Brasília, metropolização e espaço vivido

Igor Catalão · Capítulo 6 de 7

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Brasília, metropolização e espaço vivido

Retomando questões e abrindo discussões

Retomando questões e abrindo

discussões

 

... em geral, o espaço sobre o qual se age não coincide com o

espaço sobre o qual se deveria agir.

Ao final, sem ter a pretensão de apontar conclusões acabadas a respeito de tudo o que foi exposto até aqui, posso sintetizar algumas ideias, entrevendo seus possíveis desdobramentos práticos e analíticos, a fim de vislumbrar, então, um recomeço/uma redescoberta/ um repensar sobre as questões aqui colocadas, algumas respondidas, outras não.

Para recomeçar, partamos de um processo, a metropolização, e de uma forma dele resultante, o espaço metropolitano. Meu esforço foi, pois, o de demonstrar que as discussões que respeitam às problemáticas metropolitanas devem obrigatoriamente considerar a seguinte diferenciação, apresentada em ordem de importância.

(i) Antes de tudo, a metrópole precisa ser entendida enquanto realidade prático-sensível, qual espaço vivido e experienciado quotidianamente, composto de formas-conteúdo que são resíduos de outros tempos e que indicam claramente todas as ações práticas impetradas na produção do espaço, incluída aí a apropriação, e que revelam todas as contradições inerentes a essa produção. Esse é o ponto de partida para quaisquer medidas políticas e práticas que se pretendam efetivas. Retornarei a este ponto mais adiante.

(ii) Partindo do entendimento supraexposto, em segundo lugar, é necessário entender a metrópole como conceito utilizado para qualificar a realidade e, portanto, para analisá-la, explicá-la e consequentemente (intentar) compreendê-la. Em outras palavras, é importante reconhecer que para se elaborar toda e qualquer conceituação, como abstração mental que é, deve-se partir da realidade e a ela retornar em um movimento que busca sempre acompanhar o real, sempre dinâmico e mutante como é. Nesse sentido, as conceituações e teorizações nunca coincidem plenamente com a realidade no sentido de que são sempre aproximações do real e nunca dão conta de todos os elementos e de todas as especificidades de cada formação socioespacial.

(iii) Em terceiro lugar, há as metrópoles enquanto definição político-administrativa. No caso brasileiro, tanto aquelas que foram definidas pelo Governo Federal na década de 1970 – as primeiras regiões metropolitanas – quanto as que foram criadas pelos governos estaduais a partir da Constituição de 1988 – as novas regiões metropolitanas –, além das regiões integradas de desenvolvimento. Estas metrópoles surgem, ou deveriam surgir, a partir da compreensão de que primeiramente a metrópole existente enquanto realidade – plena de problemas sociais, a partir da qual se criam mecanismos institucionais para a resolução desses problemas, cuja explicação e compreensão, por sua vez, advêm das conceituações e teorizações –, essa metrópole como definição entra em terceiro lugar na diferenciação proposta, pois é resultado das duas primeiras e, nesse sentido, tampouco coincide com a metrópole como realidade e com a metrópole como conceito, justamente porque as definições são mais rígidas e envolvem critérios mais objetivos. Ainda assim, no caso brasileiro temos um enorme afastamento do que se define como metrópole e o que quotidianamente pode ser visto e vivido como tal. Esta é a razão pela qual notamos uma enorme dificuldade de criar mecanismos de gestão e ordenamento territorial metropolitanos que sejam eficazes. Ou seja: em geral, o espaço sobre o qual se age não coincide com o espaço sobre o qual se deveria agir.

Assim, a partir da ótica sob a qual enxergo o processo de metropolização da capital federal, tentei mostrar a falta de coincidência entre o espaço sobre o qual se criam políticas – a Ride –, os outros espaços pensados com esse objetivo – o AUB, a AMB, o Pergeb etc. – e o espaço vivido – mediação e síntese da articulação entre o espaço percebido e o espaço concebido –, para o qual se deveriam direcionar esforços no sentido de propor medidas eficientes para a resolução dos problemas. Esta é uma primeira, e talvez a mais importante, possibilidade prática e política que posso apontar.

Na Geografia e nas outras ciências dedicadas à compreensão espacial da sociedade, o esforço, nas últimas décadas, tem sido o de corroborar o entendimento de que é impossível pensar o espaço sem aceitar seu duplo papel de produto-produtor de relações sociais. Logo, considero premente inserir esse entendimento a respeito da dialética socioespacial nas agendas políticas. Trata-se de encontrar uma práxis que dê conta de, senão fazer coincidirem, ao menos tentar aproximar ao máximo a realidade, o conceito e a definição da metrópole contemporânea.

Na direção da conscientização política a respeito da espacialidade intrínseca à existência humana e da necessidade de que as alterações no ambiente construído aconteçam levando em conta as práticas espaciais dos habitantes e as relações quotidianas que têm lugar no espaço vivido, proponho que se busque um caminho para alterar a prática espacial, no sentido da produção, como uma possibilidade de avanço nas ações de gestão metropolitana que só serão eficazes se empreendidas na escala do quotidiano, isto é, no sentido da apropriação.

Do ponto de vista teórico, e voltando-me agora mais para a metrópole enquanto conceito, eu poderia apontar duas lacunas nesta discussão pela impossibilidade de desenvolver todas as questões que apareceram, muitas delas não pensadas senão no momento da escrita, mas que resultaram de algumas reflexões paralelas. Essas lacunas abrem, na verdade, outras discussões que merecem ser levadas a sério.

A primeira delas indica a necessidade da contínua busca pela compreensão da urbanização no início do século XXI. A análise que enfocou a dispersão do tecido urbano-metropolitano de Brasília como uma especificidade deixou claro o fato de que não se trata de uma especificidade tão singular, haja vista a transformação do processo de urbanização à escala mundial, compreendendo espacialidades cada vez mais difusas. Cabe agora estudar esse processo à luz das transformações sociais que se acentuaram a partir da década de 1970, indicando: (i) a virtual constituição de uma sociedade urbana;

(ii) a possível sobreposição e/ou passagem da Modernidade à Pós-Modernidade, acompanhando a passagem/sobreposição do fordismo ao pós-fordismo, do industrial ao pós-industrial, da metrópole à pós-metrópole etc.; (iii) a mudança das formas espaciais que tradicionalmente conhecíamos como cidade e campo, colocando-nos a dúvida sobre até quando poderemos qualificar a realidade sob esta perspectiva; (iv) a transmutação de velhos processos sob novas formas, como a metropolização e seu desenvolvimento no sentido da formação das metápoles; e (v) a ressignificação das práticas e das maneiras de viver na cidade contemporânea, como o sentido alterado da mobilidade e da integração espaciais, que tendem a englobar quotidianamente escalas regionais de dezenas de quilômetros. Meu objetivo foi, enfim, o de deixar claras as relações que se estabelecem no espaço metropolitano de Brasília, sobretudo o fato de ser ele um espaço que engloba territórios político-administrativamente separados entre o Estado de Goiás e o Distrito Federal. Essa constatação, embora pareça óbvia, tem sido negligenciada e isso pode ser comprovado pela inexistência de políticas extraterritoriais, no Distrito Federal, que aliem poderes de outras instâncias de governo para implementar medidas de resolução dos problemas vivenciados na periferia goiana, tais como: (i) a falta de postos de trabalho, de escolas de qualidade e de incentivos à implantação de atividades comerciais e de serviços diversos mais especializados, o que gera grande dependência do entorno em relação ao núcleo metropolitano; (ii) a precariedade nas infraestruturas básicas, o que causa falta de qualidade de vida pela ausência ou precariedade, por exemplo, de redes de abastecimento e saneamento básico, de pavimentação asfáltica e calçamento etc.; (iii) a falta de segurança pública e o crescente aumento do tráfico de drogas, entre outros. Ainda assim, meu objetivo também foi o de demonstrar que, embora exista um limite oficial entre Brasília e as cidades de seu entorno metropolitano que os separa em duas unidades federativas, o uso e a apropriação do espaço por parte dos habitantes indicam a fruição da vida de um lado a outro, em um movimento contínuo. Trata-se, então, de uma contradição que não pode ser negligenciada.

A segunda lacuna deixada aqui se assenta no âmbito teórico, levando-se em conta a discussão conceitual, isto é, a análise do espaço metropolitano a partir do conceito de espaço vivido. Ela deixa aberta a possibilidade de inúmeros outros estudos na escala da ordem próxima, pois a compreensão dos denominados espaços de representação implicam no desenvolvimento de uma teoria que verse sobre a linguagem espacial, já que no conceito lefebvriano de espaços de representação estão embutidas as discussões sobre as inscrições espaciais da vida social e os resíduos espaçotemporais que nos permitem ler outras temporalidades da reprodução e da apropriação do espaço.

Assim, ao final apresento talvez mais lacunas que respostas fechadas. Isso significa que o conhecimento nunca está acabado e demonstra que, de fato, a teoria apenas tenta dar conta da realidade, embora não consiga aproximar-se dela pela própria limitação que temos, como seres humanos, de abarcar o mundo à nossa volta.