Capítulos de história dos comunistas no Brasil
Introdução: Por que uma história dos comunistas brasileiros?
Introdução: Por que uma
história dos comunistas
brasileiros?
Carlos Zacarias de Sena Júnior
Surgido de uma conferência proferida em 1996 no Isaac Deutscher Lecture, “Podemos escrever uma história da Revolução Russa?”, artigo de Eric Hobsbawm presente na coletânea de ensaios Sobre história, começa por prestar homenagens ao historiador polonês, autor da magistral trilogia sobre Trotsky – O profeta armado, O profeta desarmado e O profeta banido. Através do texto, escrito poucos anos após a queda do Muro de Berlim e da desagregação da União Soviética, Hobsbawm apresenta a premissa de que “cada geração faz suas próprias perguntas novas sobre o
passado”.1
A obra de Hobsbawm é bastante conhecida no Brasil, principalmente a sua trilogia das “eras” – das revoluções, do capital, dos impérios –, mas também seus diversos livros e artigos que passam em revista as aventuras e desventuras da nossa
modernidade.2 Partindo do postulado enunciado acima, sobre o qual não temos nenhuma oposição, Hobsbawm aventa a hipótese de que, embora ainda estejamos longe de termos arrefecidas das paixões despertadas pela Revolução Russa, seria possível alcançarmos o ponto em que a “temperatura” em torno deste debate venha a se abrandar, se aproximando dos níveis das polêmicas que envolvem, por exemplo, a Reforma Protestante.
Hobsbawm faz alusão à parcialidade das conclusões relativas a problemas que permanecem em curso e que, incontornavelmente, despertam paixões ideológicas, para se perguntar “sobre o que podem legitimamente concordar os historiadores da Revolução
Russa?”. 3 Ou seja, seria possível extrairmos algum nível de consenso sobre um acontecimento que dividiu a história do século XX e que continua sendo terreno de disputas acirradas no campo da memória e da história? Para responder a tais questões Hobsbawm faz sucessivas e importantes incursões sobre a história contrafactual para concluir, entre outras coisas, que a Revolução vingou na Rússia como não poderia ter vingado em nenhuma outra parte do mundo e que, talvez, uma Rússia democrática tivesse sido mais
bem sucedida do que o regime dos bolcheviques. 4
Pode parecer surpreendente que o grande historiador marxista britânico, ex-militante do Partido Comunista da Grã-Bretanha (PCGB), estivesse disposto a corroborar com certas teses sobre a validade universal da democracia ou acerca da superioridade deste regime sobre a “ditadura do proletariado”. Não obstante, uma leitura atenta nos faz crer que é exatamente isso que faz Hobsbawm ao promover concessões a uma historiografia hostil ao marxismo e ao legado de Lenin, ainda que, aqui e ali, não ceda às tentações revisionistas que propõem a “tese da continuidade” que atribui ao dirigente bolchevique a responsabilidade pelo stalinismo.
Se são conhecidos os textos do historiador britânico, é bastante improvável que os brasileiros tenham tido notícia da obra do historiador norte-americano Kevin Murphy. Apresentado aos brasileiros em um artigo publicado na Revista Outubro em 2008, Murphy é um importante historiador social da Revolução Russa, como são também: Alexander Rabinowich, Lars Lih, Stephen Cohen, Steve Smith, Terry Martin, Jeferry Rossman, Lyanne Viola,
entre outros desconhecidos entre nós.5 Tais autores são utilizados por Murphy para desenvolver uma polêmica contra as posições expressas por Hobsbawm em torno das possibilidades de se escrever uma história da Revolução Russa e, mais do que isso, em torno das controvérsias políticas que a história permanece ensejando quanto ao tema das revoluções. O artigo de Murphy, que tem título homônimo ao de Hobsbawm, foi preparado a partir de uma conferência enquanto o estadunidense recebia o prêmio Tâmara e Issac Deutscher pelo seu livro Revolution and
counterrevolution: class struggle in a Moscow Metal Factory 6 .
Murphy e Hobsbawm, embora marxistas, assumem posições distintas quanto ao tema relativo à historiografia sobre a Revolução Russa, pois, para o historiador norte-americano, o britânico assumiu uma perspectiva inconsistente em sua abordagem produzida depois da queda da União Soviética, ecoando perguntas feitas pela historiografia conservadora e anticomunista. Para afirmar sua posição, Murphy cita a deferência com que Hobsbawm se refere à obra de Orlando Figes, A tragédia de um povo, publicada no Brasil pela editora Record, apenas três anos depois da edição britânica
original.7
Murphy evoca as obras clássicas dos marxistas, como a História da Revolução Russa, de León Trotsky, e O ano I da Revolução Russa, de Victor Serge, além de obras de outros marxistas, não contemporâneos dos episódios de 1917 e que foram além da Revolução Russa, como Pierre Broué, Tony Cliff e Ernest Mandel, para reivindicar uma tradição que, segundo historiador estadunidense, permanece insuperada, mesmo no sentido
historiográfico e acadêmico do termo. 8
Escrevendo há dez anos do texto de Hobsbawm, Murphy avaliou que as expectativas produzidas em torno da abertura dos arquivos da ex-União Soviética não chegaram a desmentir o que já se conhecia sobre a Revolução Russa e a própria União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), de maneira que conclui que o caminho tomado pela historiografia no presente, caracteriza-se por um desvio ideológico, pois caso se tratasse de uma questão de fontes e de novas evidências históricas, “a interpretação padrão da Revolução Russa estaria avançando pela esquerda, em direção à interpretação marxista clássica” e não o contrário. Para Murphy, os problemas relativos à interpretação acadêmica do fenômeno revolucionário, muito especialmente da Revolução Russa, nunca se relacionaram “à falta de acesso fontes”, mas foram, principalmente, problemas políticos, pois “[r]evoluções inevitavelmente evocam
partidarismos”.9
A esta altura o leitor deve estar se perguntando sobre o porquê de não haver traduções entre nós de obras da historiografia social e marxista norte-americana ou de qualquer outra parte do planeta que apresente simpatias pela Revolução Russa, por Lenin, por Trotsky e pelos bolcheviques. Em contrapartida, o que pareceria improvável em se tratando de leitores de um livro que trata dos comunistas, alguém poderia se perguntar sobre por que se deve escrever a história dos comunistas brasileiros. De uma forma ou de outra, vale à pena discutir um pouco as características do nosso mercado editorial relativo ao tema das revoluções, dos partidos e movimentos de esquerda e dos comunistas.
Como muitos devem saber, proliferam no Brasil edições de aberto teor anticomunista, como o citado livro de Orlando Figes, que logo ganhou edição brasileira, apesar das suas mais de mil páginas. Outro exemplo elucidativo desse viés são as obras do professor da Universidade da Flórida, Robert Gelatelly, Lenin, Stalin e Hitler: a era da catástrofe social (2010), além dos franceses O livro negro do comunismo (1999) e Cortar o mal pela raiz. História e memória do comunismo na Europa (2006), organizadas por Stéphane
Courtois. 10 Ao lado dessas traduções, a obra de Richard Pipes, acadêmico especializado na URSS e assessor da presidência dos Estados Unidos da América (EUA) para assuntos soviéticos, entre outras obras herdeiras da “sovietologia” anticomunista que fazem a festa dos interessados pela literatura ainda inspirada nos tempos da
Guerra Fria. 11
O fato é que os ventos do mercado editorial sopram tanto para os lados da viabilidade comercial quanto para os lados dos interesses ideológicos que estes podem conter, de maneira que ao lado das publicações que aspiram disputar seriamente os leitores, como algumas das obras descritas acima, editadas por conhecidos historiadores acadêmicos ou respeitados especialistas em relações internacionais, inundam as prateleiras das livrarias obras sobre curiosidades históricas, ou sobre a vida íntima e privada de famosos, caracterizando uma historiografia de baixa qualidade, mas de grande apelo comercial.
O efeito colateral de todo este movimento é que talvez se possa dizer que a historiografia no Brasil parece ter alcançado a maturidade comercial encontrada em países da Europa e também nos Estados Unidos, onde a história acadêmica disputa o grande público com edições preparadas por historiadores ou jornalistas sem muito critério metodológico ou apreço pela verdade. Tal movimento levou muitos historiadores a renunciarem ao discurso de que a história tem qualquer função social, abrindo espaço para a imagem que os historiadores pouco ou nada podem nos dizer sobre o presente.
No caminho oposto, os discursos sobre o passado assumem a função de anatemizar as lutas e as revoluções, que passam a ser
tomados como anomalias que se deve execrar.12 A propósito, entre os livros de não-ficção mais vendidos no Brasil estão o Guia politicamente incorreto da História do Brasil, e seus sucedâneos Guia politicamente incorreto da História da América Latina e Guia politicamente incorreto da História do mundo, do jornalista Leandro Narloch, o segundo escrito em coautoria com Duda Teixeira, que se empenham firmemente em “denunciar” o que lhes parecem ser os mitos de uma historiografia dominada pelos marxistas, com
propósitos políticos esquerdizantes.13 Além dessas obras, textos como 1808, 1822 e 1889, de Laurentino Gomes da Silva, também jornalista, continuam despertando o interesse a curiosidade do leitor por aspectos supostamente bizarros ou tragicômicos do nosso
passado. 14
Não fosse pelo fato de que alguns investigadores sérios se arvoram a elogiar este tipo de historiografia, poderíamos ignorar tais autores, que não teriam muito a nos dizer sobre o passado. Todavia, quando uma parcela de historiadores sente-se pressionado pelo grau de espetacularização alcançado pela história vendida no mercado, havemos de refletir mais de perto sobre o que ganhamos e o que perdemos com a popularização da história nos termos que
esta se apresenta atualmente.15
Entre as coisas que ganhamos com a vulgarização da história estão as revistas vendidas nas bancas. De certo modo, a tentativa de aproximar a historiografia acadêmica do público leitor mais vasto através de textos escritos na medida do interesse do senso comum e em linguagem acessível, é, sem sombra de dúvida, uma das grandes aquisições da história nos últimos anos. É verdade que aqui e ali se pode perceber algum exagero quando os periódicos descabam para temas que atiçam o gosto duvidoso pelo bizarro, pelo curioso e pela intimidade dos personagens do passado. Sobre o assunto, uma das mais importantes revistas de história vendidas nas bancas, a Revista de História da Biblioteca Nacional, já dedicou dossiês à domesticação dos bichos, às amantes, às sociedades secretas, à astrologia e a outros temas antes pouco acessados pelos historiadores. Em contrapartida, não se viram dossiês sobre o mundo árabe, relacionados a temas tão quentes como a chamada Primavera Árabe, à crise econômica capitalista, às guerras imperialistas ou às formas de contestação da ordem que alcançaram o planeta nos últimos anos. Também, não se viram edições especiais dedicadas aos comunistas no Brasil nos 90 anos da fundação do PCB. O que se viu foram números que, aspirando trazer ao público temas tradicionais da história sem o cuidado devido, acabaram por provocar a ira dos historiadores dedicados ao
assunto. 16 Se é verdade que se trata de uma opção editorial, não se pode negar que uma revista consolidada, caso pretenda respeitar os seus leitores, deve, também, dedicar suas páginas aos temas tidos por tradicionais da história.
De outro lado, não se pode negar que ganhamos alguma coisa quando sentimos a necessidade de romper os casulos de uma historiografia petrificada para fazer boa história, sem medo do debate com outras formas de abordagem e sem uma negação a priori. Já se disse alhures, que não se pode fazer boa política fazendo má história. A premissa, verdadeiramente necessária, como recurso de condenação de uma historiografia que fazia dos seus compromissos ideológicos o horizonte único da observação do passado, serve para reforçar a perspectiva acerca de qual herança os historiadores devem renunciar. Com efeito, ao criticar uma história-tradição exercida pelo oficialismo dos partidos comunistas, que faziam do “culto reacionário do passado” uma forma de celebração das vitórias e escamoteamento das heranças estorvantes, Georges Haupt aponta para as mazelas de uma história utilitária que só funciona como instrumento de legitimação
do presente. 17
Não obstante, à parte a história-tradição referida por Haupt, a história do movimento operário, dos partidos e movimentos de esquerda, incluindo-se a história dos comunistas, foi, pioneiramente, objeto de investigação de historiadores engajados, fundamentalmente de marxistas de conhecidas inserções partidárias. Assim, como fugir aos compromissos últimos da transformação do mundo que exigem um permanente esforço de análise do passado como recurso pragmático à política do presente? Seria possível se fazer uma história isenta de partidarismos? Por que se deve escrever uma história dos comunistas e por que essa história não poderia ser escrita por militantes?
De acordo com Eric Hobsbawm, historiadores da classe operária “situam-se num ponto de encontro entre os estudos acadêmicos e a política, entre compromissos de ordem prática e compreensão
teórica, entre interpretar o mundo e transformá-lo”. 18 A tradição da historiografia britânica a qual se filiavam diversos militantes do Partido Comunista da Grã-Bretanha (PCGB), entre eles Christopher Hill e Edward Thompson, importantes historiadores das revoluções inglesas e da classe operária, ensejou uma linhagem de grandes historiadores que nunca se furtaram a este compromisso, não obstante fossem competentes e conscienciosos historiadores. É justamente esta historiografia que permanece influenciando parte importante da historiografia brasileira sobre o movimento operário e
o Partido Comunista. 19
Ao se crer no caminho dos debates em torno de temas como a Revolução Russa, ou outros discutidos acima, não se pode acreditar em nenhum tipo de isenção dos historiadores, sejam eles marxistas ou não, militantes de um partido ou meros profissionais da academia, todos falam de um lugar específico. Todavia, não fazem necessariamente pior ciência os que professam uma posição política, nem são objetivos e imparciais os que assim se dizem apenas por não serem militantes. Em todo caso é sempre necessário que a busca da objetividade seja o horizonte comum da prática historiográfica, e mesmo que nenhuma forma de conhecimento positivo seja produzida por historiadores, devemos estar atentos às interferências de discursos ideológicos que reverberam mais compromissos políticos do que ciência. Como sugere José Honório Rodrigues:
Tudo compreender não significa tudo louvar. Há uma forma de historiografia
que aprova tudo que aconteceu e teve conseqüência, sem reparar no seu
significado moral. Esta espécie muito difundida de ‘positivismo’, que torna o
historiador um simples ‘claqueur’ dos fatos e acontecimentos, não pode ser
considerada história de alto estilo e muito menos científica. A verdadeira
história é uma ciência humana. Não teme verdades incômodas, porque serve
à Verdade e não aos sucessos políticos do dia. 20
A história não teme verdades incômodas, porque está a serviço de um tipo específico de verdade. Com efeito, se renunciamos irremediavelmente aos compromissos com o presente, como o querem certas correntes da historiografia que não são necessariamente ocupadas por jornalistas, mas por filósofos e historiadores sérios e com carreiras acadêmicas consolidadas, devemos imaginar que mais cedo ou mais tarde o público que queremos alcançar vai acabar se perguntando o motivo de prestarem atenção nos nossos livros se todo discurso perde seu referencial e passa a ser ele próprio o significante. Ou seja, longe da história popular vendida nas bancas e livrarias, há outra forma de historiografia que pretende que a história não tem nada a dizer sobre o presente, porque o passado é a raridade, o contingente e o mero acaso.
A este respeito, uma importante e sutil inflexão foi observada nos últimos anos relacionada a temas e abordagens antes considerados clássicos, como o da história política, por exemplo. Em primeiro lugar, a introdução da noção de cultura política no campo da história política stricto sensu engendrou a abertura de um leque de diálogos e consubstanciou um deslocamento do olhar do político sobre os sujeitos históricos conscientes, para dimensões do inconsciente e da cultura propriamente dita. Ao lado desta questão, e não menos importante, a desvalorização dos atores históricos tradicionais, como a classe e o partido, por exemplo, que perderam espaço para outros sujeitos, deu o tom das novas abordagens, de maneira que onde antes os historiadores buscavam a história da classe operária ou das suas representações políticas; onde antes se tomava por base a militância institucional, os dirigentes e a organização propriamente ditas, hoje se tem a história dos militantes anônimos, por vezes desvinculados dos processos institucionais e diretivos, como se se tratasse de uma “história vista de baixo”, oposta a uma história vista de cima; onde antes se esmiuçava a relação da organização com a sua base, compreendendo que nenhuma história política de partido pode deixar também de ser uma história social dos sujeitos que o partido pretende representar, hoje se procura uma história dos elementos de representação simbólica e de outras racionalidades incorporadas da cultura política; onde antes se buscavam as relações entre os aspectos nacionais e internacionais da atuação dos partidos, hoje se buscam histórias locais como se se pudesse recortar as conexões do passado ao sabor do olhar do historiador do presente; onde antes se combinava a apreciação dos fatores condicionantes (necessidade) e da agência humana (vontade), hoje se acusa como “determinismo” qualquer recurso à noção de causalidade; onde antes havia clássicos do marxismo, como Lenin, Trotsky e Gramsci, por exemplo, hoje há Foucault, Certeau, Deleuze, Derridá e outros ícones do pós-modernismo.
Obviamente que a entrada em cena deste tipo de história despertou os historiadores do seu sono profundo. É verdade que lhes retirou as certezas, provocando a busca por outras abordagens, outros temas, outros objetos e mesmo outros marxismos não necessariamente desvinculados das tradições clássicas. Por conseguinte, nenhuma resposta apressada ou recorrência a qualquer discurso de autoridade pode ter o efeito de decidir o debate imediatamente. Faz-se necessário discutir caso a caso os problemas levantados pela historiografia contemporânea, mas, acima de tudo e mais importante, os problemas desta historiografia.
No que tange ao aspecto dos problemas levantados pela historiografia contemporânea, uma parte já foi aqui discutida quando recorremos a Gerges Haupt para demonstrar as mazelas da história-tradição praticada pelas versões oficiais dos partidos e pelos discursos tradicionais e oficialistas dos historiadores arraigados no passado. Convém mencionar, contudo, que este tipo de história não chegou a existir no Brasil no que tange aos estudos sobre o PCB, tendo predominado entre nós uma história de tipo monográfico, iniciada nos anos 1960 com o clássico, Formação do PCB de Astrojildo Pereira, em que se abordava as conjunturas importantes
da história do PCB.21 A obra do ex-dirigente do PCB, Astrojildo Pereira, ficou como um dos poucos registros da tentativa de se construir uma história do Partido Comunista Brasileiro nos anos 1960. O golpe empresarial-militar de 1964 certamente impediu outros projetos no mesmo sentido, de modo que é somente nos anos 1980 que uma grande quantidade de memórias de ex-militantes e ex-dirigentes vieram preencher o vácuo da literatura sobre os comunistas no Brasil, constituindo-se numa parte importante da história dos partidos e movimentos de esquerda antes
dos anos 1980.22
Com a abertura política, a redemocratização e a legalização dos PCs em meados da década de 1980, houve um breve ensaio que se poderia chamar de tentativa de se construir uma história-tradição do PCB com os livros Contribuição à história do PCB de Nélson Werneck Sodré, e, Breve história do PCB de José Antônio Segatto, que eram muito mais que tentativas de sínteses de intelectuais que militavam ou estavam próximos do partido, do que de historiografia
oficial propriamente dita. 23 Também da década de 1980 são as obras de Edgar Carone e de Moisés Vinhas que reúnem documentos e pequenos capítulos de sínteses de importantes momentos da história do PCB, dando o tom da historiografia do período que, entre outras coisas, demonstrava grande preocupação
na preservação de fontes para futuras investigações. 24
Quanto à historiografia acadêmica sobre os comunistas que teve por base as monografias sugeridas por Astrojildo Pereira, no início dos anos 1990, quando os ares da democracia pareciam se consolidar no Brasil, surgiram trabalhos de peso, como os de Marcos Del Roio, Paulo Sérgio Pinheiro, Marly Gomes Vianna, Anita
Leocádia Prestes, entre outros.25 No início do século XXI, Dainis Karepovs e Murilo Leal deram importantes contribuições à história do trotskismo no Brasil, abordando as incontornáveis e acirradas polêmicas entre comunistas e trotskistas, cuja obra pioneira é a de
José Castilho Marques Neto, publicada em 1993.26
Na primeira década do século XXI, um setor da história social brasileira de matriz thompsoniana procurou superar a história política dos comunistas, propondo em alternativa uma abordagem que privilegia a história social e a classe operária. Quanto a este movimento, cujos resultados ainda são incertos, não se pode deixar de dizer dos compromissos políticos que moveram os jovens intelectuais da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), quase todos ligados ao Partido dos Trabalhadores, que pretenderam tomar os sujeitos sociais como os principais atores das conjunturas
do século XX.27
No início dos anos 2000 surgiu uma inflexão revisionista que pretendia deslocar as abordagens mais diretamente políticas da história dos comunistas no Brasil a partir da introdução da noção de cultura política. Tal movimento tem um texto paradigmático publicado no ano 2002, Priosioneiros do mito, de Jorge Ferreira, que pretendeu ser a primeira obra a utilizar uma abordagem etnográfica tomada da antropologia para esquadrinhar a militância comunista buscando perceber as “atitudes”, “representações sociais” e “códigos de comportamentos” que formariam um conjunto de “crenças, idéias [sic] e valores socialmente reconhecidos por um
grupo ou classe social”. 28 Na execução desse projeto, Jorge Ferreira, que é professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), buscou na antropologia de Mircea Eliade os elementos principais de suas referências, transformando a história dos comunistas e do PCB numa espécie de vertente da história das
religiões. 29
Sobre as tentativas de introduzir novidades e modas intelectuais na historiografia tradicional sobre o movimento operário, que aqui chamamos de revisionismo em função de suas intencionais motivações políticas relativas ao tema dos comunistas, Hobsbawm já havia expressado suas ressalvas. O historiador britânico, enquanto considerava o alargamento do campo da história operária que transitava das abordagens mais políticas, ideológicas ou mesmo econômicas, para uma história social mais ampla, afirmou:
A aplicação de novos conceitos, em geral emprestados das ciências sociais,
é igualmente perigosa, se não está claro em nossa mente o que estamos
tentando descobrir ou explicar; ou, se o leitor prefere o jargão – qual é o
nosso modelo. O perigo é ainda maior porque, como Ernst Gombrich
assinalou recentemente, a natureza da profissão acadêmica é tal que
estimula a originalidade e o modismo. As formulações mais implausíveis
podem ter certeza de estarem incluídas em todas as subsequentes notas de
rodapé e bibliografias, se forem novidades, apesar de serem facilmente
descartadas. Para que alguém analise o sindicato por ofício à luz das
discussões antropológicas sobre parentesco artificial, é somente uma
questão de tempo, se é que já não se fez isso; e eu não duvido que haja
quem já tenha analisado os sindicatos operários como sistemas de
parentesco patrão-cliente. 30
O irônico ceticismo de Hobsbawm tinha razão de ser, passados 40 anos da publicação do artigo “História operária e ideologia”. A historiografia do movimento operário enveredou por caminhos insólitos, abandonando as abordagens consideradas tradicionais e tidas por adequadas pelo historiador britânico. Com efeito, desde que o termo “cultura política” encantou boa parte dos historiadores do movimento operário e do Partido Comunista, a historiografia da classe operária e também dos partidos e movimentos de esquerda, depois de transitar dos estudos inseridos nos quadros da política e das ideias para o domínio do social, desaguou no campo da cultura e da representação, por vezes, eivada com um verniz de
sofisticação pós-moderna.31 Contribuíram para esta inflexão, a queda do Muro de Berlim e a decomposição da URSS, que desencadearam uma ofensiva ideológica através das teses sobre o fim da história, implicando no abandono dos projetos coletivos e uma crise das utopias que demarcaram boa parte do século XX.
No terreno da teoria, a debacle do chamado “socialismo real” refletiu-se em uma crise que provocou o abandono do marxismo por parte de diversos marxistas, o que fez com que muitos se refugiassem nas primeiras modas intelectuais que sopraram da
Europa e dos Estados Unidos.32 Como corolário desse movimento, as expectativas criadas em torno da abertura dos Arquivos de Moscou para o grosso dos historiadores herdeiros da sovietologia estadunidense, desencadearam um frisson de especulações sobre possíveis revelações bombásticas. Como tais revelações não se confirmaram, somente por uma operação chamada por Murphy de “interpretação ideologicamente seletiva da era revolucionária”, a historiografia pôde caminhar para a direita, e não para a esquerda, escusando-se de confirmar aquilo que os clássicos do marxismo
haviam dito. 33
No final das contas a distopia teórica aludida por Hobsbawm na historiografia da classe operária, tem entre seus exemplos mais acabados a obra do historiador brasileiro Jorge Ferreira, que não se limitou a investigar o partido como instituição, mas recorreu aos elementos da cultura e da representação que os militantes anônimos tinham do comunismo, para explicar o fenômeno político. Obviamente que não podemos conceder essa história tão cara aos militantes e à própria historiografia brasileira, pioneiramente elaborada pelos egressos do PCB, a uma abordagem que inspire,
nem de longe, algum tipo de anticomunismo.34 Da mesma forma, dizemos com Murphy, que nos apoiamos nos ombros de uma tradição bastante rica, que apesar de tudo, ainda não foi
ultrapassada pelas modas acadêmicas. 35 Isso porque, em parte pela reedição das guerras imperialistas, insurreições, revoluções e golpes de Estado que padronizaram as mudanças políticas durante a modernidade, em parte porque governos identificados com a esquerda alcançaram o poder em diversos países, enfim, considerando que o interesse pelo passado se move na medida das questões colocadas pelo presente, as novas gerações seguirão fazendo perguntas sobre padrões de transformação e sobre as regularidades históricas, da mesma forma em que se indagarão sobre os “porquês” de se fazer uma história dos comunistas, das revoluções e das utopias do século XX.
Considerando que o novo século trouxe consigo um renovado interesse pela história e por uma história crítica, e que aborda temas de reconhecida relevância social, a demanda de conhecimento do marxismo, da Revolução Russa, da história dos comunistas e de temas consorciados à transição socialista, não cessou de crescer no Brasil. Destacam-se, sobretudo, as recentes publicações de obras inéditas de Marx, Engels e Gramsci, assim como as de Trotsky e Lenin, estes últimos publicados por editoras ligadas aos partidos e movimentos de esquerda, o que deixa em aberto às perspectivas de possíveis futuros não inscritos nas doutrinas providenciais, mas nas
perspectivas aduzidas pelas lutas.36
Em todo caso, a resposta à pergunta que dá título a esta introdução pode, em parte, ser respondida pelos textos que compõe esta coletânea. Neste conjunto de trabalhos oriundos do Seminário sobre os comunistas no Brasil, ocorrido nas dependências da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, no mês de junho de 2012, o leitor poderá encontrar histórias para todos os gostos. As opções, todavia, não vão muito além das abordagens que tem o político e o social como terrenos privilegiados. Isso porque, para os autores da coletânea, refratários às modas intelectuais e ao elogio fácil do mercado, tão ou mais importante do que interpretar o mundo, é continuar lutando para que a humanidade torne o passado citável em sua plenitude, sendo isso possível apenas com a sua emancipação de todas as
formas de subalternidades. 37
Os artigos que compõem esta coletânea foram elaborados entre 2012 e 2013, ainda em meio aos debates, celebrações e reflexões que ocorreram em torno da efeméride pelos 90 anos da fundação da primeira efetiva organização comunista do Brasil, o PCB, chamado Partido Comunista do Brasil até 1961, depois disso denominado Partido Comunista Brasileiro. Por conta disso, neste livro poderão ser encontrados alguns dos mais importantes temas, debates, inspirações, orientações e práticas que motivaram e movimentaram os comunistas brasileiros enquanto estes se apresentavam como alternativa de representação dos explorados e oprimidos deste imenso país tropical.
Sendo uma obra coletiva, abordagens distintas serão encontradas, mas em se tratando de obra de historiadores, não se deixa de notar o forte componente de narrativa que perpassa todos os artigos. Em função disto, o organizador desta coletânea optou por reunir em três partes separadas os 11 artigos que compõe este livro, adotando o critério cronológico como elemento de divisão entre a parte I “Das origens a Aliança Nacional Libertadora (ANL)”, a parte II, “Resistência e legalidade” e a parte III “Do Manifesto de Janeiro de 1948 à Declaração de Março de 1958 e além”.
No primeiro artigo da coletânea, “Observações sobre as ideias socialistas, anarquistas e comunistas na imprensa (1902-1924)”, de Marly de Almeida Gomes Vianna, o leitor encontrará os debates que envolveram diversas correntes do movimento operário na agitada conjuntura de inícios do século XX, até 1924. Com a mão firme de uma historiadora experiente e profunda conhecedora dos debates que animaram os vários períodos da organização comunista, Marly Vianna percorre os meandros das lutas sociais e políticas que inspiravam os jornais operários editados por anarquistas, socialistas e pelos primeiros grupos que se aproximaram do bolchevismo e que, posteriormente, convergiram para a fundação do PCB.
Buscando deslindar os primeiros passos do PCB na Bahia, Marcelo da Silva Lins discute as movimentações de militantes e sindicalistas, baianos e forasteiros, que trabalharam pela fundação do Partido Comunista na Terra de Todos os Santos e nas cercanias das fazendas de cacau do sul do estado. Em seu texto, Marcelo Lins descreve a impossibilidade de precisar a data de emissão da “certidão de nascimento” do partido na Bahia, e realiza importantes reflexões sobre o período e o trabalho de organização dos comunistas dessa localidade.
No artigo de Raimundo Nonato Pereira Moreira, o “renegado” Antônio Maciel Bonfim, o famoso Miranda, é o personagem central dessa importante tentativa de entender a trajetória dessa lenda maldita na memória dos comunistas brasileiros. Sem se comprometer com os acusadores de Miranda, em perspectiva biográfica, o autor busca compreender o personagem no limite entre a história e a memória.
A Campanha em torno de 50% de abatimento para estudantes, levada a cabo por militantes comunistas em 1935, é o tema do texto de Dainis Karepovs. Investigando a atuação dos estudantes brasileiros em torno de uma bandeira que mobilizaria a juventude por décadas, Karepovs discute a atuação dos jovens comunistas no contexto do surgimento, expansão e extinção da Aliança Nacional Libertadora (ANL).
Em seguida, o artigo de Rafael Fontes inaugura a parte II da coletânea. Fomentando a reflexão sobre os caminhos da juventude baiana na conformação de projetos de inserção intelectual e política cotidiana, o autor busca entender a conformação de uma cultura comunista, em permanente intercâmbio com outras perspectivas.
De minha própria autoria, o artigo “O esteio da ordem” busca entender os significados táticos e estratégicos da política do PCB para a classe operária nos anos 1940. Em vista dos impasses estratégicos e pressões dos sujeitos sociais que lutavam pela transformação do mundo, busco analisar como os comunistas se posicionaram diante dos grandes desafios que opunham o capital ao trabalho nos estertores da guerra.
Os Comitês Populares Democráticos (CPD) são o tema do artigo de Raquel Oliveira Silva, que contextualiza a ampliação da influência dos comunistas, enquanto estes se converteram em um partido com influência de massas e tentavam alcançar a maioria do “povo”, pretendendo-se livrar da pecha de “partido do proletariado”.
A insubordinação comunista frente à “esquerdização” do PCB, de Ede de Assis Ricardo Soares, é o tema do texto que abre a parte III da coletânea. Pretendendo discutir as implicações da opção política de saída pela esquerda provocada pelos Manifesto de Janeiro de 1948 e Agosto de 1950, e sua consecução prática na vida do PCB em uma cidade do interior da Bahia, o autor percorre os meandros do debate surgido no contexto de superação/conservação da tática de União Nacional.
A famosa Declaração de Março de 1958 é o objeto de apreciação de Frederico José Falcão que adentra aos debates partidários para tentar compreender os significados da inflexão na linha política do partido e os debates que ela provocou. Na construção do seu argumento, o autor vai além da discussão das polêmicas em torno da Declaração de Março de 1958, tentando entender o que realmente estava em jogo e o que mudava na concepção estratégica do Partido enquanto este se via confrontado com outras organizações de esquerda que surgiam como alternativa ao PCB.
Eurelino Coelho aborda o rico debate ocorrido entre 1956 e 1959 que levou o PCB a superar sua compreensão de que o Brasil ainda era um país feudal. Situando o seu discurso entre “a classe” e “a nação”, os comunistas brasileiros se viram pressionados a realizar um significativo giro tático que culminaria na “nova política” dos anos 1960, década em que surgiram novas opções de organizações de esquerda.
A trajetória e a função da Revista Internacional (Problemas da Paz e do socialismo), de longa vida no PCB, é o objeto de discussão do texto de Muniz Gonçalves Ferreira no artigo que fecha a coletânea. Em seu texto, o autor discorre sobre as mudanças ocorridas na concepção do PCB entre os anos 1958 e 1990, avaliando a vinculação internacional do partido neste período através dos periódicos que publicava.
O objetivo desta coletânea é tanto oferecer um panorama provisório dos estudos sobre o Partido Comunista em nosso país, como reafirmar a primazia das abordagens contidas nos textos, essencialmente políticas, embora não exclusivamente. Longe do monolitismo reinante na história-tradição rechaçada por Haupt, impera nesta obra uma pluralidade de concepções e pontos de vista, ainda que não se deva encontrar aqui adesão aos modismos intelectuais de ocasião. Os ventos que sopraram na historiografia brasileira dos últimos anos, e que se tornaram um vendaval a derrubar estruturas de pensamento e teorias de toda espécie, ainda não fizeram estrago entre os historiadores que aqui escrevem. Entre estes, a boa polêmica é bem vinda, mas não ao ponto de se fazer uma má história.