Cai o Pano: o último caso de Poirot

Agatha Christie · Capítulo 2 de 4 · parte 2/3

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Cai o Pano: o último caso de Poirot

Capitulo V

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

- Certamente - concordei, lentamente. - Na realidade você já me tinha dito isso, mas não pensei, ainda, quem...

- Bien, chegou a altura de dizer-mo. Quem vai ser assassinado?

Olhei-o aturdido.

- Não faço a menor ideia - confessei.

- Pois já devia ter uma. Que mais está cá a fazer?

- Deve haver certa ligação entre a vítima e X. Por isso, se você se deixasse de teimosias e me dissesse quem é ele...

Poirot abanou a cabeça com tanto vigor, que me deu pena vê-lo fazer aquilo, doente como estava.

- Já lhe expliquei que a essência da técnica de X é nunca permitir que descubram qualquer interligação entre ele e a sua futura vítima. Por aí nunca chegaria lá, é mais do que certo.

- Que essa ligação está oculta, quer você dizer rectifiquei.

- Tão oculta que nem você, nem eu poderíamos descobri-la.

- Mas certamente que investigando o passado de X...

- Desde já lhe digo que não daria resultado. Pelo menos, neste momento. E o assassínio pode acontecer, agora, de um instante para o outro, compreende?

- O assassínio de alguém, nesta casa?

- Sim, o assassínio de alguém, nesta e desta casa.

- E, na verdade, você não sabe quem, nem como?

- Se o soubesse, meu amigo, não estava a pedir-lhe que se apressasse a descobrir quem será a vítima imediata.

- E baseia a sua presunção apenas pela presença de X?

O meu tom de voz deve ter soado nitidamente duvidoso. Poirot cuja impaciência devia ter-se tornado ainda mais aguda, em virtude da imobilidade a que a doença o forçava, não conseguiu dissimulá-la.

- Ah, ma foil Quantas vezes tenho de repetir-lhe os mesmos princípios? Se uma data de correspondentes de guerra chegam ao mesmo tempo a um mesmo ponto da Europa, que é que isso significa? Significa guerra. Se uma multidão de médicos desembarcam, na mesma data, numa cidade qualquer, que é que isso anuncia? Que vai realizar-se uma conferência médica internacional. Se vir um abutre esvoaçar sobre um determinado ponto, concluirá que está aí uma carcaça. Se um grupo de velhotas começarem a tagarelar em voz baixa, lançando, de quando em quando, um olhar furtivo para outra pessoa, poderá jurar que estão a falar mal dela, e se várias pessoas caminharem ao longo do mesmo corredor e flutuar, no ar, o aroma de um bom pitéu, deduzirá que uma refeição está prestes a ser-lhes servida.

Considerei estas analogias, por alguns segundos, e alvitrei, baseando-me na primeira:

- Mas um só correspondente de guerra já não significa guerra.

- Pois não, tal como uma andorinha não faz o Verão. Mas um assassino, Hastings, é bastante para fazer um crime.

Decerto que aquilo era inegável. Contudo, ocorreu-me a ideia (que podia ter passado desapercebida a Poirot) de que também um assassino tem os seus períodos de folga. X podia estar em Styles simplesmente a passar férias sem intenções letais.

Todavia, Poirot estava tão convicto da iminência do crime que não me atrevi a expor-lhe a sugestão.

Disse-lhe apenas que não tinha grandes esperanças de descobrir a vítima antes que esta o fosse, efectivamente. Teríamos de esperar...

- ... e ver - concluiu Poirot. - Tal como o seu Mister Asquith, na última guerra. Isso, mon cher, é exactamente o que não devemos fazer. Tenho-lhe dito, já várias vezes, na verdade, que quando um assassino está determinado a cometer um crime, não será fácil detê-lo, mas podemos, ao menos, tentá-lo. Imagine que tem defronte de si um problema de brídege no papel. Pode ver todas as cartas. Tudo o que lhe é exigido é deduzir o resultado das combinações.

- Não dará resultado, Poirot - queixei-me. Não faço a menor ideia. Ainda se você cedesse em dizer-me quem é X...

O meu amigo falou tão alto que, desta vez, Curtiss acorreu, para inquirir se algo corria mal. Só então Poirot acalmou, controlando o tom do seu protesto.

- Com os diabos, Hastings! Você não é tão estúpido como pretende parecer. Estudou todos os casos que lhe dei a ler. Pode não saber quem é X, mas conhece a técnica que ele emprega para cometer os seus crimes.

- Oh, estou a ver... - Pois está visto! O seu problema é ser mentalmente preguiçoso. Gosta de tornar isto num jogo e fazer apostas, mas aborrece-o ter de usar a cabeça. Qual é o elemento essencial da técnica de X? Não é verdade que, só após o crime estar cometido, é que a sua técnica fica completa? Isso significa que tem um motivo para o crime, tem uma oportunidade, tem meios para executá-lo, e, finalmente, o que é mais importante, o assassino está pronto a desfechar o golpe.

Compreendi, subitamente, o ponto essencial e quanto tinha sido tolo em não o discernir mais cedo.

- Estou a ver. Tenho que observar, entre todas as pessoas, qual é aquela que reúne os requisitos que respondem a essas perguntas. Obterei, assim, a vítima potencial.

Poirot recostou-se nas almofadas e suspirou:

- Enfin! Sinto-me muito cansado. Diga a Curtiss que venha ter comigo. Você já percebeu qual é a sua missão. E activo, sabe observar, pode seguir as pessoas, falar-lhes, espiá-las.

Ia esboçar um protesto, mas desisti. Ele prosseguiu:

- Pode ouvir as converas que travam entre elas; ainda tem joelhos que lhe permitem dobrá-los, conseguindo, portanto, espreitar às fechaduras...

Desta vez interrompi-o:

- Não farei uma coisa dessas. Não conte comigo para espreitar às fechaduras.

Poirot fechou os olhos desalentado.

- Muito bem - concedeu. - Não espreitará. Manterá a sua condição de gentleman e alguém será assassinado, por causa disso. Isso não tem importância. A honra está sempre à frente de um inglês! A sua honra é mais importante do que a vida do seu semelhante. Bien! É ponto assente.

- Tenha pena de mim, Poirot - supliquei. - Há coisas que não sou capaz de fazer.

- Certo - anuiu. - Mande-me cá Curtiss. Vá-se embora. Você é extremamente obstinado. Desejaria ter comigo alguém que fosse capaz de substituir o meu arruinado físico, alguém em quem pudesse confiar, como em mim mesmo. Devia ter contado com as suas absurdas ideias de cumprir as regras do jogo. Já que não é capaz de utilizar as suas células cinzentas, como se as não possuísse, ao menos use os olhos, os ouvidos e o nariz, até onde os seus sentimentos de honra lho permitam.

II

Foi no dia seguinte que me resolvi a pôr em prática uma ideia que já me aflorara ao cérebro mais do que uma vez. Mas fi-lo receosamente, pois nunca sei como Poirot acaba por reagir.

Contudo, achei conveniente expô-la antecipadamente:

- Tenho estado a pensar, meu caro, que talvez não seja o parceiro que lhe convém nesta emergência. Você deu-me a entender que eu era estúpido, bem... e de certa maneira é verdade. Ainda por cima, sinto-me apenas meio homem do que já fui. Desde que Cinders morreu...

Calei-me e Poirot emitiu um ruído, com o nariz, testemunhando-me pesar. Prossegui:

- ... Mas está cá um homem que poderia ajudar-nos... exactamente o género de homem de que precisamos. Miolos, imaginação, recursos, cheio de imaginação e habituado a tomar resoluções. Estou a referir-me a Boyd Carrington. É a pessoa de quem precisamos, Poirot. Porque não lhe confia o seu segredo? Ponha-lhe toda a história em pratos limpos.

Poirot abriu os olhos e disse com rude decisão:

- De maneira nenhuma.

- Mas, porque não? Não pode negar que ele seja esperto... numa craveira muito acima da minha.

- Isso - retorquiu Poirot com inaudito sarcasmo -, não é difícil! Mas tire essa ideia da cabeça, Hastings. Não vamos confiar em ninguém. Percebeu isso, hem? Veja se entende bem o que lhe digo: proíbo-o de falar no caso, seja a quem for.

- Muito bem, se assim o deseja - aquiesci -, mas Boyd Carrington...

- Ah! Ta, ta, ta! Boyd Carrington. Por que razão está tão obcecado a seu respeito? O que é ele, afinal de contas? Um grande homem, bastante pomposo e contente da sua pessoa, porque as pessoas lhe chamam «Sua Excelência». Um homem que, efectivamente, reconheço-o, possui um certo conjunto de tacto e encanto pessoal. Mas não é tão maravilhoso como você pensa. Repete-se num bom bocado, conta a mesma história duas vezes, e... o que é pior... a sua memória é tão má, que chega a contar-lhe a mesma história que já ouvira de si. Dir-me-á que possui uma extrema habilidade? Nem por isso. E um enfatuado, um peito cheio de vento... enfin... só tem proa!

- Oh! - exclamei indignado.

Segundos depois apercebi-me de que havia uma certa verdade naquelas palavras. A memória de Boyd Carrington não era das melhores. Ainda há pouco tempo cometera uma gaffe que dava presentemente um magnífico argumento a Poirot. Poirot referira-se aos seus tempos da Polícia, na Bélgica. Ora, um par de dias antes, quando alguns de nós estávamos reunidos no jardim, Boyd narrara uma mesma aventura que Poirot lhe descrevera, com este preâmbulo: - Lembro-me de que, certa vez, o chef de Ia Sureté, em Paris, relatou-me...

E Poirot estava presente, mesmo na sua frente... e poder-se-ia dizer que, ao falar, Sir William parecia dirigir-se-lhe, em particular!!!

Compreendi que uma má memória, na missão que urgia desempenhar, não seria um bom cartão-de-visita.

Por isso, não disse nem mais uma palavra e saí.

III

Desci as escadas e fui para o jardim. Não havia ninguém por ali e encaminhei-me para um pequenino bosque. Momentos depois descobria um outeiro relvado no topo do qual se divisava uma espécie de casa de Verão, num avançado estado de decrepitude. Dirigi-me para lá, acendi o cachimbo e sentei-me para alinhar as minhas ideias.

Quem seria a pessoa que se achava em Styles e que tinha um motivo suficientemente poderoso para matar uma outra... ou quem teria dado motivo para que a matassem?

Pondo de lado o coronel Luttrell, cujo caso parecia justificar que desejasse arejar os miolos da esposa com uma machadada, nenhum outro me parecia evidente.

O meu problema residia em não conhecer ainda suficientemente a vida e o carácter daquelas pessoas. Por exemplo, Norton e Miss Cole? Quais eram os motivos usuais para homicídio? Dinheiro? Boyd Carrington tinha-o. Talvez fosse o único comparsa rico daquele enredo. Se morresse, quem poderia herdar a sua fortuna? Faria o herdeiro parte dos hóspedes daquela casa? Era um ponto que precisava de ser esclarecido. Poderia, por exemplo, ter testado a sua fortuna a pesquisas científicas, tornando Franklin seu legatário, quando morresse. Isso e os poucos judiciosos comentários do doutor de cabelos ruivos, acerca da ânsia de exterminação da raça humana, podia constituir um motivo que o apontaria indiscutivelmente. Talvez Miss Cole ou Norton fossem seus parentes, tornando-se obviamente seus herdeiros. Ou teria a velha amizade do coronel Luttrell contribuído para que Boyd o nomeasse no seu testamento? Parecia que estas possibilidades satisfaziam todos os ângulos do factor dinheiro ou haveria outros? Restavam as hipóteses de feição romântica.

Os Franklin. Mrs. Franklin era uma inválida. Seria possível que estivesse a ser envenenada lentamente, de maneira que o crime viesse a ser atribuído a seu marido? E não seria ele próprio, na realidade, o autor do envenenamento? Não havia dúvida que tinha meios e oportunidade para perpetrar o crime. Quanto a motivo, tê-lo-ia? Ocorreu-me uma ideia desagradável: poderia, de qualquer maneira, vir Judith a ser envolvida no caso? Eu tinha a certeza de que as suas relações se restringiam a contactos puramente profissionais, entre patrão e empregada, apenas interessados nas pesquisas científicas de labor quotidiano e comum; mas a opinião pública acreditaria nisso? Judith era uma moça muito bonita. Uma assistente ou secretária atraente têm constituído motivo para muitas condenações. Essa possibilidade causou-me uma verdadeira angústia.

Em seguida considerei o caso de Allerton. Se houvesse um crime, gostaria que fosse ele o culpado. Só que não deparava com um motivo que pudesse satisfazer essa minha preferência.

Miss Cole, embora já não fosse muito nova, ainda reunia fortes encantos pessoais. Seria admissível que tivesse mantido relações com Allerton e fosse agora pasto do fogo do ciúme. Não me parecia que fosse esse o caso, mas supondo que existisse entre eles qualquer ligação secreta... se Allerton fosse X... se desejasse libertar-se dela...

Abanei a cabeça impacientemente. Aquela espécie de raciocínio não me conduzia a lado nenhum. Passos no saibro, à distância, atraíram a minha atenção. Vi Franklin caminhando rapidamente em direcção a casa, com as mãos nas algibeiras e a cabeça lançada para diante.

A sua atitude evidenciava desilusão, se não desespero. Surgiu-me aos olhos como um homem profundamente infeliz.

Estava tão concentrado a observá-lo que não me apercebi de que alguém se aproximava de mim, pelas costas, caminhando sobre a relva que lhe abafara os passos. Virei-me de salto, quando Miss Cole se me dirigiu:

- Assustei-o, capitão Hastings?

- Não a ouvi chegar - expliquei apologeticamente. Ela começara a examinar a arruinada casa de Verão.

- Que relíquia vitoriana! - apreciou, em ar de mofa.

- Receio bem que esteja cheia de aranhas - adverti. - Vou limpar o banco para que possa sentar-se ao pé de mim.

Ocorreu-me que surgia, agora, uma magnífica oportunidade de conhecer melhor aquela conviva de Styles. Mal Miss Cole se instalou, tratei de estudá-la dissimuladamente.

Devia andar entre os trinta e os quarenta anos, de constituição esbelta, com um perfil bem delineado e olhos verdadeiramente bonitos. Aparentava um ar reservado... diria até de suspeita. Pensei que tinha junto de mim uma mulher que sofrera e que, consequenteniente, se sentia profundamente desgostosa da vida.

O meu instinto indicou-me que precisava de saber muito mais, acerca da personalidade de Elizabeth Cole.

- Diga-me em que estava a pensar - começou ela -, quando me aproximei, sem que desse por mim? Estava verdadeiramente mergulhado em profunda meditação.

Calmamente respondi:

- Observava o doutor Franklin.

- Sim?

Não vi razão para não lhe transmitir aquilo em que cogitava.

- Tenho a impressão de que é um homem muito infeliz.

Miss Cole confirmou:

- Certamente que o é! Só agora deu por isso?

- Sempre pensei que fosse um homem absorvido pela paixão do seu trabalho.

- E é.

- Chama a isso infelicidade? Eu diria que é o estado mais feliz que se possa desejar.

- Sim, não discuto isso. Resta, porém, saber se o seu trabalho será a sua única paixão. Pode dar-se o caso de dedicar-se furiosamente a uma ocupação, exactamente porque uma outra, que preferiria, lhe é defesa.

Fitei-a sinceramente surpreendido e ela elucidou:

- No Outono passado foi oferecida ao doutor Franklin, a possibilidade de ir para a África, a fim de prosseguir aí as suas pesquisas científicas. É um homem muito esperto, como sabe, e tem fama de cientista da primeira apanha, em matéria de medicina tropical.

- E não foi, pelos vistos.

- Não. A mulher opôs-se-lhe. Declarou que não tinha saúde para suportar o clima e insurgiu-se contra a hipótese de ficar cá, deixando-o partir sozinho, especialmente porque essa separação não representaria, para ela, já se sabe, uma vantagem pecuniária, antes pelo contrário. O seu nível de vida decresceria, visto que o aumento de honorários do médico não compensaria as despesas de duas casas, cada qual em sua latitude.

- Oh, compreendo. Suponho que o doutor considera que, efectivamente, o estado de saúde da esposa não lhe permite levá-la consigo - insinuei.

- Sabe realmente alguma coisa acerca do seu estado de saúde, capitão Hastings? - interrogou ela, mordaz.

- Bem... não. Apenas o que ela própria me disse... Mas é uma inválida, não é verdade?

- Se ela lho disse... Pessoalmente, creio que uma mulher no seu estado, ou melhor, do seu tipo psíquico, mesmo que venda saúde, deve estar realmente enferma. Penso que Mistress Franklin tem muito gosto em estar, ou fazer-se doente.

Como Miss Cole tivesse pronunciado esta última frase com um áspero tom de secura, fitei-a atentamente e compreendi que todas as suas simpatias se dirigiam para o Dr. Franklin.

- Suponho - objectei -, que todas as mulheres de constituição frágil têm inclinação para se tornarem egoístas, não será assim?

- Tem razão. Também creio que as pessoas inválidas são mais egoístas do que as outras, mas não podemos censurá-las. É tão fácil ser-se egoísta.

- Não me parece que seja esse o caso de Mistress Franklin. Ela pode, na verdade, estar doente...

- Por minha parte - declarou Miss Cole -, não mostraria tanta convicção nessa hipótese. Sempre me sugeriu a impressão de uma pessoa capaz de fazer quanto quer, ou melhor, levar os outros a fazerem só o que ela própria deseja.

Durante um minuto, reflecti, em silêncio, naquelas observações. Era evidente que Miss Cole estava muito a par do que se passava na intimidade da ménage Franklin. Com certa curiosidade, inquiri:

- Suponho que conhece bem o doutor Franklin?

- Nem por isso - respondeu ela. - Só os tinha encontrado uma ou duas vezes, antes de vir para cá.

- Mas ele falou-lhe dos seus problemas, segundo depreendo.

Miss Cole abanou a cabeça negativamente.

- De maneira nenhuma. Tudo quanto acabo de referir-lhe, soube-o através de sua filha Judith.

Pensei, com súbita acidez no espírito, que Judith preferia escolher pessoas estranhas, para suas confidentes, ao seu próprio pai.

A minha interlocutora continuou:

- Judith é terrivelmente dedicada ao patrão e preocupa-se, na verdade, com o seu bem-estar... e condena claramente o egoísmo de Mistress Franklin.

- E Miss Cole? Também pensa que se trata de puro egoísmo?

- Sim... mas compreendo o seu ponto de vista. Sei o que são inválidos naturais e... não direi simulados, mas temperamentais. Mas também compreendo perfeitamente o ponto de vista do marido. Judith acha que Mistress Franklin deveria compartilhar dos interesses do doutor e, de qualquer modo, amoldar-se mais aos imperativos da sua profissão, já que é dela que extrai os proventos que lhe facultam gozar a vida regalada que ela sempre levou. De resto, a sua filha é também uma entusiástica pesquisadora científica.

- Bem sei - disse desconsoladamente. - Às vezes isso apoquenta-me. Não me parece muito natural, sabe?... naquela idade! Acho que devia ser mais humana... isto é, mais jovem, mais preocupada em gozar a vida... enamorar-se de um ou dois rapazes novos, como ela... Afinal, a juventude fez-se para aproveitar-se uma certa liberdade de voo e não para enterrar-se num laboratório, constantemente debruçada a contemplar micróbios e preparações químicas. Não acho isso natural. Nos meus tempos de rapaz, queríamos divertir-nos, namorar... você bem sabe!

Estabeleceu-se um momento de silêncio, após o qual Miss Cole declarou nostalgicamente:

- Não, não sei!

Fiquei instantaneamente horrorizado pela gaffe que acabava de cometer. Inconscientemente, falara como se tivéssemos sido contemporâneos, mas compreendi que ela devia ser mais nova do que eu dez anos, pelo menos, se os meus cálculos batiam certos.

Tentei emendar a indelicadeza, da melhor maneira que pude, mas ela cortou-me a frase, corrigindo:

- Não, não me refiro a isso. Por favor, não me peça desculpa, pois não lhe falava da idade. Quis unicamente significar o que lhe disse: Não sei! Nunca fui aquilo a que se possa chamar jovem. Nunca tive... nunca passei por isso a que as pessoas se referem por «os bons tempos da minha mocidade».

Algo na sua voz, uma amargura, um profundo ressentimento, deixaram-me deveras perturbado. Consegui apenas murmurar:

- Lamento imenso! Miss Cole riu-se.

- Oh, não tem importância. Não se mostre tão chocado. Vamos falar de outra coisa, sim?

Obedeci:

- Nesse caso, diga-me o que pensa das outras pessoas que nos rodeiam, aqui em Styles!... Ou dar-se-á o caso de também serem todos eles estranhos para si?

- Nem todos. Conheci os Luttrell desde sempre, praticamente, toda a minha vida. É triste que tenham chegado a isto... especialmente ele. O coronel é um querido. E ela também é muito melhor do que dá a entender. Tiveram de lutar toda a vida, especialmente ela, o que lhe deu essa aparência beligerante, em alguns casos... especialmente na forma como se exprime, às vezes, com o marido. Tem umas maneiras um pouco rudes, em relação a ele.

- Fale-me de Norton. Conhece-o? - Pouco sei acerca de Mister Norton. Parece-me um homem simpático, talvez demasiado metido consigo... um pouco estúpido... talvez. Mas é muito delicado com toda a gente. Viveu sempre com a sua mãe, sabe? Foi sempre, segundo ouvi dizer, «o menino de sua mamã» e consta que ela era uma mulher do tipo mesquinho e muito estúpida, também. Deve ter-lhe transmitido muito da sua própria personalidade. Há homens que sofrem imenso com isso. Ficam marcados para toda a vida. Ela morreu, há poucos anos, e a sua morte afectou-o muito. E louco por pássaros e flores e coisas delicadas, desse género. É realmente um homem muito atencioso e atento... e sabe ver muita coisa.

- Refere-se aos seus binóculos, não, Miss Cole? Ela riu, como se me considerasse demasiado ingénuo.

- Bem, não era a isso que me referia, literalmente. Pretendia antes dizer que é um homem capaz de ver atentamente o que se passa à sua volta e tirar conclusões... E tem prazer em fazê-lo. A maioria das pessoas tranquilas e desocupadas são assim. Não será do tipo egoísta, mas direi, antes, desprovido de afeição, não sei se me entende?

Acenei afirmativamente com a cabeça.

- Sim, bem sei.

Subitamente, Elizabeth Cole disse ainda com mais amargura:

- Isso é o lado depressivo de lugares como estes. Casas de hóspedes geridas por pessoas fracassadas, frequentadas por pessoas que falharam na vida; ou que sofrem problemas sentimentais; ou ainda que se sentem velhos, ou alquebrados, ou enfermos.

Intimamente concordei com ela. Como aquilo era verdade! Cabeças grisalhas, corações grisalhos, sonhos grisalhos. Eu próprio sentia-me triste e solitário e a mulher a meu lado não passava de uma criatura amargurada e desiludida. O Dr. Franklin, impaciente e ambicioso, dominado pelos desejos de uma mulher enferma e igualmente infeliz. O desinteressante e apagado Norton, limitado ao exame de pássaros. Até Poirot, antes tão brilhante, se mostrava alquebrado e meio paralítico.

Quão diferente eram estes dias daqueles em que pela primeira vez viera a Styles! O constraste fez-me soltar um ligeiro suspiro.

- Que se passa? - interessou-se a minha companheira.

- Nada. Estava apenas a comparar o momento presente e aquele em que cá estive, quando era ainda um homem novo.

- Estou a ver. Nessa altura, a casa era um lar feliz?

É curioso como, algumas vezes, os pensamentos giram no nosso cérebro como as imagens mutantes de um caleidoscópio. Lamentava o passado, apenas na sua condição de passado, mas não como fora, na realidade. Efectivamente, não houvera felicidade em Styles. Recordando os factos verdadeiros, vi meu irmão John e sua mulher, ambos infelizes arrastando a vida como eram forçados a aceitá-la. Laurence Cavendisch, afundada em constante melancolia. Cynthia, com toda a sua acriançada vivacidade, atrofiada pela dependência que lhe era imposta e a coibia de expandir-se. Inglethorp casado com uma mulher rica, unicamente pelo seu dinheiro. Nenhum deles fora feliz e, agora, também ninguém o era. Decididamente Styles não parecia transmitir sorte a ninguém e de forma alguma poder-se-ia considerar uma mansão de felicidade.

- Estava a ser induzido num sentido falso. Na verdade, esta casa nunca foi feliz. E não o é. Toda a gente se sente infeliz dentro dela.

- Não, nem toda. Sua filha, por exemplo...

- Judith está longe de ser feliz.

Disse-o com uma súbita certeza que me confrangia.

- Até Boyd Carrington - lembrei-me -, confessou no outro dia que se sentia muito só, nesta vida, embora me pareça que não tem grande razão para queixar-se, tanto se lhe dando estar nesta casa, como noutra qualquer.

- Com Sir William, o caso é diferente - observou Miss Cole. - Não pertence ao mesmo mundo que nós. Rodeia-se de uma esfera de sucesso e independência; circunscreve-se a um mundo exterior; triunfou na vida e reconhece-o. Não é um dos... dos estropiados.

Escolhera um termo bem estranho para nos classificar. Virei-me para ela, a fim de encará-la bem de frente, e sondei:

- Pode explicar-me porque utilizou essa expressão, tão dura?

- Por ser a que melhor... mais verdadeiramente se adapta. Pelo menos, a mim. Não sou mais do que uma estropiada!

- Estou a ver - declarei com simpatia -, que foi muito infeliz, na sua vida.

Miss Cole olhou-me bem nos olhos e perguntou:

- Não sabe quem sou, pois não?

- Bem... sei que se chama Cole.

- Não é esse o meu nome... Quero dizer... esse era o nome da minha mãe. Foi o que adoptei, depois...

- Depois de quê?

- O meu verdadeiro nome é Litchfield.

Por segundos, não me apercebi do significado desse apelido, embora me fosse familiar. Então, lembrei-me.

- Matthew Litchfield?

Acenou com a cabeça afirmativamente.

- Vejo que está a par do assunto. Meu pai era um inválido e um tirano. Proibiu-nos sempre, enquanto viveu, qualquer género de vida normal. Privava-nos de tudo e mantinha-nos como numa prisão.

Calou-se por momentos, e os seus olhos, muito belos, exprimiram uma profunda melancolia.

- Foi então que minha irmã... minha irmã... Os lábios bem delineados fecharam-se, recolhendo-se num traço fino, e deram-me a ideia de refrear um soluço.

- Por favor - disse-lhe. - Não continue. É demasiado doloroso para si. Sei do caso. Não precisa de contar-mo.

- Mas não sabe, não. Não pode saber a verdade. É inconcebível... inacreditável Maggie... sei que se apresentou à Polícia, que se entregou e confessou culpada, mas, certas vezes... quando penso na questão, não posso acreditá-la! Sinto que não foi verdade. Sei que aquilo não pôde acontecer, como ela o disse.

- Quer dizer que os factos foram... como direi?... deformados?

Interrompeu-se vivamente:

- Não, não é isso. Mas aquele acto não se coadunou com a sua maneira de ser. Não podia ter sido Maggie!

As palavras tremeram-me nos lábios, mas não as proferi. Ainda não chegara o momento em que poderia dizer-lhe:

- Tem razão. Não foi Maggie...

CAPITULO IX

Deviam ser cerca de seis horas, quando o coronel Luttrell atravessou o relvado. Trazia uma carabina debaixo do braço e baloiçava naturalmente dois pombos-bravos na outra mão.

Estacou, surpreso, quando lhe acenei.

- Olá! Que estão aí a fazer? Olhem que essa espécie de túmulo não é lugar seguro, sabem? Está a desfazer-se ao bocados. Ainda vos cai em cima do toutiço. Receio que lhe suje o vestido, Elizabeth.

- Oh, não há perigo, quanto a isso. O capitão Hastings sacrificou a brancura do seu lenço, limpando o banco para que pudesse sentar-me.

Com o seu ar habitualmente vago, o coronel Luttrell respondeu:

- Ah! Nesse caso está bem... a... pois... perfeito! Ficou parado, mordiscando o bigode, indeciso, sem saber que fazer, então levantámo-nos para ir ao seu encontro.

O seu espírito estava muito longe dali, nessa tarde. Fez um esforço para descer à terra e anunciar:

- Consegui apanhar um par destes marotos. Os pombos-bravos fazem por aí uma data de estragos, sabem ?

- É um belo atirador, segundo ouvi dizer - elogiei.

- Eh? Quem foi que lhe disse isso? Oh! Boyd Carrington, não? Não era mau, nada mau mesmo, noutros tempos... Mas muito enferrujado... agora... a idade não perdoa!

- A vista? - sugeri.

- Qual carapuça!... Disparate! Os olhos estão na mesma... Isto é, preciso de óculos para ler, naturalmente, mas à distância, vejo optimamente.

Quase um minuto depois, repetiu:

- A... optimamente. Não nesse sentido...

E a sua voz enrolou-se num murmúrio de palavras inaudíveis.

Olhando em volta, Miss Cole observou:

- Tarde magnífica, não acha?

Tinha razão. O Sol estava declinando para ocidente e a luz tornara-se dourada, dando às árvores sombras de verde mais escuro, num conjunto de efeito maravilhoso.

Louvei aquela bela tarde, tépida e calma, muito inglesa, tal como as que costumamos recordar, quando estamos longe, nos países tropicais. Disse-o e o coronel Luttrell concordou jovialmente:

- Sim, sim. Muitas,vezes pensei em tardes como esta, quando estava na Índia, sabe? É o que faz uma pessoa desejar vir-se embora de vez, reformar-se e tudo o mais... a... hem?

Neste ponto a voz do coronel alterou-se, ganhando em azedume o que perdera de alegria:

- Pois... vir para a Pátria, e o lar, e repousar... e tal e coisa, mas não é, muitas vezes, como imaginamos... a... não, não!

Pensei que, no caso particular, a desilusão podia ser verdadeira. Não devia ter pensado, ao retirar-se do comando de um regimento da índia, vir a trabalhar como hospedeiro e a aturar uma mulher resmungona e incomodativa.

Ainda tagarelámos durante alguns minutos, tendo o coronel dito uma ou duas piadas, evidenciando mais espírito do que seria legítimo esperar, pelas amostras até então exibidas.

Caminhámos lentamente para casa e fomos encontrar Norton e Boyd na varanda. Enquanto o coronel e eu decidimos juntar-nos a eles, Miss Cole preferiu entrar.

- Foi um dia quente! - disse Norton. - Estou sequioso!

- Tomem uma bebida... por conta da casa, hem? - convidou o coronel Luttrell, com visível satisfação.

Agradecemos e aceitámos. Ele levantou-se e deixou-nos.

A parte do terraço onde estávamos sentados ficava exactamente por debaixo da janela da sala de jantar que estava aberta.

Ouvimos o coronel, no interior, abrir um armário, depois o tinir de vidros e o ruído de uma rolha a sair da garrafa.

Então, abruptamente soou a voz não oficial, áspera e gritante, de Mrs. «coronela» Luttrell:

- Que estás a fazer, George?

A voz do marido reduziu-se a um sussurro. Apenas conseguimos discernir as palavras «amigos» e «bebida».

No seu tom agudo e desagradável, Mrs. Luttrell explodiu, indignada:

- Não vais fazer nada disso, George, Que ideia essa! Era só o que nos faltava! Como julgas que vamos pagar esta propriedade, se começas a oferecer bebidas a toda a gente? Aqui, quem bebe, paga! Tenho uma cabeça para negócios e tu... a tua... se não fosse eu, enfiava-nos a todos na bancarrota. Tenho de olhar por ti como se fosses uma criança. É o que tu és: uma criança idiota! Não tens o menor senso comum! Dá-me cá essa garrafa... Dá-ma cá, estou a dizer-te.

Ainda ouvimos o som de protesto agonizante. Mrs. Luttrell interrompeu o murmúrio, respondendo bruscamente:

- Não me interessa o que pensem de ti, ou o que deixem de pensar. A garrafa volta para o armário e vou fechá-la à chave e já.

O ruído de uma chave a girar na fechadura do armário ainda foi perceptível. - Ora aí está - declarou Mrs. Luttrell, triunfante. - Aí é que é o lugar dela.

Desta vez a voz do coronel chegou até nós mais audível e clara:

- Estás a ir longe de mais, Daisy. Eu não suporto isso.

- Hás-de suportar isto e muito mais - retorquiu ela. - Quem pensas tu, afinal, que és, aqui dentro? Quem é que governa esta casa? Não te esqueças disso, hem?

Após um restolhar de tecido em movimento, que nos sugeriu que Mrs. Luttrell abandonara a cena, soaram os passos lentos do marido. Momentos depois aparecia, parecendo mais velho e enfraquecido.

- Lamento imenso - disse, num tom a que faltava naturalidade. - Julgo que se acabou o uísque.

Provavelmente pensou que não teríamos ouvido o que se passara. Mas se o pensou, logo essa esperança se lhe deve ter desvanecido do espírito, pois nenhum de nós conseguiu disfarçar eficazmente a perturbação que nos ia na alma. Norton, então, era o que pior sabia representar e apressou-se a declarar que, na realidade, não lhe apetecia beber nada, antes do jantar. Acrescentou uma série de observações contra o hábito dos aperitivos, tão confusamente, que ainda tornaram a situação mais incómoda.

Eu fiquei praticamente petrificado e Boyd Carrington não conseguiu travar a disparatada dissertação de Norton, que, corado, metia os pés pelas mãos.

Pelo canto do olho, vi Mrs. Luttrell atravessar o jardim, equipada com as suas luvas de jardinagem e um sacho de monda. Não havia dúvida de que era uma mulher eficiente, mas senti por ela uma vaga aversão. Nenhum ser humano tem o direito de humilhar outro ser humano.

Norton falava ainda febrilmente. Pegara num dos pombos-bravos e desfiou uma história acerca de quando os seus colegas de liceu se tinham rido dele quando o viram adoecer perante a sua primeira preparação de biologia com um coelho morto. Depois, referiu-se a um acidente que ocorrera na Escócia, quando um batedor fora morto, durante uma caçada.

Falámos então de vários acidentes até que Boyd Carrigton clareou a garganta e disse:

- Foi divertido o que me aconteceu com um antigo impedido que tive, um irlandês, que fora à terra, de férias. Quando regressou, perguntei-lhe que tal tinham decorrido. Entusiasmadamente respondeu-me: «Foram as melhores férias que tive na minha vida.» «Apraz-me ouvir isso», disse-lhe eu, admirado por vê-lo tão excitado. Ele justificou: «Tive um grande dia. Matei o meu irmão.» Como não contivesse o meu espanto, o homem prosseguiu: «Há anos que desejava fazê-lo. Desta vez consegui-o. Coloquei-me num telhado e esperei-o. Quando o vi descer a rua, cautelosamente, com uma carabina na mão, procurando surpreender-me e mandar-me desta para melhor, apontei e foi um tiro em cheio. Caiu redondo, como um passarinho. Foi um momento extraordinário que nunca mais esquecerei.»

Como Boyd Carríngton tivesse narrado esta história com um ar comicamente teatral, todos rimos e a tensão desanuviou-se parcialmente. Quando se levantou, anunciando que tencionava tomar um banho antes de jantar, Norton comentou, com entusiasmo:

- É um tipo estupendo, não acham? Concordei e Luttrell acrescentou:

- Sim, sim, na verdade... um bom camarada.

- Teve sempre sucesso, segundo tenho ouvido dizer - continuou Norton. - Tudo quanto lhe cai em mãos é brilhantemente resolvido. Cabeça privilegiada, ideias claras... essencialmente um homem de acção. Tudo quanto faz sai perfeito.

Lentamente, Luttrell comentou:

- Alguns homens são assim. Acertam sempre. Alguns outros não têm essa sorte.

Com um ligeiro movimento de cabeça, Norton confirmou:

- Não, não... nem todos. Falta de sorte, é o que é.

- «Não nas nossas estrelas, caro Brutus, mas em nós próprios!»

- Talvez tenha razão - admitiu Luttrell. Apressei-me a desviar a conversa:

- De certeza foi uma sorte ter herdado Knatton. Que local maravilhoso! Mas acho que precisa de casar. Sentir-se-á tremendamente só, num lugar como aquele.

Norton riu e chacoteou:

- Casar e assentar! Mas suponha que a mulher acaba por dominá-lo e pôr-lhe uma coleira?

Foi uma observação do pior gosto. O género de comentário que ninguém deveria ter feito naquela altura. Infelizmente as circunstâncias tinham levado Norton a descair-se e não tinha agora modo de emendar a gaffe. Ficou notoriamente atrapalhado o que ainda piorou a situação.

Ambos começámos a falar ao mesmo tempo. Eu referi-me, parvamente, à luz crepuscular e ele sugeriu uma partida de brídege, depois do jantar, o que já era norma da casa.

Todavia, o coronel Luttrell pareceu não nos ter ouvido e considerou, com voz inexpressiva:

- Não, Boyd Carrington não se deixaria dominar pela mulher. Não é o género de homem que consinta uma trela. E um tipo direito. E um homem!

Foi um momento deveras difícil de suportar. Norton prosseguiu gaguejando acerca do brídege, e, nesse momento, um grande pombo-bravo veio pousar numa árvore, não muito longe de nós.

O coronel Luttrell pegou na arma e declarou:

- São uma praga. E um bicho nefasto que se farta, nesta época. Dá cabo de tudo.

Mas, antes que pudesse apontar a arma, o pombo voou para a copa de uma árvore mais distante. De onde estava, tornava-se-lhe impossível atirar com êxito.

Contudo, no mesmo momento, a sua atenção foi desviada por um restolhar súbito na erva, à nossa direita.

- Raios! - exclamou, excitado. - Está ali um coelho, na orla do pomar novo, apesar de eu ter aramado aquilo tudo.

Meteu a arma à cara e disparou.

Ouviu-se um grito de mulher que logo se extinguiu em estertor.

A carabina caiu das mãos do coronel, que ficou siderado. Depois mordeu os dedos e exclamou:

- Meu Deus!... E Daisy!

Eu já corria ao longo do jardim, com Norton colado aos meus passos. Cheguei ao local e ajoelhei. Era Mrs. Luttrell.

Estivera de joelhos, a colocar umas estacas na base de umas hastes de madeira, recentemente plantadas. Realmente, de onde estávamos, não seria possível perceber que era ela, pois a erva estava alta e só conseguíamos ver que se agitava. Certamente que o coronel tomara o restolhar e a agitação das plantas pela presença de um coelho. A luz, àquela hora, era bastante má.

Mrs. Luttrell fora atingida num ombro e sangrava abundantemente.

Examinei o ferimento e olhei para Norton. Encostara-se a uma árvore e o seu rosto tomara uma coloração esverdeada.

- Não posso ver sangue - declarou, à laia de desculpa.

Secamente, ordenei-lhe:

- Corra ao laboratório do doutor Franklin e diga-Ihe para vir aqui imediatamente... Ou a enfermeira.

Aquiesceu com um gesto aflito e começou a correr.

Foi a enfermeira Craven a primeira a aparecer em cena. Viera extremamente depressa e começou imediatamente a tentar estancar a hemorragia.

Franklin chegou, ofegante, momentos depois. Conduziram a ferida para casa e deitaram-na na cama. O médico fez um cuidadoso penso e deixou a enfermeira Craven com a sinistrada. Depois dirigiu-se ao telefone e ligou para o médico-assistente de Mrs. Luttrell. Mal pousou o auscultador, perguntei-lhe:

- Como está ela?

- Vai ficar como nova. O tiro não lhe atingiu qualquer ponto vital, felizmente. Como foi que aquilo aconteceu?

Contei-lhe. Ele interessou-se:

- Como ficou o velhote? Deve sentir-se muito em baixo. Provavelmente carece de mais cuidados que a mulher. Não devia mencionar o facto, mas a verdade é que o seu coração está muito em baixo, também.

Fomos dar com ele na sala de fumo. Notava-se-lhe uma cor azulada em torno dos lábios e parecia esgazeado. Bruscamente inquiriu:

- Daisy?... Como está ela? Apressadamente, Franklin sossegou-o:

- Perfeitamente. Não se preocupe.

- Pensei que se tratasse de um coelho a dar-me cabo das macieiras novas. Não percebo como pude cometer semelhante erro. Tinha a luz contra os olhos.

- Essas coisas acontecem - cortou Franklin. - Já assisti a uma ou duas, na minha vida. Olhe, coronel, deixe-me dar-lhe um estimulante. Não me parece que esteja a sentir-se muito bem.

- Não, não, obrigado. Estou fino. Posso ir... posso vê-la?

- Neste momento, não. É melhor não. A enfermeira Craven está com ela. Mas não tem de preocupar-se. Está perfeitamente. Daqui a instantes o doutor Oliver estará aqui e verá como lhe confirma o que agora lhe digo.

Deixei-os juntos e saí para o pôr do Sol. Judith e Allerton vinham na minha direcção ao longo de uma das áleas do jardim. A cabeça dele inclinava-se sobre a dela, rindo ambos.

Aquilo, em sequência da tragédia que acabava de suceder, fez-me sentir irritadíssimo. Chamei Judith, num tom bastante rude e ela fitou-me espantada. Em poucas palavras narrei-lhe o que acontecera.

- Que coisa tão extraordinária havia de suceder! - foi o comentário de minha filha.

Pareceu-me que não ficara tão perturbada como seria natural.

A atitude de Allerton chocou-me, pois tinha algo de ultrajante. Dir-se-ia que tomava a ocorrência como uma piada.

- Espero que o velhote não o tenha feito de propósito, hem?

- Decerto que não - retorqui secamente. - Foi um acidente.

- Pois, pois, conheço esse género de acidentes. Às vezes são tremendamente oportunos e convenientes. Palavra de honra que, se o velho coronel atirou sobre ela, deliberadamente, tiro-lhe o meu chapéu. Seria caso para parabéns.

- Não foi nada disso - neguei, zangado.

- Não se mostre tão seguro disso - continuou ele. - Conheci dois homens que mataram as respectivas consortes. Um deles, ao limpar o revólver. O outro, apontando para ela uma pistola, a brincar... disse ele. Não sabia como a coisa tinha podido acontecer. Safaram-se ambos. Foi um raio de um alívio, tive de concordar.

Friamente afirmei:

- O coronel Luttrell não é um homem desse tipo.

- Talvez... mas concordará que também seria um grande alívio para ele. Não acha que as coisas têm corrido o pior possível entre os dois?

Virei-lhe as costas ostensivamente. Allerton tinha-se aproximado demasiadamente da verdade, quanto ao motivo. Pela primeira vez, a dúvida assaltou-me o espírito.

Foi com satisfação que encontrei Boyd Carrington. Depois do banho, fora dar uma volta até ao lago e não fazia a menor ideia do que se passara.

Mal lhe dei a novidade, inquiriu:

- Não pensa que tenha atirado sobre ela propositadamente, pois não, Hastings?

- Oh, meu amigo! - protestei.

- Desculpe, desculpe. Não devia ter dito isso. Por um momento receei... Ela tem-no provocado infamemente, sabe?

Por segundos mantivemo-nos silenciosos, recordando a cena que tínhamos escutado através da janela.

Decidi subir ao andar superior e, sentindo-me infeliz e apoquentado, bati à porta do quarto de Poirot.

Já soubera, por Curtiss, o que sucedera, mas estava desejoso de ouvir pormenores.

Desde a minha chegada a Styles habituara-me a narrar-lhe, quotidianamente, os meus encontros e todas as conversas travadas entre nós. Dessa maneira podia dar-lhe a ilusão de que comparticipava na vida geral, do «hotel». Tenho, na verdade, uma memória privilegiada e posso transmitir uma conversa ouvida, quase verbalmente.

Poirot escutou-me com toda a atenção. Estava ansioso por ouvir-lhe uma opinião acerca da ocorrência que acabava de contar-lhe, mas antes que os seus lábios se movessem, bateram à porta.

Era a enfermeira Craven, que se desculpou por interromper-nos.

- Lamento imenso, capitão Hastings, mas pensei que o doutor Franklin estivesse aqui. A velha senhora está já consciente e mostra-se muito preocupada com a saúde do marido. Quer vê-lo a todo o transe. Sabe onde ele pára, capitão Hastings? Não queria abandonar a minha paciente.

Ofereci-me para ir procurá-lo e Poirot aquiesceu com um aceno de cabeça. A enfermeira Craven agradeceu-me calorosamente e saímos ambos do quarto do meu amigo.

Encontrei o coronel Luttrell no quartinho que costumava ocupar durante a manhã. Estava de pé, junto da janela, olhando para fora.

Virou-se repentinamente quando me pressentiu e os seus olhos formularam uma pergunta. Mostrava-se, aparentemente, assustado.

- Sua esposa já recuperou a consciência - anunciei -, e gostaria de vê-lo, coronel.

- Oh! - exclamou, regressando-lhe a cor às faces. O contraste da mudança fora tão evidente que me apercebi de quão pálido deveria estar quando entrei. Hesitante, titubeante, como um velho, assegurou-se:

- Ela quer, realmente, ver-me?... Vou... vou imediatamente.

Estava tão emocionado que cambaleou quando se dirigiu para a porta. Dei-lhe o braço para ajudá-lo e senti-o apoiar-se nele, fortemente, quando subimos as escadas.

Tal como Franklin previra, o choque abalara-o severamente.

Penetrámos no quarto da doente, logo que a voz da enfermeira Craven convidara:

- Entrem.

Tinham postado um biombo em volta da cama e tivemos que contorná-lo. Parámos a um canto, estando eu ainda a apoiar o braço de Luttrell.

- George... George... - disse Mrs. Luttrell, numa voz muito apagada.

- Daisy, minha querida! - balbuciou ele.

Um dos braços dela estava envolvido por um lenço, mas estendeu o que tinha livre, na direcção do marido. Este deu um passo para ela e pegou-lhe na pequenina mão crispada.

- Daisy! - repetiu ele. Finalmente, desabafou:

- Graças a Deus que estás bem!

Olhando para ele e notando os seus olhos brilhando angustiados, senti-me verdadeiramente envergonhado de ter suspeitado, por um simples momento, de uma hipotética intenção criminosa por parte do velho coronel.

Dissimuladamente, saí do quarto.

Não havia a mais pequena dúvida, agora, quanto aos sentimentos do marido acerca da esposa. Fora efectivamente um estúpido acidente a que os nossos malévolos pensamentos tinham dado intencional relevo. Senti-me francamente aliviado.

O som do gongo sobressaltou-me. Tinha-me esquecido completamente das horas, já que o acidente atarantara toda a gente. Só o cozinheiro se mantivera realista, apresentando o jantar à hora habitual.

Muitos de nós não tínhamos mudado de roupa, para jantar, e o coronel não apareceu.

Desta vez Mrs. Franklin honrou-nos com a sua presença, apresentando-se muito atraente, envolta num vestido de noite rosa-claro. Mostrava-se bem disposta em contraste com o marido que parecia absorto, de sobrancelhas franzidas.

Para minha preocupação, depois do jantar, Judith e Allerton desapareceram no jardim. Mantive-me sentado, durante algum tempo, ouvindo Norton e Franklin dissertarem sobre doenças tropicais e, embora o primeiro pouco soubesse sobre a matéria, mostrava-se um excelente auditor e muito interessado.

Mrs. Franklin e Boyd Carrington estavam a conversar no extremo oposto da sala. Ele estava a mostrar-Ihe algumas amostras de musselinas e cretones.

Elizabeth Cole tinha um livro nas mãos e parecia absorvida na sua leitura. Deu-me a impressão de que se achava, de certo modo, embaraçada, em relação à minha pessoa, provavelmente pela conversa que tínhamos travado nessa tarde. Sentia-me desconsolado por isso e esperava que não estivesse arrependida por ter desabafado e confiado em mim. Teria gostado de afiançar-lhe que podia contar com a minha discrição. Mas não tivera ainda essa oportunidade.

Pouco tempo depois, fui ter com Poirot.

Encontrei lá o coronel Luttrell, sob o círculo de luz da pequena lâmpada. Falava com Poirot, mas parecia que o fazia mais para si próprio do que para o meu amigo.

- Lembro-me tão bem como se fosse hoje - dizia o coronel. - Sim, era um baile de caça. Ela trazia um vestido daquele tecido leve... a... chamado tule, ou lá o que é... creio que era isso. Parecia que lhe flutuava em volta. Uma linda rapariga, digo-lhe eu. Olhava-me de quando em quando e eu não podia tirar os olhos dela. Disse para comigo: «Eis a moça com quem vou casar.» E, graças a Deus, consegui-o. Muito bonita, de cauda comprida. Quando andava, era como se não tocasse no chão. Deus a abençoe.

Vi a cena em imaginação. Daisy Luttrell com um traje de baile até aos pés, um rosto de expressão suave e a língua viva, como já devia tê-la, embora talvez menos dilacerante do que viria a tornar-se com o decorrer dos anos.

Mas era nessa jovem que o coronel Luttrell estava a pensar, naquela noite: o seu primeiro amor; a sua Daisy.

Uma vez mais senti-me envergonhado pelas suspeitas que me tinham assaltado previamente.

Como era de esperar, mal o coronel se despediu, declarando ir deitar-se, comecei a desfiar tudo quanto sabia aos ouvidos de Poirot.

Ouviu-me muito calado. Nada pude deduzir do seu rosto inexpressivo.

- Foi isso, então, o que você pensou - disse ele, finalmente. - Julgou que o coronel disparara, sobre a mulher, propositadamente?

- Sim, nessa altura, a coisa passou-me pela cabeça - confessei.

- Não lhe ocorreu, porventura, que alguém poderia ter-lhe incutido, a ele, esse desejo de desembaraçar-se dela? Ou, pelo menos, que alguém lhe incutiu, a si, essa desconfiança?

- A mim?... Bem, Allerton disse-me qualquer coisa nesse sentido.

- Mais alguém?

- Boyd Carrington também o sugeriu.

- Ah, Boyd Carrington!

- Afinal de contas, é um homem do mundo e tem experiência dessas coisas.

- Pois, pois, é verdade. Mas não assistiu ao acidente, pois não?

- Não. Primeiro fora tomar banho e depois, dera um pequeno passeio até ao lago... Um pouco de exercício, antes do jantar, como é seu hábito.

- Estou a ver.

Pouco à vontade, comentei: - Realmente não posso acreditar nessa teoria. Simplesmente...

Poirot interrompeu-me:

- Não precisa de mostrar tanto remorso pelas suas naturais suspeitas, Hastings. Era uma hipótese que ocorreria a qualquer outra pessoa, em face das circunstâncias. Oh, sim! Absolutamente natural.

Pressenti qualquer coisa nas maneiras de Poirot que não percebi. Uma espécie de reserva. Os seus olhos perscrutavam com uma expressão curiosa. Vagarosamente, articulei:

- Talvez!... Mas, vendo agora como ele lhe é devotado... exteriormente tanta preocupação com o estado dela...

Poirot sacudiu a cabeça numa confirmação:

- Exactamente. Para além das quezílias, das incompreensões, dos desentendimentos e aparente hostilidade da vida quotidiana, pode existir uma verdadeira afeição.

Concordei. Lembrei-me do olhar de Mrs. Luttrell, quando viu o marido aproximar-se do leito e lhe estendeu a mão. Não podia vislumbrar-lhe o menor sinal de impaciência ou de azedume.

Quando fui deitar-me, cogitei que a vida de casados tem aspectos deveras curiosos. Depois, pensei em Poirot. Havia algo nas suas maneiras que me preocupava.

Aquele seu olhar prescrutador, como que tentando desvendar quaisquer ideias que eu reservasse, sem desejar expor-lhas... Ou talvez, esperando que eu chegasse a uma conclusão que ainda não entrevia... Mas o quê?

Se Mrs. Luttrell tivesse sido morta, ter-se-ia dado simplesmente um caso como muitos outros casos.

Aparentemente, o coronel Luttrell teria morto a esposa, num acto involuntário. O facto teria de ser considerado um acidente, sem que ninguém pudesse atribuir-lhe intenção criminosa, conquanto pudesse muita gente pensar que fora propositada. As provas seriam insuficientes para estabelecer-se uma acusação de homicídio, mas bastantes para que se mantivesse uma suspeita de crime pairando sobre a existência do infeliz marido.

«Ora isso significava... isso significava...»

Que raio é que isso poderia significar?

«Talvez que... se Mrs. Luttrell tivesse sido assassinada... o seu assassínio não poderia ser imputado ao coronel, mas a X.»

Desta vez, porém, essa possibilidade parecia-me inaceitável. Era indubitável que fora o coronel Luttrell quem disparara a arma. Mais ninguém poderia tê-lo feito.

A não ser que... Talvez não fosse impossível, mas meramente improvável. Todavia poderia supor-se que alguém esperava o momento crítico e, no instante exacto em que o coronel apontava a arma ao coelho, disparara sobre Mrs. Luttrell. Contudo, só tinha soado um tiro. Nem sequer se ouvira uma ligeira discrepância cronológica que pudesse causar-nos a impressão de um efeito de eco.

Só então comecei a forçar a minha memória, tentando recordar se houvera eco. No campo, esse fenómeno é tão comum, que nos passa desapercebido, pois só o acto emotivo nos desperta interesse. Isto é, ninguém notaria um segundo tiro quase simultâneo.

Não. Esta hipótese era absurda. Nenhum criminoso, com a habilidade demonstrada até então por X, cometeria o erro de matar Mrs. Luttrell com uma bala disparada por outra arma, já que há meios inegáveis de provar cientificamente a proveniência do projéctil de uma arma. Hoje, é do conhecimento público que a alma de um cano causa riscos na superfície da bala que tornam a arma facilmente identificável.

Por outro lado, X não correria grande risco, porque a Polícia só se dá ao trabalho de examinar uma bala e a alma de um cano em laboratório, quando se torna necessário averiguar a identidade de uma arma. Ora, no presente caso, sabia-se qual fora a arma que disparara. O coronel apresentar-se-ia, naturalmente, como o causador do acidente e não haveria inquérito policial. Ninguém se preocuparia em fazer testes para averiguar uma coisa tão evidente, sem quaisquer contradições. Só discutiriam se o tiro fora efectivamente acidental ou intencional.

Continuar: parte 3 de 3