Belas adormecidas

Stephen King, Owen King · Capítulo 2 de 6 · parte 1/14

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Belas adormecidas

Parte um: O velho triângulo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 14 partes.

Uma comprida cabeça de cobre sai pelo buraco negro no centro do tronco e desliza entre placas da casca. Evie não confia na cobra, obviamente. Já teve problemas com ela antes.

Sua mariposa e dez mil outras surgem da copa da árvore em uma nuvem crepitante e parda. O enxame rola pelo céu na direção da floresta debilitada de replantio de pinheiros do outro lado da campina. Ela se levanta e vai atrás. Seus pés esmagam os caules, e a grama na altura da cintura arranha a pele nua. Quando atravessa para o bosque triste, na maior parte, árvores derrubadas, Evie detecta os primeiros odores químicos (amônia, benzeno, petróleo, tantos outros, dez mil cortes em um único pedaço de pele) e abandona a esperança que não tinha percebido que tinha.

Teias caem de suas pegadas e cintilam na luz da manhã.

PARTE UM

O VELHO TRIÂNGULO

In the women’s prison

there are seventy women

and I wish it was with them

that I did dwell.

Then that auld triangle could go jingle-jangle

all along the banks of the Royal Canal.

Brendan Behan

1

1

Ree perguntou a Jeanette se ela já tinha visto o quadrado de luz da janela.

Jeanette disse que não. Ree estava no beliche de cima, Jeanette, no de baixo. As duas estavam esperando que as celas fossem destrancadas para o café da manhã.

Era mais um dia.

Parecia que a colega de cela de Jeanette tinha feito um estudo do quadrado.

Ree explicou que ele começava na parede em frente à janela, deslizava para baixo, para baixo, para baixo, depois percorria a superfície da mesa e finalmente chegava ao chão. Como Jeanette podia ver agora, estava bem no meio do piso, totalmente iluminado.

— Ree — disse Jeanette. — Eu não quero saber de um quadrado de luz.

— Eu digo que você não pode não querer saber de um quadrado de luz! — Ree fez aquele barulho grasnado que era como manifestava que estava achando graça.

Jeanette disse:

— Beleza. Sei lá que porra você tá falando. — E sua colega de cela só grasnou mais.

Ree era legal, mas parecia uma criança pela forma como o silêncio a deixava nervosa. Estava presa por fraude com cartão de crédito, falsificação e posse de drogas com intenção de venda. Ela não era boa em nenhuma dessas coisas, o que a fez ir parar lá.

Jeanette estava presa por homicídio culposo; em uma noite de inverno em 2005, ela enfiou uma chave de fenda na virilha do marido, Damian, e como ele estava doidão, apenas ficou sentado na poltrona e sangrou até morrer. Ela também estava doidona, claro.

— Eu estava olhando o relógio — disse Ree. — Cronometrei. Vinte e dois minutos para a luz ir da janela até aquele lugar no chão.

— Você devia chamar o Guinness — disse Jeanette.

— Ontem à noite, eu sonhei que estava comendo bolo de chocolate com Michelle Obama, e ela estava puta da vida: “Isso engorda, Ree!”. Mas ela também estava comendo o bolo. — Ree grasnou. — Que nada. Não sonhei isso, não. Inventei. Na verdade, eu sonhei com uma professora que eu tive. Ela ficava me dizendo que eu não estava na sala certa, e eu ficava dizendo para ela que estava na sala certa, e ela dizia que tudo bem e dava um pouco de aula, depois me dizia que eu não estava na sala certa, e eu dizia que não, eu estava na sala certa, e começava tudo de novo. Foi muito irritante. Com o que você sonhou, Jeanette?

— Ah… — Jeanette tentou lembrar, mas não conseguiu. Sua nova medicação parecia ter deixado o sono mais pesado. Antes, às vezes ela tinha pesadelos com Damian. Ele aparecia do jeito que ficou na manhã seguinte, quando estava morto, a pele riscada de azul, como tinta molhada.

Jeanette perguntou ao dr. Norcross se ele achava que os sonhos tinham a ver com culpa. O médico estreitou os olhos para ela com aquela cara de “você está falando sério?” que a deixava louca, mas com que acabou se acostumando, e depois perguntou se ela era de opinião que coelhos tinham orelhas grandes. Ah, tá. Entendido. De qualquer modo, Jeanette não sentia falta daqueles sonhos.

— Desculpa, Ree. Não me lembro de nada. Se sonhei alguma coisa, esqueci.

Em algum lugar no corredor do segundo andar da Ala B, sapatos estavam estalando no cimento: era um guarda fazendo uma verificação de última hora antes de as portas se abrirem.

Jeanette fechou os olhos. Inventou um sonho. Nele, a prisão era uma ruína.

Trepadeiras verdejantes subiam pelas paredes antigas das celas e balançavam na brisa da primavera. O teto tinha sumido parcialmente, corroído pelo tempo, de forma que só uma parte restava. Dois lagartos pequenos corriam por uma pilha de entulho enferrujado. Borboletas voavam no ar. Aromas intensos de terra e folhas temperavam o que sobrava da cela. Bobby estava impressionado, de pé ao

lado dela em um buraco na parede, olhando para dentro. Sua mãe era arqueóloga. Ela tinha descoberto aquele lugar.

— Você acha que dá pra uma pessoa que tem ficha criminal participar de um game show?

A visão desabou. Jeanette gemeu. Foi bom enquanto durou. A vida era melhor com os comprimidos. Havia um lugar calmo e tranquilo que ela conseguia encontrar. Ela tinha que ser justa com o doutor; era melhor viver pela química.

Jeanette reabriu os olhos.

Ree estava olhando para ela. Não havia muito que pudesse ser dito a favor da prisão, mas uma garota como Ree talvez estivesse mais segura lá dentro. No mundo lá fora, ela ia acabar andando no meio do trânsito. Ou vendendo drogas para um policial da narcóticos que estava na cara que era um policial da narcóticos. Que foi exatamente o que ela fez.

— O que foi? — perguntou Ree.

— Nada. Eu estava no paraíso, só isso, e sua boca grande acabou com tudo.

— O quê?

— Deixa pra lá. Escuta, acho que devia ter um game show em que só pudesse jogar quem tivesse ficha criminal. A gente podia chamar de Suas mentiras valem prêmios.

— Adorei isso! Como seria?

Jeanette se sentou, bocejou e deu de ombros.

— Eu vou ter que pensar. Sabe como é, inventar as regras.

A casa delas estava como sempre tinha sido e como sempre seria, por toda eternidade, amém. Uma cela com dez passos de comprimento, com quatro passos entre o beliche e a porta. As paredes eram de cimento liso da cor de aveia.

As fotos e os cartões-postais com cantos curvados estavam presos (ainda que ninguém se desse ao trabalho de olhar) com bolinhas de massa adesiva verde no único espaço aprovado para isso. Havia uma pequena mesa de metal encostada em uma parede e uma estante baixa de metal encostada na parede em frente. À

esquerda da porta, ficava a privada de aço onde elas tinham que se agachar, cada uma olhando para um lado para tentar criar uma pobre ilusão de privacidade. A porta da cela, com a janela com vidraça dupla na altura do olho, dava vista para o curto corredor que percorria a Ala B. Cada centímetro e objeto dentro da cela

era carregado dos odores penetrantes da prisão: suor, mofo, Lysol.

Contra a vontade, Jeanette finalmente reparou no quadrado de sol entre as camas. Estava quase na porta, mas não iria mais longe, iria? A não ser que um carcereiro enfiasse uma chave na porta ou que abrissem a cela da Guarita, o tal quadrado ficaria preso ali dentro tanto quanto elas.

— E quem seria o apresentador? — perguntou Ree. — Todo game show precisa de um apresentador. E que tipo de prêmios seriam?

Os prêmios têm que ser bons. Detalhes! Nós temos que pensar nos detalhes, Jeanette.

Ree estava com a cabeça apoiada, enrolando um dedo nos cachos pequenos e descoloridos enquanto olhava para Jeanette. Perto do alto da testa de Ree havia uma cicatriz que parecia uma marca de grelha, três linhas paralelas fundas.

Apesar de Jeanette não saber o que tinha provocado a cicatriz, podia adivinhar quem a tinha feito: um homem. Talvez o pai dela, talvez o irmão, talvez um namorado, talvez um cara que ela nunca tinha visto antes e nunca mais veria.

Dentre as detentas do Instituto Penal de Dooling havia, para dizer com delicadeza, poucas histórias de vencedoras de prêmios, mas muitas histórias com homens maus.

O que se podia fazer? Podia sentir pena de si mesma. Podia se odiar ou podia odiar todo mundo. Podia ficar doidona cheirando produtos de limpeza. Podia fazer o que quisesse (dentre as suas opções reconhecidamente limitadas), mas a situação não mudaria. Sua próxima rodada girando a grande e brilhante Roda da Fortuna não aconteceria antes da próxima audiência de condicional. Jeanette queria fazer o melhor possível para a dela. Tinha o filho em quem pensar.

Houve um baque ressoante quando o guarda na Guarita abriu sessenta e duas trancas. Eram seis e meia da manhã e todo mundo tinha que sair da cela para a contagem de cabeças.

— Não sei, Ree. Você pensa — disse Jeanette — e eu penso, e depois trocamos ideias. — Ela tirou as pernas de cima da cama e se levantou.

2

A alguns quilômetros da prisão, no deque da casa dos Norcross, Anton, o cara da piscina, estava tirando insetos mortos da água. A piscina tinha sido o presente de

aniversário de dez anos de casamento do dr. Clinton Norcross para a esposa, Lila. Olhar para Anton sempre fazia Clint questionar se tinha sido inteligente dar aquele presente. Aquela manhã era uma dessas vezes.

Anton estava sem camisa, e por dois bons motivos. Primeiro, o dia seria quente. Segundo, seu abdome era de pedra. Ele era sarado, Anton o cara da piscina; parecia um garanhão de capa de romance. Se você disparasse balas no abdome de Anton, era melhor fazer de um certo ângulo, porque ricocheteariam.

O que ele comia? Montanhas de proteína pura? Qual era o treino dele? Limpar os estábulos de Aúgias?

Anton levantou o olhar e sorriu debaixo das lentes reluzentes dos óculos Wayfarer. Com a mão livre, acenou para Clint, que estava olhando da janela do segundo andar, do banheiro da suíte.

— Jesus Cristo, cara — disse Clint baixinho para si mesmo. Ele retribuiu o aceno. — Tenha piedade.

Clint se afastou da janela. No espelho da porta fechada do banheiro, apareceu um homem branco e velho de quarenta e oito anos, graduado em Cornell, medicina na NYU, com pneuzinhos modestos por causa do Grande Mocha da Starbucks. A barba grisalha era menos no estilo lenhador viril e mais no estilo lobo do mar pobre e perneta.

Que a idade e o corpo flácido fossem surpresa pareceu irônico a Clint. Ele nunca tivera muita paciência com vaidade masculina, principalmente na meia-idade, e a experiência profissional acumulada diminuiu ainda mais essa paciência. Na verdade, o que Clint via como o grande ponto de virada na sua carreira médica tinha acontecido dezoito anos antes, em 1999, quando um potencial paciente chamado Paul Montpelier procurou o jovem doutor com uma

“crise de ambição sexual”.

Ele perguntou a Montpelier: — Quando diz “ambição sexual”, o que você quer dizer? — Pessoas ambiciosas procuravam promoções. Não dava para ninguém se tornar vice-presidente de Sexo. Era um eufemismo peculiar.

— Eu quero dizer… — Montpelier pareceu pesar várias descrições. Ele limpou a garganta e declarou: — Eu ainda quero fazer. Eu ainda quero ir atrás.

Clint disse:

— Isso não parece uma ambição incomum. Parece normal.

Recém-saído da residência psiquiátrica e ainda nada flácido, aquele era o segundo dia de Clint no consultório, e Montpelier era seu segundo paciente.

(Sua primeira paciente tinha sido uma adolescente com ansiedade por causa do vestibular. Porém, rapidamente surgiu a informação de que a garota havia se saído muito bem nas provas. Clint observou que aquilo era excelente, e não houve necessidade de tratamento e nem de segunda consulta. Curada! , ele escreveu na parte de baixo do bloco amarelo no qual tomava notas.) Sentado na poltrona de courino em frente a Clint, Paul Montpelier estava vestido naquele dia com um colete branco e uma calça de pregas. Estava encolhido com um tornozelo cruzado sobre o joelho, a mão apoiada no sapato social enquanto falava. Clint o viu estacionar um carro esporte vermelho-bala no estacionamento em frente ao prédio baixo. Trabalhando no alto da cadeia alimentar da indústria de carvão ele conseguiu dinheiro para comprar um carro assim, mas o rosto comprido e abatido lembrava a Clint os Irmãos Metralha, que azucrinavam o tio Patinhas nos quadrinhos antigos.

— Minha esposa diz… bem, não com todas as palavras, mas você sabe como é, o significado está claro. O, hã, subtexto. Ela quer que eu pare. Que deixe minha ambição sexual de lado. — Ele levantou o queixo.

Clint acompanhou o olhar dele. Havia um ventilador girando no teto. Se Montpelier colocasse a ambição sexual lá em cima, seria cortada.

— Vamos voltar um pouco, Paul. Como o assunto surgiu entre você e sua esposa? Onde isso começou?

— Eu tive um caso. Esse foi o incidente que levou a isso. E Rhoda, minha esposa, me botou pra fora de casa! Eu expliquei que o problema não tinha sido ela, foi que… eu tinha uma necessidade, sabe? Os homens têm necessidades que nem sempre as mulheres entendem. — Montpelier girou o pescoço. Deu um chiado frustrado. — Eu não quero me divorciar! Tem uma parte de mim que sente que é ela quem tem que se conformar com isso. Comigo.

Havia manchas roxas e fundas embaixo dos olhos de Montpelier e um corte abaixo do nariz de quando ele tinha feito a barba, possivelmente com um barbeador ruim que teve que comprar porque esqueceu o bom quando a esposa o botou para fora. A tristeza e o desespero do homem eram reais, e Clint conseguia imaginar a náusea gerada por aquela mudança repentina, morando com uma

mala em um hotel, comendo omeletes aguadas sozinho em uma lanchonete. Era dor autêntica. Não era depressão clínica, mas era importante e merecedora de respeito e cuidado, apesar de ele provavelmente ter sido o causador da própria situação.

Montpelier se inclinou por cima da barriga, que crescia.

— Vamos ser sinceros. Eu tenho quase cinquenta anos, dr. Norcross. Meus melhores dias sexuais já passaram. Eu dei todos esses para ela. Entreguei para ela.

Eu troquei fraldas. Fui a todos os jogos e competições e juntei a poupança para a faculdade. Marquei todos os quadradinhos no questionário sobre casamento. Por que não podemos chegar a uma espécie de acordo? Por que tem que ser tão terrível e divergente?

Clint não respondeu, só esperou.

— Semana passada, eu estava na casa da Miranda. É a mulher com quem estou dormindo. Nós transamos na cozinha. Transamos no quarto dela. Quase conseguimos uma terceira vez no chuveiro. Eu fiquei feliz pra caramba!

Endorfinas! E aí, fui para casa, nós tivemos um bom jantar em família e jogamos Scrabble, e todo mundo estava se sentindo ótimo também! Onde está o problema? É um problema fabricado, é isso que eu acho. Por que eu não posso ter certa liberdade aqui? É pedir demais? É tão ultrajante?

Por alguns segundos, ninguém falou. Montpelier observou Clint. Boas frases nadavam e corriam pela cabeça de Clint como girinos. Seriam fáceis de pegar, mas ele se segurou.

Atrás do paciente, encostada na parede, havia a gravura emoldurada de Hockney que Lila tinha dado para Clint para “dar calor ao consultório”. Ele planejava pendurar mais tarde, naquele mesmo dia. Ao lado da gravura estavam as caixas parcialmente desembaladas de textos médicos.

Alguém precisa ajudar esse homem, o jovem médico se viu pensando, e isso deveria acontecer naquela salinha bonita e tranquila com aquela gravura de Hockney na parede. Porém, essa pessoa que ia ajudá-lo deveria ser o dr. Clinton R. Norcross?

Afinal, ele tinha se esforçado muito para ser médico, e não houve poupança para a faculdade para ajudar. Ele tinha crescido em circunstâncias diferentes e pagado pelos estudos, às vezes com mais do que dinheiro. Para se formar, havia feito coisas sobre as quais nunca contou para a esposa e nunca contaria. Foi para isso que tinha feito essas coisas? Para tratar o sexualmente ambicioso Paul Montpelier?

Uma careta suave de pedido de desculpas surgiu no rosto de Montpelier.

— Ah, cara. Droga. Eu não estou fazendo isso direito, estou?

— Você está indo muito bem — disse Clint, e pelos trinta minutos seguintes, deixou as dúvidas de lado.

Eles avaliaram a situação; observaram de todos os ângulos; discutiram a diferença entre desejo e necessidade; falaram sobre a sra. Montpelier e suas preferências triviais (na opinião de Montpelier) na cama; eles até fizeram um desvio surpreendentemente cândido para visitar a primeira experiência sexual adolescente de Paul Montpelier, quando ele se masturbou usando a boca do crocodilo de pelúcia do irmãozinho.

Clint, de acordo com sua obrigação profissional, perguntou a Montpelier se ele já tinha pensado em se automutilar. (Não.) Questionou o que Montpelier sentiria se os papéis estivessem invertidos. (Ele insistiu que diria para ela fazer o que precisasse fazer.) Onde Montpelier se via em cinco anos? (Foi nessa hora que o homem com o colete branco começou a chorar.) No final da consulta, Montpelier disse que já estava ansioso pela próxima, e assim que ele foi embora, Clint ligou para a secretária. Ele instruiu que passassem todas as suas ligações para um psiquiatra em Maylock, a cidade mais próxima. A secretária perguntou por quanto tempo.

— Até nevar no inferno — disse Clint.

Da janela, ele viu Montpelier dar ré no carro vermelho e sair do estacionamento, para nunca mais ser visto.

Em seguida, ligou para Lila.

— Oi, dr. Norcross. — O sentimento que a voz dela causava nele era o que as pessoas queriam dizer, ou ao menos deveriam, quando diziam que o coração cantava. Ela perguntou como estava sendo o segundo dia dele.

— O homem menos perceptivo dos Estados Unidos veio me fazer uma visita

— disse ele.

— Ah? Meu pai foi aí? Aposto que a gravura de Hockney deixou ele confuso.

Ela era rápida, sua esposa, tão rápida quanto calorosa, e tão durona quanto

rápida. Lila o amava, mas nunca parava de provocar. Clint achava que precisava daquilo. A maioria dos homens deveria precisar.

— Ha-ha — disse Clint. — Mas escute: aquela vaga que você mencionou na prisão. Onde você ouviu sobre isso?

Houve um ou dois segundos de silêncio enquanto sua esposa pensava nas implicações da questão. Ela respondeu com uma pergunta: — Clint, tem alguma coisa que você precisa me contar?

Clint não tinha nem considerado que ela poderia ficar decepcionada com a decisão dele de largar o atendimento particular por um trabalho para o governo.

Tinha certeza de que ela não ficaria.

Graças a Deus por Lila.

3

Para passar o barbeador elétrico nos pelos grisalhos embaixo do nariz, Clint tinha que retorcer o rosto a ponto de parecer o Quasímodo. Um pelo branco como neve se projetava de dentro da narina esquerda. Anton podia erguer halteres o quanto quisesse, mas os pelos brancos nas narinas aguardavam todos os homens, assim como os que saíam das orelhas. Clint conseguiu cortar aquele.

Ele nunca havia tido um corpo como o de Anton, nem no último ano do ensino médio, quando o tribunal lhe concedeu independência, e ele morava sozinho e corria. Clint era mais esguio, mais magro, sem barriga, mas reto, como seu filho Jared. Em sua lembrança, Paul Montpelier era mais rechonchudo do que a versão de si mesmo que Clint viu naquela manhã, mas se parecia mais com um do que com o outro. Onde ele estava agora, Paul Montpelier? A crise tinha sido resolvida? Provavelmente. O tempo cura todas as feridas. Claro, como uma pessoa espirituosa já tinha observado, também causa feridas novas.

Clint não tinha mais do que a vontade normal (ou seja, saudável, consciente e baseada em fantasias) de transar fora do casamento. Sua situação não era, diferentemente da de Paul Montpelier, nenhum tipo de crise. Era a vida normal como ele a entendia: uma segunda olhada na rua para uma garota bonita; um olhar instintivo para uma mulher de saia curta saindo de um carro; uma onda de desejo quase subconsciente por uma das modelos que enfeitavam o programa

The Price Is Right. Era uma coisa meio triste, ele achava, triste e talvez um pouco cômica, a forma como a idade nos arrastava para cada vez mais longe do corpo de que se mais gostava e deixava os velhos instintos (não ambições, graças a Deus) para trás, como o cheiro de comida bem depois que o jantar foi consumido. E ele estava julgando todos os homens por si mesmo? Não. Ele era um integrante da tribo, só isso. As mulheres eram os verdadeiros enigmas.

Clint sorriu para si mesmo no espelho. Estava barbeado. Estava vivo. Tinha mais ou menos a mesma idade que Paul Montpelier tinha em 1999.

Para o espelho, ele disse: — Ei, Anton. Vai se foder. — A bravata era falsa, mas pelo menos ele se esforçou.

Atrás da porta do banheiro, ouviu uma tranca estalar no quarto, uma gaveta ser aberta e um baque, quando Lila colocou o cinturão com coldre na gaveta, fechou e trancou de novo. Ele ouviu o suspiro e o bocejo dela.

Para o caso de ela já ter adormecido, ele se vestiu sem falar nada, e em vez de se sentar na cama para calçar os sapatos, Clint os pegou para levar para o andar de baixo.

Lila pigarreou.

— Tudo bem. Ainda estou acordada.

Clint não sabia se isso era totalmente verdade; Lila tinha conseguido abrir o botão de cima da calça do uniforme antes de cair na cama, mas não tinha nem entrado embaixo das cobertas.

— Você deve estar exausta. Vou sair logo. Todo mundo bem em Mountain?

Na noite anterior, ela havia mandado uma mensagem dizendo que tinha havido um acidente em Mountain Rest Road. Não espere acordado. Apesar de não ser inédito, também não era comum. Ele e Jared grelharam bifes e tomaram algumas cervejas Anchor Steams no deque.

— Um trailer se soltou. Da Pet sei lá o quê. Aquela rede de lojas. Virou de lado e bloqueou a rua toda. Tinha areia de gato e ração de cachorro para todo lado. Acabamos tendo que tirar tudo com uma escavadeira.

— Parece um show de horrores. — Ele se inclinou e deu um beijo na bochecha dela. — Ei. Quer começar a correr comigo? — A ideia tinha acabado de ocorrer a ele, e ficou animado na mesma hora.

Não dava para impedir o corpo de decair e engordar, mas dava para lutar contra isso.

Lila abriu o olho direito, verde-claro na escuridão do quarto, com as cortinas fechadas.

— Não esta manhã.

— Claro que não — disse Clint.

Ele ficou parado acima dela, achando que Lila ia retribuir o beijo, mas ela só desejou que ele tivesse um bom dia, que mandasse Jared tirar o lixo. O olho se fechou. Um brilho verde… e sumiu.

4

O cheiro no barracão estava quase forte demais para suportar.

A pele de Evie ficou arrepiada, e ela teve que lutar para não vomitar. O fedor era uma mistura de produtos químicos queimados, fumaça de folha velha e comida estragada.

Uma das mariposas estava no cabelo dela, aninhada e batendo as asas em segurança no couro cabeludo. Ela respirou da forma mais superficial que conseguiu e olhou ao redor.

O barracão pré-fabricado tinha sido montado para fabricar drogas. No centro do espaço, havia um fogão a gás preso por tubos amarelados a dois botijões brancos. Na bancada junto à parede, havia bandejas, jarras de água, um pacote aberto de sacos Ziploc, tubos de ensaio, pedaços de rolha, incontáveis fósforos usados, um cachimbo de dose única com fornilho queimado e uma pia utilitária ligada a uma mangueira que passava por baixo da rede que Evie puxou para entrar. Havia garrafas vazias e latas amassadas no chão. Havia uma cadeira dobrável que parecia bamba e com logo de Dale Earnhardt Jr. nas costas.

Enrolada no canto, uma camisa quadriculada cinza.

Evie sacudiu a camisa para deixá-la menos dura e tirar ao menos um pouco da sujeira, e a vestiu. A parte de trás caía abaixo da bunda e das coxas. Até recentemente, aquela peça tinha pertencido a alguém nojento. Uma mancha impressionante com o formato da Califórnia descendo pela área do peito declarava que aquela pessoa nojenta era desastrada e gostava de maionese.

Ela se agachou ao lado dos botijões e soltou os tubos amarelados. Em seguida, girou as válvulas dos tanques de propano menos de um centímetro cada.

De volta ao lado de fora do barracão, tendo fechado a porta depois de passar, Evie parou para respirar ar puro.

Uns noventa metros descendo pelo barranco da floresta, havia um trailer com uma área de cascalho na frente e uma picape e dois carros estacionados. Três coelhos eviscerados, um ainda pingando, estavam pendurados em um varal junto com algumas calcinhas desbotadas e uma jaqueta jeans. Nuvens de fumaça saíam da chaminé do trailer.

Olhando para trás, pelo caminho que tinha tomado pela floresta aberta e pelo campo, a Árvore não estava mais visível. Ela, porém, não estava sozinha; mariposas cobriam o telhado do barracão, tremendo e esvoaçando.

Evie desceu o barranco. Galhos secos machucavam seus pés, e uma pedra cortou seu calcanhar. Ela não diminuiu o passo. Suas feridas cicatrizavam rápido. Perto do varal, ela parou para ouvir. Escutou um homem rindo, uma televisão ligada e dez mil minhocas no terreno ao redor, afofando o solo.

O coelho que ainda estava sangrando revirou os olhos embaçados para ela. Ela perguntou o que havia ali.

— Três homens, uma mulher — disse o coelho.

Uma única mosca voou dos lábios pretos destruídos do animal, zumbiu em volta e entrou na cavidade da orelha inerte. Evie ouviu a mosca se movendo lá dentro. Não culpava a mosca, ela estava fazendo o que uma mosca tinha sido feita para fazer, mas lamentou pelo coelho, que não merecia um destino tão sujo.

Embora amasse todos os animais, Evie gostava muito dos menores, os que rastejavam por campinas e saltavam pela vegetação, os de asas frágeis e que se deslocavam com rapidez.

Ela colocou a mão em concha atrás da cabeça do coelho moribundo e levou delicadamente a boca preta e suja à dela.

— Obrigada — sussurrou Evie, e deixou tudo ficar silencioso.

5

Um benefício de viver no canto deles dos Apalaches era que dava para pagar uma casa decente com dois salários do governo. A casa dos Norcross era contemporânea, com três quartos, em um condomínio de casas similares. Eram

casas bonitas, espaçosas sem serem grotescas, tinham gramados adequados para jogar bola e vistas que, nas estações verdes, eram vívidas, cheias de colinas e folhas. O que era um pouco deprimente no condomínio era que, mesmo com preços reduzidos, quase metade das casas bem atrativas estava vazia. A casa de demonstração no topo da colina era a exceção: aquela era mantida limpa, brilhante e mobiliada. Lila dizia que era questão de tempo até que um viciado em metanfetamina invadisse uma das casas e tentasse montar uma fábrica. Clint disse para ela não se preocupar, que ele conhecia a xerife. Na verdade, eles tinham um relacionamento meio estável.

(“Ela gosta de coroas?”, respondeu Lila, piscando e se encostando no quadril dele.) O andar de cima da casa dos Norcross abrigava a suíte principal, o quarto de Jared e um terceiro quarto, que os dois adultos usavam como escritório. No primeiro andar, a cozinha era ampla e aberta, separada da sala por uma bancada.

No lado direito da sala, por trás de uma porta dupla fechada, havia a sala de jantar, pouco usada.

Clint tomou café e leu o New York Times no iPad na bancada da cozinha. Um terremoto na Coreia do Norte tinha provocado uma quantidade enorme de mortes. O governo norte-coreano insistia que o dano havia sido menor devido à

“arquitetura superior”, mas havia filmagens de celular de corpos sujos de poeira e detritos. Uma plataforma de petróleo tinha pegado fogo no Golfo de Áden, provavelmente resultado de sabotagem, mas ninguém estava assumindo a responsabilidade. Todos os países da região haviam feito o equivalente diplomático a um bando de garotos que quebram uma janela jogando beisebol e correm para casa sem nem olhar para trás. No deserto do Novo México, o FBI estava no quadragésimo quarto dia de impasse com a milícia liderada por Compadre Brightleaf (nascido Scott David Winstead Jr.). Esse grupinho feliz se recusava a pagar impostos, a aceitar a legalidade da Constituição e a entregar seu estoque de armas automáticas. Quando as pessoas descobriam que Clint era psiquiatra, costumavam pedir que ele diagnosticasse as doenças mentais de políticos, celebridades e outras pessoas famosas. Ele costumava protestar, mas naquela situação se sentiu à vontade para fazer um diagnóstico à distância: Compadre Brightleaf estava sofrendo de algum tipo de transtorno dissociativo.

No pé da primeira página, havia a foto de uma jovem de rosto abatido de pé na

frente de um barracão nos Apalaches com um bebê nos braços. “Câncer na Região do Carvão, A-13”. Isso fez Clint se lembrar do vazamento químico em um rio local cinco anos antes, o que provocou a interrupção do suprimento de água por uma semana. Supostamente, tudo estava bem agora, mas Clint e sua família preferiam beber água mineral só por garantia. O sol aqueceu seu rosto. Ele olhou para os olmos gêmeos no quintal, depois para o deque da piscina. Os olmos o faziam pensar em irmãos, em irmãs, em maridos e esposas. Ele tinha certeza de que, embaixo da terra, as raízes estavam profundamente entrelaçadas.

Montanhas verde-escuras se amontoavam ao longe. Havia nuvens parecendo derreter na caldeira do céu azul-claro. Pássaros voavam e cantavam. Não era uma pena como um bom ambiente de interior era desperdiçado com gente? Essa foi outra coisa que uma pessoa velha e espirituosa disse para ele certa vez.

Clint gostava de pensar que não era desperdício no caso dele. Nunca esperou ter uma vista daquelas. Se perguntava o quanto teria que ficar decrépito e sentimental para que fizesse sentido a sorte que algumas pessoas tinham e o azar que pesava em outros.

— Oi, pai. Bom dia. Como está o mundo? Alguma coisa boa acontecendo?

Clint se virou da janela e viu Jared entrar na cozinha fechando a mochila.

— Espere… — Ele virou algumas páginas eletrônicas. Não queria mandar o filho para a escola com um vazamento de petróleo, uma milícia ou câncer. Ah, a coisa certa. — Físicos estão teorizando que o universo pode existir para sempre.

Jared remexeu no armário de lanches, encontrou uma barra de cereal e enfiou no bolso.

— E você acha isso bom? Pode me explicar o que quer dizer?

Clint pensou por um segundo, até perceber que o filho estava implicando com ele.

— Eu sei que você está implicando comigo. — Ele olhou para Jared e usou o dedo do meio para coçar a pálpebra.

— Não precisa ficar tímido por causa disso, pai. Você tem privilégio de pai e filho. Tudo fica entre nós. — Jared se serviu de café. Ele tomava puro, como Clint tomava quando seu estômago era jovem.

A cafeteira ficava perto da pia, onde a janela se abria para o deque. Jared tomou um gole e apreciou a vista.

— Uau. Tem certeza de que é uma boa deixar mamãe aqui sozinha com Anton?

— Por favor, vai embora — disse Clint. — Vai para a escola e aprenda alguma coisa.

O filho estava maior do que ele. Era tocante, melancólico, irritante, desorientador, maravilhoso, incrível, alarmante. “Au-au” foi a primeira palavra de Jared, enunciada quase sem querer. “Au-au! Au-au!” Ele era um garoto adorável, perguntador e bem-intencionado, e se transformou em um jovem adorável, ainda perguntador e bem-intencionado. Clint tinha orgulho de como o lar seguro que eles ofereceram a Jared tinha permitido que ele se tornasse cada vez mais ele mesmo. Não foi assim na vida do pai.

Clint vinha considerando a ideia de dar camisinhas para o garoto, mas não queria falar com Lila sobre o assunto e não queria encorajar nada. Não queria estar pensando nisso. Jared insistia que ele e Mary eram só amigos, e talvez o garoto até acreditasse nisso. No entanto, Clint via como ele olhava para a garota, e era do jeito que se olha para alguém que se quer que seja uma amiga muito, muito próxima.

— O aperto da Liga Infantil — disse Jared, e esticou as mãos. — Você ainda sabe?

Clint sabia: punhos batendo, polegares roçando e se entrelaçando, mãos torcidas, uma escorregada pelas palmas e palmas duas vezes acima da cabeça.

Embora houvesse muito tempo, eles fizeram com perfeição, e os dois riram.

Aquilo deu um brilho à manhã.

Jared já estava longe quando Clint lembrou que tinha que mandar o filho tirar o lixo.

Outra coisa que faz parte do envelhecimento: se esquece o que quer lembrar e se lembra o que quer esquecer. Ele poderia ser a pessoa velha e espirituosa que disse isso. Devia mandar bordar em uma almofada.

6

Depois de estar na lista de bom comportamento por sessenta dias, Jeanette Sorley ganhou privilégios na sala comunitária três manhãs por semana, entre as

oito e as nove horas. Na realidade, isso queria dizer entre as oito e as oito e cinquenta e cinco, porque o turno de seis horas na carpintaria começava às nove.

Lá, ela passaria o tempo inspirando verniz através de uma máscara de algodão fina e montando pernas de cadeira. Por isso, ganhava três dólares por hora. O

dinheiro ia para uma conta e seria pago em cheque quando ela saísse (as detentas chamavam as contas de trabalho de Estacionamento Gratuito, como no Banco Imobiliário antigo). As cadeiras eram vendidas na loja da prisão, do outro lado da Route 17. Algumas custavam sessenta dólares, a maioria oitenta, e a prisão vendia muitas. Jeanette não sabia para onde o dinheiro ia e nem ligava para isso, mas ligava para ter privilégios na sala comunitária. Tinha uma TV de tela grande, jogos de tabuleiro e revistas. Também tinha uma máquina de lanches e uma máquina de refrigerantes que só funcionavam com moedas de vinte e cinco centavos, e as detentas não tinham moedas de vinte e cinco centavos, que eram consideradas contrabando — Ardil 22! —, mas pelo menos dava para olhar. (Além do mais, a sala comunitária se tornava, em alguns horários da semana, a sala de visitas, e visitantes veteranos, como Bobby, filho de Jeanette, sabiam que deviam levar muitas moedas de vinte e cinco centavos.) Naquela manhã, ela estava sentada ao lado de Angel Fitzroy, vendo as notícias da manhã na WTRF, o canal 87 de Wheeling. As notícias eram as de sempre: um carro que passou atirando, um incêndio em um transformador, uma mulher presa por agredir outra mulher no Monster Truck Jam, a legislação estadual criando polêmica porque uma nova prisão masculina tinha sido construída no topo destruído de uma montanha e parecia ter problemas estruturais. Na parte nacional, o impasse com Compadre Brightleaf prosseguia. Do outro lado do planeta, estimava-se milhares de mortos em um terremoto na Coreia do Norte, e médicos na Austrália estavam relatando um surto de doença do sono que parecia afetar apenas as mulheres.

— O nome disso é metanfetamina — disse Angel Fitzroy. Ela estava mordiscando um Twix que encontrou na bandeja da máquina de lanches, fazendo-o render.

— Qual delas? As mulheres dormindo, a garota no Monster Truck Jam ou o cara que parece de um reality show?

— Todos esses podiam ser isso, mas eu estava pensando na mulher no Jam. Eu

já fui em um desses, e quase todo mundo menos as crianças estava fumado ou cheirado. Quer um pedaço? — Ela colocou os restos do Twix na palma da mão curvada (para o caso de a guarda Lampley estar monitorando por uma das câmeras da sala comunitária) e ofereceu para Jeanette. — Não está tão velho quanto alguns outros que tem lá dentro.

— Eu passo — disse Jeanette.

— Às vezes eu vejo uma coisa que me faz querer estar morta — disse Angel com determinação. — Ou querer que todo mundo esteja. Olha aquilo. — Ela apontou para um pôster novo entre a máquina de lanches e a de refrigerantes.

Mostrava uma duna de areia com pegadas seguindo para longe, parecendo ir até o infinito. Embaixo da foto estava a mensagem: O DESAFIO É CHEGAR LÁ.

— O cara chegou lá, mas aonde ele foi? Que lugar é aquele? — Angel queria saber.

— O Iraque? — perguntou Jeanette. — Ele deve estar no próximo oásis.

— Não, ele morreu de insolação. Está caído em um lugar onde não dá para ver, com os olhos esbugalhados e a pele preta como uma cartola. — Ela não sorriu. Angel era usuária de metanfetamina e do interiorzão, do tipo que mastigava casca de árvore e tinha sido batizada ao luar. Ela foi presa por agressão, mas Jeanette achava que Angel marcaria pontos em quase todas as categorias criminais. O rosto era todo ossos e ângulos, parecia duro o bastante para quebrar asfalto. Ela passou uma boa quantidade de tempo na Ala C durante sua estada na Dooling. Na Ala C, você só saía duas horas por dia. A Ala C era território das meninas más.

— Acho que não se fica preto nem morrendo de insolação no Iraque — disse Jeanette. Podia ser um erro discordar (ainda que com humor) de Angel, que tinha o que o dr. Norcross chamava de “problemas de raiva”, mas naquela manhã Jeanette estava com vontade de viver perigosamente.

— O que quero dizer é que aquilo ali é um balde de merda — disse Angel. —

O desafio é sobreviver ao dia de hoje, como você deve saber bem.

— Quem você acha que pendurou? O dr. Norcross?

Angel riu com deboche.

— Norcross tem mais bom senso. Não, isso é coisa da diretora Coates.

Jaaaanice. A queridinha adora coisas motivacionais. Já viu o que tem na sala

dela?

Jeanette tinha visto; era velho, mas não era bom. Mostrava um gatinho pendurado em um galho de árvore. Aguente aí, gatinho, realmente. A maioria das gatinhas daquele lugar já tinha caído dos galhos. Algumas já estavam fora da árvore.

O noticiário de TV estava mostrando a foto de um condenado que tinha fugido.

— Ah, cara — disse Angel. — Esse aí contraria a máxima de que negro é lindo, não é?

Jeanette não comentou. O fato era que ela gostava de homens com olhar cruel. Estava tratando disso com o dr. Norcross, mas por enquanto continuava sentindo essa atração por sujeitos que pareciam capazes de decidir a qualquer momento acertar um batedor de ovos nas suas costas nuas no meio do banho.

— McDavid está em uma das celas especiais de Norcross na Ala A — disse Angel.

— Onde você ouviu isso?

Kitty McDavid era uma das pessoas favoritas de Jeanette, inteligente e espirituosa. Havia um boato de que Kitty andava com uma galera pesada do lado de fora, mas não havia maldade real nela, exceto por aquela direcionada a si mesma. Ela foi uma praticante dedicada de cutting em um momento da vida; as cicatrizes cobriam os seios, as laterais, a parte mais alta das coxas. Tinha tendência a períodos de depressão, apesar de os medicamentos de Norcross parecerem estar ajudando com isso.

— Se você quer todas as notícias, tem que chegar aqui cedo. Eu ouvi dela.

Angel apontou para Maura Dunbarton, uma prisioneira idosa que trabalhava como monitora de outras prisioneiras e tinha recebido a sentença de prisão perpétua. Maura estava agora tirando revistas do carrinho e colocando nas mesas, com cuidado e acuidade infinitos. O cabelo branco se projetava em volta da cabeça como uma coroa fina. As pernas estavam envoltas em meias de alta compressão da cor de algodão doce.

— Maura! — chamou Jeanette… mas em voz baixa. Era proibido gritar na sala comunitária, menos as crianças nos dias de visitas e as detentas nas festas mensais. — Corre aqui, amiga.

Maura empurrou o carrinho lentamente na direção delas.

— Tenho uma Seventeen — disse ela. — Alguma das duas está interessada?

— Eu não estava interessada nem quando tinha dezessete anos — disse Jeanette. — O que aconteceu com Kitty?

— Passou metade da noite gritando — disse Maura. — Estou surpresa de você não ter ouvido. Tiraram ela da cela, deram uma injeção e colocaram na A. Está dormindo agora.

— Gritando o quê? — perguntou Angel. — Ou só gritando?

— Gritando que a Rainha Negra está chegando — disse Maura. — Diz que vai chegar hoje.

— Aretha vem dar show aqui? — perguntou Angel. — É a única rainha negra que eu conheço.

Maura não prestou atenção. Estava olhando para a loura de olhos azuis na capa da revista.

— Vocês têm certeza de que não querem essa Seventeen? Tem uns vestidos de festa bem bonitos.

Angel disse:

— Eu não uso vestidos assim se não estiver com minha tiara. — E riu.

— O dr. Norcross viu Kitty?

— Ele ainda não chegou — disse Maura. — Eu já tive um vestido de festa. Era bem bonito, azul e bufante. Meu marido abriu um buraco nele com o ferro. Foi sem querer. Ele estava tentando ajudar, mas ninguém ensinou a ele como se passa a ferro. A maioria dos homens nunca aprende. E agora ele não vai aprender, com certeza.

Nenhuma das duas respondeu. O que Maura Dunbarton tinha feito com o marido e os dois filhos era famoso. Havia acontecido trinta anos antes, mas alguns crimes eram inesquecíveis.

7

Três ou quatro anos antes (ou talvez cinco ou seis; os detalhes lhe fugiram e as referências estavam confusas), em um estacionamento atrás de um Kmart na Carolina do Norte, um homem disse para Tiffany Jones que ela estava atrás de problema. Ainda que a década anterior tivesse sido nebulosa, aquele momento

tinha ficado com ela. Gaivotas berravam e catavam lixo atrás da plataforma de carga e descarga do Kmart. Um chuvisco cobria a janela de vidro do Jeep em que ela estava sentada, que pertencia ao cara que disse que ela estava atrás de problema. O cara era segurança de shopping. Ela tinha acabado de fazer um boquete nele.

O que aconteceu foi que ele a pegou furtando um desodorante. O acordo a que eles chegaram foi bem direto e nada surpreendente: ela fez sexo oral nele, ele a deixou ir embora. Ele era um filho da puta obeso. Foi uma operação e tanto conseguir acesso ao pau dele enquanto lidava com a barriga, as coxas e o volante do carro. Porém, Tiffany já tinha feito muitas coisas, e aquilo era muito pequeno em comparação e nem chegaria à lista principal, exceto pelo que ele disse.

— Deve ser um saco pra você, hein? — Uma careta solidária se abriu no rosto suado enquanto ele se contorcia no assento, tentando puxar a calça vermelha de plástico que devia ser a única coisa que ele conseguia comprar daquele tamanhão todo. — Você sabe que vai se meter em confusão quando se vê em uma situação assim, em que tem que cooperar com um cara como eu.

Até aquele ponto, Tiffany tinha suposto que abusadores, gente como seu primo Truman, deviam viver em negação. Se não era assim, como eles podiam viver? Como era possível uma pessoa machucar e degradar outra se estivesse totalmente ciente do que estava fazendo? Bom, acontece que era possível, e homens como o segurança porco faziam exatamente isso. Foi um choque essa percepção, que explicou abruptamente tanto da vida de merda dela. Tiffany achava que nunca tinha superado isso.

Três ou quatro mariposas voavam dentro da cúpula do lustre acima da bancada. A lâmpada estava queimada. Não importava; havia luz matinal suficiente no trailer. As mariposas se chocavam no vidro e batiam as asas, e suas pequenas sombras se cruzavam. Como elas haviam entrado lá? Aliás, como ela havia chegado ali? Por um tempo, depois de momentos difíceis no final da adolescência, Tiffany conseguiu construir uma vida. Ela foi garçonete em um bistrô em 2006 e ganhava boas gorjetas. Tinha um apartamento de dois aposentos em Charlottesville e plantava samambaias na varanda. Estava indo bem para alguém que abandonou o ensino médio. Nos fins de semana, ela gostava de alugar um cavalo baio chamado Moline que tinha boa personalidade e

trote gostoso para ir cavalgar em Shenandoah. Agora, ela estava em um trailer na Merda Leste, Apalaches, e não estava mais apenas atrás de problema; já estava metida em um. Pelo menos, esse problema vinha enrolado em algodão. Não machucava do jeito que se esperava que um problema machucasse, o que talvez fosse o pior, porque estava tão mergulhada, enrolada até a ponta de si mesma que nem conseguia…

Tiffany ouviu um baque e de repente estava no chão. O quadril latejou no local onde bateu na beirada da bancada.

Com o cigarro pendurado no lábio, Truman olhou para ela.

— Terra para puta do crack. — Ele estava de botas de caubói e cueca boxer e mais nada. A pele do tronco estava esticada como filme de PVC sobre as costelas.

— Terra para puta do crack — repetiu Truman, e bateu palmas na frente da cara dela como se ela fosse um cachorro desobediente. — Não está ouvindo? Estão batendo na porta.

Tru era tão babaca que a parte de Tiffany que ainda estava viva, a parte que a fazia sentir de vez em quando vontade de pentear o cabelo ou ligar para aquela Elaine da clínica de planejamento familiar que queria que ela aceitasse assinar um termo de programa de desintoxicação, às vezes olhava para ele com surpresa científica. Tru era um padrão de babaca. Tiffany perguntava a si mesma: “Fulano de tal é mais babaca do que Truman?”. Poucos se comparavam; na verdade, até o momento, a resposta fora sim só para Donald Trump e para canibais. O recorde de maldade de Truman era extenso. Quando menino, ele enfiou o dedo no cu e meteu na narina de meninos menores. Mais tarde, roubou da mãe e penhorou joias e antiguidades dela. Viciou Tiffany em metanfetamina na tarde que passou para vê-la no lindo apartamento de Charlottesville. A ideia dele de pegadinha era cutucar a pele nua do seu ombro com um cigarro aceso quando os outros estavam dormindo. Truman era um estuprador, mas nunca tinha sido preso por isso. Alguns babacas tinham sorte. O rosto dele era coberto por uma barba ruivo-dourada irregular, e os olhos tinham pupilas enormes, mas o garoto arrogante que nunca se desculpava estava lá, no queixo projetado.

— Puta do crack, vem.

— O quê? — Tiffany conseguiu perguntar.

— Eu mandei você atender a porta! Jesus Cristo! — Truman fingiu um soco, e

ela cobriu a cabeça com as mãos. Piscou as lágrimas.

— Foda-se — disse ela, sem muito entusiasmo. Esperava que o dr. Flickinger não tivesse ouvido. Ele estava no banheiro. Tiffany gostava do doutor. Ele era uma viagem. Sempre a chamava de madame e piscava para deixar claro que não era deboche.

— Você é uma puta do crack banguela e surda — anunciou Truman, ignorando o fato de que ele mesmo precisava urgentemente de tratamento nos dentes.

O amigo de Truman saiu do quarto do trailer, se sentou à mesa dobrável e disse: — Puta do crack telefone minha casa. — Ele riu da própria piada e fez uma dancinha com os cotovelos. Tiffany não se lembrava do nome dele, mas esperava que a mãe dele morresse de orgulho do filho que tinha um cocô do South Park tatuado no pomo de adão.

Uma batida na porta. Dessa vez, Tiffany percebeu, uma batida dupla e firme.

— Deixa pra lá! Ninguém quer incomodar você, Tiff! Pode ficar com essa bunda burra no chão. — Truman abriu a porta.

Havia uma mulher usando uma das camisas quadriculadas dele, com um pedaço de perna morena visível embaixo.

— O que foi? — perguntou Truman. — O que você quer?

A voz que respondeu era baixa.

— Oi, homem.

De onde estava, em frente à mesa, o amigo de Truman gritou: — Você é a moça da Avon, por acaso?

— Escuta, querida — disse Truman. — Você está convidada a entrar, mas acho que vou precisar que devolva a camisa.

Isso fez o amigo de Truman rir.

— Isso é incrível! É seu aniversário, por acaso, Tru?

Tiffany ouviu o barulho da descarga vindo do banheiro. O dr. Flickinger tinha terminado o que estava fazendo.

A mulher na porta esticou a mão e segurou o pescoço de Truman. Ele fez um barulho chiado; o cigarro caiu da boca. Ele levantou a mão e enfiou os dedos no pulso da visitante. Tiffany viu a pele da mão da mulher ficar branca com a pressão, mas ela não soltou.

Pontos vermelhos apareceram nas bochechas de Truman. O sangue escorreu dos cortes que suas unhas estavam fazendo no pulso da mulher, mas ela não soltou. O barulho chiado ficou baixo. A mão livre de Truman encontrou o cabo da faca Bowie enfiada no cinto e a puxou.

A mulher entrou na sala, com a outra mão segurando o antebraço da mão que estava com a faca no meio do golpe. Ela o fez recuar e o pressionou na parede dos fundos do trailer. Foi tudo tão rápido que Tiffany não conseguiu registrar completamente o rosto da estranha, só o cabelo embaraçado até os ombros, que era tão escuro que parecia ter um tom esverdeado.

— Opa, opa, opa — disse o amigo de Truman, procurando a pistola atrás de um rolo de toalhas de papel e se levantando da cadeira.

Nas bochechas de Truman, os pontos vermelhos se expandiram e viraram nuvens roxas. Ele estava fazendo o barulho de tênis de borracha em piso de madeira, sua careta virando uma boca triste de palhaço. Seus olhos se reviraram.

Tiffany viu os batimentos pulsando na pele esticada à esquerda do esterno. A força da mulher era impressionante.

— Opa — disse o amigo de Truman de novo, quando a mulher bateu com a cabeça em Truman. O nariz de Tru se quebrou com um estalo de bombinha.

Um filete de sangue jorrou no teto, algumas gotas acertaram a cúpula do lustre. As mariposas estavam enlouquecidas, se debatendo dentro do lustre, fazendo um som como o de um cubo de gelo sendo sacudido em um copo.

Quando Tiffany desceu o olhar, viu a mulher virando o corpo de Truman na direção da mesa. O amigo de Truman se levantou e apontou a arma. O barulho de uma bola de boliche de pedra soou no trailer. Uma peça de quebra-cabeça de forma irregular apareceu na testa de Truman. Um lenço velho caiu no olho dele, pele com um pedaço de sobrancelha junto, solto e pendurado. O sangue se espalhou sobre a boca flácida de Truman e escorreu pelo queixo. O pedaço de pele com a sobrancelha estava caído sobre a bochecha. Tiffany pensou nas esponjas que pareciam um esfregão que limpavam as janelas no lava-jato.

Um segundo tiro abriu um buraco no ombro de Truman. O sangue jorrou no rosto de Tiffany, e a mulher jogou o corpo de Truman em cima do amigo. A mesa desabou com o peso dos corpos. Tiffany não ouvia os próprios gritos.

O tempo deu um salto.

Tiffany se viu no canto do armário, com uma capa de chuva puxada até o queixo. Uma série de baques abafados e rítmicos fez o trailer balançar de um lado para outro na base. Tiffany foi jogada em uma lembrança da cozinha do bistrô de Charlottesville tantos anos antes, vendo o chef usando um martelo de bater carne. Os baques eram assim, só que bem mais pesados. Houve um estalo de metal e plástico se partindo, e os baques pararam. O trailer parou de se mexer.

Uma batida sacudiu a porta do armário.

— Você está bem? — Era a mulher.

— Vá embora! — gritou Tiffany.

— O do banheiro fugiu pela janela. Acho que você não precisa se preocupar com ele.

— O que você fez? — perguntou Tiffany, chorando. Ela estava coberta com o sangue de Truman e não queria morrer.

A mulher não respondeu na hora. Não que precisasse. Tiffany viu o que ela havia feito, ou viu o suficiente. E ouviu o suficiente.

— Você deveria descansar agora — disse a mulher. — Só descanse.

Alguns segundos depois, Tiffany pensou ter ouvido em meio aos ecos deixados pelos tiros o som da porta externa se fechando.

Continuar: parte 2 de 14