Assassinatos na Academia Brasileira de Letras
Espreitando de Palheta
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Sabia fazer com arte
O alfaiate Brás Duarte.
Fez-se um silêncio sepulcral na exígua sala do apartamento.
O detetive recriminou-se por não ter investigado mais a sério a derradeira declaração de Lauriano Lamaison. O Barão Amarelo não confundira Brás Duarte com Olavo Bilac. Ele tentava avisar que Brás Duarte era personagem do livro Juca e Chico, traduzido pelo poeta.
A silhueta minúscula de Camilo Rapozo agigantou-se na mente do comissário. Ele não conseguia entender o que compeliria o homenzinho àquelas atrocidades. Lembrou-se então de Machado de Assis.
— “O cancro” — citou, destacando cada palavra —, “quando rói, rói; roer é o seu ofício.”
DA DISCUSSÃO NASCE A DISCUSSÃO
A conversa entre o casal e o amigo Gilberto continuou até de madrugada. Galatea preparou uma ceia com o que havia na despensa de Machado: bertalha e ovos.
Regaram o lauto banquete com uma garrafa de Vinha Grande, da Casa Ferreirinha, de uma caixa com que um comerciante português agradecido presenteara o detetive depois que este prendera o contador que o roubava.
Não havia unanimidade entre eles a respeito da espantosa descoberta. Penna-Monteiro teimava que o alfaiate não correspondia às descrições feitas do criminoso.
— Você mesmo o entreviu de longe, da janela, quando ele fugiu depois de enfiar a primeira mensagem por baixo da sua porta. As duas testemunhas que nós temos também descreveram o assassino como um homem alto: o rouba-túmulos e o mendigo bêbado da Candelária. Sem ofensa, Machadinho, mas Camilo Rapozo é anão!
Galatea nunca vira o alfaiate, porém o pai já lhe falara das suas diminutas dimensões e da famosa Alfaiataria Dedal de Ouro, responsável pelos fardões havia muitos anos. Segundo ele, Camilo era um homem dócil e educado. Euzébio fazia restrições às blagues dos colegas, que, sem exceção, sempre que a ocasião se apresentava, inclusive quando Rapozo aparecia no Petit Trianon, apalpavam-lhe a cabeça ou as costas, soi-disantpara dar sorte. Riam-se muito do constrangimento que provocavam. O imortal simpatizava com todos os anões. “O gordo e o anão têm muita coisa em comum. Reparam logo na gente, sofremos preconceitos por causa do físico, e nada no mundo é feito à nossa medida”, costumava afirmar. Lembrando-se do que o pai dizia, a moça reforçou a opinião de Penna-Monteiro:
— Concordo com Gilberto. Por mais que tenha sido visto de longe, ou à noite, ou na neblina, ou por um bêbado, anão é anão.
O Coruja tentou justificar sua teoria:
— Pode ser que tenha um parceiro alto. Depois, sendo o alfaiate oficial da Academia, era a pessoa com mais acesso aos fardões e à batina. Pra ele, seria muito fácil envenenar as roupas.
— Mas anão é anão... — repetiu Galatea, timidamente.
Machado acendeu um Cairo e desafiou Penna-Monteiro, que já conhecia tudo sobre o caso:
— Está certo. Então sugere outro suspeito. Quem? Manuela Pontes-Craveiro vestida de homem? O marido dela, o embaixador? O francês Maximilien? Urbano Negromonti? Monique travestida, ou Yamamoto, que não chega a ser anão mas é japonês?
— Qualquer um deles é mais provável do que o anão Camilo Rapozo. Você está esquecendo o mais importante: o motivo. Pelo menos todos tinham algum motivo pra matar uma das vítimas. O assassino ou assassina pode ter liquidado os outros pra encobrir o crime. Pra atrapalhar as investigações.
— Muito risco pra pouco motivo — insistiu o detetive.
— E que motivo tem o alfaiate pra se livrar dos seus clientes? — perguntou Penna-Monteiro.
— Quem são Manuela e Monique? Você não me disse que tinha mulheres envolvidas nessa história. Andou interrogando as duas? — quis saber Galatea, sua voz denotando uma ponta de ciúme.
— Mal falei com elas. Têm ligação com o francês e com o embaixador — mentiu Machado, acendendo um segundo cigarro antes de terminar o primeiro.
Deram fim à quarta garrafa do suavíssimo Ferreirinha sem chegar a uma conclusão. As idéias embaralhavam-se, prejudicando o raciocínio.
As quatro da madrugada, os três estavam exaustos e embriagados. O comissário argumentou com Penna-Monteiro, sugerindo que a unha longa e pontiaguda de Camilo Rapozo podia ser o instrumento cortante que rasgara a garganta do infeliz capanga de Beluário Bezerra no cemitério. Gilberto não tinha mais forças para discutir. Galatea, com a testa franzida, olhava fixamente para a última mensagem cifrada, como se quisesse recordar alguma coisa.
Machado bocejou, encerrando o assunto:
— De qualquer forma, amanhã vou conversar com Camilo. Tenho uma boa desculpa pra passar na alfaiataria. Ele me prometeu um terno de tropical inglês azul-escuro, de presente, e não mandou até hoje.
Galatea achou estranho.
— E você aceitou?
— Muito a contragosto.
Penna-Monteiro, dando sinais de que não conseguiria passar outra noite em claro, despediu-se dos amigos.
— Preciso ir embora. Não agüento mais ficar sem dormir.
Antes de abrir a porta para Gilberto, o Coruja virou-se para ele e para Galatea e declarou, com a língua enrolada pelo vinho:
— Quero terminar nossa discussão lembrando as palavras de Sir Arthur Conan Doyle, pronunciadas por Sherlock Holmes, meu ídolo de juventude.
Galatea interessou-se:
— Que palavras?
Apoiado na soleira, Machado recitou, caprichando no sotaque britânico, a frase clássica que o dr. Watson ouvira tantas vezes:
— “When you have eliminated the impossible, whatever remains, however improbable, must be the truth.”
Galatea repetiu, numa tradução quase simultânea:
— “Quando você eliminou o impossível, o que restar, por mais improvável que pareça, tem que ser a verdade.”
O comissário Machado Machado apagou a luz, acrescentando dramaticidade a essa sentença de efeito.
SEXTA-FEIRA, 9 DE MAIO DE 1924
OLHOS DE RESSACA? VÁ, DE RESSACA...
Machado acordou ao meio-dia com um aroma forte de café invadindo o quarto. De olhos fechados, a cabeça latejando pelo excesso de vinho bebido na véspera, apalpou o espaço a seu lado na cama, onde esperava encontrar Galatea. Virou-se e encontrou apenas um bilhete sobre o travesseiro:
“Meu amor, fiz café e comprei pão fresquinho. Aproveite. Fui até em casa porque me lembrei de algo que pode ajudar bastante.
Volto logo.
Beijos, Galatea.”
O Coruja levantou-se tonto de sono, foi à cozinha e, com a perícia desenvolvida por anos de celibato, requentou o café que a moça preparara. Engoliu um pedaço de pão, empurrando-o goela abaixo com goladas do rubiáceo fumegante, e voltou para o quarto. Achou que dormir mais quinze minutos enquanto sua amada não chegava seria uma panacéia para aquela enxaqueca.
Desabou na cama e cobriu-se com os lençóis mornos que recendiam à pele da doce Galatea, a de olhos de ressaca, como Capitu.
OH! QUE SAUDADES QUE TENHO...
Assim que chegou a Santa Tereza, Galatea abriu o baú que ficava embaixo da sua cama, depositário de ternas lembranças da infância. Fazia mais de dez anos que não mexia naqueles guardados. Cada objeto tinha para ela um significado especial. Examinou cartas presas por fitas coloridas, trocas de confissões com amigas adolescentes sobre os primeiros namorados.
Folheando os cadernos de colégio, riu-se dos trabalhos manuais do primário, como a extravagante bandeira do Brasil coberta de purpurina verde e amarela onde escrevera “Ordem e Progrezzo”. Nos álbuns antigos, deteve-se, nostálgica, nas fotografias dela com a mãe. Perdida em recordações, nem notou as horas passarem e aproximar-se o cair da tarde.
Por último, tirou do baú vários livros amarrados com um barbante grosso. Soltou o nó que prendia a pilha e vasculhou os textos castigados pelo tempo. Finalmente, achou os volumes que procurava. Esfregou-os na própria saia para livrá-los da poeira acumulada. Eram de uma velha edição portuguesa d' Os livros da jângal, de Rudyard Kipling.
Lembrou como, quando menina, correra ao dicionário do pai para descobrir que jângal significava “selva”. Os livros da selva.
Não sabia bem por quê, mas o pássaro dos bilhetes do assassino recordara-lhe uma das ilustrações naqueles livros que ela lera e relera inúmeras vezes, fascinada pelas aventuras de Mowgli, o Menino-lobo.
Examinou as folhas uma a uma, com cuidado, para não pular a informação que buscava. No topo de uma das páginas do segundo tomo, achou a imagem que transformava sua vaga lembrança em realidade. Viu o título do conto: “Rikki-Tikki-Tavi”.
Animada pela descoberta, o coração saltando no peito, ela leu o primeiro parágrafo: “Esta é a história da grande guerra que Rikki-Tikki-Tavi travou sozinho pelas salas de banho do grande bangalô, no acantonamento militar de Segowlee. Foi ajudado por Darzee, o Pássaro-Alfaiate...”.
Ilustrando o conto, lá estava o desenho do mesmo pássaro que aparecia empoleirado nas funestas mensagens.
Aquilo confirmava as suspeitas de Machado. O passarinho tinha inclusive um quê de anão.
Agradecendo a Kipling pela centelha, Galatea correu com o livro para o escritório do pai, onde estava a enciclopédia. Era óbvio que nenhum dos passarinheiros consultados conseguiria identificar a pequena ave: ela não pertencia à nossa fauna. Leu o verbete em voz alta:
TAILORBIRD. Pássaro-Alfaiate (Orthotomus sutorius) — Pássaro canoro, freqüente nos jardins da índia, em Java e no sul da China. Assim chamado por sua habilidade de costurar as bordas de várias folhas para construir o ninho. Com seu bico longo e fino, ele antes perfura as folhas recolhidas para juntá-las com fibras de plantas, seda de insetos ou até, encontrando janelas abertas, com pedaços de linha roubados das residências. O ninho é preso por laçadas separadas que o pássaro-alfaiate amarra pelo lado externo.
“Bico longo e fino...”, pensou Galatea, lembrando-se da descrição que seu amado fizera da unha do alfaiate. “Preciso ver de perto esse famoso anão.”
Olhou o relógio e viu que passara boa parte da tarde distraída, embalada pelas recordações. Tentou ligar várias vezes para a casa de Machado, mas ele não atendia. Decerto já saíra. Lembrou que planejava uma visita ao alfaiate: quem sabe não o encontraria lá? Resolveu esperá-lo na rua da alfaiataria. Talvez surpreendesse algum movimento suspeito, ou mesmo a chegada de um cúmplice. Caso Rapozo a visse antes do Coruja aparecer e desconfiasse de algo, ela inventaria que viera trazer um recado do pai. A paixão, que Galatea sentia pela primeira vez, impedia-a de enxergar o perigo da empreitada. Queria participar, ajudar o homem que amava. Como não conseguia refletir claramente, preferiu fazer o que mandava o coração. Na agenda de Euzébio, que não estava em casa, achou o endereço da Alfaiataria Dedal de Ouro.
Enquanto partia às pressas, levando o livro, gritou um recado para Maria Eugênia, a velha babá portuguesa, meio surda, que fazia quase parte da família:
— Bá Maria, se o doutor Machado ligar, diga que eu me encontro com ele na Alfaiataria Dedal de Ouro.
— Na tabacaria? Andas a comprar cigarros? O menina, vê lá o que estás a fazer! Tu sabes que uma moçoila de recato não fuma! — reclamou a portuguesa.
— Não, bá! E alfaiataria! — gritou Galatea. — Pode deixar que ele entende — repetiu, chispando casa afora.
Maria Eugênia fechou a porta, resmungando:
— Essa agora! Uma rapariga de bem meter-se a fumar! A culpa é do senhor doutor Euzébio, que acha piada nesses modernismos da cachopa.
Indiferente aos riscos que poderia correr, Galatea seguiu para a cidade, rumo à alfaiataria de Camilo Rapozo.
O BELO ADORMECIDO
Se o comissário Machado Machado pudesse calcular que os quinze minutos que pretendia cochilar se estenderiam até as quatro e meia da tarde, não teria voltado a dormir.
Nada compensava o sombrio despertar que experimentou quando verificou que Galatea ainda não chegara. Não fora apenas o vinho que o fizera perder a hora. Havia dias que estava com o sono atrasado devido aos Crimes do Penacho.
Deu-se conta de quão vazio ficara o pequeno apartamento sem aquela moça que conhecera poucos dias antes. Sua ausência inesperada pareceu-lhe um mau presságio. Ela não passaria tanto tempo fora sem pelo menos telefonar. O Coruja tomou um banho de chuveiro e vestiu-se sem fazer a barba.
Tentou ligar para Gilberto, na esperança de que ele soubesse do destino de Galatea. Sua ansiedade aumentou quando percebeu que a linha estava muda, confirmando as sátiras feitas na revista Alô!... Quem fala?. Os cariocas já aceitavam com resignação esses defeitos. Era provável que ela tivesse tentado chamá-lo e não conseguira completar a ligação.
Largou tudo e foi bater à porta do vizinho.
— Preciso usar seu telefone. E urgente.
Sabendo que Machado era da polícia, o vizinho levou-o até o aparelho, na sala. O comissário discou, nervoso, o número de Penna-Monteiro. O médico interrompeu um exame de corpo de delito para atendê-lo.
— O que houve?
— Galatea sumiu.
— Como assim, sumiu? — indagou Penna-Monteiro, preocupado com a angústia que transpareceu na voz do amigo.
— Sumiu! Ficou de ir a Santa Tereza, buscar alguma coisa relacionada com a investigação, e até agora não voltou — explicou o policial, omitindo que dormira além da hora.
— Bom, agora o mais importante é ficar calmo. Estou terminando o exame e encontro você aí. Não deve ser nada sério. Mulher sempre atrasa — mentiu Gilberto, tentando confortá-lo. — Enquanto isso, liga pra casa dela. Quem sabe ela não está lá?
Machado percebeu que não estava raciocinando direito. Evidente que a primeira coisa que devia ter feito era telefonar para Galatea. Acendeu um cigarro para clarear as idéias e, pedindo licença ao vizinho, que começava a se sentir partícipe de uma investigação, discou o número de Santa Tereza. Surpreendeu-se com o sotaque lusitano da voz que atendeu o telefone.
— Estou?
— Aqui é o comissário Machado. Por favor, eu queria falar com a dona Galatea ou com o senhor Euzébio Fernandes.
— Não se encontram. O senhor doutor Euzébio volta à noitinha. — Fez uma pausa. — É o doutor Machado ao aparelho?
— Sim, senhora.
— A menina Galatea deixou um recado pro senhor.
O policial animou-se:
— Graças a Deus! Qual é o recado?
— A menina saiu a correr com um livro nas mãos e disse que ia ter consigo pra comprar os cigarros.
— Que cigarros?!
— Isto também gostava eu de saber. Pois não acha um absurdo uma rapariga de boa família pôr-se a fumar?
Machado procurou não perder a paciência.
— Por favor, com quem falo?
— Comigo.
O Coruja respirou fundo.
— Sei, mas qual é o seu nome?
— Maria Eugênia. Fui babá da menina.
O detetive lembrou-se da história que sua amada lhe contara no dia em que se conheceram.
— Dona Maria Eugênia, acho que está havendo um equívoco nesse recado. A Galatea não fuma.
— Pois que não fuma sei-o eu. Estou a rezar pra que não comece. Se calhar, a menina quer fazer-lhe um mimo. O senhor fuma, pois não?
A invejável fleuma de Machado, herança paterna aprimorada por anos na polícia, começou a dar mostras de que estava prestes a se extinguir:
— Dona Maria Eugênia, eu tenho certeza de que a Galatea não foi comprar cigarros.
— Serão charutos? O senhor doutor Euzébio fuma charutos. Mas pode ficar tranqüilo. Nem se apoquente, ó homem, que a menina vai lá ter consigo afirmou, querendo tranqüilizá-lo.
O efeito dessa conversa prolongada foi deixar o comissário mais impaciente. Afligia-lhe o tempo que passava sem ter notícias da moça: cada minuto aumentava a possibilidade de que ela corresse perigo.
Insistiu:
— Dona Maria Eugênia, por favor, procure reproduzir a frase exata.
Puxando pela memória, a portuguesa tentou a façanha:
— Ouve lá, calma, fique tranqüilo que a menina falou que ia encontrá-lo na tabacaria.
Um suor frio aflorou à testa de Machado.
— Dona Maria Eugênia, preste bem atenção: em vez de “à tabacaria”, não foi “à alfaiataria”?
— Exatamente: à ta-ba-ca-ria.
— ALFAIATARIA — berrou o Coruja, exaltado.
— Não grite que não sou surda! Escutei muito bem o que ela disse. Inclusive achei o nome do tal comércio uma patuscada.
— E qual era?
Dona Maria Eugênia enunciou com clareza no seu castiço sotaque lusitano:
— A Tabacaria do Pedal de Couro.
O detetive bateu o telefone, amaldiçoando o tempo perdido por causa daquele qüiproquó digno dos melhores vaudevilles.
Penna-Monteiro chegou quando ele, cansado de esperá-lo, já se preparava para sair. Ainda abalado pela notícia, Machado relatou a temeridade que Galatea havia cometido.
— O pior é que a culpa é minha. Ontem comentei que hoje ia falar com o Rapozo. E se ele desconfiar de alguma coisa? Estou com um péssimo pressentimento. Vamos logo pra lá.
O legista argumentou:
— A esta hora a alfaiataria já deve estar fechada, e não temos nenhuma prova de que Galatea esteja com ele. Com que pretexto vamos entrar?
— Pretexto nenhum. Eu arrombo a porta. Você se esqueceu do estado de sítio?
Animado pela agitação, o vizinho prontificou-se:
— Posso ir com vocês.
Penna-Monteiro perguntou:
— Por quê? Você é chaveiro?
— Não, dentista. Mas sou muito curioso. Estou louco pra saber como é que essa história vai acabar.
Sem se dar o trabalho de responder, os dois desceram para a rua, entraram no carro de Gilberto e dispararam pela ladeira do Russell.
INVASÃO DE DOMICÍLIO
Quando Galatea chegou à Rua dos Inválidos, os últimos raios de sol arroxeavam o céu, anunciando o lusco-fusco. O casarão ficava no centro do terreno, no final da rua, cercado por um extenso e malcuidado jardim. As portas da alfaiataria estavam fechadas. Não havia sinal de Machado. A velha mansão de três andares funcionava como loja, oficina e residência. O que ninguém sabia é que o mesmo prédio abrigava na mansarda o infame laboratório de Veneficor, mais conhecido como Camilo Rapozo, o magnífico alfaiate da Academia Brasileira de Letras.
Cosendo-se aos muros como uma sombra, a moça aproximou-se da casa e, através dos basculantes do sótão, viu luzes que bruxuleavam. Ignorando o fato de que essa aventura poderia ameaçar-lhe a vida e de que talvez seu amor estivesse nas mãos de um assassino, ela examinou, uma a uma, as janelas do térreo. Notou que, numa delas, a castigada persiana estava a ponto de se soltar dos gonzos. Usando o sapato como alavanca, conseguiu forçá-la e, num movimento ágil, pulou para o saguão escuro da alfaiataria. Foi tateando em direção à escada, seguindo a réstia de luz que vinha dos andares de cima. Parou quando atingiu o segundo patamar, perdida na penumbra. Estendeu as mãos, tentando se orientar, e esbarrou na parede arcaica, fria e úmida em conseqüência dos tratos causados por goteiras antigas. Num gesto de repulsa, recuou e, ao fazê-lo, sentiu-se enlaçada por dois braços fortes que a mantiveram imóvel.
Um lenço encharcado de clorofórmio que lhe cobriu o rosto abafou seu grito de pavor.
O MESTRE DO VOLANTE
Ao contrário de Machado Machado, que odiava automóveis, o Dr. Gilberto de Penna-Monteiro considerava-se um dos melhores volantes do Rio, do Brasil e, por que não dizer?, do mundo. Pilotava com destreza sua Bugatti Royale, afugentando animais e transeuntes.
O hobby de Gilberto era cuidar do motor daquela verdadeira jóia. Passava as manhãs de domingo numa roda de aficionados, traduzindo para os mecânicos profissionais as revistas especializadas, pondo-os a par das últimas inovações do mundo automobilístico. Participara de corridas e conservava seus troféus num armário da sala.
Para o policial, era uma tortura sentar-se ao lado do amigo na sua máquina voadora. Mesmo naquele momento aflitivo, em que desejava chegar logo à rua dos Inválidos, estava tenso em virtude da condução audaz do rei das pistas. Ia anunciando os obstáculos, como um navegador:
— Poste na curva. Carroça na esquina. Bonde à direita. Cachorro na rua.
Gilberto procurava acalmá-lo:
— Fica tranqüilo, que eu guio até de olhos fechados.
— Talvez fosse melhor.
— Quando é que vais admitir que sou um excelente motorista?
— Jamais. Se, em vez de comissário, eu fosse guarda, ia te multando daqui até lá.
Nem aquela conversa tola conseguira afastar a obsessão que atormentava o Coruja pelo desaparecimento de Galatea. Não se perdoaria se algo terrível lhe acontecesse.
A Rua dos Inválidos nunca parecera tão distante. Machado percebeu o quanto amava aquela mulher ao ouvir sua própria voz pedindo ao amigo, numa súplica:
— Pelo amor de Deus, Penninha, vai mais depressa.
O MALQUIMISTA
Cada um vê o que pareces, poucos sentem o que és.
Os homens devem ser acarinhados ou destruídos, pois que se vingam de pequenas injúrias. Das grandes, não podem.
MAQUIAVEL, O Príncipe
Galatea acordou com o ruído de uma melodia repetitiva que lembrava um cantochão medieval. Vinha da outra extremidade do salão, que, pelos basculantes, ela identificou como sendo o sótão da alfaiataria. Sua fronte latejava, e ela se sentia nauseada pelo clorofórmio. Candelabros e círios negros imensos espalhados pelo aposento iluminavam a mansarda. A moça piscou várias vezes, ajustando a visão à semi-obscuridade. Deu-se conta de que estava com as mãos e os pés amarrados, deitada num desgastado chão de tábuas corridas. Ao lado dela, jazia o Livro da jângal, aberto na página do pássaro-alfaiate. Levantou-se com dificuldade, apoiando-se nas costas de uma cadeira. Percebeu que o som vazava de uma porta no fundo da água-furtada. A cantiga que ouvia a aterrorizou. Constava apenas de uma frase em latim, seguida pela tradução:
Impia sub dulci melle venena latem.
Sob o doce mel escondem-se venenos terríveis.
Veneficor abriu a porta do seu “Salão Francês” e deixou-se ficar parado um instante, o contorno do corpo projetado pela luz atrás dele. Vestia uma longa bata de cetim negro que ia até o chão.
Ao ver aquela assustadora figura gigantesca, de quase dois metros, Galatea perguntou-se: “O anão? Onde está o anão?”.
O Envenenador aproximou-se sem pressa, as passadas rígidas ecoando no assoalho carcomido. A demência nublava seu olhar, transfigurando-lhe as feições. Galatea registrou o objeto metálico e pontiagudo como um punhal que lhe envolvia o dedo mínimo, cobrindo uma unha exageradamente longa. A pequena lâmina afiada resplendia à luz das velas. O homem apontou com aquele dedo revestido de aço para a imagem do pássaro no livro aberto.
— Está procurando por Camilo Rapozo? — perguntou, a voz suave mascarando o desatino.
— Estou — disse ela, num sussurro.
— Achou.
Unindo o gesto à palavra, abriu a longa túnica e revelou as pernas de pau que o deixavam com quase um metro e noventa de altura.
Elas se diferenciavam das andas dos malabaristas, porque tinham o feitio de pernas normais e estavam de botas. O cano longo dos calçados terminava na pequena plataforma onde o alfaiate apoiava os pés. Na parte de trás das andas, uma haste subia até a dobra do joelho, permitindo que o anão as fixasse com largas correias de couro.
O mendigo bêbado que o vira saindo da Candelária fora correto na descrição feita a Machado. As pernas de madeira davam ao assassino uma andadura marcial.
— Camilo Rapozo. Nas horas vagas, Veneficor.
Galatea desabou bestificada numa cadeira, esquecida das cordas que lhe machucavam os pulsos e os tornozelos. Veneficor sentou-se ao lado dela, desatou as andas, lançou-as longe e transformou-se em Camilo Rapozo.
A moça acompanhou incrédula a metamorfose. Tomando seu espanto por admiração, Rapozo vangloriou-se, enquanto desfilava pelo laboratório:
— Não é fácil ficar tão à vontade em cima de andas. Requer muita prática. Comecei quando era criança, num circo das redondezas. Fiquei amigo dos palhaços, e todos os dias treinava com eles. Aquelas não eram assim sofisticadas. Eram apenas pernas de pau comuns, bem mais compridas. Eu praticava com andas de um metro e vinte. As que uso agora têm sessenta centímetros, por isso fico tão à vontade quando subo nelas.
Galatea adulou o assassino e mentiu sobre o motivo da sua vinda:
— É fascinante. Não sabia que alguém podia ter tanta habilidade. Mas diga-me: por que me deixou desacordada e me amarrou? Vim aqui só pra trazer um recado do meu pai. Ele quer saber se não dá pra alargar mais um pouco o seu fardão. Sou filha do doutor Euzébio Fernandes.
Rapozo irritou-se.
— Não minta! O obeso do seu pai está farto de saber que não há mais o que alargar naquele fardão. Não faço milagres!
— Você está enganado. Eu...
Camilo interrompeu-a:
— Eu sei que você está de namorico com aquele detetive de roupa esbodegada. Segui vocês dois várias vezes!
— Pois é. Inclusive ele ficou de vir aqui ainda hoje — informou Galatea, numa tentativa de intimidar o anão.
— Vai continuar mentindo? Eu vi você fuçando sozinha em volta da minha casa! Pensa que sou idiota?
Galatea começou a se preocupar com a demora de Machado. Por onde ele andaria? Será que lhe acontecera algo nefasto? Decidiu ganhar tempo:
— Eu sei que você não é idiota. Precisa ser muito inteligente pra conseguir fazer tudo o que já fez. Um homem assim não tem nada de bobo.
A palavra bobo acionou um escaninho da alma do anão, que vociferou:
— E claro que eu não sou bobo!
Começou, então, a girarem volta dela, pulando enquanto entoava uma cantiga de roda, com voz infantil:
— Eu não sou bobo! Eu não sou bobo! Eu não sou bobo! — Estacou e encarou-a, os olhos faiscando de ódio insano: — Como foi que descobriram?
— Juca e Chico.
O anão recuou, enraivecido.
— Aquele tolo conhecia Juca e Chico?
Galatea tratou de apaziguá-lo, fingindo-se de cúmplice:
— E claro que não! Sua idéia foi coisa de gênio. As pistas que você deixou foram muito difíceis: Brás Duarte indicando um alfaiate, e o pássaro-alfaiate, quase desconhecido. Fui eu que descobri, mas por acaso. Juca e Chico é o meu livro de cabeceira. Adoro as travessuras dos meninos.
— Eu também! Eu também! Sou igualzinho a eles. Pequeno, e faço travessuras. Tudo o que eu faço são travessuras.
Galatea sentiu que Rapozo estava fisgado pelo assunto e, utilizando-se do treino que tivera como psiquiatra, perguntou, serena:
— Quem foi que lhe mostrou o livro?
Camilo Rapozo sentou-se de novo ao lado dela, o olhar perdido, a voz voltando ao normal, e relembrou sua infância:
— Minha mãe. Eu ainda era criança. Mamãe fez tudo por mim. Foi ela quem me criou, me ensinou tudo. Inclusive a ser alfaiate, porque eu perdi meu pai muito cedo, nem me lembro dele. Ela teve que tomar conta da alfaiataria até eu aprender a profissão. Minha mãe começou a ler as histórias pra mim no dia que eu descobri que era anão.
— Sua mãe não era... mignon? — perguntou Galatea, lançando mão de um eufemismo.
— Não. Meu pai, sim; meus avós, bisavós e tataravós, todos anões, todos alfaiates. Mamãe, não. Mamãe era linda, alta...
— E como foi que você descobriu?
— No colégio. Um dia, os outros meninos começaram a gritar pra mim na hora do recreio: “Anão! Anão! Olha o anão!”... Quando cheguei em casa, perguntei pra minha mãe se eu era anão. Mamãe me sentou no colo dela e contou. Contou tudo. Depois disse que não era ruim ser pequenino e leu a primeira travessura do Juca e do Chico. Imediatamente, eu quis ser como eles.
Galatea continuou, conservando o tom desapaixonado e usando um tratamento mais íntimo:
— E os venenos? Como é que você adquiriu esse conhecimento extraordinário sobre os venenos?
— Minha mãe era grã-sacerdotisa da Veneficorum Secta.
— Seita dos envenenadores? — traduziu a moça.
— Parabéns pelo latim — elogiou Rapozo, com um sorriso maligno.
Galatea, calculando que Machado investigava seu paradeiro, mais uma vez tentou ganhar tempo. Para tanto, espicaçou a vaidade do anão:
— Incrível! Que seita fantástica é essa?
Veneficor passou a dissertar, como um mestre dirigindo-se ao discípulo preferido.
— É uma sociedade secreta muito antiga. Foi criada na Idade Média por Isidoro de Carcassonne, um monge guerreiro português, que escapou ao massacre dos Cavaleiros Templários. Meu tataravô foi o primeiro da família a ingressar nessa seita. Desde então, todos os Rapozo fizeram parte dela. O fato de ser anão facilita os envenenamentos, porque afasta as suspeitas. O anão é sempre tido como uma figura ridícula, inofensiva.
— Não diga isso. “Pequena é a coroa, não quem a porta.”
— Lindo! De quem é?
— Shakespeare — mentiu Galatea, que inventara a frase na hora.
O alfaiate prosseguiu:
— Enfim, foi numa cerimônia da Secta que meus pais se conheceram. Hoje, não há mais essas reuniões. Sou o último membro vivo da Veneficorum Secta no Novo Mundo.
— E uma pena. Mas como é que você acumulou tantos conhecimentos?
— Durante anos, minha mãe foi me transmitindo os segredos da seita. Ela me fez decorar as fórmulas, antes de morrer provando uma nova poção por minha causa. Estava tentando descobrir um preparado que me fizesse crescer. Em vez disso, a solução diluiu todas as cartilagens e os órgãos do seu corpo. Teve uma morte lenta, urrava de dor.
Camilo Rapozo encerra a conversa bruscamente e aproxima-se do imenso caldeirão que borbulha pendurado sobre o forno. O fulgor da loucura volta-lhe ao semblante.
— Bem, se me dá licença, está na hora de preparar uma travessura.
— Juca e Chico é só ficção! — argumenta Galatea, em desespero.
— Era. Agora é realidade. A alma dos meninos mora em mim. Nós somos a sacrílega trindade!
Endoidecido, ele lança líquidos pestilentos e estranhos pós de cores escuras no caldeirão, enquanto improvisa:
Ai de ti, súcia imoral,
Que julga ser imortal.
Pois é hora da diabrura,
De mais urna travessura.
A PEDRA NA ENCRUZILHADA
Comprovando que o destino tem por ofício ser imprevisível, uma surpresa castigou os dois companheiros a caminho da Alfaiataria Dedal de Ouro. Quando a Bugatti atingiu a Rua Mem de Sá, próximo à Rua do Lavradio, o possante motor de oito cilindros em linha, com quinze litros de cilindrada, obra-prima da engenharia automobilística, inveja dos construtores europeus, tossiu repetidas vezes e morreu, exalando um tímido suspiro.
O pânico tomou conta do Coruja, que saltou do carro e se pôs a chutar os pneus.
Penna-Monteiro também saiu do veículo e, enquanto abria o cintilante capô de metal, buscou tranqüilizá-lo:
— Calma. Muita calma. O importante é conservar a calma.
Machado refreou o ímpeto de transferir os pontapés para as canelas do amigo. Gilberto começou a analisar o problema:
— Não pode ser nada grave. Fiz uma revisão geral domingo passado. Deve ser um probleminha no distribuidor.
Examinou os cabos e constatou que não era.
Como sempre acontece quando um automóvel fora do comum enguiça, os curiosos e palpiteiros apareceram com a rapidez de formigas atrás de açúcar, despertado o mecânico latente em cada membro do chamado sexo forte:
— Pra mim é o acionamento da árvore de comando.
— Está me cheirando a virabrequim.
— Vinha batendo biela?
— Pode ser coroa e pinhão.
— Meu cunhado é chofer de praça. Garanto que é carburador.
— Nada disso. E pistom. Deve ter fundido o anel de segmento.
Gilberto verificava cada diagnóstico, mesmo os mais absurdos, e nada encontrava. As roupas cobertas de graxa, ele se arrastava embaixo do veículo. Até que, em desespero de causa, Machado Machado, o único que não entendia nada de motores e detestava automóveis, sugeriu:
— Não será falta de gasolina?
Penna-Monteiro foi olhar o tanque, e era.
Não havia nenhum posto de abastecimento à vista. Gilberto atribuía o incidente ao que chamava de “peripécias de percurso”. Como estavam perto da rua dos Inválidos, Machado e ele abandonaram a Bugatti Royale, menina-dos-olhos do legista, e seguiram a pé, correndo como alucinados.
O detetive comentou:
— Quem devia ficar na rua dos Inválidos era esse seu carro.
Vendo o quanto o amigo estava irritado com sua distração, Penna-Monteiro inventou:
— Eu juro que enchi o tanque antes de sair de casa.
Machado olhou para ele e, sem pestanejar, citou Machado de Assis:
— “A mentira é muita vez tão involuntária como a transpiração.”
REVELAÇÕES
Veneficor pretendia encerrar sua missão de envenenador no dia seguinte, quando completaria a mais gratificante de todas as “traquinagens”. Depois, voltaria a ser apenas o artífice da Alfaiataria Dedal de Ouro, o anão inofensivo que todos ignoravam, a não ser nas ocasiões em que lhe requeriam os talentos com a agulha, a linha e a tesoura.
Por enquanto, desfrutava daquela reduzida platéia compulsória. A solidão era a perene companheira de seus atos ignóbeis. Nunca pudera exibir-se como fazia agora, sem constrangimentos. Certo de que a única espectadora dele não sairia dali com vida, deleitava-se com o som da própria voz e esmerava-se em torno do caldeirão fumegante, preparando a fórmula para a derradeira “travessura”.
— Como lhe disse, tudo começou com o meu tataravô, António Gomes Rapozo, que era alfaiate do marquês de Pombal. Foi quem financiou a primeira alfaiataria, lá em Lisboa. Por indicação do marquês, ele passou a fazer as roupas do rei, tornando-se artífice de cortes e costuras da família real. Dom José t achava tanta graça em ter um anão por perto que nomeou meu tataravô também bobo da corte.
— Seu tataravô era bobo? — A moça corrigiu a gafe: — No bom sentido, é claro.
— Pois é. Só porque era anão. Ficou tão humilhado que aceitou a proposta feita por um primo do duque de Aveiro pra envenenar o rei, que morreu, digamos, em circunstâncias misteriosas — explicou Veneficor, com um sorriso de menino arteiro.
— Foi assim que seu tataravô conheceu a Veneficorum Secta — deduziu Galatea.
— Muito bem — confirmou Rapozo. E ironizou: — Você aprende rápido...
Descendo pela Mem de Sá, Machado e Gilberto cruzam a Rua do Lavradio.
Camilo prosseguiu:
— A partir daí, a família ingressou na seita, e a saga continuou. Meu bisavô, Manoel Rapozo, o Manuca, também alfaiate, foi vítima do mesmo ultraje. Teve que acumular as duas funções. Por mais que ele suplicasse, o príncipe dom Pedro, casado com Maria i, não permitiu que abandonasse o cargo de bobo da corte pra se dedicar somente à costura. O Manuca envenenou o insensível em 1786, e o filho dele, dois anos depois. Antes disso, contaminou o herdeiro com um ataque de bexigas purulentas.
— Se ele já pretendia matar o rapaz, por que as bexigas purulentas?
— Por prazer.
— Entendo — assentiu Galatea, sempre procurando ganhar tempo.
— Mas o melhor foi o que ele fez com a rainha Maria I.
— A mãe de Dom João V, Maria, a Louca?
— E por que é que você acha que ela ficou maluca? — revelou, rindo, Camilo Rapozo.
Machado e Gilberto chegam à altura da Rua Gomes Freire.
Com admiração fingida, Galatea compeliu o anão a ir adiante:
— Quer dizer que a doença da rainha Maria, a Louca, foi obra do seu bisavô?
— Claro! Pra mim, o seu trabalho mais sutil. Levou anos envenenando a infeliz. Depois das mortes suspeitas do marido e do filho mais velho, a guarda palaciana revistava todos os visitantes. Mas Manuca era o bobo, o palhaço. Ninguém lhe dava muita atenção. Ele carregava o veneno escondido nos guizos do chapéu.
— Muito inventivo. E que veneno é esse que causa loucura?
— O peiote. Um cáctus que provoca alucinações, trazido do México em 1650 por Frei Bernardo de Saraga, um frade proscrito filiado à seita. O botão do peiote é consumido, em doses pequenas, pelos xamãs da tribo Huichol nas cerimônias sagradas, mas, usado em grandes quantidades, durante muitos anos, causa danos irreversíveis no cérebro. Quando meu bisavô faleceu, fazia muito tempo que a velha já estava completamente louca.
Camilo atirou mais lenha no forno que esquentava o caldeirão. Galatea incentivou-o a continuar:
— E uma lástima que nada disso possa constar dos livros de história. E seu avô?
Machado e Gilberto entram na Rua dos Inválidos.
O anão prosseguiu:
— Sim, meu avô, Apolinário Rapozo, que veio pro Brasil com dom João m. Depois que meu bisavô morreu, ele assumiu o posto de artífice-alfaiate-mor de Sua Majestade. Dom João não era chamado de “o Clemente” sem motivo. Atendeu aos pedidos feitos por intermédio da rainha Carlota Joaquim e alforriou meu avô da função de bobo da corte.
Galatea comentou:
— Imagino que Dom João VI nunca soube do risco que correria comendo seus frangos se não tivesse consentido.
— Muito bem, grau 10! — brincou Camilo, como se desse nota a um aluno diligente.
— Obrigada — agradeceu Galatea, tentando dissimuladamente se desvencilhar das cordas que a machucavam mais e mais.
— Como recompensa, sua morte vai ser bem rápida — garantiu o anão, enquanto molhava numa proveta com um líquido negro a ponta de aço do esporão que lhe cobria a unha.
— Pensei que você estivesse começando a gostar de mim — arriscou ela, disfarçando seu pavor. Precisava desesperadamente alongar aquela conversa surreal.
— Gosto tanto que vou lhe contar a última travessura — disse Veneficor, e aproximou-se, sorrindo.
A túnica, longa demais agora que ele não usava as andas, varria as tábuas do assoalho, deixando um rastro sulcado e fazendo um ruído sinistro.
— Amanhã, vai haver uma sessão solene no Petit Trianon, com a presença de todos os acadêmicos. Inclusive seu papai.
— O que é que você vai fazer? — perguntou Galatea, dominada pelo medo.
— Um carinho. Vou me encarregar pessoalmente do chá. — Com um gesto elegante, mostrou o caldeirão, de onde se evolava um odor fétido, e explicou, como um chef de cuisine falando de iguarias: O espantoso dessa fórmula é que, no final, o cozimento emite um cheiro irresistível de jasmim. Só que, na minha receita, o líquido derrete os órgãos e as cartilagens de quem bebe. Uma homenagem póstuma a mamãe.
A moça refreou a náusea. O Envenenador continuou:
— Não acha maravilhoso que a minha última travessura termine da mesma forma que o livro estúpido do Beluário Bezerra começa?
Ela lembrou que, no livro, todos os acadêmicos morriam bebendo o chá envenenado. Camilo recitou de cor um trecho da primeira página do Assassinatos na Academia Brasileira de Letras:
— “`Finita la commedia!' Divertiu-se vislumbrando a contradição no cabeçalho dos diários do dia seguinte: MORTOS TODOS OS IMORTAIS. Sim. Os quarenta Imortais da Academia.”
Camilo deixou cair no chão a túnica incômoda. Vestia um calção preto de malha, justo como o dos atletas de luta Greco-romana. Seu torso descoberto mostrava uma musculatura invejável, e ele tinha as pernas torneadas com harmonia. O corpo do alfaiate era uma miniatura perfeita do David de Michelangelo. Galatea surpreendeu-se. Não havia dúvidas de que Camilo Rapozo era um homem bonito. Um homem bonito e pequeno que lhe ameaçava a vida. Levantou-se e, mesmo com os movimentos cerceados, experimentou se afastar aos pulos.
Encetaram uma caçada à volta do caldeirão, onde a presa era maior que o predador.
A CARGA DA BRIGADA MAIS QUE LIGEIRA
No exato momento em que Veneficor consegue pegar a moça pelos cabelos para lhe dar a estocada mortal, a pesada porta do sótão vem abaixo.
O comissário Machado Machado e Gilberto de Penna-Monteiro atravessam o umbral da água— furtada. O esforço despendido na corrida deixa-os quase sem fôlego.
Antes que o detetive possa abrir a boca, o anão sobe numa banqueta e agarra Galatea, passando-lhe o braço ao redor do pescoço. Coloca o dedo mindinho, transformado em arma letal, contra a jugular da moça.
— Mais um passo, e ela morre.
Machado tira a palheta, dando idéia de submissão:
— Estamos parados. Não acha melhor conversar antes de cometer uma loucura?
— Loucura? Só os loucos cometem loucuras. Não sou maluco! Sei perfeitamente o que estou fazendo!
— Lógico que sabe. Desculpe, me expressei mal. Eu quis dizer “um desatino momentâneo”. Daqueles que todo mundo comete e dos quais depois se arrepende. Nós já sabemos que é você o autor dos Crimes do Penacho. Pra que matar mais uma pessoa?
— Por brincadeira. Já que estou vendo que não vai dar pra concluir minhas travessuras do jeito que eu tinha planejado — declara o alfaiate, com um riso infantil.
Penna-Monteiro vê as pernas de pau jogadas num canto. Tenta distrair Rapozo:
— Muito inteligente a idéia de disfarçar a altura com as andas. Ninguém ia imaginar que as mortes eram provocadas por um... um... um cavalheiro de baixa estatura.
— Anão. Pode falar. Anão. Não me incomodo. Como disse Shakespeare, “pequena é a coroa, não quem a porta” — lança Camilo, citando a frase inventada por Galatea.
Durante a resposta do alfaiate, o Coruja e Penna-Monteiro vão lentamente avançando na sua direção. Ele ameaça:
— Se vocês se mexerem de novo, adeus Galatea. O veneno na ponta desta lâmina mata em questão de segundos.
— Por que é que nós não conversamos um pouco sobre tudo isto? Afinal, nem sei por que você fez o que fez — propõe Machado.
— Não sabe? Claro que não sabe. Como é que ia saber? Nunca foi anão, pra sofrer as humilhações que eu sofri. Até que um dia me fartei. Foi fácil embeber os fardões e a batina nos meus venenos.
— Você fazia isso quando? — pergunta o detetive.
— Todos eles me chamavam pra ajudar na hora de vestir aquela parafernália absurda. Eu me prontificava, sempre humilde, e os imbecis vaidosos adoravam. Cansei de sentir as mãos luarentas daqueles velhos decadentes nas minhas costas, na cabeça, no rosto. Diziam que dava sorte e ficavam às gargalhadas. Isso sem falar naquele padre pervertido, que me apalpava em outros lugares!
Exaltado, ele aperta mais a pequena adaga envenenada no pescoço da moça. O Coruja procura acalmá-lo:
— Eu entendo. Você tem toda a razão. Pra mim, quando alguém tem razão, tem razão, e você tem razão.
— Também acho. Razão é razão. Ninguém vai negar que ele tem razão — confirma Penna-Monteiro.
A cólera ilumina o olhar do Envenenador. Ele passa a falar do alfaiate na terceira pessoa e confessa, enfim, o que mais o mortifica:
— Tem pior. Muito pior. Tudo isso o Camilo suportava com submissão, mas eu, o Veneficor, ia ficando indignado. A gota d'água foi quando começou o jogo de empurra.
— Que jogo de empurra?
— Entre o acadêmico e o estado do imortal, pra pagar o fardão. E se o estado não pagar? Mesmo quando paga, e o tempo que leva? Eles podiam pelo menos adiantar o dinheiro, porque a alfaiataria do Camilo está indo à falência! E os mais ricos são os que menos ajudam. Camilo pedia, rogava, suplicava, e nada. Por isso eles foram os primeiros: Beluário Bezerra, milionário e arrogante. Aloysio Varejeira, milionário e ladrão. Lauriano Lamaison, milionário e canalha. Depois o padre Ignacio, pobre mas devasso e mentiroso, que fez uma vestidura caríssima e disse que foi a Academia que encomendou mas o estado é que ia pagar. Eu pergunto: alguém aqui já conseguiu receber em dia uma conta do estado?!
Machado, Penna-Monteiro e até Galatea baixam os olhos, encabulados. Realmente, cobrar do estado podia levar qualquer um à loucura.
O Envenenador termina sua diatribe aos berros:
— Veneficor se vingou porque eles não pagam! Os miseráveis não pagam!
Galatea interfere, com medo de ser picada pelo anão enraivecido. Não sabe se o chama de Camilo ou de Veneficor. Na dúvida, opta pelos dois:
— Camilo, acho que Veneficor está muito abalado. Vocês têm toda a razão. Agora nós compreendemos que a culpa não é de vocês. Tudo vai se esclarecer.
Penna-Monteiro oferece sua opinião abalizada de médico:
— Evidente! Vocês fizeram o que muitos gostariam de fazer. Vocês não são responsáveis. Foi um momento de privação de sentidos.
Machado reforça-lhe as palavras:
— Como policial, concordo com o doutor Penna-Monteiro. Não vai nem haver processo. No máximo, alguns dias de repouso na clínica do doutor Austregésilo.
O nome de um acadêmico intensifica a fúria de Camilo, que grita:
— Outro imortal? Nunca! Prefiro morrer!
Gesticulando no seu desvario, por um instante Rapozo afasta do pescoço de Galatea a pequena lâmina envenenada. Como um discóbolo, o Coruja atira-lhe a palheta, e a aba rígida do chapéu atinge sua testa em cheio. Ele se desequilibra em cima da banqueta e mergulha de cabeça, aos urros, na mistura virulenta do caldeirão.
Machado recolhe do chão seu precioso chapéu-palheta, que, nesse caso, mostrou ser uma arma bem mais eficaz do que o Colt.45. Os três ficam em silêncio por um instante, observando o anão se dissolver em meio ao borbulhar macabro. Em pouco tempo, daquele corpo perfeito em miniatura sobra apenas o pequeno esqueleto. Galatea lacra-lhe o epitáfio:
— Morreu como viveu. Num conto da carochinha, no caldeirão da bruxa.
O comissário Machado Machado aproveitou a presença de Penna-Monteiro, além de legista, perito em química, para fazer uma primeira exploração do local. Galatea seguia ao lado, a curiosidade açulada pelo que aprendera. Contou a eles tudo o que Camilo Rapozo lhe revelara sobre a família, os venenos e a Veneficorum Secta. Encontraram dezenas de frascos com líquidos exóticos, etiquetados com nomes em latim. Sob a bancada, acharam vasilhames com éter, terebintina e galões de álcool. Galatea refreou a repulsa quando Penna-Monteiro abriu uma caixa repleta de vermes. Havia outras, guardando asas de morcegos, cabeças de serpentes e produtos desconhecidos da ciência oficial.
Em meio ao silêncio, um zumbido chamou-lhes a atenção. Vinha de trás da cortina enodoada que ocultava a vitrine construída na extensão de uma das paredes. O detetive afastou-a, e eles se depararam com a passarela ocupada pelos horrendos bonecos de massa envergando os fardões e a batina esbulhados dos mortos. O zumbido era causado por gordas moscas-varejeiras, prenhes de larvas, que voavam em torno das figuras daquela medonha caricatura de museu de cera.
Havia ainda trinta e seis manequins desnudos, à espera de paramentos que jamais viriam.
Galatea desviou o olhar com asco, abrigando-se nos braços de Machado.
A CERIMÔNIA DE EXPURGAÇÃO
Restava resolver como se livrar de toda aquela imundície ameaçadora. Apesar da sua curiosidade acadêmica, Penna-Monteiro receava recolher amostras das poções, que eram desconhecidas, e acidentalmente deflagrar alguma epidemia. Machado sugeriu que se chamasse o Dr. Carlos Chagas, chefe do Departamento de Saúde Pública. Chagas combatera várias epidemias: peste bubônica, febre amarela, varíola e a gripe espanhola. Penna-Monteiro deu o contra. Reconhecia o extraordinário talento do cientista, entretanto argumentou que estavam lidando com substâncias inexploradas. Até os exames nos laboratórios de Manguinhos constituíam um risco.
— Aliás, nós mesmos já podemos estar contaminados.
A melhor idéia veio de Galatea, a mais pragmática:
— Simples. Temos que incendiar a casa toda. E a única forma de evitar a possibilidade de uma praga. Além de impedir que uma mistura dessas caia em mãos de pessoas inescrupulosas.
Machado e Gilberto entreolharam-se. A solução era exeqüível. A casa que abrigava o laboratório e a loja do alfaiate se localizava no meio de um terreno isolado, bem longe das outras residências. As dezenas de velas que iluminavam o sótão eram justificativa suficiente para um incêndio. As tábuas velhas do assoalho, a cortina caindo aos pedaços, os recipientes contendo líquidos inflamáveis completariam a propagação das chamas, sem contar o forno aceso sob o caldeirão.
Uma coisa incomodava o comissário: os ultrajes e chacotas que levaram o homenzinho à insanidade durante anos de aviltamento como anão e também como alfaiate. Sabia que, muitas vezes, o governo era mau pagador. Seu pai tivera uma pequena casa desapropriada pelo plano de urbanização do prefeito Pereira Passos, em 1903, e morrera sem ver a cor do dinheiro público. Sacrificando, de vez, a vaidade de policial, já amortecida pelo fato da sua Galatea ter descoberto as pistas que redundaram na solução do caso, no boletim de ocorrência Machado Machado escreveria que:
O assassino, um mentecapto desconhecido em cujo encalço este comissário estava havia dias, foi surpreendido no depósito da alfaiataria roubando fazendas e materiais utilizados na confecção dos fardões. Adentrei o local do sinistro no instante em que o referido elemento, aos gritos no sótão, onde se localizava o depósito, vangloriava-se de seus crimes, segundo ele, por vingança. Ouvi nitidamente sua confissão, todavia não cheguei a tempo de impedir que o paranóico incendiasse o local. Uma cortina de fogo quase instantânea impediu-me o acesso às escadas. A sociedade livra-se do perigoso assassino, incandescido pelas chamas, sem conhecer, contudo, sua identidade. Camilo Rapozo, cuja coragem era inversamente proporcional ao tamanho, lutou bravamente até a morte, não em defesa do seu patrimônio, mas pela honra da Academia.
O Coruja contava resgatar a memória do pequenino alfaiate, tornado louco por anos de humilhação. — Acha que o Floresta vai engolir essa patacoada? — duvidou Penna-Monteiro.
— Claro que vai. Assim que eu garantir que os Crimes do Penacho terminaram. O que o general quer é sossego.
Cabem a Galatea as honras de iniciar a depuração. Antes, recolhe o precioso Livro da jângal e mostra aos dois o pássaro-alfaiate, esclarecendo o último enigma das mensagens. Depois, com um dos candelabros, ateia fogo às cortinas. As chamas sobem rápido pelos panos. Os vidros estalam, e o incêndio começa a derreter os imensos fantoches. As labaredas transformam em cinzas as vestes, comprovando que, como os acadêmicos, seus fardões não são imortais.
Penna-Monteiro derruba os círios junto aos manuscritos pousados na bancada. Um candelabro encarrega-se de consumir o grosso compêndio da Malignum opus entronado no atril de madeira.
Machado derrama um garrafão de álcool na tábua corrida, que se incendeia ao contato de outro castiçal, alastrando o fogo pelo assoalho.
O calor fica insuportável. Os tecidos, brocados, aviamentos e passamanarias guardados nos andares de baixo também alimentarão o apetite pantagruélico das chamas. A um sinal do detetive, todos correm pelas escadas, antes que o incêndio as destrua.
Os três atravessam a rua e observam a nuvem de fumaça negra que se forma sobre o casarão. Um cheiro repugnante desprende-se dela. O vento divide em duas a nuvem negra, dando-lhe a aparência de pulmões. Enojado, o comissário espreme entre as mãos seu maço de cigarros Cairo e lança-o no meio das chamas. Nunca mais voltaria a fumar. Por um momento, ninguém pronuncia uma palavra, até que Gilberto pergunta a Machado:
— Está pensando em quê?
— No terno azul de tropical inglês que nunca vou ter — responde ele com ironia.
Galatea declara, sorrindo:
— Juro que prefiro você assim, espandongado. Espandongado, mas vivo.
Ao longe, faz-se ouvir a sirene, anunciando a chegada dos bombeiros. O policial comenta:
— Eles são muito valentes, mas não vai adiantar nada,
— Não sei, podem minimizar os estragos e encontrar vestígios do que aconteceu — diz Penna-Monteiro, preocupado.
— Impossível — garante o detetive.
— Como é que você pode ter tanta certeza? — pergunta Galatea, também apreensiva.
— Esqueceram da falta d'água?
O Coruja refere-se ao problema endêmico do Rio de Janeiro, que os bombeiros sempre enfrentam.
Os moradores das casas vizinhas começam a sair para a rua, tentando entender o que aconteceu. Machado, Galatea e Perna Monteiro olham fascinados para o fogo que se alastra, hipnotizando-os.
— O belo horrível — diz Machado.
— O quê? — pergunta Galatea, sem tirar os olhos das chamas.
— Meu pai costumava dizer que essa dança das labaredas queimando é ao mesmo tempo linda e pavorosa. E o belo horrível.
Penna-Monteiro confirma:
— E verdade. Tive um professor muito feio chamado Euclides Belo, e o apelido dele era Incêndio. O Belo horrível.
A gargalhada dos três é interrompida pelo desmoronar da mansão desfazendo-se em brasas. O ruído lembra o urro derradeiro do Envenenador. As pedras transformam o velho casarão no mausoléu de Camilo Rapozo.
O comissário ajeita a palheta na cabeça e recita um necrológio, referindo-se ao anão:
— “O adulto apoucado, preso no corpo da criança a quem foi negado o crescimento, transmuta-se no menino descomunal e cruel. Imagem triste de um ser gargantuesco, genial e feérico.”
— Machado de Assis — deduz Gilberto.
— Não. Machado Machado — responde o Coruja, beijando a sua terna Galatea.
O PAIZ
RIO DE JANEIRO, SEGUNDA-FEIRA, 12 DE MAIO DE 1924
Final Feliz
Em uma entrevista collectiva realizada hontem, o general Floresta declarou encerradas com sucesso as investigações a respeito dos “Crimes do Penacho”
Agindo sob instruções exatas do general, exímio xonhecedor da psyche humana, que havia dias conjecturava sobre o envolvimento do suspeito, o comissário Machado Machado, acompanhado do dr. Gilberto de Penna-Monteiro e de uma senhora desconhecida, presenciou a derrocada do assassino. O ignoto psychósico foi descoberto quando assaltava o depósito da Alfaiataria Dedal de Ouro em busca do rico tecido usado nos trajes dos acadêmicos. O assassino foi pego em flagrante pelo alfaiate antes da chegada do comissário.
O heróico Camilo Raposo, encarregado da manufactura de todos os fardões, falleceu na ocorrência. Tanto Raposo como o criminoso sucumbiram em um incêndio dantesco provocado pelo meliante.
Finaliszamos repetindo as palavras ditas de improviso por Floresta, na coleltciva de hontem, a respeito de Camilo Rapozo: “Sua coragem era inversamente proporcional ao seu tamanho. Lutou bravamente até a morte, não em defesa do seu patrimônio, mas pela honra da Academia”.
O fim de semana de Machado e Galatea é dedicado ao descanso e ao amor. Exorcizaram entre os lençóis os momentos horríveis passados juntos na sexta-feira.
Depois de dormirem dez horas seguidas, os amantes acordam com o ruído insistente da campainha. O detetive beija a amada e pede que ela não se levante.
— Vou ver quem é e volto pra cama. Ninguém me tira de casa hoje.
Veste a calça amarrotada e vai descalço abrir a porta. O zelador do prédio entrega-lhe o jornal e uma caixa muito bem embrulhada para presente.
— Quem deixou essa encomenda?
— Não sei, doutor. Parece que era pra chegar na semana passada. Atrasou porque o rapaz da entregadora estava gripado.
Machado agradece e volta para a sala. Põe a caixa imensa em cima da mesa, enquanto Galatea, curiosa, levanta-se da cama enrolada no lençol e debruça-se sobre o ombro dele.
O Coruja desfaz o laço colorido que amarra a tampa, onde se lê: “Para o Excelentíssimo Senhor Doutor Comissário Machado Machado”.
Abre o embrulho e vê, deitado em berço de papel de seda, num cabide revestido de veludo vermelho, o magnífico terno azul-escuro, de tropical inglês.
Preso à lapela por um alfinete, há um bilhete escrito com caligrafia esmerada:
“Caro comissário, use com saúde.”
Camilo Rapozo
Esta é uma obra de ficção. Mesmo as figuras históricas nela apresentadas são tratadas de forma ficcional, numa mescla de fantasia e realidade. Qualquer semelhança dos personagens fictícios com personagens reais não passa de fortuita coincidência.
Esta obra é distribuída Gratuitamente pela Equipe Digital Source e Viciados em Livros para proporcionar o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-book ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. A generosidade e a humildade é a marca da distribuição, portanto distribua este livro livremente.
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Você terminou Assassinatos na Academia Brasileira de Letras
Jô Soares