Belas adormecidas
Parte três: De manhã
6
Por alguns minutos, Lila foi a última mulher em Nosso Lugar. Porém, ela não
pensou nisso. Tinha decidido ser prática a partir daquele momento. Seu foco era na terra, na pá, em preencher a cova. Só quando o trabalho foi terminado ela entrou na escuridão da Árvore e atravessou. Ela foi sem olhar para trás. Sentia que, se olhasse, seu coração frágil se partiria.
PARTE TRÊS
DE MANHÃ
A menina não está morta, mas dorme.
Mateus 9:24
1
Para a maioria das pessoas nas semanas depois que as mulheres acordaram, o mundo pareceu um pouco um jogo de tabuleiro de segunda mão: tinha peças faltando, não necessariamente as importantes, mas definitivamente peças que se gostaria de ter. Dava para sentir que, no mínimo, faltavam certas cartas que poderiam ajudar a se chegar à vitória.
Havia dor para todo lado, como uma deformação. Porém, o que se fazia quando se perdia uma esposa, uma filha ou o marido? A não ser que se fosse como Terry Coombs, e alguns eram, se vivia com a perda e continuava no jogo.
Pudge Marone, barman e dono do Squeaky, perdeu um pedaço de si e aprendeu a viver assim. Seu polegar direito agora terminava logo depois da junta.
Ele demorou um tempo para perder o hábito de abrir a torneira de chope com aquela mão, mas conseguiu. Mais tarde, recebeu uma proposta de compra do imóvel de um cara que queria abrir uma franquia do TGI Friday’s. Pudge disse para si mesmo que o Squeaky Wheel jamais se recuperaria mesmo da Aurora, e o pagamento não era ruim.
Certas pessoas (Don Peters, por exemplo) não fizeram muita falta. Foram tão completamente esquecidas que era como se nunca tivessem existido. A propriedade em ruínas de Peters foi vendida em um leilão.
Os poucos bens de Johnny Lee Kronsky foram ensacados com o lixo, mas o apartamento imundo continua desocupado até hoje.
Van tinha deixado a porta aberta quando saiu da casa de Fritz Meshaum naquele último dia da Aurora, e depois que estava morto havia um ou dois dias, os urubus de cabeça vermelha entraram e se fartaram no bufê. Aves menores entraram para pegar fios da barba ruiva e crespa de Fritz para fazer ninho.
Chegou uma hora em que um urso com iniciativa arrastou a carcaça para fora.
Com o tempo, os insetos deixaram seu esqueleto limpo, e o sol queimou o macacão até ficar branco. A natureza o usou e, como costumava fazer, conseguiu torná-lo uma coisa bonita: uma escultura de ossos.
Quando Magda Dubcek soube o que tinha acontecido com Anton (o sangue no tapete do quarto contava a maior parte da história), ela lamentou amargamente seu voto para voltar.
— Que erro eu cometi — ela disse para si mesma incontáveis vezes, depois de incontáveis cuba-libres.
Para Magda, seu Anton não era uma peça, nem duas peças, nem três peças; para ela, ele era o jogo completo. Blanche McIntyre tentou envolver Magda em trabalho voluntário, pois havia muitas crianças que tinham perdido pai ou mãe e precisavam de ajuda, e a convidou para entrar para o clube do livro, mas Magda não estava interessada.
— Não tem final feliz para mim aqui — disse ela.
Em noites longas e insones, ela bebia e assistia a Boardwalk Empire. Quando terminou essa série, passou para A família Soprano. Ela enchia as horas vazias com histórias de homens maus fazendo coisas ruins.
2
Para Blanche, houve final feliz.
Ela acordou no apartamento de Dorothy, no chão onde tinha adormecido alguns dias antes, e se livrou dos restos do casulo. As amigas também estavam lá, também despertando ao seu redor e se libertando das fibras. Porém, uma coisa estava diferente: Andy Jones. O bebê não estava nos braços de Blanche, como estava quando ela tinha entrado na Árvore. Estava dormindo em um berço rudimentar feito de galhos entrelaçados, no chão ali perto.
— Puta merda — disse Dorothy. — O menino! Uhul!
Blanche encarou aquilo como um sinal. A Creche Tiffany Jones foi construída no local de uma casa que tinha pegado fogo durante a Aurora. O projeto foi financiado com o fundo de aposentadoria de Blanche e com o do novo namorado dela (que, no caso de Willy Burke, estava crescendo sem juros no forro do colchão amarelado desde 1973), e com muitas doações da comunidade. Logo depois da Aurora, parecia que muito mais gente tinha inclinação caridosa do que antes. A família Norcross foi particularmente generosa, apesar de suas dificuldades. Na placa em frente, embaixo do nome de Tiffany, havia a imagem de um berço de galhos entrelaçados.
Blanche e sua equipe aceitavam qualquer criança entre as idades de um mês e quatro anos, independentemente da possibilidade dos pais (ou de apenas um deles) de pagar. Depois da Aurora, foram pequenas operações na comunidade, como a de Blanche, em boa parte custeadas por homens e com mão de obra masculina, que começaram o movimento que levou ao estabelecimento de um programa universal de cuidados infantis. Muitos homens pareciam entender que um reequilíbrio era necessário.
Afinal, eles foram avisados.
Blanche pensou uma ou duas vezes no livro que tinha sido o assunto do encontro da noite anterior ao momento em que tudo mudou: a história de uma garota que contou uma mentira que mudou muitas vidas. Refletiu muitas vezes sobre a penitência que pesou tanto na vida da menina. Ela, Blanche, não sentia que devia uma penitência assim. Era uma pessoa decente, sempre tinha sido, uma trabalhadora esforçada e boa amiga. Sempre foi boa com as detentas da prisão. A creche não era uma forma de reparação. Era decência. Era natural, óbvia e essencial. Se havia peças faltando no tabuleiro, às vezes, até mesmo com frequência, era possível fazer novas.
Blanche conheceu Willy quando ele apareceu na porta da creche, ainda passando por reformas, com um maço de notas de cinquenta dólares.
— O que é isso? — perguntou ela.
— Minha parte — disse ele.
Só que não era. Dinheiro não era suficiente. Se ele queria oferecer uma parte, teria que fazer sua parte.
— As crianças pequenas fazem muito cocô — observou Willy para Blanche uma noite, depois de eles terem flertado por um tempo.
Ela estava de pé ao lado de seu Prius, esperando que ele terminasse de arrastar dois sacos transparentes carregados de fraldas sujas para a caçamba da picape. As fraldas seriam lavadas na Lavanderia Tiny Tot, em Maylock. Blanche não tinha intenção nenhuma de encher um lixão de Pampers usadas. Willy tinha perdido peso e comprado suspensórios novos. Blanche o achava bonito antes, mas agora, com a barba aparada (e aquelas sobrancelhas irritantes), ele estava bonito mesmo.
— Se você morrer agora, Willy — disse Blanche —, nós vamos nos divertir com o obituário. “Willy Burke morreu fazendo o que amava: transportando fraldas cagadas por um estacionamento.”
Ela jogou um beijo para ele.
3
Jared Norcross foi voluntário na Creche Tiffany Jones no verão seguinte, e em meio período durante seu terceiro ano do ensino médio. Ele gostava de ajudar.
As crianças eram meio loucas, faziam castelos de areia, lambiam paredes e rolavam em poças, e isso quando estavam felizes, mas ele nunca deixava de ficar fascinado, como tantos antes dele, com a facilidade com que meninos e meninas brincavam juntos. O que mudava mais tarde? Por que eles de repente se separavam em grupos quase na mesma hora que começavam na escola? Era algo químico? Genético? Jared não aceitava isso. As pessoas eram mais complexas; as pessoas tinham sistemas radiculares, e seus sistemas radiculares tinham sistemas radiculares. Ele tinha uma noção de que na faculdade talvez gostasse de estudar comportamento infantil e acabar virando psiquiatra, como o pai.
Esses pensamentos consolavam Jared e o distraíam quando precisava ser distraído, que era quase o tempo todo durante aquele período de sua vida. O
casamento dos pais estava ruindo, e Mary estava namorando o primo mais velho de Molly Ransom, um astro do lacrosse do condado vizinho. Ele os tinha visto juntos uma vez, Mary e o cara. Eles estavam sentados a uma mesa de piquenique em frente à sorveteria, dando sorvete de casquinha um na boquinha do outro. Só poderia ter sido mais horrível se eles estivessem transando.
Molly foi atrás dele uma vez, quando Jared estava saindo de casa.
— Como você está, cara? Mary e Jeff estão vindo pra cá. Quer ficar com a gente? — A garota estava usando aparelho agora, e parecia que tinha crescido uns dois metros. Em pouco tempo os garotos que não queriam brincar com ela depois da aula estariam atrás dela só por um beijinho, quem sabe.
— Bem que eu queria — disse Jared.
— E por que não pode? — perguntou Molly.
— Coração partido — respondeu ele, e piscou. — Eu sei que você nunca vai me amar, Molly.
— Ah, por favor, vai cuidar da sua vida — disse ela, e revirou os olhos.
Às vezes, os passos de Jared o levavam para a casa vazia onde tinha escondido
Mary, Molly e sua mãe. Ele e Mary tinham formado uma ótima equipe, ele achava; mas ela deixou isso para trás com firmeza.
— Estamos em um mundo diferente agora, sabe — dissera Mary, como se fosse consolo ou como se explicasse alguma coisa. Jared disse para si mesmo que ela não tinha ideia do que estava perdendo, mas concluiu (com tristeza) que ela não devia estar perdendo nada.
4
No fim das contas, os casulos flutuavam.
Três mulheres, passageiras do voo que tinha caído no oceano Atlântico, acordaram nas teias em uma praia rochosa da Nova Escócia. Os casulos estavam molhados, mas as mulheres dentro deles estavam secas. Elas andaram até uma estação de resgate vazia e pediram ajuda pelo auxílio à lista.
Essa notícia foi relegada às páginas finais de jornais e sites de notícia, isso quando foram contadas. Na sombra do maior milagre daquele ano, alguns dos menores eram de pouco interesse.
5
Encontrar o marido morto dentro de uma garagem tomada de gás de escapamento era uma forma terrível de voltar à vida.
Rita Coombs teve momentos ruins depois disso: desespero, terror de viver uma vida sozinha e, claro, suas noites insones, quando parecia que o dia seguinte não chegaria nunca. Terry era calmo, inteligente, amável. O fato de ele ter caído em uma depressão tão horrenda e sufocante a ponto de tirar a própria vida era difícil de encaixar com a experiência que ela tinha com o homem que fora seu companheiro e pai de seu filho. Ela chorou até ter certeza de que todas as lágrimas tinham acabado… e depois, mais lágrimas vieram.
Um sujeito chamado Geary a visitou uma tarde para oferecer condolências.
Rita sabia, embora houvesse histórias conflitantes e um desejo de proteger todo mundo envolvido tivesse feito as pessoas falarem pouco do evento, que tinha sido Geary quem havia organizado o ataque à prisão. Porém, o jeito dele era calmo e gentil. Ele insistiu para que ela o chamasse de Frank.
— O que aconteceu com meu marido, Frank?
Frank Geary disse que acreditava que Terry não tinha conseguido suportar.
— Tudo estava fora de controle, e ele sabia. Mas não conseguiu impedir. A única coisa que conseguiu impedir foi a si mesmo.
Ela se recompôs e fez uma das perguntas que a atormentavam em noites insones.
— Sr. Geary… o meu marido… ele tinha um problema com bebida. Ele…
estava…
— Sóbrio o tempo todo — disse Frank. Ele ergueu a mão esquerda sem aliança. — Você tem minha palavra. Por Deus.
6
Os rompantes em massa de violência e destruição de propriedade da Aurora, junto com o desaparecimento de tantas mulheres, resultaram em uma reestruturação gigantesca na indústria de seguros de todo o país e de todo o mundo. Drew T. Barry e a equipe da Drew T. Barry Indenizações levaram a situação da melhor maneira possível, como as outras empresas dos Estados Unidos, e conseguiram facilitar acordos de seguro de vida tanto para a viúva de Nate McGee quanto para os pais de Eric Blass. Como os dois tinham morrido no meio de um ataque não autorizado a uma instituição penal, isso não foi pouca coisa, mas Drew T. Barry não era um corretor de seguros cruel.
Não foi tão difícil conseguir uma compensação para os parentes, próximos ou distantes, do Meritíssimo Oscar Silver, de Barry e Gerda Holden, de Linny Mars, do policial Vern Rangle, do dr. Garth Flickinger, dos guardas Rand Quigley, Tig Murphy e Billy Wettermore, pois pôde ser alegado com legitimidade que todos morreram sob circunstâncias englobadas em suas apólices. Não que as várias resoluções não tenham sido um processo longo e trabalhoso. Foi trabalho de anos, trabalho que fez o cabelo de Drew T. Barry ficar grisalho e sua pele ficar acinzentada, e, no meio disso tudo, durante e-mails de manhã cedo e noites de arquivamento até tarde, ele perdeu o gosto por caçar. Pareceu frivolidade em comparação à seriedade do seu trabalho em nome dos abandonados e dos prejudicados. Ele se sentava em um local e via, do outro lado da mira, um cervo
com chifre de dez pontas andar pela névoa, e pensava: Seguro contra acidentes naturais. Aquele cervo tem seguro contra acidentes naturais? Porque, para um cervo, levar um tiro deve ser isso, não é? Alguém vai cuidar dos filhos dele? Um cervo morto com bom seguro pode ganhar uma boa grana? Claro que não, a ideia era mais ridícula do que a piada. Então ele vendeu seu Weatherby e até tentou virar vegetariano, mas isso não funcionou tão bem. Às vezes, depois de um dia de trabalho árduo no ramo de seguros, um homem precisava de uma costelinha de porco.
A perda muda uma pessoa. Às vezes, isso é ruim. Às vezes, é bom. De qualquer modo, você come sua porcaria de costelinha de porco e segue com a vida.
7
Por falta de identificação, Lowell e Maynard Griner foram enterrados como indigentes. Bem mais tarde, quando a loucura da Aurora começou a passar (não que fosse passar completamente), as digitais foram comparadas e correspondiam ao arquivo extenso, e os irmãos foram oficialmente declarados mortos. Porém, muitos duvidaram, principalmente as pessoas que moravam no mato. Havia uma abundância de boatos de que Little Low e Maynard haviam se instalado em uma mina abandonada, que estavam plantando Acapulco Gold mais ao sul usando nomes falsos, que passavam pelas colinas em um Ford F150 preto roubado com uma cabeça de javali cortada presa na grade e Hank Williams Jr. tocando em alto volume. Um autor com muitos prêmios, um homem que tinha morado nos Apalaches quando jovem e ido embora assim que fez dezoito anos, ouviu algumas lendas dos parentes e as usou como base para um livro ilustrado infantil chamado Irmãos maus e burros. No livro, eles acabavam como sapos infelizes no Pântano de Caca.
8
O riacho que o culto Bright Ones represou perto da propriedade em Hatch, Novo México, rompeu a barragem, e as águas arrancaram as construções da comunidade da base. Quando as águas sumiram, o deserto se instalou; a areia
cobriu as poucas armas descartadas que os agentes federais não encontraram; algumas páginas da constituição da nova nação deles, que declarava seu domínio sobre as terras e águas que tinham tomado e seu direito de portar armas, além da ausência de direito do governo federal americano para exigir que pagassem sua cota de impostos, estavam espetadas em espinhos de cactos. Uma universitária que estudava botânica, em um passeio para coletar amostras de plantas nativas do deserto, descobriu várias dessas páginas.
— Obrigada, Deus! — gritou ela, e as tirou dos cactos.
A universitária estava com dor de barriga. Ela saiu do caminho da montanha, defecou e usou os providenciais papéis para se limpar.
9
Continuando a marcha para a aposentadoria de trinta anos de serviço, Van Lampley aceitou um emprego na prisão feminina de Curly, que foi para onde a maioria das prisioneiras sobreviventes de Dooling foi transferida. Celia Frode foi para lá, mas não por muito tempo (condicional), assim como Claudia Stephenson.
O grupo do Instituto Penal de Curly era, de modo geral, bem complicado, com muitas garotas nervosas, muitas mulheres duronas com crimes anteriores, mas Van estava à altura do serviço. Um dia, uma garota branca com dentes de ouro falsos, trancinhas e uma tatuagem na testa (dizia VAZIO com letras escorrendo) perguntou a Van como ela tinha ficado manca. A expressão de desprezo da detenta era ao mesmo tempo suína e jovial.
— Chutei demais uns vagabundos por aí — disse Van, uma mentira inofensiva. Ela tinha chutado a quantidade certa de vagabundos. A policial dobrou a manga para mostrar a tatuagem no volumoso bíceps esquerdo: SEU
ORGULHO entalhado na lápide com o braço flexionado embaixo. Ela se virou do outro lado e dobrou a outra manga. No igualmente impressionante bíceps direito, outra lápide tinha sido tatuada. A PORRA DO SEU ORGULHO TODO era o que essa outra dizia.
— Tudo bem — disse a garota durona, deixando a expressão de desprezo de lado. — Você é legal.
— Pode apostar — respondeu Van. — Agora, anda.
Às vezes, Van orava com Claudia, agora a ordenada reverenda Stephenson.
Elas oravam por perdão por seus pecados. Oravam pela alma de Ree. Oravam pela alma de Jeanette. Oravam pelos bebês e suas mães. Oravam por qualquer coisa que precisasse de oração.
— O que ela era, Claudia? — perguntou Van uma vez.
— Não é o que ela era, Vanessa — respondeu a reverenda Stephenson. — É o que nós somos.
— E o que nós somos?
A reverenda ficou séria, muito diferente da antiga Claudia, que era tímida e reservada.
— Decididas a melhorar. Decididas a sermos mais fortes. Prontas para fazer o que precisarmos fazer.
10
O câncer de colo do útero que estava crescendo em Janice Coates a teria matado, mas o relógio do outro lado da Árvore desacelerou seu crescimento. Além disso, a filha a tinha visto do outro lado da Árvore. Ela levou a mãe a um oncologista dois dias depois que as mulheres acordaram, e a diretora começou a quimioterapia dois dias depois disso. Janice cedeu ao pedido de Michaela para abandonar o emprego imediatamente, permitindo que a filha tomasse todas as providências, que cuidasse dela, que a mandasse ir ao médico, ir para cama, que desse seus remédios regularmente. Michaela também cuidou para que a mãe parasse de fumar.
Na humilde opinião de Michaela, o câncer era uma doença de merda. Ela tinha perdido o pai quando bem nova e ainda estava superando a merda emocional que acompanhava isso. Porém, merda era uma coisa que vinha em abundância. Merda era uma coisa que se tinha que tirar do caminho com uma pá sem parar, se fosse mulher, e se fosse uma mulher na televisão, tinha que fazer isso em dobro. Michaela era capaz de fazer o triplo. Não tinha dirigido de Washington, destruído a moto vintage de um motoqueiro sacana, ficado acordada dias fumando os cristais de Garth Flickinger e sobrevivido a um
conflito armado horrendo para sucumbir a um tipo qualquer de merda que aparecesse, mesmo essa merda sendo uma doença na mãe dela.
Depois da quimioterapia, quando o resultado do exame as informou que Janice estava em remissão, Michaela disse para a mãe: — Muito bem. O que você vai fazer agora? Precisa permanecer ativa.
Janice disse que Mickey estava certa. Seu primeiro plano: levar Michaela para Washington de carro. A filha precisava voltar ao trabalho.
— Você vai tentar contar o que aconteceu? — perguntou Janice à filha. — Um relato em primeira pessoa?
— Já pensei nisso, mas…
— Mas?
Havia problemas. Primeiro, as pessoas diriam que as aventuras das mulheres do outro lado da Árvore eram mentira. Segundo, diriam que não havia existido uma criatura sobrenatural como “Evie Black”, e que a Aurora tinha sido causada por meios perfeitamente naturais (ainda que não descobertos até o momento).
Terceiro, se certas autoridades decidissem que Michaela não estava divulgando mentiras, seriam feitas perguntas que as autoridades de Dooling, principalmente a antiga xerife Lila Norcross, não podiam responder.
Por dois dias, Janice ficou com a filha na capital do país. As flores de cerejeira já tinham sumido. Estava quente, mas elas andaram muito mesmo assim. Na Pennsylvania Avenue, elas viram o comboio do presidente, uma fila de limusines pretas brilhantes e de utilitários. Passou direto, sem parar.
— Olha. — Michaela apontou.
— Quem liga? — disse Janice. — É só mais um babaca com pinto.
11
Em Akron, Ohio, no apartamento em que morava com sua tia Nancy, começaram a chegar cheques em nome de Robert Sorley. As quantias nunca eram grandes, vinte e dois dólares aqui, dezesseis ali, mas foram se acumulando.
Esses cheques vinham da conta de uma mulher chamada Elaine Nutting. Nos cartões e cartas que acompanhavam os cheques, Elaine escrevia para Bobby sobre sua falecida mãe, Jeanette, sobre a vida de gentileza, generosidade e
realizações que ela visualizara para ele.
Apesar de Bobby não ter conhecido a mãe tão bem quanto gostaria, e, por causa do crime dela, nunca ter conseguido confiar nela enquanto estava viva, ele a amava. A impressão que ela pareceu ter provocado em Elaine Nutting o convenceu de que ela tinha sido boa.
A filha de Elaine, Nana, incluía desenhos em algumas cartas da mãe. Ela era muito talentosa. Bobby pediu para ela desenhar por favor uma montanha, para ele poder olhar e pensar no mundo além de Akron, que não era um lugar ruim, mas era, sabe como é, Akron.
Ela desenhou. Ficou lindo: riachos, um mosteiro na curva de um vale, aves voando, nuvens iluminadas por cima, um caminho sinuoso levando ao outro lado, invisível.
Porque você pediu por favor, escreveu Nana.
Claro que eu pedi por favor, escreveu ele para ela. Quem não pede por favor?
Na carta seguinte, ela escreveu: Eu conheço um monte de garotos que não pedem por favor. Não tenho espaço neste papel para escrever o nome de todos os garotos que conheço que não pedem por favor.
Em resposta, ele escreveu: Eu não sou um desses garotos.
Eles se tornaram correspondentes regulares e acabaram planejando de se conhecer.
O que realmente aconteceu.
12
Clint nunca perguntou a Lila se ela tinha tido uma amante durante seu tempo do outro lado da Árvore. Era como se houvesse um universo dentro do marido dela, um arranjo de planetas meticulosamente detalhados e organizados pendurados por fios. Os planetas eram ideias e pessoas. Ele os explorava e estudava e passava a conhecê-los. Só que eles não se moviam, não giravam, não mudavam com o tempo, da forma como corpos de verdade, celestes ou não, mudavam. Lila entendia isso até certo ponto, por saber que ele já tinha vivido uma vida em que não havia nada além de movimento e incerteza, mas isso não queria dizer que ela tinha que gostar. Ou aceitar.
E como foi ter matado Jeanette Sorley, ainda que tivesse sido acidental? Isso era uma coisa que ele nunca entenderia, e nas poucas vezes que tentou, ela se afastou a passos rápidos, apertando os punhos, sentindo ódio dele. Ela não sabia exatamente o que queria, mas não era ser entendida.
Ao acordar naquela primeira tarde, Lila dirigiu sua viatura da entrada de carros da sra. Ransom direto para a prisão, ainda soltando fumaça. Pedacinhos de casulo se dissolvendo ainda estavam agarrados à sua pele. Ela organizou a retirada dos corpos dos atacantes e o recolhimento e o descarte de armas e equipamentos da polícia. Os ajudantes que ela convocou para essa ajuda foram, primariamente, as detentas do Instituto Penal de Dooling. Aquelas mulheres, criminosas condenadas que tinham entregado a sua liberdade (praticamente todas sobreviventes de abuso doméstico, sobreviventes de vício, sobreviventes de pobreza, sobreviventes de doença mental ou de alguma combinação dos quatro), estavam acostumadas a fazer trabalho desagradável. Elas faziam o que tinham que fazer. Evie deu uma escolha a elas, e elas escolheram.
Quando as autoridades estaduais finalmente voltaram a atenção para o Instituto Penal de Dooling, a história já tinha sido espalhada e combinada entre as pessoas da cidade e da prisão. Saqueadores, uma Brigada do Maçarico altamente armada, tinha feito um cerco, e o dr. Clinton Norcross e seus guardas defenderam sua posição heroicamente, ajudados pela polícia e por voluntários como Barry Holden, Eric Blass, Jack Albertson e Nate McGee. Considerando o fato abrangente e inexplicável da Aurora, essa história foi um pouco menos interessante do que as mulheres flutuantes que tinham ido parar na praia da Nova Escócia.
Afinal, eram só os Apalaches.
13
— O nome dele é Andy. A mãe dele morreu — disse Lila.
Andy estava chorando quando ela o apresentou para Clint. Ela o pegou com Blanche McIntyre. Seu rosto estava vermelho e faminto.
— Vou dizer que ele é meu, que eu dei à luz. Vai ser mais simples assim.
Minha amiga Jolie é médica. Ela já preparou a papelada.
— Querida, as pessoas vão saber que você não estava grávida. Não vão acreditar.
— A maioria vai — disse ela —, porque o tempo era diferente lá. Quanto ao resto… não ligo.
Como viu que ela estava falando sério, ele esticou os braços e aceitou a criança que chorava. Clint ninou Andy de um lado para outro. Os gritos do bebê viraram berros.
— Acho que ele gostou de mim — disse Clint.
Lila não sorriu.
— Ele está com intestino preso.
Clint não queria um bebê. Queria dormir. Queria esquecer tudo, o sangue, as mortes e Evie, principalmente Evie, que tinha dobrado o mundo, que o tinha dobrado. Porém, o videoteipe estava em sua cabeça; sempre que queria bancar o Warner Wolfe e consultá-lo, as imagens se repetiam sem parar.
Ele se lembrou de Lila, naquela noite horrível em que o mundo estava pegando fogo, dizendo para ele que nunca tinha desejado a piscina.
— Minha opinião sobre isso vai contar? — perguntou ele.
— Não — disse Lila. — Sinto muito.
— Você não parece sentir muito. — E era verdade.
14
Às vezes, normalmente à noite, quando ficava acordada, mas às vezes até nas tardes mais iluminadas, nomes passavam pela cabeça de Lila. Eram os nomes dos policiais brancos (como ela) que atiraram em civis negros inocentes (como Jeanette Sorley). Ela pensava em Richard Haste, que atirou em Ramarley Graham, de dezoito anos, no banheiro do apartamento do jovem no Bronx.
Pensava em Betty Shelby, que matou Terence Crutcher em Tulsa. Mais do que tudo, ela pensava em Alfred Olongo, que levou um tiro do policial Richard Gonsalves quando apontou de brincadeira um dispositivo vaporizador para ele.
Janice Coates e outras mulheres de Nosso Lugar tentaram convencê-la de que ela teve motivos perfeitamente válidos para o que tinha feito. Essas declarações podiam ou não ser verdade; de qualquer modo, não ajudavam em nada. Uma
pergunta ficava voltando como chiclete preso na sola do sapato: ela teria dado mais tempo a uma mulher branca? Tinha um medo terrível de saber a resposta para isso… mas sabia que nunca teria certeza. A pergunta a assombraria pelo resto da vida.
Lila ficou no emprego até a situação na prisão ser resolvida, depois entregou seu pedido de demissão. Ela levou o bebê Andy para a creche Tiffany Jones e ficou para ajudar.
Clint estava indo trabalhar em Curly, uma hora a mais de trajeto. Estava obcecado pelas pacientes, principalmente as detentas transferidas de Dooling que tinham atravessado, porque ele era a única pessoa com quem elas podiam conversar sobre o que tinham visto e vivenciado e que não as rotularia como loucas.
— Você se arrepende da sua escolha? — ele perguntava a cada uma delas.
Todas diziam que não.
O altruísmo delas impressionava Clint, o fazia se sentir diminuído, o mantinha acordado, sentado na poltrona na luz turva da manhã. Ele havia arriscado a vida, sim, mas as detentas tinham entregado suas vidas novas.
Fizeram delas um presente. Que grupo de homens teria feito um sacrifício unânime assim? Nenhum, essa era a resposta, e se reconhece isso, Cristo, as mulheres então não cometeram um erro terrível?
Ele se alimentava de comida de drive-thru na ida e na volta, e a flacidez que o havia preocupado na primavera virou uma barriga considerável até o outono seguinte. Jared era um fantasma melancólico, deslizando pelos limites de sua atenção, indo e vindo, às vezes oferecendo um pequeno gesto de cumprimento ou um oi, pai. Sonhos eróticos com Evie afastavam qualquer serenidade real que Clint pudesse encontrar. Ela o capturava com trepadeiras e soprava vento por seu corpo nu. E o corpo dela? Era um abrigo onde ele achava que poderia descansar, mas que nunca alcançava antes de acordar.
Quando ele estava no mesmo aposento que o bebê, Andy sorria para ele, como se quisesse fazer amizade. Clint correspondia ao sorriso e se via chorando no carro a caminho do trabalho.
Uma noite, sem conseguir dormir, ele jogou no Google o nome do seu primeiro paciente, Paul Montpelier, o da “ambição sexual”. Apareceu um
obituário. Paul Montpelier tinha morrido cinco anos antes, depois de uma longa batalha contra um câncer. Não havia menção a nenhuma esposa e nem a filhos.
O que a “ambição sexual” tinha dado a ele? Um obituário muito curto e triste, ao que parecia. Clint também chorou por ele. Entendia que esse era um fenômeno psicológico bem conhecido chamado transferência, e não ligou.
Uma noite chuvosa não muito depois do obituário de Montpelier, exausto depois de um dia de reuniões em grupo e consultas individuais, Clint parou em um motel na cidadezinha de Eagle, onde o aquecedor fazia barulho e todo mundo na TV era verde. Três noites depois, ele estava no mesmo quarto quando Lila ligou para o celular para perguntar se ele ia voltar para casa. Ela não pareceu muito preocupada com a resposta.
— Acho que estou exausto, Lila — disse ele.
Lila entendeu o que ele queria dizer, a derrota maior e envolvente que aquilo significava.
— Você é um bom homem — disse ela. Isso era generosidade para aquele momento. O bebê não dormia muito. Ela também estava exausta. — Melhor do que a maioria.
Ele teve que rir.
— Acredito que o nome disso é falar da boca pra fora.
— Eu amo você — disse ela. — Mas o peso tem sido enorme. Não tem?
Tinha mesmo. O peso vinha sendo enorme.
15
O diretor de Curly disse que não queria ver a cara dele no feriado de Ação de Graças.
— Vai se curar, doutor — disse o diretor. — Comer alguns legumes, pelo menos. Alguma coisa que não seja Big Mac e doce industrializado.
Ele decidiu de repente ir até Coughlin para ver Shannon, mas acabou parando em frente à casa dela sem conseguir entrar. Pelas cortinas finas da casa, ele viu sombras de mulheres se movendo. O calor das luzes era alegre e convidativo; a neve tinha começado a cair em flocos enormes. Ele pensou em bater na porta dela. Pensou em dizer: Ei, Shan, você foi o milk-shake que me escapou. A ideia de
um milk-shake escapando com as pernas torneadas de Shannon o fez rir, e ele ainda estava rindo quando foi embora.
Ele foi parar em uma taverna chamada O’Byrne’s, com neve derretida no chão, Dubliners na jukebox e um barman de olhos embaçados e cabeça branca que se movia em câmera lenta entre as torneiras e os copos, como se não estivesse servindo cerveja, mas sim distribuindo isótopos radioativos. Esse sujeito se dirigiu a Clint.
— Guinness, filho? É gostosa em uma noite assim.
— Prefiro Bud.
A canção do Dubliners era “The Auld Triangle”. Clint a conhecia e até gostava, apesar de tudo. Havia certo romance na música que não tinha nada a ver com a experiência dele na prisão, mas emocionava, aquelas vozes cantando juntas. Alguém, pensou ele, devia acrescentar uma estrofe. Todos tinham vez, o diretor, o carcereiro e o presidiário. Onde estava o psiquiatra?
Ele estava prestes a levar a cerveja para um canto escuro quando um dedo o cutucou no ombro.
— Clint?
16
O que fez a diferença foi o abraço.
A filha de Frank não só o abraçou quando eles se reencontraram, ela afundou as mãozinhas nos braços dele a ponto de sentir as unhas através da camisa. Tudo que tinha acontecido, tudo que ele tinha feito, deixou claro que precisava tomar uma atitude — qualquer atitude! — em relação a si mesmo, mas aquele abraço derrubou a fileira de dominós. Na última vez que Frank a tinha visto acordada, quase tinha rasgado a blusa favorita dela ainda no corpinho. Sua filha o amava mesmo assim. Ele não merecia, mas queria.
O programa de controle da raiva era de três dias por semana. Na primeira reunião, só estavam Frank e a terapeuta no porão do Dooling VFW.
O nome dela era Viswanathan. Ela usava óculos grandes e redondos e tinha aparência tão jovem que Frank achou que ela não devia se lembrar das fitas cassete. Ela perguntou por que ele estava lá.
— Porque eu assusto minha filha e assusto a mim mesmo. Também destruí meu casamento, mas isso foi efeito colateral.
A terapeuta tomou nota enquanto ele explicava seus sentimentos e compulsões. Foi mais fácil do que Frank achava que seria, meio como espremer pus de um ferimento infeccionado. De várias formas, era como falar sobre outra pessoa, porque aquele apanhador de cachorros puto da vida não parecia ser ele.
Aquele apanhador de cachorros puto da vida era uma pessoa que aparecia e assumia o controle quando Frank não gostava do que estava acontecendo, quando não conseguia lidar com a situação. Ele falou sobre botar animais em jaulas. Ficava retornando a isso.
— Meu amigo — disse a dra. Viswanathan, aquela garota de vinte e quatro anos com óculos da cor de Kool-Aid —, você já ouviu falar de um remédio chamado Zoloft?
— Você está sendo condescendente comigo? — Frank queria se recuperar, não ter que ouvir sacanagem.
A terapeuta balançou a cabeça e sorriu.
— Não, eu só estou sendo engraçadinha. E você está sendo corajoso.
Ela o apresentou para um psicofarmacologista, que fez uma receita para Frank. Ele tomou a dose receitada sem sentir nenhuma diferença em particular e continuou com os encontros. O boato se espalhou, e mais homens apareceram, ocupando metade das cadeiras no porão do VFW. Eles diziam que “queriam mudar”. Diziam que “queriam botar a cabeça no lugar”. Diziam que “queriam parar de sentir tanta raiva o tempo todo”.
Nenhuma quantidade de terapia e nem de pílulas da alegria podiam mudar o fato de que o casamento de Frank já era. Ele tinha destruído a confiança de Elaine vezes demais (sem mencionar a parede da cozinha). Porém, talvez essa parte não fosse problema. Ele descobriu que não gostava dela tanto assim. A melhor coisa foi se afastar. Ele deu a guarda completa para ela e falou que se sentia grato pelos dois fins de semana por mês com a filha. Depois, se as coisas andassem bem, esse tempo aumentaria.
Para a filha, ele disse: — Eu andei pensando em um cachorro.
17
— Como você está? — perguntou Frank a Clint enquanto os Dubliners tocavam e cantavam.
Frank estava indo a um jantar de Ação de Graças na Virginia com os antigos sogros. O Zoloft e as reuniões o tinham ajudado a controlar a raiva, mas sogros ainda eram sogros, e mais ainda quando tinha se divorciado da filha deles. Ele parou no O’Byrne’s para adiar sua execução em meia hora.
— Estou bem. — Clint esfregou os olhos. — Preciso perder peso, mas estou bem.
Eles se sentaram a uma mesa em um canto escuro.
Frank disse:
— Você está bebendo em um bar irlandês na noite de Ação de Graças. É essa a sua ideia de estar bem?
— Eu não disse que estava ótimo. Além do mais, você também está aqui.
Frank pensou mas que porra e falou: — Estou feliz de não termos nos matado.
Clint ergueu o copo.
— Um brinde a isso.
Eles fizeram um brinde. Clint não sentia raiva de Frank. Raiva era um sentimento que ele não tinha por ninguém. O que ele sentia era uma grande decepção consigo mesmo. Não esperava salvar a família para perdê-la depois.
Não era a ideia dele de final feliz. Era a ideia dele de um show de horrores americano.
Ele e Geary falaram sobre os filhos. A garota de Frank estava apaixonada por um garoto de Ohio. Ele estava com certo medo de ser avô aos quarenta e cinco, mas estava levando na boa. Clint disse que seu filho andava quieto demais, provavelmente devia estar ansioso para sair da cidade, ver como o mundo era longe da terra do carvão.
— E sua esposa?
Clint sinalizou para o barman pedindo outra rodada.
Frank balançou a cabeça.
— Obrigado, mas pra mim, não. Álcool e Zoloft não se misturam tão bem. Eu tenho que ir. Os sogros estão me esperando. — Ele pareceu se animar. — Ei, por que você não vem junto? Posso apresentar você para os pais de Elaine. Tenho que impressionar eles; são os avós da minha filha, afinal. Visitar eles é um
inferno, mas com comida é um pouco melhor.
Clint agradeceu, mas recusou.
Frank começou a se levantar, mas voltou a se sentar.
— Escuta, naquele dia na Árvore…
— O que tem?
— Você se lembra de quando os sinos de igreja começaram a tocar?
Clint disse que jamais esqueceria. Os sinos tocaram quando as mulheres começaram a acordar.
— É — disse Frank. — Nessa hora eu olhei para procurar aquela garota maluca, mas ela tinha sumido. Acho que o nome dela era Angel.
Clint sorriu.
— Angel Fitzroy.
— Alguma ideia do que aconteceu com ela?
— Nenhuma. Ela não está em Curly. Disso eu sei.
— Sabe Barry, o cara do seguro? Ele me disse que tinha quase certeza de que ela tinha matado Peters.
Clint assentiu.
— Ele me disse a mesma coisa.
— É? O que você respondeu?
— Aquele lixo já foi tarde. Foi o que eu disse. Porque Don Peters era todos os problemas reduzidos. — Ele fez uma pausa. — Resumidos. Foi isso que eu quis dizer. Resumidos.
— Meu amigo, eu acho que você devia ir pra casa.
Clint disse:
— Boa ideia. Onde fica?
18
Dois meses depois do que passou a ser conhecido como o Grande Despertar, um fazendeiro de Montana viu uma mulher pedindo carona na Route 2, a leste de Chinook, e parou.
— Pode entrar, moça — disse ele. — Para onde você está indo?
— Não sei bem — disse ela. — Idaho, para começar. Talvez para a Califórnia
depois disso.
Ele ofereceu a mão.
— Ross Albright. Tenho um terreno a dois condados daqui. Qual é seu nome?
— Angel Fitzroy.
Houve uma época em que ela se recusaria a apertar a mão e manteria a sua sobre a faca que sempre guardava no bolso do casaco. Agora, não havia faca e nem nome falso. Ela não sentia necessidade de nenhuma das duas coisas.
— Belo nome, Angel — disse ele, mudando para a terceira marcha com um movimento brusco. — Sou cristão. Nascido e renascido.
— Que bom — disse Angel, sem sinal de sarcasmo.
— De onde você é, Angel?
— De uma cidadezinha chamada Dooling.
— Foi lá que você acordou?
Houve uma época em que Angel teria mentido e dito sim, porque era mais fácil. Além do mais, mentir era uma coisa natural para ela. Um verdadeiro talento. Só que aquela era sua nova vida, e ela tinha decidido falar a verdade da melhor forma que conseguisse, apesar das complicações.
— Eu fui uma das poucas que não chegaram a dormir — disse ela.
— Uau! Você deve ter tido sorte! E ser forte!
— Eu fui abençoada — disse Angel. Isso também era verdade, ao menos da forma como ela compreendia.
— Só de ouvir você dizer isso é uma bênção — disse o fazendeiro, e com muito sentimento. — O que vem agora, Angel, se você não se importar com a pergunta? O que você vai fazer quando finalmente decidir prender os sapatos viajantes no chão?
Angel olhou para as gloriosas montanhas e para o céu ocidental infinito.
Finalmente, disse: — A coisa certa. É o que vou fazer, sr. Albright. A coisa certa.
Ele tirou os olhos da estrada por tempo suficiente para sorrir para ela e disse:
— Amém, irmã. Amém para isso.
19
O Instituto Penal para mulheres foi cercado e condenado, marcado com placas
de aviso contra invasores e deixado para desmoronar enquanto o governo alocava fundos para trabalhos públicos mais urgentes. A nova cerca era forte, e sua base estava enfiada fundo na grama. A raposa demorou várias semanas indo e vindo, cavando, e precisou de todas as suas reservas de paciência para cavar um túnel por baixo.
Quando conseguiu esse feito de engenharia, entrou no prédio pelo buraco enorme na parede e começou a construir sua nova toca em uma cela próxima.
Conseguia sentir o aroma de sua mestra ali, fraco, mas doce e característico.
Uma emissária dos ratos se aproximou.
— Aqui é nosso castelo — disse a ratazana. — Quais são suas intenções, raposa?
A raposa pareceu gostar do quanto a ratazana foi direta. Ela era uma raposa, mas estava ficando velha. Talvez fosse hora de abandonar truques e riscos, encontrar uma companheira e ficar próximo do bando.
— Minhas intenções são humildes, eu garanto.
— E quais são? — insistiu a ratazana.
— Eu hesito em dizer em voz alta — disse a raposa. — É um pouco constrangedor.
— Fale — pediu a ratazana.
— Tudo bem — disse a raposa. Ela inclinou a cabeça com timidez. — Eu vou sussurrar. Chegue perto e vou sussurrar para você.
A ratazana se aproximou. A raposa podia ter arrancado a cabeça dela; era seu talento, cada uma das criaturas de Deus tinha pelo menos um. Porém, não fez isso.
— Eu quero ficar em paz — disse ela.
Na manhã seguinte ao dia de Ação de Graças, Lila dirige até o retorno de cascalho em Ball’s Hill e estaciona. Ela coloca Andy, embrulhado na roupa de neve de bebê, em um carregador. E começa a andar.
Talvez eles pudessem consertar o casamento capenga, reflete Lila. Talvez, se ela quisesse, Clint poderia amá-la de novo. Mas ela quer? Tem uma marca na alma de Lila, o nome dessa marca é Jeanette Sorley, e ela não sabe como apagá-la. Nem se quer.
Andy faz ruídos baixos e divertidos enquanto ela anda. Seu coração dói por Tiffany.
Uma injustiça e uma aleatoriedade penetra no tecido de tudo e inspira em Lila tanto espanto quanto ressentimento. O bosque gelado crepita e farfalha. Quando ela chega ao trailer de Truman Mayweather, o local está coberto de neve. Ela lança um olhar rápido e segue em frente. Não falta muito.
Ela sai na clareira. A Árvore Impressionante não está lá. O túmulo de Jeanette não está lá. Não tem nada além de grama de inverno e um carvalho sem folhas. A grama oscila, uma forma laranja surge, some, a grama para. A respiração dela solta vapor. O bebê faz barulhos e expressa o que parece uma pergunta.