Brasília, metropolização e espaço vivido
Introdução
Abordando as relações entre o vivido e o concebido, Lefebvre
mostra-nos que o vivido, âmbito de imediatidades, não coincide com
o concebido. Entre um e outro opera uma zona de “penumbra” na
qual opera o percebido. O percebido corresponde a algum nível de
entendimento do mundo, funda atos, relações, conceitos, valores,
mensagens, verdades... O percebido do mundo está,
inexoravelmente, envolto em representações, e portanto situa-se no movimento dialético, que nunca cessa, entre o concebido e o vivido.
(Seabra, 1996, p.80)
Este livro tem a finalidade de compreender a configuração do espaço metropolitano de Brasília, diferenciando-se de outros porque a análise se faz sob a ótica da vida quotidiana e da produção do espaço vivido como síntese da relação entre os espaços percebido e concebido, sumariamente esboçada na citação de Seabra.
A análise sobre a capital federal terá como pano de fundo uma discussão teórica acerca do espaço geográfico e da relação espaçosociedade a partir do diálogo com autores como Henri Lefebvre e Edward Soja, além de outros da Geografia e das demais ciências preocupadas com a dimensão espacial da sociedade.
Essa escolha teórica diz respeito ao meu comprometimento com a teoria espacial a partir da abordagem que toma por conceito a produção do espaço (Lefebvre, 1976 [1973]; 2000 [1974]).
Pensando o espaço
Ao longo dos anos, muitas têm sido as tentativas de conceituação do espaço, levadas a cabo tanto pela Geografia quanto por outras ciências afins e mesmo pela Filosofia. Embora até possa parecer uma questão de pouca importância para as análises sobre a sociedade – pois que importância teria isso para a vida quotidiana de cidadãos comuns? –, uma conceituação coerente do espaço traz em seu bojo a possibilidade de desvendar as contradições inerentes ao ser e fazer sociais, já que está mais do que provada a importância que tem o espaço na reprodução da sociedade, como o
evidenciaram diversos autores. 1 Seria mesmo pouco útil continuar no esforço de demonstrar – seja teoricamente, seja por pesquisas empíricas – o papel que tem o espaço nas relações que se estabeleceram historicamente desde que o homem distinguiu-se enquanto ser social e, sobretudo, cultural. Ainda assim, acredito ser fundamental desenvolver alguns pontos importantes para esclarecer a maneira como este livro desenha-se teoricamente.
Em La production de l’espace (2000), o objetivo de Henri Lefebvre é a busca de uma teoria espacial unitária que englobe os vários campos no âmbito dos quais o espaço tem sido tratado pelos diversos domínios científicos e pela Filosofia, sobretudo no Ocidente. Faço alusão a essa obra de Lefebvre em função de seu engajamento teórico na consolidação de uma teoria espacial
verdadeira.2
A reflexão teórica sobre o espaço, em Lefebvre (idem), parte do princípio de que aquilo que pode ser reconhecido como espaço, na verdade, sempre foi tratado a partir de perspectivas de análise com enfoques diferentes, sem preocupação com uma possível unidade, que podem ser agrupadas em três campos: um físico, relacionado, sobretudo, à dinâmica e às leis da natureza, do cosmos; um mental, referente à abstração e ao pensamento lógico formal; e um terceiro, social, ligado à organização e ao desenvolvimento das relações sociais.
Assim, do ponto de vista de Lefebvre (idem), em termos espaciais, têm-se: o espaço percebido, aquele da prática espacial; o espaço concebido, relacionado às representações do espaço; e o espaço vivido, referente aos espaços de representação. Para o autor, essa tríade espacial jamais pode ser tomada como um modelo abstrato, distanciado da concretude da vida, sob pena de perder sua força teórica. Interconectados que estão os três campos, inter-relacionando-se e mesmo superpondo-se (Soja, 1993), é fácil a um indivíduo passar, no quotidiano, de um campo a outro sem percalços, pois, segundo Dear (1994), cada um desses campos expressa-se, ora mais, ora me-nos, consoante o contexto social local. Outrossim, é enfocando esses três campos espaciais, que estou denominando dimensões do espaço, que pretendo analisar o processo de metropolização de Brasília.
O esforço de Lefebvre (2000) direciona-se, então, para alcançar um conhecimento propriamente do espaço, superando as análises que se focam mais sobre as coisas existentes no espaço ou as que se
restringem apenas ao plano de um discurso espacial.3 Esse conhecimento do espaço só pode ser alcançado por meio de uma análise que considere as três dimensões supracitadas, de forma a reconhecer que tanto o espaço percebido quanto o concebido e o vivido são, fundamentalmente, o mesmo espaço tomado em dimensões de análise distintas. Essas dimensões, no plano do quotidiano, porém, não se dissociam, mas têm igual importância para a vida em sociedade e incidem diretamente nela.
A teoria unitária espacial em Lefebvre (idem) consiste em compreender que o espaço é, antes de tudo, social. Para a Geografia, como ciência dedicada à compreensão espacial da sociedade, essa afirmação implica considerar que as análises devem obrigatoriamente levar em conta a implicação social que têm quaisquer fenômenos de ordem espacial, já que o espacial não pode mais ser entendido como a dimensão do fixo, do inerte, do “associal”, como durante muito tempo se supôs (Soja, 1980). Essa acepção não implica forçosamente que as dimensões física e mental sejam desprivilegiadas na análise espacial, mas assevera que a dimensão social é a que engloba as demais, na medida em que é nela que a vida social revela-se.
A triplicidade espacial pensada por Lefebvre (2000) tem um comprometimento fundamental com a dialética, como o demonstra Seabra (1996) na citação que abre esta introdução. Com a dialética, o autor supera as análises feitas a partir das relações entre dois termos, os “binarismos”, o que, para ele, se trata de uma redução “a uma oposição, a um contraste, a uma contrariedade” que “se define por um efeito significante: efeito de eco, de repercussão, de
espelho” (Lefebvre, 2000, p.49, tradução nossa).4 A partir da dialética, é possível pensar em uma relação não fechada entre duas partes, pois, ao se inserir um terceiro elemento na relação, outros caminhos são abertos e outras possibilidades são criadas, porque “há sempre o Outro” (idem, 1983, p.161); é o recomeço, uma continuação de algo antes fechado e/ou cíclico. Para Harvey (2004, p.262), é essa dialética que permite aproximar-se mais direta e abertamente da dinâmica do espaço-tempo, assim como da representação “[d]os múltiplos processos materiais em intersecção que nos aprisionam tão firmemente na tão elaborada teia da vida socioecológica contemporânea”.
Nesse sentido, a dialetização do espaço – entendido, pois, como uma mediação interativa entre as formas do ambiente construído, resultante da transformação da natureza, e a vida social que anima essas formas – é tanto mais necessária, já que, segundo Massey (2004), o espaço está em um eterno processo de devir, nunca acabado e jamais fechado ou cíclico, sendo o domínio que permite a existência da multiplicidade e a coexistência de trajetórias diversas. A abertura possibilitada pela triplicidade impede que o espaço seja visto como um sistema dentro do qual tudo esteja previamente relacionado com tudo, como uma simultaneidade finalizada, cujas interconexões estejam desde sempre estabelecidas.
Pensando Brasília
A partir disso e considerando Brasília como objeto de análise, trato de demonstrar a implicação que têm as dimensões espaciais na vida que se reproduz espacial e quotidianamente na metrópole, além de ser este um esforço para uma compreensão unitária do espaço metropolitano que tem em vista contribuir também para o desenvolvimento da Geografia enquanto ciência e para as teorizações, explicações e compreensões a respeito do processo de metropolização.
As dimensões espaciais serão analisadas a fim de desvendar suas especificidades e sua influência na reprodução espacial da vida, tendo em vista que, como coloca Shields (1999), a contribuição espacial do pensamento de Lefebvre recolocou a Geografia no debate teórico crítico mediante a espacialização da dialética que, descoberta na obra do autor, possibilitou a reintegração de vários movimentos progressistas intra e extrageográficos.
Pensar a metrópole de Brasília a partir da dialética socioespacial em seu desenvolvimento teórico como dialética de triplicidade é uma tarefa desafiadora que abre a possibilidade de expandir e complexificar a imaginação geográfica ao incorporar elementos que, por vezes, são tratados de maneira desvinculada. Significa, assim, pensar a metrópole como espaço real e concreto, produto sócio-histórico e materialidade resultante, por um lado, da prática espacial da sociedade local e, por outro, do próprio processo da urbanização brasileira sob o capitalismo. É a cidade entendida como mediação entre a ordem próxima e a ordem distante (Lefebvre, 2006), também espaço imaginado e planejado, abstração intelectual e artística, resultante dos preceitos do Urbanismo e da Arquitetura Modernista do século XX sob a concepção de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, inspirados nas ideias de Le Corbusier. É também o espaço dos planejadores tecnocratas, dos cientistas, dos intelectuais e dos artistas, uma representação da realidade com finalidades incontáveis. Finalmente, consiste no espaço de reprodução da vida, material e simbólica, possibilidade de apropriação e, ao mesmo tempo, espaço de opressão e segregação. É no espaço vivido, quotidianamente experienciado, que se guardam as representações da vida e inscrevem-se os trajetos e as trajetórias individuais e coletivas. Nesse espaço, mesclam-se o real, o concreto e o imaginado, pois é a dimensão dos momentos únicos em que o espaço é produzido e nos quais se tornam concretas as abstrações e percebem-se as modificações resultantes da práxis.
A bibliografia sobre Brasília é bastante extensa, contando com estudos em diferentes disciplinas científicas e versando sobre temas diversos. Nesses estudos, Brasília é tratada: em seu aspecto arquitetônico, como cidade-modelo ou cidade-símbolo do Modernismo; ou natural, considerando o domínio do cerrado em seu território e sua grande biodiversidade; são consideradas também suas funções de sede da administração pública federal e de centro decisório da gestão territorial em escala nacional (IBGE, 2008). No que se refere à sua estruturação espacial, também não são poucos os livros e artigos que se têm feito, desde sua inauguração até os dias presentes, abarcando de sua concepção e idealização à sua transformação em metrópole, ao seu espraiamento além de seus limites político-administrativos, à sua dinâmica territorial e às implicações sociais e demográficas do crescimento urbano. No que tange ao quotidiano, existem estudos enfocando realidades locais em relação aos problemas e desafios enfrentados pela população de diferentes partes do espaço metropolitano, além das manifestações culturais e artísticas presentes no fazer social. Assim, não se trata de uma metrópole carente de estudos, que seja desconhecida no âmbito científico, mas de uma realidade complexa bastante estudada em inúmeros aspectos e com diferentes
abordagens. 5
A proposta de pensar Brasília a partir da tríade espacial é, antes de tudo, a preocupação explícita com a dimensão espacial da realidade social. Trata-se, de um lado, de pensar o espaço metropolitano como produto social e como representação do vivido, levando-se em conta o grau de determinação que ele tem sobre as relações sociais. De outro lado, significa fazer a síntese, no plano da análise, das dimensões espaciais que muitos já estudaram separadamente e que, no plano do quotidiano, existem de maneira interdependente. Utilizando as palavras de Soja, trata-se de fazer a análise em uma perspectiva que não se destina somente a fazer uma crítica das análises isoladas que tomam como base as dimensões percebida e concebida do espaço, “mas também a revigorar suas abordagens sobre o conhecimento espacial com novas possibilidades até agora impensadas dentro das disciplinas espaciais tradicionais”. Essa perspectiva diz respeito também àquilo “que Lefebvre uma vez chamou a cidade, uma ‘máquina de possibilidades’; [...] a busca de espaços perdidos, uma relembrança – um repensar – uma redescoberta de espaços perdidos... ou nunca antes assinalados”
(Soja, 1996, p.81, tradução nossa, destaque do autor). 6
De fato, não estou propondo uma “nova invenção da roda”, mas apenas uma maneira de refletir sobre o espaço, simultaneamente unitário e trialético, a partir de aspectos que considero importantes para sua compreensão. Em outras palavras, proponho analisar o espaço metropolitano de Brasília como resultado da prática espacial, como produto da abstração e concepção de indivíduos e grupos e, sobretudo, como representação. Essa representação, porém, não quer dizer um entendimento do espaço como metáfora, como ilusão, como ausência, mas puramente como o lócus da reprodução da vida, produto material (Lefebvre, 1973; Soja, 1980) em que se explicitam as relações e contradições do fazer social, a presença, o meio pelo qual o ser social se realiza (Lefebvre, 2000).
Não obstante, o esforço em analisar o espaço metropolitano de Brasília nessa perspectiva enfrenta o desafio de tratar-se de uma realidade complexa, com muitas nuances, e, dessa forma, certamente lacunas continuarão abertas devido à persistente necessidade de termos de escolher aspectos a serem observados. Além disso, a tarefa de separar, no plano analítico, dimensões que quotidianamente existem de maneira articulada e imbricada serve apenas para melhor compreender os processos e estabelecer as correlações entre as partes estudadas. É fato, porém, que, como se tratam de dimensões dialeticamente relacionadas, a análise sobre cada uma delas estará repleta de elementos das demais, sendo puramente uma separação formal que se fará.
Dito isso, ressalto que uma análise que se propõe a abranger os aspectos socioespaciais de uma dada realidade não se obriga a incluir tudo quanto exista e seja passível de ser estudado, pois parto da ideia de que a dialética socioespacial permite que a totalidade da relação espaço-sociedade seja abarcada, ainda que inúmeros elementos não possam ser considerados. Trata-se então, e sempre, de uma questão de escolha.
Para a análise do espaço metropolitano de Brasília, proponho uma maneira de ver a metrópole que parte um pouco de uma inversão da ótica sob a qual estamos habituados a analisar as realidades metropolitanas. Meu desejo é tentar enxergar a metrópole a partir do quotidiano, do espaço vivido. Em outras palavras, significa en-tender o processo de metropolização não apenas em suas relações macroestruturais, mas, sobretudo, a partir daqueles que lidam com os elementos macroestruturais em seu processo de construção da vida, isto é, os habitantes. O que significa, para os habitantes da periferia metropolitana, viver em um espaço marcado por grandes descontinuidades do tecido urbano? O que traz para a organização de sua vida a permanência em deslocamentos demorados que os fazem deparar-se com paisagens intercaladas de ambientes construídos e não construídos? Ou ainda: como a configuração espacial de Brasília, marcada pelas descontinuidades do tecido metropolitano e pelas grandes distâncias decorrentes dessas descontinuidades, influencia no uso do espaço-tempo quotidiano por parte dos habitantes de sua periferia goiana e oferece possibilidades e/ou limites à realização do direito à cidade? São questionamentos como esses que orientam a discussão contida neste livro.
Para responder a essas questões, proponho uma discussão baseada no seguinte esquema teórico de análise geográfica da metropolização, que articula os planos teórico e empírico:
Em primeiro lugar, temos o espaço entendido em sua articulação dialética entre as dimensões do percebido, do concebido e do vivido, que incidem uma sobre a outra, determinando-se. Entre as três dimensões, o vivido é a que resulta como síntese, pois é a própria representação da vida social que se reproduz quotidianamente e que surge a partir da articulação entre o concebido e o percebido. É na dimensão do vivido que enxergamos a ligação entre os planos teórico e empírico, pois o espaço vivido é a dimensão geográfica do quotidiano, sendo este, por sua vez, entendido como a dimensão temporal da existência. Assim, temos, em segundo lugar e consequentemente, uma dimensão que revela o ser na metrópole. Colocando em termos espaciais, temos um processo de metropolização que é dinamizado pela mobilidade e pelas práticas espaciais que são marcadas, se não determinadas em algum grau, pelas descontinuidades do tecido metropolitano.
Uma nota sobre o método
A construção do pensamento que originou este livro vincula-se a uma perspectiva dialética que vai da conceituação da dialética de triplicidade espacial de Lefebvre (2000) ao seu desenvolvimento elaborado por Soja (1996; 2000), tendo em vista subsidiar as análises sobre o espaço metropolitano de Brasília.
A conceitualização da trialética espacial de Soja, embora efetivamente presente apenas a partir do segundo livro de sua
trilogia 7 dedicada a analisar a sociedade com uma preocupação eminentemente espacial, é o resultado de suas considerações esboçadas em Geografias pós-modernas sobre a dialética socioespacial e sobre a maneira como se relacionam o espaço, o tempo e o ser enquanto dimensões da existência humana – o que posteriormente ele conceituaria como trialética ontológica do ser (idem, 1996).
A teorização de Soja (1993) começa pelo reconhecimento do peso que teve a influência marxista, sobretudo de origem francesa, para o desenvolvimento da Geografia como ciência que se dedica a estudar a espacialidade da vida social. Para ele, a importância do pensamento marxista consiste na possibilidade de ampliar o debate acerca da sociedade sob o capitalismo a partir de um materialismo histórico-geográfico enquanto método de análise. Isso implica, na visão do autor, que se reformulem radicalmente tanto a teoria social crítica quanto o marxismo, de forma a transformar também a maneira como são vistos e conceituados o espaço, o tempo e o ser social e, por conseguinte, o modo como eles se inter-relacionam. Soja (idem) atribui essa transformação do pensamento para acomodar o espaço, o tempo e o ser em sua gama de relações à dialetização teórica do espaço proposta por Lefebvre (1973). Trata-se, pois, de reconhecer o espaço no processo dialético de constituição da sociedade e da história, abandonando o dualismo
em função da aceitação de que “há sempre o Outro”. 8 Para Soja (1996), a frase antirreducionista de Lefebvre embasa o método que ele apresenta como um thirding-as-Othering crítico, isto é, a análise crítica da dialética pela inserção da dimensão espacial. Consecutivamente, ele afirma:
E como resultado desse thirding crítico, eu utilizei um outro termo,
“trialética”, 9 para descrever não apenas uma tripla dialética, mas também um modo de raciocínio dialético que é mais inerentemente espacial que a dialética convencional temporalmente definida de
Hegel e Marx. (idem, p.10, tradução nossa)10
Com efeito, a dialetização do espaço coloca-o em uma posição menos subordinada com respeito ao tempo e à sociedade, pois implica reconhecer que a análise de suas estruturas liga-se diretamente à análise das estruturas sociais que são historicamente constituídas. Não obstante, Souza (1988, p.40) esclarece que essa dialética espaço-sociedade “não existe senão no contexto indivisível da dialética estabelecida pelos homens ao relacionarem-se entre si e com as naturezas (primeira e segunda) quando da (re)construção, interminável, das sociedades concretas”.
No entender de Soja (1993), dessa compreensão deriva uma transformação completa de como pensar geograficamente o mundo a partir não da inserção de mais um elemento na análise, mas da aceitação de que, ao inseri-lo, estamos abrindo outra possibilidade de ver a história e a sociedade por meio de uma “irrupção que explicitamente espacializa o raciocínio dialético” (idem, 1996, p.61). Nessa compreensão reside o gérmen da dialética do espaço em Soja, e ela diz respeito a um questionamento mais ontológico da relação espaço-tempo-ser como “nexo construtivo da teoria social” (idem, 1993, p.148). Em outras palavras, o entendimento do espaço a partir das três dimensões como ele apresenta-se – percebido, concebido e vivido – parte, antes de tudo, da compreensão de sua articulação com o tempo e o ser enquanto dimensões que engendram a existência humana. Essa articulação decorre da ideia primeira de que o ser humano é social e produz uma espacialidade concreta em seu desenvolvimento histórico.
A fonte geradora de uma interpretação materialista da espacialidade é o reconhecimento de que a espacialidade [...], como a própria sociedade, existe em formas substanciais [...] e como um conjunto de relações entre os indivíduos e os grupos, uma “corporificação” e um meio da própria vida social. (idem, p.147)
Ora, dessa forma, fica claro que a espacialidade, tal como a temporalidade, é uma dimensão intrínseca ao ser que não é passível de ser dele dissociada. Essa apreensão ontológica do espaço-tempo-ser, contudo, não é apenas uma abstração, mas tem uma concretização plena no plano da práxis que se refere ao espaço enquanto produto social, ao tempo enquanto construção histórica e às relações sociais em eterno processo de devir, sendo todos processos concomitantes e interdependentes. Dessa relação deriva aquilo que Soja (1980; 1983) denomina materialismo dialético, que é, ao mesmo tempo, histórico e geográfico, em que a espacialidade é conceitualizada como forma material das relações sociais de produção.
Em seus trabalhos mais recentes, Soja (1996; 2000) parte de uma compreensão já madura da interação espaço-sociedade como um processo dialético, propondo-se a analisar sob quais aspectos essa interação acontece. O entendimento da dialética espacial perpassa a construção sócio-histórica do espaço a partir de suas dimensões percebida, concebida e vivida: respectivamente, “o espaço percebido da Prática Espacial materializada; o espaço concebido que ele [Lefebvre] definiu como Representações do Espaço; e os Espaços de Representação vividos” (idem, 1996, p.10, tradução nossa, destaques do autor).
Apresentação do livro
A realidade da metrópole de Brasília, que venho apresentar em uma de suas facetas, é discutida em dois aspectos principais. O primeiro diz respeito à compreensão do espaço metropolitano como produto sócio-histórico, resultado da concepção dos elaboradores do projeto de construção de uma nova capital para o Brasil e da prática espacial – deles e daqueles que se apropriaram desse espaço, também atuando em sua produção – que originou aquilo que hoje conhecemos como Brasília e seu espaço metropolitano.
Ao questionar sobre o processo de produção do espaço metropolitano e as formas de articulação regional de Brasília, tento demonstrar que qualquer medida que objetive a resolução de problemas e a integração de Brasília com o conjunto de cidades que ela metropoliza deve, obrigatoriamente, considerar a vida quotidiana da população que habita o espaço e que dele, se já não se apropria, ao menos tenta ou deseja apropriar-se.
Igualmente, apresento o que pode ser compreendido como “verdadeiro” espaço metropolitano de Brasília, isto é, aquele que se (re)desenha quotidianamente a partir da prática espacial e da apropriação daqueles que tal espaço representa em suas formas.
O segundo aspecto de discussão da realidade da metrópole brasiliense constitui-se em uma passagem da análise do plano discursivo ao plenamente vivido. Ou seja, de demonstrar – por meio de conceitos, ideias, dados e constatações – de qual espaço metropolitano, de fato, estou tratando, passo a adentrar esse espaço à escala do quotidiano para tentar mostrar que espaço vivido é esse: aquele do qual se apropriam os habitantes de uma periferia distante e supostamente menos integrada, que são, na verdade, parte constituinte da metrópole. Trata-se, enfim, de tentar integrar teoricamente os supostamente não integrados, encontrando no espaço os traços de representação de suas vidas.
Esses dois aspectos serão analisados em três capítulos. O primeiro – “Brasília, da concepção ao espaço produzido” – visa a discutir como Brasília passou de uma concepção de cidade a uma metrópole real, repleta de aspectos gerais dos processos de urbanização e metropolização na escala mundial e também de especificidades decorrentes de sua formação socioespacial.
O segundo capítulo – “Brasília, (re)conhecendo o espaço metropolitano” – é uma tentativa de análise das maneiras sob as quais
o espaço metropolitano brasiliense é visto tanto pelos cientistas quanto pelos órgãos oficiais que se ocupam das definições. A partir dessas maneiras de ver o espaço, apresento o espaço
metropolitano (Mapa 1) como aquele reconhecido na mobilidade quotidiana e nas práticas espaciais dos habitantes.
O terceiro capítulo – “Brasília, metropolização e espaço vivido” – busca desvendar a metropolização como processo de constituição da metrópole que é vivenciado em intensidade pelos habitantes do espaço metropolitano. Esse capítulo nada mais é que uma tentativa de adentrar os espaços de representação, vividos quotidianamente, a fim de encontrar na vida das pessoas os resultados do que foi apontado nos dois capítulos precedentes. Para tanto, a vida na metrópole é analisada a partir da articulação entre as dimensões percebida, concebida e vivida do espaço que resultam nas/das formas do ambiente construído e nas/das práticas de apropriação.
Fecho o livro buscando retomar algumas questões levantadas ao longo dos três capítulos mencionados e procurando elementos para novas discussões que permitam continuar o debate.
No que concerne aos dados trabalhados, ressalto que, pelo fato de a análise basear-se em dados do Censo Demográfico 2000 sobre deslocamentos quotidianos do tipo casa-trabalho/escola, os resultados são apresentados com uma defasagem significativa, pois estamos completando dez anos do último recenseamento. Entretanto, trata-se da fonte mais fidedigna de informações a esse respeito, que, portanto, não poderia ser substituída por outra. Dados do Anuário da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) foram trabalhados em paralelo; contudo, por tratar-se de uma fonte imprecisa em função do modo como os dados são fornecidos pelas empresas de transporte concessionárias, mantive o ano 2000 como marco temporal para a comparação com os dados do Censo.
Os fragmentos das falas de moradores da Cidade Ocidental apresentados no texto foram extraídos das entrevistas realizadas in loco em janeiro de 2008.
Para não tornar a leitura cansativa, os detalhes sobre o tratamento dos dados e sobre a elaboração das entrevistas e dos mapas não foram incluídos neste livro, o que não causa, a meu ver, prejuízo algum à compreensão das ideias que apresento, ideias estas que, aliás, são de minha inteira responsabilidade, ainda que as pesquisas que as originaram tenham contado com a participação de inúmeros interlocutores.
1 Cf. Carlos (2001; 2004; 2007), Harvey (1980; 2004), Lefebvre (1973; 1976; 1999; 2000), Massey (2004), Santos (2002; 2006), Soja (1980; 1993; 1996;2000), entre outros.
2 Verdadeira no sentido filosófico de busca da verdade das/sobre as coisas.
3 “Sem esse conhecimento, somos levados a transferir para o nível do discurso, da linguagem per se – isto é, o nível do espaço mental – uma larga porção dos atributos e ‘propriedades’ daquilo que é, na verdade, o espaço social” (Lefebvre, 1991, p.7, tradução nossa, destaque do autor).
4 Un rapport à deux termes se réduit à une opposition, à un contraste, à une contrariété ; il se définie par un effet signifiant : effet d’écho, de repercussion, de miroir.
5 O conjunto de coletâneas organizado por Aldo Paviani, apresentado nas referências ao final do livro, exemplifica os inúmeros temas abordados referentes a Brasília em suas várias dimensões.
6 Such thirding is designed not just to critique Firstspace and Secondspace modes of thought, but also to reinforce their approaches to spatial knowledge with new possibilities heretofore unthought of inside the traditional spatial disciplines. Thirdspace becomes not only the limitless Aleph but also what Lefebvre once called the city, a “possibilities machine”; or, recasting Proust, a Madeleine for a recherche des espaces perdus, a remembrance-rethinking-recovery of spaces lost… or never sighted at all.
7 A trilogia de Soja é composta pelos três livros que ele publicou em 1989, 1996 e 2000, respectivamente Postmodern geographies, Thirdspace e Postmetropolis.
8 Do francês il y a toujours l’Autre (cf. Soja, 1996, p.8 et seq. e 53; Lefebvre, 1983, p.161).
9 Bem se sabe que a dialética entendida nas formulações tese-antítese-síntese ou afirmação-negação-negação da negação constitui-se em uma relação entre três termos em que o último diz respeito ao início de uma nova elaboração, não se tratando nunca de um binarismo fechado, porque “há sempre o Outro”. Assim, a tripla dialética de Soja, denominada por ele de trialética, refere-se apenas à inserção da dimensão espacial na compreensão do processo dialético do devir social, que é também histórico, e não a um mau entendimento da dialética como método filosófico, haja vista que “tripla dialética” poderia parecer uma redundância.
10 And as for the result of this critical thirding, I have used another term, “trialectics”, to describe not just a triple dialectic but also a mode of dialectical reasoning that is more inherently spatial than the conventional temporally-defined dialectics of Hegel or Marx.