Belas adormecidas
Parte dois: Vou dormir quando morrer
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
Com essa tarefa resolvida, ela se encostou e fechou os olhos. O sono veio como uma locomotiva preta sem farol, e, ah, que alívio. Que alívio abençoado.
Os primeiros fios delicados saíram do rosto de Lila e acariciaram a pele.
PARTE DOIS
VOU DORMIR QUANDO MORRER
“It don’t matter if I get a little tired
I’ll sleep when I’m dead.”
Warren Zevon, “I’ll Sleep When I’m Dead”
As tábuas velhas e esponjosas da varanda se curvam e gemem sob os sapatos de Lila.
Uma brisa poderosa de primavera sacode os campos de capim que eram o jardim da frente da casa dela, e o barulho é um belo rugido. O verde fabuloso das plantas passa credulidade. Ela olha na direção de onde veio e vê que plantas cresceram no asfalto rachado da Tremaine Street. Elas balançam no vento como ponteiros de relógios confusos, presos entre o doze e o um. Um céu azul cobre o mundo. Na entrada da casa da sra. Ransom, sua viatura, com a porta entreaberta, está coberta de ferrugem. Os quatro pneus estão vazios.
Como ela chegou ali?
Não importa , ela diz para si mesma. É um sonho. Deixe assim.
Lila entra em casa e observa os restos da sala de jantar pouco usada: janelas quebradas, cortinas rasgadas se balançando em outro sopro de brisa, folhas de vários anos amontoadas quase até o tampo da mesa salpicada de mofo. O cheiro de podridão é penetrante. Quando anda pelo corredor, ela pensa que deve ser um sonho de viagem no tempo.
Pedaços do teto da sala caíram, cobrindo o tapete com pedras da lua. A TV de tela plana ainda está presa à parede, mas a tela estragou, está torta e estufada, como se tivesse sido assada.
Poeira e pó embranqueceram as portas de vidro de correr até ficarem opacas. Lila puxa a da direta e a abre, e a porta geme no trilho podre de borracha.
— Jared? — chama ela. — Clint?
Eles estavam ali na noite anterior, sentados em volta de uma mesa que agora está caída de lado. Mato amarelo agora aparece em volta do deque e entre as tábuas. A churrasqueira, centro de muitos jantares de verão, foi engolida.
Na piscina, onde a água está da cor salobra de um aquário depois de uma longa falta de energia, um lince-pardo para no meio da travessia, com água até o peito. Tem um passarinho nos dentes dele. Os olhos do lince são brilhantes, os dentes são grandes e ele tem gotas de água no pelo. Grudada no nariz largo e achatado, há uma pena branca.
Lila passa as unhas pelas bochechas, sente a dor e decide (com relutância) que isso talvez não seja um sonho, afinal. Se não é, há quanto tempo ela está dormindo?
Por um bom tempo. Ou ruim.
O animal pisca os olhos brilhantes e começa a nadar na direção dela.
Onde eu estou? , ela pensa, e depois: Eu estou em casa , e pensa a primeira coisa de novo. Onde eu estou?
1
1
No final da tarde de sexta-feira, com o segundo dia de desastre avançado (em Dooling, pelo menos; em algumas partes do mundo, já era o terceiro dia de Aurora), Terry Coombs acordou com o aroma de bacon frito e café. Seu primeiro pensamento coerente foi: Ainda sobrou algum líquido no Squeaky Wheel ou eu bebi tudo que tinha, até a água de lavar louça? Seu segundo pensamento foi mais básico: Tenho que ir ao banheiro. Ele fez isso e chegou a tempo de vomitar copiosamente na privada. Por alguns minutos, ficou lá parado, esperando o pêndulo que estava fazendo o banheiro se balançar parar. Quando parou, ele se levantou, encontrou aspirina e engoliu três comprimidos com goles de água da torneira. No quarto, ele olhou para o espaço do lado esquerdo da cama, onde lembrava que Rita estava deitada, com o casulo na cabeça e a coisa branca na boca sendo puxada e inflada a cada respiração.
Ela tinha se levantado? Tinha acabado? Lágrimas arderam nos olhos de Terry e ele cambaleou só de cueca até a cozinha.
Frank Geary estava à mesa, fazendo-a parecer mínima com seu corpo. De alguma forma, a tristeza inerente daquela visão, um homem enorme a uma mesinha sob o sol intenso, informou a Terry tudo o que ele precisava saber antes que qualquer palavra fosse dita. Seus olhares se cruzaram. Geary estava com um exemplar da National Geographic aberto. Ele colocou a revista de lado.
— Eu estava lendo sobre a Micronésia — disse Frank. — É um lugar interessante. Tem muita vida selvagem, boa parte em risco de extinção. Você devia estar torcendo para que eu fosse outra pessoa. Não sei se você lembra, mas
eu dormi aqui. Nós colocamos sua esposa no porão.
Ah, então tudo voltou. Eles tinham carregado Rita para baixo, um homem em cada extremidade, como se ela fosse um tapete, esbarrando com os ombros nos corrimões e nas paredes enquanto desciam. Eles a puseram no velho sofá, em cima da colcha velha que o cobria para não deixar acumular poeira. Rita estaria deitada lá naquele momento, cercada de outros móveis poeirentos que eles haviam descartado ao longo dos anos e pretendiam vender, mas nunca chegaram a fazer isso: cadeiras de bar com assentos de vinil amarelos, o videocassete, o berço antigo de Diana.
Terry foi tomado pelo desânimo; não conseguia nem manter a cabeça erguida.
Seu queixo bateu no peito.
Na frente da cadeira vazia do outro lado da mesa havia um prato com bacon e torrada. Ao lado do prato havia uma xícara de café preto e uma garrafa de Beam.
Terry inspirou com dificuldade e se sentou.
Ele mordeu um pedaço de bacon e esperou para ver o que aconteceria. Seu estômago fez barulhos e deu alguns pulos, mas nada voltou. Frank acrescentou uma dose de uísque ao café de Terry sem dizer nada. Terry tomou um gole. Suas mãos, que ele não tinha percebido que estavam tremendo, pararam.
— Eu precisava disso. Obrigado. — Sua voz saiu rouca.
Apesar de não serem amigos íntimos, ele e Frank Geary já tinham bebido juntos algumas vezes ao longo dos anos. Terry sabia que Frank levava a sério o emprego como agente de controle de animais da cidade; sabia que Frank tinha uma filha que ele acreditava ser ótima artista; lembrava que um bêbado uma vez havia sugerido a Frank que ele deveria deixar uma irritação ou outra nas mãos de Deus, e Frank tinha mandado o bêbado calar a boca, e por mais embriagado que o bêbado estivesse, ele captou o aviso no tom de Frank e não disse mais nada pelo resto da noite. Em outras palavras, Frank parecia a Terry um cara correto, mas não alguém com quem ia querer se meter. O fato de Frank ser negro talvez gerasse certa sensação de distanciamento. Terry nunca havia considerado a possibilidade de ser amigo de um sujeito negro, apesar de não ter nada contra a ideia, agora que estava pensando no assunto.
— Tudo bem — disse Frank. O jeito calmo e direto dele era tranquilizador.
— Então tudo… — Terry tomou outro gole do café batizado. — Igual?
— A ontem? Está. O que quer dizer que tudo está diferente. Primeiro de tudo, você é o Chefe de Polícia em exercício. A delegacia ligou alguns minutos atrás. A xerife desapareceu.
O estômago de Terry gerou bolhas desagradáveis.
— Lila desapareceu? Caramba.
— Parabéns, hein? É uma grande promoção. Que rufem os tambores.
A sobrancelha direita de Frank estava arqueada com ironia. Os dois caíram na gargalhada, mas a de Terry passou rápido.
— Ei — disse Frank. Ele colocou a mão na de Terry e apertou. — Aguenta firme, tá?
— Tá. — Terry engoliu em seco. — Quantas mulheres ainda estão acordadas?
— Não sei. A coisa está ruim. Mas tenho certeza de que você é capaz de lidar com isso.
Terry não era. Ele tomou o café batizado. Mastigou o bacon. Seu companheiro de refeição ficou em silêncio.
Frank tomou o café e olhou para Terry por cima da xícara.
— Eu sou capaz? — perguntou Terry. — Sou mesmo?
— É. — Não havia dúvida nenhuma na voz de Frank Geary. — Mas vai precisar de toda ajuda que puder ter.
— Você quer que eu te transforme em policial? — Fazia sentido para Terry; além de Lila, eles estavam sem alguns outros policiais.
Frank deu de ombros.
— Eu sou funcionário da cidade. Vim ajudar. Se você quiser me dar um distintivo de estrela, tudo bem.
Terry tomou outro gole do café especial e se levantou.
— Vamos.
2
A Aurora tinha derrubado um quarto do departamento, mas Frank ajudou Terry a reunir uma escalação de policiais voluntários naquela sexta-feira e levou o juiz Silver para administrar os juramentos. Don Peters era um dos novos contratados; outro era um formando do ensino médio chamado Eric Blass,
jovem, porém entusiasmado.
Por recomendação de Frank, Terry criou um toque de recolher de nove da noite. Equipes de dois homens começaram a percorrer os bairros de Dooling para pendurar cartazes. Também para acalmar as pessoas, desencorajar vandalismo e (outra ideia de Frank) começar a catalogar o paradeiro das adormecidas. Frank Geary podia ser pegador de cachorros antes da Aurora, mas era um excelente agente da lei, com um excelente senso de organização. Quando Terry descobriu que podia contar com ele, passou a contar com ele para tudo.
Mais de dez saqueadores foram pegos no fim de semana. Não era exatamente um trabalho policial, porque poucos se deram ao trabalho de agir escondido.
Aqueles homens deviam acreditar que seria feita vista grossa para esse comportamento, mas logo descobriram que não. Um desses canalhas era Roger Dunphy, o zelador do Instituto Penal de Dooling que tinha desaparecido do trabalho. Na primeira ronda de domingo de manhã pela cidade, Terry e Frank viram o sr. Dunphy arrastando um saco plástico transparente cheio de colares e anéis que pegou nos quartos das residentes da Casa de Repouso Crestview, onde ele às vezes fazia bicos.
— Elas não precisam disso agora — argumentou Dunphy. — Para com isso, policial Coombs, dá um tempo. Esse é um caso claro de resgate.
Frank segurou o zelador pelo nariz, apertando com força suficiente para fazer a cartilagem estalar.
— Xerife Coombs. Você vai chamar ele de xerife Coombs de agora em diante.
— Tudo bem! — gritou Dunphy. — Chamo até de presidente Coombs se isso fizer você largar meu nariz!
— Devolva esses pertences e vamos deixar passar — disse Terry, e ficou agradecido pelo gesto de aprovação de Frank.
— Claro! Pode deixar!
— E vê se não faz merda, vamos ficar de olho.
A melhor coisa de Frank, Terry percebeu ao longo dos três primeiros dias, era que ele percebia a enorme pressão sob a qual Terry estava agindo de uma forma que ninguém mais parecia perceber. Ele nunca insistia, mas sempre tinha uma sugestão, e, quase tão importante, deixava aquela garrafinha de prata envolta em couro (muito descolada, talvez fosse uma coisa de negros) por perto para quando
Terry ficava mal, quando parecia que o dia nunca terminaria e as rodas dele giravam em falso naquela lama horrível e surreal do momento. Ele ficava ao lado de Terry o tempo todo, e estava com ele na segunda-feira, 5o Dia da Aurora, em frente ao portão do Instituto Penal para Mulheres de Dooling.
3
O xerife em exercício Coombs tentou várias vezes ao longo do fim de semana convencer Clint de que ele precisava passar Eva Black para a custódia dele.
Boatos sobre a mulher que tinha matado os traficantes de cristal já estavam circulando; diferentemente de todas as outras, diziam as histórias, ela dormia e acordava. Na delegacia, Linny Mars (ainda aguentando firme; isso aí, garota) recebeu tantas ligações sobre isso que passou a desligar na cara de qualquer um que perguntasse. Frank dizia que eles tinham que descobrir se os boatos eram verdade; era prioridade. Terry achava que ele estava certo, mas Norcross estava sendo teimoso, e Terry estava tendo cada vez mais dificuldade de fazer contato com o sujeitinho irritante pelo telefone.
Os incêndios já tinham se apagado na segunda-feira, mas o campo perto da prisão ainda cheirava como um cinzeiro. Estava cinzento e úmido, e a chuva leve que caía e parava desde o começo da manhã de sexta-feira estava caindo de novo.
O xerife em exercício Terry Coombs, sentindo-se molhado, parou na frente do interfone e do monitor do lado de fora do portão do Instituto Penal para Mulheres de Dooling.
Norcross ainda não estava acreditando na ordem de transferência que o juiz Silver havia assinado em nome de Eva Black. (Frank também ajudou com isso, explicando para o juiz que a mulher podia ter uma imunidade única ao vírus e provocando no velho jurista a impressão de necessidade de agir rapidamente e manter as coisas calmas antes que um tumulto começasse.) — Oscar Silver não tem jurisdição sobre essa questão, Terry. — A voz do doutor saiu pelo alto-falante, parecendo vir do fundo de um lago. — Sei que ele mandou ela para cá a pedido da minha esposa, mas não pode tirar ela daqui. Quando ela foi enviada para avaliação, a autoridade dele acabou. Você precisa de um juiz do condado agora.
Terry não conseguia imaginar por que o marido de Lila, que sempre pareceu pé no chão, estava sendo tão pentelho.
— Não tem mais ninguém agora, Clint. A juíza Wainer e a juíza Lewis estão adormecidas. Que sorte a nossa ter duas juízas no circuito do condado.
— Tudo bem, pode ligar para Charleston e descobrir quem eles indicaram como interino — disse Clint. Como se eles tivessem chegado a um acordo feliz, como se tivesse cedido em alguma coisa. — Mas para quê? Eva Black está dormindo agora, como todo o resto.
Ouvir isso gerou uma bola de chumbo no estômago de Terry. Ele devia saber que não podia acreditar naqueles boatos. Daria no mesmo interrogar sua própria esposa, uma múmia na escuridão do porão, deitada em cima da colcha surrada no sofá velho.
— Ela adormeceu ontem à tarde — continuou Norcross. — Temos poucas detentas ainda acordadas.
— Então por que ele não nos deixa ver ela? — perguntou Frank. Ele ficou de pé em silêncio durante toda a conversa.
Era uma boa pergunta. Terry apertou o botão e disse exatamente isso para Clint.
— Olha só, vamos fazer o seguinte — disse Clint. — Vou mandar uma foto para o seu celular. Mas não posso deixar ninguém entrar. É o protocolo de confinamento. Estou com o livro da diretora aberto aqui na minha frente. Vou ler o que está escrito. “Autoridades do estado devem isolar o local e podem retirar a Ordem de Confinamento quando acharem conveniente.” Autoridades do estado.
— Mas…
— Não me venha com mas, Terry. Não fui eu que escrevi. É o regulamento.
Como Hicks pulou fora na sexta de manhã, sou o único funcionário administrativo que esta prisão tem, e o protocolo é a única coisa que tenho para me guiar.
— Mas… — Ele estava começando a parecer um motor de dois ciclos: mas-mas-mas-mas.
— Eu tive que nos colocar em situação de confinamento. Não tive escolha.
Você viu as mesmas notícias que eu. Tem gente por aí botando fogo nas mulheres em casulos. Acho que você vai concordar que minha população seria
um alvo óbvio para essa categoria de justiceiro.
— Ah, para com isso. — Frank fez um barulho assobiado e balançou a cabeça.
Eles não tinham conseguido encontrar uma camisa de uniforme grande o bastante para abotoar sobre o peito, então Frank a usava aberta por cima de uma camiseta. — Para mim, isso soa como um blá-blá-blá burocrático. Você é o xerife em exercício, Terry. Isso tem que ser mais do que um médico, ainda mais um psiquiatra.
Terry levantou a mão para Frank.
— Eu entendo isso, Clint. Entendo sua preocupação. Mas você me conhece, não é? Trabalho com Lila há mais de uma década. Desde antes de ela ser xerife.
Você já jantou na minha casa e eu jantei na sua. Eu não vou fazer nada com nenhuma dessas mulheres, então nem vem com esse papo.
— Eu estou tentando…
— Você não acreditaria no tipo de lixo que tive que encarar na cidade no fim de semana. Uma moça deixou o fogão aceso e botou fogo em metade da Greely Street. Quarenta hectares de floresta ao sul da cidade estão queimados. Tem um atleta do ensino médio morto que tentou estuprar uma adormecida. Tem um cara com a cabeça esmagada por um liquidificador. Isso é burrice. Vamos deixar o livro de regras de lado. Sou xerife em exercício. Nós somos amigos. Me deixe ver que ela está dormindo, como as outras, e largo do seu pé.
A guarita de segurança do lado oposto da cerca, onde deveria haver um guarda, estava vazia. Depois, do outro lado do estacionamento e no outro lado da segunda cerca, a prisão encolhia os ombros cinzentos. Não havia movimento visto pelo vidro à prova de balas das portas da frente, nenhuma prisioneira correndo na pista e nem trabalhando na horta. Terry pensou em parques de diversão no final do outono, na aparência abandonada que adquiriam quando os brinquedos paravam de girar e não havia crianças andando, tomando sorvete e rindo. Diana, sua filha, estava crescida agora, mas ele a tinha levado a vários parques de diversão quando ela era pequena. Foram ótimos momentos.
Cristo, um gole cairia bem. Que bom que Frank deixava a garrafinha à mão.
— Olhe seu celular, Terry — disse a voz de Clint pelo interfone.
O apito de trem que era o toque de Terry soou. Ele pegou o celular no bolso e olhou a fotografia que Clint havia enviado por mensagem.
Tinha uma mulher de uniforme vermelho deitada em uma cama de cela.
Havia um número de identificação acima do bolso no peito. Ao lado do número tinha sido colocada uma identidade. No cartão havia a foto de uma mulher com cabelo preto comprido, pele bronzeada e um sorriso largo e branco. O nome da mulher estava listado como “Eva Black” e o número da identidade era o mesmo da camisa do uniforme. Um casulo cobria seu rosto.
Terry passou o celular para Frank olhar a foto.
— O que você acha? Podemos considerar uma prova?
Ocorreu a Terry que ele, o xerife em exercício, estava pedindo instrução para o novo policial, quando devia ser o contrário.
Frank observou a foto e disse: — Isso não prova porra nenhuma porque não dá para ver o rosto dela, só o uniforme vermelho. Norcross poderia colocar um desses em qualquer mulher adormecida e acrescentar a identidade de Black. —
Frank devolveu o celular para Terry. — Não faz sentido não nos deixar entrar.
Você é a lei, Terry, e ele é uma porra de um psiquiatra de prisão. É mais escorregadio que sabonete, isso é verdade, mas isso está cheirando mal. Acho que é enrolação.
Frank estava certo, claro; a foto não provava nada. Por que não deixar que eles entrassem para pelo menos ver a mulher em pessoa, dormindo ou não? O mundo estava à beira de perder metade da população. Que importância tinha o livro de regras da direção?
— Mas por que enrolar?
— Não sei. — Frank pegou a garrafinha e ofereceu para Terry. Ele agradeceu, tomou um gole grande de uísque e a devolveu. Frank balançou a cabeça. —
Fique com ela à mão.
Terry botou a garrafinha no bolso e apertou o botão do interfone.
— Eu tenho que ver ela, Clint. Me deixe entrar, me deixe ver, e podemos seguir com o dia. As pessoas estão falando sobre ela. Eu preciso acabar com a falação. Se eu não fizer isso, podemos acabar com um problema que não vou conseguir controlar.
4
Da cadeira na Guarita, Clint observou os dois homens na imagem do monitor. A porta da Guarita estava aberta, como nunca ficaria em condições normais, e o guarda Tig Murphy estava inclinado para dentro. Os guardas Quigley e Wettermore estavam do lado de fora, também ouvindo. Scott Hughes, o único outro guarda que ainda estava lá, estava cochilando em uma cela vazia. Duas horas depois de ter atirado em Ree Dempster, Van Lampley foi embora. Clint não teve coragem de pedir que ela ficasse. (“Boa sorte, doutor”, dissera ela, colocando a cabeça na porta da sala dele, sem uniforme e com roupas civis, os olhos vermelhos de cansaço. Clint desejou o mesmo a ela. Van não agradeceu.) Se não estivesse dormindo agora, ele duvidava que ela fosse útil, de qualquer modo.
Clint estava confiante de que conseguiria afastar Terry ao menos por um tempo. O que o preocupava era o sujeito grandalhão ao lado de Terry, que deu a garrafinha para o xerife em exercício e o estava aconselhando nos intervalos da conversa. De certa forma, era como ver um ventríloquo e sua marionete falante.
Clint reparou no jeito como o grandão ficava olhando ao redor em vez de olhar para o interfone, como as pessoas costumavam fazer por instinto. Parecia que ele estava avaliando o local.
Clint apertou o botão do interfone e falou no microfone.
— Sinceramente, não estou tentando complicar as coisas, Terry. Me sinto péssimo por isso. Sem querer insistir, eu juro que estou com o livro da diretora bem aqui, na minha frente. Está em letras de forma no alto da Regulamentação de Confinamento! — Ele bateu no painel eletrônico à frente dele, no qual não havia nenhum tipo de livro. — Não foi para isso que fui treinado, Terry, e o livro é tudo que tenho.
— Clint. — Ele conseguiu ouvir o suspiro aborrecido de Terry. — Que porra, cara. Eu achei que nós éramos amigos. Vou ter que derrubar o portão? Isso é ridículo. Lila ficaria… muito decepcionada. De verdade. Ela não acreditaria nisso.
— Eu entendo que você está frustrado e não consigo nem imaginar o estresse pelo qual está passando nos últimos dias, mas você sabe que tem uma câmera apontada para você, não sabe? Eu acabei de ver você beber de uma garrafinha, e nós dois sabemos que não era refrigerante. Com todo respeito, eu conhecia
Lila… — A menção à esposa no passado, que ele percebeu logo depois que saiu da boca, fez o coração de Clint parar um momento. Para ganhar tempo, ele limpou a garganta. — Eu conheço Lila um pouco melhor do que você, e é isso que eu acho que decepcionaria ela, o fato de que o policial principal dela está bebendo em serviço. Se coloque na minha posição. Você deixaria alguém que não tem jurisdição entrar na prisão, alguém sem os papéis certos, alguém que bebeu?
Eles viram Terry levantar as mãos e se afastar do interfone, andando em círculo. O homem botou um braço no ombro dele e falou.
Tig balançou a cabeça e riu.
— Você não devia ter se metido com medicina de prisão, doutor. Poderia estar rico vendendo coisas na HSN. Você jogou um vodu danado naquele cara agora. Ele vai precisar de terapia.
Clint se virou para os três guardas ali ao lado.
— Alguém conhece o outro cara? O grandão?
Billy Wettermore conhecia.
— É Frank Geary, o agente de controle de animais. Minha sobrinha ajuda com os animais de rua. Ela me disse que ele é legal, mas meio nervoso.
— Nervoso como?
— Ele não gosta de gente que não cuida dos animais ou maltrata. Tem um boato que ele deu uma surra em um caipira que torturou um cachorro ou um gato, sei lá, mas eu não apostaria meu dinheiro nisso. As fofocas de escola nunca foram confiáveis.
Estava na ponta da língua de Clint pedir para Billy Wettermore ligar para a sobrinha quando ele lembrou como era improvável que ela ainda estivesse acordada. A população feminina da prisão estava reduzida a um total de três: Angel Fitzroy, Jeanette Sorley e Eva Black. A mulher que ele tinha fotografado era uma detenta chamada Wanda Denker, que tinha estrutura corporal similar à de Evie. Denker havia apagado na noite de sexta. Antecipadamente, eles a tinham vestido com o uniforme com o número de identificação de Evie e a identidade de Evie presa na blusa vermelha. Clint ficou agradecido (e um pouco perplexo) de a equipe de quatro guardas que restavam ter concordado com o que ele estava fazendo.
Ele tinha dito que, como a história de Evie dormir e acordar era de conhecimento público, seria inevitável que alguém, provavelmente a polícia, aparecesse para buscá-la. Não tentou convencer Tig Murphy, nem Rand Quigley, Billy Wettermore e Scott Hughes da ideia de que Evie era um ser fantástico cuja segurança, e por extensão a segurança de todas as mulheres que existiam, dependia de Clint. Ele tinha muita confiança em sua habilidade de convencer uma pessoa a ver as coisas de outro jeito, estava fazendo exatamente isso havia quase duas décadas, mas essa era uma ideia que nem ele tentava vender. A abordagem que Clint usou com o restante dos guardas do Instituto Penal de Dooling era mais simples: eles não podiam entregar Evie para os cidadãos. Mais ainda, não podiam ser honestos com eles, porque assim que soubessem que Evie era diferente, só ficariam mais insistentes. Fosse qual fosse a questão de Evie, fosse qual fosse a imunidade que ela tinha, isso precisava ser descoberto por cientistas sérios do governo federal que soubessem o que estavam fazendo. Não importava que as autoridades da cidade tivessem um plano parecido em mente: fazer com que um médico a examinasse, interrogar sobre o passado dela e fazer todos os exames que se podia fazer em uma pessoa que parecia ter uma biologia única. E isso soava o.k.
Mas, como Terry poderia ter dito. Mas.
Ela era preciosa demais para se correr o risco, esse era o mas. Se eles entregassem Evie para as pessoas erradas e as coisas dessem errado, se alguém perdesse a cabeça e a matasse, talvez por pura frustração, talvez porque precisava de um bode expiatório, em que ela ajudaria as mães, esposas e filhas?
E eles podiam esquecer uma possível entrevista com Evie, Clint disse para seu (bem) pequeno contingente. Ela não podia ou não queria dizer nada para ninguém. Parecia não ter a mais remota ideia do que havia de tão especial em sua biologia. Além do mais, imune ou não, Eva Black era uma psicopata que tinha matado dois traficantes de metanfetamina.
— Alguém ainda poderia, sei lá, estudar o corpo dela e o DNA, não? —
propusera Rand Quigley, esperançoso. — Mesmo se o cérebro dela fosse explodido? — Ele acrescentara rapidamente: — Só estou comentando.
— Tenho certeza de que poderiam, Rand — disse Clint —, mas você não acha que isso não é a melhor solução? Deve ser melhor se pudermos manter o cérebro
dela na cabeça. Pode ser útil.
Rand concordou.
Enquanto isso, para benefício da situação, Clint estava fazendo ligações regulares para o Centro de Controle de Doenças. Como o pessoal de Atlanta não tinha atendido (as diversas ligações não deram em nada além de uma gravação ou do mesmo sinal de ocupado de quando a crise começou, na quinta-feira), ele estava discutindo a questão com uma filial do CDC que por acaso ficava localizada no segundo andar de uma casa vazia na Tremaine Street. O número era do celular de Lila, e Jared e Mary Pak eram os únicos cientistas na equipe.
— Aqui é Norcross de novo, do Instituto Penal de Dooling, em West Virginia
— começou a brincadeira que Clint fazia repetidamente, com pequenas variações, para os ouvidos de seus funcionários que restavam.
— Seu filho está dormindo, sr. Norcross. — Foi assim que Mary atendeu à última ligação. — Posso matar ele?
— Negativo — disse Clint. — Black continua dormindo e acordando. Ainda é extremamente perigosa. Ainda precisamos que vocês venham buscá-la.
A sra. Pak e a irmã mais nova de Mary haviam adormecido na manhã de sábado, e o pai, que estava fora da cidade, ainda estava tentando voltar de Boston. Em vez de ficar em casa sozinha, Mary colocou a mãe e a irmã na cama e foi se juntar a Jared. Com os dois adolescentes, Clint foi sincero… na maior parte do tempo. Ele omitiu algumas coisas. Disse que havia uma mulher na prisão que dormia e acordava e pediu que eles participassem da história do CDC
porque tinha medo de que a equipe desistisse e fosse embora se parecesse que ele não estava falando com ninguém e que nenhuma ajuda estava para chegar. As partes que ele deixou de fora eram sobre Evie: as coisas impossíveis que ela sabia e o acordo que tinha oferecido a ele.
— Minha urina é energético puro, sr. Norcross. Quando eu mexo os braços rápido, eles parecem rastros no ar… que eu vejo. Isso faz sentido? Ah, provavelmente não, mas sei lá, acho que pode ser a história da minha origem como super-heroína, e Jared está no saco de dormir perdendo toda a parte divertida. Vou ter que babar no ouvido dele se ele não acordar logo.
Essa era a parte em que Clint mostrava cada vez mais um pouco de irritação.
— Isso tudo é fascinante, e espero que vocês tomem as medidas necessárias,
mas precisamos que venham buscar essa mulher e descobrir o que torna ela diferente. Capisce? Me ligue assim que tiver um helicóptero a caminho.
— Sua esposa está bem — disse Mary. A euforia dela diminuiu abruptamente.
— Bom, nada diferente. Você sabe, igual. Descansando… hum… descansando com conforto.
— Obrigado — disse Clint.
Toda a estrutura lógica que ele havia construído estava tão bamba que Clint se perguntou o quanto Billy, Rand, Tig e Scotty realmente acreditavam naquilo e o quanto era o desejo de se dedicar a alguma coisa em meio a uma emergência tão amorfa que parecia saída de um pesadelo.
Além isso, havia outra motivação em jogo, simples, mas forte: o imperativo territorial. Na visão da pequena estrutura de proteção de Clint, a prisão era território deles, e os cidadãos não tinham que se meter nela.
Esses fatores permitiram que eles, ao menos por alguns dias, continuassem fazendo o trabalho a que estavam acostumados, ainda que com cada vez menos prisioneiras precisando de atenção. Encontraram conforto em fazer o trabalho em ambiente familiar. Os cinco homens se revezavam para dormir no sofá da sala de descanso dos guardas e cozinhar na cozinha da prisão. Também podia ter ajudado o fato de que Billy, Rand e Scott eram jovens e solteiros e que Tig, o mais velho do grupo, com vinte anos a mais, era divorciado sem filhos. Eles até pareceram aceitar, depois de reclamar um pouco, a insistência de Clint de que a segurança de todo mundo dependia do fim das ligações pessoais. E, da mesma forma, foram cúmplices da medida mais desagradável que ele foi obrigado a tomar: sob o pretexto de “regulamento de segurança emergencial”, eles usaram tesouras de cortar metal para amputar os fones dos três telefones públicos disponíveis para uso das prisioneiras e privaram a população, no que podia muito bem ser seus últimos dias, de qualquer oportunidade de se comunicar com seus entes queridos.
Essa precaução levou a uma pequena rebelião na tarde de sexta, quando cinco ou seis prisioneiras partiram para a ala administrativa. Não foi bem uma rebelião; as mulheres estavam exaustas, e, exceto por uma detenta segurando uma meia cheia de pilhas descarregadas, não estavam armadas. Os quatro guardas rapidamente sufocaram a insurreição. Clint não se sentiu bem com isso,
mas, pelo menos, o ataque serviu para aumentar a determinação dos guardas.
Quanto tempo os homens ficariam determinados, isso Clint não conseguia nem imaginar. Só esperava que eles pudessem ser persuadidos a continuar até ele conseguir fazer Evie mudar de ideia e cooperar de uma forma que fizesse sentido ou até o sol nascer na terça, na quarta ou na quinta, ou quando fosse e ela ficasse satisfeita.
Se o que ela alegava fosse verdade. Se não fosse…
Nesse caso, não importava. Porém, até não importar, ainda importava.
Clint se sentia bizarramente energizado. Muita coisa ruim tinha acontecido, mas pelo menos ele estava fazendo alguma coisa. Diferentemente de Lila, que tinha desistido.
Jared a havia encontrado na entrada de carros da sra. Ransom. Ela tinha se permitido adormecer no carro. Clint disse para si mesmo que não a culpava.
Como poderia? Ele era médico. Entendia os limites do corpo. Quando se passava muito tempo sem dormir, a pessoa se fragmentava, perdia a noção do que era importante e o que não era, perdia a noção do que era real, se perdia. Ela tinha desmoronado, só isso.
No entanto, ele não podia desmoronar. Tinha que acertar as coisas, assim como havia feito com Lila antes de a Aurora a levar, ao insistir e convencê-la de que estava errada. Ele tinha que tentar resolver aquela crise, levar a esposa para casa, levar todas para casa. Tentar era a única coisa que restava.
Evie talvez pudesse acabar com tudo. Evie talvez pudesse acordar Lila. Talvez pudesse acordar todas. Clint talvez pudesse fazer com que ela desse ouvidos à razão. O mundo poderia voltar ao normal. Apesar de tudo que Clint sabia sobre a ciência da medicina, tudo que dizia que Evie Black era só uma louca com delírios de grandeza, muita coisa tinha acontecido para ele refutar completamente as alegações dela. Louca ou não, ela tinha poderes. Os ferimentos tinham cicatrizado em menos de um dia. Ela sabia coisas que não tinha como saber.
Diferentemente de todas as mulheres do planeta, ela dormia e acordava.
Aquele homem grandalhão, Geary, enfiou os dedos pela cerca do portão da frente e experimentou sacudir. Em seguida, cruzou os braços e olhou para a tranca eletrônica do tamanho de uma luva de boxe.
Clint viu aquilo, reparou que Terry se afastou para chutar a terra na lateral da
estrada e beber da garrafinha, e concluiu que poderia haver um problema sério a caminho. Talvez não muito longe.
Ele apertou o interfone.
— Oi. Estamos resolvidos? Terry? E Frank? Seu nome é Frank, não é? É um prazer conhecer você. Receberam a foto?
Em vez de responder, o novo policial e o xerife em exercício voltaram para a viatura, entraram e partiram. Frank Geary foi dirigindo.
5
Havia um mirante na metade do caminho entre a prisão e a cidade. Frank entrou nele e desligou o motor.
— Não é uma bela vista? — disse ele, com voz baixa e impressionada. —
Parece até que o mundo está igual ao que era na semana passada.
Frank estava certo, pensou Terry, era uma vista linda. Eles viam até Ball’s Ferry e além, mas não era hora de ficar admirando a paisagem.
— Hã, Frank? Eu acho que devíamos…
— Conversar? — Frank assentiu enfaticamente. — Era o que eu estava pensando. Minha interpretação é bem simples. Norcross pode ser psiquiatra ou o que for, mas o diploma de especialização dele deve ser em enrolação. Ele nos deu uma volta clássica, e vai continuar fazendo isso até nos recusarmos a aceitar.
— Acho que sim.
Terry estava pensando no que Clint tinha dito sobre beber no trabalho. Ele devia estar certo, e Terry estava disposto a admitir (ainda que só para si mesmo) que estava perto de estar bêbado agora. Porém, se sentia muito sobrecarregado.
Ser chefe de polícia não era trabalho para ele. No que dizia respeito à lei, ele servia só para ser policial.
— O que precisamos aqui é de uma conclusão, xerife Coombs. Não só para nós, para todo mundo. Precisamos ter acesso à mulher na foto que ele enviou, precisamos cortar as teias no rosto dela e ter certeza de que é o mesmo rosto da mulher na foto da identidade. Se esse for o caso, podemos passar para o plano B.
— E qual é?
Frank enfiou a mão no bolso, pegou uma embalagem de chiclete e tirou um
do papel.
— Não faço ideia.
— Cortar os casulos é perigoso — disse Terry. — Pessoas morreram.
— E isso só mostra como você tem sorte de ter um especialista certificado em controle animal na sua equipe. Já encarei alguns cachorros ferozes no trabalho, Terry, e uma vez fui chamado para cuidar de um urso muito puto da vida que conseguiu se enrolar em arame farpado. Para lidar com a sra. Black, vou usar meu maior cambão, o Tomahawk de três metros. De aço inoxidável. Tranca de molas. É só passar a corda em volta do pescoço antes de cortar aquela merda na cara dela e puxar o mais apertado possível quando ela começar a pular e surtar.
Ela pode perder a consciência, mas não vai morrer. A coisa vai crescer de volta, e, quando crescer, ela vai estar dormindo de novo. Só precisamos dar uma olhada. Só isso. Uma olhada rápida.
— Se for ela e toda aquela falação for mentira, todo mundo vai ficar decepcionado — disse Terry. — Inclusive eu.
— Eu também. — Frank estava pensando em Nana, em como ainda devia um pedido de desculpas por puxar a blusa favorita dela. — Mas nós temos que saber.
Você entende isso, não entende?
Terry entendia.
— Entendo.
— A questão é: como vamos fazer Norcross nos dar acesso? Nós podíamos juntar um destacamento policial, e talvez a gente tenha que fazer isso, mas seria um último recurso, você não acha?
— Acho. — Terry achava a ideia de um destacamento policial desagradável, quase de embrulhar o estômago. Na situação em que estavam, um destacamento policial podia muito bem virar uma horda agressiva.
— Nós poderíamos usar a esposa dele.
— Hã? — Terry ficou olhando para Frank. — Lila? Como é?
— Oferecer uma troca — disse ele. — Você nos dá Eva Black, nós damos sua esposa.
— Por que ele aceitaria isso? — perguntou Terry. — Ele sabe que nós nunca faríamos mal a ela. — Como Frank não respondeu, Terry o segurou pelo ombro.
— Nós nunca faríamos mal a ela, Frank. Nunca. Você entendeu isso, né?
Frank se soltou.
— Claro que entendi. — Ele deu um sorriso para Terry. — Estou falando de blefe. Mas é um blefe no qual ele poderia acreditar. Estão queimando casulos em Charleston. É só pânico motivado pelas redes sociais, eu sei, mas muita gente acredita. E Norcross pode acreditar que nós acreditamos. Além disso… ele tem um filho, né?
— É. Jared. Garoto legal.
— Ele pode acreditar. Pode querer ligar para o pai e dizer para ele entregar Black.
— Porque vamos ameaçar queimar a mãe dele como um mosquito em uma lâmpada de matar insetos? — Terry não conseguia acreditar nas palavras que estava se ouvindo dizer. Não era surpresa estar bebendo no trabalho. Esse era o tipo de discussão que ele estava sendo obrigado a ter.
Frank mascou o chiclete.
— Não estou gostando — disse Terry. — Ameaçar botar fogo na xerife. Não estou gostando nem um pouco.
— Eu também não — disse Frank, e era verdade. — Mas momentos de desespero às vezes pedem medidas desesperadas.
— Não — disse Terry, e por um momento não se sentiu bêbado. — Mesmo se um dos grupos encontrar ela, a resposta é não. E, porra, até onde sabemos, ela ainda está acordada. Chutou o balde e foi embora da cidade.
— Deixou o marido e o filho? Deixou o emprego, com as coisas estranhas como estão? Você acredita nisso?
— Provavelmente não — disse Terry. — Uma das equipes vai acabar encontrando ela, mas usar Lila assim não vai rolar. Policiais não fazem ameaças e nem fazem reféns.
Frank deu de ombros.
— Mensagem recebida. Foi só uma ideia. — Ele se virou para olhar para fora pelo para-brisa, ligou o motor e levou a Unidade Quatro para a estrada. —
Alguém foi à casa dos Norcross procurar?
— Reed Barrows e Vern Rangle ontem. Ela e Jared sumiram de lá. A casa está vazia.
— O garoto também — disse Frank, pensativo. — Cuidando dela em algum
lugar, talvez? Pode ter sido ideia do psiquiatra. Ele não é burro, isso eu tenho que admitir.
Terry não respondeu. Parte dele achava que tomar outro gole era má ideia, mas parte dele achava que mais um não faria mal. Ele pegou a garrafinha no bolso, tirou a tampa e ofereceu a Frank primeiro, o que foi só educação, já que a garrafinha era dele.
Frank sorriu e balançou a cabeça.
— Não enquanto eu estiver dirigindo, amigo.
Cinco minutos depois, quando eles estavam passando pelo Olympia Diner (a placa na frente não tentava mais atrair os passantes com promessa de torta de amora; agora, dizia REZANDO POR NOSSAS MULHERES), uma coisa que o psiquiatra tinha dito pelo interfone voltou à cabeça de Frank. Como Hicks pulou fora na sexta de manhã, sou o único funcionário administrativo que esta prisão tem.
Suas mãos enormes apertaram o volante, e o carro oscilou. Terry, que estava cochilando, acordou de repente.
— O quê?
— Nada — disse Frank.
Ele estava pensando em Hicks. Querendo saber o que Hicks sabia.
Perguntando-se o que Hicks tinha visto. Porém, por enquanto, ele guardaria essas perguntas só para si.
— Está tudo bem, xerife. Está tudo bem.
6
O que irritava Evie no jogo eram as estrelas azuis. Triângulos multicoloridos, estrelas e esferas chamejantes desciam pela tela. Era preciso juntar quatro esferas chamejantes para explodir uma estrela azul cintilante. Outras formas brilhavam e desapareciam se cadeias fossem formadas, mas as estrelas azuis cintilantes pareciam feitas de um material quase inquebrável que só a força incendiária das esferas chamejantes conseguia destruir. O nome do jogo era, por nenhum motivo que Evie conseguisse compreender, Boom Town.
Ela estava no nível 15, quase morrendo. Uma estrela rosa apareceu, depois um triângulo amarelo, e então (finalmente, puta que pariu!) uma esfera chamejante,
que Evie tentou deslizar para a esquerda junto a uma pilha de três esferas chamejantes que ela já tinha reunido junto a uma estrela azul travando aquela parte da tela. Porém, veio um triângulo verde mortal, e foi o fim.
“DESPULPE! VOCÊ MORREU!”, proclamava uma mensagem que piscava na tela.
Evie grunhiu e jogou o celular de Hicks no canto da cama. Queria o máximo de distância possível da coisa maligna. Claro que o jogo acabaria sugando-a de volta. Evie tinha visto dinossauros; tinha olhado para as grandes florestas americanas pelos olhos de um pombo passageiro. Tinha surfado até o sarcófago de Cleópatra em um canal de areia do deserto e acariciado o rosto morto da gloriosa rainha com pernas de besouro. Um dramaturgo, um inglês inteligente, tinha escrito um discurso divertido, ainda que não totalmente preciso, sobre Eva uma vez. É a parteira das fadas, que o tamanho/ não chega a ter de uma preciosa pedra/ no dedo indicador de alta pessoa./Viaja sempre puxada por parelha da pequeninos átomos/ que pousam de través no nariz dos que dormitam…
Como ser encantado, o nível 15 de Boom Town não devia ser o melhor de que ela era capaz.
— Sabe, Jeanette, dizem que o mundo natural é cruel e burro, mas aquela maquininha… aquela maquininha sozinha é uma discussão muito boa de que a tecnologia é bem pior. Eu diria que a tecnologia é a verdadeira Boom Town.
7
Jeanette estava ali perto, andando pelo corredor curto da Ala A. Agora parecia que ela era a chefe das detentas funcionárias. Também era a única, mas Jeanette prestara atenção nas sessões de aconselhamento de carreira sobre a vida após a prisão: quando escrevendo seu currículo, cabia a você explorar ao máximo suas realizações e deixar a pessoa que estava contratando decidir o que era e o que não era importante. O título era dela.
Enquanto os quatro guardas que restavam andavam pelas alas B e C e ficavam de olho nos arredores da prisão, o dr. Norcross perguntou se ela se importaria de ficar de olho nas outras duas detentas sempre que ele precisasse sair.
— Tudo bem — disse Jeanette. — Eu não estou ocupada. Parece que a fábrica de móveis está parada.
Era bom ter trabalho; mantinha sua mente ocupada.
Ela seguiu em frente. Na frente dela, a janela coberta de três placas de arame na parede oeste mostrava uma manhã cinzenta. Havia água na pista de corrida e os campos pareciam um pântano.
— Eu nunca gostei de jogos — disse Jeanette. Ela demorou um tempo para pensar na resposta para Evie. Estava acordada havia noventa e seis horas.
— Mais prova da sua excelente personalidade, minha querida — respondeu Evie.
Angel, na cela vizinha, entrou na discussão.
— Excelente personalidade? Jeanette? Poooorra. Ela matou a porra do marido, sabe. Furou ele. Nem usou faca, como uma pessoa normal faria. Fez com uma chave de fenda. Não foi, Jeanette? — A Angel rapper tinha sumido; a Angel caipira estava de volta. Jeanette achou que ela estava cansada demais para fazer rimas. Isso era bom. Na média, a Angel caipira era menos irritante e mais (Jeanette lutou para encontrar a palavra)… mais autêntica.
— Eu sei disso, Angel. E dou crédito a ela por isso.
— Queria que ela tivesse me deixado matar você — disse Angel. — Acho que eu teria alcançado sua jugular com os dentes. Acho que teria. — Ela fez um zumbido. — Sei que teria.
— Quer usar um pouco o celular, Angel? Jeanette, se eu der a você o celular pela abertura da bandeja, você pode entregar para Angel? — O tom de Evie era conciliatório.
Diziam que aquela mulher bonita na cela acolchoada era bruxa ou demônio.
Mariposas tinham saído de sua boca; Jeanette viu. O que quer que Evie fosse, parecia que ela não era imune às provocações de Angel.
— Aposto que eu poderia fazer você engolir esse celular — disse Angel.
— Aposto que não — respondeu Evie.
— Que sim.
Jeanette parou em frente à janela, colocou a mão no vidro e ficou encostada ali. Não queria fantasiar sobre dormir, não conseguia parar de fantasiar sobre isso.
Claro que havia prisões até no sono; Jeanette, em muitas ocasiões, tinha esperado para poder sair de uma cela de sonho, tão entediada quanto em todas as vezes que esperou na vida real para sair da cela real. Porém, o sono também era uma praia, e as ondas a limpavam todas as noites, todas as pegadas, fogueiras, castelos de areia, latas de cerveja e lixo; essas ondas limpadoras retiravam quase todos os rastros das profundezas. O sono também era Bobby. Ele a encontrou em uma floresta que cresceu por cima das ruínas do mundo velho e mau, e tudo ficou melhor.
Ree estaria em seu sono, em seus sonhos? Damian estava, então por que não Ree? Ou o sono que vinha com os casulos era sem sonhos?
Jeanette se lembrava, em alguns dias, de acordar se sentindo muito jovem, forte e saudável. “Me sinto capaz de fazer qualquer coisa!”, ela às vezes dizia para Bobby quando ele era pequeno. Não conseguia imaginar se sentir dessa forma agora, nem nunca mais.
Quando era recém-nascido, Bobby deu a ela umas noites difíceis. “O que você quer?”, ela perguntava a ele. Ele só chorava e chorava. Jeanette imaginava que ele não sabia o que queria, mas esperava que a mãe talvez soubesse e resolvesse para ele. Essa era a parte dolorosa da maternidade, não poder resolver o que não dava para entender.
Jeanette se perguntou se conseguiria dormir agora. E se ela tivesse quebrado o… osso do sono? Rompido o músculo do sono? O tendão do sono? Seus olhos pareciam terrivelmente secos. A língua parecia grande demais. Por que ela não se entregava?
Simples. Porque ela não queria.
Ela tinha se entregado a Damian e tinha se entregado às drogas, e sua vida acabou sendo exatamente como todo mundo dizia que seria. Ela não se entregaria àquilo. Era assim que esperavam que fosse.
Ela contou até sessenta, se perdeu nos quarenta e poucos, voltou para o um e, na segunda vez, chegou aos cem. Ela chutou e fez gol. Vamos ao videoteipe! Como era o nome do cara, o do videoteipe? O dr. Norcross lembraria.
Jeanette estava virada para a parede leste, onde a porta de metal do chuveiro levava à área de remoção de piolhos. Ela andou até a porta, direita-esquerda, direita-esquerda. Um homem agachado no chão, colocando brotos de erva em um cigarro de papel. Atrás dela, Angel estava explicando para Evie como arrancaria a pele dela, como tiraria os olhos, fritaria com cebola e comeria, a
cebola dá gosto a qualquer coisa podre. E dali em diante, mais falação, sotaque e entonação, raiva-raiva-raiva, caipira-caipira-caipira. Nesse ponto, a não ser que Jeanette realmente se concentrasse, a conversa, qualquer coisa que qualquer um dissesse, parecia rádio em volume baixo. Ela ficava esperando ouvir um número 0800.
— Sabe, Angel, acho que não vou dividir meu joguinho Boom Town com você, não — disse Evie, e Jeanette foi da direita para a esquerda, da direita para a esquerda, prestando atenção nos recados de cores diferentes no quadro de avisos ao lado do dispensador de álcool gel, as palavras borradas demais para ela ler, mas sabendo que eram listas de serviços de igreja, reuniões do AA, aulas de artesanato e lembretes de regras. Em um pedaço de papel, uma duende dançava em cima das palavras ESTOU NA LISTA DE BOM COMPORTAMENTO! Jeanette parou e lançou um olhar para o local onde o homem estava agachado. Não tinha ninguém.
— Oi! Ei! Pra onde você foi?
— Jeanette? Você está bem?
— Aham. — Jeanette olhou para a porta da cela de Evie. A mulher estranha estava junto às grades. Estava com uma expressão melancólica, uma expressão de obviedade, como se fazia quando se tinha esperanças que sabia não serem realistas, e realmente, a vida fazia o que fazia com as esperanças não realistas.
Era o rosto que os bebês faziam quando um gato os arranhava, imediatamente antes de começarem a chorar.
— Eu só achei que… tinha visto alguém.
— Você está começando a ter alucinações. É o que acontece com quem não dorme. Você devia dormir, Jeanette. Vai ser mais seguro se você estiver dormindo quando os homens vierem.
Jeanette balançou a cabeça.
— Eu não quero morrer.
— E não vai. Você vai dormir e vai acordar em outro lugar. — O rosto de Evie se iluminou. — E vai estar livre.
Quando o assunto era Evie, Jeanette não conseguia pensar direito. Ela parecia maluca, mas não maluca como qualquer outra pessoa que Jeanette tivesse conhecido no Instituto Penal de Dooling. Algumas pessoas loucas estavam tão
próximas de explodir que quase dava para ouvir o tique-taque. Angel era assim.
Evie parecia diferente, e não só por causa das mariposas. Evie parecia inspirada.
— O que você sabe sobre liberdade?
— Eu sei tudo sobre liberdade — disse Evie. — Devo dar um exemplo?
— Se quiser. — Jeanette arriscou outra olhada ao local onde o homem estava sentado. Não tinha ninguém lá. Ninguém.
— Há criaturas nas profundezas da terra, bem abaixo dos detritos das montanhas que os mineradores de carvão destruíram, criaturas sem olhos que são mais livres do que você já foi na vida. Porque elas vivem como querem, Jeanette. Elas se realizam na escuridão. Elas são tudo o que querem ser. — Evie repetiu essa última parte, enfatizando-a. — Elas são tudo o que querem ser.
Jeanette se imaginou em uma escuridão quente embaixo da superfície da terra. Minerais cintilavam em volta dela em constelações. Ela se sentia pequena e segura.
Uma coisa fez cócegas em sua bochecha. Ela abriu os olhos e afastou o fio de teia que começou a crescer da pele. Cambaleou. Não tinha nem percebido que tinha fechado os olhos. Na frente dela, a menos da metade do comprimento da sala, estava a parede: o quadro de avisos, a porta do chuveiro, o dispensador de álcool gel, blocos de cimento. Jeanette deu um passo, e outro.
Ali estava o homem. Ele estava de volta, agora fumando o baseado que tinha enrolado. Jeanette não olharia para ele. Não se entregaria. Só tocaria a parede, se viraria e andaria até a outra parede, e não se entregaria. Jeanette Sorley ainda não estava pronta para ser encasulada.
Eu aguento mais um tempo, pensou ela. Eu aguento mais um tempo. Pode ver.
8
Todas as viaturas estavam ocupadas, então Don Peters e o garoto que era seu parceiro percorreram as ruas de subúrbio ao sul da escola de ensino médio na Dodge Ram de Don. Não tinha insígnia oficial, o que era decepcionante (Don planejava cuidar disso mais tarde, talvez comprar letras adesivas na loja de material de construção), mas havia uma luz azul a pilha no painel, girando lentamente, e ele estava usando o uniforme de guarda da prisão. O garoto não
tinha nenhum tipo de uniforme, claro, só uma camisa azul lisa com um distintivo nela, mas a Glock no quadril dele exibia toda a autoridade adicional de que precisava.
Eric Blass só tinha dezessete anos, tecnicamente quatro anos jovem demais para estar na força policial. Porém, Don achava que o garoto tinha o que era necessário. Tinha chegado ao segundo ranking mais alto dos escoteiros com mérito em tiro ao alvo antes de desistir do programa de escotismo no ano anterior. (“Veadinhos demais”, dissera Blass, ao que Don respondeu: “Só posso concordar, Júnior”.) Além do mais, o garoto era engraçado. Ele inventou um jogo para fazer o tempo passar mais rápido. Era chamado Mulheres Zumbis. Don tinha o lado esquerdo da rua porque estava dirigindo; o de Eric era o direito. Eles ganhavam cinco pontos por mulheres velhas, dez por mulheres de meia-idade, quinze por crianças (não tinha mais quase nenhuma dessas no sábado, nenhuma naquele dia) e vinte por gostosas. Blass estava ganhando, oitenta a cinquenta e cinco, mas quando eles entraram na St. George Street, isso começou a mudar.
— Gostosa à esquerda, duas horas — disse Don. — Isso me deixa com setenta e cinco pontos. Estou te alcançando, Júnior.