fazer críticas ao grande Medeiros e Albuquerque — sorriu —, ainda que não consiga visualizar a Liberdade dando sua voz a ouvir?

Feijó tossiu para esconder o riso. Olívio continuou:

— Agora, como historiador, o que me dá vontade de rir são os versos seguintes:

Nós nem cremos que escravos outrora

Tenha havido em tão nobre país...

— Outrora!? Que ridículo! Como “outrora”, se a República foi proclamada em 1889 e a escravidão só acabou um ano antes? Nunca ouvi falar que um ano antes fosse “outrora”. Ha! Ha! “Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país”? Cremos, sim! Ah, se cremos! E como cremos! Pelo menos eu creio, porque não sou um historiador gagá e détraqué... — finalizou o professor, afastando-se às gargalhadas.

Como se obedecesse a uma marcação teatral, Villela saiu bufando pelo lado oposto. Não esperaram para saber o parecer do detetive. O anfitrião tranqüilizou Machado, rindo:

— Não se preocupe. Daqui a pouco, Mutt e Jeff estarão às turras por outro motivo qualquer.

— E verdade que, uma vez, quase chegaram às vias de fato na casa do presidente da Academia? — perguntou o comissário.

Leonardo riu, recordando o episódio:

— E verdade, mas faz tempo. O Renan Vieira convidou os dois pro seu aniversário. Aconteceu um esbarrão entre eles, o Olívio tomou como ofensa e atirou um copo desse tal guaraná Champagne no rosto do Villela. Foi a maior confusão. A briga vinha de longe, desde que Emengardo declarou que o Alfredo era um historiador secundário. Olívio respondeu dizendo que, se ele era secundário, o Villela era primário. Depois, a muito custo, fizeram as pazes, mas a pendenga recomeça sempre que se encontram.

Feijó deitou novamente chá nas duas xícaras.

Lendo uma certa decepção nos olhos fundos do Coruja, indagou, solícito:

— Será que consigo lhe ajudar de alguma forma?

— Na verdade, eu procurava pelo Euzébio Fernandes e por Lauriano Lamaison.

— Infelizmente, nenhum dos dois passou por aqui hoje. Euzébio nem sai de casa. Anda muito abatido pela morte do Belizário Bezerra. O coitado fez um esforço enorme pra conseguir eleger o amigo conterrâneo, e deu no que deu. Longe de mim falar mal de um colega, mas ali havia conveniências que iam muito além da literatura. O poder político e financeiro do Belizário era enorme. Em Pernambuco, então, mandava e desmandava.

— Quer dizer que o interesse de Euzébio Fernandes nesse pleito ia além da literatura?

— Claro! O pobre do Euzébio anda à míngua. Mesmo sendo viúvo, o estipêndio que recebe como funcionário da Light mal dá pro sustento dele e da filha. O Beluário prometeu-lhe uma sinecura como representante de Pernambuco, aqui no Rio.

— Daí o empenho — concluiu Machado.

— Não me interprete mal. Euzébio é um homem de bem. — Sorriu, lembrando-se de um fato divertido: — Por causa dessas mortes, ele anda atormentado por um pesadelo. Tudo em função do enterro.

— Enterro de quem?

— Dele mesmo. O Euzébio engordou muito.

— Não estou entendendo — disse o detetive, intrigado.

— Há alguns anos tivemos uma complicação devido à obesidade de um acadêmico, o romancista Aparício Coimbra. Lembra-se dele?

— Claro que sim — respondeu o Coruja, que lera O mel das mariposas, uma novela enfadonha a respeito do romance de um marinheiro dinamarquês com uma índia pataxó.

Uma parte do livro fora escrita em tupi. Era a parte mais compreensível. De tão gordo, apelidaram Coimbra de Moby Dick, a Baleia Branca. Completando o visual exuberante, Moby ocultava sua calvície com uma cintilante peruca cor de azeviche.

Leonardo continuou:

— Pois bem. Primeiro houve o imprevisto da peruca, que se recusava a permanecer no topo da cabeça. Aparício era vaidoso demais, não ia querer ser enterrado careca. Felizmente, o agente funerário, muito engenhoso, nos livrou da enrascada fixando o chinó no cocuruto com uma tachinha. Mas foi na hora de vestir-lhe o fardão que surgiu mesmo a dificuldade. Coimbra tinha engordado trinta quilos nos últimos dois anos. Nem o empenho de quatro papa-defuntos conseguiu resolver o impasse.

Machado partiu para a solução simplista:

— Enterraram ele de terno?

— Não. Alguém teve a brilhante idéia de chamar o nosso inventivo alfaiate Camilo Rapozo, que acabou com o problema num instante. Ele usou a tesoura com o talento de sempre: abriu de cima a baixo a parte de trás da roupa. Aí, foi só vestir a frente e enfiar o resto por baixo do corpo, como se faz com o lençol num colchão. Foi fantástico! Nunca vi um fardão tão bem esticado. Se pudesse ter se visto, o Moby descansaria orgulhoso. Ficou nos trinques.

O policial riu, visualizando a cena.

— E Euzébio Fernandes tem medo de que lhe aconteça a mesma coisa.

— Nós brincamos muito por causa disso. Leonardo mudou de tom: — Euzébio é uma unanimidade na Academia. Todos gostam dele, como poeta e como pessoa. A verdade é que, apesar do prestígio e poder político do Bezerra, se não fosse a cabala do Euzébio, ele não se elegeria. Provavelmente ainda estaria vivo — completou.

— O senhor está sugerindo que o assassinato tem a ver com a Academia?

— Eu não estou sugerindo nada, comissário. Estou pensando em voz alta.

— E quanto ao Lauriano Lamaison?

— Está em São Paulo, cuidando de negócios, sabe-se lá de que tipo de negócios. Viajou logo depois dos enterros, mas volta pra recepção que vai haver no Hotel das Paineiras.

— Recepção?

— Então não sabe? É a festa de lançamento do concurso de projetos pra construção do monumento ao Cristo Redentor que vão erigir no Corcovado. Uma tarefa hercúlea. Os pessimistas dizem que é impossível. — Fez uma pausa e comentou, sardônico: — O Lauriano foi convidado pra discursar, na ocasião, sobre as aves que lá gorjeiam... Espero que tenha contratado alguém que entenda do assunto pra escrever o discurso.

— Pensei que ele fosse especialista. Não foi com um livro sobre pássaros que entrou pra Academia?

Machado e Feijó achavam-se sozinhos no salão. Mesmo assim, o escritor baixou a voz, temendo os ouvidos das paredes:

— É a versão oficial, mas o que se comenta nos bastidores é que o autor de Tratado ornitológico sobre a fauna alada do Brasil é um escritor de aluguel. Dizem que o Lamaison não consegue distinguir um pardal de um cuco de relógio.

— Falando em pássaros, o senhor tem idéia do que isto significa? — O detetive mostrou-lhe o bilhete cifrado.

— Não faço a menor idéia. Não sei que passarinho é esse, e nunca ouvi falar em Brás Duarte — declarou, intrigado, o acadêmico.

O Coruja guardou a mensagem no bolso e acendeu um cigarro, o que levou Leonardo Feijó a exibir seu belo cachimbo Dunhill. Enquanto socava o fumo no fornilho, avisou discretamente:

— Se é por causa do pássaro que está interessado no Lamaison, garanto que é tempo perdido.

— Não é por isso. É que descobri que, sem ele, o doutor Aloysio Varejeira não estaria na Academia. Muito menos como candidato único.

— Ninguém se atreveria a contrariar o Barão Amarelo. Aquele chantagista tem arquivos detalhados contendo os podres de todo mundo. Usa qualquer coisa: da infâmia e da calúnia aos pecadilhos de infância, no colégio. — Leonardo pareceu pouco à vontade, como se recordasse os tempos passados no internato. — Até eu, que sempre achei o Varejeira uma figura detestável, votei nele. Aqui entre nós, confesso que foi o único voto de que me envergonho. Aquele mão-de-vaca desprezível não merecia entrar no Petit Trianon. Ainda bem que entrou por uma porta e saiu pela outra... — acrescentou, sem resistir à maldade.

A sinceridade do escritor agradou ao detetive.

— Quer dizer que, além de ser ele o único candidato, a votação foi unânime?

— Não, comissário. Houve uma voz contrária, sim, o que deixou Lamaison exasperado. Quase não conseguia esconder sua raiva. Pior que uma abstenção, teve um voto em branco. Um voto em branco que lavou a nossa alma. Lauriano considerou aquilo uma ofensa pessoal, mas foi obrigado a disfarçar e engolir o desaforo.

— Quem cometeu essa audácia de lesa-majestade contra o Barão? — ironizou o policial.

— O padre Ignacio de Villaforte. Mesmo que Lauriano saiba qualquer detalhe escuso sobre a vida do padre, ele é covarde; não tem coragem de investir contra a proteção da batina.

Machado Machado ouvira falar do padre Ignacio. Era um homem influente, pois sua paróquia reunia a nata da sociedade carioca. Conhecia alguns trabalhos de De Villaforte, que, além de escrever monografias extensas sobre a arte sacra barroca do século XVI, dedicava-se à poesia romântica. Os versos eram de uma ousadia sensual e, muitas vezes, perturbadora; por certo desgostariam o clero conservador. Resguardando-se da censura canônica, ele assinava os sonetos com um pseudônimo que homenageava um personagem de Oscar Wilde. Essa precaução de conveniência servia apenas para evitar atritos com a Cúria, que fingia desconhecer o lado mais voluptuoso da obra do padre, porém todos sabiam que Ignacio de Villaforte se escondia sob o nome de Alume de Dorian Gray.

— O padre esteve aqui hoje?

— Que nada. Claro que, sendo da Casa, é ele quem vai rezar a missa de trigésimo dia. Anda muito atarefado com os preparativos.

— Mas faltam mais de duas semanas...

— Bem se vê que o senhor não sabe o trabalho que dá uma missa solene pra despachar dois imortais. O padre Ignacio de Villaforte gosta de cuidar pessoalmente de todos os detalhes.

— Vou fazer uma visita ao padre — resolveu o detetive.

Leonardo Feijó não pôde deixar de rir.

— Comissário, desse jeito, visitando tantos acadêmicos, vou começar a desconfiar que o senhor é candidato à Academia...

ALFAIATARIA DEDAL DE OURO

PROVA E PROVAÇÃO

O segredo mais bem guardado do padre Ignacio de Villaforte, o opróbrio que o atormentava, a revelação que ele apenas rumorejava constrito, em confissão, era o capitalíssimo pecado da luxúria.

Na alma daquele corpo alto, adelgaçado, de figura ascética, travava-se constante batalha entre a castidade e a concupiscência. Seus sonhos, interrompidos por poluções noturnas, eram povoados de súcubos e íncubos, demônios mitológicos que o subjugavam, levando Ignacio a orgasmos infindáveis em conjunções pecaminosas.

No dia seguinte, quando acordava banhado em suor, ajoelhava-se, orando em latim, e, como penitência, fustigava as costas nuas com um látego de couro cru, pedindo perdão pela culpa que não tinha. Ignacio pagava pela conseqüência irreprimível da sua natureza.

Cônscio de quão perigoso seria expor-se a essas tentações, De Villaforte permanecia casto. Exorcizava os devaneios que lhe açulavam o espírito na poética rica em erotismo que assinava como Dorian Gray.

Entretanto, vulnerável como todos às fraquezas da carne, administrava pequenos toques sutis e disfarçados, com suas mãos longas, a qualquer criatura que lhe atiçasse a libido. Os dedos finos, alvos como mármore, esquadrinhavam a pele do objeto de seu desejo, numa carícia lúbrica travestida em afago inocente.

Apesar desse zelo em mascarar a volúpia que o consumia, ele era vítima de uma perversão que ocultava até das oiças do seu confessor: o padre Ignacio de Villaforte sentia uma atração incoercível por anões.

Esse fascínio incontrolável transformava em tortura todas as visitas que fazia ao alfaiate Camilo Rapozo. Tortura esta compartilhada pelo Gnomo da Tesoura, como Ignacio gostava de chamá-lo com carinho. Cada ida ao provador se transformava numa peleja de gato e rato. Padre De Villaforte no ataque, e Camilo esquivando-se do assédio camuflado.

A favor do padre, há de se reconhecer que Camilo Rapozo era um anão de beleza excepcional. Descalço, media um metro e vinte e nove centímetros exatos, todavia seu corpo harmonioso, proporcional e de músculos bem torneados, primor de anatomia diminuta, já despertara paixões fulminantes em várias mulheres. Os ombros largos, o crânio raspado, os olhos puxados de oriental, a pele morena, típica dos meridionais, e a voz aveludada de barítono faziam lembrar o gênio da lâmpada de Aladim em miniatura.

Diversos eram os subterfúgios que o padre Ignacio de Villaforte inventava para freqüentar a alfaiataria — subir a bainha, descer as mangas de uma batina, afrouxar a cintura —, contudo, nessa sexta-feira, a visita tinha um propósito inadiável. Seria a última prova das vestes sacerdotais que o padre usaria na missa solene dedicada a Belizário Bezerra e Aloysio Varejeira.

Trajando a túnica de seda branca presa à cintura pelo cíngulo, a casula roxa e a estola púrpura bordada minuciosamente em fios de prata, trabalho que recordava a laboriosidade de um ourives, o padre Ignacio de Villaforte mirava-se, altaneiro, no espelho da cabine de prova. “Modesto pároco, sem dúvida, mas com porte de cardeal”, pensou, satisfeito, cometendo o pecado da soberba.

— Sem falsa modéstia, Vossa Reverendíssima lembra Richelieu ou Mazarin — declarou Camilo Rapozo, exagerando no tratamento.

— Achas mesmo? O colarinho não está alto demais, meu caro Gnomo da Tesoura?

Como de hábito, o alfaiate fingiu ignorar o apelido que detestava.

— De modo algum. O pescoço de Vossa Reverendíssima é comprido, e o colarinho alto realça seus traços de fidalgo.

— Tens razão, meu querido Camilo. Incomoda um pouco, mas ofereço esse pequeno sacrifício pra me apresentar mais belo aos olhos do Senhor.

Logo que o padre começou a se desvencilhar dos paramentos para vestir a batina regular, Rapozo afastou-se do provador.

De Villaforte interpelou-o:

— Aonde vais? A cabine é muito estreita. Não me ajudas a mudar de roupa? Não sejas pudico; se estás com vergonha, eu te absolvo. Ego te absolvo...

Era esse o momento temido pelo anão. Durante a troca, sob o pretexto da exigüidade do espaço, De Villaforte sempre conseguia apalpar-lhe sub-repticiamente as partes pudendas. Fazia-o com perícia, de forma tão dissimulada, que a menor queixa do alfaiate provocaria uma reação indignada de Ignacio. “Anátema!”, gritaria o padre, colérico. Restava a Rapozo esquivar-se da melhor maneira possível.

Terminada a prova e a provação, Camilo acompanhou, exausto, o padre Ignacio de Villaforte até a saída, esclarecendo:

— Mando entregar amanhã sem falta. Será que Vossa Reverendíssima poderia acertar o pagamento agora? Estou meio curto de dinheiro... — revelou, sem jeito.

— Meu amado Gnomo, nada me daria mais prazer! Só que eu jamais encomendaria essas vestimentas caríssimas. Tudo isso foi feito pra missa solene dos imortais. Então não sabias? A conta vai pra Academia e da Academia vai pro estado.

Assim dizendo, De Villaforte abriu a porta da alfaiataria. Aproveitando-se do momento de estupor do anão, girou nos calcanhares e estendeu a mão ávida num gesto rápido.

— E pra dar sorte... — desculpou-se o reverendo, dedilhando-lhe a virilha.

Ao voltar, acabrunhado, ao centro da loja, Camilo Rapozo achou um envelope dobrado que o padre Ignacio deixara cair propositadamente do bolso da batina. O sobrescrito informava numa caligrafia rebuscada:

Para meu adorado Camilo

de

Dorian Gray

O alfaiate abriu o envelope e leu o conteúdo, que o deixou atônito:

Utopia Inexeqüível

Ao ver-te pequerrucho entre os gigantes

Da nossa Immortal literatura,

Olvido a ecclesiástica postura,

E assolam-me chimeras delirantes

Teu Dardo pétreo – arma esplendorosa ! —,

Armazenado em corpo tão pequeno

Repousa, acalentado, enorme e pleno,

A espera de uma noite dadivosa.

Ai doce Apollo Liliputiano !

Desperto como um fauno combalido,

Purgado o gôzo luciferiano.

Pois meu clamor; cerrado num gemido,

Confessa-te o pecado pubiano:

Meu sonho é com teu phallo intumescido!

Dorian Gray

Havia mais de meia hora que o padre Ignacio de Villaforte deixara a Alfaiataria Dedal de Ouro, e o almejado anão Camilo Rapozo, muso inconfesso, continuava aturdido. Lera e relera o soneto galante, de métrica impecável, e não sabia se o rasgava ou queimava.

Guardou o papel numa gaveta da escrivaninha. O poema subsistiria apenas como souvenir, já que, oficialmente, ninguém conhecia a identidade de Dorian Gray. Camilo sabia que só poderia queixar-se ao bispo no sentido metafórico. Além disso, embora não o reconhecesse, ficara um tanto envaidecido por acirrar tamanha paixão.

Acabava de fechar a gaveta quando a sineta da porta tocou avisando que o comissário Machado Machado entrava na alfaiataria. Ao avistá-lo, a primeira coisa que Camilo Rapozo, excelente profissional que era, logo reparou foi o corte de carregação do terno amarfanhado, comprado feito. Ignorando a repulsa que a roupa causava ao seu senso estético, o anão correu para receber o detetive.

— Desculpe, mas o senhor não é o famoso comissário Machado Machado?

— Sou tão pouco famoso que nem sei como o senhor me reconheceu.

— Não seja modesto, comissário. Por causa dos Crimes do Penacho, o senhor apareceu em todos os jornais. A propósito, não tome como ofensa, mas a alguém tão bem-apessoado calhava um traje melhor. Quando vi sua foto com esse terno, pensei que o meu jornal é que estava amarrotado.

Machado riu da chacota e rebateu:

— Meu salário de policial não permite que eu me vista no grande Camilo Rapozo. Também não se ofenda se digo grande. Estou me referindo ao seu talento.

O alfaiate fingiu não acusar o golpe.

— Então me permita a cortesia de lhe oferecer os meus préstimos.

O comissário tentou protestar, mas Camilo não aceitava recusas. Correu atarefado para as prateleiras e começou a abrir peças do melhor tropical inglês.

— Acho que um azul-marinho é o que mais lhe convém. Nem muito claro nem muito escuro. Serve pra qualquer hora do dia e da noite.

Empurrou Machado para a frente do espelho e jogou um pedaço do pano desenrolado sobre o ombro do detetive. Com a longa unha do dedo mínimo, marcava sulcos no tecido, delineando a posição de uma futura lapela.

— Olha que maravilha! Combina inclusive com a palidez do seu rosto.

— Seu Rapozo, não posso aceitar, porque não tenho condições de retribuir um gesto tão generoso. Vai ficar...

Camilo interrompeu o embaraço do comissário:

— Não adianta discutir, já está resolvido. O senhor não conhece a obstinação dos Rapozo. Nosso lema é: “Miúdos, porém testudos” — anunciou, e saiu correndo em busca da plataforma sobre rodas, de trinta centímetros de altura, especialmente confeccionada para que ele pudesse tirar as medidas dos clientes.

O Coruja impressionou-se com a agilidade e a força do homenzinho. Carregava os pesados rolos de fazenda sem demonstrar o menor esforço. A fita métrica, longa demais para o seu tamanho, pendia-lhe do pescoço, lembrando uma cobra morta. Voltou para junto de Machado usando a plataforma móvel como uma patinete, com destreza juvenil.

O policial ainda fez mais uma tentativa para rejeitar o presente:

— Seu Camilo, eu vim aqui pra me informar sobre os escritores assassinados, estou no meio de uma investigação importantíssima. Não vou ter tempo pra fazer provas de roupa.

— E quem disse que vai precisar de provas? Com esse corpo de manequim, garanto que faço o terno sem precisar de ajuste nenhum. O senhor não conhece a minha mestria. É fazer e entregar.

Enquanto o anão se esmerava em tirar as medidas de Machado, anotando cada uma na caderneta que trazia no bolso do colete, o detetive indagou sobre os imortais.

— O senhor é o famoso alfaiate dos fardões. Esses seus clientes, tão especiais... é muito difícil tratar com eles?

— De jeito nenhum, comissário. São como crianças grandes. Basta ter paciência — refletiu Camilo. Só me incomoda um pouco a mania que eles têm.

— Que mania?

— Tanto aqui, como quando vou fazer uma entrega no Petit Trianon, todos passam a mão na minha cabeça. Dizem que é pra dar sorte. Uma superstição tola vinda do tempo dos bobos da corte. Na Academia, já virou tradição: basta eu aparecer que começam com a brincadeira. Parece que é de bom augúrio tocar numa pessoa como eu, que possui, digamos, uma imagem corporal singular...

Machado Machado apreciou a metáfora mimosa do simpático anão.

— E quanto aos que morreram?

— Infelizmente, sou obrigado a declinar de fornecer qualquer informação sobre os falecidos. Espero que o comissário não se aborreça. Sigilo profissional, entende? Nunca ouvi nada que pudesse ajudá-lo. Só pequenas vaidades, próprias dos cavalheiros idosos. Depois, o que se diz num provador de alfaiataria é tão secreto quanto o que é proferido num confessionário. Meu tataravô, António Gomes Rapozo, nem sob a tortura da Inquisição revelou qual era o tecido das ceroulas do marquês de Pombal — respondeu, exaltado, o orgulhoso artífice.

Foi tamanha a determinação de Camilo Rapozo que o Coruja desistiu da inquirição. A bem da verdade, diga-se que pouco se lhe dava descobrir a cor das cuecas dos imortais.

— Tem algum cliente chamado Brás Duarte? — disparou, à queima-roupa.

— Não, comissário. Nem sei quem é — informou o anão, agastado pela teimosia do detetive.

Machado avaliou que nada do que o alfaiate desvelasse valeria a insistência. Fez apenas um último comentário, no momento exato em que Camilo media a distância entre o cós e o final da braguilha:

— O padre Ignacio de Villaforte é cliente seu?

Num movimento involuntário, o anão afastou depressa as pequenas mãos, que percorriam, com a fita métrica, aquela área sensível.

— Quem? — perguntou Camilo, ganhando tempo.

— Padre Ignacio de Villaforte, da Academia. As vezes, se assina Dorian Gray, quando escreve textos picantes, que o clero condenaria — sorriu. — Uma cautela inútil, porque todo mundo sabe que Dorian Gray é ele.

— Faço as batinas do padre Ignacio, sim. Estou até terminando os paramentos que ele vai usar na missa solene em intenção dos imortais. Aliás, veja que coincidência, o padre esteve aqui hoje, provando as roupas. Quase que os senhores se cruzam. Mas eu nunca soube que ele usava pseudônimo. Dorian Gray? Nunca ouvi falar — mentiu o alfaiate, quase enrolando a língua.

Machado notou o desconforto causado pelo nome de guerra do padre De Villaforte e deduziu, erradamente, que o acanhamento nada mais era do que um exercício de discrição de Camilo Rapozo sobre o cliente eclesiástico.

O anão guardou seus apetrechos de corte e costura, dando a conversa por encerrada. Guardou a caderneta com as anotações.

— Pronto. Tenho tudo o que é necessário pra lhe fazer um terno de dar inveja ao príncipe de Gales. Jaquetão. Um homem da sua estatura merece um jaquetão. — E, apontando para a caderneta, brincou, usando o jargão policial: — Trago no meu bolso o comissário Machado Machado medido e fichado.

O detetive deu-lhe um cartão com os telefones.

— Se, por acaso, se lembrar de algum incidente que possa me ajudar, claro que respeitando inconfidências inúteis, que o incomodem, por favor, me ligue, a qualquer hora do dia ou da noite.

— O doutor pode contar comigo. Sempre respeitei as autoridades policiais.

Pelo tom untuoso do alfaiate, o Coruja não tinha esperanças de receber ligação alguma.

Sem prévio aviso, Camilo forçou o detetive a subir na plataforma sobre rodas. Abaixou-se e, retirando da lateral do objeto uma alça embutida presa a uma corda, transformou a plataforma num carrinho. Antes que Machado pudesse tentar descer, saiu correndo em direção à porta, puxando o veículo improvisado com o policial em cima.

— Se me permite, vou lhe proporcionar uma deferência que reservo somente aos meus visitantes insignes: uma saída triunfal!

Talvez nem houvesse intenção de zombaria na duvidosa homenagem prestada pelo sagaz anão-alfaiate Camilo Rapozo. Não obstante, o comissário Machado Machado, que odiava Carnaval, sentiu-se desfilando num carro alegórico dos Tenentes do Diabo.

 

SEGUNDA-FEIRA, 21 DE ABRIL DE 1924

QUEM É VIVO SEMPRE APARE ÀS VEZES MORTO

Era difícil associar a beleza das imagens que enfeitavam os túmulos do São João Batista com choros e ranger de dentes. As alamedas, traçando quadras com exatidão, criavam uma atmosfera de reflexão e serenidade.

As onze horas dessa noite quente de Botafogo, a lua cheia banhava as estátuas sobre os jazigos, dando-lhes um plano de mistério. Dentre as mais belas esculturas, destacava-se a réplica do monumento de Saint Cloud. O ícaro alçando vôo, de braços abertos, fora oferecido pelo governo francês ao Pai da Aviação. Santos Dumont colocara-o na entrada do mausoléu da sua família.

A uma quadra desse sepulcro, em frente à campa de Beluário Bezerra, um homenzarrão ajoelhado quebrava a harmonia. O colosso de homem que invadira o campo-santo se debulhava em lágrimas, açoitado pelo remorso.

— Perdão, meu padim Beluário, perdão! A culpa é minha! Se eu tivesse chegado antes, não deixava essa desgraça acontecer! — lamentava-se, batendo a cabeçorra contra o mármore do túmulo. — Meu padim deixou tudo acertado pra eu pegar o tal do aeroplano, mas quem disse que eu tinha coragem? Vim mesmo é de navio, padim. Não sabia que ia acontecer essa miséria.

O capanga aguardado por Belizário, Pedro Menelau, um cafuzo de um metro e noventa, de arcabouço assustador, chorava como criança.

Usando suas ligações e o vasto poder que exercia em Pernambuco, o senador Belizário Bezerra comprara, a peso de ouro, um lugar no Couzinet 70, um avião trimotor da empresa Latécoère, que começava a operar um serviço de correio aéreo entre Natal e Buenos Aires e não levava passageiros. Mediante um generoso pagamento, não foi tarefa das mais complicadas convencer o piloto, um francês com espírito de aventura, a transportar um viajante escondido entre as malas postais.

Só que Bezerra não contara com o pavor que se apossou de Pedro Menelau diante da empreitada. Pedro daria a vida pelo senador, que, anos antes, livrara-o do tiro mortal de um coronel de engenho prestes a vingar o filho assassinado numa desavença banal. O cafuzo transformara-se em seu anjo da guarda e obedecia-lhe cegamente. Até deparar-se com aquele descomunal pássaro metálico. Os três motores do aparelho já atroavam na pequena pista de terra batida. Pedro sentiu que nada neste mundo de Deus o faria botar os pés no monoplano.

— Moço, se essa estrovenga voa, é porque é arte do tinhoso. Vou não. Pego o navio. Tem um ita saindo amanhã cedo. Meu padim há de entender.

O francês, remunerado com antecedência, nem insistiu. Alçou vôo, arrancando do chão o pujante Couzinet com sua carga epistolar.

Era esse o motivo que levava ao desespero Pedro Menelau. Convencido de que, se tivesse chegado a tempo, teria evitado a morte do protetor, ele soluçava, gemendo numa lamúria pungente.

O gigantesco capanga estava tão absorto em penitenciar-se pela morte inevitável que não notou o vulto a se esgueirar entre os túmulos às suas costas. Caso o fizesse, estranharia o chapéu enfiado fundo na cabeça e o longo sobretudo preto que o sinistro personagem vestia apesar do calor da noite sem brisa. Aquela figura ameaçadora mantinha a gola do sobretudo alta, como se quisesse esconder o rosto. Não contava com a presença de Menelau: viera em busca de outras láureas. Agora os olhos dele não desgrudavam da nuca de Pedro, ajoelhado no jazigo. Era alto e forte, mas sua envergadura nem de longe se comparava à de Menelau. Todavia, o pobre e fiel guarda-costas não pôde sequer esboçar a menor reação. O homem aproximou-se lentamente, sem fazer ruído, e saltou sobre a vítima indefesa. Houve apenas um breve cintilar, quando o brilho da lua incidiu no objeto metálico e cortante na mão do agressor.

Num gesto rápido, o assassino dilacerou a carótida de Pedro Menelau, convertendo-lhe a garganta em chafariz de sangue.

O comissário Machado Machado chegou ao cemitério logo de manhã cedo e, por um instante, pensou presenciar a ressurreição de algum hóspede do São João Batista. A primeira coisa que viu foi um homem de costas levantando-se de uma cova. O homem virou-se para ele, e Machado percebeu que a versão moderna de Lázaro era o legista Penna-Monteiro. Todo um pelotão de guardas cercava a área, na Rua General Polidoro. O local fora interditado. Decerto os defuntos não se incomodaram.

Entre dois túmulos profanados, de lousas abertas, via-se o corpo exangue de Pedro Menelau. Continuava ajoelhado, em rigor mortis, e o corte que lhe esfrangalhara a garganta criava a bizarra ilusão de uma gárgula humana. Da fenda sanguinolenta saía o mesmo bilhete enigmático, com um pássaro empoleirado no nome Brás Duarte.

Em torno da cabeça de Menelau, o sangue escuro, coagulado sobre a camisa, formava um macabro babador.

— Bela maneira de se comemorar o Descobrimento do Brasil — ironizou Gilberto de Penna-Monteiro, enquanto sacudia da roupa a terra úmida da cova.

— Então, Gilberto, já se sabe quem é? — indagou o detetive, apontando o genuflexo.

— Pelos documentos que trazia no bolso, se chamava Pedro Menelau. Solteiro, de pai desconhecido, nascido em Cameleira, na Zona da Mata, em Pernambuco. Ao que tudo indica, era o capanga que o Bezerra aguardava. Infelizmente, chegou tarde. Acharam o sujeito assim, morto de joelhos. Foi surpreendido, de costas, enquanto rezava pela alma do seu amado coronel.

— De costas?

— Claro. Viu o tamanho dele? Não ia morrer sem reagir, e não há nenhum sinal de luta. Duvido que ele tivesse evitado o envenenamento do Beluário, mas o coitado devia estar tão cheio de remorsos que nem teve tempo de puxar a peixeira da cintura — explicou Penna-Monteiro, apontando a temida arma branca embainhada que pendia do cinturão de Pedro Menelau. — Pela rigidez do corpo, ele foi atacado por volta da meia-noite.

O Coruja mudou de assunto:

— E essas campas abertas? O que é que você fazia dentro da sepultura?

— Guardei o melhor pro final, Machadinho. A morte desse infeliz foi um acidente. Morreu porque estava no lugar errado, na hora errada. O assassino não estava atrás dele. Veio aqui por outro motivo.

Machado impacientou-se:

— Que motivo, homem de Deus?!

— Veio roubar os fardões dos acadêmicos.

O detetive aproximou-se das covas e deparou-se com uma visão que ficaria indelével em sua memória. Desprovidos das galas majestosas, imortais transmutados em festim de larvas, Beluário Bezerra e Aloysio Varejeira estavam totalmente nus.

Havia algo de obsceno e lúgubre naqueles dois cadáveres descarnados, despidos de suas pompas literárias.

Devido ao feriado, Machado Machado só pôde prestar contas ao chefe de polícia na quarta-feira. Para usar uma expressão corrente, o general Floresta estava fulo de raiva. Andava de um lado a outro da sua sala, repetindo uma frase de difícil compreensão para quem não tivesse conhecimento do caso:

— Era só o que faltava! Era só o que faltava! Era só o que faltava!

Fazia uma pequena pausa e tornava a dizer:

— Era só o que faltava! Era só o que faltava! Era só o que faltava!

Machado tentou apaziguá-lo:

— Calma, general. Assim o senhor vai acabar tendo uma síncope...

— Calma, merda nenhuma! — replicou Floresta, perdendo a compostura. — Que explicações eu vou dar à população? E à Academia? Mais um defunto! E, até agora, o senhor não descobriu nada!

O Coruja sabia que, quando o general o chamava de senhor, era porque estava deveras aborrecido.

— Estamos progredindo. Com o auxílio do doutor Gilberto de Penna-Monteiro, tenho certeza de que...

Floresta interrompeu, explodindo:

— Esse é outro! Esse é outro! Nem me dá satisfações. Também, a culpa é minha. Como é que eu fui confiar num médico que só trata do paciente depois de morto!?

O comissário tentou ser espirituoso:

— A culpa não é dele, é dos pacientes...

O chefe de polícia fuzilou o subalterno com o olhar.

Machado usou de seus poderes especiais, dados por Floresta, para proibir qualquer revelação sobre Brás Duarte e os fardões roubados. Temia que a história saísse nos jornais do dia seguinte, atrapalhando uma investigação bastante complicada. Ninguém se atreveria a desobedecer-lhe. No entanto, precisava fornecer alguma pista que acalmasse o superior. Por sorte, ao chegar à chefatura, havia uma boa notícia à espera dele.

— A coisa está melhorando, general. Dois guardas que faziam a ronda em Botafogo, ontem à noite, prenderam um homem pulando a gradaria do cemitério. Está esperando pra ser interrogado.

A boa-nova aplacou a irritação do chefe.

— Ainda bem. Se eu não cobro, ninguém faz nada. Vá lá, vá lá! — ordenou, enxotando o Coruja do escritório.

O ESPECIALISTA

O suspeito preso pelos policiais ao fugir do São João Batista encontrava-se sentado à mesa de uma sala de paredes descascadas, no fundo da delegacia. Trajava um imaculado terno branco, apesar de ter passado por cima das grades do cemitério e de ter oposto ligeira resistência à prisão. Nem a noite em claro lhe desalinhara os cabelos bem aparados ou abatera seu semblante. Tinha bigodes finos, como os galãs de cinema, e as unhas bem manicuradas.

Quando Machado Machado e Penna-Monteiro entraram no recinto, o personagem consumia, sem pressa, uma média com pão e manteiga. Sentia-se à vontade, transformando aquele ambiente inóspito e mofado no salão do seu botequim favorito. Como bom anfitrião, levantou-se para recebê-los e indicou duas outras cadeiras em frente à mesa de pernas tortas.

— Por favor, sentem-se. Estava terminando meu breakfast. Os ingleses afirmam que é a refeição mais importante do dia. Estão servidos?

Os amigos entreolharam-se, estupefatos. Antes que se recobrassem do espanto, o cidadão continuou:

— Perdão por ter oferecido uma pequena propina ao carcereiro pra que ele providenciasse o desjejum. Espero não ter quebrado o regulamento. — Limpou os lábios e a ponta dos dedos num lenço de linho. — Permitam que me apresente: Heroíldo Capanema. O que desejam?

Machado recuperou-se:

— O regulamento você quebrou foi na noite de ontem. O que é que estava fazendo no cemitério numa hora daquelas?

— Perdão, doutor, sei que estamos vivendo sob estado de sítio, mas a Constituição de 1891 me garante o direito de ir e vir.

O detetive e o legista não acreditavam no que acabavam de ouvir.

— Não sei se isso inclui ir e vir de um cemitério àquela hora. — Machado repetiu a pergunta: — Estava lá fazendo o quê?

— Exercendo a minha profissão.

— Que seria?

— Arqueólogo contemporâneo.

O comissário percebeu com quem falava. Heroldo Capanema não tinha o perfil do assassino que procuravam.

— Sei. Ladrão de túmulos — concluiu o policial.

— Pronto. Começou o preconceito. Invadir as tumbas dos faraós em busca de tesouros, como fizeram com Tutancâmon, é ciência. Agora, fazer o mesmo, hoje em dia, é roubo.

Penna-Monteiro irritou-se com o sofisma impecável do gatuno necropolar.

— E diferente. Você vive às custas dos mortos!

— Como os legistas...

O Coruja teve que fazer um esforço para manter a seriedade do interrogatório e segurar o amigo, que ameaçava partir para a agressão física. Acendeu um cigarro, ofereceu o maço a Heroldo, que recusou, numa forma original de cortesia:

— Merci. Tenho nojo.

Machado continuou, depois de uma tragada:

— Bom, vou fazer um trato com você: se me contar tudo o que viu a noite passada, no São João Batista, desta vez eu deixo você ir embora.

Penna-Monteiro, ainda enraivecido pela comparação do larápio, chocou-se com a proposta:

— O quê!? Vai soltar esse sanguessuga safado?

— De novo o vitupério. Que mal faço eu à sociedade? Minhas buscas atingem apenas quem já se desprendeu dos bens terrenos. Sou uma espécie de Robin Hood metafísico: tiro dos mortos pra dar aos vivos.

Tanta filosofia barata começava a cansar o detetive:

— Estou perdendo a paciência. Daqui a pouco cancelo o acordo.

— Bem, doutor, devo confessar que não presenciei nada de muito relevante. Quando cheguei ao sítio das escavações, o matador já tinha executado sua tarefa. Por sorte, não me viu. As sombras das estátuas dos anjos me protegeram. Passou bem rente a mim, de chapéu e sobretudo com a gola pra cima. Parecia forte e era mais alto que eu. Não quis olhar muito, com medo de que ele me visse. O canalha levou embora os fardões e os espadins dos acadêmicos. Um espólio que era meu — resmungou, indignado.

Penna-Monteiro revoltou-se:

— Seu, coisa nenhuma! Vampiro de cemitério!

— Vampiro? Eu? Não, sou um mero negociante de mercadorias póstumas. Digo mais: os tempos são de crise. Não está fácil exercer a arqueologia contemporânea. Permaneço na ativa por amor à arte.

Machado admirava o cinismo do marginal.

— O que mudou? As pessoas continuam morrendo.

— Mudaram as famílias, doutor. Antes, os entes queridos eram sepultados com suas jóias, seus relógios, suas roupas mais caras. Hoje, quase enterram nus os coitados dos falecidos. Os belchiores não dão nada pelos trajes. E, quando temos a oportunidade de explorar uma escavação proveitosa, somos alijados por um criminoso cruel e oportunista. O assassino roubou o pão da boca dos meus filhos. Agora, me resta rezar pelo auxílio da Divina Providência.

Até Penna-Monteiro ficou curioso:

— Você reza?

— Só em circunstâncias extremas. Sou um homem de fé, então peço a Deus que se compadeça de algum cardeal enfermo e o chame pra junto de si. Um cardeal cobre as minhas despesas por dois anos. Levo uma vida modesta.

Como se adivinhasse o pensamento de ambos, Heroldo detalhou o inventário:

— O báculo cravejado, a mitra com aplicações douradas, a cruz de ouro com pedras preciosas, o anel valiosíssimo, os escarpins com fivelas de prata. Até as luvas brancas e as meias púrpura rendem um bom dinheiro. Concluindo, senhores, o cardinalato é uma bênção incomparável. Um bom cardeal é como uma vaca: só não se aproveita o berro.

Cumprindo o acordo, o comissário Machado Machado permitiu que Capanema corresse da delegacia, evitando, assim, que Penna-Monteiro transformasse o perpetrador em vítima.

 

SEXTA-FEIRA, 25 DE ABRIL DE 1924