Cai o Pano: o último caso de Poirot

Agatha Christie · Capítulo 2 de 4 · parte 3/3

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Cai o Pano: o último caso de Poirot

Capitulo V

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Um segundo tiro nunca seria pesquisado, nem sequer equacionado.

Talvez o mesmo se tivesse passado com o tal agricultor, Riggs, que se apresentou à Polícia confessando-se autor do crime que não se lembrava de ter cometido. E quem saberia se não se teria passado uma coisa semelhante, com Margareth Cole, que se convencera de que a pancada que vibrara na cabeça do pai fora realmente a causa da sua morte? Podia não ter sido... e o verdadeiro assassino, que só actuara posteriormente, teria ficado na sombra, absolutamente insuspeito.

Sim. Este caso merecia maior atenção e, agora, já compreendia a atitude de Poirot: esperava que eu apreciasse devidamente o facto.

CAPITULO X

I

Abordei o assunto com o meu amigo, na manhã seguinte, e ele sorriu, abanando a cabeça para cima e para baixo, apreciativamente.

- Excelente, Hastings. Já esperava que você notasse essa semelhança de processos. Mas não quis empurrá-lo, percebe?

- Nesse caso, tenho razão. Houve uma intervenção astuta de X, neste caso? - Indubitavelmente.

- Mas porquê, Poirot? Qual o motivo?

Poirot abanou a cabeça.

- Não o antevê? Não faz já uma ideia? - inquiri expectante.

Calmamente, respondeu:

- Tenho uma ideia, sim.

- Consegue relacionar todos estes diferentes casos?

- Creio que sim.

- Diga-me então qual é essa relação.

Não podia conter a minha impaciência, mas o meu amigo limitou-se a silabar:

- Não, Hastings.

- Mas tenho de sabê-la.

- É muito melhor que não o saiba.

- Porquê?

- Tem de contentar-se com aquilo que posso dizer-lhe.

- Você é incorrigível! - protestei. - Amarrado a essa cadeira com artritismo, imobilizado e praticamente sem defesa, e ainda tentando fazer todo o jogo sozinho!

- Não pense que estou a jogar sozinho. De maneira nenhuma. Pelo contrário, você desempenha um papel primordial neste imbróglio. E os meus olhos e os meus ouvidos. Sem si, não poderia progredir e sinto-me avançar, embora lentamente. Apenas o privo da informação que considero constituir um perigo real, porque, no ponto em que estamos, a coisa começa a ser verdadeiramente perigosa.

- Para mim?

- Para o criminoso.

- Pois, já sei. Você pretende que ele nunca suspeite de que lhe andamos no trilho - admiti. - Pelo menos, é o que suponho. Ou pensa, porventura, que não posso tomar conta de mim próprio?

- Há uma coisa que você precisa de saber, Hastings. Um homem que matou uma vez, tornará a matar... outra vez e outra vez. - Que eu saiba, ainda não houve mais nenhum crime - objectei com ligeiro sarcasmo. - A bala acertou num alvo, mas não atingiu o seu objectivo.

- Sim, felizmente. Foi uma sorte... uma enorme sorte! Tal como lhe disse, nem sempre se podem obter resultados pela mão do Destino.

Fechou momentaneamente os olhos e quando voltou a abri-los notei-lhe no rosto uma expressão preocupada.

Deixei-o a sossegar, pensando com tristeza na dificuldade que o meu amigo tinha, agora, em fazer qualquer esforço. O seu cérebro conservava ainda a sua antiga acuidade de raciocínio, mas não havia dúvida de que era um homem cansado e doente.

Poirot avisara-me... proibira-me de tentar descobrir a personalidade de X. Contudo, pessoalmente, convencia-me de que já a tinha descoberto. Só havia uma pessoa, em Styles, que reunia todas as qualidades maléficas do Diabo. Contudo, por uma simples pergunta, poderia ficar certo de uma coisa. O teste seria negativo, mas, apesar de tudo, sempre teria algum valor.

Depois do pequeno-almoço, abordei Judith.

- Onde é que estiveste, ontem à tarde, quando te encontrei com o major Allerton?

A dificuldade reside no facto de procurarmos focar um aspecto de uma questão e as pessoas interpretarem a nossa intenção noutro sentido.

- Francamente, pai, não me parece que isso seja da sua conta.

Estaquei e fitei-a embaraçado.

- Mas eu apenas perguntei... ,

- E porquê? Porque tem de andar continuamente a fazer perguntas? Que estava a fazer? Onde fui? Com quem estava? Realmente, pai, é intolerável.

O ridículo da situação era não estar eu interessado, naquele momento, em saber onde estivera Judith, mas onde estava Allerton.

Tentei apaziguá-la.

- Não vejo porque não posso fazer-te uma simples pergunta.

- Não vejo, pelo meu lado, porque deseja fazê-la.

- Não tenho qualquer interesse particular no que andaram a fazer, mas preocupa-me... isto é, gostaria de saber porque não deram pelo acidente... ou onde estavam, no momento do tiro... - Já que está tão interessado, dir-lhe-ei que tinha descido à aldeia, para comprar selos. Está satisfeito?

- E Allerton estava contigo?

A resposta de Judith soou num tom que denunciava exasperação.

- Não, não estava comigo. Acidentalmente encontrámo-nos, já junto de casa, cerca de um minuto ou dois antes de depararmos consigo. Espero que agora fique satisfeito. Mas desde já lhe digo, pai, que se me der na bolha de passear todo o dia com o major Allerton, não me parece que o assunto lhe diga respeito. Tenho vinte e um anos, ganho a minha vida, e a maneira como emprego o meu tempo livre só a mim me diz respeito.

- Inteiramente - apressei-me a concordar para deitar água na fervura.

- Apraz-me ouvi-lo concordar com isso - respondeu Judith, já mais mansamente. Esboçou um sorriso. Depois acrescentou:

- Meu querido pai, tente não ser tão insistentemente protector. Contende-me com os nervos. Já não sou nenhuma pintainha para o pai se armar em galinha receosa.

- Não o farei mais, podes estar tranquila - prometi.

Neste momento surgiu Franklin.

- Olá Judith! Venha daí. Estamos hoje mais atrasados do que de costume.

As suas maneiras pareceram-me rudes, desprovidas da menor delicadeza. Apesar do meu próprio descontentamento, não objectei, pois sabia que Judith era sua empregada e estava ali para trabalhar com ele. Era paga para conceder-lhe o seu tempo e o seu esforço, competindo-lhe receber ordens.

De qualquer maneira, nada o impedia de ter utilizado uma fórmula mais delicada de expressão. A cortesia não prejudica ninguém e ajuda a encarar-se a vida por um prisma menos cruel. A verdade era que Judith também possuía um temperamento brusco e, embora se revoltasse contra qualquer ordem que eu pudesse dar-lhe, parecia acatar de bom grado as que ele lhe transmitia.

Depois, não sei porquê, comparei Franklin a Allerton e achei que, conquanto o primeiro fosse dez vezes melhor, como carácter, do que o segundo, não lhe chegava aos calcanhares em matéria de encanto pessoal... para quem gosta do género, já se sabe.

Observei Franklin, enquanto se dirigia com minha filha para o laboratório, e não pude conter um sorriso ao notar-lhe o andar desajeitado, os gestos sacudidos, a constituição angulosa, os ossos do rosto salientes e as sardas que o pigmentavam. Um tipo feio, de maneiras bem pouco polidas.

Carecia das mais evidentes qualidades para atrair uma mulher. Se por um lado, pelo facto de ser casado, essa falta de atractivos podia constituir uma segurança para Judith, por outro, achava lamentável que ela perdesse a maior parte das horas da sua vida mergulhada num trabalho desprovido de poesia e beleza, ao lado de alguém incapaz de apreciar essa própria beleza e poesia que a vida ainda contém.

Praticamente, minha filha nunca contactava com rapazes da sua idade, com outros jovens com mais interesse do que aquele que uma cobaia ou o Dr. Franklin poderiam despertar.

A verdade é que, ali, em Styles, só Allerton se achava em condições de distraí-la um pouco, minha pobre Judith!

Suponho que ela acabava por entregar o coração a esse patife, que desgraça! E o que mais me irritava era notar no seu comportamento, não direi uma certa inclinação, mas uma notória receptividade em relação às suas graças. Ora, pelo que eu sabia, Allerton era o que se podia classificar de «má rês». E ainda era possível uma coisa muito pior: se Allerton fosse X?...

Podia muito bem sê-lo. No momento em que o tiro fora disparado, não se encontrava na companhia dela. Podia ter uma arma escondida em qualquer lado do terreno...

Mas o motivo? Que relação poderia existir entre Allerton e todos aqueles crimes que Poirot sabia poderem ser atribuídos a X? O major não me parecia um louco paranóico. Se matava, fá-lo-ia por um interesse qualquer. E, se era efectivamente são de espírito, admitindo que um assassino nem sempre é um demente, que razão poderia levá-lo a cometer esses crimes?

E Judith, a minha Judith, andava agora tempo demasiado na sua companhia.

II

Por essa altura, embora estivesse realmente preocupado com minha filha, o problema da identidade de X e a possibilidade de novo crime (da terrível série negra) vir a ser cometido sobrepunha-se, pela sua anunciada iminência, às minhas preocupações pessoais.

Agora que uma tentativa de homicídio falhara, misericordiosamente, tinha de reflectir com urgência em novas possibilidades. E quanto mais pensava nisso, mais alarmado me sentia. Por uma palavra solta ao acaso, tomara já conhecimento de que Allerton era casado.

Boyd Carrington, que estava a par da vida de todos eles, elucidou-me acerca da situação de Allerton. Sua mulher era católica romana e deixou-o, pouco tempo depois do matrimónio. Devido à sua religião, não podiam divorciar-se.

- Se quer que lho diga - comentou Boyd Carrington, francamente -, esse impedimento convém-Ihe às maravilhas. As intenções de Allerton são sempre desonestas em relação às mulheres que corteja, de forma que a sua situação de casado convém-lhe perfeitamente, tanto mais que não pode divorciar-se.

Como pai, detestei ouvir aquilo.

Os dias que se seguiram ao «acidente de caça» passaram numa aparente normalidade, mas sentia crescer dentro de mim uma perturbante intranquilidade.

O coronel Luttrell gastava a maior parte do seu tempo no quarto da mulher. Viera uma outra enfermeira tomar conta da ferida, enquanto a enfermeira Craven passara a dedicar-se exclusivamente a Mrs. Franklin.

Embora correndo o risco de que me julguem mal-intencionado, direi que se notava uma certa irritação nas atitudes de Mrs. Franklin, como que ciumenta das atenções que tinham passado a convergir, nitidamente, para Mrs. Luttrell, após o sinistro. Dir-se-ia que se sentia passar para «inválida de segunda classe».

Permanecia todo o dia deitada no canapé, queixando-se constantemente de palpitações. Nenhuma refeição estava de acordo com o seu gosto e parecia uma mártir cheia de paciência e resignação para suportar a vida em Styles.

Dirigindo-se a Poirot, desabafou:

- Odeio ter de fazer as outras pessoas andarem de volta de mim, em virtude deste meu estado de saúde. Sinto-me tão envergonhada deste estado que me priva de levar uma vida normal! É tão humilhante pedir favores a toda a gente que me rodeia que chego, às vezes, a pensar que estar doente é realmente um crime, um atentado para a felicidade de quem convive connosco. Uma pessoa que não tem saúde deveria ser afastada deste mundo.

- Ah, não, madame - contrariou Poirot, galante como sempre. - As flores delicadas e exóticas devem ser conservadas em estufas, visto não poderem suportar os rigores do frio ou a excessiva temperatura do Verão calmoso. Considere, por exemplo, o meu caso: coxo, meio paralítico, muito enfraquecido e, todavia, não me resigno a passar uma vida tranquila. Alegro-me com a actividade intelectual, posso ainda raciocinar e, além disso, desfruto dos prazeres da comida, da bebida, da paisagem e do encanto das pessoas que me rodeiam.

Mrs. Franklin fez um gesto de abandono e murmurou queixosamente:

- Mas o seu caso é diferente, Mister Poirot. Só tem de considerar o seu caso pessoal. Mas eu tenho que pensar na situação do meu pobre John. Sinto-me, presentemente, como se fosse um fardo na vida de meu marido. Não passo de uma pessoa doente e inútil... Uma verdadeira mó atada ao seu pescoço.

- Estou certo de que o doutor Franklin nunca pensou uma coisa dessas a seu respeito. Não é pessoa para dizer-lhe semelhante crueldade.

- Oh, não! Nunca o dissel Mas os homens, coitados, são tão transparentesl E John não tem o menor jeito para esconder os seus sentimentos e emoções. Certamente que nunca me disse semelhante coisa, pois não deseja magoar-me. De resto, felizmente para ele, é uma pessoa deveras insensitiva. Não tem sentimentos especiais e pensa que os outros também não os têm. É tão feliz uma pessoa nascer apenas preocupada consigo própria, com o seu trabalho, com os seus próprios objectivos!

- Eu não descreveria o doutor Franklin, dessa maneira, madame - discordou Poirot. - Não acho, de maneira nenhuma, que seja um egoísta.

- Não? Oh, isso é porque o senhor não o conhece tão bem como eu. Certamente que tenho a consciência de que, se eu não existisse, John poderia ser muito mais livre e feliz. Às vezes sinto-me tão deprimida que chego a pensar que, se morresse, seria um verdadeiro alívio para ele.

- Oh, madame., não diga uma coisa dessas! alarmou-se Poirot.

- Afinal de contas de que sirvo eu, nesta vida? Se pudesse partir para o Grande Desconhecido, então John recuperaria a sua liberdade.

Quando repeti esta conversa, falando com a enfermeira Craven, ela sacudiu a cabeça, sarcasticamente, e sossegou-me:

- Um chorrilho de disparates é o que isso é, capitão Hastings. Ela nunca faria uma coisa dessas. De resto, aqueles que falam em «acabar com tudo», com uma voz quase moribunda, nunca pensam realmente senão em preocupar os outros a seu respeito, atrair a comiseração alheia e continuar a passar, o melhor que podem, nesta vida. Não se apoquente, pois só quem não a conhece poderia acreditar que Mistress Franklin alguma vez pensou em libertar o marido.

Na realidade pude verificar que, mal Mrs. Luttrell melhorou deixando de atrair tantos cuidados, logo Mrs. Franklin perdeu os sintomas de depressão e derrotismo.

Certa manhã, particularmente agradável, Curtiss trouxe Poirot para um canto do bosquezinho de faias, perto do laboratório. Era o seu lugar favorito, pois ficava abrigado do vento leste e, praticamente, nenhuma brisa conseguia chegar àquele recanto. Poirot detestava ter de tomar drogas, quando engripado, mas constipava-se frequentemente e, por isso, receava o ar fresco.

Estou certo de que teria preferido ficar dentro de casa, se as demais pessoas não andassem cá por fora. Ora, a sua curiosidade era superior ao medo da aragem fria.

Estava quase a juntar-me a ele, quando Mrs. Franklin saiu do laboratório. Vinha vestida a primor, oferecendo-nos uma imagem encantadora. Explicou ir dar um passeio de automóvel com Boyd Carrington, até à casa dele, em Knatton, para ajudá-lo a escolher cretones.

- Tinha deixado a minha bolsa no laboratório, quando ontem lá estive a falar com John - esclareceu. - Pobre John! Fazia-lhe falta um reagente qualquer e foi, com Judith, buscá-lo a Tadcaster.

Afundou-se numa cadeira ao lado de Poirot e abanou a cabeça com uma expressão cómica. - São uns queridos! Pobrezinhos! Estou felicíssima por não possuir a mínima inclinação científica. Num dia tão bonito como este, irem fazer uma compra daquelas, tão longe, em vez de o aproveitarem a passear na quinta, parece-me verdadeiramente pueril.

- Deve evitar que os cientistas a oiçam dizer coisas dessas, madame - aconselhou Poirot. - Sentir-se-iam ofendidos, pois consideram o seu trabalho mais importante do que andar a passear pelo campo.

- Não, não o diria de maneira nenhuma - respondeu Bárbara Franklin, mudando subitamente de expressão e tornando-se séria. - Na verdade, admiro imenso o meu marido. Não deve pensar, Mister Poirot, que não é esse o caso. Mas acho que a maneira como se dedica exclusivamente ao seu trabalho deve ser terrível para a sua saúde... deve ser tremenda, para o seu espírito.

Notava-se-lhe um ligeiro tremor na voz.

Parecia-me agora que Mrs. Franklin gostava de representar diferentes papéis. Neste momento fazia de esposa leal, heroína sacrificada e devotada a seu marido. Não sei porquê, isso despertou-me uma certa suspeita.

Inclinou-se para diante e pousou a mão sobre o joelho de Poirot.

- John é, realmente... uma espécie de santo. Acredite que isso, às vezes, assusta-me bastante.

Chamar santo a Franklin parecia-me um exagero doentio, mas Bárbara prosseguiu, piscando os olhos emotivamente:

- É capaz de fazer seja o que for, enfrentar qualquer risco, mesmo o pior... só para avançar um passo na senda do conhecimento humano. Ter um homem corajoso, para sacrificar-se pela ciência, é bonito, não acha?

- Seguramente, seguramente! - apressou-se a confirmar Poirot.

- Mas sabe?, às vezes - continuou Mrs. Franklin -, sinto-me horrivelmente nervosa, preocupada com os riscos que toma... como por exemplo essa história da medonha semente em que trabalha agora. Aquilo pode ser desastroso, pois é altamente venenosa, não sei se sabe?, e receio que se atreva a experimentá-la em si próprio.

- Não deixará de tomar as suas precauções - observei, para tranquilizá-la.

Ela abanou a cabeça com um sorriso desolado e respondeu:

- Bem se vê que não conhece John! É uma criança teimosa. Não sabe o que sucedeu... o que fez com aquele novo gás?

Dissemos-lhe que não.

- Era um novo gás cuja acção desejavam experimentar. John ofereceu-se voluntariamente. Sujeitou-se a um teste durante o qual o fecharam, cerca de trinta e seis horas, dentro de um tanque hermético, tomando-Ihe o pulso e a temperatura e verificando-lhe a respiração, só para averiguarem se os efeitos sobre a espécie humana eram similares aos que se produziam na constituição de outros animais. Segundo alguns professores, John correu um risco terrível, pois a experiência poderia ter-lhe afectado o cérebro. Mas John é assim mesmo, completamente alheio à sua própria segurança. Creio que é admirável uma pessoa possuir esse tipo de coragem! Eu nunca seria capaz de uma coisa daquelas... mas, por outro lado, tenho um receio secreto de que possa... numa dessas experiências, atentar involuntariamente contra a sua própria vida. Compreendem-me, não é verdade?

- Na verdade, é preciso ser-se muito corajoso para fazer essas experiências em si mesmo, a sangue-frio - apoiou Poirot.

- Exactamente. Sinto-me imensamente orgulhosa dele mas, ao mesmo tempo, muito receosa com o que lhe possa acontecer. Porque, não sei se sabe que, a dada altura, os testes praticados com cobaias já não são suficientes e exigem-se outros praticados com elementos humanos, para verificar a reacção dos produtos nas pessoas. Geralmente, são os próprios sábios que realizam essas experiências em si próprios. Quando penso que John faz isso, fico absolutamente aterrada. Nunca sei o que lhe possa acontecer. Mas que querem? Ri-se dos meus receios! O pobrezinho é, como vos digo, uma espécie de santo!

Neste momento, Boyd Carrington encaminhava-se na nossa direcção.

- Olá, Babs! Pronta?

- Sim, Bill, à sua espera.

- Espero que não se sinta, depois, muito cansada.

- Decerto que não. Há muito que não me sentia tão bem como hoje.

Levantou-se, dirigiu-nos um sorriso encantador e começou a caminhar ao longo da álea, apoiada no braço do seu alto companheiro.

- Humm! - exclamou Poirot. - Com que então o doutor Franklin é agora um santo moderno!

- Uma rápida mudança de atitude - observei. Mas penso que esta senhora é desse género.

- De que género?

- Gosta de dramatizar e desempenhar diversos papéis. Uma vez queixa-se de ser uma incompreendida, uma mulher sofredora que odeia ser um peso morto, junto do homem que ama. Hoje, é atenta vigilante dos riscos que o santo do marido corre para bem da Humanidade, tremendo pelo que possa vir a acontecer-Ihe. O sarilho com ela é ninguém dar muito crédito aos papéis que desempenha.

Pensativamente, Poirot perguntou:

- Acha que Mistress Franklin é uma mulher idiota?

- Bem, tanto não diria, mas parece-me que não possui um intelecto que se possa considerar brilhante.

- Ah! Vejo que não é o seu tipo! - comentou.

- Quem diabo é o meu tipo? - inquiri aborrecido. Inesperadamente, Poirot sugeriu:

- Feche os olhos, entreabra os lábios e escute o que as Fadas lhe dizem.

Não pude responder-lhe à letra, porque a enfermeira Craven se aproximava correndo, na nossa direcção. Mas não parou. Dirigiu-se ao laboratório, entrou e tornou logo a sair, fechando novamente a porta. Trazia agora um par de luvas nas mãos.

- Primeiro a bolsa e agora as luvas - explicou ao passar por nós, com um lindo sorriso de saudação -, mas ainda não perdeu a cabeça.

Continuou a correr, agora em direcção de Bárbara Franklin, que a aguardava, mais adiante, agarrada ao braço da sua distinta escolta. Boyd Carrington falava-Ihe atenciosamente ao ouvido.

Disse para os meus botões que Mrs. Franklin era do tipo de mulheres que se esquecem de tudo por onde passam. Depois, pedem a toda a gente que se incomode a procurá-las e ainda por cima parecem orgulhosas de que lhas tragam e depositem aos pés. Então, para consolo dos escravos improvisados, lamentam-se: «Ai, esta minha cabeça de vento!»

Fiquei-me a ver a enfermeira Craven correr direita a eles. Fazia-o elegantemente, lançando o corpo para diante, vigorosamente, de forma saudável e atraente.

Instintivamente comentei:

- Aposto que esta garota detesta a vida que leva, sempre amarrada a uma enferma. Vê-se que adora a vida ao ar livre e que a praticou, na meninice. Tem todo o aspecto de ser uma enfermeira à força. E não suponho que Mistress Franklin seja aquilo a que se possa chamar uma doente dócil e agradável.

A resposta de Poirot foi, distintamente, provocadora. Fechou os olhos, balanceou-se ligeiramente na cadeira de rodas e murmurou:

- Cabelos castanhos.

Indubitavelmente a enfermeira Craven tinha cabelos castanhos. Não havia contudo a menor razão para que o meu amigo proferisse tal comentário naquela altura.

Não repliquei.

CAPÍTULO XI

I

Creio que foi na manhã seguinte, antes do almoço, que ocorreu a conversa que me deixou vagamente inquieto.

Estávamos lá quatro do nosso grupo: Judith, Boyd Carrington, Norton e eu.

Não estou agora bem certo da maneira como começámos a falar de eutanásia: teses a favor e contra.

Como era de esperar, Boyd Carrington fez quase toda a despesa da conversa, intervindo Norton com uma ou duas palavras a esse respeito, aqui e além, e Judith mantendo-se silenciosa mas invulgarmente atenta.

Pessoalmente pouco falei, exprimindo uma natural desaprovação basicamente sentimental, mas também por observação do princípio de que os parentes de um indivíduo não podem ter poder de vida e de morte em relação a ele.

Norton concordou comigo, acrescentando que só poderia admitir um acto de eutanásia, desde que autorizado pelo paciente e depois de provado que só a morte poderia aliviá-lo de um sofrimento atroz e prolongado, com a certeza de um falecimento próximo sobre veniente.

Boyd Carrington objectou:

- Ah, mas esse é o ponto que interessa discutir. Terá realmente uma pessoa direito de consentir que o livrem de sofrimento, por meio da morte?

Contou uma história, que afirmou ser autêntica, de um homem que sofria horrivelmente de cancro e que pedira ao médico que lhe ministrasse algo que pusesse termo às suas dores. O médico respondera-lhe: «Eu não posso fazer-lhe isso, meu caro.»

Ao deixá-lo, abandonou sobre a mesa-de-cabeceira do doente várias cápsulas de morfina, explicando-lhe quantas podia ingerir e qual a dose que seria mortal.

Dessa maneira colocou o paciente perante o livre-arbítrio de suicidar-se ou não. Ora, o homem não teve coragem de matar-se.

- Isso prova - concluiu Boyd Carrington -, que, apesar das suas próprias palavras, o doente preferiu sofrer, a uma doce e misericordiosa morte.

Foi então que Judith interveio, abruptamente e com entusiástico vigor:

- Certamente que devia ter sido auxiliado a morrer. Não lhe deviam ter confiado a decisão.

Boyd perguntou-lhe o que queria significar com isso. - Quero dizer que uma pessoa doente e fraca, não tem suficiente poder de decisão para tomar uma atitude tão drástica. Não está racionalmente apta a resolver, sozinha, o seu trágico caso. Alguém teria de ajudá-la. Quem a amasse deveria... teria mesmo o direito de decidir por ela.

- Direito? - inquiri, duvidosamente. Judith virou-se para mim e insistiu:

- Direito, sim. Alguém cujo espírito estivesse lúcido e fosse capaz de tomar a responsabilidade.

Boyd Carrington abanou a cabeça, observando:

- E acabaria na forca, sob uma acusação de homicídio premeditado.

- Não necessariamente - contrariou minha filha -, iríamos correr esse risco. De resto, se amamos verdadeiramente uma pessoa, deveríamos correr esse risco.

- Mas repare, Judith - interveio Norton -, que está a sugerir uma terrível responsabilidade a arrostar.

- Porquê terrível? As pessoas não deviam temer tomar a responsabilidade dos actos que se tornam necessários. Se arrostam essa responsabilidade ao matar um cão, por exemplo, ou um cavalo, porque não, quando se trata de pôr termo ao sofrimento de uma pessoa?

- Bem... os exemplos são imensamente diferentes, não é verdade? O sofrimento de uma pessoa deve ser considerado mais importante do que o de um animal - sentenciou Judith.

Norton murmurou:

- Até me corta a respiração!

Demonstrando franca curiosidade, Boyd Carrington inclinou-se para diante e inquiriu:

- Portanto, no seu caso, correria esse risco?

- Creio que sim. Não tenho medo de correr riscos.

Uma vez mais Boyd abanou a cabeça e criticou:

- Não devia fazê-lo. As pessoas não podem andar por aqui e por ali, a tomarem a Lei nas suas mãos, para decidirem em matéria de vida e de morte.

Norton comentou:

- Sabe que, actualmente, a maioria das pessoas não teriam nervo suficiente para tomar qualquer responsabilidade, não será assim, Boyd Carrington?

Sorriu para Judith e declarou confiante:

- Não acredito que você, apesar do que disse, fosse capaz de chegar tão longe. Os jovens gabam-se facilmente do que seriam capazes de executar mas, chegada a altura própria, acabam sempre por hesitar. Nunca estão seguros de coisa nenhuma.

- Certamente que ninguém pode estar seguro de ser capaz de matar, mas penso que, se necessário, correria o risco.

Com um breve gesto de descrédito, Norton motejou:

- Não acredito que o fizesse, mesmo que tivesse um machado à mão de semear... e também uma razão de interesse pessoal.

Corando de excitação, Judith retorquiu:

- Isso só prova que não percebe nada de emoções humanas. Se eu tivesse... um motivo pessoal, não poderia fazer fosse o que fosse.

Olhando-nos a todos, numa mirada geral, Judith proferiu:

- Não estão a ver que teria de ser um acto absolutamente impossível? Só poderia tomar a responsabilidade de antecipar a morte de uma pessoa, se estivesse inteiramente certa de que nenhuma vantagem me poderia advir dessa morte. Esse acto teria de revestir-se de um carácter totalmente desprovido de egoísmo.

- Vem a dar o mesmo - contrariou Norton. Você nem por pura abnegação seria capaz de matar.

Judith insistiu:

- Seria, sim! Para começar, não considero a vida uma essência sagrada, como a maior parte das pessoas acredita. Vidas nefastas, vidas inúteis deviam ser afastadas do caminho. Já há gente de mais, neste mundo, que só serve para prejudicar os outros. Só aqueles que podem contribuir decentemente para o bem da comunidade deveriam ser autorizados a viver. Os outros deveriam ser eliminados misericordiosamente, sem sofrimento.

Voltando-se subitamente para Boyd Carrington desafiou:

- Concorda comigo, não é verdade? Calmamente, Boyd respondeu:

- Em princípio, sim. Só os bons deveriam sobreviver.

- E seria capaz de tomar a Lei nas suas mãos, se fosse necessário?

Cautelosamente, Boyd arriscou:

- Talvez... não sei.

Foi a vez de Norton se manifestar:

- Em teoria, muita gente concordaria consigo, mas, na prática, muito poucos teriam coragem para fazê-lo.

- Isso não é lógico - contrariou Judith. Norton retorquiu com impaciência:

- Evidentemente que não é lógico. É realmente uma questão de coragem, mas nem todos têm «ganas» de pô-la em execução, como vulgarmente se diz.

Judith manteve-se silenciosa, mordendo os lábios, enquanto Norton prosseguia:

- Você bem sabe, Judith, que no momento preciso, faltar-lhe-ia a coragem para matar.

Virou-se para mim e solicitou a minha aprovação:

- Não pensa o mesmo?

- Estou certo disso - afirmei. Boyd interveio.

- Creio que está enganado, Norton. Penso que Judith tem imensa coragem. Felizmente que esse caso não se nos apresenta neste momento.

O gongo soou no fundo da casa.

Judith ergueu-se. Muito distintamente, declarou para Norton:

- Está muito enganado, sabe? Muito enganado! Tenho muito mais ganas do que pensa.

Encaminhou-se lentamente para a sala de jantar, pensativa.

Boyd Carrington seguiu-a de perto, aconselhando:

- Não pense mais nisso, valeu?

Fui atrás deles, angustiado. Norton, sempre pronto a dizer uma palavra contemporizadora. murmurou:

- Ela não quis dizer, na realidade, o que esteve para ali a afirmar. E o género de atitude que os jovens gostam de tomar para se fazerem interessantes. No fundo, tudo aquilo não passa de fogo-de-artifício, palrador, sem qualquer significado especial. Pode crer que é assim mesmo, Hastings.

Embora tivesse falado baixo, Judith lançou-lhe um olhar de relance, por cima do ombro, carregado de fúria.

Elevando a voz, Norton sentenciou: - Não vale a pena preocuparmo-nos com teorias.

Subitamente, pegou-me num braço e disse:

- Olhe uma coisa, Hastings...

- Sim?

Norton mostrava-se agora embaraçado e hesitou antes de perguntar:

- Que sabe você de Allerton? Não gosto de falar nos outros, mas...

- De Allerton?

- Sim. Desculpe. Não gosto de armar-me em conselheiro mas, se fosse a si, não deixaria a sua garota andar, por aí, tanto com ele. O homem tem... bem, a sua reputação não é das melhores.

- Já percebi o género desse cavalheiro - admiti -, mas sabe que, nos nossos dias, não nos é fácil intervir.

Após uma breve hesitação, confidenciou:

- Oiça, Hastings, creio que devo avisá-lo. Não o deixe ir muito longe. Acontece que sei alguma coisa acerca dele...

Contou-me várias coisas e tive oportunidade de verificar, mais tarde, serem verdadeiras em todo o seu pormenor. Era uma história revoltante. O caso de uma rapariga, muito segura de si, moderna e independente que Allerton tivera artes mágicas de desencaminhar. O romance terminara em tragédia, com a moça a pôr termo à vida com uma dose excessiva de veronal.

E o mais horrível da história era a sua heroína parecer-se extraordinariamente com a minha Judith. A mocinha independente de ideias avançadas. O género de jovem que, quando entrega o coração, fá-lo intensamente, com o abandono e desespero de que só esse tipo de miúdas é capaz.

Fui almoçar com uma horrível sensação de impotência e revolta concentrada.

CAPÍTULO XII

- Tem alguma coisa que o apoquente, mon ami - perguntou Poirot, nessa tarde.

Limitei-me a sacudir a cabeça, em vez de responder.

Senti que não tinha o direito de incomodar Poirot com esse problema, puramente pessoal, que só a mim dizia respeito. Para todos os efeitos, não era assunto em que pudesse ser-me útil.

Mesmo que o meu amigo estivesse na disposição de falar com Judith, ela ouvi-lo-ia com o sorriso superior, ou benevolente, que os jovens afivelam no rosto para acolher os aborrecidos conselhos dos velhos.

Judith, minha Judith...

É difícil descrever agora o que nesse dia me passou pela mente. Pensando nisso, a posteriori, estou inclinado a atribuir parte da perturbação à própria atmosfera de Styles. Ali, as ideias do Diabo penetravam facilmente na nossa imaginação. Não havia unicamente um trágico passado, mas também um presente sinistro.

O espectro de um assassínio e um assassino assombravam a casa.

Acreditava que Allerton era o criminoso encapotado e que Judith ia entregar-lhe o coração. Era inacreditável... monstruoso... e eu não sabia que fazer.

Foi depois do almoço que Boyd Carrington veio ter comigo. Andou um pouco à volta do assunto, até decidir dizer-me:

- Não pense que quero interferir nos seus atributos, mas penso dever falar-lhe na sua pequena. Diga-Ihe uma palavra de aviso, hem? Você sabe, esse tipo, Allerton, tem uma péssima reputação e ela... bem, parece que está, de certo modo, tocada.

Como era fácil, para esses homens sem filhos aconselharem: «Diga-lhe uma palavra!»

Serviria isso de alguma coisa? Não seria ainda pior?

Se ao menos Cinders fosse viva e estivesse ao pé de mim! Decerto saberia que dizer e fazer.

Sentia-me tentado a aguardar mais um dia ou dois, na expectativa, sem desafiar a tempestade, mas reflecti e concluí que isso não seria mais do que um acto de comodismo ou cobardia. Receava, ao mesmo tempo, enfrentar mais uma situação desagradável de desrespeitosa rebeldia. Como podem ver, estava com medo da minha própria filha.

Tentei espairecer um pouco o espírito, oferecendo-me um passeio pelo jardim, quando vi Judith sentada sozinha num banco. Era como se o Destino me conduzisse até ela, naquele momento.

Nunca na minha vida tinha visto uma expressão de tanto desalento e infelicidade num rosto de mulher.

Enchi-me de coragem e dirigi-me para ela. Não me ouviu aproximar, até ao momento em que me sentei a seu lado.

- Judith - disse-lhe suavemente -, pelo amor de Deus, não estejas tão apreensiva. Pensas de mais, sabes?

Virou-se para mim, quase assustada com a minha aparição. - Pai, não o ouvi chegar!

Prossegui, conquanto tivesse a noção de que a minha diligência seria baldada se ela se rebelasse, como de costume, repudiando o menor conselho.

- Oh, minha muito querida Judith, não penses que não sei aquilo que está diante dos meus olhos. Ele não merece isto, acredita-me, meu amor. Ele não merece isso.

O seu rosto alarmado virou-se para mim. Calmamente perguntou:

- Sabe realmente do que está a falar?

- Certamente que sei. Estou profundamente preocupado com esse homem. Mas minha querida, podes crer que não te serve.

Sorriu sombriamente e murmurou:

- Talvez eu saiba isso tão bem como o pai.

- Não, não sabes. Não podes sabê-lo. Onde é que isso pode levar-te? É um homem casado. Não pode proporcionar-te o menor futuro; apenas tristeza e vergonha; finalmente, amargura e recriminações mútuas.

O seu sorriso tornou-se glacial, talvez mais triste ainda.

- Como está eloquente, esta manhã!

- Põe essa ideia de parte, Judith! Não penses mais nisso.

- Não.

- Ele não te serve, meu amor. Muita calma, respondeu surdamente:

- É tudo quanto desejo neste mundo.

- Não, não Judith. Suplico-te.

O sorriso desvaneceu-se-lhe nos lábios. Virou-se para mim furiosamente e desfechou:

- Como se atreve? Como se atreve a interferir na minha vida! Não o tolero. Nunca torne a falar-me nesses termos. Detesto-o! Odeio-o! Não tem nada com isso. E a minha vida... o meu segredo.... a minha alma.

Levantou-se e, com uma mão firme, empurrou-me o ombro para trás. Passou pela minha frente, como que desvairada, e deixou-me estarrecido a olhar para ela, profundamente desalentado.

II

Durante mais de um quarto de hora permaneci no mesmo local, mergulhado nos mais contraditórios pensamentos. Que resolução tomar?

Foi aí que Elizabeth Cole e Norton vieram encontrar-me.

Mostraram-se, como concluí mais tarde, imensamente amáveis comigo, o que prova terem-se apercebido de que me achava num estado de grande perturbação mental.

Contudo, com muito tacto, não fizeram a mais ligeira alusão ao que pressentiam no meu espírito conturbado. Arrastaram-me num passeio pelo bosque e mostraram-se ambos grandes adoradores da natureza. Elizabeth Cole apontava-me as flores: Norton, as aves.

Falavam gentilmente e, pouco a pouco, readquiri a calma.

Subitamente, porém, Norton, com o binóculo assestado, exclamou:

- Olá! Aquilo não é um pica-pau? É a primeira vez...

Calou-se bruscamente mostrando-se claramente comprometido.

A suspeita invadiu-me e estendi as mãos para o instrumento.

- Deixe-me ver...

A minha voz foi peremptória, mas Norton encolheu-se e articulou titubeante:

- Eu... eu... enganei-me. Já voou de onde estava. De resto, era um pássaro vulgar.

O seu rosto estava tão perturbado que, noutra situação, ter-me-ia parecido ridículo. Mostrava-se simultaneamente envergonhado e assustado.

Não havia dúvida que acabara de presenciar algo que desejava impedir-me de ver.

Só então me apercebi de que assestara o binóculo numa direcção desviada do bosque, após ter feito a sua inicial descoberta.

- Deixe-me ver - insisti, mais ordenando do que pedindo.

Praticamente tirei-lhe o binóculo. Recordo-me de que tentou ainda recusar-mo. Protestou em voz sumida:

- Não é nada. O pássaro já voou.

Era um instrumento de lentes poderosas. Levei-o aos olhos e apontei-o na direcção da última mirada de Norton.

Mas nada consegui ver, além de uma mancha branca desaparecendo entre as árvores. O vestido branco de uma rapariga?

Baixei o binóculo e, sem uma palavra, estendi-o a Norton.

Confuso e perplexo, evitou olhar para mim, como se tivesse praticado uma acção condenável.

Voltámos para casa e recordo-me de que Norton manteve-se todo o caminho num absoluto mutismo.

III

Mrs. Franklin e Boyd Carrington chegaram pouco tempo depois de termos entrado em casa. Ele levara-a no carro, até Tadcaster, porque ela desejara fazer algumas compras.

Podia apostar que o passeio lhe fizera imensamente bem. Tiraram numerosos volumes de dentro do carro e Mrs. Franklin mostrava-se deveras animada, gesticulando e rindo, com magníficas cores nas faces.

Mandou Boyd, à frente, com uma compra qualquer que devia ser frágil, e galantemente encarreguei-me de transportar outro grande embrulho.

Bárbara falava mais apressada e nervosamente do que de costume!

- Calor terrível, não é verdade? Receio que venha aí tempestade.

Virou-se para Elizabeth Cole:

- Que fizeram vocês, durante todo o dia? Onde está John? Ele disse-me que estava com dores de cabeça e que ia dar um passeio para ver se lhe passava. Uma dor de cabeça é sempre desagradável, especialmente para ele... Não sei se sabem que anda muito preocupado com as suas experiências. Parece que estão a correr-lhe mal. Gostaria que falasse mais de outros assuntos.

Fez uma pausa e, em seguida, dirigiu-se a Norton:

- Está muito calado, Mister Norton. Aconteceu alguma coisa? Parece... parece abismado! Viu o fantasma dessa velha Mistress Qualquer-Coisa?

Norton gaguejou:

- Na-ão, Mistress Frank-klin. Não vi fantasma algum. Eu... estava apenas a pensar num problema sem importância.

Foi nesse momento que Curtiss entrou, empurrando a cadeira de rodas de Poirot.

Parou no átrio e ia preparar-se para tirar Poirot da cadeira e carregar com ele, escada acima, quando o velho detective inquiriu de repente:

- Que se passou? Aconteceu alguma coisa?

Os seus olhos brilhavam, perscrutando as fisionomias das pessoas presentes.

Durante um minuto, ninguém respondeu. Depois Bárbara Franklin soltou um risinho artificial e disse:

- Não, nada de especial. Creio que é da tempestade que se avizinha. Oh, Céus! Estou tremendamente cansada! Traga-me essas coisas cá para cima, sim, capitão Hastings. Muito obrigada.

Segui-a carregado, pelas escadas da ala oriental. O seu quarto era o último desse lado.

Mrs. Franklin abriu a porta, comigo atrás dela, com os braços carregados de embrulhos.

Bruscamente, estacou à entrada. Boyd Carrington estava de pé, junto à janela, e a enfermeira Craven pegava-lhe na mão.

Estava a ler-lhe a sina.

- Olá! - saudou ele com um sorriso ligeiramente contrafeito. - Estava a descobrir o meu destino. A enfermeira Craven é quiromante, sabia? Mas ainda não me disse o que mais me interessa.

- Realmente, lê a sina? Não fazia a menor ideia - disse Bárbara Franklin, num tom de voz cortante.

Virou-se para ela com certa brusquidão e ordenou:

- Pegue nestas coisas, se não se importa, enfermeira. E bata-me um ovo com porto, sim? Sinto-me muito cansada. Quero também uma botija de água quente. Irei para a cama o mais cedo possível.

- Certamente, Mistress Franklin.

A jovem apressou-se a desempenhar a sua missão não denunciando outro sentimento que não fosse o da complacência profissional.

Então, Bárbara Franklin pediu:

- Por favor, vá-se embora, Bill, sim? Estou terrivelmente exausta.

Boyd Carrington pareceu contristado e aquiesceu:

- Oh, Babs! Certamente. O passeio deve ter sido demasiado esgotante para si! Lamento imenso! Que pateta fui em tê-la cansado dessa maneira!

Mrs. Franklin lançou-lhe um olhar de mártir, angelical.

- Não devia dizer-lhe nada, Bill. Detesto ser desmancha-prazeres. Boyd e eu saímos do quarto, deixando as duas mulheres juntas. No corredor, censurou-se:

- Que parvo que fui. Vi-a tão alegre e viva, durante o passeio, que me esqueci do seu estado de saúde. Espero que não sofra uma recaída.

Mecanicamente animei:

- Verá como ficará óptima, após uma noite de descanso.

Enquanto o vi descer as escadas, hesitei no rumo a tomar, até que me decidi a dirigir-me ao fundo do corredor, onde se situavam os quartos de Poirot e o meu.

O homenzinho devia estar à minha espera, mas, pela primeira vez, senti certa relutância em ir ter com ele. Estava preocupado com os meus pensamentos e sentia uma dor aguda no estômago.

Caminhei vagarosamente ao longo do corredor.

Ao passar pelo quarto de Allerton ouvi vozes, e, instintivamente, abrandei o passo. Então, subitamente, a porta abriu-se e minha filha saiu.

- Que estavas a fazer nesse quarto? - inquiri zangado.

Fitou-me silenciosa. Não se enfureceu mas evidenciou a maior frialdade. Durante alguns segundos não respondeu.

Abanei-a por um braço, levei-a para o meu quarto e disse-lhe:

- Tenho direito a uma resposta. Não sabes o que estás a fazer.

Finalmente, comentou:

- Vejo que tem uma mentalidade absolutamente ultrapassada.

- E honro-me disso - retorqui-lhe. - Pelo menos, respeitamos certos padrões de vida. Quero que compreendas isto, Judith: proíbo-te que tenhas mais relações com esse homem.

- Ah! E então isso? - perguntou calmamente.

- Negas estar apaixonada por ele?

- Não.

- Mas não sabes que espécie de homem é. Não podes saber.

Deliberadamente, sem rodeios, contei-lhe a história que ouvira, nessa tarde, a respeito de Allerton. - Estás a ver a espécie de homem que é? - inquiri, no final.

- Nunca tive dúvidas a esse respeito - replicou ela. - Posso assegurar-lhe que nunca pensei que fosse um santo.

- Não te faz diferença, Judith, tornares-te numa depravada?

- Chame-lhe isso, se assim o entender.

- Judith, tu não és... Tu não tens...

Não encontrei as palavras que exprimissem justamente a minha indignação. Ela libertou o braço da minha mão e declarou:

- Oiça, pai. Eu estou no meu direito de fazer o que escolho. Não pode impedir-mo. Farei exactamente da minha vida o que me apetecer e não poderá deter-me.

No instante imediato saiu para o corredor.

Senti os joelhos tremerem.

Afundei-me numa cadeira. A situação era pior... muito pior do que imaginara. A criança rebelde parecia obcecada em perder-se. Não havia ninguém que pudesse acorrer em meu auxílio, em seu auxílio. Sua mãe, a única pessoa a quem ela poderia dar ouvidos estava morta. Tudo dependia agora de mim.

Não creio que tenha sofrido tanto, como sofri naquele momento.

IV

Reuni todas as minhas forças psíquicas para recuperar a presença de espírito e acalmar. Precisava de manter-me aparentemente tranquilo. Lavei-me e barbeei-me para jantar. Devo ter conseguido readquirir as minhas maneiras naturais, pois ninguém deu mostras de notar qualquer diferença na minha atitude.

Por uma ou duas vezes vi Judith dirigir-me um olhar de relance. Devia estar siderada pela forma como me mostrava normal e sossegado.

E, cada segundo que passava, mais se avolumava a minha determinação.

Tudo quanto agora precisava era de coragem e raciocínio.

Depois do jantar saí para o jardim e contemplei o céu. A atmosfera compacta prenunciava chuva, trovoada, tempestade.

Pelo canto do olho, vi Judith desaparecer na esquina da casa. Momentos depois, Allerton seguia na mesma direcção.

Acabei o que estava a dizer a Boyd Carrington e tomei o mesmo caminho.

Julgo que Norton tentou deter-me, segurando-me o braço. Propôs-me ainda dar uma volta para os lados do roseiral. Agi como se não o tivesse ouvido.

Ainda me acompanhava, quando dobrei a esquina da mansão.

Lá estavam eles. Não pude ver o rosto de Judith porque estava virada de costas para o nosso lado e naquele local não havia luz, e o céu estava completamente encoberto. Mas distingui o vulto de Allerton inclinar-se sobre ela e beijá-la.

Separaram-se rapidamente, como se nos pressentissem. Ainda dei um passo para diante, mas desta vez, com uma força de que eu não o julgava capaz, Norton segurou-me e fez-me contornar de novo o canto da casa.

Falando baixo, mas com decisão, disse-me:

- Escute lá. Não pode fazer isso... Interrompi-o, ameaçador:

- Posso e hei-de fazê-lo.

- Não serve de nada, meu amigo. Alivia momentaneamente a raiva, mas já não há nada que possa fazer.

Fiquei calado. Ele podia realmente pensar que era um caso perdido, mas eu sabia qual a melhor solução para uma situação daquelas.

Norton persistia na sua tentativa de dissuasão:

- Sei como se deve sentir, revoltado e impotente, mas a única coisa que lhe resta é aceitar a derrota. Aceite-a, homem!

Não o contradisse. Esperei, deixando-o falar à vontade. Depois, dobrei novamente a esquina da casa.

Tinham ambos desaparecido, mas fiquei com uma ideia do local para onde teriam ido. Havia uma outra casa de Verão, entre uns canteiros de lilases, não muito longe dali.

Avancei nessa direcção, com Norton sempre colado aos meus ombros. Quando me acerquei ouvi a voz de Allerton e estaquei.

- Bem, minha querida. Está então combinado dizia ele. - Não faça mais objecções. Você vai à cidade, amanhã. Pelo meu lado, irei até Ipswich e ficarei em casa de um amigo, por uma noite ou duas. Então, você telefonará de Londres a informar que não pode regressar. Quem poderá saber desse encantador jantarinho no meu apartamento? Prometo-lhe que não se arrependerá.

Senti Norton pressionar-me o braço procurando fazer-me retroceder. Então, repentinamente, virei-me para ele. Quase lhe ri na cara, ao notar a profunda ansiedade estampada na sua expressão. Mansamente, deixei-o reconduzir-me a casa. Simulei desistir de qualquer tomada de atitude, visto, naquele momento, estar certo do que conviria fazer... do que iria fazer.

Disse-lhe claramente:

- Não se preocupe, meu caro. Já compreendi que não há nada que eu possa resolver. Ninguém pode controlar a vida dos jovens... É escusado... Só reconhecem os erros, depois de sofrerem-nos, na própria alma.

Mostrou-se-me ridiculamente aliviado. Pouco tempo depois, anunciei-lhe que ia deitar-me mais cedo.

- Estou com uma estúpida dor de cabeça - justifiquei.

Norton não teve a menor suspeita do que eu ia fazer.

V

Parei um instante no corredor. Não havia ninguém nas proximidades. As camas estavam já abertas para os hóspedes se deitarem. Norton, que tinha o quarto desse lado, ficara no andar de baixo. Miss Cole estava a jogar brídege. Sabia que Curtiss estava na cozinha a cear. Tinha o terreno livre, à minha disposição.

Congratulei-me pelo facto de não ter trabalhado, em vão, tantos anos com Poirot. Sabia quais as precauções a tomar e de uma coisa estava agora certo: Allerton não iria encontrar-se com Judith no dia seguinte. Tudo o mais era ridiculamente simples. Fui ao meu quarto buscar um frasco de aspirinas. Seguidamente dirigi-me ao quarto de Allerton e entrei na sala de banho.

As cápsulas de Slumberyl estavam na prateleira. Considerei que oito seriam suficientes, já que duas era a dose máxima que qualquer organismo poderia suportar. O próprio Allerton dissera-me que o seu efeito era altamente tóxico e o rótulo anunciava: «E perigoso exceder a dose prescrita.»

Utilizando um lenço para pegar no frasco, desrolhei-o. Era necessário que as minhas impressões digitais não ficassem impressas em parte alguma.

Esvaziei oito cápsulas de hipnótico e troquei-as com outras oito de aspirina. Como ambos os tipos de comprimidos se assemelhavam, ninguém notaria a troca. Coloquei o frasco, exactamente, onde o tinha encontrado. Allerton não poderia dar pela diferença.

Regressei ao meu quarto, peguei em dois copos, na minha garrafa de uísque e no sifão. Nunca Allerton recusara beber um copo. Quando subisse, desafiá-lo-ia a acompanhar-me numa bebida, antes de nos deitarmos. Dissolvi facilmente as cápsulas de Slumberyl e achei-a um pouco mais amarga do que o da bebida pura, mas pouco diferençável. Tinha o meu plano: quando Allerton subisse, ver-me-ia servir inocentemente uma bebida para mim próprio. Oferecer-lha-ia com a maior naturalidade, acrescentando a dose de uísque e juntando-lhe a água gasificada. Passar-lhe-ia esse copo que me estava, aparentemente, destinado e encheria uma dose similar para mim. Fácil e natural.

Não poderia suspeitar dos meus sentimentos a seu respeito, a menos que Judith lhe tivesse transmitido a nossa conversa. Considerei essa hipótese, mas parti do princípio que Judith nunca falaria do assunto a mais ninguém.

Apenas me restava esperar. Talvez faltasse ainda uma hora ou duas, antes que Allerton subisse para deitar-se. Era bastante ave nocturna.

Sentei-me calmamente e aguardei.

Bateram à porta. Era Curtiss que vinha da parte de Poirot. Pedia-me que desse lá um salto.

Senti remorsos. Na verdade, não pensara nele durante toda a noite, pelo menos, em visitá-lo. Agora não poderia deixar de acorrer ao seu chamamento, tanto mais que não desejava levantar a mínima suspeita acerca dos meus desígnios.

Segui Curtiss e ao entrar no quarto do meu amigo, este saudou:

- Eh bien! Com que então, desertou, hem, Hastings?

Desculpei-me com o melhor dos meus sorrisos e aleguei uma forte dor de cabeça. Imediatamente solícito, Poirot ofereceu-me os seus remédios. Recusei a aspirina que me quis fazer ingerir, explicando-lhe que já tomara um comprimido, mas não pude furtar-me a engolir uma chávena do seu enjoativo chocolate.

- Restabelece os nervos, compreende? - explicou Poirot.

Bebi para mostrar-lhe que aceitava o argumento. Momentos depois, ainda com as exclamações de afeição do meu amigo a soarem-me aos ouvidos, fui ansiosamente para o meu quarto.

Mal entrei, fechei a porta ostensivamente. Em seguida, tornei a abri-la, sem ruído. Poirot ficaria convencido de que tencionava efectivamente deitar-me, mas, na realidade, eu não queria, de modo algum deixar passar Allerton, sem dar por ele. Teria contudo de esperar ainda um bom pedaço.

Sentei-me e pus-me a pensar na minha falecida mulher. Surpreendi-me a murmurar com os meus botões:

- Compreendes, querida. Vou salvá-la.

Cinders deixara Judith ao meu cuidado. Não queria falhar na única missão que me confiara.

No silêncio expectante que me envolvia, sentia-a muito perto de mim.

Ali fiquei à espera, meditando, no sofá, junto à porta.