Capítulos de história dos comunistas no Brasil
Notas sobre as primeiras movimentações comunistas na Bahia e na Região Cacaueira
Notas sobre as primeiras
movimentações comunistas na
Bahia e na região cacaueira
Marcelo da Silva Lins
Na busca de uma “certidão de nascimento” do Partido Comunista do Brasil (PCB), na Bahia, investiguei alguns livros de memórias de antigos militantes, assim como algumas pesquisas anteriormente realizadas, que mesmo não tendo o PCB como objeto central, forneciam pistas da história dos comunistas baianos. Além disso, busquei em documentos do próprio PCB e no acervo dos órgãos da repressão, arquivos que indicavam às primeiras atividades realizadas no estado.
O PCB foi fundado em 1922, no Rio de Janeiro, por um grupo formado na sua maioria por militantes do movimento operário oriundos ao anarquismo. Surgiu com a sigla PCB, que correspondia ao nome Partido Comunista do Brasil. Tradicionalmente, os partidos comunistas surgiram a partir de cisões no seio da social-democracia, ou de partidos socialistas. No caso brasileiro, constituiu-se a partir de lideranças anarquistas que não possuíam de maneira orgânica, formal, uma organização ou entidade que criasse uma unidade de pensamento ou ação entre os diversos grupos existentes nos vários Estados. No mesmo ano da sua fundação, a sua primeira publicação, O Movimento Comunista, editado pela direção nacional, era vendido na sede do Sindicato dos Pedreiros e Carpinteiros, na época uma influente entidade nos
círculos operários de Salvador.1
Isso não significa que, desde a sua fundação já dispunha de alguma base no estado, ao contrário, o PCB ao descrever a situação do movimento sindical baiano, no Relatório Trimestral do Comitê Central do PCB, em 1924, enviado à Internacional Sindical Vermelha (ISV) apontou que a “Bahia: decadência completa. O chefe do movimento é um social democrata, deportado para fora do estado há três anos. Não há organização comunista, ‚mas alguns
operários simpatizantes”. 2 É importante a salientar que, os dados oferecidos no referido Relatório, assim como, no Relatório de 1922, aponta para a existência de operários simpatizantes da causa. O “chefe do movimento” a quem o documento faz referência, pode aludir à imagem de Agripino Nazareth, pois essa personalidade liderou importantes movimentos na Bahia e foi deportado. Assim, a sua trajetória política coincide e se confunde com a mesma pessoa a quem o documento faz menção. Nesse período, início da década de 1920, Agripino Nazareth estava ligado ao Partido Socialista e a Mauricio de Lacerda e, mais tarde, durante o governo Getúlio Vargas, tornar-se-ia assessor do Ministério do Trabalho.
Para perceber o desenvolvimento do partido nesse período, é importante observar a citação de Octávio Brandão ao declarar que
“Em 1922, existiam apenas 73 comunistas em todo o Brasil”,3 a pesquisa realizada até o presente momento não encontrou outras fontes das quais seja possível confirmar este fato. Entretanto, este dado serve para estabelecer uma relação com as informações específicas do estado. Quanto à Bahia, se em 1922 e 1924 as notícias referiam-se a elementos simpatizantes, em 1925 foram verificados dados que dizem respeito a indivíduos filiados ao PCB no estado baiano, dentre outros. A partir do Relatório de Recrutamento e Organização de 1925, observou-se o balanço das atividades do partido que indicava a existência de 476 indivíduos filiados em todo o país no final do mesmo ano. Conforme se pode verificar no quadro abaixo:
TABELA 1 – FILIADOS EM 1925
Rio de Janeiro 133
São Paulo 31
Pernambuco 26
Bahia 06
Victória 07
Isolados 01
Totais 206
Excluídos 03
Total em 31-12-1924 273
Total em 31-12-1925 476
Fonte: PCB (1925). CEDEM/UNESP. Fundo IC.
As primeiras filiações, na Bahia, ocorreram entre maio e dezembro de 1925, e as avaliações realizadas a respeito deste movimento não foram positivas: “as organizações na Bahia e Vitória
nasceram depois do II Congresso, e estacionaram”.4 Em meados de 1924, “a direção nacional dera os primeiros passos para a adoção da resolução da IC sobre a reorganização dos partidos à base de
células. Um plano minucioso fora então traçado com esse objetivo”. 5 Conforme o Relatório de 1925, citado anteriormente, foi avaliado o desenvolvimento organizacional das células do partido no estado baiano, assim, declarou-se que, “na Bahia, […] temos ainda um número reduzido de aderentes e explica-se assim, que não estejam em condições de formar células de empresas”. A tarefa colocava para o ano seguinte (1926), a criação de oito células com 30 novos aderentes no estado.
Algumas dezenas de simpatizantes, espalhados e dispersos pelo território nacional, têm aderido ultimamente ao PCB. É preciso que esses novos membros vão se organizando desde logo em células […] Principalmente em São Félix, Cachoeira e Muritiba (que deverão
constituir um Comitê de Zona ligado ao CR da Bahia). 6
Esse trecho nos possibilita analisar que as primeiras filiações estavam concentradas nessa região, que na época possuía alta concentração de trabalhadores nas plantações e empresas de beneficiamento de fumo. Ao mesmo tempo, quando se estabeleceu como tarefa a constituição de um Comitê Zonal, que deveria se ligar ao Comitê Regional, presume-se a existência de tal organismo, portanto, algumas dessas seis filiações não estavam na mesma localidade, provavelmente parte delas era da capital do Estado.
Este documento trata das novas filiações, apesar do número aparentemente pequeno, em alguns aspectos o resultado da avaliação é positiva, pois durante 1925 houve um maior recrutamento de membros para o partido, de modo que quase dobrou o seu número de filiados. A observação das deficiências ficou por conta dos organismos de base, onde se descreveu as debilidades na organização das células de empresas e, ainda, os poucos núcleos sindicais que existiam – Rio de Janeiro e Recife – não funcionavam corretamente.
Na análise da conjuntura política do país estaria a principal explicação do desempenho insatisfatório do partido. Acreditava-se na ausência de tradição política proletária, assim, “as várias tentativas regionais de organização de partidos socialistas falharam todas. Só o PC, nascido em fins de 1921, lançou as bases de uma
política proletária de classe”. 7 Além disso, os constantes “Estados de Sítio” vividos pelo país, obrigava-os a uma vida de semi-ilegalidade e semiclandestinidade que não favoreceram aos trabalhos de organização. Interessante perceber que o marco referencial apresentado para o início das atividades partidárias, não foi o célebre congresso de fundação de 1922 e sim, os primeiros contatos e articulações que ocorreram visando à criação do partido.
Octávio Brandão, tratando dos anos posteriores à fundação, fez referência ao PCB na Bahia ao declarar que:
[…] muitos trabalhadores não chegaram a pertencer ao PCB, mas realizaram
sua obra. Entre eles, […] Rufino Gonçalves e Amaro Pedro da Silva,
propagandistas de A Classe Operária entre os trabalhadores das fábricas de
fumo de São Félix, Cachoeira e Muritiba, na Bahia.8
O jornal A Classe Operária foi criado pelo partido em maio de 1925 e, desde
as suas primeiras edições, foi distribuído na Bahia. Podemos destacar a
avaliação positiva do partido através do referido jornal, conforme se observa
no trecho a seguir,
‘[…] exercia influência cada vez maior. Realizava um trabalho de educação e organização, agitação e propaganda. As células do PCB aumentavam. Os movimentos nas fábricas e oficinas vivificavam-se. Os sindicatos reforçavam-se. Os operários têxteis do Rio de Janeiro, os gráficos de São Paulo, os trabalhadores das fábricas de fumo de São Félix, Cachoeira e Muritiba, na Bahia, agitavam-se.
Rebentavam greves parciais, apoiadas pelo jornal’. 9
Em 18 de julho de 1925, quando saiu a edição de n.º 12 do jornal A Classe Operária, o seu escritório de redação foi fechado e proibido pela polícia. Octávio Brandão destacou a mobilização dos trabalhadores de fumo do Recôncavo Baiano em relação ao acontecimento:
‘O fechamento de A Classe Operária repercutiu em todo o país. Suscitou
inúmeros protestos ao Ministro da ‘Justiça’ – cartas, telegramas e abaixo-
assinados como os dos operários e operárias das fábricas de fumo de São
Félix, Cachoeira e Muritiba, na Bahia, com centenas de assinaturas. Esses
protestos foram divulgados numa publicação especial’.10
Por meio dos dados apresentados por Octávio Brandão e do Relatório de 1925, é possível concluir que os referidos indivíduos da região do fumo no Recôncavo Baiano, em um primeiro momento, se aproximaram do PCB e tornaram-se apenas simpatizantes e, para usar as palavras de Octávio Brandão, “propagandistas” do jornal A Classe Operária, para posteriormente – segundo semestre de 1925 – se filiarem formalmente ao partido e constituir uma célula. A partir desse momento, desenvolveram campanhas para organização do sindicato e algumas lutas e reivindicações a favor de melhorias para a categoria.
O membro da direção nacional, Leôncio Basbaum, ao passar por Salvador, no início de 1927, por ocasião do casamento de seu irmão, recebeu a incumbência de
‘[…] organizar um Comitê Regional do Partido naquela cidade, onde havia
apenas poucos companheiros, muito bons, mas quase todos vindos do
anarquismo, e ainda não haviam assimilado as novas formas de luta dos
comunistas. Deu-se alguns endereços antigos. Eu deveria tentar localizá-
los’.11
Dentre as pessoas que procurou, ficou bastante impressionado com João Pacífico de Souza, antigo líder anarquista que desejava “enquadrar-se no Partido Comunista, mas que na Bahia era difícil, ninguém queria nada, iria ver o que se podia fazer, mas contasse
com ele […]”.12
Ainda em 1927, o jovem Giocondo Dias, com 13 anos de idade, trabalhava em um escritório onde conheceu Alberto Campos, um escriturário sergipano radicado no Rio de Janeiro, e que se transferiu para Salvador para tratar-se de uma tuberculose. Era correspondente e distribuidor do jornal A Nação, editado no Rio de Janeiro e ligado ao PCB entre janeiro e agosto de 1927. Tal jornal chegava por intermédio dos marinheiros e era vendido por Giocondo Dias, e assim “como os compradores eram poucos, tinha autorização para entregá-los gratuitamente, de maneira a forçar a sua divulgação […] Mas a maioria dos transeuntes não queria o
jornal, ainda que de graça, por medo”. 13
Nas eleições para a Câmara Federal, ocorridas em fevereiro de 1927, Alberto Campos candidatou-se pelo Bloco Operário e Camponês, BOC, e realizou pequenos comícios. Entre seus poucos assistentes, estava sempre o jovem Giocondo Dias, colega de
trabalho do candidato.14
É bem possível que as propostas do BOC tenham sido também difundidas
entre os operários portuários, pois há indícios de que um estivador e um
‘carioca’, recém-chegados a Salvador passaram a distribuir, nessa mesma
época, panfletos concitando os operários a se levantarem ‘contra o
capitalismo ganancioso’. Antes de serem presos e deportados, conseguiram
um pequeno número de adeptos.15
Em setembro de 1928, o Partido já contava com 1400 inscritos e, destes, 700 eram membros, que estavam localizados “400 no Rio de Janeiro, 80 em São Paulo, 80 no Rio Grande do Sul, 60 em Pernambuco e o restante espalhado em grupo menores constituídos
na Bahia, Vitória, Campos, Juiz de Fora e outras localidades”. 16 No documento que informa esses números, encontramos uma diferenciação entre “inscritos” e “membros”, certamente essa última denominação referia-se aos que exerciam militância mais ativa.
Há ainda algumas notícias relativas ao período um pouco posterior, com alguns sinais de tentativas de organização do PCB entre os estivadores, em 1927, e entre os gráficos, em 1929, mas “não chega a se constituir em uma tendência política de peso na
Bahia, nessa fase considerada”. 17
Quando da realização do Terceiro Congresso do PCB, ocorrido entre fins de 1928 e início de 1929, há referência a uma delegação baiana que, contudo, não compareceu, conforme podemos verificar no trecho abaixo:
O terceiro congresso do PCB reuniu-se durante os dias 29, 30, 31 de
dezembro de 1928 e 1, 2, 3, 4 de janeiro de 1929 […] Os delegados
regionais representavam os Estados de Pernambuco, Espírito Santo, Rio de
Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. As delegações da
Bahia e de Minas não mandaram delegados.18
A notícia acima é uma demonstração de que, mesmo com o recrutamento de alguns membros, o Partido no estado ainda era uma organização frágil. Apesar disso, conseguia desenvolver algumas ações junto aos trabalhadores baianos. Em 1929, novamente, surgem notícias do Recôncavo Baiano, a saber: “a voga de greves vai crescendo a olhos vistos. A greve dos tecelãos [sic] de Porto Alegre e a dos beneficiados do fumo de Cachoeira, Muritiba e
São Félix, saíram vitoriosos em parte”. 19
Quando Leôncio Basbaum retornou a Salvador em 1930 e procurou “descobrir os camaradas de Salvador, que eram tão poucos”, intencionou localizar alguém que se chamava “Costa ou Couto ou Campos” que seria um dos membros do Comitê Regional, provavelmente se referindo à Alberto Campos, que foi candidato pelo Bloco Operário e Camponês BOC em 1927. O encontro não foi nada estimulante, pois como o país vivia em estado de sítio com intensas perseguições policiais, Alberto Campos não pareceu muito disposto a envolver-se nas atividades partidárias.
Com a vitória da Aliança Liberal na chamada Revolução de 1930, Leôncio Basbaum encontrou-se com Arquibaldo, militante da Juventude Comunista (JC), e resolveram lançar um manifesto entre o povo e os soldados, “denunciando o erro trágico da quartelada que era contra o povo”. Conseguiram imprimir o material “por intermédio, ou com ajuda, do camarada Couto […] A assinatura era a do Partido Comunista, Comitê Regional da Bahia, coisa que, aliás, não existia”. A expressão utilizada por Basbaum revela a impressão que teve do partido na Bahia naquele ano, pois, “na ocasião não deviam ser mais de meia dúzia, pequeno progresso desde a última
vez que lá estivera”. 20
No processo de aproximação de Luís Carlos Prestes com o comunismo e com o PCB, levou-o a organizar, em julho de 1930, a Liga de Ação Revolucionária (LAR). Esta teve um pequeno grupo de seguidores na Bahia.
Através da correspondência que mantinha com Prestes, ao tomar
conhecimento da fundação da LAR, que pretendia ‘preparar as massas
oprimidas para o levante revolucionário’, Antônio Maciel Bonfim reuniu
alguns companheiros e iniciou o trabalho de arregimentação, promovendo
reuniões em bairros populares de Salvador e com operários da cidade de
Alagoinhas. Em meados de setembro, Antônio Maciel Bonfim, Manoel Batista
de Souza e João Pacífico de Sousa foram presos e indiciados. Antônio
Maciel Bonfim, deportado da Bahia, se tornaria o Secretário Geral do PCB (‘o
célebre Miranda’) a partir de 1934. Manoel Batista também ingressou no
partido, sendo um líder sindical conhecido nos anos 40, e João Pacífico,
posteriormente, se converteria ao trabalhismo.21
No episódio narrado acima, a polícia identificou os acusados como comunistas, pois já eram fichados como tal. João Pacífico, como já fora citado anteriormente foi o contato do partido em Salvador no período da viagem de Leôncio Basbaum, em 1927, portanto, a ligação de Antônio Maciel Bonfim, ou conforme já foi dito “o célebre Miranda” com o prestismo se deu junto a, pelo menos, um elemento do PCB na Bahia.
É dentro desse quadro de debilidades e alguns poucos avanços que, em 1932, realizou-se na Bahia o 1º pleno com a presença dos “delegados de várias cidades do interior e do vizinho Estado de Sergipe”. Segundo a “memória pecebista regional” este evento foi um marco na trajetória do partido no estado, pois foi após este acontecimento que o partido
[…] desenvolveu sua linha […] procurando ligar-se às grandes massas
trabalhadoras por intermédio dos seus órgãos de classe, levantando, então,
reivindicações dos seus mais sentidos problemas e lançando a palavra de
ordem de combate sem tréguas ao fascismo em nossa terra.22
Como o partido tinha enormes debilidades organizativas no estado, consequentemente, a sua inserção junto ao movimento sindical e aos diversos movimentos sociais também era débil. Nesse sentido, José Raimundo Fontes nos esclarece:
Apesar dessas alusões, com certeza a participação de comunistas nas lutas
operárias locais em 1932-33 ainda é pequena, pois as propostas
programáticas que defendiam a exemplo da resistência aos sindicatos
oficiais, não são visíveis no Estado. Isso, todavia, não exclui a hipótese de
que nas mobilizações reivindicatórias, que aliás não foram poucas, o PCB
tivesse certa inserção. Por outro lado, dos fins de 1933 em diante,
informações da grande imprensa dão conta das crescentes ações de
agitação e propaganda de ‘comunistas’, materializadas em pichações,
panfletagens e arregimentações de operários nos locais de trabalho. Além
disso, o fortalecimento do integralismo no Estado, onde já está organizado
em 1933, propiciaria um ambiente político favorável para que fosse
denunciado pelo PCB, um das principais agremiações dentre as que
moveriam ferrenhas lutas contra o fascismo caboclo. 23
Para Fontes, a partir de 1933, a luta anti-integralista no estado criou o ambiente propício para o desenvolvimento do PCB. Em documento escrito em 1934 sobre a Bahia, o Secretário Geral, Miranda, afirmou “Estamos fazendo atenção agora a Região da Bahia, que é das mais débeis, mas devido a importância econômica e política daquele Estado e da sua capital, precisamos reforçá-la e
fazer dela a segunda Região do nordeste depois de Recife”. 24
Aliança nacional libertadora e a
construção da frente na bahia
Entre o final de 1934 e início de 1935, se formou a Aliança Nacional Libertadora (ANL), que aglutinou democratas, liberais, tenentistas e comunistas e outras forças que se opunham ao presidente Vargas, ao imperialismo, ao latifúndio e ao integralismo. Assim, em março de 1935, quando em âmbito nacional foi feito o lançamento oficial da ANL, na Bahia, saiu o primeiro Manifesto que tratava ainda da intenção de criar uma seção no estado. Tal documento não expõe o programa da Aliança e nem detalha quais as suas linhas de ação, limitando-se a atacar o imperialismo, o feudalismo e o “capitalismo estrangeiro”, também não se referiu à reforma agrária, ao presidente Vargas ou à luta anti-integralista, ao contrário, o referido manifesto termina convocando “intelectuais, estudantes, operários, camponeses, industriais, comerciantes, militares, empregados públicos e do comércio; socialistas, social-democratas, autonomistas, integralistas, patrianovistas, liberal-democratas, comunistas e sem partido”, ou seja, convoca a todos
para ingressarem na ANL.25
Em âmbito nacional, o principal elemento aglutinador dos vários grupos que formaram a ANL foi a luta antifascista e anti-integralista, enquanto esse documento demonstra que os organizadores da Aliança na Bahia deixaram de lado o programa, pois era mais fácil ampliar o leque de alianças para além dos critérios de classe ou de posição política, como se fosse possível colocar na mesma organização elementos tão díspares, chegando ao ponto de convidar os integralistas para compor a Aliança Nacional Libertadora.
Em 30 de maio de 1935 aconteceu a solenidade de instalação da ANL na Bahia, em ato realizado no Cine Jandaia em Salvador, onde se anunciou a composição da direção que teve como presidente Edgard Mata, advogado do Sindicato dos Estivadores. Além deste, também fizeram parte Joaquim Seixas do Vale Cabral como Secretário Geral; Álvaro Sanches como Deputado Estadual; Orlando Gomes, bacharel em Direito; Edgard Melo, líder sindical; Emanuel
Mata e vários outros. 26 Segundo Robert Levine, “o número de adeptos na Bahia foi insignificante: apenas 89 indivíduos, espalhados em 16 células municipais. Deste total, 95% eram representantes das classes trabalhadoras: doqueiros, telegrafistas,
pedreiros e carpinteiros”.27 Provavelmente, tais dados referem-se aos membros dirigentes dos núcleos municipais.
Seguindo a mesma linha do primeiro Manifesto, a ANL da Bahia, divulgou seu programa nos jornais dando ênfase à postura “anti-imperialista e anti-latifundiaria” e seu caráter não subversivo. E que congregava a todos “não tomando conhecimento das divergências ideológicas que os separam […] Não se confundindo com o comunismo, desfaz a tendenciosa manobra com que seus
adversários tentam perturbar-lhe o avanço vitorioso”.28
A ANL organizou em Salvador em junho de 1935, o 1º Congresso da Juventude Proletária, Estudantil e Popular da Bahia, que contou
com cerca de dois mil participantes,29 e entre os membros da comissão organizadora estavam os estudantes de direito, Aidano do Couto Ferraz e Edson Carneiro, ligados ao PCB. Os choques entre integralistas e aliancistas tornaram-se frequentes nesse período, e o mesmo aconteceu durante o Congresso, quando um dos oradores foi interrompido por integralistas presentes na plenária, as cadeiras
foram atiradas e quebradas, causando enorme confusão.30 A imprensa noticiou cinco feridos, sendo dois populares, dois
integralistas e um policial.31 O núcleo da ANL de Ilhéus enviou congratulações a ANL de Salvador pela realização do evento e pela
instalação do núcleo estadual.32
O PCB só se integrou a esse processo de formação quando a ANL já estava formada e, em alguns momentos, é possível identificar certa resistência por parte de alguns dirigentes pecebistas que temiam, entre outras coisas, que o partido se diluísse na frente. Esse foi o caso do Partido na Bahia que, em meados de 1935, lançou um manifesto intitulado “Ao proletariado e as massas populares e camponesas!”, no qual, afirmou:
O Partido Comunista do Brasil – Região da Bahia (S da IC) deu
publicamente o seu apoio à organização de massas Aliança Nacional
Libertadora […] acompanhado de explicação […], dizendo o motivo e as
condições. Afirmamos e repetimos: o Partido Comunista não adere e nunca
aderirá a Aliança; O PC está de acordo com as reivindicações constantes do
seu programa e retirará o seu apoio quando a Aliança deixar de lutar
verdadeiramente contra o imperialismo e contra o feudalismo nacional e se
converter em partido político, visando o poder como finalidade. Constatamos
como certos dirigentes da Aliança na Bahia procuram fazer da Aliança uma
organização acadêmica, literária ou filantrópica, desviando assim seu caráter
de organização de lutas contra os maiores inimigos do proletariado e das
massas populares e camponesas do Brasil. Alguns elementos pequenos
burgueses da Aliança tem refreado as lutas de massas. […] sob o pretexto
de que uma greve nesse momento traria confusões e prejuízos à Aliança;
outros tem asseverado que a Aliança é um comunismo brando, que a
Aliança não luta contra o governo, e muitas confusões […] Limitaríamos o
nosso programa, se, deixando de visar o poder político, quiséssemos fazer
união programática e orgânica com a Aliança […]. 33
Na verdade, esse panfleto publicado pelo Partido, na Bahia, reflete o que era a opinião predominante na direção nacional do PCB no início das atividades da ANL. Segue a mesma linha e chega a copiar trechos do artigo intitulado “A luta pela revolução agrária e anti-imperialista e a posição do Partido perante a Aliança Nacional Libertadora” escrito pelo secretário geral, Miranda, em abril de
1935. 34 Acontece que a publicação do panfleto do PCB baiano é datada no final do mês de julho, ou seja, com a ANL na ilegalidade, e aqui temos um desencontro entre tais posições e as diretivas traçadas pela direção nacional naquele momento. Isso porque, até o final do mês de maio e início de junho, o PCB que, “manteve essa
posição de apoio pouco entusiasmado à ANL”,35 passou por um processo que o levou a maior engajamento na ANL.
Acreditamos que essa mudança de posição esteve ligada a dois fatores: o primeiro foi o desenrolar de um debate interno, quando a representação da IC aqui presente, especialmente Harry Berger – pseudônimo do comunista alemão Arthur Ewert – escreveu vários textos, alguns destes publicados no jornal A Classe Operária, em que claramente divergia das posições tomadas pelos membros da direção nacional, que defendiam a criação imediata de soviets no Brasil. Berger afirmava que não havia as condições necessárias para tais iniciativas e por isso combinou com Prestes o lançamento das palavras de ordem: “Todo poder a ANL” e “Por um Governo Popular Nacional Revolucionário” lançadas no comício de 5 de junho de 1935, em substituição a “Todo poder aos soviets” defendida pelo Partido. A partir de então, gradativamente, o PCB passou a “concentrar suas atividades na ANL. O Partido não havia desistido do governo de soviets, mas aparentemente aceitava as explicações de Prestes, que para chegar lá seria preciso passar por
uma primeira etapa anti-imperialista”. 36
O segundo fator dessa mudança de posição foi que após 11 de julho, com a ANL na ilegalidade, passou a se concretizar uma mudança na correlação de forças internas na ANL, pois dela se afastaram vários elementos, e justamente a partir desse momento as principais lideranças que permaneceram eram ligadas ou ao PCB ou aos chamados tenentes de esquerda, “colocada na ilegalidade, a Aliança se desfazia e o PCB passava a dirigir o que restava dela. Quanto aos tenentes, que não a abandonaram, começaram a ligar-
se diretamente a Prestes em busca de sua orientação”.37 Em um documento interno, datado em julho de 1935, a Comissão Nacional de Agitação e Propaganda, fez um balanço do trabalho do partido nos vários estados, e, referindo-se à Bahia, comentou:
O trabalho de Agitação e Propaganda nas regiões […]
Bahia: Temos recebido pouco material. Recebemos um manifesto
mimeografado dizendo a posição do partido perante a Aliança Nacional
Libertadora. Há coisas absurdas. De duas uma: ou os companheiros não
leram as circulares do CC sobre a ANL, ou o tal manifesto mimeografado
não é do partido. Se é provocação da polícia ou dos integralistas, como
aconteceu há pouco em São Paulo, deve ser desmascarado.
No trabalho geral do Partido e da JC a Região da Bahia tem feito grandes
progressos, especialmente nos trabalhos dos campos e entre índios. 38
A relação entre PCB e ANL em vários momentos demonstrava-se conflituosa, em diferentes formas e graus nas regiões pelo Brasil. Essas relações também foram modificando-se à medida que o partido acreditava que estava obtendo a hegemonia dentro da Aliança e, ainda, que crescia a popularidade da ANL. Se no primeiro momento, o PCB afirmava que retiraria seu apoio a ANL caso ela deixasse de lutar contra o imperialismo e o fascismo e visasse apenas o poder como finalidade, no segundo momento, “A ANL torna-se um verdadeiro instrumento de tomada de poder e para isso
tem que mobilizar as grandes massas”.39 Esses desencontros nas posições do Partido no estado, na época, podem ser interpretados como demonstração de falta de unidade política, mas deve ser levado em consideração as dificuldades de comunicação agravadas pela distância e pela ilegalidade, tornando complicado o acompanhamento das posições partidárias em âmbito nacional.
Vermelhos nas terras do cacau: o pcb
na região cacaueira da bahia
A origem das atividades comunistas no eixo Ilhéus/Itabuna tem na figura de Nelson Schaun como seu principal articulador. Já nos idos de 1922, ele havia participado da fundação da União Protetora dos Artistas e Operários de Ilhéus, e na mesma época “fundou sociedades de carregadores, trapicheiros, carroceiros, doqueiros, etc., e a seus associados dava cursos gratuitos de alfabetização e
capacitação intelectual”. 40
Em 1927, Nelson Schaun participou ativamente da greve dos ferroviários da The State of Western Railway Company. Na verdade, essa greve foi dos ferroviários em todo o estado da Bahia, sendo a primeira que teve a participação ativa dos trabalhadores da ferrovia Ilhéus-Conquista, demonstrando capacidade de mobilização e de apoio da sociedade, quando em 29 de maio de 1927 “na cidade de Ilhéus, o encerramento da greve foi comemorado com comício e
passeata que envolveram mais de duas mil pessoas”.41 Também em 1927, no sul da Bahia, houve a tentativa de organização de um Partido Democrático Socialista, contudo não deu certo porque o articulador do projeto, Aníbal Lopes de Pinho foi preso. Mesmo se tratando de um líder do meio sindical que tinha relações com Agripino Nazareth, a polícia e a imprensa o identificaram como comunista, talvez pelas generalizações feitas pela polícia que tratava a todos os socialistas ou sindicalistas como comunistas.
Devido às suas atividades junto a organizações dos trabalhadores, em 1931, Nelson Schaun foi preso como comunista, quando organizou uma mobilização pública com cerca de mil trabalhadores de várias profissões. Nessa ocasião, escreveu um telegrama para Osvaldo Aranha, Ministro do governo Getúlio Vargas, se queixando do ocorrido. Conforme se pode observar no trecho que se segue:
[…] fui ontem violentamente preso Tenente José Anselmo sob pretexto dirigi
comunismo alegação absolutamente falsa. Sempre estive ao lado causas
justas. Sou vice-diretor ginásio local, escola normal, outros
estabelecimentos. Apenas procuro de acordo prefeito municipal sindicalizar
classes dentro ordem lei. Próprias criteriosas inteligente prescrição Ministério
do Trabalho […] criado governo atual. Tomo liberdade pedir garantias
vocência minha vida ameaçada afirmação textual próprio tenente Delegado
policia pode vocência pedir informações autoridades pessoas classificadas,
esta localidade minha conduta membro tradicional família Ilhéus. Atenciosas
Saudações. Nelson Schaun. 42
Na verdade, nessa época ele não tinha ligações orgânicas com o PCB, e havia, por parte de Nelson Schaun, a preocupação de agir dentro da lei e da ordem e reafirmou isso ao expressar no telegrama que as suas ações estavam de acordo com o prefeito e seguindo as orientações do Ministério do Trabalho. Destaca-se, ainda, por parte dos trabalhadores de Ilhéus, a ilusão de que o governo de Vargas representava ideais revolucionários. Isso porque, segundo o próprio telegrama acima, o prefeito Eusinio Lavigne, representante local da Aliança Liberal, era incentivador da organização dos trabalhadores.
Segundo os relatos de família, Nelson Schaun foi “iniciado nas
ideias comunistas pelo seu tio João Schaun”.43 Em 1932, em companhia de Edson Morais e Luiz Schaun Filho, seu irmão, fundou o primeiro grupo marxista de Ilhéus, ainda sem nenhuma ligação com o PCB, o que só se realizaria no ano seguinte, em 1933, quando, junto com André Bento, Edson Morais e José Martins da
Silva, participaram do Pleno estadual ocorrido em Salvador.44 Segundo os exageros próprios dos relatórios da polícia, já em 1919, “em Ilhéus, o antigo prático de farmácia, Nelson Schaun, já manifestava pendor socialista, reforçado ao tornar para ali, em 1925,
quando fundou sociedades operárias já de feição comunista”. 45 Nessa versão defendida pela polícia do Rio de Janeiro, ao morar em Salvador alguns anos antes, Nelson Schaun teria entrado em contato com ideias socialistas. O que consideramos razoável, pois foi um período de intensa agitação social na capital do estado do Rio de Janeiro.
No sul da Bahia, as atividades do partido tomaram uma nova dinâmica a partir de 1934, principalmente em dois eixos: a luta anti-integralista e a organização dos assalariados rurais e camponeses. Atendendo a uma demanda que há muito tempo vinha sendo postergada pelo Partido, e ‚sobretudo, a partir das análises de que o Brasil estava vivendo em “condições revolucionárias” e que precisava resolver a “questão camponesa”, depois da Conferência de 1934, se estabeleceram contatos em várias partes do país, destacando-se as regiões de alta concentração de trabalhadores agrícolas, como era o caso do sul da Bahia, para que se iniciasse a tão propalada organização dos camponeses.
Entre 1934 e 1935, alguns militantes foram “remanejados” de Salvador e de outras regiões para o sul do estado da Bahia, a fim de estimular esse novo momento, no qual, organizar as massas rurais deveria ser encarado como prioridade. Cruzando as informações e listagens de indivíduos presos e fichados como comunistas ou como suspeitos, em Salvador e no sul do estado da Bahia, podemos identificar pelo menos três indivíduos que se deslocaram para contribuir com a organização do partido no eixo Ilhéus/Itabuna. Foram eles: Adir Leite, que era comerciário e passou a atuar em Pirangy, distrito de Ilhéus; José Fortunato, que era de Alagoinhas e foi um dos únicos comunistas que participou da direção provisória da ANL em Ilhéus, talvez porque atuava junto a União Sindical de Ilhéus; e Samuel Genez, que, segundo a polícia era russo, foi para Ilhéus em meados de 1935, atuar junto à direção partidária, onde usava o pseudônimo Zulmiro.
Em 1934 foi criado o Sindicato dos Empregados Agrícolas de Ilhéus, e em 1935 foi criada a União Sindical de Ilhéus, uma central sindical que seguia a tendência do movimento sindical de orientação comunista/aliancista. Em 1º de maio de 1935, no Rio de Janeiro, foi criada a Confederação Sindical Unitária do Brasil, e seguindo a mesma linha criou-se a União Sindical da Bahia, e a União Sindical de Ilhéus.
Foi justamente entre 1934 e 1935 que o PCB adotou nova tática com relação ao movimento sindical. Se anteriormente criticava a participação nos sindicatos e entidades tidas como “Ministerialistas”, a partir desse momento passou a buscar alianças com outras correntes consideradas como “democráticas e antifascistas”, o que contribuiu para uma maior aproximação do partido com o meio sindical. “Dessa forma nos fins desse ano e começos de 1935, já
contava com um bom número de simpatizantes e/ou adesistas”.46
Aplicando essa nova orientação de atuação no movimento sindical, em Ilhéus, no dia 14 de abril de 1935, foi fundado o Sindicato de Alfaiates, Costureiras e Classes anexas. Contou com a presença do representante da Federação dos Trabalhadores Baianos, e definiu na composição da direção provisória: Carlos Bispo como Presidente; Marcellino Mendes como Secretário; Edson Moraes como tesoureiro; e na comissão de finanças e organização contou com a presença de Saturnino Correia, Gildalth Amorim e Esmeraldo Santos. Entre as tarefas da direção provisória definidas na assembleia de fundação, estava a de providenciar a organização
e o reconhecimento do mesmo junto ao Ministério do Trabalho.47 Entre os membros da direção, Carlos Bispo e Edson Moraes já eram ligado ao PCB de Ilhéus e Gildath Amorim era um simpatizante que
se ligou ao Partido em agosto do mesmo ano. 48
Apesar de já contar com militantes em Itabuna, apenas em meados de 1935 a organização do partido se solidificou, e foi possível fazer o planejamento para se criar células nos diversos distritos ligados ao município, sempre na perspectiva de priorizar penetração no meio dos assalariados rurais e camponeses.
COMPANHEIROS DO C. Z. DE ITABUNA
Pela comunicação que os cps. nos mandou pelo cp. Zulmiro, sabemos que
os trabalhos fundamentais do P. foram aí planteados [sic] concretamente,
disso resultando a formação desse C.Z., que esperamos possa confirmar
toda a importância revolucionaria que nele depositamos.
Não devem os cps. ignorar que estamos as portas da revolução Agrária e
anti-imperialista, que transformará o nosso país de semi-colonial, dominado
pelo imperialismo estrangeiro, em um pais socialista verdadeiro […]
QUESTÕES FUNDAMENTAIS
[…] Intensifiquem a formação de células […] principalmente as empresas
fundamentais (transporte e campo) […] Vocês devem penetrar Macuco,
Palestina, Itaúna, Ferradas, etc e formarem, por aí, fortes células, tanto nos
povoados como células de camponeses.
Pelo CL do LS
05/07/35.49
Com a organização do partido nas principais cidades e distritos da região, em 1935, foi constituído o Comitê Local do Litoral Sul do PCB da região da Bahia (CL do LS) com a finalidade de coordenar as ações em toda a região.
As atividades desenvolvidas pelo PCB, no sul da Bahia, se concentraram principalmente, na luta anti-integralista no meio sindical, entre os camponeses e indígenas, chegando a criar uma célula no Batalhão da Polícia Militar. Tais atividades demonstram que, entre os anos 1935 e 1936, era no sul do estado da Bahia que estavam concentradas as principais atividades partidárias no período, o que gerou forte perseguição policial após os acontecimentos de novembro de 1935 e levou a inúmeras prisões, detenções, inquéritos policiais e o indiciamento de trinta e seis
acusados de desenvolverem atividades comunistas. 50